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03/04/2011

às 9:00 \ Crônica

A palavra sonhada

– Você, que entende tanto desse negócio de palavras, bem que podia me arrumar uma.

– Não entendi. Você está procurando uma palavra e não acha?

– Há tempos. Minha vida inteira, para ser sincero.

– Mas que palavra é essa?

– Não me decepcione, rapaz. Se eu soubesse expor essa minha palavra em palavras, estaria aqui lhe pedindo ajuda?

– Suponho que não. Mas é que para tentar ajudá-lo eu preciso de uma pista.

– É uma palavra de três sílabas. Bela como nenhuma outra. Um substantivo abstrato. Sei disso porque sempre a encontro em sonhos, e quando abro os olhos, pfff, ela evapora.

– Hmm, acho que começo a entender. Já tentou os dicionários?

– Aí você está me subestimando! Tenho estantes cheias de dicionários de todas as línguas conhecidas. Perdi a conta das noites que passei em claro a folheá-los.

– Muito interessante. E já considerou a possibilidade de que essa palavra simplesmente não exista?

– Não exista…

– É, que seja uma miragem, uma ilusão onírica.

– Pronto, agora você me decepcionou mesmo. Então é fácil, não é? Basta decretar que aquilo que desconhecemos não existe e fim de papo, podemos dormir tranquilos. É isso que está me dizendo?

– Não, eu…

– Tudo bem, sou eu que lhe devo desculpas. Pensei que você entendesse desse negócio de palavras.

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4 Comentários

  1. José Benedito Tintori

    -

    05/04/2011 às 8:45

    Os linguistas estrangeiros devem viver esse dilema, por não encontrarem uma palavra em suas Línguas que corresponda a nossa “SAUDADE”

  2. José Inácio

    -

    03/04/2011 às 23:05

    Excelente. Nossa língua é mesmo imbricada e se não formos muito preciso no que queremos expressar, fica mais complicada ainda.

  3. Vôgaluz Miranda

    -

    03/04/2011 às 16:34

    No ofício de escrever, algumas vezes não encontramos a palavra apropriada ao que realmente sentimos e isso é um verdadeiro transtorno. Já sonhei com fatos que não pude exprimir em palavras e também meditei por dias a fio sobre palavras que nunca existiram. Parece loucura, mas é verdade. Obrigado pela crônica, que reflete um sentimento pouco explorado e que pensei que só acontecesse comigo. Abraços vogaluz.blospot.com


 

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