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23/09/2013

às 16:07 \ Consultório

Sito ou situado? À rua X ou na rua X?

“Sempre leio em contratos e outros documentos que um prédio fica ‘sito à rua X ou Y’. Sito??? Algo me diz que isso está errado. Será que o meu faro está bom?” (Margareth Muller)

A construção trazida por Margareth, fórmula estereotipada de largo emprego na linguagem legal, pode ser criticada de duas formas. Uma é estritamente gramatical, a outra é estilística.

A primeira crítica confirma que o faro de Margareth está bom, mas situa o problema em lugar um pouco diferente: não no adjetivo sito e sim na preposição a. Segundo a norma culta, deve-se empregar nesse caso a preposição em: o tal imóvel fica sito – ou seja, situado, localizado – na (e não à) rua X ou Y.

Em seu “Dicionário de dificuldades da língua portuguesa”, Domingos Paschoal Cegalla sugere que o erro tenha surgido por extrapolação do uso da preposição a que se emprega corretamente para indicar distância, posição relativa, como em “sito na rua X, a cem metros da praça Y”.

Falta falar da segunda crítica, a estilística. Esta confirma que o faro de Margareth está apuradíssimo. Ocorre que sito, vocábulo nascido como particípio irregular (já caído em desuso) do verbo “situar”, deu um jeito de sobreviver como adjetivo, mas tem existência limitada às fórmulas prontas da linguagem jurídica.

Fora dela, é uma palavra que soa pernóstica e deve ser evitada. Seu sinônimo “situado” é muito mais elegante.

*

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9 Comentários

  1. Ismail

    -

    24/09/2013 às 21:32

    Professor Sérgio,
    Convenci-me, ou por outra, fui convencido pela “redução da carga semântica”.
    Passo a adotar a forma acorde com a norma culta da língua: “na rua”.
    Percebi também que minha dificuldade provinha de já haver sedimentado em meu “ouvido interno” a construção sonora “à rua”. E tratei de começar a reeducação para a nova sonoridade. Sinto que ainda estou introjetando esse conteúdo sonoro.
    Mas daqui para a frente falarei corretamente e escreverei com acerto.
    Está sendo bom mudar de endereço: não moro mais à rua, mas na rua, hehe.
    Agradeço por mais esta lição.

  2. Isnail

    -

    24/09/2013 às 12:57

    Realmente, o adendo versando sobre as preposições “em” e “a” faz mais luz sobre o tema. Gostei da elucidação sobre a “redução da carga semântica”.
    Inegavelmente, o que sobressai nesse estudo é a riqueza da expressividade da Língua.
    Muito bom.

  3. sergiorodrigues

    -

    24/09/2013 às 12:23

    Alguns esclarecimentos:

    A preposição “em” é uma recomendação da norma culta. Obviamente, existe uma flutuação, com a preposição “a” tentando impor uma nova regência. Quem quiser pode adotá-la, mas deve saber que ao fazer isso contraria a tradição da língua.

    Rua é via pública, inclui as construções que nela se situam. Interpretá-la apenas como o meio da rua, a faixa onde transitam veículos, é restringir sua carga semântica a uma de suas acepções secundárias.

    A preposição “a”, longe de ser condenada em bloco, tem inúmeras aplicações. A correspondência com “a domicílio” citada por Alan é curiosa, mas cada caso é um caso.

    Abraços a todos.

  4. Aloísio Carvalhaes

    -

    24/09/2013 às 12:05

    A maneira mais fácil de saber o certo é trocar a rua por beco.
    Ninguem mora ao beco e sim no beco.
    E ainda devemos incluir Nº tal Apto tal etc.
    Portanto mora na rua tal nº tal.

  5. Casca Fina

    -

    24/09/2013 às 10:31

    Professor, não vou teimar com você, de quem me considero aprendiz.
    Mas gostaria de dizer que acho muito estranha a forma “casa situada na rua”. Concordo com o comentário do Celio Porto. De fato, sinto (aí está: é mais um sentir, que uma reflexão intelectual) que minha casa situa-se “à rua”, e não “na rua”, já que ela não está no meio do logradouro.
    Em analogia: sento-me na cadeira, à mesa.
    Entendo que isso pode parecer um rigor quase matemático, o que não é próprio da expressividade e criatividade da Língua.
    Ainda assim, por ter horror a morar na rua, prefiro continuar morando à rua.
    Como disse, isso não é teimosia e muito menos contestação.
    É uma preferência e uma licença que me concedo.

  6. alan kevedo

    -

    23/09/2013 às 23:54

    Essa preposição, assim como flexão de advérbio são comuns aqui em Goiânia, assim: “Damos aula a domicílio e estamos cheiinhos de alunos.” Quando são nossos conhecidos, indagamos ” Por que vocês não vão a cavalo?

  7. sergiorodrigues

    -

    23/09/2013 às 19:11

    Pois é, Mauricio. Na mosca.

  8. Mauricio Niwa

    -

    23/09/2013 às 18:21

    O pior de tudo, Sérgio, é que se criam explicações para a regência com a preposição “a”. Uma delas diz que “sito na rua” seria o mesmo que dizer que a casa, por exemplo, está no meio da rua…

  9. Celio Porto

    -

    23/09/2013 às 18:14

    Para reflexão. Na Rua? O normal é morararmos fora da rua ou então estaremos invadindo-a. Temos vizinhos nas laterais, nos fundos e, na frente, a rua como limítrofe.

 

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