Sérgio Rodrigues Sobre Palavras

Sobre Palavras

Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

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Mineiro radicado no Rio de Janeiro, é escritor e jornalista. Tem diversos livros publicados, entre eles “What língua is esta?”, sobre o português brasileiro contemporâneo, e “O drible”, romance vencedor do prêmio Portugal Telecom 2014. Assina também a coluna Todoprosa de VEJA.com.

Responder a pergunta ou responder à pergunta?

Por: Sérgio Rodrigues

Ver comentários (23)

“A dúvida ocorreu em meu trabalho, quando escrevia: ‘…você ganha o cupom e responde a pergunta… “. Escrevi assim, sem crase no ‘a’, pois achei que nessa situação o verbo responder fosse transitivo direto: responder o quê? Fui corrigido, e o ‘a’, craseado. Mas, insistente que sou, consultei duas professoras de português: uma confirmou a minha idéia inicial, a outra disse que a crase era sim necessária. Aí, fiquei sem saber mais nada.” (Luis Godinho)

Para simplificar um caso que não é tão simples, como veremos daqui a alguns parágrafos, diga-se logo que quem desejar seguir o padrão culto da língua deve, sim, tratar “responder” como um verbo transitivo indireto na frase citada por Godinho: responde-se à pergunta (ou a quem faz a pergunta).

Claro que também se intui o transitivo direto na mesma frase, como Godinho percebeu: responder o quê? Isso ou aquilo, que sim ou que não, mas sempre à pergunta. A confusão vem do fato de “responder” ser neste caso um verbo transitivo direto e indireto: “Estou respondendo ao leitor (transitivo indireto) que a crase é necessária (transitivo direto)”.

(Note-se que responder pode ser intransitivo também, como na seguinte frase: “Chamei, mas ninguém respondeu”. Mas isto não vem ao caso no momento.)

Até aqui estamos falando do uso clássico, com o qual qualquer falante estará a salvo da sanha corretora de chefes e professores. Porém…

Dito isso, é preciso deixar registrada a instabilidade sintática que torna frequente o emprego de “responder” como transitivo direto em construções parecidas com a de Godinho. Ao contrário do que pode parecer, tal instabilidade não é sequer um fenômeno restrito à língua informal. O conservador “Dicionário de Verbos e Regimes” de Francisco Fernandes declara sua predileção pela regência clássica, mas informa que o respeitável gramático Carlos Góis (1881-1934) considerava opcional escrever “responder a carta” ou “responder à carta”.

A posição de Góis era uma dissidência no mundo da gramática tradicional, mas parece indicar que o verbo está caminhando para um lugar já ocupado há tempos por “atender”, que pode ser transitivo direto ou indireto segundo o gosto do freguês: “atender ao chamado” ou “atender o chamado” são formas igualmente aceitas. Quando se diz que “a pergunta foi respondida”, uma frase de uso corrente, a voz passiva deixa clara a interpretação do verbo como transitivo direto.

Acho que isso explica o cisma entre as duas professoras de português consultadas por Godinho.

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Comentários

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  1. Beatriz Ozorio

    Olá, Sérgio! Sou tradutora e eventualmente também reviso textos. Ao revisar um texto, me surgiu a mesma dúvida: responder à pergunta ou responder a pergunta. E ao pesquisar no Google, achei seu site. Concordo com tudo o que você escreveu, menos com o gênero da palavra “cisma”, pois esta palavra é um substantivo feminino. Portanto, “a cisma” é a forma correta. Espero que você não fique chateado com minha corerção. Um abraço e até mais!

    Olá, Beatriz. Obrigado pela mensagem. Quanto ao gênero de cisma, você está enganada. Usei o substantivo masculino, que significa desacordo, e não o feminino, que quer dizer mania. Um abraço.

  2. Marcinho

    Apesar de eu saber que o Aurélio é uma referência, ele não aponta CISMA, em momento algum, como substantivo feminino. Vc poderia me indicar a fonte? Obrigado. Abraço.
    Aponta sim, seria um erro muito grande se não o fizesse. O problema é que, como o Aulete, o Aurélio registra o substantivo masculino e o feminino no mesmo verbete (este a partir da terceira acepção). Outros dicionários, como Houaiss, Michaelis e o da Academia de Lisboa, optam por uma entrada para cada um. Abraço.

  3. caio

    do comércio estabelecido entre europeus eorientasalém da questão economica teve grande relevãncia

  4. caio

    o norte n tabém é chamado de setrinal

  5. nathalie

    gostei e achei legal para pessoas que nem eu

  6. vitoria ribas

    achei muito legal vou tira minhas duvidas aqui

  7. vitoria ribas

    achei muito legal em diana mario titia noiiii e lele

  8. Carlos

    Excelente imbróglio! Mas afinal, com ou sem a crase?

  9. beatriz

    sempri veiu aque pra tira minhas duvidas

  10. Hugo Gomes

    Facultativo.

  11. alanis

    eu gostei por que tem o texto mas presiso do exemplo!!!!

  12. Luana Roberta Araújo Santos

    oi tenho 10 anos e achei ótimo o texto

  13. EFRAIN

    EU AMEEEEEEEEIIIIIIII ESSE TEXTO

  14. gunther retz

    Não tenho inveja nenhuma de quem precisa esclarecer um caso desses. Leva ou não leva? Se dois gramáticos acham coisas diferentes… o mundo que fala português está perdido. Palhaçada.

  15. victoria fonseca mantovani

    chato

  16. jessica

    verdade

  17. jessica

    nao e chato

  18. Daniel

    Belo texto! Acho que se a sentença na voz passiva “soar bem”, é um indicativo de que o verbo poderá reger sem a preposição, podendo então ‘transitar’ entre as transitividades.

  19. Amanda

    O texto acima é um pouco chato.

  20. kauane vitória anselmini

    esse site é muito legal amei acessam esse site vcs vão ver coisas bem legais.

  21. MAURICIO DOS SANTOS

    por que globalização planetária?
    por que falar uma língua terrestre?
    como eliminar as fronteiras do mundo?
    qual língua domina o planeta?
    …o mundo?
    …a terra?
    …o planeta terra?
    …a globalização?
    e qual devemos falar pra a caba a burocracia internacional?
    como fazer os terrestres se unirem pra construir uma nave exploradora?

  22. Carlos Eduardo

    Pelo que entendi: “Acho que isso responde a muitas perguntas” não leva crase.

  23. Bárbara

    Como podemos ser consumidores responsáveis e ecológicos?