Sérgio Rodrigues Sobre Palavras

Sobre Palavras

Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

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Mineiro radicado no Rio de Janeiro, é escritor e jornalista. Tem diversos livros publicados, entre eles “What língua is esta?”, sobre o português brasileiro contemporâneo, e “O drible”, romance vencedor do prêmio Portugal Telecom 2014. Assina também a coluna Todoprosa de VEJA.com.

Existe diferença entre influir e influenciar?

Por: Sérgio Rodrigues

Ver comentários (16)

“Olá, Sérgio, parabéns pela coluna! Adoro saber ‘Sobre Palavras’. Existe diferença entre influir e influenciar? Um abraço.” (Sara Schultz)

Sara pergunta se há diferença entre os sentidos de duas palavras sinônimas. Ora, se elas são sinônimas, não há diferença alguma, certo? Errado. Embora influir e influenciar sejam verbos vizinhos – não apenas na semântica, mas também na etimologia – sua carga de significados não é idêntica e seu perfil gramatical também não.

É um erro comum imaginar que a sinonímia pressuponha identidade absoluta. O que ela indica, na verdade, é uma semelhança de sentido entre dois vocábulos, que desse modo podem ser considerados intercambiáveis em determinado contexto. No entanto, na maioria dos casos, palavras que são sinônimas em algumas de suas acepções não o são em todas.

É o que ocorre com influir e influenciar. Influir estreou em português no século XV e é, digamos, o vocábulo mais básico: veio do latim clássico influere (de in + fluere, ou seja, “fluir para dentro, penetrar, concorrer para”). Já influenciar, do século XIX, formou-se em nosso próprio idioma a partir do substantivo influência, este vindo do latim medieval influentia – um derivado daquele mesmo influere que tinha o sentido mais restrito de “ação atribuída aos astros sobre o destino humano”.

Essas diferenças históricas explicam que influir seja um verbo de muitas acepções, enquanto influenciar tem alcance semântico menor. Na língua do dia a dia, os dois são sinônimos na maioria dos casos. Ambos querem dizer “exercer influência” – nas palavras do Houaiss, “uma ação psicológica, uma ascendência sobre alguém” ou “uma modificação física ou intelectual”.

É preciso, no entanto, tomar cuidado com uma diferença importante: na norma culta, influenciar é transitivo direto (“fulano influenciou o caráter do amigo”) e influir é transitivo indireto (“fulano influiu no caráter do amigo”).

Influir tem outras acepções que não são acompanhadas por influenciar, a maioria delas de uso raro ou exclusivamente literário hoje em dia: é possível influir (encher) uma banheira de água, influir (incutir, transmitir) ânimo em alguém com palavras inspiradoras, influir-se no (dedicar-se ao) trabalho e até influir-se (empolgar-se) com o desempenho de um time de futebol.

Se não exibe a mesma variedade semântica, influenciar guarda, porém, uma pequena área reservada em que não se permite trocar por influir: quando é pronominal. Um enunciado como “ela se influencia com facilidade” não pode ser substituído por “ela se influi com facilidade” – que é gramaticalmente correto, mas teria sentido inteiramente diferente (“ela se entusiasma com facilidade”).

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Comentários

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  1. Alexandre

    Caro amigo,
    Sua explicação destrói um paradigma que tenho muito arraigado. Lembro com nitidez das aulas de português do meu tempo de estudante em que aprendia a não confundir palavras de morfologia semelhante, como retificar e ratificar, eminente e iminente e influir e influenciar. Aprendi que inflluenciar significava “exercer influência”, ao passo que influir significava o mesmo que fluir, “passar um líquido por”, e tão somente isso.

    Ler que eles são sinônimos é, para mim, quase uma revelação, quase chocante. Me custa acreditar que minha professora nos ensinou de maneira errada e que acreditei minha vida inteira que quem dissesse que certo aspecto influia em outro estava cometendo uma heresia gramatical.

    Abraços.

  2. Marcos Jobim

    Não entendi a parte final do texto (“Uma construção como “ela se influencia com facilidade” não pode ser substituída por “ela se influi com facilidade” – que é gramaticalmente correta, mas teria o sentido inteiramente diferente de “ela se entusiasma com facilidade”). O sentido “ela se entusiasma com facilidade” se relaciona com “influencia” ou “influi”? Se eu fosse responder, diria que se trata de influi. “Ela se influencia com facilidade” me remete ao fato dela ser facilmente influenciável, de se deixar levar com facilidade. Pelo que entendi do texto, a construção “ela se influi com facilidade” é gramaticalmente correta e possui sentido oposto a se entusiasmar facilmente. É isso mesmo? Não seria gramaticalmente correta, com o mesmo sentido de se entusiasmar?

    Resposta
    1. sergiorodrigues

      Marcos, não sei se entendi direito sua dúvida. Ela se influencia = ela se deixa influenciar, ela é influenciável. Ela se influi = ela se empolga, ela se entusiasma.

      Alexandre: pois é, há casos desse tipo. Mas não seja duro demais com sua velha professora. O que ela fez foi se apegar excessivamente à primeira (e desusada) acepção de influir, tratando suas múltiplas expansões semânticas, algumas vindas já do latim, como espúrias. Esse pecado já foi comum no campo do ultraconservadorismo gramatical e até hoje pode ser encontrado por aí.

  3. Casca Fina

    Realmente. Pode-se até dizer que o bom linguista não conhece sinônimos; o mau linguista os conhece, logo não será um linguista na lídima expressão do termo.
    Palavras há cujo sentido em muito se avizinha. Expressam significados que se tangem, se roçam, mas não traduzem o mesmo exato e preciso sentido.
    É, por exemplo, o caso de META e OBJETIVO.
    Também: BOBO e TOLO; IMBECIL e IDIOTA; NÉSCIO e PARVO; APEDEUTA E IGNORANTE.
    Sinônimos, sim. Mas nunca com exatidão matemática.

    Resposta
    1. sergiorodrigues

      Valeu pela ênfase, Casca. É claro que, reconhecidos os limites da sinonímia, quem “não conhece sinônimos” é só uma pessoa de vocabulário pobre – ou então comete um equívoco tão grande quanto o de quem acredita na identidade perfeita entre palavras. Um abraço.

  4. sérgio bernardi

    vivendo e aprendendo…

  5. Casca Fina

    Obrigado, Professor.
    Continuo aprendendo. Seus comentários sempre esclarecem e muito ajudam.
    Abraço.

  6. Marcos Jobim

    Perfeito, Sérgio! Era o que eu imaginava. É que me pareceu, pelo texto, que havias dito exatamente o contrário. Pelo que entendi do texto, o excerto “que é gramaticalmente correto, mas teria o sentido inteiramente diferente de ‘ela se entusiasma com facilidade'” se relaciona com o enunciado “ela se influi com facilidade”. E por isso a minha dúvida, pois não me parecia que “influi” tivesse significado oposto a entusiasmo. Obrigado pela atenção e parabéns pelo belíssimo trabalho!

    Resposta
    1. sergiorodrigues

      Agora entendi sua dúvida, Marcos. A frase que escrevi dava mesmo mole para uma certa ambiguidade. Consertei lá. Um abraço e obrigado.

  7. alan kevedo

    Olha, Sérgio, desde pequeno sou apaixonado pela língua portuguesa. Pra mim é o mais belo idioma do Planeta, só superado, em beleza, pelo latim que continua “vivinho” aí na internet e aqui, no meu coração. Na escola, eu ficava “tiririca de raiva” quando nosso professor me mandava dar aula, no lugar dele, e ficava lá, no “fundão” da classe, numa boa. Foi, então, que bateu-me uma boa ideia. Um dia, quando ele me intimou, fui e fui logo dizendo: Professor, quero-lhe pedir um favorzinho, não nos diga mais que o Jânio Quadros falou “Fi-lo porque qui-lo.” Não use mais a expressão “A grosso modo.” Não escreva mais seríssimo e não venha mais nos dizer que “ambos os dois” está gramaticalmente incorreto. Nunca mais, aquele nosso lupa convocou-me.

  8. Sara Schultz

    Obrigada Sérgio. Agora sim ficou mais claro. Parabéns novamente! Um Abraco, Sara Schultz

  9. J.Paulo

    Havia um escritor (acho que brasileiro), que afirmava que “não existem sinônimos”.

  10. […] de Israel é sobre aqueles matizes que diferenciam sinônimos. Como vimos recentemente no caso de influir e influenciar – e ao contrário do que supõe o senso comum – a sinonímia não significa que dois termos […]

  11. Daniele

    Parabéns pelo site, voçê conseguiu fazer com que eu entendesse perfeitamente. obrigada!

  12. Gabriel Andrade

    Excelente explicação professor! Esclareceu bastante. Parabéns!!

  13. Plácido Farias

    Caro Sérgio, bom dia!

    Com relação à expressão “de nada”, que é muito usual, o correto não seria apenas “por nada”? Observando que quem agradece, agradece POR algo?

    Que frases poderíamos usar como exemplo com a construção “DE nada”.

    Desde já, muitíssimo obrigado.

    Com apreço

    Plácido Farias