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05/08/2010

às 8:19 \ Consultório

Através ou por meio?

“É muito comum, sobretudo nos noticiários da TV, a utilização do advérbio ‘através’ em substituição a ‘por meio’ ou ‘por intermédio’. É correto?” (Ricardo Souza da Silva)

A questão é mais complexa do que parece. Quando alguém diz, por exemplo, que conheceu fulano “através de um amigo”, está cometendo um erro? Se formos literais – ou apegados demais à norma clássica, o que neste caso dá no mesmo – sim. Fazer qualquer coisa “através dos outros” parece sugerir no mínimo uma radiografia, quando não uma carnificina. Porém…

Reconheço ser uma boa dica de estilo para escribas amadores ou profissionais explicar que o uso de “através de” com o sentido de “por meio de” é menos clássico, menos elegante, mas daí a chamá-lo de erro vai uma boa distância. A distância que existe entre o furor normativo e uma compreensão maior sobre como a língua funciona.

Acontece que, por mais que consultores gramaticais e manuais de redação insistam nesse ponto, todo mundo – inclusive falantes cultos – continua “errando”. Por quê? A questão parece difícil de equacionar, mas só até o momento em que abandonamos a ideia de erro. Ora, existe na linguagem uma força poderosa chamada sentido figurado. Condenar tal ampliação semântica de “através” é tão sensato quanto banir uma expressão como “banho de loja” com base no argumento de que não se sai molhado do shopping.

É significativo que até os dicionários, conservadores por definição, já registrem a acepção condenada pelos vigilantes da língua sem lhe fazer reparo algum. Condenável mesmo – e, aí sim, um erro indiscutível, por atentar contra a norma culta e contra o uso corrente – é fazer o oposto, como numa notícia da “Folha de S.Paulo” de alguns anos atrás em que o pobre repórter, certamente desnorteado pela patrulha contra o “através”, escreveu que “o assaltante entrou na residência do casal por meio de uma janela na área de serviço”.

Por meio de uma janela! Dá vontade de dizer aos patrulheiros: bem feito.

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21 Comentários

  1. jfer

    -

    29/09/2013 às 12:17

    POR uma janela seria bem melhor do que ATRAVÉS de uma janela.

  2. Talita Machado

    -

    15/03/2013 às 14:31

    Excelente tópico e texto. Sou tradutora e revisora, sempre troquei os “através” que encontrei por “por meio de” ou “por…”, mas muitas vezes acabava aparecendo mais de um “através” na mesma frase e eu tinha que trocar por “por meio de” e devo confessar que o “através” acabava deixando a frase mais fluida. Hoje estava repensando nisso e acabei parando aqui no seu texto, ótimo saber que renomados dicionários e gramáticos já consideram essa expressão como sentido figurado, vou dar preferência para o “por meio de”, mas sem discriminar tanto assim o uso do “através” a partir de agora.. :)

  3. pedro albuquerque

    -

    23/12/2012 às 17:04

    “notícia da “Folha de S.Paulo” de alguns anos atrás …..”
    fico louco com “anos atrás”, será que alguém pode contar algo que “aconteceu” anos a frente?
    Sim, ficcionistas fazem isso o tempo todo. Sem falar no passado em que a referência não é o presente, mas o próprio passado, como ‘cinco anos depois’, ‘cinco anos antes’. Sua implicância não faz muito sentido. Talvez seja melhor reservá-la para a redundância de “há cinco anos atrás”. Um abraço.

  4. Alberto

    -

    14/12/2012 às 9:51

    O gramático Sacconi tem um posicionamento interessante acerca do assunto. Admite o uso do através, em sinônimo por meio e por intermédio. Finaliza sua explicação que quem não admite isso esta “querendo ser mais realista que o rei”!

  5. Joelson Santos

    -

    11/04/2011 às 13:49

    No meu dia a dia reviso muitas redações corporativas e realmente este é um tema que gera dúvida. Gostei do artigo e vai me ajudar a explicar a diferença daqui em diante. Minha percepção é que a maioria das pessoas utilizam “através” indiscriminadamente e às vezes a redação fica mesmo menos elegante.

    [OFF TOPIC] Tenho medo de quem disse que este texto pode não ser compreensível “Num ambiente web, sendo o público alvo de diferentes classes sócio-culturais……”. A redação obedece a norma culta, mas quer dizer que quem é de diferentes classes sócio-culturais (seja lá quais são as classes que a pessoa considera)é leigo a ponto de não entendê-la parece-me um generalismo que beira a discriminação. Linguagem técnica?

  6. João Gilberto De Vito

    -

    09/04/2011 às 10:28

    E o mundo continua rodando…ou, girando?

  7. Roberto

    -

    31/03/2011 às 23:00

    Definições muito bem colocadas, mas no lugar errado. Num ambiente web, sendo o público alvo de diferentes classes sócio-culturais, a linguagem é muito técnica e de difícil compreensão do leigo.
    Curioso isso, o autor do texto que é especialista em redação falha na comunicação, justamente na linguagem adotada X destino da informação.
    De qualquer modo, muito bom o conteúdo. Para quem entender.
    Abs

  8. Davi Miranda

    -

    31/03/2011 às 21:37

    @Braga da Rocha

    “Isso me parece indiscutível.”

    Indiscutível??? No dia em que questões como esta se tornarem “indiscutíveis”, você não só não verá mais seções como esta em revistas, jornais e sites como também perderá oportunidades de apresentar sua opinião sobre esta e outras N! divergências.

    A propósito, segue uma das definições do dicionário Houaiss para a locução “Através de”:

    5 Derivação: sentido figurado.
    por meio de; mediante
    Ex.: educar através de exemplos
    Ex.: conseguiu o emprego através de artifícios

    A língua é DINÂMICA, meu caro. Não estaciona e nem para no tempo como os gramáticos que você provavelmente tanto aprecia e que insistem na manutenção de usos que prevaleciam e TINHAM destaque no século XIX.

  9. TH

    -

    31/03/2011 às 17:29

    Pode citar algumas palavras ou termos equivalentes? Que é deselegante usar “através” e por meio de”, todos sabem. Como substituí-los, então?

  10. WALESCA DE ARAUJO CASSUNDE

    -

    31/03/2011 às 15:46

    Como vai? Achei muito interessantes as questões propostas. Sempre tive dúvidas quanto ao uso de “inobstante” ao invés de ” nada obstante” ou “não obstante”, vez que nunca consegui encontrar a palavra “inobstante” nos dicionários. Não obstante, ela está sempre presente em petições de advogados e até em acórdãos de tribunais. Afinal de contas, “inobstante” existe?
    Walesca de Araujo Cassundé

  11. Diogo

    -

    27/09/2010 às 2:09

    Concordo com o Paulo. Acho que a questão central aqui é essa mesmo. O “meio” do “por meio de” é, pelo menos na origem, tão físico e espacial quanto o atravessamento do “através”.

  12. GaloGalo

    -

    08/08/2010 às 9:58

    O texto procura minimizar o erro dos “falantes cultos”. O que é um “falante culto”? É aquele sujeito que faz “pose”, mas faltava às aulas de Gramática? Ou é o político, o jornalista, o escritor, o advogado que sabem muito pouco da língua, porém podem “errar” pelo prestígio de suas profissões?

  13. renatomachado

    -

    06/08/2010 às 17:50

    Então, é difícil passar a vida inteira (estou na casa dos 30 anos!) aprendendo o certo e o errado, crescendo recebendo redações com rabiscos em vermelho e depois ver que o mundo é muito maior que isso. Imagina lendo Guimarães Rosa ou C. Drummond e ouvindo: ah, mas isso é a licença poética! Quer dizer, um dia me disseram que adoçante dietético é uma expressão burra, porque se é adoçante, é de dieta! Mas açúcar também não é adoçante? E tudo que se come não é dieta? Ainda bem que não tenho que explicar isso pros outros! Gosto sempre dos textos. Parabéns.

  14. sergiorodrigues

    -

    06/08/2010 às 16:52

    Bem observado, Rubens. Individualmente, não. Carnificina é chacina, matança. Mas é só levar em conta quantas pessoas “atravessam” as outras por aí. Um abraço.

  15. leo

    -

    06/08/2010 às 10:28

    pior é quando dizem:”Acredito eu que…” pô se acredito, logo sou eu…esse erro tem contaminado muitas pessoas.

  16. Rubens Moretti

    -

    06/08/2010 às 9:30

    Matar alguém é uma carnificina?

  17. Braga da Rocha

    -

    05/08/2010 às 19:00

    Se não pode ser chamado de erro e muito menos chega a ser ‘chulo’, o uso de ‘através’ em lugar de ‘por meio de’ é impróprio e inadequado. Isso me parece indiscutível, ainda que me chamem de ‘patrulheiro’ ou coisa que o valha. Contemporizar com aquela péssima prática, como faz o artigo, é que me parece um erro inescusável.

  18. Rafael

    -

    05/08/2010 às 17:06

    Através de alguém só raio X, lança ou espada. É um modo pobre e feio de falar e escrever. Nota zero para quem o utiliza!

  19. Cláudio Moreira Dos Santos

    -

    05/08/2010 às 17:02

    Incrível é também a dificuldade de se distinguir onde de aonde! Quem ouve com mínima atenção que que se fala por aí, percebe a limitação alheia. Vá se tentar explicar que aonde está relacionado necessariamente com a ideia de movimento… Olhares de estranhamento será aquilo que terá por resultado!

  20. Paulo

    -

    05/08/2010 às 16:34

    E “por meio de” no sentido literal não é “pelo meio de”, ou sejá “Através”???? Passei pelo meio do túnel… A espada o atravessou pelo meio da barriga… Etc…

 

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