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18/11/2010

às 11:37 \ Consultório

As interjeições e o reino da liberdade

“Prezado Sérgio, gostaria de saber qual a grafia correta para a interjeição de surpresa, alegria: Arrá! A-há? Ahá? Obrigada.” (Maria Diva Boechat)

A interessante consulta de Maria Diva não tem uma resposta definitiva, mas por isso mesmo nos dá acesso a um território divertido e meio selvagem em que a língua se mostra resistente à domesticação da sintaxe, do discurso articulado: o reino das interjeições e seu vizinho, o das onomatopeias.

Aqui, a liberdade do falante para perseguir suas necessidades expressivas costuma ser uma regra valiosa, mesmo porque é comum que a falta de exemplos regulatórios o obrigue a improvisar. O “arrá” da leitora – que todo mundo conhece e que tem sobretudo o sentido, acrescento eu, de pontuar um flagrante, como em “arrá, eu sabia que ia encontrá-lo aqui!” – não aparece nos dicionários. E agora?

Simples: basta usar o bom senso. Como se vê, eu já fiz minha opção por “arrá”, mas com base em que condenaria, por exemplo, a grafia “harrá”? “Ahá” e “a-há” me parecem mais questionáveis, por suporem para o agá uma sonoridade que é do inglês e não do português, mas também são formas encontradas por aí.

Sim, há interjeições de diversos tipos, inclusive as que são derivadas de vocábulos, como “viva”. Entre as mais indomáveis – como a que Maria Diva nos trouxe e que o Houaiss considera semelhantes a “elementos não lingüísticos ou supralingüísticos como os gestos, a entonação etc.” – também existem muitas que já tiveram sua grafia sedimentada pelo uso: ah, hein, ai, psiu etc. Mas vale lembrar que isso não se deu sem conflito e que não há leis morfológicas sacrossantas por trás das formas que prevaleceram. Por muito tempo, o “hem” e o “hein” se enfrentaram nas páginas de livros e jornais, antes que o último pudesse ser declarado vencedor. Luta parecida se dá ainda hoje entre o “hã” e o “ahn”, o “hmm” e o “hum”.

Ah, mas toda essa conversa parece um tanto, digamos, infantil? Justamente. Quando lidamos com a expressividade bruta de interjeições e onomatopeias, temos mais do que nunca a possibilidade de brincar com a língua. E isso é muito bom.

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3 Comentários

  1. Hugo

    -

    16/12/2013 às 20:24

    “Arrá” é uma grafia muito ruim, porque só vale para o Brasil e não para Portugal. A confusão do som de H com o som de RR é dialetal. Você disse que escrever ahá “supõe para o agá uma sonoridade que é do inglês e não do português”, mas escrever “arrá” supõe para o RR uma sonoridade que é do português brasileiro e não do português geral. Essa sonoridade que o H tem inglês na verdade é a sonoridade que o H tinha em latim, faz todo o sentido ressuscitar essa letra se o som também foi ressuscitado.

    Quanto a “hein”, é grafia absurda, porque no nosso sistema ortográfico deveria indicar um ditongo (como em “saindo”). Além disso, em Portugal, quando uma palavra termina em N, o N é pronunciado mesmo, não serve só para nasalizar a vogal anterior. A única grafia correta deveria ser “hem”.
    Hugo, o “rr” que usei é mesmo do português brasileiro. Como brasileiros são a consagradíssima grafia “hein” (sim, ditongo, algo que não existe em “saindo”, desculpe) e o público-alvo desta coluna. Sendo todos esses traços característicos de uma comunidade maciçamente dominante no universo lusófono, é equivocado – e soa a menosprezo – chamar tais variações de “dialetais”.

  2. @MauroVS

    -

    18/11/2010 às 16:44

    Ah, ha!
    Que coisa, hein?

  3. Giovani

    -

    18/11/2010 às 16:40

    Arrá…Sabia que era isso! :D

 

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