Sérgio Rodrigues Sobre Palavras

Sobre Palavras

Este blog tira dúvidas dos leitores sobre o português falado no Brasil. Atualizado de segunda a sexta, foge do ranço professoral e persegue o equilíbrio entre o tradicional e o novo.

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Mineiro radicado no Rio de Janeiro, é escritor e jornalista. Tem diversos livros publicados, entre eles “What língua is esta?”, sobre o português brasileiro contemporâneo, e “O drible”, romance vencedor do prêmio Portugal Telecom 2014. Assina também a coluna Todoprosa de VEJA.com.

Abrupto ou ab-rupto? Uma polêmica bem brasileira

Por: Sérgio Rodrigues

Ver comentários (15)

“Assistindo à transmissão de treinamento da F1, o comentarista pronunciou a palavra ‘abrupto’. Ocorre que já estudei uma doutrina que defendia a pronúncia dessa palavra como ‘ab-rupto’ e não ‘abru…’ como normalmente escutamos. Alguma saída?” (Gualter Sena de Medeiros)

Embora exista mesmo um vespeiro em torno desse adjetivo, a saída pela qual pergunta Gualter, em minha opinião, é bem simples: devemos ficar com a grafia “abrupto” e com a pronúncia que obrigatoriamente a acompanha, segundo as regras do português, com o br soando como em “abrir” e “abrigo”.

Em Portugal é assim, não existe discussão. É só no Brasil que se estabeleceu a polêmica, mas ela tem muito de artificial: simplesmente não existiria mais se alguns lexicógrafos e gramáticos não fossem tão apegados a um uso antigo, um tanto pedante e praticamente caído no esquecimento – o da pronúncia ab-rupto, que os portugueses chamam de brasileirismo. Mas quantos brasileiros você conhece que falam assim?

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras reconhece como corretas as duas grafias (e supõe-se que as duas pronúncias): ab-rupto e abrupto. O dicionário Houaiss faz o mesmo, mas dá ab-rupto como forma preferencial (!), explicando que “manteve-se a grafia assim consagrada”, embora ela fira o acordo ortográfico, como forma de representar graficamente a pronúncia clássica ab-rupto.

É difícil entender essa opção ultraconservadora do melhor dicionário da língua portuguesa. Até um estudioso como Napoleão Mendes de Almeida, que não podia ser chamado de progressista, considerava absurda a grafia “ab-rupto” por se tratar de uma palavra que – diferente por exemplo de “sub-reitor” – não surgiu em português, mas veio formada do latim abruptus.

A maioria dos dicionários atuais não registra a forma ab-rupto – embora alguns continuem recomendando a pronúncia ab-rupto mesmo assim, numa incongruência entre letra e som. Pelo menos o Houaiss acrescenta em seu verbete a ressalva de que “a ABL aceita também a grafia sem hífen por sua pronúncia se ter popularizado na língua com o r do encontro br soando como uma vibrante alveolar”.

Ou seja, soando como em “abrir” e “abrigo”, exatamente como a (quase?) totalidade dos brasileiros fala e escreve na vida real. A língua já fez sua escolha no caso de abrupto. Só falta os lexicógrafos se emendarem, deixando de tratar como variante tolerada o que é hegemônico e consagrado dos dois lados do Atlântico.

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Comentários

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  1. Beto

    Existe a mesma discussão com “sublinhar” (sub-linhar).

  2. Celso Coutinho

    Escrevo “abrupto” e pronuncio “ab-rupto”. Mas faço isso não para demonstrar falsa erudição, nem por arrogância de tolo. Mas, sim, porque pronuncio as palavras conforme sua separação silábica, que, neste caso, é “ab-rup-to”, conforme aprendi na escola. Consagrando-se a pronúncia “abrupto” (como em abrigo), como fica a separação silábica desse adjetivo?

  3. andre felix

    Será que o mesmo vale para rubrica,pois a norma culta aceita uma pronuncia como certa, enquanto a fala popular dita outra forma de pronunciar!? Enfim,qual das duas está correta, a norma culta ou a língua falada e viva que se modifica e se transforma na boca de seus usuários!?

  4. Pablo Sanchez

    A língua portuguesa tem ficado tão confusa e cheia de regras de grafia que a cada dia nós brasileiros fiquemos desgostosos dela.
    Infelizmente somos uma pais sub-desenvolvido que não tem a mínima capacidade de se recriar e ainda depende dos portugueses até para falar. Por isso sou a favor do aumento das horas de aprendizado de um segundo idioma nas escolas, assim haverá melhor comunicação nestes confins do mundo.

  5. Daniel MM

    Para mim, só há uma explicação para esta discussão. Ociosidade.

  6. Cláudio

    Um assunto de tal magnitude merece uma profunda reflexão.

  7. Clayton Moreira

    Convenhamos que “ab-rupto” é feio de lascar!

  8. CLAUDIO COSTA

    Endosso em gênero, número e grau o posicionamento de Celso Coutinho.

  9. MARCELO

    Todo prefixo “ab” deverá vir separado por hífen, consoante novo acordo ortográfico.

    Resposta
    1. sergiorodrigues

      Errado, Marcelo. De onde você tirou isso?

  10. Paschoal

    O meu professor de português do ginasial (anos 1950), o saudoso Miguel Queija Gomes, defendia a forma ab-rupto na pronúncia.

  11. Nina

    Explicação perfeita, Celso Coutinho! Também aprendi desta forma e, convenhamos, pronunciar “abrupto” dói nos ouvidos.

  12. […] Pronúncia de palavras é um tema cheio de armadilhas. Para não entrar no campo das inevitáveis variações regionais, há casos em que aquilo que hoje é visto como desvio acabará por se impor como a nova norma – ou pelo menos como alternativa aceitável. Sobre isso vale a pena ler os casos, já abordados na coluna, de “subsídio” e “abrupto”. […]

  13. James

    Fico com abrupto na escrita e pronúncia. E não se fala mais nisso.

  14. Nivaldo

    Se formos levar em conta a língua falada, teremos algumas grandes ameaças a nossa língua. O paulista, por exemplo, não nasaliza algumas vogais que venham acompanhadas de ‘m’ ou ‘n’, como no caso de ‘amor’ e ‘banana’. Já o carioca acrescenta um ‘x’ nos plurais. Temos que seguir as regras do acordo ortográfico que deve ser fiel à forma léxica.