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06/12/2012

às 12:15 \ Consultório

Abrupto ou ab-rupto? Uma polêmica bem brasileira

“Assistindo à transmissão de treinamento da F1, o comentarista pronunciou a palavra ‘abrupto’. Ocorre que já estudei uma doutrina que defendia a pronúncia dessa palavra como ‘ab-rupto’ e não ‘abru…’ como normalmente escutamos. Alguma saída?” (Gualter Sena de Medeiros)

Embora exista mesmo um vespeiro em torno desse adjetivo, a saída pela qual pergunta Gualter, em minha opinião, é bem simples: devemos ficar com a grafia “abrupto” e com a pronúncia que obrigatoriamente a acompanha, segundo as regras do português, com o br soando como em “abrir” e “abrigo”.

Em Portugal é assim, não existe discussão. É só no Brasil que se estabeleceu a polêmica, mas ela tem muito de artificial: simplesmente não existiria mais se alguns lexicógrafos e gramáticos não fossem tão apegados a um uso antigo, um tanto pedante e praticamente caído no esquecimento – o da pronúncia ab-rupto, que os portugueses chamam de brasileirismo. Mas quantos brasileiros você conhece que falam assim?

O Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia Brasileira de Letras reconhece como corretas as duas grafias (e supõe-se que as duas pronúncias): ab-rupto e abrupto. O dicionário Houaiss faz o mesmo, mas dá ab-rupto como forma preferencial (!), explicando que “manteve-se a grafia assim consagrada”, embora ela fira o acordo ortográfico, como forma de representar graficamente a pronúncia clássica ab-rupto.

É difícil entender essa opção ultraconservadora do melhor dicionário da língua portuguesa. Até um estudioso como Napoleão Mendes de Almeida, que não podia ser chamado de progressista, considerava absurda a grafia “ab-rupto” por se tratar de uma palavra que – diferente por exemplo de “sub-reitor” – não surgiu em português, mas veio formada do latim abruptus.

A maioria dos dicionários atuais não registra a forma ab-rupto – embora alguns continuem recomendando a pronúncia ab-rupto mesmo assim, numa incongruência entre letra e som. Pelo menos o Houaiss acrescenta em seu verbete a ressalva de que “a ABL aceita também a grafia sem hífen por sua pronúncia se ter popularizado na língua com o r do encontro br soando como uma vibrante alveolar”.

Ou seja, soando como em “abrir” e “abrigo”, exatamente como a (quase?) totalidade dos brasileiros fala e escreve na vida real. A língua já fez sua escolha no caso de abrupto. Só falta os lexicógrafos se emendarem, deixando de tratar como variante tolerada o que é hegemônico e consagrado dos dois lados do Atlântico.

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15 Comentários

  1. Nivaldo

    -

    22/04/2015 às 14:56

    Se formos levar em conta a língua falada, teremos algumas grandes ameaças a nossa língua. O paulista, por exemplo, não nasaliza algumas vogais que venham acompanhadas de ‘m’ ou ‘n’, como no caso de ‘amor’ e ‘banana’. Já o carioca acrescenta um ‘x’ nos plurais. Temos que seguir as regras do acordo ortográfico que deve ser fiel à forma léxica.

  2. James

    -

    09/04/2015 às 20:39

    Fico com abrupto na escrita e pronúncia. E não se fala mais nisso.

  3. Nina

    -

    02/01/2015 às 23:27

    Explicação perfeita, Celso Coutinho! Também aprendi desta forma e, convenhamos, pronunciar “abrupto” dói nos ouvidos.

  4. Paschoal

    -

    24/08/2014 às 11:12

    O meu professor de português do ginasial (anos 1950), o saudoso Miguel Queija Gomes, defendia a forma ab-rupto na pronúncia.

  5. sergiorodrigues

    -

    05/11/2013 às 23:49

    Errado, Marcelo. De onde você tirou isso?

  6. MARCELO

    -

    05/11/2013 às 20:55

    Todo prefixo “ab” deverá vir separado por hífen, consoante novo acordo ortográfico.

  7. CLAUDIO COSTA

    -

    24/02/2013 às 15:50

    Endosso em gênero, número e grau o posicionamento de Celso Coutinho.

  8. Clayton Moreira

    -

    07/12/2012 às 23:11

    Convenhamos que “ab-rupto” é feio de lascar!

  9. Cláudio

    -

    07/12/2012 às 17:51

    Um assunto de tal magnitude merece uma profunda reflexão.

  10. Daniel MM

    -

    07/12/2012 às 10:44

    Para mim, só há uma explicação para esta discussão. Ociosidade.

  11. Pablo Sanchez

    -

    06/12/2012 às 16:41

    A língua portuguesa tem ficado tão confusa e cheia de regras de grafia que a cada dia nós brasileiros fiquemos desgostosos dela.
    Infelizmente somos uma pais sub-desenvolvido que não tem a mínima capacidade de se recriar e ainda depende dos portugueses até para falar. Por isso sou a favor do aumento das horas de aprendizado de um segundo idioma nas escolas, assim haverá melhor comunicação nestes confins do mundo.

  12. andre felix

    -

    06/12/2012 às 14:10

    Será que o mesmo vale para rubrica,pois a norma culta aceita uma pronuncia como certa, enquanto a fala popular dita outra forma de pronunciar!? Enfim,qual das duas está correta, a norma culta ou a língua falada e viva que se modifica e se transforma na boca de seus usuários!?

  13. Celso Coutinho

    -

    06/12/2012 às 14:02

    Escrevo “abrupto” e pronuncio “ab-rupto”. Mas faço isso não para demonstrar falsa erudição, nem por arrogância de tolo. Mas, sim, porque pronuncio as palavras conforme sua separação silábica, que, neste caso, é “ab-rup-to”, conforme aprendi na escola. Consagrando-se a pronúncia “abrupto” (como em abrigo), como fica a separação silábica desse adjetivo?

  14. Beto

    -

    06/12/2012 às 13:12

    Existe a mesma discussão com “sublinhar” (sub-linhar).

 

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