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09/06/2011

às 14:36 \ Consultório

‘Posto que é chama’: Vinicius bebeu antes de escrever isso?


Aprendi em meus estudos de português ao longo da vida (com gramáticas, professores etc.) que a conjunção ‘posto que’ tinha sentido concessivo. No entanto, praticamente todas as pessoas do meio jurídico (em que trabalho), até mesmo juízes, a utilizam com sentido explicativo. Para piorar, sempre recordo dos versos de Vinicius de Moraes: ‘Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto dure’. Teria o poetinha errado ao utilizar o ‘posto que’ como conjunção explicativa ou eu é que não compreendi o soneto? Afinal, embora o ‘mas’ indique oposição entre a primeira frase e a segunda (parecendo confirmar a utilização do ‘posto que’ como concessão), uma chama não é imortal – pelo menos até onde sei. Desde já, obrigada! (Thalita Arouche)

Em primeiro lugar, é muito provável que o poeta Vinicius de Moraes (1913-1980) tivesse, sim, tomado algumas doses de “cachorro engarrafado” – isto é, de uísque, que ele chamava de “o melhor amigo do homem” – quando escreveu sua obra-prima Soneto de fidelidade, onde Thalita foi buscar os versos acima. Não se deve ver nisso, porém, nada além de um cálculo estatístico que leva em conta a baixa frequência de momentos de sobriedade em sua vida. No estilo ao mesmo tempo rigoroso e fluido do soneto, um dos mais perfeitos de nossa literatura, não se percebe o menor traço de embriaguez.

No entanto, Vinicius contrariou frontalmente a gramática tradicional com seu uso de “posto que” como conjunção explicativa (ou causal, dependendo do autor), bem observado por Thalita. O sentido dos versos é claro: o amor não é imortal, visto que é chama, isto é, por ser chama, mas o poeta deseja que, enquanto durar, tenha brilho infinito. Só que Vinicius optou por não usar o “visto que”, que, além de caber na métrica, agradaria aos conservadores da língua. Foi mesmo de “posto que”, uma locução conjuntiva controversa.

Os gramáticos tradicionais atribuem a “posto que” valor exclusivamente concessivo, o mesmo de “embora”, como na seguinte frase: “Gosto dele, posto que seja meio antipático”. Para eles, qualquer uso diferente é erro e pronto. O português brasileiro, porém, ignora há muitas décadas essa análise e insiste em empregar “posto que” com papel explicativo. Isso não se dá por ignorância, ou não apenas por ignorância: encontra acolhida entre falantes cultos e parece se basear numa análise alternativa da expressão. Regras mudam.

Nenhuma novidade nisso. Um exemplo de como o reino das conjunções sempre foi movediço é o uso que o padre Antônio Vieira e outros autores antigos faziam da conjunção “segundo” – hoje empregada apenas em papel conformativo, como sinônimo de “conforme” – com sentido causal: “Mais nascimentos havíamos mister, segundo são muitas as mortes”.

Deliberadamente ou não, Vinicius de Moraes, um dos mestres indiscutíveis do português brasileiro, tomou o partido da língua viva – o que no caso dele faz o maior sentido – e deu ao pessoal da linha dura gramatical uma dor de cabeça infinita (enquanto durar): se abonações literárias sempre foram as cartas mais valiosas de seu jogo, numa mesa de pôquer o Soneto de fidelidade seria um royal straight flush.

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70 Comentários

  1. hélio f

    -

    27/09/2013 às 12:27

    Aos defensores da gramática: estão tentando achar a “alma” dissecando um corpo; aos defensores da linguística: estão tentando dar corpo a um “desencarnado”. Tudo isso é besteira. A expressão poética é uma arte, que se utiliza de materiais variados (artes plásticas, dança, cinema, música etc), e um desses materiais é a língua (falada ou escrita). A matéria do poeta é a língua (não importam as regras ou os erros): Patativa do Assaré, Manoel de Barros ou Vinícius, tanto faz.
    A moça Thalita provavelmente é uma poeta frustrada; aí, para se sentir melhor, identifica oh! um erro gramatical! num poema perfeito de Vinícius… e isso a faz se sentir vingada. É fato histórico no Brasil que algumas pessoas que desejam aprender a bem escrever enveredem para os cursos de direito, e se enganam. Esse curso ensina a lidar com leis, apenas. Para ser bom escritor, ou poeta, há que se ler muito, escrever bastante, e ser humilde. Olhar para um Vinícius e saber que ele é tão bom que transforma até teu ‘erro’ num acerto que você jamais alcançará entender ou fazer igual.

  2. Emilio de Souza Lima

    -

    04/04/2013 às 12:36

    Caramba! Não sei qual foi mais elegante: o Poetinha ou o autor do texto.

  3. Alexandre Moreira

    -

    07/11/2012 às 9:56

    Não me parece que um dos maiores poetas de nossa música precisasse trabalhar bebado para criar sua arte, como deselegantemente indaga a autora da postagem. Uma das mais belas concessões artísticas que conheço é a chamada “licença poética” muito utilizada principalmente pela música do Norte e Nordeste do País e que tem como um de seus maiores expoentes Luiz Gonzaga. Atualmente muita música se utiliza desse recurso, sem falar e obras cinematográficas e na teledramaturgia. E nem por isso ficamos discutindo gramática quando desfrutamos de tais expressões artísticas. Interessante notar a clareza com que a ideia que o poeta desejou transmitir foi por todos captada independentemente da anterior discussão acadêmica. Por fim, acho extremamente entediante os fiscais de plantão que ficam procurando erros dos outros e assim obter seus 15 minutos de fama. Verdadeiros caçadores de mosquitos no escuro, com o perdão da licença poética.

  4. Karbage

    -

    21/10/2012 às 3:52

    Possibilidade muito provavel de ter ocorrido: Vinicius estava mesmo “alto” e baixou um “posto que” sem perder tempo pensando no que os outros iriam comentar. Dito isso, ele errou e errou feio. Mas a pena eh dele e ele faz o que quiser dela.

  5. Milena

    -

    09/10/2012 às 17:12

    Ah, os doutores professores… Decerto também escrever “porque” em lugar de “por que” é uma variante linguística.

  6. Marjorie

    -

    30/09/2012 às 20:11

    Excelente texto, excelente blog!
    Esta questão do “posto que” é antiga e não é exclusiva do português. A mesma mudança de uso ocorreu no espanhol. Na edição da RAE de ‘Don Quijote’ (publicado em 1605) se vê, logo na página 13, a seguinte frase: “Pues ese mismo abecedario pondréis vos em vuestro libro; que puesto que a la clara se vea la mentira, por la poca necesidad que vos teníades de aprovecharos de ellos, no importa nada, y quizá alguno habrá tan simple que crea que de todos os habéis aprovechado en la simple y sencilla historia vuestra, (…)”, acompanhada da nota “‘puesto que’ = ‘aunque’, como la mayoría de veces en el Quijote”.
    No espanhol contemporâneo, ‘puesto que’ é uma locução conjuntiva causal, como no exemplo do dicionário on line da RAE: “Háganme la cura, puesto que no hay otro remedio”. Seu uso como locução conjuntiva adversativa, sinônimo de ‘aunque’, ficou no passado.

  7. Sherlock

    -

    20/09/2012 às 16:43

    Gostei da pergunta.
    Gostei da resposta.
    Sou fã de Vinícius e acho o Soneto supimpa!
    . .
    PS.: se estivesse no lugar do poeta (olha a presunção!!) eu também teria escolhido “posto que” ao invés de “visto que”. O conjunto da obra ficou “imexível”.

  8. Bruno Assunção

    -

    17/09/2012 às 12:27

    Acredito que o “posto que” com função explicativa se deva a uma ligação intuitiva de sentido entre as palavras “posto” e “dado”. Na expressão “o cenário está posto/dado”, as palavras tem o mesmo sentido, indicando que o cenário está estabelecido, explicitado. Creio que transpomos a igualdade de sentido entre “posto” “dado” do primeiro caso para a expressão “dado que”, condicionante. Daí, de condição a causa, não é preciso muito esforço.

  9. Marcone Venancio

    -

    14/09/2012 às 9:12

    Caros,

    O Amor é eterno, pois deus assim nos ensina. A chama é paixão, pois é passageira e muitas vezes, egoísta.

  10. Elizabeth Maia

    -

    12/09/2012 às 16:52

    Será que, dependendo de sua duração, a chama pode, sim, ser imortal? E, nesse caso, o poeta não errou coisíssima nenhuma no uso da conjunção, nem sob o enfoque da gramática tradicional que a interpretaria como imortal, nem sob o enfoque da língua viva, que a interpretaria como passageira. A conjunção, portanto, sem nenhuma contradição, pode ser lida tanto quanto concessiva como explicativa. Basta imaginar que o fogo que existe no centro da Terra ou o que forma o corpo do sol, que boa parte do seres humanos sabe que um dia vai se acabar, pode muito bem ser uma eternidade pra uns e pra outros ser um lapso de tempo. Quem entende precisamente o amor?

  11. valéria

    -

    12/09/2012 às 9:20

    Parabéns pelo ótimo texto!!!!

  12. santanowiski - SP

    -

    04/09/2012 às 20:54

    Acho que Vinícius derrapou, simplesmente, e ninguém o advertiu a tempo. Quando já era tarde, achou melhor deixar como fora publicado. Acontece. E esse papo de classificar certos gramáticos de “conservadores” só porque apontam erros onde erros existem, seja lá qual for o nome do autor que os cometeu, desqualifica a função precípua dos gramáticos e da própria gramática.

  13. Maria Luiza

    -

    01/09/2012 às 22:38

    Se Vinícius de Moraes bebeu ou não antes de escrever seu “Soneto de Fidelidade” isso é lá com ele, mas que ele dominava como ninguém a arte de usar as palavras, dispondo-as de forma gramaticalmente correta ou não, isso ninguém discute.

  14. Hélio

    -

    31/08/2012 às 15:40

    O que é mesmo licença poética? Em qual escola, universidade ou parte da disciplina de Literatura se estuda esse assunto? Será que algúem pode explicar por favor. Os autores fazem o que querem, cometem lapsos, pintam e bordam e chamam isso de licença poética?

  15. Li

    -

    21/02/2012 às 11:42

    Ah, mais uma coisa.
    O MEC não considerou como norma culta a variante ‘Os meninos joga bola’. Isso se trata do reconhecimento de uma variante linguística. Pra quem nunca entrou em uma sala de aula com 40 criaturas que não sabem o que estão fazendo lá, RECONHECER essa variante permite que esse alunos ENTENDAM porque é tão importante aprender a norma culta e porque eles falam de outra maneira.
    A variação linguística EXISTE, não adianta ignorar. Aprender a lidar com ela e conversar sobre ela é mais fácil que negá-la. E aos tradicionais de plantão, não se preocupem…a querida norma culta de vocês está bem guardada.
    ESTUDEM A LÍNGUA EM SEUS DIFERENTES ASPECTOS.

  16. Li

    -

    21/02/2012 às 11:31

    Quanta ignorância nesses comentários…gente que não estudou nossa língua, que enxerga só o que quer e que não entende a língua como organismo vivo(aos que não acreditam, há ESTUDOS que, inclusive, permitem classificar a língua como ciência). Abordar um poema de forma diferente não significa destruí-lo…e leiam com atenção, o texto não foi ofensivo.
    Falta de conhecimento da língua, falta de

  17. Luiz Nascimento

    -

    17/02/2012 às 11:10

    Wilson, vc está errado. A correção faz parte da evolução. Regras fazem parte da evolução por menos que vc queira. A utilização de erros é recurso de preguiçosos e um desserviço à humanidade. Quem corrige não quer ser superior, quer ensinar, mas quem é corrigido sente-se, normalmente, inferior. Então, idiotas procuram justificar erros, visto que é mais fácil à sua preguiça ou incapacidade, posto que estudar e aprender seja viável a todos.
    Acho que Vinicius estava errado, mas tinha o direito por ser poeta. Os demais, não, pois o significado das palavras precisa ser entendido para uma efetiva comunicação através dos anos.

  18. Heraldo

    -

    29/09/2011 às 10:52

    Não demora o “mas” e o “cujo” vão desaparecer da língua brasileira.Hj em dia só dá “porém” – influência do espanhol? E o cujo, coitado, anda esquecido. Ex; o carro, que os freios falharam, caiu no rio.E o “segue” tomou o lugar do “permanece” e “continua”: o tribunal negou a liberdade provisória; o réu segue preso.E por aí vamos.How rubish!

  19. Wilson

    -

    11/09/2011 às 10:00

    Somente os idiotas procuram nos erros dos outros uma chance de aparecer. Niguém jamais escreveu, falou e nem fala o português corretamente e não há razão para tal, visto que somos uma nação de culturas diversificadas, principalmente no que diz respeito a fala e a escrita. Portanto, o comentario se torna desnecessário à memória de Vinicius, pois o que importa realmente é que todos entendemos o soneto que se tornou eterno e imortal.
    A propósito…nós tivemos um presidente que mal sabe ler e escrever e agora temos um deputado analfabeto, então vamos parar com essa bobagem de querer corrigir os erros dos outros!!!!

  20. Thalita

    -

    07/07/2011 às 18:39

    Sérgio, obrigada pela resposta! Então, muito embora não estivesse errado sob a ótica da língua falada, ele realmente fugiu à língua culta ao redigir a famigerada frase do Soneto de Fidelidade, certo? Bom saber que minha impressão sempre esteve correta. Quanto aos comentários de leitores que se ativeram a criticar a pergunta e a defender cegamente o poeta, sem sequer tentar entender a discussão em pauta, devo dizer que lamento pela postura. É triste ver um país com uma quantidade tão grande de pessoas bitoladas e mecanizadas, que aceitam qualquer coisa que lhes seja imposta sem questionar; que atribuem qualidade a um texto não porque realmente conseguem vê-la alí, mas porque seu autor é de grife, tem pedigree. Sou fã de Vinícius e de muitos outros escritores de referência, mas não sou cega nem bitolada a ponto de achar que não erraram nenhuma vez, em algum escrito. Afinal, antes de magníficos escritores, eram seres humanos e estes estão sujeitos a errar sempre.

  21. Thaiza

    -

    07/07/2011 às 13:12

    Ótimo texto! Triste é ver que algumas pessoas realmente não parecem ver que o teor da discussão, longe de macular a imagem do poeta que tanto admiramos (imagino que todos aqui, pelos comentários lidos) consiste apenas em esclarecer uma dúvida gramatical. Aliás, esta postagem teria sido uma benção há alguns anos atrás quando fiz uma prova para concurso público e, acreditem ou não, o texto utilizado era o Soneto da Fidelidade e a questão, adivinhem? Era exatamente a dúvida postada pela leitora, mas de forma objetiva. Como podem ver, conhecimento nunca é demais.
    Parabéns pela coluna, Sérgio!
    Adorei a postagem!

  22. LUIZ GUSTAVO

    -

    02/07/2011 às 18:44

    Ótimo texto! Claro o poeta sabia o que estava fazendo.

  23. Julien

    -

    11/06/2011 às 12:02

    Muita gente sem entender. Devem ter lido apenas o título.

  24. Farfalla Gialla

    -

    10/06/2011 às 21:33

    Caro Sérgio,

    Penso que você pode me ajudar a dirimir uma dúvida que me excrucia há anos (na verdade, há dias). De onde vem aquele bendito “El” que os portugueses punham antes de “Rei”? Seria um espanholismo surgido durante o período da união ibérica, ou sempre foi assim? Desde que esse assunto surgiu inopinadamente num bate-boca de bar, não consigo comer, não consigo dormir pensando nisso. E parece haver um pacto de silêncio na internet – “googlando”, não encontrei nada, niente, nulla.

    Obrigadinha.

    P.S.: Adoro seu blog.

  25. Mildon Lopes

    -

    10/06/2011 às 16:09

    O poetinha sabia o que estava fazendo… e acabou deixando uma grande dor de cabeça para os gramáticos…

  26. Anouk

    -

    10/06/2011 às 15:58

    Excelente, Sérgio.
    Thalita, lembrar Vinícius é sempre uma alegria. O poeta deixou-se levar e caiu na cantada, da Palavra.

  27. RODOMIRO BENEDITO

    -

    10/06/2011 às 13:19

    O SUJEITINHO METIDO A BESTA.
    COMENTAR A OBRA DE VINICIUS DE MORAIS, NÃO É PARA QUALQUER UM

  28. Orfaid

    -

    10/06/2011 às 12:26

    É que o Poetinha dá ibop… O português tem tantos erros para serem discutidos e que estão presentes na fala de todos os dias. Por exemplo “correr risco de vida”. Esse aí era um que me deixava louco quando eu fui morar no Brasil. Nem falar nos erros de concordância.
    Mesmo com todos esses erros eu aprendi a gostar da lingua brasileira!

    Cordialmente,

  29. Luiz Nascimento

    -

    10/06/2011 às 10:49

    Justificativas para erros e quebras de regras, sempre haverão assim como os citadores de dicionários pra explicar que uma determinada palavra existe. Dicionários não são pra isso, são tradutores de expressões.
    O que me preocupa na absorção do erro são os modismos que, por suas características, podem impedir uma “tradução” e compreensão da obra, no futuro.
    Acho que as regras e leis servem pra preservar a viabilidade da comunicação. Termos devem ser criados e tal, mas invenções de uns não dever ser usados como padrões para todos.
    Pasquale é um ótimo gramático, posto ter compreensão diversa da minha sobre preservação da lingua. “Entrega à (lá) Domicilio, Correr atrás do prejuízo, Risco de (perder a) vida”, são expressões idiomáticas combatidas por esse excelente professor que estão corretas e são apenas mal interpretadas por ele, que está conseguindo influenciar a sociedade sem um efetivo debate analítico e profundo sobre isso (e ainda defende o termo PresidentA ).
    Pode-se falar, pode constar nos dicionários, mas não pode, oficialmente, existir na língua portuguesa sem os cumprimentos das regras. Invencionices não contribuem, apenas atrapalham.
    Até acredito que Vinicius tenha cometido um erro posto gramáticos terem esse direito, eventualmente. Também defendo a licença poética em sua função mas não o uso incompetente da língua, pura e simplesmente. Criatividade é uma coisa, erro é outra.

  30. O Brasil na zona

    -

    10/06/2011 às 9:21

    Correçãozinha ortográfica ai embaixo: a palavra é ABSOLUTAMENTE e deve estar entre vírgulas. Obrigado.

  31. Juarez R. Venites

    -

    10/06/2011 às 0:31

    Não há ABOLUTAMENTE, erro na construção sintática do poetinha, a quem tanto admirei e tive a grata satisfação de conhecê-lo pessoalmente, no início dos anos 70, numa choperia que se chamava BARRIL 1800, na Vieira Souto, em Ipanema (não sei se o lugar ainda existe, pois há tempos não vou por lá). Pois bem, a língua pátria é rica e, com certeza, uma dentre as de maior e melhor sonoridade e harmonia do planeta. Nem por isso perde elegância quando há algum rompimento com certas regras (não confundir com apologia ao erro, como na cartilha do MEC), quando, para se expressar uma idéia, manifestar uma ironia, facilitar uma rima, recorre-se a uma LICENÇA, que pode ser poética e até prosódica. Aliás, não se pode esquecer de que a flor do Lácio, hoje tão inculta, mas, teimosamente bela, é das poucas que possibilitam melhor compreensão do sentido em relação às figuras de linguagem, raras nas línguas eslavas, anglo-saxônicas, como a metáfora, a metonímia, a sinédoque, a antítese, ou às alegorias, e que tanto libertam a alma criativa. De tal sorte, a licença poética tem mais visibilidade do que a prosódica, na medida em que, obviamente, aparece mais em versos do que em prosas. Não há de se estigmatizá-la. No caso específico da questão, quem admirava o genial e saudoso Vinícius, sabia que ele era irônico e provocativo, sobretudo, em relação ao amor. Não obstante, recitava-o e cantava-o como ninguém. O dístico propriamente dito, decotado do último terceto que compõe o soneto, “Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure’, não permite as ilações que estão lhe atribuindo. A meu modesto sentir, o “grande poetinha” se serviu dessa locução conjuntiva — “posto que” –, de forma explicativa, não havendo nenhum mal nisso. A propósito, a ABL autoriza o seu emprego, sem anatematizá-la, ainda mais porque a forma concessiva é quase inabitual. Todavia, mais importante do que isso, cumprindo-me alertar seja essencial, é APREENDER O SENTIDO ANALÍTICO DA EXPRESSÃO em seu conjunto e o que o autor pretendeu transmitir aos que com ele compartilhavam iguais sentimentos no tocante ao ato de amar. Afinal, os poetas merecem, de quem simplesmente os lê e de quem realmente os aprecia, esse trabalho de interpretação. Ora, para mim, é de clareza solar. A expressão encerra um paralelismo antitético carregado de lirismo refinadamente irônico. Isso que é maravilhoso, pois a grande mensagem transborda de apenas duas frases com dois complementos. Enfim, referindo-se ao AMOR, afirmou aquele que foi um dos nossos maiores vates contemporâneos: “QUE O AMOR NÃO É IMORTAL PORQUE É CHAMA QUE SE APAGA, MAS, DURANTE O TEMPO EM QUE A LABAREDA PERMANECER VIVA, NO ESPAÇO DE TEMPO A PARTIR DE QUANDO SE ACENDE ATÉ O MOMENTO DE SE APAGAR, QUE ELA PAREÇA INFINITA, OU QUE PELO MENOS CAUSE A SENSAÇÃO DA AUSÊNCIA DE LIMITES, SABIDO QUE O AMOR, ASSIM COMO A CHAMA, É FUGAZ, TRANSITÓRIO, POUCO DURADOURO”. A antítese, pois, está presente no dístico em destaque, tal como a molécula de oxigênio está na água, ou seja: “IMORTAL” se opondo a “ENQUANTO DURE”, e “CHAMA” (com função conceitual explicada pela locução conjuntiva “POSTO QUE”), contrastando com “INFINITO”. Caberia mais, no entanto, o assunto pode se resumir a isso e, a não ser para curtir as suas grandes obras, deixem Vinícius em paz.

  32. Luiz Braulio De Vilhena

    -

    09/06/2011 às 20:44

    Chic!

  33. aze

    -

    09/06/2011 às 20:11

    Vinicius não era uma pessoa comum, um simples mortal. Ele podia qualquer coisa e tinha todas as licenças. Deve-se lê-lo de joelhos no chão, num ato de prece. Ah, “poetinha”, quanta saudade!… Para quem quiser relembrá-lo http://www.youtube.com/watch?v=WS1tF3xxWbc&NR=1 (o título é idiota, mas o vídeo é bom).

  34. Wagner

    -

    09/06/2011 às 20:10

    E ai galera? Onde fica a licença poética? Para os textos poéticos é válido. então… ele não errou. quem erram são vocês que ficam remoendo assuntos, em vez de se preocupar com o verdadeiro erro: A corrupção, os governos, a falta de respeito com nós cidadãos. Acordem! discutam coisas mais importantes.

  35. Raquel

    -

    09/06/2011 às 20:09

    Ô, ignaro CUPERTINO e outros: calai-vos, já que não sabeis interpretar textos.

  36. Paulo Alexandre

    -

    09/06/2011 às 19:53

    Incomoda-me mais o verso seguinte “mas que seja infinito enquanto dure.”

    Das duas, uma: ou o verbo deveria estar no infintivo (“enquanto durar”, estragando a rima), ou a conjunção de tempo deveria ser trocada por uma de caráter concessivo (por exemplo: “conquanto dure”, criando uma contradição com o verso anterior).

    Entendo que poesia nem sempre dá a mão à gramática. Mas geralmente prefiro quando uma obra pode ser elogiada pela beleza e pela correção.

  37. luiz a s monjelo

    -

    09/06/2011 às 19:44

    Ora se o poeta e o engenheiro das palavras o que lhe permite em figuras poéticas utilizar novos significados para as palavras posto que se configura numa dessas situações e viva Vinicius através de seus lindos poemas…

  38. gomes cerqueira

    -

    09/06/2011 às 19:25

    Pelos comentários, Parece-me, parafraseando o Jurista Caio Mário da Silva Pereira, que a maioria prefere utilizar-se de subterfúgios para dissimular a sua ignorância ou ocultar a aversão aos estudos.

  39. Natália

    -

    09/06/2011 às 19:24

    ADOREI o comentário do Terêncio:

    Dizem que há tempos, Houaiss “repreendeu” o Vinicius por este erro. Vinicius respondeu: “Ah, vai tomar no c…, Houaiss!”

    Divertidíssimo. rs

  40. Dircilene

    -

    09/06/2011 às 19:12

    Excelente explicacao. Adorei! parabens! Ainda temos bons leitores!

  41. Paulo Bomfim

    -

    09/06/2011 às 19:10

    Mamãe, o que têm no (lugar do) cérebro, esses caras que vêm aqui dizer que você está esculhambando o Vinicius? De onde tiram isso?
    Enfim, sempre que vejo postagens novas, venho aqui aprender um pouco mais sobre nossa língua. Só tenho uma crítica a fazer: poderiam ser mais frequentes, as postagens, né?
    Abração.

  42. Terêncio Desmatamento Zero

    -

    09/06/2011 às 18:57

    Dizem que há tempos, Houaiss “repreendeu” o Vinicius por este erro. Vinicius respondeu: “Ah, vai tomar no c…, Houaiss!”

  43. malu

    -

    09/06/2011 às 18:48

    O poema é tão lindo que dispensa estudos mais elaborados de gramatica, salve o poetinha que estava realmente muito inspirado quando escreveu tal maravilha!

  44. emmanuel costa lima

    -

    09/06/2011 às 18:36

    olha lá, agora os “donos da língua” vão querer esculhambar até o vinícius de moraes. se bem que depois do linchamento moral que fizeram contra a professora que disse no livro do mec o que já na época do THC, digo FHC, já se encontrava nos livros didáticos, não duvido de mais nada. aliás, esses arautos da língua são os mesmos que dizem a
    ‘assistir o jogo’, ‘extorquia o comerciante’, entre ‘otras cositas mas’.
    Emmanuel, mais importante do que saber ou ignorar regrinhas é compreender o que se lê. O que você chama de “esculhambação” é o contrário, uma defesa de Vinicius e um ataque à rigidez da gramática tradicional. Quem sabe se você ler de novo, agora com mais atenção?

  45. Julio Correia

    -

    09/06/2011 às 18:32

    Entendo que seja mais relevante a discussão sobre a parte final do soneto: “mas que seja infinito enquanto dure”, houve algum duplo sentido no uso do verbo “dure” ao invés do substantivo “duro”…..? Alguém tem algo a dizer sobre isto ?

  46. Inca Del Rio

    -

    09/06/2011 às 18:28

    Tive um professor de Literatura Brasileira que não gostava do “poetinha” e recitava esta frase de maneira debochada, apontando para o pênis: “Que não seja imortal, posto que é chama/ Mas que seja infinito enquanto DURO”. Uma das alunas achou que a explicação do professor era tão…Vinicius!

  47. Julio Correia

    -

    09/06/2011 às 18:28

    Entendo que seja mais relevante a discussão sobre a parte final do

  48. Ignacio

    -

    09/06/2011 às 18:04

    Em espanhol, “puesto que” tem valor explicativo. Ele esteve aqui no Uruguai… (talvez a gente contribuiu…)

  49. ubaldo

    -

    09/06/2011 às 17:50

    E vc meu caro colunista? Já escreveu algo que chegasse ao dedão do pé do Vinicius?
    Presta atenção rapaz.
    Claro que não, ubaldo. Mas tenho uma qualidade: costumo entender o que leio. Questão de atenção, pois é.

  50. Antonio Brandão

    -

    09/06/2011 às 17:42

    PQP que idiotice. Poeta pode tudo. Já leu camões Ocara….

  51. Thiago - RJ

    -

    09/06/2011 às 17:34

    Excelente explicação. Pena que essas controvérsias, baseadas na evolução natural do uso do idioma, sejam usadas e abusadas como pegadinha em provas objetivas de concurso público.
    Essa do “posto que” como locução exclusivamente concessiva, então, vive sendo cobrada. Acho que as bancas se valem da memória auditiva das pessoas, que certamente lembram, lá no momento da prova, do “(…) posto que é chama”…

  52. Guto Borelli

    -

    09/06/2011 às 17:32

    Mas também existe, no final das contas, a tal da licença poética. Se é erro, sei lá, mas que é mais bonito que ‘visto que’, pelo menos na minha opinião.

  53. É por aí...

    -

    09/06/2011 às 17:24

    O Professor Pasquale coincide com seu ponto de vista, Sérgio:

    Em seu conhecidíssimo ”Soneto de Fidelidade” (”De tudo, ao meu amor serei atento antes…”), Vinicius de Moraes deu a ”posto que” valor de causa ou explicação, que os dicionários ainda não ”legitimam”: ”Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”. O fato é que, ”legítimo” ou ”ilegítimo”, o valor explicativo ou causal de ”posto que” parece sacramentado hoje em dia, talvez justamente pela popularidade de Vinicius e de seu soneto.

    Fonte: http://www.opovo.com.br/www/opovo/colunas/aopedaletra/518304.html

  54. Davino Fortuna

    -

    09/06/2011 às 17:22

    Posto e posto que, em Machado de Assis, são adversativas ou concessivas. O uso atual deve ser influência do espanhol puesto que, que é conclusivo.

  55. Gond

    -

    09/06/2011 às 17:15

    Perfeito, Sérgio. Provavelmente ela não conhece a música que o Toquinho fez para ele: “…Poeta, poetinha vagabundo
    Quem dera todo mundo fosse assim feito você
    Que a vida não gosta de esperar
    A vida é pra valer,
    A vida é pra levar,
    Vinícius, velho, saravá”

  56. Cupertino

    -

    09/06/2011 às 17:13

    Tão sã sabedoria para tão vã filosofia! O que importa toda esta fleuma de bons moços da lingua portuguesa? Nada! O artista tem “licença poética” e pode dizer o que quizer, criar palavras e até mesmo transmutá-las. Calai-vos, ignaros, enquanto o poeta poetiza…

  57. Jiana Cristina

    -

    09/06/2011 às 17:08

    Aos meus ouvidos o “posto que” como conjunção concessiva sempre soou estranho. Muito provavelmente por ter Vinicius de Morais como minha referência em lígua portuguesa. Sempre vi um sentido mais explicativo na expressão.
    Acredito que novas interpretações, se bem colocadas, são bem vindas para que a língua continue viva, bela e atual. Prefiro novos usos para expressões tradicionais do que a incorporação de gírias ao português formal.
    Vai dizer que “posto que” não ficou melhor “visto que”?
    :P
    Bj

  58. Alzir Fraga

    -

    09/06/2011 às 17:05

    Desculpem a falta de revisão após digitar.
    Por que vocês estão estudando isso? O MEC já decidiu que até “Os menino pegou o peixe” está correto. Ninguém tem mais que estudar. Tudo o que o povo disser estará certo.

  59. Alzir Fraga

    -

    09/06/2011 às 17:04

    Por que vocês estudando isso? O MEC já decidiu que até “Os monino pegou o peixe” está correto. Ninguém tem mais que estudar. Tudo o que o povo disser estará certo.

  60. Angélica Fleury

    -

    09/06/2011 às 16:53

    Não gostei do comentário nem do título: ‘Posto que é chama’: Vinicius bebeu antes de escrever isso?
    Para mim, Vinícius é uma obra prima, incontestável.

  61. Italo_Celso

    -

    09/06/2011 às 16:51

    O poeta revolucionou o uso da conjunção,
    assim como a poesia! Valeu Sergio Rodrigues,
    belíssima exposição.

  62. Boris

    -

    09/06/2011 às 16:50

    Digamos que nesse tempo em que nosso país grande e bobo se deixa permear de sandices culturais, quando se tenta privar nossas crianças de um Monteiro Lobato mas ao mesmo tempo ensina-se que no que tange nossa língua o errado está certo, não faz sentido algum tecer críticas a alguém que escrevia primorosamente bem, numa época que isso ainda tinha algum valor. O tempo da bossa nova acabou; estamos na era da eguinha pocotó, do funk de origem marginal, da internet onde não virou naum.

  63. Porta Torta

    -

    09/06/2011 às 16:39

    Depois de procelosa tempestade, noturna sombra e sibilante vento,
    Traz a manhã serena claridade, esperança de porto e salvamento…

    Era Camões descrevendo o acordar de um porre do Poetaço dentro da banheira, com abat-jour queimado e o ventilador ligado!!!

    Cachorro engarrafado: até hoje o W.Olivetto procura uma frase-síntese assim!

    Parabéns pelo blog! Grata surpresa!

  64. Agenor

    -

    09/06/2011 às 16:37

    Trata-se de puro preconceito linguistico

  65. sergiorodrigues

    -

    09/06/2011 às 16:24

    Ana: Poetinha é o apelido carinhoso de Vinicius, e quem o chama assim é a leitora que faz a consulta, não eu.

    Ana, Lucia e Renata: vocês leram só o título da nota e já saíram comentando, né? Assim a conversa não anda.

  66. Lucia

    -

    09/06/2011 às 15:59

    Desculpe, o texto do Vinicius está perfeito, não há erro gramatical algum nem tampouco contradição entre a primeira e a segunda frase. Não entendi a razão da sua dúvida.

  67. Renata

    -

    09/06/2011 às 15:36

    Não cabe aí a chamada “licença poética”? É soneto, é poesia, não é ensaio literário nem matemática pra exigir tanta precisão.

  68. ana

    -

    09/06/2011 às 15:33

    O senhor como bom redator que é, deveria saber que todo ser humano tem direito ao erro e existe apreciação obrigatória.
    Não se refira a Vinicius como poetinha, sua visão pessoal deve ser guardada para si, corrigir um erro é simples nunca errar é o problema.

 

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