Bem-vindo (ou bem vindo?) ao mundo kafkiano do hífen

“Caro Sérgio, gostaria de uma explicação sobre o hífen de bem-vindo após o novo acordo ortográfico. Toda vez que escrevo bem-vindo, alguém dá um jeitinho de fazer um comentário escrevendo ‘bem vindo’, como quem não quer me corrigir, mas já corrigindo. Como eu acho que não houve bom senso dos especialistas quanto ao uso do hífen, não encontro uma explicação clara e sucinta para o tema.” (Juliana de Vargas e Lucas)

Cara Juliana, você não encontra uma explicação clara e sucinta para o tema porque ela não existe. Tudo só pode ser obscuro e prolixo numa matéria regida por um ridículo emaranhado de cláusulas, cada uma com suas subcláusulas, cada subcláusula com suas exceções, cada exceção comportando uma boa dose de arbitrariedade.

No caso específico que você apresenta, nada mudou: ainda escrevemos bem-vindo, todos os que a corrigem estão simplesmente equivocados. Essa sanha corretora poderia ser só mais um exemplo de sabichonice, um mal infelizmente comum no mundo das palavras, se não fosse desculpável no caso do hífen. Este parece ter sido cuidadosamente projetado para provocar confusão.

Segundo o acordo, as palavras compostas com os advérbios bem e mal só levam hífen se o segundo termo for iniciado por h ou vogal. Eis por que bem-feito virou benfeito. Certo, mas por que bem-vindo não virou benvindo? Ah, porque, nesse caso, “mantém-se a noção de composição”. Entendeu? É claro que não. Não há diferença objetiva entre os dois casos, a arbitrariedade do critério é gritante.

O fato é que o uso do hífen em português, que já era puro Kafka, ganhou mais uma volta do parafuso. As mudanças recentes são perversas por dois motivos. O primeiro é a oportunidade que perdemos de limpar um terreno hostil a quem quer escrever com correção, mas não tem tempo ocioso nem motivação para trazer na ponta da língua a lista de afluentes do Amazonas com suas respectivas extensões, volumes de água e cidades ribeirinhas. O segundo é que o acordo faz letra morta da principal arma que, no cipoal de regrinhas minadas aqui e ali pela incoerência, tinham os falantes para não cometer erros de ortografia: a memória visual. Esta ficou obsoleta e precisará ser reconstruída pouco a pouco. Até que a próxima reforma ortográfica a revogue também.

Como confiar na memória agora que tanta coisa é o oposto do que era – mas nem tudo, aí é que está? Por que o hífen de paraquedas caiu e o de para-lama, não? Lá vem aquele curinga maroto outra vez: ah, porque aquela palavra, ao contrário desta, já perdeu a “noção de composição”. Sei…

Por que a água-benta ganhou um hífen, tornando-se palavra composta, mas a água mineral permaneceu uma locução? Em ambos os casos, trata-se de um substantivo comum seguido de adjetivo, sem que o par forme um sentido diferente da soma das partes: água-benta é água benzida, seu hífen é um sacrilégio. (Ou será que o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa manda usar hífen apenas para a acepção regionalista de cachaça – outra decisão idiota, por supor a incapacidade do leitor para a compreensão de uma ironia primária, mas esta já vigente antes do acordo? Isso o Volp, que não traz definições, não diz. Os dicionários continuam seguindo por aí, mas não é sempre que concordam com as interpretações da Academia. Estamos em águas turvas.)

Poderíamos ir longe nesse caminho, mas não vale a pena. A quem estiver disposto a decorar pelo menos em parte a lista de afluentes do Amazonas, indico este resumo das novas regras do hífen. Meu conselho a quem não for professor ou estudante de português – nem estiver disposto a pagar o preço da desobediência civil, postura bastante defensável neste caso – é passar os olhos por elas, mas sem perder muito tempo. E a cada dúvida, aí sim, consultar um dicionário atualizado ou o Vocabulário Ortográfico no site da Academia Brasileira de Letras.

Daqui a dez ou quinze anos, com um pouco de sorte, teremos tudo na memória outra vez.

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  1. Comentado por:

    Claudia

    Valeu Sérgio! Obrigada pela ajuda! Até quando critica voce esclarece! K.

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  2. Comentado por:

    Walfredo

    Axo ke o brazileiro deve acordar e pasar a escrever seu proprio idioma, sem ifem, acentos e tantas outras regras luzitanas.

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  3. Comentado por:

    Sergio

    Sérgio, Rafael e Walfredo, Bravos! Perdoem os demais, a falta de tempo me obriga a ler de relance. Me foi dito que a reforma foi feita com a intenção única de tornar certo o que nunca era acertado nas provas dos alunos das “escolas” públicas. Alguém tem informação similar? Sérgio, seu texto é muito bem colocado. Rafael, a evidenciação do descalabro de termos José Sarney na academia valeu a leitura, apenas complemento que são raros os que merecem a cadeira que lá ocupam. Walfredo, seria fantástico podermos escrever como escreveu, faz sentido, e estamos carentes de sentido neste mundo. Agora, caso tenha se referido a “regras luzitanas” de forma não prejorativa, me permita uma discordância breve e limitada à realidade temporal do que nos aflige no momento: Sinto falta do trema e da elegância de como eram as regras antes da reforma, ainda que fossem importadas da terrinha. De tudo, o mais lamentável é termos que usar forçosamente regras definidas por “mortais” irresponsáveis e promulgadas por um ladrão comunista e semianalfabeto.

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  4. Comentado por:

    maria das graças garcêz

    Sou professora há mais de vinte anos e sempre vejo benvindo ainda assim escrevo bem – vindo.Como explicar para meus alunos?

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  5. Comentado por:

    manuela chaves

    em um cartaz o certo é? sejam bem vindos, seja bem vindo ou seja bem-vindo

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  6. Comentado por:

    Paulo

    Quando pesquiso “para-lamas” no site http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?sid=23 diz que não existe. Se pesquiso “para-lama” diz que existe e que o plural é “para-lamas”. Que lixo de língua temos e que porcaria de site de suporte também temos!

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