Blogs e Colunistas

Arquivo de janeiro de 2013

31/01/2013

às 10:15 \ Consultório

Devemos dar ‘bom dia’ quando passa da meia-noite?


“Bom dia, Sérgio! Gostaria de saber o motivo de uma parcela crescente da população cumprimentar as outras pessoas com um sonoro ‘bom dia!’ quando a hora passa da meia-noite. A lua não está no céu ainda, logo não é noite ainda? Será que isso é por conta das mensagens gravadas nos serviços de telemarketing da vida?” (Ricardo Soares)

A divertida consulta de Ricardo me deixou aqui pensando que sou um sujeito de sorte. Nunca encontrei quem me cumprimentasse com um “bom dia” à meia-noite e meia. Acho que não seria uma experiência agradável. No entanto, imagino que essas pessoas de fato existam, e em número suficiente para levar Ricardo a dividir seu incômodo com os leitores desta coluna. Será que elas estão erradas?

Acredito que sim, mas a resposta precisa de uma explicação.

Todo mundo já deve ter se encontrado em alguma situação em que o adiantado da hora provoca confusões desse tipo. “Hoje eu trabalhei feito um cavalo”, diz o boêmio no embalo do décimo terceiro chope. “Hoje não, ontem”, corrige alguém, apontando o relógio para indicar que o calendário já virou. “É hoje mesmo”, talvez insista então nosso boêmio hipotético, “porque eu ainda não dormi.” A piadinha clássica nessa hora é um tributo à relatividade do tempo: “Hoje já é amanhã”.

Os dicionários informam que “bom dia” é um cumprimento que se faz no período da manhã. Esta, como se sabe, é definida como “parte inicial do dia que vai do levantar do Sol ao meio-dia” (Houaiss). No entanto, quem dá um bom-dia (com hífen porque aqui estamos substantivando o cumprimento) quando as trevas ainda dominam o céu sempre poderá alegar que está seguindo fielmente o que dita o relógio – tecnicamente, começa à meia-noite um novo dia.

Trata-se de um conflito entre duas acepções do substantivo dia: uma, natural, é “período decorrente entre a aurora e o crepúsculo”; a outra, civil, é “período compreendido entre zero e 24 horas”. O fato é que não existem regras que impeçam ninguém de escolher a acepção que mais lhe agrade nesse caso. A não ser, claro, as regras do bom senso.

Saudações como “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite” são fórmulas de cortesia, moedinhas trocadas no convívio social. Sua lógica se prende mais à dinâmica da vida cotidiana do que a ponteiros frios ou dígitos gélidos. Nessa dinâmica, o novo dia começa quando acordamos ou quando o sol se levanta – o que para muita gente é exatamente a mesma coisa.

Relativo? Claro. Talvez seja compreensível o bom-dia dado a um trabalhador noturno – um vigia por exemplo – que se apresente de banho tomado para iniciar sua jornada à meia-noite. Coisa bem diferente e até antipática é brindar com o mesmo cumprimento quem adia o momento de ir para casa dormir.

A tese de que mensagens gravadas de telemarketing, com sua óbvia insensibilidade a sutilezas desse tipo, sejam responsáveis pelo modismo é interessante, mas exigiria uma investigação cuidadosa. Não acho improvável que estejamos diante de mais uma manifestação do apego excessivo que muitos falantes têm demonstrado ao que julgam ser o sentido preciso (literal) das palavras. O mesmo fenômeno que conduziu ao questionamento tolo de uma expressão como “risco de vida”.

*

Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Toda quinta-feira o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br

29/01/2013

às 12:04 \ Curiosidades etimológicas

O jornal, o diurnal e a jornada

A ortografia mascara a relação da palavra jornal – e dos vocábulos dela derivados, como jornalismo e jornalista – com a ideia de dia, espaço de tempo equivalente a 24 horas. Ultrapassada essa barreira, porém, a conexão é clara como o dia.

Como o francês journal e o italiano giornale, jornal se relaciona em última análise com o adjetivo latino diurnalis, “diário”, do qual é a forma substantivada.

É interessante observar o modo como, nessas duas línguas, tais palavras se mantiveram graficamente próximas dos vocábulos que significam dia – respectivamente jour e giorno.

Mais evidente em português é o parentesco de jornal com jornada, cuja acepção original era “percurso que se consegue cumprir em um dia”. Pouco usada hoje, a palavra diurnal (“diurno ou diário”) pode ser considerada uma espécie de elo perdido.

O primeiro sentido de jornal entre nós foi o de remuneração por um dia de trabalho. As acepções de diário (livro em que se registram acontecimentos do dia a dia) e publicação diária foram desenvolvimentos posteriores.

Os etimologistas divergem sobre como nos chegou o sentido propriamente jornalístico – se diretamente do latim medieval diurnale ou se por influência do francês ou do italiano.

27/01/2013

às 11:22 \ Crônica

A lua é dos amantes

– Olha a lua, minha linda.

– Maravilhosa, querido. Brilhando só para nós.

– Era o que eu ia dizer. Me serve mais vinho?

– Claro. Sem a lua cheia, eu nem ia conseguir enxergar a garrafa.

– Obrigado. Mas eu não sou louco. Se a noite não estivesse enluarada, eu nem tinha trazido você pra essa praia deserta.

– Querido.

– Só que a lua não está cheia, linda.

– Claro que está.

– Quase. Amanhã vai ser cheia. Ou então foi ontem. Esfriando, né?

– Reginaldo, isso aí no céu é uma lua cheia.

– A gente chama assim, mas tecnicamente não é. Repara melhor.

– Não tem o que reparar, Reginaldo. Nunca existiu lua mais cheia do que essa, sabe por quê? Porque não tem para onde encher mais. Ficou redondinha assim, é lua cheia. Cheia quer dizer cheia mesmo. Completa, entendeu?

– Você acha?

– Não é questão de achar.

– Então tá, é lua cheia. Por que você não bota o agasalho?

– Não quero saber de agasalho nenhum, Reginaldo. Por que você faz isso?

– Isso o quê, meu Deus?

– Isso. Esse tom aí que você usa. “Então tá, é lua cheia.” Como se eu fosse maluca.

– Bom, assim você parece maluca mesmo.

– Ah, é? Então chega. Me leva pra casa.

– Mas o que é isso? Que briga mais boba!

– Ou me leva para casa ou pede desculpa.

– Tudo bem, desculpa. Vem cá, linda. Nem acredito que a gente ia desperdiçar essa praia, esse vinho, essa lua…

– Cheia.

– Certo. Essa lua cheia.

– …

– …

– Me leva pra casa, Reginaldo.

– Só se for agora.

26/01/2013

às 11:39 \ Palavra da semana

(Des)acordo ortográfico: o Brasil piscou, e agora?

A Academia Brasileira de Letras divulgou na quarta-feira uma nota oficial em que lamenta o “retrocesso” do adiamento para 2016 da obrigatoriedade da vigência do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa no país. Afirma que estava pronta para dar início a uma campanha internacional destinada a tornar o português – enfim uma língua única – um dos idiomas oficiais de trabalho da Organização das Nações Unidas (ONU).

Compreende-se a frustração. Decidido por decreto assinado pela presidente Dilma Rousseff no apagar das luzes do ano passado, dias antes do fim do prazo de adaptação previsto anteriormente, o adiamento é um estranho caso de tiro desferido no próprio pé pela diplomacia brasileira.

Esta vinha exercendo um papel consistente de liderança no trabalho de unificar uma língua de 260 milhões de falantes que, mesmo sendo uma só (variações nacionais e regionais são, mais que inevitáveis, bem-vindas), nunca soube se pôr de acordo sobre algo banal como a forma de grafar suas palavras. Internacionalmente, isso não é só um fator de confusão e constrangimento. É sinal de fraqueza. Se um aborígine australiano do último cafundó de Queensland escreve inglês com a mesma grafia de um nova-iorquino, qual é o sentido de nativos de Rio e Lisboa, cidades irmãs, divergirem em seu português?

O trabalho foi difícil, lento, realizado sobre o solo pantanoso de orgulhos e desconfianças ancestrais – para não mencionar a má vontade natural da maioria do público com a ideia de virem esses sabichões mexer no que funciona. O texto do acordo data de 1990, mas só em 2008 foi aprovado pelo Parlamento português.

Sempre considerei o conteúdo do acordo decepcionante sob diversos aspectos. No entanto – fora arroubos de anarquismo que são tentadores para qualquer escritor, raça pouco afeita à deglutição de regras sobre seu instrumento de trabalho – nunca deixei de entender o argumento político de sua validade. Tentando me conformar com as absurdas regras do hífen e com palavras grotescas como “corréu”, eu pensava: foi o acordo possível, paciência. Negociações são assim, perde-se aqui para ganhar ali, vamos em frente. E parecia que íamos mesmo. Agora ninguém sabe se iremos.

O adiamento assinado pela presidente veio, estranhamente, num momento em que o trecho mais incerto e turbulento da jornada já tinha ficado para trás. A custosa adoção do acordo ia adiantada no Brasil, muito à frente dos demais países lusófonos. Pode-se mesmo dizer que era completa: sistema de ensino, imprensa e editoras, hoje todo mundo segue em nosso país a nova ortografia.

Em Portugal, onde o marco inicial da obrigatoriedade já estava fixado em 2016, as resistências eram e são bem maiores. Compreensível. A cultura portuguesa é informada por um sentimento de posse sobre a língua, o que alimenta mágoas diante da liderança brasileira no processo. O fato é que tudo ia caminhando, trancos e barrancos incluídos. O Brasil tinha se tornado um farol na epopeia da unificação.

Agora o farol fraqueja e ameaça se apagar. Os adversários ativos do acordo – mais fortes fora do país, mas nada desprezíveis aqui dentro – podem soltar fogos, espalhar temores sobre o risco imaginário que ele oferece à “diversidade cultural” e protocolar os pedidos de vista do processo e demais recursos protelatórios que têm na manga. E a provável maioria silenciosa que sempre encarou com antipatia a decisão de mexer na língua talvez diga, concordando com aquele meu lado anarquista: “Bem feito”.

O decreto de Dilma tornou bastante concreta a possibilidade de que os setores público e privado do Brasil tenham investido uma fortuna para, em nome da unificação, implementar uma reforma ortográfica que jamais terá validade fora de nossas fronteiras.

24/01/2013

às 12:51 \ Consultório

Acostumar e costumar: quando se usa cada um?

“Prezado Sérgio Rodrigues, dias atrás deparei-me com esta dúvida: acostumar ou costumar, qual é o correto? Como nos exemplos abaixo:

a) ‘Estou acostumado a estudar à noite’ ou ‘Estou costumado a estudar à noite’.

b) ‘Eu acostumo estudar à noite’ ou ‘Eu costumo estudar à noite’.

Tendo em vista a norma culta, gostaria de saber a razão pela qual usamos um ou outro. Se for possível, também seria bem-vinda uma breve explicação da origem e registros. Desde já, muito obrigado.” (Lucas Blanco)

Os dois verbos que Lucas traz para o consultório existem e não se pode dizer que um seja preferível ao outro. São apenas diferentes, embora tenham se formado mais ou menos na mesma época – meados do século 13 – a partir do substantivo costume, este vindo do latim vulgar co(n)stumine, “hábito”.

A semelhança pode realmente provocar confusão. Antes de falar um pouco de cada um deles, convém responder às dúvidas específicas do leitor. As construções corretas são:

a) Estou acostumado a estudar à noite.

b) Eu costumo estudar à noite.

Isso se dá porque, na maioria esmagadora dos casos, acostumar é sinônimo de “habituar”, enquanto costumar pode ser substituído por “ter por hábito” ou “ser habitual”. O primeiro indica a formação de um hábito enquanto o segundo aponta para um hábito já formado. Acostumar pode ser ou não pronominal e pode ter complemento oracional ou não: “Acostumou os funcionários a obedecer sem discutir”, “Acostumava-se a custo com o calor”. Costumar nunca é pronominal e seu objeto é necessariamente uma oração: “Ela costumava rezar antes de dormir”.

Antes que os gramáticos saquem suas armas, deixo claro que o parágrafo acima é uma simplificação deliberada. Sim, autores clássicos empregaram o verbo costumar como pronominal e com o mesmo sentido de acostumar, em frases como “costumou-se a dormir cedo”, que são gramaticalmente corretas. No entanto, não se recomenda fazer isso no português contemporâneo – não no brasileiro, pelo menos.

Testemos a tal regrinha simplificada (acostumar = habituar; costumar = ter por hábito ou ser habitual) para ver como ficam as frases trazidas por Lucas:

a) Estou acostumado (habituado) a estudar à noite.

b) Eu costumo (tenho por hábito) estudar à noite.

Essa forma de pensar tem a vantagem de funcionar com diversos tipos de construção: “Meus ouvidos se acostumaram (se habituaram) ao barulho”; “Acostumei (habituei) meu cachorro a buscar meus chinelos”. E ainda: “Costuma (é habitual) chover no verão”; “Jogando em casa meu time não costuma (não tem por hábito) perder”.

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Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Toda quinta-feira o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br

22/01/2013

às 12:35 \ Curiosidades etimológicas

O garnisé, quem diria, veio de Guernsey

O nome do garnisé, um tipo de galináceo tão franzino quanto brigão, não é tão brasileiro quanto parece. O sucesso que o bichinho fez na zona rural brasileira – a ponto de ter dado origem entre nós à acepção informal de “baixinho invocado” – sugere, ao lado da própria sonoridade da palavra, um vocábulo nascido no mesmo caldo de cultura que deu origem ao barnabé, ao mané e outros zés, certo?

Surpresa: o nome do garnisé começou como um estrangeirismo do gênero inequívoco. Consta que os primeiros galinhos e galinhas do tipo, pertencentes a diversas raças mas todos miúdos, foram importados de Guernsey, ilha situada no Canal da Mancha e vizinha de Jersey – também chamada de Guérnesei em português. As aves trouxeram com elas o nome de seu lugar de origem, logo aportuguesado para garnisé por razões bastante compreensíveis.

Guernsey é uma dependência da Coroa britânica, mas é duvidoso que isso faça de garnisé um anglicismo. Por ser datado de 1876, segundo o Houaiss (com base numa edição da “Revista Ilustrada”, publicada no Rio de Janeiro por Angelo Agostini), o vocábulo é de um tempo em que a única língua oficial de Guernsey era o francês. De lá para cá, o inglês se tornou dominante.

Curiosidade: uma leva de imigrantes portugueses fez com que cerca de 2% dos mais de 65 mil habitantes da ilha falem nosso idioma, que é ensinado em algumas escolas.

20/01/2013

às 9:00 \ Crônica

Um sapato velho, um passarinho

O escritor americano Raymond Carver, grande contista, escreveu a seguinte defesa do lirismo: “Escritores não precisam de truques ou ardis, nem ser necessariamente os caras mais inteligentes da rua. Às vezes, correndo o risco de parecer bobo, um escritor deve ser capaz de apenas parar e se boquiabrir com isso ou aquilo – um pôr do sol, um sapato velho – em simples e absoluto assombro”.

A frase me veio à cabeça a propósito das comemorações do centenário de Rubem Braga que pipocaram na imprensa nos últimos dias (inclusive ali no meu outro blog, o vizinho Todoprosa). O maior cronista brasileiro, morto em 1990, nunca temeu correr o risco de parecer bobo – e nunca pareceu – ao parar e se boquiabrir diante de um pôr do sol ou um sapato velho. Ou, a propósito, de um passarinho, uma borboleta, um bate-papo, uma bela mulher, entre tantos pequenos grandes assombros que passam por nós o tempo todo, fugidios, misturados à avalanche de informação do dia a dia.

De repente, juntando Carver com Braga, me ocorre que bem pode ser esse o papel principal reservado à palavra escrita neste século hiperativo, hiperinformado e hipercínico em que tanta gente garante que ela morrerá, está morrendo. À míngua. Afogada no próprio excesso. Por falta de gente que a escreva. Por falta de quem tenha paciência para lê-la. Porque a literatura é uma arte superada, baseada em truques e ardis que não enganam mais ninguém. Porque o cara mais inteligente da rua nunca precisou ler um livro. Porque a crise da representação. Blablablá.

O papel principal da palavra escrita pode ser apenas o de, no auge do blablablá, nos apontar modestamente isso ou aquilo. Surpresos e boquiabertos diante de um sapato velho, um passarinho, compreenderemos por fim. Ah, então era isso o tempo todo? Que bobos fomos, que bobos.

19/01/2013

às 9:00 \ Palavra da semana

Refém, uma prenda que ganhamos do árabe

Campo de exploração de gás em In Amenas, Argélia (Kjetil Alsvik/Statoil/AFP)

A crise dos reféns num campo de exploração de gás na Argélia pôs em evidência uma palavra cujo registro mais antigo em português data de 1297 e que, por coincidência, nos remete diretamente ao árabe, um dos idiomas oficiais daquele país do Norte da África.

Parte da vasta herança vocabular deixada pela ocupação muçulmana da Península Ibérica, que se estendeu entre os séculos 8 e 15, o termo que deu origem ao substantivo refém – e também ao espanhol rehén – é, segundo consenso dos etimologistas, o árabe rihan, forma popular de rahn (“penhor, prenda, garantia”).

Refém tem duas acepções no Houaiss: “1. pessoa importante, cidade, praça de guerra etc. tomada ou entregue ao inimigo como garantia da execução de certas injunções, convenções, tratados etc.; 2. em situações extremas, aquele que fica, contra sua vontade, em poder de outrem, como garantia de que alguma coisa será feita”.

Embora soe um tanto cínico pensar no refém como uma espécie de hóspede, é no latim hospes (“hóspede, o que recebe hospitalidade”) que, segundo o Trésor de la Langue Française, o francês foi buscar seu termo otage (“refém”), matriz do inglês hostage e do italiano ostaggio.

17/01/2013

às 13:18 \ Consultório

Dúvida de verão: existe a palavra ‘refrescância’?


“Caro Sérgio, estou aqui na refrescância do ar condicionado pensando: existe mesmo essa palavra, ‘refrescância’? No meu dicionário ela não aparece.” (Marjorie Lopes)

Não é curioso que Marjorie primeiro empregue com naturalidade a palavra “refrescância” e só depois pergunte se ela existe? Claro que entendemos sua dúvida: embora saiba que o substantivo tem assento consolidado em nosso vocabulário e se presta, portanto, à boa comunicação de uma mensagem, ela gostaria de saber se ele tem existência oficial, se é reconhecido pelos dicionaristas. Ou seja, se pode ser considerado “bom português” ou se não passa de uma gíria vira-lata.

A resposta está no meio do caminho. Refrescância é um neologismo brasileiro criado recentemente por publicitários – tudo indica que nos últimos anos do século 20, embora não me conste existir uma certidão de nascimento oficial – para vender pasta de dente. Ainda hoje é uma palavra que tem gosto especial pelo campo semântico da publicidade de produtos de higiene corporal, desodorantes incluídos. No entanto, caiu no gosto dos falantes e vem sendo empregada na linguagem comum em diversas situações.

A lógica da criação da palavra é evidente: numa analogia com pares de vocábulos como beligerante/beligerância, adolescente/adolescência e outros, de refrescante se fez refrescância. Tratava-se de uma licença poética (ou publicitária) que desprezava o termo refrescamento, detentor vernacular de uma acepção idêntica ou no mínimo semelhante: “ato ou efeito de refrescar(-se)”. Outros substantivos tradicionais que poderiam dar conta de tal sentido eram frescor, frescura e os embolorados fresquidão e refrigério. Por razões variadas, nenhum deles deve ter sido considerado tão refrescante quanto refrescância.

Até poucos anos atrás, era impossível encontrar a palavra em qualquer dicionário. Não é mais assim. O primeiro a acolhê-la foi o “Dicionário de usos do português do Brasil”, de Francisco S. Borba, lançado em 2002. O verbete refrescância ganhou a definição de “sensação de frescor” e um exemplo pinçado (significativamente) num texto da “Folha de S.Paulo” sobre marketing: “Refrescância e proteção. É esse o binômio que orienta toda a comunicação da Kolynos”. Registre-se que a marca Kolynos está fora do mercado desde 1997.

Por sua proposta de flagrar os usos correntes no português brasileiro atual, o dicionário de Borba é liberal por definição. No entanto, ganhou nesse caso um aliado de grande peso institucional quando o Houaiss, numa de suas últimas atualizações, passou a registrar o vocábulo, com datação de “cerca de 2000”: “qualidade do que é refrescante; frescor, fresquidão”. O Aulete também já reconhece a palavra. A assimilação completa de refrescância não está distante.

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01/01/2013

às 13:31 \ Especial

ATÉ BREVE

Deixo aos leitores meu agradecimento por um 2012 memorável para Sobre Palavras e os melhores votos de um bom ano novo. Vou ali me reabastecer de palavras e já volto. Retomarei a atualização da coluna no dia 17 de janeiro. Até lá.

 

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