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Arquivo de maio de 2012

31/05/2012

às 15:17 \ Consultório

Antes DO sol nascer ou antes DE O sol nascer?

“Caro Sérgio, me ajude com essa. Todos os meus professores de português sempre me disseram que o certo é dizer: ‘Está na hora DE O povo acordar’, ‘Ele se levantou antes DE O sol nascer’. Diziam que é errado o modo que quase todo mundo fala, ‘Está na hora DO povo acordar’ e ‘Ele se levantou antes DO sol nascer’. Acreditei nisso até um dia desses, quando estava calmamente lendo Saramago e reparei que ele comete vários desses ‘erros’! Ou será que não são erros? Quem está certo, afinal, o Nobel português ou os meus abnegados professores?” (Regina Finotti)

Em sua excelente consulta, Regina traduz uma experiência muito semelhante à minha. Também cresci ouvindo meus professores dizerem que não se pode fazer a contração da preposição “de” com o artigo definido em casos como estes. E por que não? Porque uma análise sintática simples revela que “o povo acordar” e “o sol nascer” são novas orações, com sujeitos – respectivamente “o povo” e “o sol” – que rejeitam naturalmente a contração. Onde já se viu preposicionar sujeito?

Acreditei nessa conversa por muito tempo. Com o passar dos anos, descobri que o mundo da escrita profissional, tanto o jornalístico quanto o editorial, também a tomava como lei pétrea. Passei a ver o veto a tal contração como mais uma daquelas situações em que a oralidade e a escrita discordam, paciência. Se todo mundo (sim, todo mundo mesmo e não “quase todo mundo”, viu, Regina?) diz, por exemplo, que “está na hora da onça beber água”, isso se perdoa na informalidade da língua falada, mas na hora de escrever a história é outra.

Também no meu caso, foi a leitura de autores portugueses o primeiro sinal de que nem tudo era tão pacífico nesse terreno. O fato é que em terras lusitanas a preferência – inclusive de falantes cultos, cultíssimos – se inclina decididamente pela contração em casos como os que Regina cita.

Pequisando mais, fui descobrir que também no Brasil os gramáticos mais arejados já dizem há tempos que fazer ou não fazer a contração é, no mínimo, uma escolha do freguês. O argumento do “sujeito preposicionado” que os conservadores usaram para condenar a contração como solecismo é desmontado desta forma por Evanildo Bechara em sua “Moderna gramática portuguesa”: “Na realidade não se trata de regência preposicional do sujeito, mas do contato de dois vocábulos que, por hábito e por eufonia, costumam vir incorporados na pronúncia. A lição dos bons autores nos manda aceitar ambas as construções [com e sem contração]…”

Cristalino, não? Por que, então, tantos professores de português, editores e revisores brasileiros continuam a passar a caneta vermelha em frases como “chegou a hora da onça beber água”? A questão é mais psicanalítica do que gramatical, mas vou arriscar uma hipótese: a de que nossas taxas historicamente catastróficas de analfabetismo e a tradição bacharelesca da elite letrada nos tornam inclinados a desconfiar da oralidade, da simplicidade, mesmo que às custas de cair no feio pecado da hipercorreção.

Dito isso, convém tomar cuidado com as canetas vermelhas. A menos que você esteja escrevendo em Portugal ou já não deva nada a ninguém, evite a contração de preposição e artigo em construções desse tipo. O fato de o raciocínio ser furado não basta para lhe retirar o poder – viu como escrevi certo, professor?

*

Envie sua dúvida sobre palavra, expressão, dito popular, gramática etc. Toda quinta-feira o colunista responde ao leitor na seção Consultório. E-mail: sobrepalavras@todoprosa.com.br

29/05/2012

às 14:54 \ Curiosidades etimológicas

De ex-presidente a ‘deus ex machina’

De onde saiu o ex-presidente? Como explicá-lo? Não, o assunto a princípio não é Lula, mas a própria palavra “ex-presidente”. Trata-se de contar uma brevíssima história do prefixo “ex” como denotador de um estado que não mais está em vigor, que ficou no passado. Evidentemente, tudo o que se disser sobre ex-presidente valerá também para ex-mulher, ex-jogador, ex-amigo, ex-ministro do STF etc.

Segundo o Houaiss, é uma invenção linguística do início do século 19 – e que na época, supõe-se, terá provocado sua cota de escândalo entre os conservadores do idioma – o uso do prefixo “ex”, sempre seguido de hífen, com a função de indicar a validade vencida da condição expressa por um substantivo.

Esse uso se baseia no principal sentido da preposição latina ex (ou e) que passou ao português: o de indicar “movimento para fora, saída”, presente na formação de uma série de palavras. Algumas delas têm seu antônimo preciso formado com o prefixo in – como exalar (“por o ar para fora”) e exportar (“levar para fora”), opostos de inalar e importar. Outras dispensam essa inversão, mas conservam a mesma ideia, como expulsar (“lançar para fora”) e expectorar (“tirar do peito”).

Curiosamente, e para confundir os incautos, são bem diferentes os sentidos assumidos pela preposição ex, uma das mais ecléticas em sua língua original, na maioria das expressões latinas que têm alguma circulação entre nós – sobretudo na linguagem jurídica, mas não apenas nela. Em ex officio (“realizado por imperativo legal ou em razão do cargo ou da função”), ex quer dizer “por causa de, em consequência de”. Em ex nunc (“a partir de agora”), significa “desde, depois de”. E numa expressão de razoável circulação no vocabulário artístico como deus ex machina, seu sentido é o de “por meio”.

A coluna terminaria aqui, mas é irresistível registrar o significado de deus ex machina, uma curiosidade em si. Hoje uma forma pejorativa de chamar qualquer solução que se considere forçada ou artificial para um impasse dramatúrgico, sua origem é um recurso respeitável do teatro clássico – o de, por meio de alguma traquitana, a tal machina, literalmente fazer descer no palco um ator representando um deus, a fim de dirimir conflitos entre os personagens mortais.

Fugi do assunto principal? Talvez não. Na peça chamada “O julgamento do mensalão”, Lula não tem agido exatamente como um ex-presidente ex machina?

27/05/2012

às 16:21 \ Crônica

Ressacas

'O naufrágio do Minotauro', de J.M.W. Turner

Mais perigosa que os olhos de Capitu, uma ressaca voltou a castigar a costa carioca nos últimos dias. A palavra “ressaca” chegou ao português para nomear os acessos de fúria do mar ainda no século 17, vinda do espanhol: saca e resaca expressavam os movimentos de fluxo e refluxo, de vaivém, de leva-e-traz das ondas.

Já o significado estendido ou metafórico de ressaca, que passou a expressar também o refluxo de ondas figuradas, ou o preço que se paga por surfá-las, é coisa do século 20 – da ressaca alcoólica à moral. Curiosamente, o sentido de mal-estar pós-bebedeira ficou tão popular que ameaça tragar o original. Não falta quem imagine, diante dos famosos “olhos de ressaca” de Capitu no romance “Dom Casmurro”, que a moça vivia de pálpebras baixas, cabeça latejando, incapaz de encarar a luz da manhã – na época não existia Engov.

Para restaurar as intenções de Machado de Assis, vale ler ou reler o seguinte trecho tendo em mente o recente episódio de violência das ondas:

Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca. Para não ser arrastado, agarrei-me às outras partes vizinhas, às orelhas, aos braços, aos cabelos espalhados pelos ombros, mas tão depressa buscava as pupilas, a onda que saía delas vinha crescendo, cava e escura, ameaçando envolver-me, puxar-me e tragar-me.

26/05/2012

às 9:00 \ Palavra da semana

No Vaticano, o culpado era o ‘maior domus’

Cena de "Assassinato em Gosford Park", de Robert Altman

Tecnicamente, Paolo Gabriele, o homem acusado de vazar documentos secretos do Vaticano (leia a notícia aqui), não era o mordomo, mas uma espécie de camareiro do papa Bento XVI. Não importa: as funções são suficientemente semelhantes para que se justifique a piada.

Como se tornou habitual num daqueles romances policiais ingleses das primeiras décadas do século 20, período que o crítico Howard Haycraft chamou de “era de ouro” do gênero e que tem em Agatha Christie seu grande expoente, o culpado era o mordomo. Exatamente o que ocorre, por exemplo, em “O mistério da casa vermelha”, de A.A. Milne, com sua trama artificial e cheia de furos que o americano Raymond Chandler, um dos expoentes de um tipo muito mais realista de romance policial, dissecou com crueldade cômica no ensaio “A arte simples de matar”.

Além de reforçar um velho clichê literário, o episódio também faz justiça à etimologia da palavra mordomo, que, muito apropriadamente, o português foi buscar ainda no século 13 no latim – língua oficial do Vaticano.

Mordomo tem origem na expressão do latim medieval maior domus, “administrador da casa”. Domus significa “da casa” e maior é uma substantivação do adjetivo major, “maior”, com o sentido de alguém que ocupa posição superior, isto é, de mando numa determinada hierarquia – a mesma palavra que o inglês, após tabelinha com o francês, adotou mais ou menos nessa época como mayor, “prefeito”.

24/05/2012

às 15:12 \ Consultório

Por que assalariado = salariado, mas amoral ≠ moral?


“Caro Sérgio, em uma aula de história sobre Revolução Industrial, surgiu a dúvida quanto à palavra ‘assalariado’, que, a grosso modo, é definida como aquele que recebe salário. A questão é se esse ‘a’ no início seria um prefixo de negação (o que seria completamente incoerente com o significado) ou herança etimológica da palavra. Desde já agradeço.” (Douglas Tomaz)

A consulta de Douglas abre um fascinante baú, o da formação das palavras, onde nem tudo é o que parece. No vocábulo assalariado – registrado em português pela primeira vez no ano de 1600, assim como o verbo do qual deriva, assalariar – o “a” não é um prefixo de negação nem uma “herança etimológica”, isto é, um elemento que o tenha acompanhado desde a raiz latina. Trata-se de uma palavra formada no português mesmo, por um processo chamado tecnicamente de “derivação parassintética”.

O nome assusta, mas quer dizer algo simples: o processo pelo qual, de uma palavra, faz-se outra com o acréscimo simultâneo de um prefixo e um sufixo. No caso, a + salário + ar, em que a base é o substantivo vindo no século 13 do latim salarium (“quantia paga aos soldados para a compra de sal”).

O papel dessa partícula “a” não é exatamente de prefixação, mas de prótese: tal acréscimo de um elemento de composição de raiz prepositiva criou em inúmeros casos, a maioria deles ainda nos primeiros séculos de vida do idioma, variações de origem popular para verbos, sem lhes alterar minimamente o sentido: baixar/abaixar, quietar/aquietar, levantar/alevantar, cariciar/acariciar.

Mas existe o verbo salariar? Nos dicionários, sim, até hoje, embora seja pouco usado. De qualquer forma, ainda que os vocábulos salariar e salariado não tivessem vingado na briga de foice da formação do português, o raciocínio acima permaneceria o mesmo. Aos verbos abençoar e ajoelhar não correspondem bençoar e joelhar, mas neles o elemento “a” tem a mesma função que desempenha em assalariar e alevantar.

Se neste caso o “a” fosse, como Douglas chegou a cogitar, o prefixo de origem grega (também usado como “an”) que indica “privação, negação”, a palavra assalariado teria parentesco com analfabeto, acéfalo e amoral, carregando um sentido exatamente oposto ao que carrega: “aquele que não tem salário, desempregado”. Fica evidente de saída que não se trata disso. Mas esses não são os dois únicos papeis que o elemento antepositivo “a” desempenha na formação de palavras.

O “a” também pode vir dos prefixos latinos “ad” e “ab”: no primeiro caso, o mais comum, traz embutida a ideia de “aproximação” e gerou vocábulos como anúncio, alegação e agressão. Outra possibilidade é que seja uma herança do artigo árabe al, que nos legou palavras como azeite, açúcar e açucena.

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22/05/2012

às 15:32 \ Curiosidades etimológicas

A silhueta de ‘monsieur’ Silhouette

Um dos capítulos mais curiosos da etimologia é o dos nomes próprios de personagens históricos que se transformam em substantivos comuns. De vez em quando falamos de um deles aqui: boicote (de Charles Cunningham Boycott, militar inglês) e despautério (de Despauterius, gramático flamengo) são vocábulos que têm histórias saborosas.

O caso da palavra silhueta (“contorno, perfil”), que um dia os puristas condenaram como galicismo, não fica atrás. Como boicote e despautério, ela também nasceu de uma maledicência, registro ao qual nunca faltou apelo popular. Destoando dos termos acima, a ligação do sentido de silhueta com o personagem em questão é bem menos óbvia e até meio controversa. Seja como for, não se discute que teve origem numa homenagem às avessas.

O homem criticado era o político francês Étienne de Silhouette (1709-1767), que em 1759 exerceu por menos de um ano o cargo de controlador geral das finanças do país. Austero, tentou implementar uma reforma econômica ambiciosa, mas, administrador incompetente, limitou-se a esboçá-la e deixá-la incompleta. Isso deu origem à locução adverbial à la silhouette (“à moda de silhouette”), com o sentido de “de modo pobre, precário ou inacabado”. O sentido atual teria se desenvolvido a partir daí, influenciado ainda pelo fato de Silhouette ter como hobby traçar perfis humanos semelhantes ao da ilustração acima.

Essa história é contada pelo Trésor de la Langue Française, que, além de ser um dicionário de prestígio, merece crédito por falar a mesma língua de Étienne de Silhouette. No entanto, há variações em torno dela. O Webster’s etimológico também tem o direito de dar seu pitaco – silhouette estreou em inglês ainda no século 18, cem anos antes de desembarcar no português como silhueta – e faz uso dele para acrescentar detalhes ainda mais maldosos ao perfil do ministro francês.

Segundo essa versão, além de austero com o dinheiro público, o que o indispôs com a nobreza, o sujeito seria também um famoso pão-duro na administração de suas próprias finanças. “Desenhos de contornos, tão avaros de detalhes quanto Silhouette era com o dinheiro, ganharam seu nome”, anota o Webster’s. E acrescenta: “Foi sugerido até que uma de suas economias era decorar sua casa com esses contornos, que ele mesmo fazia, em vez de pinturas mais caras”.

20/05/2012

às 12:32 \ Crônica

Super-heróis

Todos frequentavam seus sonhos, Rogerinho que gritou sou imortal antes de se atirar na frente do caminhão a fim de detê-lo com a força das palmas, Tuca que pulou da janela do quinto andar em busca da teia que o transportaria ao outro lado da rua para glória perene sua e de toda a sua família, Lalau que desafiou o mar na ressaca, não qualificaremos a façanha, só o próprio Lalau poderia esclarecer com que heroicos propósitos fez isso, Verinha que se jogou num bueiro para conhecer o povo subterrâneo e ninguém nunca mais viu (deve ter se dado bem com eles, sabidamente tão esquivos), Lara que atacou com valentia o enxame de abelhas africanas brandindo sua Suzy, Baltazar aquele mirradinho que comeu veneno de rato para ressuscitar ao terceiro dia e ainda Pitoco, o louco, que amarrou o irmão recém-nascido à roda traseira do carro porque achou que seria muito divertido vê-lo chorar girando, ou girar chorando, e soltou o freio de mão na ladeira indo bater num ônibus lá embaixo, ainda não falamos do gordo Antônio Carlos, que se matou com um tiro no ouvido porque tirou seis em ciências, nem poderíamos nos esquecer de Vica, de gloriosa memória e extraordinário poder, que naquela manhã bem cedo, tendo chegado ao galho mais alto da mangueira antes de nós, abriu os braços e virou um míssil, capa vermelha esticada ao vento, na direção daquele que será para sempre um lugar de destaque na galeria das crianças encantadas, esses pirralhos vivos apenas em sonhos que emergem de vez em quando, parece que de anos em anos mas é engano, sorriem no fundo da cena diariamente, e apenas quando algum deles avança com seus caniços ralados intactos, seus dentes para sempre de leite, tentamos correr deles com um horror semelhante à vergonha, talvez um sorriso de pena, que num mecanismo clássico de transferência julgamos ser pena deles, mas que é pena de nós, envelhecemos, o mundo não era assim, só para eles era assim, já não dizemos com autoridade agora o mundo era bonito outra vez senão eu paro de brincar, já não brincamos, Vica, Verinha, Tuca, Baltazar, já não brincamos, mas todos frequentavam seus sonhos.

19/05/2012

às 10:00 \ Palavra da semana

Dilma e a verdade à moda grega

Já nos primeiros minutos do emocionado discurso que pronunciou na cerimônia de instalação da Comissão da Verdade, quarta-feira, a presidente Dilma Rousseff apresentou uma curiosidade filológica surpreendente: “A palavra ‘verdade’, na tradição grega ocidental, é exatamente o contrário da palavra ‘esquecimento’”, disse ela. “É memória e é História. É a capacidade humana de contar o que aconteceu.”

Será mesmo? Diga-se, a bem da verdade, que a palavra verdade nunca significou, em termos filosóficos, exatamente o contrário de esquecimento na “tradição grega ocidental”, mas de fato existe uma verdade etimológica profunda na afirmação da presidente.

Nosso vocábulo verdade veio no século 13 do latim veritas, veritatis, mas o termo grego que os latinos traduziam por essa palavra era etimologicamente bem distinto: na língua de Platão (foto), aletheia carregava sobretudo a ideia de desvelamento, de descoberta, de retirada do véu da aparência para revelar aquilo que verdadeiramente é.

E o que a memória tem a ver com isso? Na mitologia grega, chamava-se Lete o “rio do esquecimento”, que provocava a perda de memória em quem bebesse de sua água. Aletheia (de a + lethe) era, na origem, a negação dessa amnésia, e portanto a afirmação da memória, provavelmente entendida como o próprio fundamento da razão. Como lembra o filósofo catalão José Ferrater Mora, “o sentido primário da verdade como aletheia não é (…) mera descoberta ou patenteamento, mas, sobretudo, a manifestação da recordação”.

17/05/2012

às 16:10 \ Consultório

Escopo com o sentido de ‘abrangência’ é tradução burra?

“Trabalho há muito tempo nas áreas de gestão da qualidade e gerenciamento de projetos. As normas e manuais estrangeiros falam em ‘project scope’ e os nossos apedeutas insistem em verter a expressão para ‘escopo do projeto’. Esse equívoco está presente até nas normas da ABNT. Eu uso o termo ‘abrangência’ e quando falo que escopo significa finalidade, muita gente boa pula da cadeira. Como resolver isso?” Paulo Roberto Granja

Para começar pela pergunta final de Granja: acredito que o único modo de “resolver isso” seja relaxar e reconhecer que o substantivo escopo ganhou uma nova acepção em português, um sentido emergente adquirido de forma um tanto constrangedora, a partir de uma tradução equivocada e preguiçosa do inglês, mas que hoje já circula com força suficiente para se impor.

Está certo o histórico da questão traçado pelo leitor. O substantivo masculino escopo, registrado em português desde 1677, tinha a princípio apenas dois sentidos: o literal de “meta, alvo, mira” e o figurado de “intuito, objetivo, desígnio”. Vindo do grego skopós por meio do latim scopus, estava ligado à ideia de ponto de vista, observação, mirada. Etimologicamente, o escopo é parente do telescópio, do microscópio e de outros vocábulos com a mesma terminação.

Ocorre que o inglês, que já no início do século 16 foi buscar a palavra scope no italiano scopo (mais uma vez, “meta”), conferiu-lhe de saída um sentido diferente: o de alcance, extensão, abrangência. Não fica muito claro como isso ocorreu – provavelmente deu-se outra interpretação à ideia de visão, com a troca do foco fechado num objetivo pela amplitude de todo o campo visual. O fato é que, em inglês, scope nunca significou objetivo. Apesar da origem comum, formava com nosso escopo uma armadilha para tradutores, um daqueles casos de “parece, mas não é”.

Armadilhas desse tipo, no entanto, são curiosas: quando multidões de tradutores caem na arapuca, ela deixa de ser considerada assim. Se tudo indica que a acepção de “gama ou limite de operações” é de fato um estrangeirismo semântico, produto de uma tradução servil, o fato de o Houaiss registrá-la – embora não o Aurélio, que costuma ser mais lento nesses casos – é um reconhecimento à amplitude de seu uso. Línguas mudam o tempo todo, e o erro também é um de seus motores.

Casos semelhantes de anglicismo semântico – hoje em estágios variados de aceitação, mas todos provavelmente destinados a um futuro pacífico – são o do verbo realizar com o sentido de “compreender, dar-se conta de” (to realize) e o do substantivo feminino planta na acepção de “instalação industrial” (plant). Não, eu também não gosto dessas palavras. Consolo-me com o fato de que não sou – ninguém é – obrigado a empregá-las em suas acepções anglófilas. Mas é como diz a velha tirada sobre as bruxas: que elas existem, existem.

15/05/2012

às 15:12 \ Curiosidades etimológicas

Onde se cruzam o trevo, o trivial e a trívia

Cary Grant numa encruzilhada de 'Intriga internacional', que de trivial não tem nada

Tudo começou, como tantas vezes ocorre na nossa e em muitas outras línguas, no latim. Três vias (tri + via), três caminhos, formaram um trivium, definido pelo dicionário Saraiva como “lugar em que se juntam três ruas ou três caminhos, encruzilhada”. Também se usa em português, há pouco mais de um século, um sinônimo que se aproxima etimologicamente do termo latino, embora por muito tempo tenha sido empregado sobretudo com sentido botânico: trevo.

Trivium – um vocábulo de vocação indiscutivelmente espacial, como se vê – deu origem no próprio latim ao adjetivo trivialis, onde fomos buscar no século 17 nosso “trivial”. Curiosamente, essa palavra latina foi empregada desde o início em sentido figurado, expressando um julgamento de valor em vez de uma localização: trivialis significava basicamente aquilo viria a significar trivial, ou seja, “que é do conhecimento de todos; corriqueiro, vulgar; que é muito usado, repetido, batido; que não revela maiores qualidades; ordinário” (Houaiss).

Isso se baseia na ideia de que só coisas vulgares ou grosseiras ocorrem nas encruzilhadas, “onde todo mundo pode passar”, como anota o Webster’s etimológico ao tratar do inglês trivial, outro descendente do adjetivo latino. O dicionário acrescenta: “A ideia de que as pessoas frequentemente se detêm nos pontos onde os caminhos se cruzam para passar o tempo em conversas inconsequentes também pode ter influenciado o desenvolvimento de tal sentido”.

E assim chegamos ao ponto em que o trivial se cruza com o substantivo trívia, uma palavra ainda emergente em português, à espera de um abrigo nos dicionários, mas já consolidada no vocabulário urbano jovem das últimas décadas. Trívia é um empréstimo do inglês trivia – forma abreviada de trivialities, “trivialidades”, surgida no início do século 20 – e tem o sentido de “conjunto de informações e curiosidades de pouca ou nenhuma relevância (mas saborosas)”. Trata-se, portanto, de um sinônimo da popular expressão “cultura inútil”.

 

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