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Por que ignorar pesquisas eleitorais?

Pesquisas de intenção de voto não explicam o jogo político, mas agem sobre ele

O site Poder360, comandado pelos jornalistas Fernando Rodrigues e Tales Faria, divulgou hoje a primeira pesquisa séria sobre as eleições presidenciais de 2018 após a megadelação da Odebrecht. Pensei em comentar e farei isso aqui e/ou em minhas aulas. Mas…

O comportamento eleitoral é o maior enigma da ciência política. Há muitos fatores avaliativos, contextuais, emocionais, ideológicos, institucionais, partidários, psicológicos e temáticos que agem para determinar como e em quem votamos. James Stimson, um dos maiores especialistas no assunto, afirma que a grande complicação é que todas as atitudes humanas causam outras atitudes. Há um viés de endogeneidade (endogeneity bias) em pesquisas eleitorais. Se eu dou mais importância à política social entre todas as políticas públicas, é possível que isto me leve a uma maior identificação com partidos políticos de esquerda. Possível, talvez provável, mas não necessariamente verdade. A relação causal inversa – gostar de um partido de esquerda e aí identificar a política social como a mais relevante entre todas – também é possível, talvez provável, mas não necessariamente verdade.

Outro fator que complica a análise é a correlação entre diversas variáveis independentes (multicollinearity). Continuando o exemplo, se eu adiciono a variável “importância dada ao eleitor para certa política pública”, a análise ganha pouco se já considero outras como “identificação partidária”. Segundo Stimson, isso leva analistas ao erro de pensar que novos temas como imigração (ou, no caso do Brasil atual, a Operação Lava Jato) têm efeitos independentes de outras variáveis e, assim, “causam” comportamento eleitoral. Mas isso ocorre apenas porque esses temas ainda não estão completamente alinhados a outras variáveis, e não porque são mais determinantes do que outros assuntos.

Uma opção para identificar quais variáveis são, de fato, mais importantes para determinar certo resultado (comportamento eleitoral, neste caso), é definir uma outra variável, não diretamente relacionada ao tema de pesquisa, que está correlacionada às variáveis 1 e 2, mas não às variáveis 3 e 4. É o que se chama de “variável instrumental” . Um exemplo clássico, segundo Stimson, é usado para explicar o mercado agrícola. Oferta, demanda e preços de produtos estão correlacionados. A chuva é um fator correlacionado à oferta, mas não à demanda nem aos preços. A renda dos cidadãos é um fator correlacionado à demanda, mas não à oferta.

Porém, de acordo com Stimson, os dois melhores estudos que usaram variáveis instrumentais para resolver o problema do comportamento eleitoral – o de Markus e Converse e o de Page e Jones  – não conseguiram fazê-lo.

Ainda devemos considerar que a importância dada por um eleitor a certo tema e a consequente escolha de certo candidato ou partido que compartilham a mesma posição do eleitor sobre aquele assunto (o que Stimson chama de “issue effect”) pode ser determinada por três processos, dois dos quais nada explicam. O primeiro, que rendeu a Anthony Downs (com toda a justiça) o reconhecimento por um dos maiores clássicos da ciência política até hoje, é que o eleitor observa dois candidatos e escolhe o que mais se aproxima de suas preferências substantivas. Se você gosta do Bolsa Família e atribui alta importância a isto, vai escolher Lula e não Marina Silva. Se você considera responsabilidade fiscal a principal tarefa de um bom presidente, vai escolher qualquer pessoa exceto Dilma Rousseff.

Há duas limitações insuperáveis para esse tipo de explicação. A primeira, de acordo com Stimson, é que o eleitor conhece suas próprias preferências sobre certo assunto, mas não sabe o que os candidatos pensam a respeito. Aí o cidadão pode projetar certas preferências em seu candidato predileto. Pode considerar honestidade na política o assunto mais importante da eleição, pensar em Jair Bolsonaro como alguém que combate a corrupção, e assim justificar sua escolha. Mas o eleitor tem informação incompleta sobre o comportamento de Bolsonaro. Não sabe que o deputado nunca tomou iniciativa desse tipo em seus anos no Legislativo. Candidatos como Ciro Gomes e Marina Silva, que mudam de ideia a respeito de qualquer coisa o tempo todo, dificultam mais ainda esse tipo de projeção.

Por fim, é possível que o eleitor não tenha fortes preferências a respeito de qualquer assunto. Talvez isso ocorra por apatia e falta de confiança nos políticos. Talvez porque não tenha educação suficiente. Talvez porque prefira futebol ao horário-eleitoral-gratuito-que-na-verdade-é-ele-quem-paga-sem-saber. Então ele pode adotar as preferências de seu candidato predileto (de quem ele gosta por outros motivos) a respeito de certos assuntos. Posso gostar do Bolsomito e, por isso, considerar imigrantes um perigo para o país. Mas se eu já gostasse de alguém como Lula por outros motivos, adotarei a posição do candidato petista sobre o assunto.

O texto do Poder360 que analisa a pesquisa eleitoral tem frases como:

* “Alckmin e Aécio foram citados nas delações da Odebrecht. Ambos negam ter cometido irregularidades, mas o desgaste tem sido intenso por causa da exposição das acusações na mídia”;

* “O empate técnico entre Bolsonaro e Doria é uma indicação sobre como se mexe a onda conservadora que tomou conta de parte do eleitorado”’;

* “Em teoria, Doria tem espaço para crescer nas preferências do eleitorado quando se tornar mais conhecido. Isso vai depender, entretanto, de seu desempenho como prefeito de São Paulo e de como a conjuntura política será alterada nos próximos meses”;

* “Aécio Neves, Geraldo Alckmin e José Serra foram citados nas delações da Odebrecht. Todos negam ter cometido irregularidades, mas o desgaste já é real”

São frases sobre relações causais que, como mostra o ótimo texto de James Stimson, não têm validade alguma – exceto para também participar do jogo político e influenciar a opinião pública.

Tudo bem. Eu também faço isso.

(Entre em contato pelo meu site pessoal, Facebook e Twitter)

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  1. AUGUSTO MARAJÓ

    Há uma avalanche de provas e indícios contra Lula, que podem não levá-lo à cadeia-não confio no STF-mas servem para provar o patife que ele é, talvez, o maior que já existiu “nunca, antes na história desse país”, mesmo assim, ele lidera pesquisas,então, responda essa colunista: ele é carismático e competente, ou é o povo brasileiro que é mesmo tudo o que dizem os estrangeiros: metido a inteligente, mas tapado?

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