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Eike Batista

18/09/2014

às 7:48 \ Democracia, Economia, História

A queda de “gigantes”: Eike Batista e Lula tomam chá de sumiço

Eike Batista e Lula: arrogância fatal

Por onde andam Lula e Eike Batista? Há mais semelhanças entre ambos do que se poderia imaginar em um primeiro olhar. Os dois são filhos do mesmo fenômeno, um na política e o outro na economia. Os dois se julgaram mais poderosos e brilhantes do que são em suas respectivas áreas. Os dois se deixaram levar pela extrema arrogância. E agora, os dois saem de fininho de cena, tentam se manter enclausurados, resguardados das crises que os engoliram e expuseram suas reais fraquezas.

Eike, o “Midas”, teve seus bens bloqueados, e agora alega ter um patrimônio negativo de R$ 1 bilhão! Réu em ação penal, acusado de manipular as ações do grupo, ele luta para preservar alguma parte da fortuna que já teve, fruto da bolha Brasil. Sobre sua situação delicada de hoje, Eike disse: “Fui educado como um jovem de classe média. E a gente não perde isso”. Mas quem observava o empreendedor nos anos de euforia não via nada disso. Humildade e pé no chão eram coisas que passavam longe do arrogante que seria o “homem mais rico do mundo”, sem saber apenas se passaria Carlos Slim e Blll Gates pela esquerda ou pela direita.

Já Lula, o carismático “gênio” da política, andou bem sumido, e resolveu aparecer na Petrobras, com um macacão laranja como o da estatal, para um comício chapa-branca escancarado. A ideia era realizar um “abraço” simbólico em torno do prédio da empresa, mas pela quantidade minguada de “militantes” (essa gente é paga para estar ali), não deu nem para um aperto de mão. Lula não consegue mais encher comícios como antes. As pessoas cansaram dele. E de seus postes, então, nem se fala! Como já disse aqui, Lula vai conseguir destruir o PT e apagar todos os postes que acendeu com a ajuda da bolha Brasil.

Em julho de 2013, escrevi para o GLOBO um artigo fazendo um paralelo entre ambos. Vale reproduzi-lo aqui, quando a queda dos dois “gigantes” parece cada vez mais evidente e inevitável:

A queda

Eike Batista está para a economia como Lula está para a política. O “sucesso” de ambos, em suas respectivas áreas, tem a mesma origem. Trata-se de um fenômeno bem mais abrangente, que permitiu a ascensão meteórica de ambos como gurus: Eike virou o Midas dos negócios, enquanto Lula era o gênio da política. Tudo mentira.

Esse fenômeno pode ser resumido, basicamente, ao crescimento chinês somado ao baixo custo de capital nos países desenvolvidos. As reformas da era FHC, que criaram os pilares de uma macroeconomia mais sólida, também ajudaram. Mas o grosso veio de fora. Ventos externos impulsionaram nossa economia. Fomos uma cigarra que ganhou na loteria.

A demanda voraz da China por recursos naturais, que por sorte o Brasil tem em abundância, fez com que o valor de nossas exportações disparasse. Por outro lado, após a crise de 2008 os principais bancos centrais do mundo injetaram trilhões de liquidez nos mercados. Isso fez com que o custo do dinheiro ficasse muito reduzido, até negativo se descontada a inflação.

Desesperados por retorno financeiro, os investidores do mundo todo começaram a mergulhar em aventuras nos países em desenvolvimento. Algo análogo a alguém que está recebendo bebida grátis desde cedo na festa, e começa a relaxar seu critério de julgamento, passando a achar qualquer feiosa uma legítima “top model”.

Houve uma enxurrada de fluxo de capitais para países como o Brasil. A própria presidente Dilma chegou a reclamar do “tsunami monetário”. Os investidores estavam em lua de mel com o país, eufóricos com o gigante que finalmente havia acordado. Havia mesmo?

O fato é que essa loteria permitiu o surgimento dos fenômenos Eike Batista e Lula. Eike, um empresário ousado, convenceu-se de que era realmente fora de série, que tinha um poder miraculoso de multiplicar dólares em velocidade espantosa, colocando um X no nome da empresa e vendendo sonhos.

Lula, por sua vez, encantou-se com a adulação das massas, compradas pelas esmolas estatais, possíveis justamente porque jorravam recursos nos cofres públicos. A classe média também estava em êxtase, pois o câmbio se valorizava e o crédito se expandia. Imóveis valorizados, carros novos na garagem, e Miami acessível ao bolso.

O metalúrgico, que perdera três eleições seguidas, tornava-se, quase da noite para o dia, um “gênio da política”, um líder carismático espetacular, acima até mesmo do mensalão. Confiante desse poder, Lula escolheu um “poste” para ocupar seu lugar. E o “poste” venceu! Nada iria convencê-lo de que isso tudo era efeito de um fenômeno mais complexo do que ele compreendia.

Dilma passou por uma remodelagem completa dos marqueteiros, virou uma eficiente gestora por decreto, uma “faxineira ética”, intolerante com os “malfeitos”. Tudo piada de mau gosto, que ainda era engolida pelo público porque a economia não tinha entrado na fase da ressaca. O inverno chegou.

O crescimento chinês desacelerou, e há riscos de um mergulho mais profundo à frente. A economia americana se recuperou parcialmente, e isso fez com que o custo do capital subisse um pouco. Os ventos externos pararam de soprar. Os problemas plantados pela enorme incompetência de um governo intervencionista, arrogante e perdulário começaram a aparecer.

A maré baixou, e ficou visível que o Brasil nadava nu. O BNDES emprestou rios de dinheiro a taxas subsidiadas para os “campeões nacionais”, entre eles o próprio Eike Batista. O Banco Central foi negligente com a inflação, que furou o topo da meta e permaneceu elevada, apesar do fraco crescimento econômico. Os investidores começaram a temer as intervenções arbitrárias de um governo prepotente, e adiaram planos de investimento.

A liquidez começou a secar. O fluxo se inverteu. E o povo começou a ficar muito impaciente. Eike Batista se viu sem acesso a novos recursos para manter seu castelo de cartas. As empresas do grupo X despencaram de valor, sendo quase dizimadas enquanto as dívidas, estas sim, pareciam se multiplicar. A palavra calote passou a ser mencionada. O BNDES pode perder bilhões do nosso dinheiro.

Já a presidente Dilma, criatura de Lula, mergulhou em seu inferno astral. Sua popularidade desabou, os investidores travaram diante de tantas incertezas, e todos parecem cansados de tamanha incompetência.

Eike e Lula deveriam ler Camus: “Brincamos de imortais, mas, ao fim de algumas semanas, já nem sequer sabemos se poderemos nos arrastar até o dia seguinte”.

Rodrigo Constantino

15/04/2014

às 11:00 \ Corrupção, Investimentos

Caso Eike Batista: se fosse nos Estados Unidos isso dava cadeia!

Fonte: GLOBO

A atuação de Eike Batista na crise da petroleira OGpar (ex-OGX) vai ser investigada no Rio e em São Paulo. Uma associação que representa minoritários de empresas brasileiras, apresenta nesta terça-feira ao Ministério Público Federal (MPF) paulista uma queixa contra o empresário, contra a Bolsa de Valores de São Paulo e contra seu presidente, Edemir Pinto.

Entre as acusações está a omissão da identidade de Eike enquanto ele vendia ações da ex-OGX durante negociações na Bovespa entre 24 de maio e 10 de junho de 2013. O empresário só informou ao mercado que estava se desfazendo dos papéis em 10 de junho daquele ano. O anúncio derrubou a cotação em 9% naquele dia.

Em outra frente, o MPF no Rio de Janeiro solicitou que a Polícia Federal (PF) instaure um inquérito para apurar a suposta prática de crimes financeiros por Eike, enquanto controlador da petroleira. O pedido foi embasado nas conclusões do relatório de acusação elaborado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM), encaminhado ao MPF em 19 de março. O procurador que está à frente do caso é Marcio Barra Lima.

Crime financeiro é coisa muito séria em país sério. Quando houve as primeiras acusações e indícios de “insider trading” por parte de Eike Batista, escrevi sobre o assunto no meu antigo blog. À época, eis minha mensagem, que repito aqui:

O mercado só funciona com regras claras, e punição para quem as descumpre. Leiam Luigi Zingales sobre o assunto: seus dois livros são fundamentais para compreender a importância das instituições no bom funcionamento do capitalismo. Tem libertário que defende o “insider trading”, mas o fato é que esse tipo de atitude vai minando a credibilidade do próprio mercado. E ela é crucial para o progresso.

Fosse nos Estados Unidos, Eike Batista acabaria atrás das grades, caso fique comprovado o “insider trading”. Acho que os americanos não chegaram aonde chegaram à toa, ou porque são bobos. Eles entendem – ou ao menos entendiam – a relevância da confiança nas regras do jogo. O Brasil precisa trilhar esse caminho também.

Guardadas as devidas proporções, Bernard Madoff está preso até hoje, apesar de sua fortuna. No Brasil, ninguém acredita que Eike Batista possa parar atrás das grades. E isso diz muito sobre a diferença entre cada país…

Rodrigo Constantino

10/02/2014

às 23:00 \ Economia

Abílio Diniz recusa convite para pasta de desenvolvimento

Fonte: GLOBO

É, pelo visto está difícil o governo conseguir um “cavalo de Tróia” para enganar o mercado. Parece que finalmente os empresários acordaram! Mesmo os mais próximos do governo… Vejam notícia do GLOBO:

O empresário Abílio Diniz, presidente do conselho administrativo da BRF, foi convidado pelo Palácio do Planalto para assumir o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) no lugar de Fernando Pimentel, que deixará o cargo para se candidatar ao governo de Minas Gerais. Segundo fontes, o nome de Diniz surgiu há cerca de duas semanas, como alternativa a Josué Gomes da Silva, filho caçula do falecido vice-presidente José Alencar, que recusara o convite para assumir a pasta.

Diniz confirmou a pessoas próximas ter recebido o convite. E disse ter ficado lisonjeado com a lembrança de seu nome. Mas explicou que não aceitaria o convite por considerar que, neste momento, pode “colaborar mais com o país” ficando na iniciativa privada.

A substituição do novo titular do MDIC tem sido um desafio para a presidente Dilma Rousseff. Além de Abílio Diniz e Josué Gomes da Silva, também disseram não o atual ministro da Secretaria da Micro e Pequena Empresa, Guilherme Afif, e o ex-secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa.

Que dureza, dona Dilma! Aceita um Dreher? Pelo visto não será tarefa trivial acalmar o mercado apenas no gogó e com algum troféu no ministério. Após tanta burrada e intervenção, a turma está como São Tomé: quer ver para crer. Ninguém tem coragem – ou insanidade – para se expor dessa maneira e virar bucha de canhão. Credibilidade é algo que se leva anos para construir, mas dias para destruir.

Como não sou da turma do “quanto pior, melhor”, vou tentar colaborar. Eis dois nomes de empresários que provavelmente aceitariam o convite: Benjamin Steinbruch e Eike Batista. O primeiro, pois basta ler seus artigos na Folha para ver como aplaude seu governo incompetente; o segundo porque deve (ou deveria) ter um sentimento de gratidão por toda a ajuda que recebeu do BNDES no governo do PT.

Só acho que nenhum dos dois nomes serviria para acalmar o mercado. Mas isso já é outra história…

Rodrigo Constantino

02/12/2013

às 11:41 \ Empreendedorismo, Filosofia política

A ironia de Gregorio Duvivier saiu pela tangente

Ao estilo de Antonio Prata, Gregorio Duvivier parte para a ironia em sua coluna de hoje na Folha, aparentemente tentando ridicularizar aqueles que delegam ao mercado a solução para todos os nossos males. Antes de entrar na questão, vale notar que não existem panaceias. NADA é solução mágica para nossos problemas!

Dito isso, várias coisas citadas pelo autor tem fundamento, mesmo que ele tenha tentado ser engraçado. Vejamos:

A gente não é a nova direita, até porque a gente não acredita nessa coisa de esquerda e direita. As pessoas dizem isso só porque a gente defende o Estado mínimo. É claro que a gente defende: tudo o que é privado funciona. Tudo o que é público é uma droga.

Nem tudo que é privado funciona, nem tudo que é público é uma droga. Mas quase sempre o setor privado vai ser melhor do que o setor público. Alguns serviços simplesmente não devem ficar a cargo da lei de oferta e demanda com base no lucro, como a polícia. Mas estado empresário é absurdo, e nunca funciona bem.

Pensa bem: o mundo não seria muito melhor se fosse uma grande empresa, com wi-fi, coffee break e um bom termostato? Não existe nada mais deprimente que uma repartição pública. Ou que o piscinão do Sesc.

Todo mundo sabe que os melhores hospitais são os privados: o médico ganha melhor e o paciente é mais bem tratado. Quem sai perdendo com a privatização da saúde? O PT, que ganha uma baba com essa festa da uva que é a saúde pública. Iam perder essa bocada. Pior para eles. E para os médicos da saúde pública, que hoje em dia estão de papo para o ar e do dia para noite teriam que trabalhar que nem todo mundo.

A educação é a mesma coisa. Só mesmo privatizando para acabar com a farra dos professores. Precisava de um bom Roberto Justus para dizer: você está demitido. Duvido que ia ser essa festa –você já viu a Coca-Cola entrar em greve? Não entra. O que falta na educação é alguém para fazer a limpa e deixar só quem presta.

A meritocracia sem dúvida é uma das principais armas do setor privado, uma grande vantagem em relação ao setor público. Demitir professores incompetentes e premiar os melhores seria um caminho fundamental para melhorar a qualidade do ensino no país. Realmente, a Coca-Cola não entra em greve, e seria bom o autor e seus leitores realmente refletirem sobre os motivos…

Aí vocês me perguntam: e aqueles que não podem pagar por educação ou por saúde? De repente, isso é bom para dar uma sacudida neles. O mundo é meritocrático. O que isso significa? Significa que eu não ralei a bunda por cinco anos numa faculdade privada das 9 às 5 da tarde pegando trânsito todo dia e tendo que fazer matérias que eu não queria, algumas inclusive de religião, para botar os meus filhos na mesma escola que o filho do motoboy que levou o meu retrovisor.

Agora, se o motoboy tiver que pagar caro pelos serviços, tudo muda. Ele pensa: “Eu tenho que trabalhar, senão não vou enriquecer, senão meu filho com leucemia não vai ter tratamento”. Resultado: desemprego zero. Crescimento a toque de caixa. Não adianta: sem a obrigação de trabalhar, o povo não trabalha.

Meritocracia é mesmo crucial, assim como a noção de responsabilidade individual. Não há dúvida de que é injusto forçar aquele que ralou, correu atrás, dedicou-se com afinco para subir na vida, a pagar pelas benesses do outro que seguiu outro caminho.

Claro que nem todos que ficam para trás são vagabundos. Há poucas oportunidades para essa gente, em boa parte por culpa do próprio governo intervencionista e paternalista. Em um ambiente liberal, haveria muito mais oportunidade para os mais pobres, como ocorre nos países mais capitalistas.

Mas a grande maioria dos liberais, ainda que saibam dos efeitos perversos do welfare state, não chegam a pregar a abolição total de uma rede de segurança para quem ficou para trás. Defendem, isso sim, um modelo descentralizado e com porta de saída, em vez de esmolas populistas que prejudicam a própria democracia.

Bom mesmo era entregar o país nas mãos de um puta empresário. Tipo o Eike. Ou o presidente da Gol. Esse daí é um gênio. “Acabou essa festa de todo mundo ganhar barrinha de cereal. Agora você tem que pagar por ela. E caro.” É disso que o Brasil precisa: de um bom CEO, com MBA no exterior, que manje de marketing, “people management” e Excel. Vou ligar para o Eike. Vai que ele topa. Acho que hoje em dia ele topa.

Aqui a ironia do autor fica mais aparente. Mas o tiro sai pela culatra. O mercado não funciona bem por causa de Eike Batista, e sim pelo seu mecanismo impessoal de incentivos. Eike, que acima de tudo é exemplo do capitalismo de estado, não do liberalismo, vai à bancarrota se não entregar os resultados prometidos. A eficiência está no processo, não na genialidade de um ou outro empresário.

Se o controle do país fosse colocado hoje nas mãos do melhor empresário do mundo, isso não resolveria nossos problemas. Ao brincar com tal hipótese, o autor, sem se dar conta, cai na falácia dos intervencionistas, em busca do messias salvador.

A solução não está em quem comanda a economia, mas em como ela funciona. É preciso muito mais liberdade econômica, pois somente assim as coisas funcionarão melhor. No exemplo bobo citado pelo autor, a Gol cortar a barrinha de cereal é parte do mecanismo de tentativa e erro do mercado.

Se o consumidor tiver alternativa, em ambiente de concorrência, ele poderá escolher o que lhe atende melhor: serviço mais simples e barato, ou mais luxuoso e caro. O mercado costuma atender com mais eficiência as diferentes preferências subjetivas dos clientes.

Portanto, o que o Brasil precisa não é de um “puta” empresário, com MBA em marketing no exterior; e sim de mais liberdade econômica, para que os melhores empreendedores possam emergir no processo de criação destruidora do mercado. Não sabemos ainda quem eles são e, uma vez no topo, não há garantia alguma de que lá permanecerão. Eis a grande vantagem da livre concorrência…

02/11/2013

às 11:29 \ Cultura, Democracia, Economia

Eike Batista, Lula e Camus: a empáfia e a queda

Juntando o centenário de Albert Camus, a bancarrota oficial da maior empresa do grupo X, de Eike Batista, e ainda o retorno de Lula ao cenário político, fazendo bravatas e falando besteira de cima de sua típica arrogância, resolvi resgatar esse meu artigo publicado no GLOBO, que mistura justamente Camus, Eike Batista e Lula. Divirtam-se:

A queda

Eike Batista está para a economia como Lula está para a política. O “sucesso” de ambos, em suas respectivas áreas, tem a mesma origem. Trata-se de um fenômeno bem mais abrangente, que permitiu a ascensão meteórica de ambos como gurus: Eike virou o Midas dos negócios, enquanto Lula era o gênio da política. Tudo mentira.

Esse fenômeno pode ser resumido, basicamente, ao crescimento chinês somado ao baixo custo de capital nos países desenvolvidos. As reformas da era FHC, que criaram os pilares de uma macroeconomia mais sólida, também ajudaram. Mas o grosso veio de fora. Ventos externos impulsionaram nossa economia. Fomos uma cigarra que ganhou na loteria.

A demanda voraz da China por recursos naturais, que por sorte o Brasil tem em abundância, fez com que o valor de nossas exportações disparasse. Por outro lado, após a crise de 2008 os principais bancos centrais do mundo injetaram trilhões de liquidez nos mercados. Isso fez com que o custo do dinheiro ficasse muito reduzido, até negativo se descontada a inflação.

Desesperados por retorno financeiro, os investidores do mundo todo começaram a mergulhar em aventuras nos países em desenvolvimento. Algo análogo a alguém que está recebendo bebida grátis desde cedo na festa, e começa a relaxar seu critério de julgamento, passando a achar qualquer feiosa uma legítima “top model”.

Houve uma enxurrada de fluxo de capitais para países como o Brasil. A própria presidente Dilma chegou a reclamar do “tsunami monetário”. Os investidores estavam em lua de mel com o país, eufóricos com o gigante que finalmente havia acordado. Havia mesmo?

O fato é que essa loteria permitiu o surgimento dos fenômenos Eike Batista e Lula. Eike, um empresário ousado, convenceu-se de que era realmente fora de série, que tinha um poder miraculoso de multiplicar dólares em velocidade espantosa, colocando um X no nome da empresa e vendendo sonhos.

Lula, por sua vez, encantou-se com a adulação das massas, compradas pelas esmolas estatais, possíveis justamente porque jorravam recursos nos cofres públicos. A classe média também estava em êxtase, pois o câmbio se valorizava e o crédito se expandia. Imóveis valorizados, carros novos na garagem, e Miami acessível ao bolso.

O metalúrgico, que perdera três eleições seguidas, tornava-se, quase da noite para o dia, um “gênio da política”, um líder carismático espetacular, acima até mesmo do mensalão. Confiante desse poder, Lula escolheu um “poste” para ocupar seu lugar. E o “poste” venceu! Nada iria convencê-lo de que isso tudo era efeito de um fenômeno mais complexo do que ele compreendia.

Dilma passou por uma remodelagem completa dos marqueteiros, virou uma eficiente gestora por decreto, uma “faxineira ética”, intolerante com os “malfeitos”. Tudo piada de mau gosto, que ainda era engolida pelo público porque a economia não tinha entrado na fase da ressaca. O inverno chegou.

O crescimento chinês desacelerou, e há riscos de um mergulho mais profundo à frente. A economia americana se recuperou parcialmente, e isso fez com que o custo do capital subisse um pouco. Os ventos externos pararam de soprar. Os problemas plantados pela enorme incompetência de um governo intervencionista, arrogante e perdulário começaram a aparecer.

A maré baixou, e ficou visível que o Brasil nadava nu. O BNDES emprestou rios de dinheiro a taxas subsidiadas para os “campeões nacionais”, entre eles o próprio Eike Batista. O Banco Central foi negligente com a inflação, que furou o topo da meta e permaneceu elevada, apesar do fraco crescimento econômico. Os investidores começaram a temer as intervenções arbitrárias de um governo prepotente, e adiaram planos de investimento.

A liquidez começou a secar. O fluxo se inverteu. E o povo começou a ficar muito impaciente. Eike Batista se viu sem acesso a novos recursos para manter seu castelo de cartas. As empresas do grupo X despencaram de valor, sendo quase dizimadas enquanto as dívidas, estas sim, pareciam se multiplicar. A palavra calote passou a ser mencionada. O BNDES pode perder bilhões do nosso dinheiro.

Já a presidente Dilma, criatura de Lula, mergulhou em seu inferno astral. Sua popularidade desabou, os investidores travaram diante de tantas incertezas, e todos parecem cansados de tamanha incompetência.

Eike e Lula deveriam ler Camus: “Brincamos de imortais, mas, ao fim de algumas semanas, já nem sequer sabemos se poderemos nos arrastar até o dia seguinte”.

01/11/2013

às 8:21 \ Economia, Empreendedorismo, Investimentos

A bancarrota da OGX e a conclusão absurda de Emir Sader

A bancarrota da OGX representa o que em termos de filosofia política e econômica? Que o livre mercado não funciona? Que o setor privado é ineficiente? Creio que somente alguém muito desprovido de lógica diria isso, não é mesmo? Pois foi exatamente o que fez o ícone da esquerda, Emir Sader. Vejam o que ele postou em seu Twitter:

Emir Sader OGX

São tantos erros que é difícil saber por onde começar. Mas vamos lá. Em primeiro lugar, uma andorinha só não faz verão. Seria absurdo pegar um caso de empresa privada fracassada para constatar que as “empresas privadas” são frágeis. Também seria absurdo pegar uma única estatal boa e concluir que estatais funcionam bem. Seria pegar uma exceção e extrapolar para uma regra.

Mas nem é esse o caso! Quem diria, nessa altura do campeonato, que a Petrobras é um sucesso? Só alguém muito desligado da realidade. A Petrobras é uma enorme decepção nos mercados nos últimos anos. Empresa politizada, que toma decisões com base em critérios políticos e não econômicos, envolvida em vários casos de corrupção, a única coisa que tem crescido nela é o endividamento. Que sucesso é esse?

No mais, observar a falência de uma empresa privada e concluir que todas são mais frágeis é algo patético. Será que Sader nunca ouviu falar de “destruição criadora”, expressão cunhada por Schumpeter? Ora, a grande vantagem do setor privado é justamente a possibilidade dos incompetentes irem à bancarrota!

É isso que coloca constante pressão pela busca de excelência, punindo os piores e premiando os melhores. A ausência desse mecanismo de incentivos no setor público é seu grande calcanhar de Aquiles. Sader, falando em nome de muitos esquerdistas, não se dá conta disso, o que prova sua ignorância acerca do funcionamento do livre mercado e suas vantagens.

Por fim, a falência da OGX não chega a ser um caso de fracasso do setor privado, não tanto quanto do setor público. É verdade que muitos investidores e bancos privados entraram na onda e inflaram a bolha do vendedor de sonhos. Mas o governo tem suas impressões digitais em todas as cenas do crime. O BNDES escolheu o grupo X como um dos “campeões nacionais”, e deu quase R$ 10 bilhões em crédito subsidiado para Eike Batista.

Como Sader pode ignorar isso? Eike Batista, na verdade, é o ícone do nosso modelo falido de capitalismo de estado. Já venho condenando isso há tempo, muito antes da situação de suas empresas chegarem a esse estado falimentar. Quem deveria ter vergonha com essa queda de Eike é o governo do PT! Mas cobrar dignidade e coerência dessa esquerda é demais da conta…

30/09/2013

às 15:32 \ Economia, Investimentos

Mantega diz que grupo X, que o governo ajudou a inflar, afetou imagem do Brasil

Fonte: Folha

A cara de pau do alto escalão desse governo não tem limite. A última do ministro Guido Mantega foi colocar a culpa do azedume em relação ao Brasil na queda do grupo X, de Eike Batista. Disse o ministro:

A situação da OGX já causou um problema para a imagem do país e para a Bolsa da Valores que já teve uma deterioração de 10% por conta dessas empresas.

Ora, ministro, e quem foi que, para começo de conversa, ajudou a inflar a bolha X? O BNDES colocou mais de R$ 10 bilhões de recursos, subsidiados, nas empresas de Eike Batista.

Está certo que muitos investidores e bancos privados também acreditaram no sonho vendido pelo empreendedor, mas lá estava a impressão digital do governo, na cena do crime, dando credibilidade para os demais com o peso dos bilhões do BNDES.

Não dá para separar a ascensão e queda de Eike Batista desse modelo nacional-desenvolvimentista adotado pelo governo. São simbióticos. O capitalismo de estado do PT ajuda a criar filhotes como Eike Batista.

A queda de seu império é mais um sintoma do que uma causa dos problemas brasileiros, ministro. No capitalismo de livre mercado, empresas vão à bancarrota o tempo todo, mas pelas forças do próprio mercado.

O problema é quando tem a mão visível do governo escolhendo “campeões nacionais”, que se mostram, depois, retumbantes fracassos.

Não, ministro. A imagem do Brasil lá fora (e aqui dentro também, para quem tem olhos para enxergar) não está péssima por culpa do Eike Batista. A revista The Economist não cita isso como um dos fatores do clima negativo para os investidores.

Quer encontrar as origens dos problemas, do mau humor dos investidores? Então procure a ajuda de um espelho!

16/09/2013

às 13:35 \ Empreendedorismo, Investimentos

Você confia no mapa astral de Eike Batista?

Fonte: Veja

Eike Batista deu uma entrevista ao WSJ culpando os executivos, os investidores e a falta de sorte por sua derrocada. Parece que o ex-presidente Lula fez mesmo escola pelo Brasil todo. Agora sempre que algo dá errado, é culpa dos outros. Ninguém mais é responsável pelos erros, ou não sabia de nada.

O paralelo entre Lula e Eike Batista não fica só nisso. Escrevi um artigo sobre a queda de ambos, um na política e o outro na economia, traçando justamente as semelhanças entre os casos. Nele, explico que o “sucesso” dos dois se deveu muito mais a fatores exógenos do que ao mérito pessoal. Ao ignorarem isso, deixaram a arrogância subir à cabeça, e não viram a hecatombe à frente.

Ao continuar em negação da realidade, sem admitir os próprios erros, Eike Batista insiste em crenças milagrosas. Não é o primeiro ou o único empresário supersticioso, mas esse grau de misticismo beira o absurdo (não vamos esquecer que ele mudou até a direção do sol no logo da empresa para dar mais sorte, após contratar “especialista” no assunto). Diz a matéria:

O proprietário do EBX acredita em sorte e superstições. “Se você olhar para o meu mapa astral, esse período não foi favorável para mim“, disse. “A boa fase? Ela já começou, literalmente, este mês.” Otimista, Eike já prevê um retorno. Profissionais do mercado que o encontraram nos últimos dias dizem que ele fala incessantemente sobre a história do empreendedor americano Elon Musk, fundador da empresa de pagamentos Paypal, da companhia de viagens espaciais SpaceX e da fabricante de carros elétricos Tesla Motors.

Durante a entrevista, o empresário citou várias vezes Musk como um empreendedor que foi desacreditado pelos investidores e depois mostrou que eles estavam errados. Ele acredita que vai ter o mesmo triunfo quando seu porto, sua mina e outras partes do grupo se tornarem rentáveis. “Musk disse que começar uma empresa é como comer vidro”, disse. “Eu estou comendo vidro.”

Tudo bem, quem perdeu rios de dinheiro acreditando no engodo vendido por Eike Batista na época da euforia irracional tem alguma justificativa. Acontece nas melhores famílias. E, ainda por cima, havia aqueles bilhões todos do BNDES subsidiados, para dar uma “mãozinha” ao empresário.

Mas quem vai apostar um tostão nele agora? Quem o fizer, que assuma a responsabilidade por seu ato. Terá que confiar não na capacidade de evoluir e de aprender com os próprios erros, fundamental para empreendedores; mas sim no mapa astral de Eike Batista. Boa sorte. Você vai mesmo precisar dela…

Túnel do tempo – Luciano Coutinho

A história não se repete, mas rima. – Mark Twain

O blog lança, a partir de hoje, nova série, na linha da já bem-sucedida “Brasileiro é otário?”. Trata-se de “Túnel do tempo”, aproveitando que o jornal O GLOBO disponibilizou seu acervo em forma digital, somando-se ao da Folha e Veja.

Ficou mais fácil pesquisar as barbaridades ditas e feitas por autoridades que ainda gozam de muita credibilidade na imprensa, sabe-se lá o motivo. São pessoas que conseguiram defender praticamente tudo errado no passado, insistem nos mesmos erros, mas poucos apontam o dedo em sua direção com o histórico à mostra. Façamos isso, então!

E comecemos com o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, poderoso economista que cuida de desembolsos na casa quase dos R$ 200 bilhões por ano. O BNDES sob Coutinho virou uma grande Bolsa Empresário, que vai selecionar os “campeões nacionais” de cima para baixo e criar impérios com empréstimos subsidiados – leia-se pagos do nosso bolso.

Mas nada disso é novo. Na verdade, Coutinho foi Secretário Executivo do Ministério de Ciência e Tecnologia entre 1985 e 1988. Justamente na época da “Lei da Informática”, criada para garantir uma reserva de mercado aos fabricantes nacionais para impulsionar a industrialização doméstica.

O liberal Roberto Campos foi um duro crítico, e estava certo, claro. O nacional-desenvolvimentista Luciano Coutinho foi um empolgado entusiasta, e estava errado, claro. A lei atrasou nosso desenvolvimento econômico, prejudicou as empresas dependentes de tecnologia, e garantiu mamatas para poucos “amigos do rei”, sem falar da Cobra, empresa que teve de ser estatizada e sustentada pelos “contribuintes”.

Vejamos algumas matérias da época, em nosso túnel do tempo:

O que temos aí, nessa pequena amostra? Um nacionalista ocupando importante cargo no governo, e o utilizando para selecionar “campeões nacionais” com recursos públicos, para fazer nosso desenvolvimento decolar. Resultado concreto: atraso tecnológico e empresas falidas caindo no colo do estado. Déjà vu!

Alguém está surpreso ao saber que o BNDES, aos cuidados do mesmo Luciano Coutinho, só que agora no governo do PT, destinou bilhões subsidiados ao grupo EBX, de Eike Batista? Pois é…

08/08/2013

às 20:05 \ Instituições, Legislação

Em país sério isso dava até cadeia…

Fonte: Veja

A OGX soltou o seguinte comentário aos investidores hoje:

Rio de Janeiro, 08 de agosto de 2013 – A OGX Petróleo e Gás Participações S.A. (“OGX”) (Bovespa: OGXP3; OTC: OGXPY.PK), comunica ao mercado os seguintes esclarecimentos a respeito de recente declaração do Sr. Eike Batista em artigo publicado na imprensa no sentido de que teria sido informado sobre a certificação de 10,8 bi boe feita por empresa especializada (Certificadora).

(i) A Companhia em diversas ocasiões contratou a auditoria dos seus recursos junto a renomadas Certificadoras.

(ii) As Certificadoras fornecem uma estimativa para cada categoria de recursos (potencial, prospectivos e contingentes). A soma das quantidades dessas diversas categorias foi realizada pelo então Diretor Geral e de Exploração da Companhia em 2011, a título ilustrativo, e resultou no número de 10,8 bi boe.

(iii) A declaração do Sr. Eike Batista na imprensa recentemente, na qual fez referência à quantidade de 10,8 bi boe, foi baseada exclusivamente nas informações que recebeu do referido Diretor Geral e de Exploração da Companhia e não em afirmação constante de relatório de qualquer Certificadora contratada pela Companhia.

Há uma tentativa de jogar a responsabilidade para os ombros do Diretor Geral e de Exploração da Companhia ou foi impressão minha? Mas, independentemente de quem na empresa seja o culpado, a declaração feita por Eike Batista não foi somente irresponsável; ela foi criminosa!

O mercado acionário conta com regras rigorosas de comunicado ao mercado, justamente para evitar manipulações, informações privilegiadas e coisas do tipo. Quando o maior acionista da empresa cospe dados sem qualquer critério de análise ou informação rigorosa, ele está influenciando a tomada de decisão dos demais agentes do mercado.

Isso poderia levar um empresário à cadeia nos Estados Unidos. Mas tem mais. Se Eike divulgava dados de forma irresponsável na época da bonança, depois de emitir suas ações, ele fez o oposto na era das vacas magras: vendeu ações antes de dar a má notícia ao mercado.

Segundo relatou a revista Exame, Eike Batista está sendo acusado de “insider trading”, quando um acionista controlador aproveita informações privilegiadas para operar em cima do mercado. A CVM investiga o caso. Ele teria vendido 126 milhões de ações discretamente, cerca de 20 dias antes de a OGX divulgar publicamente para o mercado o fato de que muitos poços de petróleo não eram viáveis economicamente.

Em países mais sérios, a chance de Eike Batista acabar atrás das grades seria enorme. O mercado acionário só funciona com regras claras, e punição para quem as descumpre. O economista Luigi Zingales tem dois ótimos livros sobre o assunto: a importância das instituições no bom funcionamento do capitalismo. O Brasil ainda tem um longo caminho a percorrer até solidificar suas instituições.

 

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