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13/02/2012

às 15:27 \ Vasto Mundo

Conheça os “drones”, os bombardeiros (e aviões-espiões) sem tripulação

Implacável: com mísseis guiados por laser, o Predador é o preferido por causar poucos danos colaterais

Implacável: com mísseis guiados por laser, o bombardeiro não tripulado Predador é o preferido por causar poucos dos chamados "danos colaterais" (Foto: Divulgação)

O esconderijo foi pelos ares

Entre identificar e destruir um alvo inimigo dos Estados Unidos mundo afora, a CIA precisava de três dias. Agora, com os aviões não tripulados, os drones, bastam cinco minutos. Há 7 000 deles em operação.

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Um avião sem piloto atuando nos céus do Iraque em 2009

De altitudes que podem chegar a 18.000 metros – quase o dobro da usada pelas aeronaves comerciais -, os bombardeiros não tripulados, os chamados drones, identificam veículos e pessoas no chão em questão de segundos. O que vem em seguida pode ser uma surpresa desagradável. Um disparo preciso, e o inimigo é eliminado.

Por sua eficácia, os drones tornaram-se a arma por excelência da guerra aérea. NO dia 20 de outubro passado, quando o ditador líbio Muamar Kadafi fugia da cidade de Sirte em um comboio, foi um drone Predator, americano, que primeiro disparou um míssil e interceptou os carros.

Em setembro, um drone do mesmo tipo enviou um projétil contra o carro de Anwar al Awlaki, o americano de origem árabe que estimulava ataques terroristas a partir do Iêmen. Ele e mais três morreram. Antes da execução de Osama bin Laden, em maio de 2011, um drone vigiava os passos do superterrorista saudita dentro de sua fortaleza no Paquistão.

Todos esses fatos ocorreram no intervalo de seis meses. Nos últimos dez anos, mais de 2 000 terroristas sentiram o céu cair em sua cabeça por obra da CIA, a agência de inteligência americana. Com 7 000 aparelhos em operação, não há canto no mundo onde eles possam se esconder para sempre.

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Kadafi teve seu comboio interceptado por um drone, ao tentar fugir de Sirte; Anwar al Awlaki foi morto por um Predador, quando voltava de carro de um funeral no Iemên; e Osama Bin Laden teve sua casa no Paquistão vigiada por um drone durante meses

No século XIX, balões lançavam bombas sobre o inimigo

A palavra drone, em inglês, quer dizer zangão. A imagem de um inseto sem ferrão tem pouco em comum com essas aeronaves, equipadas com mísseis e bombas guiadas a laser. O X-47B, um protótipo americano, poderá levar até 2 toneladas de bombas. Não se trata de uma ideia nova.

O primeiro uso de uma aeronave não tripulada carregada com armas letais data de 1849. Nessa época, os austríacos, que controlavam grande parte da Itália, lançaram 200 balões contra Veneza. Cada um levava 15 quilos de explosivos, os quais eram acionados após meia hora, por meio de cronômetros rudimentares.

Soldados empinavam os balões e os soltavam quando sentiam um vento favorável. Como a natureza nem sempre colaborava, alguns voltaram para a Áustria.

A tecnologia foi aprimorada no século passado e virou tendência.

Como parte do esforço para conter o terrorismo islâmico em regiões inacessíveis e perigosas do Iêmen ou do Afeganistão, os drones tornaram-se ferramentas indispensáveis. Com o recurso de um deles, o ataque pode acontecer cinco minutos depois de identificada uma vítima. Na Guerra do Golfo, em 1990, o mesmo processo consumia três dias.

Mesmo sob pressão para diminuir os gastos governamentais e militares, o presidente americano Barack Obama não pretende reduzir o investimento em drones. O Pentágono pediu um orçamento de 5 bilhões de dólares para desenvolver e produzir essas máquinas até o final de 2012. Como os drones não põem a vida de americanos em perigo, a chance de a verba ser aprovada é grande.

A ausência de pilotos e suas vantagens

A ausência de pilotos também traz outros benefícios para quem utiliza os bombardeiros ou aviões-espiões sem tripulação. Como não é preciso reservar espaço para o piloto ou inserir equipamentos de segurança, os drones são muito mais leves. Um caça F-18, como o que estava sendo avaliado para ser comprado pelo governo brasileiro, pesa cinquenta vezes mais que um Predator.

Menores, alguns drones podem ficar dois dias nas nuvens sem ser reabastecidos. As novas exigências feitas aos futuros pilotos sinalizam que essas aeronaves são o futuro da aviação de guerra. A aeronáutica americana hoje treina mais pilotos para dirigir drones em confortáveis poltronas de bases americanas do que para subir em caças de última geração.

O setor de aviões não tripulados é o mais dinâmico da indústria aeroespacial. Em 2011, foram gastos 6 bilhões de dólares com drones. Em 2012, será o dobro, de acordo com a consultoria americana Teal Group.

Há aparelhos de todos os tamanhos e funções. O Aerostat, por exemplo, é um dirigível de 60 metros de comprimento capaz de planar por meses a uma altitude de 4 000 metros preso a um cabo. Atualmente, monitora a fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão. Já o Hummingbird (beija-flor, em inglês) tem 16 centímetros de envergadura e pesa 19 gramas. Pousa em parapeitos de janela e capta imagens com uma minicâmera. Está pronto e deve ser alistado nesta década.

Servem também para checar radioatividade ou auxiliar a polícia. O Brasil os utiliza

Muitos dos que já estão em uso passam longe das casas dos terroristas.

Em junho, um pequeno aparelho sobrevoou a central nuclear de Fukushima, no Japão, para medir o nível de radioatividade. Aparelhos equipados com câmera de visão noturna são acionados rotineiramente para vigiar os mais de 3 200 quilômetros de fronteira entre Estados Unidos e México.

A polícia da Inglaterra já adotou drones em um dos maiores festivais de música do país, o V. O equipamento avisava à polícia quando criminosos tentavam arrombar veículos no estacionamento.

O Brasil também já possui drones em ação. O Exército monitora a Amazônia com eles, enquanto a Polícia Federal os utiliza no combate ao tráfico de drogas pelas fronteiras com a Argentina e com o Paraguai. Um acordo está sendo negociado com a Turquia pela presidente Dilma Rousseff para desenvolver drones nacionais, os “vants”: veículos aéreos não tripulados.

Eles também matam civis inocentes

A principal crítica aos drones é quanto à morte indesejada de civis. Um estudo apontou que uma em cada três vítimas de ataques de Predators no Paquistão entre 2004 e 2010 era civil. O problema, naturalmente, é que distinguir um homem comum de um criminoso ou terrorista sempre representa dificuldade.

Muitas vezes, não é assim. Um vídeo feito por um avião não tripulado e divulgado na internet pela Força Aérea americana, sem data, mostra um carro sendo alvejado por um míssil no Iraque ou no Afeganistão. Em seguida, homens que estavam ao redor correram para a carcaça do automóvel, pegaram as armas dos mortos e as jogaram em um rio. Para o policial que chegasse depois ao local, os ocupantes do veículo seriam considerados civis. Para o drone, não.

A única coisa que os terroristas temem agora é que o céu caia sobre sua cabeça.

Ataque certeiro

O avião bombardeiro não tripulado, drone, recebe ordens de qualquer lugar do globo, por meio de satélites. Armado de mísseis guiados por laser, raramente erra o alvo

1. De uma base militar em território americano, o piloto dá a ordem para iniciar o voo

2. Em um país próximo ao destino, o drone se posiciona na pista. A decolagem é automática

3. Quando o aparelho já está no ar, o piloto assume o comando. Ele se comunica com a aeronave por satélites. Se a conexão cair, o avião retorna à base

4. No destino, as câmeras e os sensores de visão noturna e de movimento passam a ser controlados por um operador dos Estados Unidos. As lentes reconhecem rostos no solo

5. Uma vez identificado um rosto, os sensores rastreiam o indivíduo por 230 metros, automaticamente

6. Com o alvo na mira, o piloto dispara. O míssil mais utilizado é o Hellfire, de 40 quilos. Guiado por laser, ele acerta o alvo em cheio e nem sequer abre crateras no chão

7. Após o ataque, o drone permanece na área, coletando novas imagens. Depois de certificada a conclusão da missão, retorna à base

(Reportagem de Julia Carvalho e Tatiana Gianini publicada na edição impressa de VEJA de 02 de novembro de 2011)

Veja fotos de vários tipos de drones em atividade pelo mundo:

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Aparelhos deste tipo são usados sobretudo no Iraque e no Afeganistão (Joel Saget / AFP)

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"Drone "em base dos EUA: empresas travam batalha para conquistar um mercado bilionário (Foto: Getty Images)

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Outro tipo de aparelho não tripulado usado pelos EUA no Iraque (Getty Images)

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Um dos modelos pequenos e leves, o Shadow 200 UAV (Foto: James B. Smith Jr. / U. S. Army)

Israeli Troops Showcase Rapid Launch Surveillance Drone

Parece um aeromodelo acoplado a um balão, mas é um avião espião não tripulado utilizado pelas Forças Armadas de Israel (Foto: Uriel Sinai/Getty Images)

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Israeli Troops Showcase Rapid Launch Surveillance Drone

Outro modelo de miniavião-espião utilizado por Israel (Foto: Uriel Sinai/Getty Images)

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Homeland Security Begins Using UAV For Border Patrol

O Departamento de Segurança Interna dos EUA utiliza artefatos como o da foto para patrulhar a fronteira com o México (Foto: Elbit Systems / Getty Images)

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10 Comentários

  1. carlos salomao andela

    -

    26/03/2014 às 5:42

    o homem evoluiu muito ao desenvolver mecanismos capazes de não envolver o homem em combates

  2. adilson barbosa de andrade

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    09/04/2013 às 16:16

    Impressionante como a ciência, digo, como o homem evoluiu no conhecimento ao ponto de criar tal artefato (disposotivo) bélico e objeto de observação. Desejamos que possa também criar (desenvolver) mecanismos capazes de amaenizar a fome no mundo.

  3. adilson barbosa de andrade

    -

    09/04/2013 às 16:09

    Impressionante como a tecnologia, digo, como o homem tem avançado com a ciência, mesmo sendo a ciência para a guerra (o front). Admirável, mesmo, como esses aparelhos da força aérea americana são capazes de tal proeza.

  4. costa

    -

    27/01/2013 às 19:15

    bomba atomica já era. espero que o brasil esteja desenvolvendo seus “drones” ,pois segurança é fundamental para um pais grande e diverso como é o brasil. temos que mostrar ser fortes, para nao correr o risco um dia sermos a bola da vez

  5. jack

    -

    22/03/2012 às 16:25

    bom faser oq é uma questao de maior poder entre lideris estao fasendo essa tecnologia pra nos mesmo os serumanos no destruirem uma tecnologia q poderia servi pra outros tipos de coisas

  6. KATE

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    01/03/2012 às 22:01

    TANTA TECNOLOGIA PRA QUE SE ESTAMOS NOS DESTRUINDO A CADA DIA QUE PASSA?
    serfilgam.blogspot.com

  7. tico tico

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    20/02/2012 às 19:40

    Que beleza, o Brasil com isso, poderá auxiliar a Colômbia, a dificultar que as FARC, promova o tráfico de cocaína a troco de dinheiro e armas.

  8. Franco

    -

    17/02/2012 às 9:56

    Quando li o post no dia da publicação, me chamou a atenção o fato dos drones que aparecem nas fotos terem propulsão com hélice, possivelmente turbo-hélice no caso dos mais potentes. Hoje, li uma notícia sobre o aumento na oferta e demanda por aviões comerciais com turbo-hélice na aviação regional, em detrimento dos consagrados jatos. O motivo principal é a maior economia de combustível. Acredito que no caso dos drones possa haver motivos distintos ou adicionais. De qualquer forma, parece ser uma tendência e os amigos do Blog que gostam do tema podem se interessar. O link: http://www.economist.com/blogs/gulliver/2012/02/air-travel-and-turboprop-revival . Abraço.

    Obrigado pela dica, caro Franco.
    Volte sempre!

  9. J.Torres

    -

    16/02/2012 às 20:24

    Prezado Setti, matéria concisa e interessante. Em minha opinião pessoal, de fato o futuro aponta para a utilização de tais aparelhos – aqui no Brasil chamados de VANTs – por vários fatores. A tecnologia desenvolve-se cada vez mais, facilitando o controle dos aparelhos bem como o aumento da carga e da precisão quanto ao atingimento dos alvos.
    Além disso, tendem a ser bem mais baratos, também por não precisar de ocupantes. E pelo mesmo motivo, alguns vêem nessa tecnologia uma espécie de “extinção”, ou próximo disso, no futuro, de tripulações embarcadas.
    Pilotos e ocupantes em geral são (obviamente) humanos. É muito caro treinar, capacitar esse pessoal. Um piloto perdido é um tremendo investimento que se vai (não quero passar aqui um visão fria e desumana, mas é assim que são vistas as coisas). E mais: sendo humanos, por mais treino que tenham, uma aeronave abatida e a captura dos ocupantes é um risco enorme de conflitos políticos. Um caso que posso citar é aquele do Francis Gary Powers, cujo U2 foi abatido pela extinta URSS com a consequente captura do piloto. Os soviéticos exploraram até não mais poder o evento.
    Talvez o que o futuro nos reserve seja mesmo uma casta de pilotos em salas com ar condicionado, a milhares de quilômetros da área de ação. Nada muito ‘romântico’, talvez, porém de muitas formas mais eficiente.
    Um abraço.

  10. Pedro Luiz Moreira Lima

    -

    14/02/2012 às 14:03

    Como comentario amigo Setti:
    DEepois das “mortes acidentais” – o de sempre -”rigosas investigações serão feitas!”
    Pois é.
    Pedro Luiz

 

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