Blogs e Colunistas

31/03/2012

às 16:30 \ Tema Livre

Uma praga que assola o idioma: o uso de “por conta de”

por-conta-de

A locução prepositiva "por conta de" não é um novo animal na floresta da língua (Arte: Negreiros)

Amigos, é antiga minha implicância com o uso burro e empobrecedor do idioma que se faz do “por conta de”, inclusive na imprensa.

É, pois, feliz da vida que lhes trago o ótimo texto publicado na edição impressa de VEJA pelo meu amigo Sérgio Rodrigues, jornalista de primeira, escritor de mão cheia (autor, entre outros livros, do indispensável “Elza, a Garota”, editado pela Nova Fronteira) e titular do blog Todoprosa, aqui no site de VEJA. O título original é o que segue abaixo.

 

CUIDADO: “POR CONTA DE” É O NOVO “A NÍVEL DE”

O uso exagerado de uma locução que serve para qualquer situação é um miasma que pode ser tomado como evidência da diminuição da riqueza vocabular da língua portuguesa

 

A locução prepositiva “por conta de” não é um novo animal na floresta da língua. Faz alguns anos que professores de português, conselheiros gramaticais e outros profissionais encarregados de zelar por uma versão limpa e correta do português falado no Brasil vêm alertando o público sobre seus riscos.

Não adiantou.

A novidade que se anuncia aqui é que esse modismo besta está vencendo o jogo – e de goleada. Se “a nível de” é uma praga que, de tão ridicularizada, entrou em declínio, “por conta de” está em alta. Quem separar uns poucos minutos para folhear com atenção revistas e jornais, navegar na internet ou ouvir TV e rádio – sobretudo este – encontrará uma impressionante variedade de frases sintaticamente mancas, construções rebarbativas e outras bobagens com “por conta de” no meio.

Uma complicação adicional é que nem sempre essa locução agride a gramática e o bom-senso, embora o desgaste provocado pela repetição excessiva torne cada vez mais difícil acomodá-la num texto de estilo apurado.

As primeiras vítimas do modismo

Como costuma ocorrer com modismos linguísticos bem-sucedidos demais, os casos mais graves são aqueles em que a expressão fetichista, julgando-se todo-poderosa, transborda do nicho gramatical que lhe foi reservado e passa a atuar como predadora de outras espécies ao seu redor.

Mais do que empobrecer o vocabulário em circulação na sociedade, esse espalhamento instaura um vale-tudo em que a muleta linguística faz o papel de curinga chamado a remendar às pressas raciocínios esfarrapados. É o momento em que a inteligência coletiva paga a conta.

Não se trata de exagero. Talvez os danos fossem menores, computados apenas no placar da elegância, se os ataques se restringissem às preposições simples e curtas – como “com”, “contra”, “por” e “de” – que são as primeiras vítimas de “por conta de”:

- “Corintianos fazem piada por conta da derrota do Santos” (com);

- “Atriz Y. está deprimida por conta da separação” (com);

- “Moradores protestam por conta da situação da estrada” (contra);

- “Escritor X. é processado por conta de plágio” (por);

- “Morreu por conta de câncer” (de).

O crime da enrolação palavrosa

Nos casos acima, a locução do momento comete um crime típico do bacharelismo brasileiro, a enrolação palavrosa – a mesma que já levou muita gente a acreditar que soava sofisticada ao proferir tolices como “passar mal a nível de estômago”.

Diante do que vem depois, porém, isso pode ser considerado secundário. Fortalecido pelas primeiras vitórias, “por conta de” logo se aventura em regiões distantes de seu habitat, passando a exterminar e substituir espécies linguísticas com as quais não tem a mais pálida semelhança. É o caso da preposição “sobre”:

- “O craque analisou a equipe adversária, mas por conta da queda do treinador preferiu não fazer comentários”.

E de repente atingimos o ponto culminante na escala da falta de noção: “por conta de” aparece ocupando o lugar de um advérbio como “apesar”, numa construção concessiva como esta:

- “Mesmo por conta da epidemia de dengue, as pessoas continuam deixando recipientes com água no quintal”.

Onde estarão errando os opositores de “por conta de” para ser ignorados de tal forma, inclusive por falantes que, para todos os efeitos, se incluem entre os praticantes da variedade culta da língua?

Curiosamente, seu equívoco parece residir no excesso de rigor, e não na leniência – extremos que, como bem sabe quem educa ou já educou filhos, podem produzir resultados igualmente negativos. Ao condenarem indiscriminadamente como erro o uso dessa locução prepositiva com o sentido causal que dicionários de qualidade como Houaiss e Aulete (embora não o Aurélio) já reconhecem como um brasileirismo legítimo, tais críticos abrem o flanco a uma desmoralizante acusação de ultraconservadorismo.

Qualquer um que, a essa altura dos estudos linguísticos, seja visto como defensor de um impossível imobilismo de idiomas vivos é excluído do jogo com facilidade.

O fato é que o sentido causal de “por conta de” está além da polêmica. Sua origem clara – e castiça – deve ser buscada em “à conta de”, locução prepositiva à prova de controvérsia, embora pouco usada hoje.

“À conta de” quer dizer “por causa de, a pretexto de”, informa o Aurélio, dando como exemplo uma frase de frei Vicente do Salvador (1564-1639), autor do clássico História do Brasil: “…à conta de defenderem a jurisdição de el-rei, totalmente extinguiam a da Igreja”.

Sintoma da falência educacional brasileira

Para transformar “à conta de” em “por conta de”, basta uma troca de preposição tão simples quanto a que levou o “para” do início desta frase a suplantar “por” como indicador de efeito a atingir, numa das evoluções marcantes do português antigo para o moderno analisadas por Said Ali em seus estudos pioneiros de gramática histórica.

No entanto, isso passa longe de esgotar a questão. Enquanto a expressão “por conta de” puder ser trocada por “em razão de”, “em decorrência de” ou “devido a” (que também já foi malvista, mas hoje goza de boa reputação), estaremos diante de uma defensável escolha de estilo, ainda que irreverente se observada por um prisma tradicional.

Mas quando, numa língua de cultura como o português, filha legítima do latim, uma peça polivalente qualquer começa a substituir grosseiramente mecanismos programados para estabelecer entre palavras uma malha intrincada de relações lógicas, espaciais e temporais, como são as preposições, vemo-nos no terreno daquele círculo vicioso para o qual o escritor inglês George Orwell chamava atenção ao afirmar que, “se o pensamento corrompe a linguagem, a linguagem também pode corromper o pensamento”.

A epidemia do “por conta de” é um sintoma da falência educacional brasileira.

Deixe o seu comentário

Aprovamos comentários em que o leitor expressa suas opiniões. Comentários que contenham termos vulgares e palavrões, ofensas, dados pessoais (e-mail, telefone, RG etc.) e links externos, ou que sejam ininteligíveis, serão excluídos. Erros de português não impedirão a publicação de um comentário.

» Conheça as regras para a aprovação de comentários no site de VEJA

Envie um comentário

O seu endereço de email não será publicado

6 Comentários

  • Marilene

    -

    14/4/2012 às 14:39

    Maravilhosa essa observação. A doença se alastra de mansinho e todos acham “engraçado” ou por burrice, seguem o que os outros falam. O que mais me incomoda é que os notíciários que se dizem “tão inteligentes” falam isso com a maior naturalidade! Tenho pena da língua portuguesa. Eu estava há dias procurando alguém que pensasse igual a mim.

  • Jeremias-no-deserto

    -

    3/4/2012 às 17:13

    É, Setti, esse “por conta de” surgiu não sei de onde e devagarzinho se instalou como uma cômoda muleta sempre recorrente dos mal informados e mal formados jornalistas de nosso país;lembro-me de um programa de rádio maututino sobre trânsito no qual os jornalistas usavam da referida locução ad nauseam. Pareceia até uma determinação superior e o “por conta de” entrava sempre no lugar de em virtude de, por causa de, em decorrência de, etc, etc.

  • Markito-Pi

    -

    3/4/2012 às 10:03

    A moda muito pior, caro Setti, é começar qualquer frase com um pavoroso “ENTAÕ…. E lá vem uma pausa enorme.A seguir o mais patife uso de uma expressão” Na Verdade”…e da-lhe pausa. Uma ministra do STF usa tanto esta expressão, que desconfio que disfarça uma mente mentirosa patológica. Tem mais? Tem. Típico de petistas e outros analfabetos: ” COOOOM CERTEZA…”Significando o que? Nada.
    Para terminar, há um modismo terrível, que culpa Deus de todos os males ptaicados por idiotas e infames, que serve para qualquer ocasião: ” Gradeço, a Deus em primeiro lugar…”e segue-se o rol de supostos benfeitores, a rigor, culpados pela vida destas deletérias criaturas.

    Permita-me ao fim Setti, usar toda esta porcaria ao mesmo tempo:
    Então,,,. na verdade.., agradeço a deus em primeiro lugar,.. com certeza.

    Desculpe, Markito, mas pra mim o “por conta” é o pior de todos. É só reler o texto do Sérgio para ver a quantidade de situações estilísticas ricas e corretas que ele, erradamente, substitui.

    Bem, cada um com suas preferências, mesmo para detestar, não é?

    Abraço

  • carlos alberto

    -

    3/4/2012 às 5:26

    A causa raiz é o petismo.
    .
    Com a chegada ao poder da petralha os sinais foram trocados, todos. Agora (lá se vão dez anos), os desqualificados ética e culturalmente dão as cartas nos ministérios e políticas. Com o nosso dinheiro, uma infinidade de facínoras, a soldo, infernizam e perseguem o bom, o certo, o ético.

  • peacesoldier

    -

    1/4/2012 às 14:00

    Isso é o retrato vivo de um país que não gosta de ler. Que perdeu a capacidade de pensar e, em consequência, aceita como bom, legal ou válido todo lixo que se lhe joga à cara. Que dizer então do gerundismo que espanca os tímpanos (certa feita ouvi de uma atendente em um consultório: “vocês podem estar sentando aqui…” ao mesmo tempo que apontava uma fileira de cadeiras junto a uma parede da recepção, convidando eu e minha esposa a ali nos sentarmos. As legendas da TV, via de regra são grafadas incorretamente (grosseiramente errôneas), as músicas apelam ao sensualismo sem compromisso com qualquer ética, e assim, o país todo é arrastado ao lodo da ignorância e as excrescências; os cancros e toda sorte de miasmas deletérios à cultura,são incorporados à fala, à escrita, deturpando valores, consciências e moral. É sumamente perturbadora a expressão “que nem”, tão largamente usada e difundida em todos os meios e é um contrasenso absurdo, eis que, diz o contrário do que se quer dizer, ou seja, para expressar uma idéia de igualidade usa-se uma expressão contraditória…
    Pobre Brasil.

  • Tuco

    -

    31/3/2012 às 19:58

    .

    Convém tomar cuidado com outro
    monstro: o tal do “inclusive”…
    http://0.mk/f2524


    .

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados