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07/08/2012

às 13:09 \ Tema Livre

Lya Luft: Quando morre alguém que amamos

revoada

"Hoje quero falar da morte dos nossos afetos"

(Texto publicado na edição impressa de VEJA)

 

QUANDO MORRE ALGUÉM QUE AMAMOS

 

Lya Luft

Lya Luft

Hoje não vou me alongar sobre o espantoso analfabetismo brasileiro que inclui universitários, o que para mim nem foi choque nem novidade: há anos sabemos disso. E, quanto mais baixamos o nível do ensino pensando agradar aos mais simples e incluir os mais despossuídos, em lugar de lhes prestar um favor, apenas lhes oferecemos coisas piores.

Poderíamos, em lugar disso, oferecer excelentes cursos técnicos, de onde sairiam para profissões extremamente necessárias ao país, e que eventualmente pagam melhor do que muitas profissões liberais.

Hoje quero esquecer educação, deseducação, abandono, desinteresse, incompetência, mediocridade: quero falar da morte dos nossos afetos, de mais um amigo perdido. Figura inesquecível, de quem não darei o nome, pois tantos mereceriam estar aqui citados.

Quem o conheceu sabe de quem falo. Quero nele homenagear os bons afetos que nos ajudam a viver, e a crescer, especialmente aqueles que foram originais, inimitáveis como este, e que nos fazem sentir quanto nos dedicamos a bobagens, sofremos por tolices, nos desperdiçamos em futilidades (não que futilidades não sejam necessárias, ou seríamos uma manada de bois obtusos ruminando o nada).

Mas devíamos lhes reservar um espaço um pouco menor, e quem sabe o choque da morte, da doença, do drama humano, em qualquer idade e lugar, nos fizesse rever alguns conceitos, elaborar alguns valores – ainda que por poucas horas ou semanas.

Quando morre alguém que a gente ama, seja amigo, amado, alguém da família, todo o resto diminui, fica encoberto por um nevoeiro, tudo para. O mundo é pura sombra, o planeta não gira, e se gira não interessa. Estamos petrificados no choque, na dor, na inconformidade, às vezes na autocompaixão.

Conheci um viúvo que diante da mulher morta gritava: “Como é que isso foi me acontecer?”. Ele tinha sofrido esse último tipo de traição: a amante Morte sempre vence. Tanto mais quanto mais não aceitarmos, com o tempo, que aqueles que morrem apenas se transformam; enveredam por outra dimensão; vão crescer e se aperfeiçoar mais; ou se escondem, fingem-se de mortos e nos espiam lá do seu enigma, e nos cuidam, conforme a crença de cada um.

Quando foi bom o amor, os mortos pedem que a gente não os perturbe, e que viva sem muito desgosto e sem mórbido luto. Pedem que abaixemos o ruído das nossas aflições, e que, porque os amamos, seja agora com um amor que não os algeme. Se a onda natural de culpa for excessiva e tiver algum real fundamento, vamos nos agarrar desesperadamente aos mortos – não para que nos ensinem a viver de novo, mas como bandeiras escuras de isolamento e rancor.

Quando estavam de bom humor, os deuses abriram as mãos e soltaram neste mundo os oceanos e as sereias, os campos onde corre o vento, as árvores com mil vozes, as manadas, as revoadas – e, para atrapalhar, as pessoas. Que passaram a correr meio desnorteadas atrás de coisas que nem sabem direito: a mulher mais sedutora, o homem mais poderoso, ou coisa nenhuma. Tudo menos parar e pensar. Enquanto isso a Morte revira seus grandes olhos de gato, termina de palitar os dentes e prepara o bote: nós nunca estamos preparados.

Quando de bom humor, os deuses fizeram as manadas, bem como as revoadas

"Quando de bom humor, os deuses abriram as mãos e soltaram neste mundo os oceanos e as sereias, os campos onde correm os ventos (...), as manadas, as revoadas"

Nem eu que, como todos, perdi muitos afetos. Mas isso me ensinou a não acreditar demais na morte nem desistir da esperança, que rebrilha entre o cascalho bruto. A gente tem de aprender a enxergar, tem de crescer como, dizem as lendas, crescem ainda nos silenciosos túmulos os cabelos de quem se foi (mas hoje a gente é cremada, nem vermes nem longas cabeleiras).

A Morte, amiga indesejada, vai colhendo alguns dos que mais amamos, e os esconde nas suas largas mangas. Quando trabalhamos ou nos divertimos, ela passeia pelas praças, sobe nos telhados mais altos, e aponta aqui e ali seu dedo ossudo: este, este, esta, aquela. Às vezes vários num só golpe.

Ela é natural, dizem; é inevitável, sabemos. Mas a gente não entende, não aprende, não se conforma. Porque não se decifra esse enigma. Porque não somos bons alunos nessa dura escola.

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10 Comentários

  1. Lêda maria Lopes Perez maia

    -

    09/08/2012 às 16:53

    Comovente a artigo de Lya Luft.
    Lembrei-ne de Manuel Bandeira ao se referir a Morte:
    ,”Quando a Indesejada das gentes chegar
    (Não sei se dura ou caroável),
    Talvez eu tenha medo.
    Talvez sorria, ou diga:
    - Alô, iniludível!
    O meu dia foi bom, pode a noite descer.
    (A noite com seus sortilégios.)
    Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
    A mesa posta,
    Com cada coisa em seu lugar.

  2. Jeremias-no-deserto

    -

    09/08/2012 às 15:15

    Lembrei-me de Proust: “Sonhar é melhor que viver….se bem que, viver, de certa forma,é um sonho”.
    Nos damos conta dessa verdade quando percebemos que antes e depois de nossa breve vida física há a eternidade.

  3. Lilian

    -

    08/08/2012 às 7:29

    Caro Setti,
    É isso aí. Lya Luft mais uma vez tocando fundo nossas almas. Excelente artigo! Vc fez bem em divulgá-lo em sua coluna.
    Concordo com o comentarista Reinaldo-BH sobre o livro “Demônio do meio-dia”. Ele tem razão quando diz que esse livro (de mais de 400 páginas) só deve ser entendido por quem já viveu ou conviveu de perto, através de uma pessoa querida (o que foi o meu caso), com uma depressão de verdade. Um tipo de Morte que transforma em tortura o ato de viver.
    Abração a todos.

  4. Reynaldo-BH

    -

    07/08/2012 às 20:38

    Setti, tenho usado uma expressão que – talvez – não seja entendida por todos.
    “Demônio do meio-dia.”
    Envio o link aos leitores de seu espaço para, quem tenha tempo e curiosidade, entender o drama que acomete a quem um dia conviveu com esta figura.
    Boa noite!
    PS: É um livro pesado e denso. Não creio que deva ser lido por quem não entenda (por vivência) o peso do assunto.
    http://orientacaopsicologica.com/2008/08/06/o-demonio-do-meio-dia-uma-anatomia-da-depressao-andrew-solomon/

  5. Marco

    -

    07/08/2012 às 17:35

    Dom Setti: Uma coisa é certa nunca vamos perder o afeto mesmo a distância!
    PS: Em homenagem ao Mestre Cabral, vou dizer “Damião é uma força impositiva, q não tem goleiro e zagueiro q defenda”. Mestre o definia como goleador.
    Abs.

  6. Holly

    -

    07/08/2012 às 15:29

    Caro Colunista,
    viver é morrer.
    Dolorosamente real.
    Devíamos fazer como disse o poeta:
    “amar as pessoas como se não houvesse amanhã”.
    Entretanto, a vida nos golpeia e nos enganamos dia a dia, vivendo o ontem, o amanhã e pouco o hoje.
    E quando estamos desapercebidos a morte chega, fulgás, veloz e como ponto final.
    Tenho vivido essa dor, há sete dias perdi um familiar querido, estava doente e sua partida era esperada.
    Só que nunca estamos preparados…
    E hoje, ontem, ante-ontem, fica a ‘ausência da presença’ e isso dói e devemos deixar doer até acabar e se transformar em saudades gostosa!
    Vida que segue, para a morte! Cumpre-nos fazê-la bela, suave e leve!
    Com carinho!

  7. Marcus Borelli

    -

    07/08/2012 às 15:28

    Mesmo seguindo em parte a doutrina espírita, reconheço que nunca é fácil ver pessoas queridas partirem. Hoje mesmo um conhecido deixou este planeta e foi para um lugar merecido pois era, em essência, um homem bom.Dou graças a Deus de ainda ter muitos amigos e familiares para ter convívio. Gostei muito do texto, parabéns.

  8. Reynaldo-BH

    -

    07/08/2012 às 15:18

    Amigo, já havia lido este texto e lembrei-me de tantos amigos que sofreram a perda de quem se ama.
    O que mia me tocou foi a citação do mundo parado. O nevoeiro. A sensação de que o mundo insiste em continuar mesmo quando desejamos que se faça um luto universal, que silencie os ruídos da vida que insiste em continuar.
    Vida que se vai leva um pouco da vida que vivemos.
    Existem correntes na Psicologia (que não domino, só leio por curiosidade) que denominam os que sofrem o luto como sobreviventes.
    Somos todos sobreviventes. De nós mesmos, de nossas dores e amores.
    O choque, a solidão, o desânimo e a desesperança comum ao estado de luto, me parece querer demonstrar que ao vivenciar a morte de um ente amado somos dominados pela certeza da finitude e pela angústia do desconhecido.
    Creio mesmo que mesmo entendendo a dor que vem da saudade, da certeza do não mais conviver, deveríamos sentir até mais intensamente a morte de quem não conhecíamos.
    Pela perda de oportunidade de conhecê-los. A mim, como faria bem poder ter um dia conversado com Sobral Pinto, aprender com Tristão de Athaíde, ouvir ao vivo Renato Russo…
    A morte destes me é mais cruel.
    A morte de quem amei me conforta por ter amado. Por ter convivido e aproveitado a vida que se vive até no outro. E que sei, fará falta. Mas foi suprida pela magia da existência e será continuada pelo milagre da transcendência. Que não é só filhos ou descendentes. São memórias e lembranças. Coisas que só os humanos parecem ter. Que fazem sofrer mas que é uma dádiva que alivia a jornada que há de ter um significado.
    O luto – no sentido antropológico do termo – tem que ser vivido e vivenciado. Como aprendizado e como preparação para a ausência definitiva.
    Lembrei-me de uma psicóloga dos USA – Elisabeth Kübler-Ross – que descreve didaticamente em um livro (On Death and Dying) que acabou por emprestar o nome aos agora conhecidos 5 estágios do luto: Negação, Raiva, Pedidos a Deus (negociação), Depressão e Aceitação.
    Lya Luft foi mais poética e humana. Nem por isto – até ao contrário – menos verdadeira.
    Mas não há mórbido luto. Exceto na exposição exagerada do mesmo (como nos longos vestidos pretos usados por viúvas ad eternum) como mostra de uma dor que por si só já basta. Quem sofre sabe o que digo. A dor é maior é a que nos assombra quando, em meio a uma alegria, sentimos a falta do outro.
    Setti, há um mistério na extrema crueldade de sabermos finitos. Só nos assim nos sabemos.
    Haverá de existir uma lógica (o mundo é como um relógio) neste saber. Quem sabe um alerta contra a prepotência, soberba e orgulho? Ou um aviso de que devemos aprender que “sim, não percamos tempo, mas não tenhamos pressa.”?
    Espero que a resposta deste mistério seja Deus. Busco isto.
    Ao fim, resta-nos agradecer a quem se foi antes de nós (como dizia Fernando Pessoa, “o ser humano é um cadáver adiado”) pelo que ensinou, deixou de lembranças, viveu conosco e nos fez feliz.
    Mesmo tendo, no último momento, causado uma dor que nunca foi desejada.
    Fique em paz, meu mano!

  9. Eric

    -

    07/08/2012 às 14:54

    Genial!

  10. Mairalur

    -

    07/08/2012 às 13:21

    Doeria muito, talvez insuportavelmente, decifrar esse enigma. Talvez seja uma ignorância que ajude a confortar-nos.

 

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