08/03/2011
às 19:30 \ Tema LivreHistórias de Carnaval: A musa que perdi no Carnaval de Veneza (do leitor Jean Tosetto)
Esta é uma história de Carnaval que recebemos do leitor Jean Tosetto*. Gostei e resolvi publicar como post. Só troquei o título, que no original é o que segue abaixo.
Presentes de Carnaval
Nesta vida a gente ganha alguns presentes magníficos, os quais sequer pedimos ou mesmo imaginamos que receberemos um dia. Por outro lado, existem coisas com as quais sonhamos e algo em nosso âmago nos diz que nunca iremos ter ou realizar.
Minha relação com o Carnaval é um exemplo disso. Hoje não dou muita importância para esta festa – confesso que nunca fui muito empolgado com ela. O que não quer dizer que não tenho boas histórias de Carnaval para lembrar.
Ainda no tempo da faculdade de Arquitetura e Urbanismo, tive a oportunidade ímpar de fazer parte de uma pequena comitiva que viajou para a Itália, para estudar obras do período renascentista. Passamos a terça-feira gorda em Veneza, onde o Carnaval é muito charmoso e romântico – ingênuo perto do brasileiro, mas muito autêntico. Por coincidência, era meu aniversário de 22 anos.
Afirmar que Veneza é uma cidade única é tão redundante quanto um samba-enredo que retrate a alegria de ser brasileiro. Mas só quem visita a cidade percebe em cada minúcia o que isto significa: um lugar sem carros, sem fiação elétrica exposta, sem poluição visual oriunda de placas de publicidade.
Os canais borrifam o ar com um cheiro de maresia que logo é interrompido pelo aroma de flores nas jardineiras que demarcam as áreas abertas de restaurantes, cuja culinária se encarrega de fidelizar o turista. Isso sem mencionar os edifícios com suas ordens clássicas cujas pilastras são encerradas por entablamentos que transportam o transeunte para uma outra era.
No meio da praça de São Marcos, caminhávamos entre princesas mascaradas que nos encantavam apenas com o olhar. Acreditem: além de sedutor, isso é muito prazeroso, bem melhor do que uma balada regada com bebidas energéticas. Qual é a graça de ficar com alguém que você sequer teve o trabalho de galantear? E
m Veneza é diferente: você tenta completar em sua mente a face da garota que te vislumbrou de canto. Fica melhor quando você também usa uma máscara.
Se no Carnaval o que vale é a fantasia, tive meu momento de Gregory Peck – naquele filme em que ele é um jornalista em Roma, que leva Audrey Hepburn para passear – ao conhecer uma italianinha que pediu para pintar meu rosto.
Escolhi um bigode de Salvador Dali. O toque da mão dela em meu rosto, seus olhos azuis me “tomografando”, e sua voz suave me perguntando coisas sobre o Carnaval do Brasil foram suficientes para me arrebatar. Criei coragem para dizer:
– Tu sei una bellissima dona.
Recebi de volta um sorriso com repleto de serotonina. O feitiço era recíproco.
Neste momento, me chamaram para seguir com o roteiro de visitas à igrejas, museus e galerias – em alguns casos só pudemos ver a fachada. Tive tempo apenas para combinar com a moça de nos vermos de noite. Parti feliz quando soube que ela estaria me esperando.
Um detalhe: em 1998 não havia redes sociais na Internet e poucas pessoas tinham e-mail, portanto, eu estaria contando apenas com a boa fortuna para vê-la novamente. A felicidade plena estava logo alí e era tão grande que não iria escapar.
A noite chegou e a praça parecia maior. Estava coalhada de gente fantasiada. Procurei por ela em cada ladrilho daquele logradouro. Minha angústia só aumentava. Quando deu meia-noite os sinos tocaram – e o que era doce tornou-se uma sentença condenatória, a cada badalada. O Carnaval havia acabado. Achei que as pessoas ficariam mais um tempo por ali – no Brasil a folia atravessaria a madrugada – mas elas foram embora, como europeus que respeitam uma tradição secular. Alguns policiais tocavam uns poucos bêbados.
Comecei a andar pelas vielas de Veneza, seguindo os grupos que se dirigiam para os hotéis, já imaginando que não a encontraria. Andava mais rápido e quando ultrapassava uma suspeita me virava, apenas para ter que disfarçar o comportamento estranho, passando a mão no cabelo e olhando para o chão, como se estivesse procurando algo. De repente fiquei sozinho na madrugada – só estes instantes dariam um livro na minha cabeça: eu, vagando como um fantasma pelas sombras de Veneza.
A quarta-feira de cinzas amanheceu mais cinza do que nunca, quando entrei no trem para Mantova. Naquele momento eu sabia que nunca mais veria Elisa…
Um dia espero encontrar o diário da viagem, com anotações de lugares visitados, menu das refeições, desenhos feitos à mão livre – inclusive do rosto da menina. Sob as arcadas de uma obra projetada por Leon Battista Alberti, fiquei me perguntando o motivo de não ter conseguido roubar um mero beijo daquela musa. No Brasil a molecada beija dezenas de garotas numa noite de samba, mas eu só queria um beijinho…
Moral da história? Eu estava guardado para a minha esposa, e não posso encerrar este conto sem mencionar outro aniversário que passei numa terça-feira gorda de Carnaval, que seria o meu último como solteiro – eu, que havia percorrido três continentes e vários países, fui conhecer a Renata, mulher da minha vida, num balcão de farmácia, sem máscaras, perto da minha casa.
Baixei a capota de meu calhambeque e passei na casa da então namorada. Ela não sabia, mas naquele passeio, eu planejava levá-la até Serra Negra, distante pouco mais de 100 quilômetros da nossa cidade, para almoçar na praça central, que é muito simpática e acolhedora. O plano estava dando certo, o que incluía subir de miniférico até o Cristo Redentor da cidade – neste ano eu estava completando a idade de Cristo… Lá em cima a paisagem era deslumbrante, mas o tempo fechou e uma chuva nos deixou presos sobre um véu de neblina. A lanchonete local só tinha café expresso e pacotes de salgadinhos de bacon para vender: foi justamente o que almoçamos. Que romântico!
O jeito foi se acomodar num alpendre e apreciar a chuva caindo sobre a região e lavando a alma. Nos abraçamos para trocar calor e aquilo, por mais simples que pudesse parecer, foi sublime. Não havia mais o que procurar, não havia mais o que esconder. Me lembrei daquelas arcadas em Mantova, como se fosse outra pessoa a estar ali para consolar aquele jovem estudante, vítima de uma paixão fugaz de Carnaval.
– Hei, Jean, tudo vai ficar bem. The best is yet to come!
*Jean Tosetto é arquiteto na cidade de Paulínia (SP) (www.jeantosetto.com)
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12 Comentários
vinicius domingos da silva
-10/11/2011 às 14:46
quais principais personagem
BARATA
-11/03/2011 às 16:32
Simples, e muito belo, como o Jean, tambem sou avesso ao carnaval. O carnaval de hj é criação da REDE GLOBO, como tudo de ruim que ela cria.
Sylvio Zanetti
-11/03/2011 às 14:00
Parabéns Jean pelo belo conto que resgata o verdadeiro e raro romantismo. Tenho pena da nossa juventude, da qual poucos saboreiam momentos como esse. Nestes tempos tudo é rápido, imediato e de pouca duração, mas há uma esperança que um dia isso se repita…abraços. Parabéns Signore Setti por publicar este seleto relato. Zanetti
JT
-11/03/2011 às 8:58
Antes de ser um conto, este é um relato pessoal, no qual eu poderia ter floreado um pouco – o que não faria de mim um cara melhor, pelo contrário. A viagem que fiz para a Itália em 1998 não estava nos meus planos, mas meu bom desempenho como monitor de uma disciplina na faculdade foi o motivo do convite que recebi de um professor (Doutor em História da Arquitetura) para acompanhar ele e a aluna de mestrado que estava sendo preparada para ser professora também. Em alguns dias tivemos a companhia de outro professor correspondente, que morava na Itália.
A primeira noite que passei em Roma foi muito interessante. Dei meu RG para fazer o registro no hotel – de apenas duas estrelas, embora muito simpático – e o dono dele, um senhor bonachão, perguntou se meu sobrenome era mesmo Tosetto. Eu disse que sim. Então ele me abraçou, apertou minhas bochechas e chamou a esposa para me conhecer, aos prantos. Seu melhor amigo de infância era um Tosetto que veio morar no Brasil. Tomamos café da manhã por três dias sem pagar… o melhor capuccino que já provei.
Ainda em Roma tivemos a honra de sermos recebidos na embaixada brasileira, que fica na Praça Navona, por ocasião de uma apresentação musical, apenas com canções de Cazuza interpretadas por um italiano. Todos foram cumprimentados, menos eu! Na hora de ir embora, a recepcionista me ouviu conversando em português e veio pedir desculpas. Ela achava que eu era um italiano, por isso não havia me cumprimentado.
Minha Nossa, são vários episódios… para sintetizar eu faço uma comparação: no Vaticano, tive o êxtase de apreciar o teto da Capela Sistina, magistralmente pintada por Michelangelo. No meu primeiro fim de semana de volta ao Brasil, fui a uma quermesse na paróquia de meu bairro. O telhado era de zinco, o que me fez crer e o mundo não era um lugar justo. Achei que estaria vivendo o anticlímax de uma vida, até perceber que cada nova viagem poderia ter seu encanto, pois isso depende também do viajante…
Para quem tem interesse em Arquitetura no período renascentista, meu giro pela Itália rendeu um artigo que ficou mais de dez anos na gaveta, até ser publicado neste link:
http://www.jeantosetto.com/2008/08/coluna-o-muro-e-o-sentido-do-belo.html
Obrigado por compartilhar essa experiência e o artigo com os amigos do blog, caro Jean.
Abraços
Moacyr Macedo
-10/03/2011 às 23:59
Obrigado por publicar mais este conto Sr. Ricardo Setti! Parabéns Jean!! Muito bom o seu conto!
Não há de que agradecer, caro Moacyr. E o conto do Jean é uma experiência real, não é ficção. Os parabéns devem ser dirigidos a ele.
Abraços
Mario Arone
-09/03/2011 às 10:10
O melhor dos sonhos acordados, é que podemos sempre sonhá-los e imaginar seu fim. Pode ser um final feliz, como foi o caso do amigo, não foi com Elisa, que foi uma musa, ou melhor uma senhora de uma cantiga, mas com Renata, à quem muitos carnavais e fantasias ele vive, e viverá.
Rosa Maria Pacini
-09/03/2011 às 10:06
Jean, parabéns pelo texto. Sua história é deliciosa e o modo como você a conta está em plena harmonia com ela.
Setti, parabéns também a você por ceder em seu blog espaço para que seus seguidores publiquem suas opiniões e suas histórias.
Eduardo Leão
-09/03/2011 às 1:22
Sr. Ricardo Setti, antes que você pare de postar sobre o carnaval, peço-lhe licença para registrar o privilégio que tive em 2011 de conhecer o csrnaval de Oruro, na Bolívia.
O destino e minha profissão me trouxeram para o altiplano boliviano em novembro de 2010 e decidi ficar no carnaval para conhecer essa famosa festa.
E não me arrependi, pelo contrário, fiquei maravilhado.
Trata-se de uma magnífica demonstração de sincretismo religioso-pagão. Uma manifestação viva de cultura e uma maravilhosa expressão folclórica da Bolivia que junta religiosidade, sensualidade, beleza, alegria e respeito às tradições.
O carnaval de Oruro é único no mundo por seu forte sentido religioso.
A quem ainda não conhece eu recomendo, pois trata-se de uma experiência única e uma excelente oportunidade para conviver com pessoas do mundo todo que vêm desfrutar dessa maravilha da humanidade que é o carnaval de Oruro.
JT
-08/03/2011 às 23:20
Caríssimo Setti,
Quero registrar meu agradecimento por publicar o conto de Carnaval. Para mim, é uma emoção forte figurar num rol ao lado de Lygia Fagundes Telles, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Vinicius de Moraes… Obviamente não tenho permissão para sentar numa mesa com eles e tomar o chá da academia, mas já que ainda é Carnaval, obrigado por permitir que eu me iludisse por alguns instantes com isso. Que doce ilusão carnavalesca.
Encontrei algumas fotografias deste episódio, que publiquei numa chamada para seu blog, neste link:
http://www.jeantosetto.com/2011/03/veneza.html
Tentei digitalizar as imagens com a melhor resolução de meu equipamento, mas os treze anos num envelope de plástico deixaram elas um pouco desbotadas. Em todo caso, se desejar, pode reproduzir em seu blog – basta clicar nelas para ampliar.
Um grande abraço, com os votos de fôlego repleto de entusiasmo para, enfim, começar o ano brasileiro!
Sou eu quem agradece, caro Jean. Vou ver amanhã como fazer com as fotos, se o pessoal da Arte acha que combinam com a bela ilustração etc. De todo modo, agradeço muito a gentileza do link.
Quanto a entusiasmo, nem precisa recomendar: estou sempre muito feliz de ter o blog e os leitores que me honram com suas visitas.
Abração
Cretinos do PIG
-08/03/2011 às 21:26
Seu comentário, repleto de palavrões e grosserias, e que não vou publicar, ele sim é xenófobo e racista, além de MENTIROSO e boçal, por acusar genericamente os colunistas do site de VEJA como você faz, sem indicar uma vírgula que sustente essa cretinice.
E tome cuidado da próxima vez: apesar de você se esconder covardemente atrás de um pseudônimo, o IP de seu computador aparece aqui na minha tela. É possível, pois, identificá-lo. Se você voltar e passar dos limites, vou processá-lo criminalmente.
Valdivino Alves
-08/03/2011 às 20:08
Excelente texto sobre o Carnaval, já que hoje em dia o carnaval é símbolo de arrecadar dinheiro e marketing pessoal das pessoas, que estamos cansados de ver na mídia. Ricardoseu texto pareceu mais um conto do que uma reportagem, mas gostei muito, tenho apenas 37 anos, mas lembro-me que o carnaval antes era melhor, hoje em dia fica aquilo meio repetitivo cansativo, uma espécie de pega pega.. para uns carnaval é sinônimo de sexo. O que você acha?
O Carnaval sempre esteve muito ligado ao sexo, caro Valdivino. Desde que me lembro por gente, pelo menos, e já passei dos 60.
Quanto ao texto, não é meu, como está explicado no post, mas do leitor Jean Tosetto.
Abraços
carlos nascimento
-08/03/2011 às 19:54
Ricardo,
Vou aproveitar o espaço que versa sobre o assunto, para comentar o resultado dos desfiles das Escolas de Carnaval em SP, deu Vai-Vai.
Agora, quero registrar que as “Gaviões da Fiel” ficaram em 5o.quinto, atrás da “Mancha Verde”.
Pergunta que não quer calar, e agora, o que farão os lideres da organizada, que apredejaram os jogadores por ocasião da perda da Libertadores, o que farão com êles mesmo pela INCOMPETÊNCIA, que já dura vários anos ????
Carlos Nascimento.
Espero que se comportem de maneira minimamente civilizada, caro Carlos.
Abraços