11/08/2012
às 15:15 \ Livros & FilmesFilme: “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” eletriza mas também abala os espectadores

DE NOVO NA PENUMBRA -- Batman (Christian Bale) retorna do exílio: um bem relutante e assolado por conflitos contra um mal de muitas facetas e lógicas
(Texto de Isabela Boscov publicado na edição impressa de VEJA)
O CAOS REINA
“O Cavaleiro das Trevas Ressurge” é o non plus ultra do cinema de ação: eletriza o espectador com seu virtuosismo e o abala com a profundidade de sua angústia sobre o mundo pós-11 de Setembro
Com seu desempenho incendiário como o Coringa, Heath Ledger pegou a plateia despreparada, em 2008, para a explosão de anarquia, de mal visceral, sem razão e sem propósito, do excepcional Batman – O Cavaleiro das Trevas. O qual viria, assim, a quebrar paradigmas.
Apesar dos temores da indústria sobre um filme de super-herói tão pessimista, esse segundo episódio de Batman ganhou o aval indiscutível do público ao se tornar a quinta maior bilheteria da história (hoje ocupa a 12ª posição). E foi ainda o pivô de uma espécie de levante popular: seu menosprezo nas indicações ao Oscar provocou tal indignação que a Academia se viu obrigada a mudar as regras do prêmio.
Um virtuosismo técnico sem rival
Que o diretor inglês Christopher Nolan pudesse superar o estrondo que ele próprio havia causado parecia, portanto, improvável. Que engano grandioso. Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises, Estados Unidos, 2012), já em cartaz no país, de fato não tem um elemento de volatilidade comparável à interpretação de Ledger – e não poderia mesmo tê-lo, porque encontros assim entre ator e personagem são fortuitos. Mas o diretor compensa a lacuna com uma maestria sem precedentes.
O virtuosismo técnico deste terceiro e último filme da série não tem rival. Mas também não há com o que comparar a maneira como ele é capaz de eletrizar a plateia com suas reflexões e seus sentimentos: a produção americana hoje vive de combinar o gigantismo visual ao nanismo de ideias, mas Nolan prova que uma coisa e outra não devem ser excludentes. Se o cinema quer resistir não só como espetáculo, mas como espetáculo, forma de arte e foro de discussão, aqui está o caminho.
O vilão Bane, uma perturbadora massa de força bruta
Em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, a outrora caótica metrópole Gotham City vive já há oito anos um período de paz: ao abrigo de uma lei de exceção, as autoridades podem colocar atrás das grades todo suspeito de ameaçar o bem-estar dos cidadãos.
Batman, o alter ego do bilionário Bruce Wayne, não mais foi visto – porque é tido como o assassino do promotor que propôs a lei; e porque sua presença como justiceiro não mais se faz necessária. Wayne vive agora recluso e amargurado. É dessa ausência, e dessa falsa sensação de segurança em que vive a cidade, que o vilão Bane se aproveita. Bane é uma massa de força bruta e um homem de aspecto perturbador, graças à máscara implantada no rosto que libera o gás anestésico sem o qual ele não suportaria a dor dos ferimentos selvagens de que foi vítima no passado.

A NOVA FACE DO TERROR -- Tom Hardy, como Bane: força bruta e aspecto grotesco conjugadas ao carisma messiânico (Foto: Divulgação)
Mas é também um líder de carisma messiânico, capaz de inspirar devoção até a morte. Na sequência estupenda que abre o filme (e que não é efeito de computador; foi rodada de verdade com dublês), membros de seu time descem em rapel de um C-130 Hercules sobre uma aeronave menor e sequestram dela um cientista nuclear.
Muitas alusões ao mundo incompreensível pós-11 de Setembro
Mas é preciso que o cientista seja dado como morto, e o correligionário escolhido por Bane para tomar o lugar do sequestrado e despencar junto com o avião recebe a missão não com medo, mas com gratidão – apenas a primeira das muitas alusões ao mundo incompreensível em que este se tornou após o 11 de Setembro.
Com sua trilogia, Nolan pretendeu sempre abordar o estado da ética e da moral nesse mundo. Em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, porém, ele amplia ainda mais o escopo de sua pauta. Gotham não vive só a mentira de uma ordem firmada sobre falsos pretextos. Vive também a insatisfação do declínio econômico: os 99% ressentem-se das vantagens do 1% de privilegiados, do qual Bruce Wayne é um emblema.
Bane invade a bolsa de valores, drena a fortuna do bilionário e anuncia, em um discurso inspirado em Robespierre e no Reino do Terror que ele instituiu na primeira etapa da Revolução Francesa, que sua missão é devolver o poder ao povo. Mas, como no caso do Terror, do totalitarismo implantado pelas revoluções de 1917 na Rússia e de 1949 na China, ou da ditadura dos aiatolás com que culminou a Revolução Iraniana de 1979, trata-se de uma apropriação ilegítima, por parte de alguns, das aflições genuínas de muitos.
Bane não quer liberar um povo; quer manobrar uma massa. Como em todos esses casos, começa por abolir as liberdades individuais, instalar uma justiça de lunáticos (literalmente, aliás: quem preside os sentenciamentos de “inimigos do povo” é o Espantalho, o psiquiatra insano de Batman Begins) e confinar a população de Gotham. Ninguém entra e, acima de tudo, ninguém sai. Esse estado de coisas, porém, não vai durar muito, promete Bane – porque o passo seguinte será a aniquilação de Gotham e de todos que nela vivem.
Batman tenta mudar o desfecho do drama
E, assim, Bruce Wayne se vê obrigado a juntar-se aos outros atores desse drama – a ladra de joias Selina, aliás Mulher-Gato (Anne Hathaway); o comissário Gordon (Gary Oldman); a visionária Miranda (Marion Cotillard); e o jovem policial Blake (Joseph Gordon-Levitt) – para, mais uma vez sob o disfarce de Batman, tentar mudar-lhe o desfecho.
Para o público mais velho, é fácil imaginar que faltem a um filme adaptado dos quadrinhos qualificações para debater questões tão complexas. A trilogia de Nolan, porém, nunca as barateou nem simplificou. Para esta geração, seus filmes são o que O Poderoso Chefão foi para outra geração também acossada por dilemas morais e econômicos, a do início dos anos 70: uma representação ressoante como nenhuma outra do cabo de guerra entre a circunstância e o arbítrio.

NA TRINCHEIRA DOS 99% -- Anne Hathaway, como a ladra de joias que despreza os milionários dos quais furta: apesar dos olhinhos de basset hound, uma Mulher-Gato antológica (Foto: Divulgação)
Em toda a trilogia Batman, e neste seu último episódio em particular, o bem é dúbio, relutante e eivado de conflitos; e o mal tem tantas facetas e tantas lógicas que nem sempre é possível reconhecê-lo, que dirá compreendê-lo. Que Nolan consiga não apenas orquestrar o mais tremendo clímax de um filme de ação – o qual ocupa, sem pausa e numa escalada perfeita de tensão, todos os 45 minutos finais -, mas também simultaneamente manter em primeiro plano a tragédia íntima de seus personagens, o destaca como um autor de primeiríssima grandeza.
Uma Mulher-Gato antológica
Não há membro da equipe ou do elenco, aliás, que não esteja aqui no seu melhor momento, do cinegrafista Wally Pfister, que doma o dificílimo formato Imax (e é em Imax que se deve ver o filme) com resultados deslumbrantes, ao compositor Hans Zimmer, cuja trilha conceitual propele o filme à frente.
Anne Hathaway tem olhinhos de basset hound, mas é uma Mulher-Gato antológica. Tom Hardy, como Bane, é a personificação de um pesadelo – e no entanto ele precisa apenas de um close de alguns segundos para, em um momento decisivo, virar esse monstro pelo avesso. E, no papel do policial Blake, o arrebatador Joseph Gordon-Levitt é a luz em meio a toda essa penumbra.
Assim como Nolan, porém, é Christian Bale, a outra peça principal deste imenso projeto, quem de fato se supera aqui. Seu desempenho na trilogia nunca foi menos que irrepreensível. Em O Cavaleiro das Trevas Ressurge, ele é mais do que isso – é sentido, sofrido e, ao fim, inspirador. É aí que Christopher Nolan escolhe deixar a plateia: com um réquiem que celebra não a morte, mas o renascimento.
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