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Steve Jobs

20/04/2013

às 16:00 \ Tema Livre

ENTREVISTA — Bob Iger, o chefão da Disney: “No futuro, tudo será digital”

"Tudo será digital. As pessoas assistirão a filmes quando e onde quiserem. As possibilidades são incríveis. Gostaria de estar começando minha carreira agora" (Foto: Claudio Gatti)

Iger, que reina sobre um conglomerado que inclui a rede norte-americana de TV ABC, o grupo ESPN e os estúdios Marvel, além da Pixar e dos estúdios e parques Disney: "Gostaria de estar começando minha carreira agora" (Foto: Claudio Gatti)

Entrevista de Jerônimo Teixeira, publicada em edição impressa de VEJA

 

A TECNOLOGIA DO OTIMISMO

O presidente da Disney diz que o mundo digital vai mudar o modo como as pessoas acessam os filmes – mas não o tipo de entretenimento que elas apreciam

O CEO da Disney, Robert (Bob) Iger, se recorda com orgulho da relação que manteve com Steve Jobs, o criador da Apple, morto no ano passado. “Fomos grandes parceiros de negócios, mas, antes de tudo, fomos amigos. Ele dizia que era raro encontrar executivos de mídia como eu, com um genuíno interesse por tecnologia”, diz.

Em 2005, ao assumir a presidência da Disney, Iger consolidou a compra do estúdio de animação Pixar, que pertencia a Jobs, e inovou ao vender filmes e programas de TV para o iPod.

Aos 61 anos, Iger comanda um conglomerado que inclui a rede de TV ABC, o canal de esportes ESPN e os estúdios Marvel, além da Pixar e dos estúdios e parques Disney. De passagem pelo Brasil recentemente, Iger falou de suas ideias para continuar a expansão desse império.

O senhor deve deixar o cargo de CEO da Disney em 2015, depois de completar dez anos na função. Qual será seu legado para a companhia?

Há muitas maneiras de medir uma companhia ao longo de uma década. Obviamente, tem de se olhar para a parcela que ela ocupa no mercado, para o valor de suas ações, para o lucro – e meu histórico é bom em todos esses pontos.

Mas meu objetivo era fazer da Disney uma das companhias mais admiradas no mundo, e espero que ela o seja quando eu deixar o cargo. Se você conseguiu isso, conseguiu o principal, e provavelmente sua lucratividade estará maior também.

A Disney havia perdido essa admiração antes de sua gestão?

Eu não olho para trás. Prefiro olhar para a frente.

Um de seus grandes projetos é o parque Disney em Xangai, que deve começar suas atividades em 2015. Que adaptações foram necessárias para fazer um parque desses moldes na China?

Contamos com uma vantagem: uma marca e personagens como Mickey, que têm grande apelo em todo o mundo. Mas isso não nos dá o direito de impor tudo, como imperialistas culturais. Temos de ter uma apreciação profunda pela cultura local e fazer com que as pessoas sintam que o mundo do parque pertence a elas.

Em Xangai, o visitante terá a experiência Disney autêntica, mas de um modo único, que é chinês. Um pequeno exemplo: todos os parques Disney têm um setor chamado Main Street, que é uma reprodução de uma cidadezinha americana do início do século XX – o tipo de lugar onde Walt Disney cresceu.

Isso não teria apelo para os chineses. Esse parque será, portanto, o primeiro sem Main Street. Mas ainda não posso adiantar o que vai substituí-la.

"Em Xangai, o visitante terá a experiência Disney autêntica, mas de um modo único, que é chinês" (Foto: Reuters)

"Em Xangai, o visitante terá a experiência Disney autêntica, mas de um modo único, que é chinês" (Foto: Reuters)

O senhor dá a palavra final em todas as produções da Disney?

Em algum momento antes da finalização, vejo todos os projetos de maior relevância, sejam filmes, programas de TV ou parques temáticos, e dou sugestões. Posso ver certas coisas que escaparam aos realizadores por estarem imersos no processo. Mas exerço essa prerrogativa com muito cuidado, para não travar o processo criativo. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

01/12/2012

às 14:00 \ Tema Livre

Casinhas na praia? Não, o negócio agora são os megaiates

CAMPEÃO -- Entre as embarcações recentemente lançadas, O Serene, de 2011, ostenta dois títulos: é o maior e o mais caro a singrar os mares (Foto: Y.Co Yacht)

CAMPEÃO -- Entre as embarcações recentemente lançadas, "Serene", de 2011, ostenta dois títulos: é o maior e o mais caro a singrar os mares (Foto: Y.Co Yacht)

Matéria de Mariana Amaro, publicada em edição impressa de VEJA

CASINHAS NA PRAIA

Nada. Os megaiates têm lanchas, helicópteros e até submarinos a bordo. Os bilionários adoram porque são exclusivos. O show começa em 200 milhões de dólares

Foi um dos casamentos mais comentados da história. Jacqueline Kennedy e Aristóteles Onassis casaram-se a bordo do Christina O, o lendário iate de 100 metros do armador grego. O ano era 1968, e Onassis já sabia do fascínio que uma embarcação daquelas, sobretudo se enfeitada por Jackie, causava.

Pelo Christina, comprado com os milhões ganhos em negócios com a marinha mercante, passaram o príncipe Rainier, Winston Churchill, Marilyn Monroe e Liz Taylor. Na festa, o fundo da piscina, adornado com um mosaico igual ao do Palácio de Minos, em Creta, virou pista de dança.

Aos olhos de hoje, o então fabuloso Christina é um reles barquinho. Desde então, os iates vêm assumindo o posto de símbolo de status por excelência no universo dos bilionários. Um Bentley pode ter bancos de couro vermelho, mas é o mesmo carro que todos os donos terão. Jatinhos idem. A exclusividade da construção (quase sempre megalômana) e a ausência de limites na decoração fazem dos iates incomparáveis brinquedos de luxo.

“O iate é o único bem que alia a personalização, como em uma mansão, com a possibilidade de ser exibido por aí, como os aviões”, diz Marcus Matta, diretor do Prime Fraction Club, empresa de compra compartilhada de bens de luxo.

 

O megaiate Serena -- duas vezes campeão

O megaiate "Serena" -- duas vezes campeão (Foto: Y.Co Yacht)

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O megaiate Serene -- duas vezes campeão

A modesta piscinha do "Serene" (Foto: Y.Co Yacht)

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Há hoje cerca de 4.200 megaiates singrando os mares. Eles não custam menos de 200 milhões de dólares e, apenas para encher o tanque de diesel, consomem 650.000 dólares. Os proprietários são magnatas russos, xeques árabes, ingleses de riqueza centenária e jovens americanos da área de tecnologia.

Os iates dessas turmas têm não só heliponto, mas hangar para helicópteros. Têm lanchas na garagem. Têm até pequenos mísseis – no caso dos russos, loucos por segurança.

O precursor desse mundo é Roman Abramovich, dono do clube de futebol inglês Chelsea e proprietário do maior iate do mundo, o Eclipse, de 163 metros, que custou 400 milhões de dólares em 2010. Órfão aos 4 anos, ele começou sua fortuna com controversas exportações de óleo na década de 90 e a aumentou com investimentos na indústria de aço e gás.

TECNOLOGIA E ARTE -- A proa do A, em forma de bico de gavião, fura as ondas em vez de acompanhar o movimento delas. No interior, quadros de Monet (Foto: Sipapress)

TECNOLOGIA E ARTE -- A proa do "A", em forma de bico de gavião, fura as ondas em vez de acompanhar o movimento delas. No interior, quadros de Monet (Foto: Sipapress)

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Megaiate A

As amplas e confortabilíssimas áreas de lazer do megaiate "A" (Foto: Sipapress)

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Andrey Melnichenko, outro russo endinheirado, da área de metalurgia e minas de carvão, irrompeu há pouco nesse time com um iate de design arrojadíssimo. Planejado pelo arquiteto francês Philippe Starck, o A tem a proa em forma de bico de gavião. Ele fura as ondas em vez de acompanhar o movimento delas. “Queria um desenho orgânico, que não tratasse o mar com arrogância”, diz Starck.

A suíte principal, de 230 metros quadrados, é alcançada por um elevador interno e só pode ser aberta mediante a impressão digital de Melnichenko ou de sua mulher. Por dentro, seus 2.200 metros quadrados são enfeitados com quadros de Monet e paredes forradas de pele de arraia albina ou de bezerro, trabalhada a mão.

Mas foi o antigo dono da vodca Stolichnaya, Yury Schefler, quem, em 2011, arrasou o quarteirão: construiu o Serene, por impressionantes 330 milhões de dólares. Frescurinhas dele: piscina de água salgada e com ondas, submarino e contorno de neon azul, que acende automaticamente ao anoitecer.

LEMBRA ALGO? -- O megaiate que Steve Jobs não viu finalizado é quase um portfólio de produtos da Apple: só vidro e alumínio (Foto: Charles Onians / AFP)

LEMBRA ALGO? -- O megaiate que Steve Jobs não viu finalizado é quase um portfólio de produtos da Apple: só vidro e alumínio (Foto: Charles Onians / AFP)

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A leva de megaiates dos lados de emirados árabes é de outra cepa. Ao contrário dos russos exibicionistas, os árabes constroem seus barcos em segredo, por anos, e não deixam que eles sejam fotografados. O presidente dos Emirados Árabes Unidos, xeque Khalifa bin Zayed al-Nahyan, pagou 630 milhões de dólares ao estaleiro alemão Lürssen para financiar o Azzam, de 180 metros, que, em 2013, baterá a supremacia do Eclipse.

“Os árabes nos procuram porque temos uma política rígida de confidencialidade”, diz Michael Breman, diretor de vendas da Lürssen, estaleiro que também construiu o Katara, de Hamad bin Khalifa al-Thani, emir do Catar, com um parque aquático dentro – desfrutado só pelos homens.

O custo da manutenção de iates desse porte chega a 20 milhões de dólares por ano. É em parte por causa disso, e em parte porque os donos de iates querem que o barco e a tripulação fiquem em movimento – está-se falando de até setenta funcionários – que muitos deles são alugados.

Os aluguéis mais caros chegam a 2 milhões de dólares por semana; e normalmente são divididos por três casais endinheirados. “No Brasil, as pessoas ainda têm preconceito em dividir barco. Lá fora, os ricos todos fazem isso”, diz Tomas Perez, presidente da Teresa Perez Tours, que aluga iates para brasileiros.

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Não é prática comum os barcos árabes estarem à disposição, mas os de ingleses, povo com vasta tradição náutica, costumam ser ofertados. Iates russos e americanos também. A recente curiosidade é saber o que a família de Steve Jobs, fundador da Apple, morto no ano passado, fará com o seu Venus.

No esteio dos colegas pontocom que desfilavam (e ainda desfilam) em iates, como Bill Gates e Paul Allen, Jobs se encantou pela onda e, quatro anos antes de morrer, começou a montar seu brinquedo. O barco é a cara dos produtos assépticos, de linhas muito nítidas, da Apple: todo de vidro e alumínio, predominantemente branco. Os blogueiros cravaram: parece um iPhone em cima de um iPad, postos suavemente sobre um MacBook Pro.

 

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Esqueça tudo o que você sabe ou pensa sobre iates — e fique boquiaberto com esses projetos. Num deles, o iate tem até vulcão próprio

Os maiores iates reais do mundo

05/08/2012

às 15:13 \ Disseram

“Queremos encorajar garotas a se transformar no próximo Steve Jobs.”

“Queremos encorajar garotas a se transformar no próximo Steve Jobs.”

Reshma Saujani, criadora do programa Girls Who Code, que pretende incentivar garotas a se dedicar às carreiras de tecnologia, em entrevista a VEJA.com

04/08/2012

às 18:00 \ Livros & Filmes

Em “Valente”, uma princesinha anticonvencional de indomável cabeleira ruiva — e que não quer casar

 

A PRINCESA SEM PRÍNCIPE Merida desafia seus pretendentes com sua habilidade para o arco e flecha: em uma ousadia nunca antes tentada no mundo do conto de fadas, ela diz que não está pronta para casar - e talvez nunca venha a estar (Foto: Reprodução)

A PRINCESA SEM PRÍNCIPE -- Merida desafia seus pretendentes com sua habilidade para o arco e flecha: em uma ousadia nunca antes tentada no mundo do conto de fadas, ela diz que não está pronta para casar - e talvez nunca venha a estar (Foto: Reprodução)

(Texto de Isabela Boscov publicado na edição impressa de VEJA)

 

Qual o pente que te penteia?

A cabeleira rebelde e cor de fogo da escocesinha Merida, de “Valente”, é a mais perfeita tradução visual de uma personagem já alcançada por um desenho animado

 

Doze filmes, a uma média de 600 milhões de dólares em bilheteria por filme, e nenhum deles com uma personagem feminina como protagonista: se a Disney é o reino das princesas, a Pixar é o quintal dos meninos – brinquedos que percorrem o mundo em aventuras, ratos que querem ser chefs, carros irrequietos, super-heróis irritados por ter de fingir que não são súper.

Um bando de crianças rebeldes, em suma, cheias daquela energia impaciente com que os meninos deixam atrás de si um rastro de adultos exaustos. Desde o início dos anos 2000, no entanto, os animadores da Pixar (que, a começar por seu chefe e mentor, John Lasseter, correspondem integralmente à descrição acima) têm ciência de que a cultura de sua empresa é a de um clube de garotos.

E que, pelo simples fato de esse constituir um ponto cego em seu processo criativo, seria necessário superá-lo. Na Pixar, porém, trabalha-se freneticamente para colher resultados a longuíssimo prazo. Em 2003, Lasseter contratou Brenda Chapman, que havia sido supervisora de roteiro em O Rei Leão. Em maio de 2004, Brenda apresentou seu argumento para um filme sobre uma princesa anticonvencional e recebeu o sinal verde para proceder imediatamente à produção – e, assim, tornar-se a primeira mulher a dirigir um filme na Pixar. Mas só agora há pouco Valente (Brave, Estados Unidos, 2012) chegou aos cinemas.

 

TERRA DE BRAVOS o país das urzes, da solidão intocada e dos guerreiros indômitos é também ele personagem (Foto: Reprodução)

TERRA DE BRAVOS o país das urzes, da solidão intocada e dos guerreiros indômitos é também ele personagem (Foto: Reprodução)

Merida, a princesa imaginada por Brenda, é uma escocesinha com uma enorme cabeleira ruiva de cachos indomáveis. Resultado da inspiração e do virtuosismo técnico característicos da Pixar, essa juba com vida própria ao mesmo tempo define Merida (não adianta tentar prendê-la, porque ela vai se soltar), ilumina as cenas como uma chama e, mais, torna Merida alegre, impetuosa, vibrante e volúvel.

Toda a força da personagem está nela – e, quando a mãe de Merida, a rainha Elinor, esconde essa maravilha sob uma touca comportada para apresentá-la aos três pretendentes que vão disputar sua mão em casamento, a princesa teima em libertar um cachinho e deixá-lo à vista sobre a testa: sem essa expressão de sua independência, sente Merida, ela não é ninguém.

Ou, pelo menos, não é Merida, a menina que, sob o olhar censurador da mãe mas para orgulho do pai, cavalga pelos bosques e urzes, ri alto demais e tem mira irrepreensível com o arco e flecha. As tentativas de ensiná-la a bordar, cantar ou entreter polidamente visitas formais redundam sempre em fracasso – e mais ainda a tentativa de impor a ela a tradição e fazê-la topar o noivado com o primogênito de um dos três clãs sob guarda de seu pai. Que noivo que nada, resiste a princesa: ela não está pronta para casar, e talvez nunca venha a estar.

Uma princesa sem príncipe – eis algo que faria tremer a Disney. E, segundo se pode peneirar dos rumores, encheu de hesitação também Brenda Chapman. Pelo menos na sua primeira versão do enredo, Merida queria o direito de escolher em vez de ser escolhida – e não o direito de simplesmente dizer não e não.

Após as habituais alegações de “diferenças criativas”, Brenda foi removida da função e substituída por Mark Andrews, um talento em preparação que fora com ela à Escócia em uma viagem de pesquisa por ter certa afinidade com o assunto: toda sexta-feira, Andrews, vestindo um kilt, a tradicional saia escocesa, fica no gramado em frente à entrada principal da Pixar desafiando quem passa por ali para duelos de espadas (de verdade).

Em uma reportagem recente, a revista Time apurou que Andrews adora dar apelidos irritantes aos colegas de trabalho, nunca come a verdura do prato e terminou Valente devendo mais de 1 000 dólares em multas por palavrões. A princesa Merida foi concebida por uma mulher – mas ganhou sua forma final e veio ao mundo pela imaginação de um menino.

Ou isso é o que parece. Na verdade, Andrews teve papel decisivo como supervisor de roteiro de Os Incríveis, uma história de crise conjugal disfarçada em filme de super-heróis. E escreveu e dirigiu um dos mais estupendos curtas da Pixar, One Man Band, sobre uma pequena camponesa ardilosa por cuja moedinha dois homens-banda competem.

UMA DAS PAISAGENS escocesas usadas como base para os cenários virtuais de Valente (Foto: Divulgação)

UMA DAS PAISAGENS escocesas usadas como base para os cenários virtuais de "Valente" (Foto: Pixar)

A camponesinha cheia de opinião é uma espécie de precursora de Merida; e o trajeto seguido por Valente, assim, não resulta de uma imaginária divisão entre meninos e meninas, mas da cultura de crivos brutais e responsabilidade absoluta que é a fundação da Pixar e que responde tanto pelo seu êxito criativo quanto por seu sucesso comercial. Na Pixar, os funcionários podem andar de patinete e decorar suas salas como forte apache ou castelo, mas a brincadeira em serviço termina aí. Todo projeto em andamento é regularmente avaliado – e trucidado – por um conselho independente.

Nenhum diretor é obrigado a acatar as críticas e sugestões do conselho. Mas pode ser deposto a qualquer momento se concluir-se que o trabalho não está satisfatório e sua rota não poderá ser corrigida sob aquela liderança. Além de Brenda, os diretores iniciais de Toy Story 2, Ratatouille e Carros 2 já haviam sido tirados da corrida antes de cruzar a linha de chegada.

Doloroso para o ego e custoso para a empresa, já que quando se demite um diretor é porque será preciso refazer trechos inteiros do desenho, com imenso dispêndio de tempo e dinheiro. Mas tranquilizador para a instituição de excelência criativa em que a Pixar se tornou. Merida, a exemplo da camponesinha de One Man Band, fez Brenda e Andrews trabalhar duro pelo direito à sua recompensa. Mas, generosamente, deixou que os dois a recebessem – não uma moeda, mas ela mesma, uma heroína e pioneira.

 

E os meninos foram enganados

Se a cabeleira de Merida não viesse a incendiar Valente, os meninos de todas as idades que vinham assistindo aos filmes da Pixar talvez nunca houvessem tomado cons­ciência da ausência de uma protagonista feminina entre as animações do estúdio.

MAMÃE NÃO ME ENTENDE A família real de Valente: uma versão feminina das dores do crescimento já encenadas em Como Treinar seu Dragão (Foto: Divulgação)

MAMÃE NÃO ME ENTENDE -- A família real de "Valente": uma versão feminina das dores do crescimento já encenadas em Como Treinar seu Dragão (Foto: Divulgação)

Tão felizes estávamos todos com o caubói e o astronauta de Toy Story (Barbie só ganharia destaque no terceiro filme da série) e com as máquinas falantes de Carros! A inovação, porém, é relativa. Sim, a Pixar tem sua cultura empresarial masculina. Foi criada por um colecionador de brinquedos, John Lasseter, em parceria com um genial criador de gadgets eletrônicos (i.e., brinquedos de adulto), Steve Jobs.

Mas Lasseter ganhou sólidas credenciais feministas ao supervisionar produções da Disney estreladas por princesas pró-ativas: A Princesa e o Sapo e Enrolados. Se não houve protagonistas mulheres, a galeria feminina da Pixar já era variada e expressiva, da desmiolada peixinha Dory em Procurando Nemo à high-tech EVA em Wall-E.

E as meninas, elas estariam mesmo sentindo falta de uma heroí­na? Bem, gênios do mercado – do mercado cultural, inclusive – são aqueles que dão ao público aquilo que ele desejava sem saber que o desejava. Aí está Merida, a revolucionária princesa sem príncipe.

A questão agora é outra: os meninos que até aqui acompanhavam a Pixar vão aceitá-la? A resposta tende a ser positiva. Merida é aquela menina com quem talvez gostássemos de brincar (não, não de médico: brincar mesmo, inocentemente), mesmo com o risco de sairmos da brincadeira humilhados pela desenvoltura física dessa garota espoleta. Valente é uma versão com sinais trocados de uma animação tipicamente “de menino”: Como Treinar o Seu Dragão, do estúdio rival DreamWorks.

O herói daquele filme era um garoto magrelo oprimido pelas expectativas de seu pai machão; a heroína de Valente é uma garota atlética sufocada pelas imposições de sua mãe dondoca. E os dois desenhos têm um elenco de extras muito parecidos: guerreiros violentos mas pueris (escoceses em Valente, vikings em Como Treinar o Seu Dragão, e nos dois casos a matriz estará nos irredutíveis gauleses de Asterix) que adoram se espancar afetivamente.

Bem pesadas as coisas, Valente, mesmo centrado nas sutilezas do relacionamento entre uma mãe e uma filha, será talvez o filme em que a Pixar quase abandonou uma certa delicadeza feminil. John Lasseter e sua turma, afinal, vinham enganando os meninos havia muito tempo: no fundo, sempre fizeram animações de mulherzinha. Até em Os Incríveis, um filme de super-herói, o que estava em causa na verdade era um casal “discutindo a relação”.

18/07/2012

às 15:00 \ Tema Livre

Oba! Uma conversa franca e muito interessante com o homem que demitiu Steve Jobs

ARREPENDIMENTO John Sculley, de amigo a desafeto de Steve Jobs: "Entendo a dor causada pelo meu papel em seu afastamento" (Foto: Claudio Gatt)

ARREPENDIMENTO John Sculley, de amigo a desafeto de Steve Jobs: "Entendo a dor causada pelo meu papel em seu afastamento" (Foto: Claudio Gatt)

(Entrevista a Filipe Vilicic, publicada na edição impressa de VEJA)

 

John Sculley

Quem foi sem nunca ter sido

O ex-presidente da Apple diz que a possibilidade de cada um criar uma empresa inovadora é a revolução digital de nosso tempo

John Sculley é uma lenda no Vale do Silício por ter transformado a Apple, da qual foi CEO entre 1983 e 1993, numa empresa multibilionária. Mas também carrega o estigma da demissão de Steve Jobs, em 1985, e de um período de pouca criatividade da empresa, que só se tornou novamente inovadora com a volta do fundador, em 1996.

Aos 73 anos, Sculley, que viveu no Brasil quando comandava a Pepsi, é hoje um investidor em empresas inovadoras, as chamadas startups. Ele falou a VEJA em São Paulo, onde participou de um seminário da revista Info, da Editora Abril. Abaixo, os pontos principais da entrevista.

 

REVOLUÇÃO DIGITAL

Quando eu estava na Apple, havia apenas duas ou três empresas de tecnologia entre as vinte maiores do mundo. Hoje, são cinco ou seis. Não sabíamos então o que era um e-mail. Computadores ao mesmo tempo poderosos e portáteis, como os tablets, eram inviáveis. Criar uma empresa pioneira, uma startup, exigia milhões de dólares. Hoje, começa-se com uma boa ideia e zero de investimento.

O Instagram foi fundado sem um tostão e, em dezoito meses, vendido ao Facebook por 1 bilhão de dólares. A possibilidade de qualquer um criar uma empresa inovadora é a verdadeira revolução digital de nosso tempo.

Durante quatro décadas, vivemos sob a Lei de Moore [a previsão feita por Gordon Moore, fundador da Intel, em 1965, de que a capacidade de processamento dobraria sem aumento de custo a cada dois anos se tornou um parâmetro da computação].

Podemos esquecê-la. Tanto a multiplicação do processamento quanto a queda dos preços ocorrem agora em ritmo mais acelerado.

 

STEVE JOBS

O estigma de “o homem que demitiu Jobs” é injusto. Éramos amigos, mas tínhamos conflitos profissionais. O ápice foi quando ele quis focar esforços no recém-lançado Mac. Discordei, pois o grosso do faturamento vinha do Apple II, que, por essa razão, merecia ter nossa atenção.

Levei o problema ao conselho de administração da Apple. Os conselheiros decidiram afastar Steve da área do Mac. Ele preferiu, então, se desvincular da empresa.

Steve me considerava um irmão e se sentiu apunhalado. Quando ele me convidou para assumir a presidência da Apple, minha primeira reação foi recusar.

"O estigma de 'o homem que demitiu Jobs' é injusto" (Foto: Divulgação)

"O estigma de 'o homem que demitiu Jobs' é injusto" (Foto: Apple)

Eu era presidente da Pepsi e parecia arriscado entrar em terreno novo. Steve, então com 27 anos, me convenceu com a famosa pergunta:

– Você quer continuar a vender água açucarada pelo resto da vida ou me ajudará a mudar o mundo?

Aceitei e ficamos amigos.

Passamos cinco meses juntos, num processo de conhecimento mútuo. É natural a dor causada pelo meu papel em seu afastamento. Devia ter dito a ele: “Volte e resgate sua empresa”. Mas não disse. Tive sucesso na Apple.

Aumentei o faturamento em 1000%. Mas eu não era um visionário. Estava vendendo produtos já consagrados, sem inovar.

Se Steve não tivesse voltado, a Apple teria se esgotado.

 

PÓS-APPLE

Saí da Apple em 1993 por não concordar com a decisão do conselho de gastar rios de dinheiro na compra de patentes usadas em nossos produtos. Isso realmente quase levou a Apple à falência. Ela só não quebrou porque Jobs voltou em 1996 e tomou as rédeas da empresa.

Possuo hoje dinheiro suficiente para não precisar trabalhar, mas tenho prazer no que faço. Tornei-me mentor de empreen­dedores. Invisto em desenvolvedores da área de saúde, por exemplo. Um deles criou um aplicativo sensacional que monitora o sistema cardiológico a distância. Os médicos ficam sabendo instantaneamente se um paciente está enfartando.

 

BRASIL

Se fosse consultor de Dilma Rousseff, diria que para o país se tornar um polo tecnológico é preciso que o governo saia da frente das empresas.

O excesso de burocracia é um obstáculo em lugares como o Brasil e a Índia.

Nos Estados Unidos, cria-se uma startup em um dia. No Brasil, espera-se meio ano.

Evidentemente, isso não é um cenário propício ao empreendedorismo. Se eu fosse dar uma dica aos empresários brasileiros, seria: “Aprendam a falhar”.

Há gente de talento no Brasil, mas que tem medo de errar. No Vale do Silício, ao contrário, falhas são como medalhas.

Eu vi Steve Jobs cometer erros. Nos anos 80, ele não estava preparado para o comando. Mas era um designer incrível, um gênio do marketing e também um visionário. Se os investidores não aceitassem fracassos, hoje não existiria a Apple.

 

VISÃO DO FUTURO

Após a saída de Steve da Apple, precisávamos inventar algo. Fizemos um tour atrás das melhores inovações em desenvolvimento. Pensei: “Por que não unimos todas elas em um só produto?”. Nasceu o Knowledge Navigator. Era um dispositivo conceitual, com tela sensível ao toque, acesso à web, e portátil.

"O Newton não teve sucesso comercial, mas seu processador serviu de base para smartphones e tablets" (Foto: Divulgação)

"O Newton não teve sucesso comercial, mas seu processador serviu de base para smartphones e tablets" (Foto: Divulgação)

É o que é hoje o iPad. Como não tínhamos tecnologia para desenvolvê-lo, fizemos um vídeo mostrando como o dispositivo seria em vinte anos. Fomos parar na capa das revistas. O projeto inspirou o Newton (precursor do tablet, lançado em 1993).

O Newton não teve sucesso comercial, mas seu processador serviu de base para smartphones e tablets.

14/06/2012

às 14:00 \ Vasto Mundo

Invento de garoto de 15 anos revoluciona o combate ao câncer de pâncreas

Jack Andraka, aluno do ensino médio, recebeu o primeiro prêmio da maior feira de ciências do mundo, organizada pela Intel. O jovem desenvolveu um teste para diagnosticar precocemente três tipos de câncer, incluindo um dos mais letais: o de pâncreas (Divulgação)

Jack Andraka, aluno do ensino médio, recebeu o primeiro prêmio da maior feira de ciências do mundo, organizada pela multinacional fabricante de chips e outros componentes eletrônicos Intel. Ele desenvolveu um teste para diagnosticar precocemente três tipos de câncer, incluindo um dos mais letais: o de pâncreas (Foto: Divulgação)

(Reportagem de Marco Túlio Pires para VEJA.com)

 

JOVEM DE 15 ANOS REVOLUCIONA O COMBATE AO CÂNCER DE PÂNCREAS

Projeto vencedor da maior feira de ciências do mundo abre caminho para o diagnóstico precoce de um dos tipos mais letais da doença

Jack Andraka é um garoto americano de 15 anos que adora o seriado de TV Glee. Filho de pai polonês e mãe inglesa, mora com a família em Maryland, na vizinhança da capital, Washington, onde cursa o primeiro ano do High School (equivalente ao segundo grau no Brasil) no North County High School, um cólegio normal. Gosta de remar em seu caiaque e fazer origamis.

A princípio, não há nada que o destaque especialmente dos demais estudantes de sua idade. Jack, porém, é um gênio. No dia 18 de maio, venceu a Feira Internacional de Ciência e Engenharia da Intel, a maior do mundo para pré-universitários. Levou 100 mil dólares para casa, 75 mil pelo prêmio principal, 25 mil em prêmios especiais.

Seu feito: desenvolver um teste simples e barato para fazer o diagnóstico precoce de três tipos de câncer, incluido o do pâncreas, um dos mais letais. O custo é de três centavos de dólar e o resultado é obtido em menos de cinco minutos. Segundo o site da Intel, o teste que Jack criou é 28 vezes mais barato e 100 vezes mais sensível do que o conjunto de técnicas atualmente utilizado para o diagnóstico.

A comparação com o teste ELISA, o mais difundido método de detecção atual, é ainda mais impactante: o método de Jack se mostra 26.667 vezes mais barato e 400 vezes mais sensível.

 

Jack é persistente

Depois que um tio morreu de câncer do pâncreas, ele passou meses pensando em formas de atacar a doença. Cerca de 95% dos pacientes morrem em até cinco anos se o tumor no pâncreas não é descoberto cedo. Segundo a Organização Mundial de Saúde, todos os anos são registrados quase 145.000 novos casos de câncer de pâncreas e cerca de 139 mil mortes. Steve Jobs, cofundador da Apple, foi uma das vítimas da doença. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

30/05/2012

às 12:00 \ Tema Livre

EXCLUSIVO para VEJA: Eduardo Saverin, o brasileiro do Facebook, conta sua história

CORDIALIDADE - Saverin, no centro financeiro de Singapura, onde vive desde 2009: “Não tenho ressentimento algum do Mark” (Gilberto Tadday)

CORDIALIDADE -- Saverin, no centro financeiro de Singapura, onde vive desde 2009: “Não tenho ressentimento algum do Mark” (Foto: Gilberto Tadday)

(Reportagem do redator-chefe de VEJA Fábio Altman, de Singapura)

 

Em entrevista exclusiva a VEJA desta semana, cofundador da rede social revela os detalhes dos primórdios da empresa, diz por que o filme baseado na origem da companhia é um amontoado de ficções e anuncia seu desejo de investir no Brasil

Em 11 de maio, uma semana antes da abertura de capital do Facebook na bolsa de valores das empresas de tecnologia, a Nasdaq, o blog Bits, do jornal The New York Times, cometeu um erro antológico.

Ao fim do texto — “Um fundador do Facebook renuncia à cidadania americana”, informava a chamada —, vinha a constrangedora e necessária confissão do risível equívoco: “Uma versão anterior deste texto incluía uma foto publicada erronea­mente; ela mostrava Andrew Garfield, o ator que interpretou Eduardo Saverin no filme A Rede Social, e não o próprio Saverin”.

Quem recorda a derrapada do jornalão nova-iorquino, lembrança atrelada a um sorriso de Gioconda, incapaz de fazer aparecer os dentes, quase envergonhado, é o próprio Eduardo Saverin. Ele vive uma curiosa condição — a de precisar comprovar, em seu discreto cotidiano de Singapura, onde mora desde 2009, que não é como o personagem do filme e que Garfield, o próximo Homem-Aranha das telas, pode até interpretar muito bem, mas o Saverin de Hollywood nada tem a ver com o Saverin real.

“Aquilo é Hollywood, não é documentário”, diz, com o sotaque que mistura a típica toada paulistana de quem viveu no Brasil até os 10 anos com o inglês de quem cresceu em Miami, formou-se em Harvard e ficou bilionário por estar no centro de uma das mais espetaculares criações de nosso tempo: o Facebook, de quase 1 bilhão de curtidores e valor de mercado próximo aos 100 bilhões de dólares.

Saverin é o sócio número 2 desse clube (cujo primeiro endereço foi registrado na casa dos pais do brasileiro em Miami, ainda como Thefacebook, em 2004), atrás apenas de Mark Zuckerberg. O resto é história.

Ressalte-se que o próprio Saverin contribuiu para o embaralhamento público de seu ego com o alter ego do cinema. Avesso a qualquer contato pessoal que exclua amigos de confiança — “no Facebook não gosto de exibir minha privacidade”, diz —, ele tem sido um grande mudo, incapaz de meter seu nariz adunco e as calças Diesel de modelo rasgado onde não é chamado, desde que foi passado para trás por Zuckerberg, recorreu à Justiça, reconquistou o direito de ter quase 5% de ações da empresa (o equivalente a 5,8 bilhões de dólares, talvez um pouco menos, com a oscilação para baixo dos papéis na Nasdaq) e seu nome devolvido ao rol de fundadores.

Não falou por imposição de contrato e simplesmente porque não queria falar, protegido pela timidez. É uma fase que termina agora. Saverin recebeu VEJA com exclusividade. Ao contar parte de sua trajetória, a verdade vista por quem a viveu, demole alguns dos mitos que o cercam.

 

É verdade que a família Saverin deixou o Brasil, em 1992, porque tinha sido incluída numa lista de possíveis vítimas de sequestradores?

Não. Aqui quem recorda é o pai, Roberto Saverin, dono de uma companhia exportadora de remédios em Miami. “Sempre quis morar nos Estados Unidos, era um sonho que decidi alimentar porque o Brasil estava em crise, o Collor tinha congelado a poupança, não estava nada fácil”, diz.

Roberto migrou para fazer a América com a mulher, psicóloga, e três filhos — Eduardo, uma irmã dois anos mais velha que ele e um irmão, o primogênito.

Foi somente alguns anos depois, já nos Estados Unidos, que Roberto soube que Eugênio Saverin, seu pai, judeu romeno que montou no Brasil uma das mais conhecidas lojas de roupas infantis de São Paulo, a Tip Top, aparecera numa lista de supostos sequestráveis.

É verdade que Saverin arremessou um notebook em cima de Zuckerberg, como aparece numa das melhores cenas de A Rede Social?

Não. “Jamais faria isso, muito menos com o Mark”, assegura, e cinco minutos de convivência com sua calma etérea indicam ser muitíssimo improvável, para não dizer impossível, que ele reagisse daquela maneira.

É verdade que Saverin leva vida de príncipe árabe em Singapura, rodeado de mulheres e festas nababescas regadas a Moët & Chandon?

Não, nada além do que seus 30 anos e o dinheiro autorizem.

Quanto às mulheres, sabe-se de uma única, a namorada nascida na Indonésia que lhe ensinou a arte de tirar os sapatos antes de entrar em casa e cuja personalidade retraída emparelha com a do brasileiro.

É verdade que ele vive no prédio mais alto de Singapura, debruçado para o Oceano Pacífico emoldurado por uma cordilheira de arranha-céus modernosos?

Não. Saverin muito recentemente deixou o apartamento que dividia com um amigo americano para morar sozinho em um bairro um pouco mais afastado do burburinho. É um condomínio de luxo, sim — uma penthouse foi vendida ali no início de maio pelo equivalente a desavergonhados e quase inacreditáveis 27 milhões de reais —, mas perfeitamente compatível com sua fortuna, construída a partir do sucesso do Facebook (ainda que a derrapagem das ações tenha lhe subtraí­do 230 milhões de dólares em uma semana), e com o padrão altíssimo de Singapura.

Um dos quartos do apartamento serve de escritório. Saverin não tem secretária. São três monitores Mac de 27 polegadas que dividem a atenção com um iPhone e um iPad, permanentemente acessados. A partir desse conjunto eletrônico ele dispara pedidos de compra de ações e investimentos com conselheiros e advogados na Ásia, na Europa e nos Estados Unidos — um deles é seu irmão.

A diferença de fuso horário de Singapura para o resto do mundo o faz trabalhar até dezesseis horas por dia. Viaja muito, às vezes quatro vezes por mês, a ponto de saber de cor horários de voos e quando o vento sopra a favor ou contra as aeronaves. Uma das telas de computador está sempre ligada em sites e programas de estudo e simulação de furacões, tsunamis e derivados. É interesse que vem da infância, quando olhava para as nuvens.

Em algum momento ele chegou a ganhar dinheiro em mercados futuros de commodities afetadas pelas intempéries da natureza. Não mais, agora é apenas o prazer científico, só comparado a sua paixão pelo xadrez, também trazida lá de trás.

Os pais lembram-se do dia em que Saverin, então com 13 anos, ganhou uma partida de um mestre internacional em Orlando. Foi um feito tão fora da curva que virou notícia de uma revista da Associação Internacional de Xadrez. Quando estava prestes a dar o xeque-mate, ele se virou para a mãe, Sandra, e pediu licença: “Acho que vou ganhar, será que vai pegar mal?”. Ante a aquiescência materna, encurralou humildemente o adversário.

LUGAR DE TRABALHO - No escritório dentro de seu apartamento, sem secretária, ele opera três telas de computador ao mesmo tempo - uma delas sempre ligada em prognósticos de furacões e tempestades, mania desde a infância

LUGAR DE TRABALHO -- No escritório dentro de seu apartamento, sem secretária, ele opera três telas de computador ao mesmo tempo - uma delas sempre ligada em prognósticos de furacões e tempestades, mania desde a infância (Foto: Gilberto Tadday)

Saverin age como quem joga xadrez — tenta antever o que virá depois, em lances ora agressivos, ora cautelosos. Dos pais e de Harvard aprendeu que errar muito é o caminho mais curto para acertar, mesmo pouco. Negociador, é nato. Antes de ir para os Estados Unidos, pré-adolescente, vendeu um videogame para um amigo, com quem também dividia o fascínio por Michael Jackson, mas disse ao pai que só embarcaria se ganhasse outro. Levou o que pediu e, de quebra, foi presenteado com um micro Packard Bell, seu primeiro.

“Hoje tenho investido como louco”, diz. Pôs dólares em dezenas de empresas dos Estados Unidos, Europa e Ásia como investidor-anjo, figura nascida no Vale do Silício. Algumas já andam bem.

Quer entrar no Brasil, “porque está em meu coração, sou brasileiro, é o lugar onde nasci”, mas ainda não descobriu uma boa janela. Recentemente, em trocas de e-mails, esbarrou em mensagens copiadas para Eike Batista — mas essa ainda não é sua porta de entrada brasileira. Não quer minérios, a não ser que tenha alguma relação com silício, com tecnologia. Insistente, tenta achar um novo Facebook.

Mas onde ele está?

“Na área de tratamento de saúde, acho”, afirma. Ao amigo com quem dividia o apartamento, com quem compartilhou o quarto em Harvard no tempo da gênese do Facebook e com quem deu a volta ao mundo em 2009 até parar em Singapura (o.k., não eram mochileiros), entregou 500 000 dólares para os primeiros passos de uma empresa, a Anideo, que já faz games de sucesso e um agregador de vídeos.

“Naquele tempo do começo do Facebook, eu jogava beisebol e tinha namorada, estava perto fisicamente mas longe no negócio, aí não fiquei rico”, brinca Andrew Solimine, o segundo Andrew mais importante da vida de Saverin. O primeiro é o furacão Andrew, que em agosto de 1992 passou por Miami, devastador. “Fiquei fascinado, e, tendo já alguma informação científica, consegui ir até o olho do furacão, literalmente”, conta Saverin.

Por que Saverin renunciou à cidadania americana?

Olho do furacão que não se compara, em força, ao vivido nas duas últimas semanas, depois que a imprensa divulgou sua renúncia à cidadania americana, supostamente para evitar os 15% de impostos sobre ganhos de capital — taxa que inexiste em Singapura e lhe poupou pelo menos 67 milhões de dólares. Acusaram-no até de ingrato e traidor, por não devolver aos Estados Unidos o que os Estados Unidos lhe deram.

Saverin nega que tenha fugido do leão do imposto. “A decisão foi apenas baseada no meu interesse em trabalhar e viver em Singapura”, diz. “Sou obrigado e pagarei centenas de milhões de dólares em impostos ao governo americano. Paguei e continua­rei a pagar as taxas devidas sobre tudo o que ganhei enquanto fui cidadão dos Estados Unidos.”

O pai, Roberto, a quem Eduardo tem como ídolo e mentor, revela novos detalhes dessa escolha: “Foi duro também para mim, que construí nova vida nos Estados Unidos, quando o Eduardo disse que teria de renunciar à cidadania. Fez isso não exatamente porque quisesse, mas porque não tinha alternativa, vivendo em Singapura. Toda movimentação financeira lá é mais restrita e burocratizada quando se tem o passaporte americano. Não havia outro caminho”. E nos Estados Unidos, admite o pai, sobretudo depois do IPO do Facebook, “seria muita pressão para ele”.

Saverin tende sempre a contemporizar, porque é de sua índole, mas também porque não é bobo, e uma palavra fora de lugar pode retornar como um bumerangue. Instado a comentar um dos e-mails enviados por Mark Zuckerberg a outro cofundador do Facebook, Dustin Moskovitz, revelado há poucos dias, Saverin não pisca nem mexe as grossas sobrancelhas, revelando algum incômodo.

Escreveu Mark, em 2005: “Ele deveria criar a empresa, obter financiamento e fazer um modelo de negócios. Falhou em todos os três. Agora que eu não vou voltar para Harvard, não preciso me preocupar em ser espancado por bandidos brasileiros”. A resposta de Saverin, agora: “Só posso falar bem do Mark, não tenho ressentimento algum; é admirável o foco dele desde o primeiro dia até hoje — foi um visionário, sempre soube que o Facebook só cresceria se mantivesse a ideia central, a de as pessoas se apresentarem verdadeiramente, sem pseudônimos.

É a grande força do Facebook, o que permitiu transformá-lo em um instrumento de protesto, como no Egito, mas também de negócios, além do contato natural com amigos”.

Personagem decisivo da ainda jovem trajetória das redes sociais, Saverin ensaia outro pulo, o dos meios de pagamento eletrônicos — cerne de alguns de seus investimentos mais pesados, entre eles uma extraordinária ideia de doação para entidades beneficentes do México por meio de cartão de crédito, sem burocracia. “O Eduardo não apenas é cofundador, mas também investidor e membro do board do negócio”, diz Aldo Alvarez, o CEO do Aporta — eis o nome da inovação. “Ele não apenas entrou com o dinheiro crucial para iniciarmos a operação como contribuiu com um conhecimento tecnológico extraordinário.”

A admiração de Saverin pelo passado da família

Sempre modesto, Saverin parece não admitir a grandeza do que ajudou a erguer — o Facebook, ou Fakebook, depois das confusões acionárias da semana passada – e daquilo em que se transformou, globalmente. Acha que tem o gene do empreendedorismo porque o herdou dos avós. “Todos, sempre, acabamos fazendo alguma coisa”, resume. Os pais conhecem essa admiração de Saverin pelo passado da família. Na semana passada, enviaram um e-mail para o filho.

Ele resume, a um só tempo, esse olhar em busca das brechas de oportunidades — típico de Eugênio Saverin, o tecelão da Tip Top, o avô do Facebook — e o jeitão típico de uma família brasileira que foi para os Estados Unidos e viu o filho encaminhar fenomenais mudanças planetárias.

Diz a mensagem, atrelada a uma foto: “Dudu. Seu avô Eugênio recebeu do então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, em 29 de maio de 2002, o título de Oficial da Ordem de Rio Branco, um título muito prestigioso que só é dado a pessoas que contribuíram para o desenvolvimento e o progresso do Brasil. Beijos, papai e mamãe”.

Dudu já tem uma vida cheia de história — e, no entanto, nasceu apenas em 1982, na franja da grande virada iniciada por Steve Jobs e Bill Gates e que culminaria na rede social de Mark Zuckerberg e Eduardo Saverin, rede que do início ao fim da leitura desta reportagem terá recebido 29 milhões de “curtir”.

06/10/2011

às 9:54 \ Tema Livre

Steve Jobs (1955-2011) e sua Apple em tributos de dois designers

A morte de Steve Jobs, aos 56 anos de idade, ocorrida ontem – leia cobertura completa no site de VEJA, já foi lamentada publicamente por personalidades como Barack Obama, Nicolas Sarkozy, Steven Spielberg, Bill Gates e Mark Zuckerberg. Ao mesmo tempo, circulam na internet algumas criativas homenagens ao gênio fundador da Apple:

Por Jonathan Mak, que em seu site afirma ser “uma pessoa de 19 anos residente em Honk Kong” que, entre outras coisas, “se autoproclama um designer, fotógrafo e filósofo”:

Por Augusto Verrengia, de Piracicaba (SP), ex-publicitário e atualmente empresário, dono da marca de camisetas temáticas para corredores de rua Vamos Correndo:


LEIA TAMBÉM:

O discurso histórico de Steve Jobs

25/09/2011

às 20:00 \ Tema Livre

Vídeo: Steve Jobs fala sobre como foi adotado, paixão pelo que faz, a Apple, doença, vida e morte. Seu histórico discurso na Universidade Stanford

Amigos do blog, este discurso de Steve Jobs, o gênio da Apple, dos estúdios Pixxar e de grande parte das inovações que fizeram o futuro chegar mais cedo para tantos milhões de pessoas, foi pronunciado no dia 5 de junho de 2005, e desde então roda o mundo por sua franqueza e pelos recados que ele deu aos formandos da Universidade Stanford, na Califórnia, e a milhares de jovens que o ouviam.

Jobs havia passado pela experiência de ter diagnosticado um câncer incurável e de, aparentemente, tê-lo vencido. Infelizmente ele está de novo doente, e não se sabe se escapará. Sua obra, porém, já o faz um dos homens mais importantes do novo século. E seu discurso, com legendas em português neste vídeo, continua tão interessante e instigante como quando ele o pronunciou.

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