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“símbolos do capitalismo”

23/08/2013

às 11:47 \ Política & Cia

O BANDO DOS CARAS TAPADAS — Quem são os manifestantes baderneiros do black bloc, que saem às ruas para quebrar tudo

BLACK TROPICAL -- Na Europa, onde o grupo surgiu, coturnos e preto total fazem parte do uniforme dos mascarados; na versão brasileira, entraram as sandálias Havaianas e as camisetas de time (Foto: Luan Corrêa)

BLACK TROPICAL -- Na Europa, onde o grupo surgiu, coturnos e preto total fazem parte do uniforme dos mascarados; na versão brasileira, entraram as sandálias Havaianas e as camisetas de time (Foto: Luan Corrêa)

Reportagem de Bela Megale e Alexandre Aragão, com colaboração de Pâmela Oliveira, publicada na edição de VEJA que está nas bancas

O BLOCO DO QUEBRA-QUEBRA

Com slogans anarquistas na cabeça e coquetéis molotov na mão, os black blocs se espalham pelo Brasil e transformam protestos em arruaça. Jovens da periferia, punks e até universitárias de tênis Farm compõem o bando

No começo, quase ninguém notou a chegada deles. Em 20 de abril de 2001, o mesmo dia em que grupos anarquistas no Canadá protestavam contra a criação da Alca, em Quebec, na Avenida Paulista, em São Paulo, um bando de arruaceiros com o rosto coberto destruía a marretadas agências bancárias e uma loja do McDonald’s. Era a primeira arruaça black bloc no Brasil.

Embora, àquela altura, pouca gente soubesse o que era isso, o bando de inspiração anarquista, defensor da “destruição consciente da propriedade privada” e autodeclarado inimigo do capitalismo, começava a se organizar no país. Hoje, os militantes, por assim dizer, não chegam a duas centenas por aqui. É um grupo pequeno, mas que, engrossado por vândalos de ocasião, em algumas capitais tem transformado a baderna e a violência em uma assustadora rotina.

VIROU ROTINA -- Mascarado destrói vitrine de loja de carros em São Paulo. A cena se repete há mais de dois meses também no Rio de Janeiro, sem que haja quase nenhum baderneiro preso (Foto: Fabio Braga / Folhapress)

VIROU ROTINA -- Mascarado destrói vitrine de loja de carros em São Paulo. A cena se repete há mais de dois meses também no Rio de Janeiro, sem que haja quase nenhum baderneiro preso (Foto: Fabio Braga / Folhapress)

Na semana passada, os black blocs estiveram por trás de todas as manifestações violentas que explodiram no Rio de Janeiro e em São Paulo, com exceção da tentativa de invasão do Hospital Sírio-Libânes, esta uma obra de sindicalistas. Na quinta, no Rio de Janeiro, cerca de 200 mascarados depredaram agências bancárias, pontos de ônibus e arremessaram um banheiro químico no meio da rua.

A Avenida Rio Branco, uma das principais vias da cidade, ficou parada por quase sete horas. No dia anterior, em São Paulo, black blocs haviam queimado uma catraca, que levaram durante toda a manifestação como troféu. Na sequência, invadiram o prédio da Câmara Municipal e destruíram suas vidraças.

Por princípio herdado dos seus precursores europeus, muitos dos black blocs desprezam qualquer movimento político organizado, à direita ou à esquerda, o que inclui até os, atualmente em voga, Fora do Eixo e Mídia Ninja. Mas, ao menos no Brasil, o fato de saberem do que não gostam não quer dizer que saibam o que querem.

Exemplo disso ocorreu durante a invasão da Câmara Municipal de São Paulo, quando um black bloc abordou aos berros o presidente da Casa, o petista José Américo: “O senhor é a favor da tarifa zero? Quem matou o Amarildo? Abriria mão do seu salário? É contra a Constituição?”.

MISTURA EXPLOSIVA -- Aos black blocs das periferias de grandes cidades se juntaram punks e universitários de classe média, que engrossaram as fileiras do bando nos confrontos com a polícia em São Paulo (Foto: Fernando Cavalcanti)

MISTURA EXPLOSIVA -- Aos black blocs das periferias de grandes cidades se juntaram punks e universitários de classe média, que engrossaram as fileiras do bando nos confrontos com a polícia em São Paulo (Foto: Fernando Cavalcanti)

Se os vândalos paulistanos não conseguiram ainda eleger seu alvo, os do Rio já o fizeram. Há mais de um mês, black blocs lideram um acampamento na porta da casa do governador Sérgio Cabral. Dentro de suas tendas, entre um baseado e um gole de vodca, exigem a renúncia do político.

Por trás dos lenços – pretos, na versão original; de qualquer cor que estiver à mão, na versão brasileira – estão principalmente moradores de periferia. Mas punks e egressos de movimentos sociais decadentes, como o MST, engrossam as fileiras do bando.

Nessa combinação, a adesão dos primeiros – com suas calças justas e coturnos de cadarços pretos, vermelhos ou amarelos (os brancos são abominados pela associação com os inimigos neonazistas) – contribuiu para aumentar o grau de violência do grupo e levar para dentro dele outros elementos deletérios, como vinho barato e cocaína.

Em São Paulo, completam a babel social estudantes de universidades como USP, PUC e Faap. Na semana passada, uma aluna de ciências sociais da USP engrossava o bloco do quebra-quebra calçando tênis da grife Farm, em média 250 reais o par. “É ótimo para manifestações”, justificava.

Manifestantes pela queda do governador do Rio, Sérgio Cabral (Foto: Marcos Arcoverde / Estadão Conteúdo)

Manifestantes pela queda do governador do Rio, Sérgio Cabral (Foto: Marcos Arcoverde / Estadão Conteúdo)

Na capital paulista, essa turma heterogênea se reúne em uma casa na Zona Oeste, em festas regadas a cerveja e ao som de cumbia – ritmo nascido na periferia de Buenos Aires. Ao final, assistem a filmes como Brad, Uma Noite Mais nas Barricadas, uma ode ao produtor de vídeo americano morto por um grupo paramilitar durante uma manifestação no México.

No Brasil, os primeiros integrantes dos black blocs viviam nos moldes das antigas comunidades hippies, em bairros como Perus, na Zona Norte de São Paulo. Politizados e interessados por história, liam livros como Manual do Guerrilheiro Urbano, de Carlos Marighella, e The Black Bloc Papers, que conta o histórico do bando.

Ele surgiu nos anos 80, na Alemanha da Guerra Fria sacudida por protestos antinucleares. Naquele tempo, os black blocs diziam ter um objetivo diferente do atual: o de servir de “escudo humano” para os manifestantes que desafiavam a polícia e apanhavam dela.

Mas o contexto mudou. No fim da década de 90, com o Muro de Berlim despedaçado, o marxismo em baixa e o anarquismo em alta, os black blocs aterrissaram nos Estados Unidos e no Canadá com bandeiras já enegrecidas e gritos bem mais radicais: pela destruição da propriedades, do governo e das empresas privadas.

McDonald’s e Starbucks viraram imediatamente os alvos preferenciais da turma – e até hoje não escapam ilesas de nenhum protesto em que haja um mascarado. Em 2011, os black blocs participaram do Occupy Wall Street, em Nova York.

A violência do grupo assustou os manifestantes comuns e serviu para abreviar o movimento – o mesmo processo que pode ter acontecido com as manifestações que começaram em junho no Brasil.

Em reunião do G* na Alemanha, em 2007, manifestantes bloquearam rodovias para dificultar o acesso aos chefes de estado (Foto: Patrick Lux / AP)

Em reunião do G* na Alemanha, em 2007, manifestantes bloquearam rodovias para dificultar o acesso aos chefes de estado (Foto: Patrick Lux / AP)

Por aqui, a tática usada pelo grupo nos últimos atos obedece ao padrão de ação dos precursores europeus e americanos. Em turmas de cerca de 100 pessoas, os black blocs assumem a linha de frente dos protestos, a pretexto de compor uma barreira entre os manifestantes e os policiais.

De braços cruzados, movem-se como uma massa uniforme em direção às barreiras de segurança. Quando a polícia se aproxima, emitem em coro e de forma ritmada grunhidos semelhantes a um grito tribal. Nesse momento, alguns membros lançam morteiros, coquetéis molotov e pedras com estilingues.

O objetivo é provocar a polícia. Quando ela reage, eles se dividem: uma turma parte para cima e a outra foge para pichar muros, atear fogo em latões de lixo e destruir estabelecimentos, preferencialmente bancos, concessionárias de carros, lanchonetes de cadeia e tudo o que considerarem “símbolos do capitalismo”.

Placas de sinalização viram armas e orelhões, escudos. Na cartilha apreendida pelo delegado Marco Duarte de Souza, da Polícia Civil do Rio Grande do Sul, um grupo de black blocs descreve seus alvos: “bancos, grandes empresas e a imprensa mentirosa”.

Devem ser evitadas, segundo o texto, depredações de “carros particulares e pequenos comércios”. Os black blocs acham isso muito bonito e nobre – orgulham-se de dizer que não praticam o que chamam de “vandalismo arbitrário”.

Para eles e seus admiradores confessos – entre os quais professores universitários pagos com dinheiro público -, destruir uma agência bancária a marretadas ou golpes de extintor de incêndio não é vandalismo, mas uma “ação simbólica”, que, inserida na “estética da violência”, simularia a “ruína do capitalismo”. Embora haja uma definição mais precisa para isso – e ela pode ser resumida na palavra crime -, quase nenhum black bloc está preso hoje no país.

Em dois meses de manifestações, mais de 200 agências bancárias foram depredadas, o que causou um prejuízo superior a 100 milhões de reais. No comércio, foi de 38 milhões de reais. Em São Paulo, o governo e a prefeitura gastaram até agora 350.000 reais para consertar vidraças das estações de metrô destruídas, placas de rua e pontos de ônibus. No Rio de Janeiro, o prejuízo superou 1,5 milhão de reais.

Com toda essa destruição, por que não há vândalos presos? Para que uma pessoa tenha a prisão cautelar ou preventiva decretada nos flagrantes de vandalismo, é necessário comprovar que, solta, representaria risco à ordem pública. Essa decisão tem de partir de um juiz, que, para tomá-la, precisaria estar amparado numa investigação policial – que até hoje não foi feita, ao menos de forma sistemática.

OCUPA E AFUGENTA -- A presença de black blocs no occupy Wall Street afugentou os manifestantes comuns e ajudou a abreviar o movimento, fenômeno que pode ter ocorrido com os protestos que começaram em junho no Brasil: o uso da violência isola o grupo (Foto: John Minchillo / AP)

OCUPA E AFUGENTA -- A presença de black blocs no occupy Wall Street afugentou os manifestantes comuns e ajudou a abreviar o movimento, fenômeno que pode ter ocorrido com os protestos que começaram em junho no Brasil: o uso da violência isola o grupo (Foto: John Minchillo / AP)

Outra opção seria enquadrar os arruaceiros pelo crime de formação de quadrilha, além de dano ao patrimônio. Ocorre que, também nesse caso, é necessário haver uma investigação prévia que comprove que as pessoas se juntaram de modo estável e contínuo para cometer os delitos.

O anarquismo, do qual derivam os black blocs, prega a organização da vida em sociedade fora da moldura do estado – segundo creem, a fonte de todos os males. Os black blocs, no entanto, assimilam apenas o subproduto desse ideário: a improvisação, a baderna e a tolerância para com certos crimes. Tudo aquilo de que o Brasil está louco para se livrar.

A contar pela intensidade da ação policial e da disposição do grupo, inversamente proporcionais, isso não ocorrerá tão cedo. Integrantes dos black blocs já anunciaram que o pior ainda está por vir – e deram até a data, 7 de setembro, quando estão previstas, em dezenas de cidades brasileiras, manifestações de nome preciso e autoexplicativo: Badernaço.

 

Black bloc em hora de recreio

MARX NO INTERVALO -- Emma: entre as assembleias, livros e beijos (Foto: Leo Corrêa)

MARX NO INTERVALO -- Emma: entre as assembleias, livros e beijos (Foto: Leo Corrêa)

No começo do século XX, nos Estados Unidos, o rosto de Emma Goldman, nascida no que hoje é a Lituânia, era uma das faces mais conhecidas do anarquismo. Neste começo de século XXI, no Brasil, os olhos claros de outra Emma (pelo menos esse é o nome que ela escolheu para se apresentar ao mundo) foram os mais compartilhados nas redes sociais quando o assunto era a ala feminina dos black blocs.

Sempre coberta por uma camiseta enrolada em torno da cabeça, a Emma brasileira ganhou ensaio fotográfico amigo e entrevista no Mídia Ninja e ainda teve imagens suas circulando na internet nas quais discute com um policial, com quem quase chegou às vias de fato. Junto com duas dezenas de estudantes e até mendigos, ela está acampada há duas semanas nas proximidades do prédio onde mora o governador do Rio, Sérgio Cabral. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

 

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