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Revolução de 1932

13/04/2013

às 16:00 \ Política & Cia

Roberto Pompeu de Toledo: proposta de mudar para Mario Covas o mais tradicional viaduto de São Paulo é a homenagem errada para o homem certo

Viaduto do Chá Mário Covas: homem certo com a homenagem errada (Foto: Dedoc)

Viaduto do Chá: a proposta de querer mudar seu tradicionalíssimo nome dormia na Câmara Municipal desde a morte de Covas, em 2001 (Foto: Dedoc/Editora Abril)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

MÁRIO, IMPERADOR DA PÉRSIA

A Câmara Municipal de São Paulo está na iminência de reverenciar o homem certo com a homenagem errada. O homem certo é Mário Covas, dono de uma biografia que, na contramão do geral ceticismo e de não poucas evidências, prova a existência de políticos dignos no Brasil.

Roberto Pompeu de Toledo

Roberto Pompeu de Toledo

A homenagem errada é conferir seu nome ao Viaduto do Chá, no centro de São Paulo, antiga e das mais simbólicas vias da cidade. A proposta de dar o nome de Covas ao viaduto dormia na Câmara desde a morte do então governador, em 2001. Foi ressuscitada nas últimas semanas e tem o apoio de 45 dos 55 vereadores.

A construção do Viaduto do Chá, inaugurado em 1892, quando São Paulo tinha 130 000 habitantes, constituiu-se numa das obras mais decisivas — se não a mais decisiva — já ousadas na cidade. Sua função era transpor o vale que tendo ao fundo o riacho do Anhangabaú, separava a colina em que se assentava o centro histórico da elevação do lado oposto. Imagine-se a dificuldade que antes, enfrentava quem precisasse ir de um lado ao outro.

Tinha de descer uma dura escarpa, seguir uma picada no meio do mato, lá embaixo, atravessar uma das pontes sobre o riacho e escalar a escarpa do outro lado. O viaduto representou a libertação da futura metrópole do ovo em que a aprisionava o sítio original — uma colina cercada pelos rios Tamanduateí e Anhangabaú e por várzeas inundáveis.

O nome “do Chá” pode parecer estranho a uma cidade que já então, começava a ser conhecida como capital do café, mas tinha sua razão de ser: plantações de chá estendiam-se por aquela área.

Mudar o nome do viaduto é iniciativa que se insere na geral leviandade com que, Brasil afora, as câmaras municipais se utilizam da prerrogativa de nomear e renomear logradouros públicos. No passado de São Paulo, há casos em que o fenômeno chegou ao limite da loucura.

Quando, na Guerra de Canudos, em 1897, morreu o coronel Moreira César, propagandeado como um herói nacional, resolveu-se dar seu nome à Rua de São Bento, uma das primeiras da cidade, conhecida como tal havia dois séculos. Mais adiante, em 1927, sob o choque da morte do governador do estado, o presidente, como se dizia na época, Carlos de Campos, decidiu-se trocar o nome da Avenida Paulista pelo do falecido.

Nos dois casos, ao ataque da loucura sucedeu a retomada da razão, e em pouco tempo as duas vias voltaram a ostentar os nomes originais.

No Brasil como um todo, o mais aberrante caso dos últimos tempos foi o da febre de renomeações que se seguiu à morte do deputado baiano Luís Eduardo Magalhães, filho e herdeiro político do cacique Antonio Carlos Magalhães.

Ruas, avenidas e praças, em cada recanto da Bahia, tiveram suas placas mudadas, para homenagear o falecido — e ao mesmo tempo, claro, fazer um agrado ao desolado pai. Nada escapou da sanha homenageadora/ bajuladora.

Até mesmo uma cidade, antes conhecida como Mimoso do Oeste, passou a chamar-se Luís Eduardo Magalhães, e foi cumprir a triste sina das cidades com nome de gente, um de cujos inconvenientes é a aspereza do gentílico (luís-eduardense? magalhense?). Mas o pior dos atentados foi atribuir ao falecido o nome do aeroporto de Salvador, antes conhecido como 2 de Julho, a sacrossanta data da independência da Bahia. Como o foram permitir os baianos? Como o permitem até hoje? Revolvei-vos, cidadãos de boa terra!

A sanha renomeadora volta-se em geral contra vias, locais ou equipamentos que não têm nome de gente. É o caso do Aeroporto 2 de Julho, da Avenida Paulista e também do Viaduto do Chá, nome tradicional dado pelo povo.

Fica mais fácil, pois tirar nome de gente equivale a desrespeitar a memória histórica do destronado, ou ofender-lhe a família. Chá, em princípio, não reclama. Para apaziguarem os que se insurgem em nome da tradição, os vereadores de São Paulo propõem-se não a substituir o antigo nome, mas a acrescentar-lhe o novo.

Viaduto do Chá Mário Covas seria a nova denominação. O truque já foi usado antes, na mesma São Paulo, quando o Túnel 9 de Julho passou a ser chamado de Túnel 9 de Julho Daher Elias Cutait. Virou um nome que, ao tentar homenagear ao mesmo tempo uma data (a do início da chamada Revolução de 1932) e uma pessoa, homenageia uma e outra apenas pela metade.

No caso do Viaduto do Chá Mário Covas, os estrangeiros ficarão em dúvida se “Mário Covas” é uma marca de chá ou se “Chá” designa, com ortografia errada, um antigo imperador da Pérsia chamado Mário Covas.

24/06/2012

às 14:02 \ Política & Cia

Enfim um arquivo público para ninguém botar defeito: SP inaugura prédio com tecnologia de última geração que pode abrigar 70 quilômetros de documentos históricos — empilhados

O coordenador Carlos Bacellar: depósito climatizado com capacidade de armazenamento sete vezes maior (Foto: Fernando Moraes)

O coordenador Carlos Bacellar: depósito climatizado com capacidade de armazenamento sete vezes maior (Foto: Fernando Moraes)

 

(Reportagem de Claudia Jordão publicada na revista VEJA São Paulo)

 

A NOVA CASA DA MEMÓRIA PAULISTA

Guardados em locais improvisados desde o século XIX, documentos do Arquivo Público ganham prédio sob medida dotado de alta tecnologia

 

No fim do século XIX, os documentos históricos do Estado de São Paulo ficavam literalmente nos porões do palácio do governo, que funcionava no Pátio do Colégio, no centro. Nos dias de faxina, quando o piso do andar de cima era esfregado com sabão e a água suja escorria pelas frestas do assoalho de madeira, parte de nossa memória era comprometida, e muitos papéis encharcados tinham de ser descartados.

De lá para cá, como uma batata quente, a papelada foi transferida para sete endereços na cidade – seu último destino foi um prédio no número 596 da Rua Voluntários da Pátria, em Santana, onde está há quinze anos.

A falta de uma sede própria para o Arquivo Público, com espaço físico suficiente e condições de armazenamento adequadas, prejudicou a ampliação do acervo, que nos últimos anos contabilizou apenas dois recolhimentos significativos – em 1991, com patrimônios do Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo (Deops/SP, polícia política que não mais existe) que vieram da Polícia Federal em Brasília, e em 2011, com escrituras do então Memorial do Imigrante (atual Museu da Imigração) transferidas do bairro do Brás para lá.

Agora, mais de um século depois, o órgão ganha uma casa à altura de sua importância.

Os tesouros que virão e 500.000 documentos já digitalizados

Com inauguração realizada dia 18 de junho, um edifício projetado especialmente para esse propósito tem capacidade para abrigar os 10 quilômetros lineares de escritos históricos (a medida é feita com as folhas empilhadas), os 2 milhões de fotografias e os 15 000 mapas que contam a história do estado desde 1578 – data da mais antiga peça guardada, um inventário de um sapateiro.

O prédio foi erguido no mesmo terreno da Voluntários da Pátria e vai receber da construção antiga tesouros como prontuários criminais, registros de entradas de imigrantes no país, censos dos séculos XVIII e XIX e lembranças da Revolução de 1932.

Com investimento de 87 milhões de reais, a construção, de dez andares, possui cinco pavimentos de estrutura reforçada (capaz de aguentar quase nove vezes mais peso do que a convencional), além de funcionar como uma câmara fria, que impede a entrada de luz natural, suficiente para danificar os documentos. Por causa do novo espaço, que pode armazenar 70 quilômetros de escrituras, funcionários já começaram a percorrer secretarias estaduais, cartórios de registro e outras instituições públicas para identificar preciosidades e voltar a alimentar suas estantes.

Funcionário higieniza documentos: pincel para remover a poeira e mesa que aspira impurezas (Foto: Fernando Moraes)

Funcionário higieniza documentos: pincel para remover a poeira e mesa que aspira impurezas (Foto: Fernando Moraes)

Além disso, o órgão fará campanhas para obter doações particulares. Na chegada do material, técnicos e laboratórios entram em ação. O primeiro passo é identificar sua relevância. Se for anterior à década de 40, é considerado histórico e a guarda deve ser avaliada. Antes de ir para as prateleiras, fica quarenta dias isolado para eliminar possíveis pragas. Depois disso, é higienizado, restaurado e digitalizado. Até hoje, uma pequena parte foi microfilmada e digitalizada: 500.000 peças. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

13/06/2012

às 14:08 \ Política & Cia

Roberto Pompeu de Toledo: A Revolução de 1932 e alguns personagens

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"Toda a gente da rua se dirigia pro comício e não se via uma cara só. O que se via era aquele ruminante ondular de ombros, e os passos batebatendo plãoque-plãoque no revestimento caro da rua" (Foto: Reprodução)

(Artigo publicado na edição de VEJA que está em bancas)

 

GENTE DE 1932

Roberto Pompeu de Toledo

Roberto Pompeu de Toledo

No dia 24 de fevereiro de 1932, o poeta Mário de Andrade aderiu ao plãoque-plãoque. A expressão é dele. Escreveu, ao seu modo modernista: “Toda a gente da rua se dirigia pro comício e não se via uma cara só. O que se via era aquele ruminante ondular de ombros, e os passos batebatendo plãoque-plãoque no revestimento caro da rua plãoque-plãoque, plãoque-plãoque”.

A cidade de São Paulo estava tomada de uma febre. Sucediam-se os comícios contra o regime de Getúlio Vargas.

No dia 9 de julho, as manifestações desembocaram numa guerra. São Paulo pegou em armas e, nos quase três meses seguintes, lutou contra o resto do Brasil.

A chamada Revolução de 1932 completa oitenta anos no mês que vem. Se a ideia era não mais do que a reconstitucionalização do país, como apregoavam as lideranças paulistas, ou a reação de uma oligarquia que se imaginava ameaçada, é assunto para outros e mais doutos espaços. Neste, mais modesto, vai interessar o lado em que estavam certos personagens, e o comportamento que tiveram.

Mário de Andrade, de um lado, e Drummond, de outro

Entre os poetas, se a causa de São Paulo tinha Mário de Andrade, a do resto do Brasil tinha Carlos Drummond de Andrade. Como principal assessor do então secretário da Justiça de Minas Gerais, Gustavo Capanema, Drummond esteve, em agosto, em visita ao túnel ferroviário da Mantiqueira — local de uma longa batalha, na divisa entre Minas e São Paulo.

Drummond redigiu um texto a respeito, e leu-o no rádio: “Eu estive diante do Túnel e vi o soldado lutando. E o soldado não me viu porque estava lutando. (…) Mineiros estão lutando lá longe, nas alturas, aonde não chegam boatos nem se insinuam as vacilações. (…) Vamos ser, como esse soldado, diretos e positivos”.

Concentração de ancestrais de futuros presidentes

Em posições de destaque, no conflito, temos uma curiosa concentração de ancestrais de futuros presidentes da República. Um dos principais chefes militares do lado rebelde era o coronel Euclides Figueiredo, pai do futuro presidente João Figueiredo.

Euclides, como o filho, era carioca, mas alinhou-se do lado paulista. Do mesmo lado estava Lindolfo Collor, avô do futuro presidente Fernando Collor de Melo. Lindolfo era gaúcho e, com um grupo de outros dissidentes do Rio Grande do Sul, lutou em vão para alinhá-lo com São Paulo.

Trincheira (Foto: Acervo Laire Jorge Giraud)

Na trincheira: "vi o soldado lutando. E o soldado não me viu porque estava lutando", diz o poeta (Foto: Acervo Laire Jorge Giraud)

Do lado oposto, o general Augusto Inácio do Espírito Santo Cardoso, tio-avô do futuro presidente Fernando Henrique Cardoso, era o ministro da Guerra de Getúlio. Fernando Henrique nasceu no Rio de Janeiro, mas cresceu e fez carreira em São Paulo. Já o tio-avô combatia São Paulo. A diversidade de origens e posições no conflito reflete a barafunda própria das guerras civis.

O homem que matou Euclides da Cunha e um futuro prefeito de São Paulo

Entre figuras em papéis de menor destaque no episódio vamos encontrar, lutando entre as forças governistas, o capitão Dilermando de Assis. No Exército ele foi apenas mais um, mas na história do Brasil já assegurara seu lugar, como o homem que matou Euclides da Cunha.

Em seu excelente livro 1932—A Guerra Civil Brasileira, o brasilianista Stanley Hilton registra uma declaração de Dilermando a propósito da crueldade das “requisições”’ de bens de particulares em apoio ao esforço de guerra: “As requisições transformaram-se em verdadeiro saque oficializado, documentado, porque o governo em geral não nas (sic) paga”. Era a reincidência no crime. Não contente em matar o autor de Os Sertões, investia agora contra a língua portuguesa, um dos grandes amores do escritor.

Outro personagem menor no conflito foi um oficial de 23 anos. José Vicente de Faria Lima. Esse oficial, destinado a uma carreira na Força Aérea em que chegaria a brigadeiro, não é outro senão o operoso prefeito de São Paulo que, entre outras obras, rasgou a majestosa avenida que leva seu nome. Em 1932, o carioca Faria Lima estava engajado em missões de bombardeio da aviação governista contra posições paulistas.

Dias depois do 9 de julho, Santos Dumont se suicida

Em terra, por falar em aviões, encontrava-se Alberto Santos Dumont, o Pai da Aviação. Com a saúde física e mental abalada, fora alojado pela família numa casa alugada no então sossegado balneário do Guarujá.

No dia 14 de julho, ele redigiu um apelo pela concórdia entre os litigantes. O trecho em que disse que “somente pela lei magna” os problemas nacionais poderiam ser resolvidos foi interpretado como apoio à causa paulista.

Pode ser. No dia 23 de julho, burlando a vigilância do sobrinho que o acompanhava, refugiou-se no banheiro e enforcou-se com uma gravata. Dizem que não aguentou o ronco dos aviões que rondavam o Porto de Santos, ali perto. Pode ser.

 

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