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respeito à vida humana

12/04/2012

às 19:31 \ Política & Cia

Histeria sobre decisão do Supremo a respeito de aborto sufoca até mesmo a possibilidade de discutir um direito que, em países mais civilizados que o Brasil, assiste às mulheres

Plenário do STF: por 8 a 2, ministros liberam aborto de anencéfalos (Nelson Jr./SCO/STF)

Plenário do STF: por 8 a 2, ministros liberam aborto de anencéfalos (Nelson Jr./SCO/STF)

O Supremo Tribunal Federal decidiu que não é crime o aborto de um feto anencéfalo, destituído das funções que constituem o que conhecemos como vida humana.

Interpretou, como lhe cabe, de forma não-restritiva o Código Penal, que considera crime o aborto, exceto dois casos: quando não há outra forma de salvar a vida da gestante e quando a gravidez é resultado de estupro.

A histeria com que vários e importantes setores da sociedade recebeu a decisão do Supremo, mesmo quando ela ainda não era conclusiva – com a votação, ontem, quarta-feira, dia 11, de 5 ministros em favor da descriminalização, e 1 contrário, entre os 11 que compõem o Supremo –, indica que a sociedade brasileira ainda está longe de preparada para sequer discutir um tema que já está decidido, passado e ultrapassado em um bom número de países: o direito de a mulher, sob determinadas condições, decidir se quer ou não continuar a gravidez.

(Foto: Warley Leite/Brazil Photo Press/Folhapress)

Manifestação católica contra aborto, em 21 de março de 2012 , em São Paulo (Foto: Warley Leite/Brazil Photo Press/Folhapress)

Histeria, sim. De grupos políticos a representantes de credos religiosos, de veículos da mídia a colunistas e blogueiros, de cidadãos que se manifestaram, em centenas de milhares de casos, pelas redes sociais, houve uma histeria.

Tratou-se de uma minoria, que pretende representar a grande maioria. Mas uma minoria extremamente ativa e barulhenta.

O Supremo julgava um caso, especialíssimo, de descriminalizar o aborto. Um só, único e, repito, especialíssimo.

Disparates tresloucados

Muita gente, contudo, já avançou o sinal na crítica cega e implacável a esta questão específica, expelindo disparates tresloucados como o de aproximar o caso ao extermínio de pessoas descapacitadas pela Alemanha nazista, perguntando se agora crianças albinas também serão “eliminadas”, chamando de “assasinos” ou “carniceiros” os ministros do Supremo que votaram em favor da medida – e por aí vai.

Nem vou mais citar exemplos de desvarios utilizados à guisa de argumentos. Quem acompanhou o assunto tomou conhecimento deles.

E, no entanto, países dos mais civilizados do planeta descriminalizaram completamente o aborto. E há tempos.

 

manifestação pro-aborto

Manifestação pró-aborto, em 30 de março de 2012, em São Paulo (Foto: Marcos Aragão/Divulgação)

O Brasil não é mais civilizado nem mais cristão do que países que permitem o aborto — pelo contrário

Em nenhum deles celebra-se a interrupção da gravidez.

Ninguém gosta de um aborto – nem a gestante, nem os médicos, nem ninguém.

Mas, em todos esses países, concedeu-se à mulher o direito de decidir se quer ou não prosseguir com a gravidez, esse maravilhoso fenomeno da natureza que transcorre em seu corpo. Em alguns casos, esse direito existe sob condições mais estritas, em outros, sob condições menos estritas.

O Brasil não é mais civilizado do que nenhum desses países.

Repito: o Brasil não é mais civilizado do que nenhum desses países – nem chega perto, se é que um dia chegará.

O Brasil, comparado a esses países, é em muitos aspectos um país primitivo e bárbaro.

O Brasil não é mais católico nem mais cristão do que vários deles — nem de longe tem o catolicismo tão entranhado em sua história como vários países em que o aborto é legal, a começar pela Itália.

O respeito à vida humana – refletido nas mais diferentes formas, sobretudo na taxa de assassinatos, na indiferença diante da miséria absoluta, na desfaçatez da impunidade – é, em todos eles, infinitamente superior ao que temos no Brasil.

Fundamentalismo que impede sequer discutir o tema

Há, porém, que lidar com o que temos: um país sob muitos ângulos esplêndidos, com um povo bom, generoso e trabalhador – mas também uma sociedade pouco informada, conservadora, manipulável.

O elemento religioso, fundamental nessa discussão, é, obviamente, parte essencial da sociedade brasileira.

A religião como guia serena da vida, idem.

O fanatismo religioso — que felizmente é minoritário e NÃO REPRESENTA A GRANDE MAIORIA DOS QUE PRATICAM A RELIGIÃO, também.

A imbecilidade revestida de religiosidade, idem. Para leitores que insistem em interpretar mal o que escrevo, esclareço: refiro-me a imbecis que UTILIZAM A RELIGIÃO para esgrimir argumentos, ainda que não a pratiquem. Nada a ver com a grande maioria dos brasileiros que seguem suas respectivas religiões.

A hipocrisia mais descarada, que ignora o grande número de abortos clandestinos feitos anualmente no Brasil e a quantidade de mulheres que morrem em decorrência de procedimentos mal feitos, também.

Somos, nós, brasileiros, também isso.

Não há como aferir, estatisticamente, como a opinião pública se posiciona em relação a criar-se o direito de abortar. Pode-se porém supor , pelo já visto, que, como exposto no início, não existe clima nem mesmo para discutir o assunto.

Uma espécie de fundamentalismo, espalhado por vários setores, sufoca a discussão.

Até a discussão é um tabu, só menor do que o próprio aborto.

Nós, brasileiros, também somos isso.

 

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