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Rede de Mentiras

05/01/2013

às 14:00 \ Tema Livre

Um seio nu, num vídeo, uma foto discreta — e a atriz iraniana é banida de seu país pelos aiatolás. Confira o absurdo

A atriz iraniana Golshifteh Farahani: primeiro, proibida de deixar o país -- depois, de voltar a ele. Esta foto em sua página do Facebook pareceu aos olhos dos aiatolás um crime hediondo (Foto: Figaro Madame)

Publicado originalmente em 27 de abril de 2012.

Durou menos de um segundo, e mal aparece seu seio direito no vídeo, feito pela revista Figaro Madame para anunciar os candidatos a melhores promessas masculina e feminina do cinema francês de 2012 , no âmbito do César, o Oscar da França, entregue há menos de dois meses.

Pronto. Foi o bastante para a atriz iraniana radicada em Paris Golshifteh Farahani, 29 anos, ser proibida de voltar a seu país.

Provavelmente por essa razão absurda do governo dos aiatolás fanáticos foi que ela acabou decidindo, posteriormente, participar do vídeo em que várias mulheres iranianas no exílio se desnudam, em alguns casos de maneira quase casta, para protestar contra a discriminação e os maus tratos que sofrem suas compatriotas no Irã – e de que já tratamos em post anterior.

Mas Golshifteh está calejada em matéria de repressão em seu país natal.

Vejam vocês a ironia: pelo simples fato de ter participado de um filme americano de espionagem – Rede de Mentiras (Body of Lies), de 2008, dirigido pelo consagrado Ridley Scott, em que faz o papel de uma enfermeira e contracena com Leonardo DiCaprio e em que atua ainda Russel Crowe –, rodado na Jordânia, ela recebera punição inversa. Voltando a seu país depois das filmagens, poibiram-na de sair do Irã. Com o tempo, a arbitrariedade deixou de valer e ela decidiu morar em Paris.

A atriz com Leonadro DiCaprio em "Rede de Mentiras" (2008): por ter atuado no filme, ela já fora proibida de deixar o país (Foto: reprodução)

O vídeo que causou horror ao regime dos turbantes, intitulado Corps et âmes (Corpos e Almas) não tem absolutamente nada demais.

Em preto e branco, com fundo musical, aparecem vários jovens atores, homens e mulheres, num rápido gesto de começar a tirar a roupa – criando imagens para um texto poético que serve de narrativa, e que fala em “veja-me / neste instante / nu(a) / livre de corpo e de espírito / (…) / eu entro na dança / esquecido de mim mesmo / minha arte será a de brincar” (“jouer”, em francês, tem o sentido tanto de brincar como de representar).

Confira o vídeo:

Mais horrorizados ainda ficaram os clérigos hipócritas iranianos – vários deles riquíssimos à custa do dinheiro público – com o fato de a atriz ter postado em sua página no Facebook a foto de abertura deste post, foto feita na mesma ocasião do vídeo, em que aparece cobrindo os seios com as mãos. Uma foto que, em qualquer país civilizado, poderia estar até em outdoors gigantes.

Como você viu o vídeo, pode estar curioso em saber quem, afinal, dos atores que ali aparecem venceu o César de “melhor esperança” do cinema francês em 2012. Pois foram Clotilde Hesme e Pierre Niney, que estão nas fotos abaixo.

Pierre Niney e Clotilde Hesme

Clotilde Hesme e Pierre Niney (Fotos: elle.fr / AFP)

 

 

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