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privatizações

18/05/2013

às 15:55 \ Política & Cia

Leilões de concessões de portos, rodovias, ferrovias e aeroportos começam em setembro — mais de um ano depois de anunciados por Dilma. Motivo: a dificuldade do governo petista admitir que se trata de privatização

Bernardo Figueiredo, presidente da Empresa de Planejamento Logístico, anunciou que o pacote de concessões de rodovias está pronto e os leilões deverão ocorrer a partir de setembro (Foto: Renato Araujo / ABr)

Bernardo Figueiredo, presidente da Empresa de Planejamento Logístico, anunciou que o pacote de concessões de rodovias está pronto e os leilões deverão ocorrer a partir de setembro (Foto: Renato Araujo / ABr)

Do blog Política & Economia Na Real, do jornalista José Márcio Mendonça e do economista Francisco Petros

FALTOU DIZER A RAZÃO – I

O poderoso – não é formalmente ministro, mas manda formalmente muito mais que a maioria deles – Bernardo Figueiredo, presidente da Empresa de Planejamento Logístico, anunciou em evento organizado pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) que o pacote de concessões de rodovias está finalmente pronto e os leilões deverão começar a ocorrer a partir de setembro.

O pacotão logístico – inclui, além de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos – foi lançado pela presidente Dilma Rousseff, em um evento com toda a pompa e circunstância marqueteira oficial, em agosto do ano passado.

Portanto, os leilões vão abrir-se quase um ano depois, após a primeira tentativa de conceder lotes da BR-040 e da BR-116 ter fracassado em janeiro por falta de interessados.

É tempo demais para um país que já tem quase 20 anos de experiência em concessões de rodovias. O próprio governo petista já fez as suas.

Faltou dizer a razão – II

Figueiredo não explicou os motivos de tanta demora nem foi perguntado sobre isso. Não precisava, porém.

A razão é simples e clara: a forma envergonhada com que o governo Dilma avança nas privatizações (prefere o apelido de “concessões”), a tentativa de manter tudo sobre controle oficial e a visão de que os concorrentes privados só querem ter lucros abusivos e precisam ser vigiados.

Um dos exemplos desse ativismo estatal é a tentativa de tabelar o lucro do negócio. O governo foi avisado várias vezes de que isto afugentaria concorrentes. Deu de ombros.

Só na semana passada, depois de anunciar várias vezes que o faria e recuado, admitiu que a Taxa Interna de Retorno das rodovias passasse de 5,5% para 7,5%.

Também para tornar o negócio mais atraente, está facilitando investimentos com dinheiro público, principalmente com o generoso coração do BNDES.

Talvez tenha de ceder mais porque está colhendo a desconfiança que plantou a seus reais propósitos de fazer de fato parceria com o setor privado.

24/04/2013

às 12:00 \ Política & Cia

A oposição — que muitos chamam de “oposicinha” — quer fazer oposição? Que tal lembrar certos fatos que o lulopetismo esconde, envergonhado?

Dirceu, na época em que era braço direito do então presidento Lula: a memória do PT é muito seletiva. Cabe à oposição, se quer mesmo fazer oposição, começar apor lembrá-las (Foto: veja.abril.com.br)

Post publicado originalmente às 16 hortas de 23 de abril de 2013

Ao exigir no Congresso que o governo envie à Justiça os resultados do inquérito administrativo que apurou as bandalheiras de que é acusada Rosemary Noronha, a “Rose”, amigona do ex-presidento Lula que fez do gabinete da Presidência em São Paulo uma central de tráfico de influências, a oposição começa a parecer que quer mesmo fazer oposição.

Neste caso específico, ficou faltando o maior partido da oposição, o PSDB, mas, de qualquer forma, o presidenciável Aécio Neves vem aumentando o tom de críticas ao governo lulopetista desde que, em fevereiro, criticou o que considerou os 13 principais fracassos do governo.

Mas ainda é pouco para uma oposição de verdade.

Como modesta contribuição ao banco de ideias da oposição, este blog sugere que a oposição, para deixar de ser “oposicinha”, comece por refrescar a memória coletiva brasileira, que é curta — enquanto a de boa parte dos lulo-petistas extremamente seletiva –, lembrando aos cidadãos que Lula e sua turma, ALÉM DO ESCÂNDALO TENEBROSO DO MENSALÃO, entre outros episódios que mencionarei futuramente…

*… foram contra a eleição de Tancredo Neves como presidente da República em 1985, ato que encerraria a ditadura militar, dando lugar a um regime civil que restauraria as liberdades públicas e a democracia.

Tancredo Neves discursa já como presidente eleito para restaurar a democracia no Brasil, em 1985: o PT não apoiou sua eleição (Foto: Dedoc / Editora Abril)

Os então deputados petistas que votaram em Tancredo – Ayrton Soares (SP), Bete Mendes (SP) e José Eudes (RJ) — foram expulsos do partido.

*… não participaram da solenidade de homologação da nova Constituição democrática, a 5 de outubro de 1988, e deixaram claras suas “ressalvas” ao texto aprovado por todos os deputados e senadores de todos os partidos.

Os petistas assinam a nova Constituição, porque era uma formalidade inescapável, mas o próprio Lula, então deputado constituinte, pronunciou um longo discurso 12 dias antes da promulgação, a 23 de setembro de 1988, dizendo, com todas as letras: “O partido [PT] vota contra o texto, e amanhã, por decisão do nosso Diretório – decisão majoritária – assinará a Constituição, porque entende que é o cumprimento formal da sua participação nessa Constituinte”.

* … defenderam em 1989 o calote da dívida externa brasileira, com Lula candidato à Presidência – seria derrotado no segundo turno por Fernando Color –, medida que levaria o Brasil à bancarrota e à desegraça, faria secar os investimentos externos por tempo indeterminado e transformaria o país em pária internacional.

* … recusaram-se num momento de gravíssima crise institucional, no final de 1992, a colaborar com o vice Itamar Franco, que assumiu em definitivo a Presidência com o afastamento de Fernando Collor e, no Planalto, tentou fazer um governo de grande acordo nacional — que o PT não quis — para tirar o país do caos econômico e da derrocada moral a que o levara seu antecessor.

A ex-prefeita petista de São Paulo Luiza Erundina, uma exceção, cometeu o “crime” de cooperar com o presidente Itamar como ministra da Administração e viu-se obrigada a deixar o PT.

* … combateram radicalmente, sem tréguas, o Plano Real, classificando como “eleitoreiro” o mais bem sucedido programa de estabilização da moeda da história econômica do país, concebido por equipe reunida pelo ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, e bancado pelo presidente Itamar.

O então ministro da Fazenda Rubens Ricupero e o Presidente Itamar Franco com as primeiras cédulas do Real, em 1994: o plano que estabilizou a economia foi ferozmente combatido pelos petistas -- cujos governos, depois, tanto se beneficiaram dele (Foto: Dedoc / Editora Abril)

Sem o Plano Real, como se sabe, os proclamados êxitos econômicos do lulalato não existiriam.

* … se opuseram ferozmente a todas as privatizações que, durante os dois mandatos de FHC (1995-2003), dinamizaram e modernizaram a economia do país, aumentaram a arrecadação de impostos, diminuíram o peso do Estado, melhoraram a competitividade do Brasil no mercado internacional e tornaram o país terreno fértil para investimentos estrangeiros.

A oposição do lulo-petismo, que não esteve alheio à participação em atos de hostilidade e mesmo da agressão física a empresários e autoridades durante leilões na Bolsa de Valores, incluiu a da telefonia, que permitiu entre outros resultados que o país pulasse em menos de duas décadas de 800 mil celulares para os mais de 200 milhões que tem hoje.

* … manifestaram-se em 1999 inteiramente contra a adoção de um dos três pilares da estabilidade do país – a política de câmbio flutuante.

No mesmo ano, declararam-se contrário ao segundo deles, a política de metas de inflação.

No ano seguinte, combateram e votaram contra o terceiro pilar do tripé que, ironicamente, propiciaria um governo extremamente favorável ao próprio Lula – a Lei de Responsabilidade Fiscal .

Uma vez no poder, os três pilares — elogiados por integrantes da equipe econômica petista — serviram para Lula, beneficiado pelos preços internacionais dos principais produtos de exportação do país, deitar e rolar.

* … foram raivosamente contrários ao Proer, o Programa de Estímulo à Reestruturação e ao Fortalecimento do Sistema Financeiro Nacional, instituído por FHC para impedir a implosão do sistema bancário do país e o caos econômico que desencadearia — para, depois, quando veio a grande crise financeira internacional de 2008, Lula se vangloriar do vigor dos bancos brasileiros.

O principal guru econômico do lulalato, o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, foi dos poutos lulopetistas que teve a dignidade de reconhecer a enorme valia do Proer. Lula só falou mal e, depois, faturou.

* … inventaram e propagaram uma campanha de teor golpista e antidemocrática, o “Fora FHC”, tão logo o presidente iniciou em 1999 o segundo mandato, para o qual, derrotando Lula, foi eleito por MAIORIA ABSOLUTA dos eleitores brasileiros, e no PRIMEIRO TURNO.

* combateram e criticaram, a partir de 2001, várias medidas da chamada “rede de proteção social” estabelecida pelo governo FHC, como o Bolsa Escola, o vale-alimentação, o vale-gás, o auxílio a mulheres grávidas que fizessem todos os exames do prénatal e o auxílio a famílias que evitassem o trabalho infantil de seus integrantes.

Os distintos programas que Lula e seus seguidores, na oposição, consideravam “esmola” e parte de uma suposta ação eleitoreira viriam a ser unificados durante o lulalato e transformados em sua principal vitrine: o Bolsa Família — utilizado, como todos sabemos como O instrumento eleitoreiro por excelência.

É evidente que muita gente, no Brasil, se lembra disso — mas muitíssimos se esqueceram, e muitos eleitores jovens mal souberam ou jamais se inteiraram desses fatos.

Então, para um começo de conversa, a oposição poderia lembrar uma vez por semana, em discursos ou entrevistas, essas verdades da vida que o lulopetismo escondeu, envergonhado.

Já seria um começo.

20/04/2013

às 19:00 \ Vasto Mundo

MEMÓRIA: Margaret Thatcher, uma dama do lado direito da história

VISÃO DE FUTURO -- A premiê, férrea na gestão do estado, em 1981: a validade de suas ideias era e, em grande parte, ainda é universal (Foto: Peter Marlow / Magun  / Latin Stock)

VISÃO DE FUTURO -- A premiê, férrea na gestão do Estado, em 1981: a validade de suas ideias era e, em grande parte, ainda é universal (Foto: Peter Marlow / Magun / Latin Stock)

Reportagem de Duda Teixeira, com colaboração de Tatiana Gianini e Nathalia Watkins, publicada em edição impressa de VEJA

UMA DAMA DO LADO DIREITO DA HISTÓRIA

Margaret Thatcher salvou a Inglaterra do declínio econômico e político. O conjunto de suas ideias ganhou um nome, thatcherismo, algo que nenhum outro premiê britânico alcançou – nem Winston Churchill

Margaret Thatcher morreu dia 8 de abril, vítima de derrame. Ela tinha 87 anos. Andou esquecida até que Merryl Streep a representou no cinema, em um filme espetacular que se fixou mais no outono de sua vida, quando Thatcher, viúva e senil, conversava com Denis, o marido morto havia anos, como se ele estivesse tomando café da manhã com ela. Comovente e triste.

Mas Thatcher, feita baronesa depois de deixar o posto de primeira-ministra, se permitia raras demonstrações públicas de emoção. Ela estava com os olhos marejados de lágrimas quando diante da imprensa se despediu do cargo, ocupado por ela por onze anos, entre 1979 e 1990.

Nesse período, transformou a política no Reino Unido, ajudou a enterrar o moribundo comunismo soviético e criou uma doutrina de política econômica, o thatcherismo, que, em diferentes gradações, dominou o período áureo da globalização na década de 90, dando racionalidade aos políticos no poder e tirando milhões de pessoas da miséria em países tão díspares quanto o Vietnã e o México.

Foi chamada pela primeira vez de Dama de Ferro por um jornal oficial soviético, que julgou estar ofendendo-a. Ela adorava o apelido. Fez jus a ele na vida pública. Mostrou que governo e povo não são a mesma coisa. Governo é uma gigantesca burocracia cujos interesses só em alguns poucos casos, aqueles em que há ganho político, coincidem com os do povo. Por isso é preciso vigiar os governantes, cobrar eficiência deles e diminuir seus poderes.

Thatcher foi demonizada pelas esquerdas retrógradas por ter obtido sucesso em suas políticas e tê-las imitadas em quase todas as partes do mundo. Com razão, pois o salvacionismo insurrecional das esquerdas só tem, na cabeça de seus seguidores, alguma chance quando tudo dá errado em um país e a miséria se instala.

Tolice.

Se fizessem uma pequena pesquisa histórica, descobririam que, no Ocidente, os partidos de esquerda crescem mesmo é nos momentos de bonança econômica, quando o capitalismo produz excedentes econômicos bastantes para sustentar a imensa turma de socialistas e assemelhados que invariavelmente ganham a vida sem trabalhar. Foi assim nos Estados Unidos.

Durante a dura recessão dos anos 30, o partido comunista do país praticamente desapareceu. Foi só no esplendor econômico do pós-guerra, quando a classe média enriqueceu e os pobres viraram classe média, que as ideias socialistas e comunistas ganharam maior projeção nos Estados Unidos.

Não é por outra razão que o esquerdismo no Ocidente tem sempre um quê de esnobismo, um ar de superioridade moral, intelectual e de classe.

Isso vem da certeza de que, enquanto derrubam o sistema nos bares e em ambientes chiques, o capitalismo continua firme produzindo o excedente econômico que permite aos militantes viver sem trabalhar e aos ricos dizer-se de esquerda sem o temor de perder tudo para os revolucionários.

O esquerdismo no Ocidente é apenas um estado de espírito. Quando passa disso, cobra um alto preço.

AMIZADE À PRIMEIRA VISTA -- Thatcher com Ronald Reagan, em 1985: "Ela era agradável, feminina, graciosa, inteligente, e ficou evidente nas nossas primeiras palavras que éramos almas gêmeas", disse o presidente americano (Foto: Gamma)

AMIZADE À PRIMEIRA VISTA -- Thatcher com Ronald Reagan, em 1985: "Ela era agradável, feminina, graciosa, inteligente, e ficou evidente nas nossas primeiras palavras que éramos almas gêmeas", disse o presidente americano (Foto: Gamma)

Na Grã-Bretanha deu-se um fenômeno semelhante. O conservador Winston Churchill, vencedor na II Guerra Mundial, não foi apeado do poder pelos socialistas no alvorecer da paz por causa das penúrias impostas ao povo.

Livres da guerra e da pobreza pela ajuda dos Estados Unidos, os eleitores britânicos sentiram-se confortáveis o bastante para embarcar na experiência socializante que afundaria o Reino Unido – até que Thatcher salvasse o país.

Entre 1945 e 1951, praticamente todas as grandes companhias de bens e serviços foram estatizadas e passaram a se pautar por aquela dinâmica antiprogresso, antitecnologia e antieficiência que caracteriza a esquerda no poder.

A British Telecom, por exemplo, conseguiu bloquear a entrada do fax no Reino Unido. A empresa temia que o aparelho fosse uma ameaça ao uso do telefone para falar. Em quadro muito familiar aos brasileiros antes das privatizações do governo Fernando Henrique Cardoso, um telefone na Inglaterra podia ficar mudo seis semanas antes que aparecesse um técnico da estatal para tentar resolver o problema.

Sem concorrência, sob a proteção do monopólio, as estatais tripudiavam sobre os usuários e o público. Prejuízos? O governo cobria. Mas de onde tirar tanto dinheiro? Ora, aumentando os gastos públicos e deixando a inflação devorar o poder de compra das pessoas.

Somados todos os sindicatos, os dias de trabalho eliminados por greves na Inglaterra antes de Margaret Thatcher se contavam em dezenas de milhões por ano. Thatcher chegou e acabou com o processo de destruição do país. “A Inglaterra antes de Thatcher era como a Argentina de hoje, mas sem a maquiagem dos índices”, resume o economista Maílson da Nóbrega, que vivia em Londres naquele período. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

11/04/2013

às 20:00 \ Política & Cia

Sardenberg: A falta que nos faz uma boa direita

A agenda liberal de Thatcher e a esquerda reeducada de Blair: falta-nos uma boa direita (Foto: PA)

A agenda liberal de Margaret Thatcher e a esquerda reeducada de Tony Blair no Reino Unido: falta-nos uma boa direita (Foto: PA)

Artigo publicado no Jornal O Globo

A FALTA QUE NOS FAZ UMA BOA DIREITA

Vou falar francamente: uma Thatcher, hoje, seria perfeita para o Brasil. Mas uma Thatcher em grande estilo: líder de partido, ganhando eleições com uma agenda liberal. Seria bom até para modernizar a cultura esquerdista amplamente dominante no país. Isso aconteceu no Reino Unido e, nos 80 e 90, em boa parte do mundo, inclusive no Brasil. Precisava acontecer de novo.

A longa administração conservadora de Margaret Thatcher fez o trabalho, digamos, sujo de demitir funcionários excedentes, cortar gastos públicos, controlar o poder dos sindicatos de empresas estatais (e depois privatizá-las), além de desregulamentar a economia, reformar a legislação trabalhista e reduzir a pesada burocracia do Estado.

Depois de um início custoso, com greves e desemprego em alta, funcionou. Com investimentos privados, o país voltou a crescer e gerar emprego e renda. Não por acaso, Thatcher ganhou três eleições seguidas.

Quando veio o desgaste até normal da administração conservadora, o serviço principal estava feito, a quebra do imenso, custoso e já ineficiente Estado do Bem-Estar. Aí veio Tony Blair com a suave conversa do “Novo trabalhismo”: retomada dos investimentos públicos em educação, saúde e segurança, mas em uma economia livre, aberta e competitiva.

Os eleitores foram trocando, conforme a ocasião. Elegeram o Partido Trabalhista no pós-guerra, que instalou o Estado do Bem-Estar, depois fartaram-se dos excessos desse modelo, que estatizava tudo de grande que via pela frente, como disse Churchill, e finalmente entregaram o poder para Thatcher desmontar tudo. E aí devolveram o governo à esquerda, mas uma esquerda reeducada.

Já entre nós, quando o eleitorado comprou a ideia de que era preciso desmontar o Estado excessivo e abrir a economia, porque só produzíamos carroças protegidas, acabou elegendo Fernando Collor, cuja agenda correta para o momento não resistiu ao caixa de PC. E terminou que a agenda liberal caiu no colo de Fernando Henrique.

FHC não liderou um movimento dentro de seu partido e junto aos aliados para construir uma agenda comum de reformas. Para dizer francamente, pelo menos no começo, foi tudo no vai da valsa. As trapalhadas seguidas de Itamar Franco acabaram jogando o Ministério da Fazenda no colo de FHC. Aí valeram a sabedoria e aguda percepção política do professor, que definiu logo o inimigo imediato — a superinflação — e escalou a equipe certa para atacá-lo.

Então, foi na sequência: para consolidar o combate à inflação, era preciso controlar o déficit das contas públicas, para o que eram necessárias as reformas, incluídas as privatizações. A agenda liberal se impôs no calor dos acontecimentos.

Daí as dificuldades de implementação. Não foi como na Inglaterra, com propostas bem definidas. Aqui, FHC, vindo da esquerda, eleito com base nas novíssimas notas de um real, precisou construir essa agenda momento a momento.

Excetuada a equipe econômica, quase ninguém entre seus colaboradores e seguidores estava preparado para a missão. Tratava-se de uma elite intelectual criada nas ideias socialistas e social-democratas, que viu ruir o Muro de Berlim e alcançou o poder em um mundo em que só existia capitalismo — e numa fase de liberalismo à americana ou “thatcherista”.

Além dessa turma, havia os velhos políticos, todos acostumados a viver em torno do Estado, fonte de nomeações, privilégios e bons negócios. Visto assim, a gente até se espanta de ver quanto o governo FHC avançou na agenda modernizadora.

Mas, é claro, não terminou o serviço. E parte desse serviço, eis outra peça do destino, ficou para o governo Lula. É a origem de nossos problemas atuais, o eleitorado se cansou de uma agenda liberal antes que ela tivesse sido completada. E elegeu um governo propondo mudar tudo para a esquerda, mas topando com os entraves causados justamente pela não conclusão da agenda liberal.

Daí o Lula do primeiro mandato. Manteve as bases macroeconômicas de FHC e ainda avançou em reformas micro claramente liberais e pró-negócios, sem reestatizações. De certo modo, os dois governos acabaram bem parecidos: construir alianças a meio do caminho para implementar reformas difíceis.

Depois, mais seguro, Lula parou com as reformas e começou a voltar para a agenda da velha esquerda estatizante, movimento agora claramente tomado pela presidente Dilma — e com os velhos políticos Estado-dependentes.

Tudo considerado, eis o que sempre nos faltou: uma boa direita, moderna, capaz de ganhar uma eleição com uma agenda liberal e implementá-la rigorosamente. E depois abrir espaço para uma boa esquerda, também moderna, que se eleja para fazer o seu serviço, que é gastar com educação, saúde e segurança. Mas gastar com eficiência e sem atrapalhar a economia privada.

16/03/2013

às 19:00 \ Política & Cia

Rodrigo Constantino, jovem revelação de economista: “Esfolar os ricos em nome de melhorar a vida dos pobres é uma falácia. E a defesa do mercado não deve ser confundida com a defesa dos empresários”

"As estatais são ineficientes porque não precisam obter lucros. Quando há problemas, o governo sempre coloca mais dinheiro" (Foto: Instituto Millenium)

"As estatais são ineficientes porque não precisam obter lucros. Quando há problemas, o governo sempre coloca mais dinheiro" (Foto: Instituto Millenium)

Entrevista concedida a Giuliano Guandalini, publicada em edição impressa de VEJA

CAPITALISTAS BRASILEIROS, UNI-VOS!

Um dos mais produtivos economistas da nova geração aponta as contradições, os riscos e a ineficiência resultantes do aumento da interferência do governo na economia

“Se puserem o governo federal para administrar o Deserto do Saara, em cinco anos faltará areia.” A frase é do economista americano Milton Friedman (1912-2006), ganhador do Nobel de 1976 e o maior expoente do liberalismo nos últimos cinquenta anos.

Essa corrente de pensamento preconiza a abertura econômica dos países e a redução, ao mínimo possível, da interferência do governo no funcionamento dos mercados, favorecendo o investimento privado em um ambiente de competição acirrada. A frase de Friedman serve de epígrafe para o livro Privatize Já, de Rodrigo Constantino, lançado pela editora Leya.

Constantino, de 36 anos, faz parte de uma nova geração de economistas brasileiros que valorizam o pensamento liberal clássico e denunciam o peso excessivo do estado na economia. No livro, ele defende a “agenda esquecida” das privatizações. O economista recebeu VEJA em seu escritório, numa empresa de investimentos, no Rio de Janeiro.

As empresas de celulares estão entre as campeãs de queixas entre os consumidores brasileiros, apesar de serem extremamente rentáveis. Nas estradas privatizadas, as reclamações recaem sobre o valor dos pedágios. Não são sintomas de que a privatização nem sempre funciona?

No fundo, se procurarmos bem, sempre haverá a impressão digital do governo nessas falhas atribuídas ao mercado. No caso dos celulares, há muitas reclamações, em primeiro lugar, por causa do grande aumento no número de usuários depois da privatização do sistema Telebrás. Antes nem adiantava reclamar, porque era um serviço caro e raro.

Reconheço que existem problemas. Mas os impostos arrecadados pelo governo encarecem as tarifas e reduzem os investimentos. O sinal das chamadas é ruim porque faltam antenas, e o grande entrave para ampliar o número de antenas são os governos, que demoram a conceder as licenças de instalação.

As pessoas reclamam do preço do pedágio, porém o que deveria ser objeto de revolta são os milhões arrecadados em impostos, como o IPVA, que não são investidos nas ruas e rodovias.

As privatizações, obviamente, não são uma panaceia se feitas de maneira escusa. Acompanhei o processo de desestatização na Rússia, depois da queda do regime soviético. As privatizações ocorreram sem nenhum arcabouço institucional minimamente decente, sem transparência nas informações. Privatização, assim, não faz milagre.

 

"Para privatizar a Petrobras, precisaríamos ter uma Margaret Thatcher, um estadista disposto a enfrentar os grupos de interesses localizados" (Foto: Petrobras)

"Para privatizar a Petrobras, precisaríamos ter uma Margaret Thatcher, um estadista disposto a enfrentar os grupos de interesses localizados" (Foto: Petrobras)

Se a venda de estatais obteve resultados positivos, por que nenhum político no Brasil defende abertamente a privatização da Petrobras?

As resistências são gigantescas. Para privatizar a Petrobras, precisaríamos ter uma Margaret Thatcher, um estadista disposto a enfrentar os grupos de interesses localizados. Será impossível vender o controle da estatal enquanto imperar a ideia de que seria a “entrega” de um patrimônio público. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

11/03/2013

às 16:07 \ Política & Cia

FHC: Lula precipitou a campanha de 2014 e prejudicou a governabilidade

FHC fala na 68º Assembleia Geral da SIP, em SP (Foto: Ernesto Rodrigues / AE)

FHC fala na 68º Assembleia Geral da SIP, em SP (Foto: Ernesto Rodrigues / AE)

Publicado na editoria Nacional do Estadão

Por Gabriel Manzano, enviado especial a Puebla, no México

No México, onde participa da Reunião de Meio de Ano da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso falou ao Estado sobre a antecipação da campanha presidencial. O PSDB, disse, não teve alternativa e lançou Aécio Neves.

Lula lançou Dilma à reeleição, o sr. lançou a de Aécio Neves. A campanha foi antecipada. Isso não tem um custo político?

Tem custo sim, político e administrativo. Lula precipitou o processo sucessório, aí os outros partidos não têm alternativa.

Nós não tínhamos intenção de precipitar uma candidatura. Estávamos prestigiando o nome do Aécio para um debate interno. Mas eu nunca vi quem está no governo precipitar uma eleição, já que atrapalha a governabilidade.

Tudo que a presidente Dilma fizer daqui por diante será atribuído a intenções eleitorais. Não sei o que levou o Lula a essa precipitação. Talvez seja porque ele gosta de campanha! A preocupação do governo não era com a oposição, era com a fragmentação das suas próprias forças.

Aécio abraçou a defesa de seu legado. Nem José Serra nem Geraldo Alckmin fizeram isso. O que mudou dentro do PSDB?

Talvez tenha chegado um momento em que seja mais fácil avaliar o que fizemos, não ter medo do que fizemos. Nós modernizamos a economia.

As privatizações vieram de uma maneira correta. Restabelecemos a competitividade das agências do governo, do Banco do Brasil, a Petrobras. Melhoramos muito a educação, organizamos o SUS, começamos a transferência de renda.

As pessoas esquecem que o programa do Lula não era transferência de renda, era o Fome Zero. Que foi engavetado! E aderiram ao que nos tínhamos começado.

Enfim, por que não defender o que nós fizemos? Agora, isso não pode ser a base de uma campanha eleitoral. Campanha tem de ser feita olhando pra frente, não pra trás. O programa do PSDB, então, deve ser: reconhecer o que fizemos, mas vamos adiante. Tem muita coisa que fazer.

Que coisas?

Quando fizemos nos anos 90 o que nós fizemos, o pessoal do PT, da esquerda, e também de outros partidos, não entendeu a globalização. Acharam que era outra vez o imperialismo, que era o neoliberalismo.

Confundiram um processo histórico com uma ideologia.

E me acusaram, quando eu estava ajustando o Brasil à nova condição histórica, como se fosse uma posição ideológica a favor do neoliberalismo, posição que eu nunca tive.

Agora, de novo, vamos sair dessa crise. É um novo momento, que precisa de ajustes. Primeiro, quem é que vai puxar a economia de novo? Parece que serão os EUA. O que o Brasil vai fazer com o pré-sal? Continuar marcando passo? Enfraqueceram a Petrobras e se embrulharam todos.

Pararam a infraestrutura, porque não fizeram o que tinham de fazer, que eram as concessões. Agora fazem envergonhadamente, mal feito. O PSDB tem de recomeçar dizendo: “Olha, eles estavam errados, nós sabemos fazer”. O fato é que fazem errado porque não acreditam no que estão fazendo. Nós acreditamos, deixe que a gente faça!

Macroeconomia não sensibiliza o eleitor. Embora o cenário seja delicado – inflação, PIB, ritmo lento do PAC -, qual discurso terá o PSDB para atrair votos?

O que sensibiliza o eleitor é quando mexem no bolso dele, coisas como emprego e renda. Esses fatores todos mencionados vão terminar tendo efeito sobre emprego e renda.

Na verdade, já estão tendo. A renda per capita em 2012 não subiu. E agora as famílias estão endividadas. O PSDB tem que dizer: “Você que está endividado, eu vou resolver esse problema”.

Lula e Dilma têm altos índices de aprovação. O PSDB será competitivo em 2014?

Lula e Dilma, em todas as disputas, foram para o 2.º turno.

O xadrez pode ter 4 peças, com Eduardo Campos e Marina.

Sendo quatro, o 2.º turno é uma grande probabilidade. Não sei qual será a capacidade do Eduardo de arrancar votos. O ponto de partida dele é Pernambuco. O do Aécio é Minas. A Marina tem uma presença forte e tem uma causa que, eu acho, vai continuar entusiasmando.

Desses três, no momento, eu aposto no Aécio. Mas o mais importante é que, havendo 2.º turno, as forcas políticas que estiverem no embate entendam que a alternância do poder é fundamental.

Acho que vinte anos de governo do PT bastam, não? Chegou a hora de mudar. Espero que tanto o PSDB, quanto Marina e Eduardo entendam isso.

Pode voltar mais tarde. Eu não sou raivoso de achar que o PT é o fim do mundo, não é. Mas tem de haver alternância.

Numa candidatura de Aécio, o sr. vai viajar, subir em palanque?

Não, não. Cada um tem seu estilo. Depois que deixei a Presidência não fui candidato a mais nada. E o Lula me dando conselhos sempre, que eu devia calar a boca (risos).

Nunca calei nem vou calar. Não me cabe estar no dia a dia da luta. Vou fazer o que eu faço. Discutir estratégia, dar minha opinião com clareza, mas não ir pra rua.

E sabe por quê? Porque não precisa. Às vezes a pessoa vai por vaidade.

Mas o sr. entrou no bate-boca, ora com Lula, ora com Dilma. Por que se chegou a isso?

Primeiro com a Dilma: pessoalmente sempre tive boas relações com ela, que sempre foi bastante correta comigo. Foi generosa no meu aniversário. Não tenho nenhuma restrição pessoal. Sabe como é a política, ora recua e é agressiva, eu também recuo. Pode ver que eu nunca tenho replicado a Dilma. Prefiro ter uma relação boa com ela, uma coisa pessoal.

Com o Lula é diferente… Nós nos conhecemos há tantos anos, já fica aquela picuinha, é sempre mais do mesmo. Ele gosta de fazer picuinha comigo.

A Dilma não tem essa picuinha. Não precisava nada disso. O Lula tinha que entender que nós dois somos dois personagens, que não estamos mais no principal….

Uma vez, o Chico Caruso me disse que as pessoas que estão no final ficam aflitas porque nao vão mais ser mais caricaturadas. O Lula quer ser caricaturado. Então ele me dá um beliscão, pra eu dar outro nele.

04/03/2013

às 20:00 \ Política & Cia

FHC: comparar os governos petistas com os do PSDB chega a ser doentio! Será que não sabem olhar para a frente?

"Não estará o PT repetindo o equívoco, com uma leitura míope do mundo e distorcida do papel do Estado?" (Foto: Helvio Romero / AE)

"Não estará o PT repetindo o equívoco, com uma leitura míope do mundo e distorcida do papel do Estado?" (Foto: Helvio Romero / AE)

Artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo

SEM DISFARCE NEM MIOPIA

As forças governistas, depois de precipitarem a campanha eleitoral, voltaram ao diapasão antigo: comparar os governos petistas com os do PSDB. Chega a ser doentio! Será que não sabem olhar para a frente? As conjunturas mudam. O que é possível fazer numa dada fase muitas vezes não pode ser feito em outra; políticas podem e devem ser aperfeiçoadas.

Porém, na lógica infantil prevalecente, em lugar de se perguntar o que mudou no País em cada governo, em que direção e com qual velocidade, fazem-se comparações sem sentido e imagina-se que tudo começou do zero no primeiro dia do governo Lula.

Na cartilha de exaltação aos dez anos do PT no poder, com capa ao estilo realismo socialista e Dilma e Lula retratados como duas faces de uma mesma criatura, a História é reescrita para fazer as estatísticas falarem o que aos donos do poder interessa. Nada de novo sob o sol: é só lembrar dos museus soviéticos que borravam nas fotos os rostos dos ex-companheiros caídos em desgraça…

Governo mostra miopia estratégica quanto ao futuro

O PSDB não deve entrar nessa armadilha. É melhor olhar para a frente e deixar as picuinhas para quem gosta delas.

Quanto ao futuro, o governo está demonstrando miopia estratégica.

Depois de quatro anos iniciais de consolidação da herança bendita, a política econômica teve de reagir ao violento impacto da crise de 2007/2008. Foi necessário, sem demora, expandir o gasto público, desonerar setores produtivos, ampliar o crédito por intermédio dos bancos públicos, etc.

Em situações extraordinárias, medidas extraordinárias. Mas o cachimbo foi entortando a boca: a discricionariedade governamental tornou-se a regra desde então.

Com isso, a credibilidade do Banco Central foi posta em xeque, a transparência das contas públicas também. Cresceram as dúvidas sobre a inflação futura e sobre o compromisso do governo com a responsabilidade fiscal.

Não há que exagerar na crítica: por ora, o trem não descarrilou.

A máquina governamental está enguiçada

Mas as balizas que asseguraram crescimento com estabilidade – câmbio flutuante, metas inflacionárias e responsabilidade fiscal -, mesmo ainda em pé, se tornam cada vez mais referências longínquas.

A máquina governamental está enguiçada, como o próprio governo sente, e sua incapacidade para consertá-la é preocupante. Os expedientes utilizados até agora com o propósito de acelerar o crescimento deram em quase nada (o pibinho).

Na ânsia de acelerar a economia, o governo beijou a cruz e apelou para as concessões (portos, aeroportos, estradas) e mesmo privatizações (de partes da distribuição energética). Mas a viseira ideológica, o hábito de se fecharem pequenos grupos, a precariedade gerencial não permitem dar efetividade a decisões que ferem o coração de suas crenças arcaicas.

Enquanto a China puxar as exportações de matérias-primas e de alimentos, tudo se vai arranjando.

Mesmo assim, a produção industrial torna-se menos competitiva e perde importância relativa no processo produtivo.

A balança comercial já deixou de ser folgada, mas com o financiamento estrangeiro as contas vão fechando.

"Na cartilha de exaltação aos dez anos do PT no poder, com capa ao estilo realismo socialista e Dilma e Lula retratados como duas faces de uma mesma criatura, a História é reescrita para fazer as estatísticas falarem o que aos donos do poder interessa"

"Na cartilha de exaltação aos dez anos do PT no poder, com capa ao estilo realismo socialista e Dilma e Lula retratados como duas faces de uma mesma criatura, a História é reescrita para fazer as estatísticas falarem o que aos donos do poder interessa"

No curto prazo, tudo bem. Em prazo mais longo, volta a preocupar o fantasma da “vulnerabilidade externa”.

Já se veem no horizonte sinais de retomada na economia mundial.

Não me refiro a uma incerta recuperação do emprego e do equilíbrio fiscal, este em alguns países da Europa, aquele nos Estados Unidos. Refiro-me ao que Schumpeter salientava para explicar a natureza do crescimento econômico, uma onda de inovações.

Provavelmente serão os Estados Unidos que capitanearão a nova investida capitalista mundial. O gás de xisto e os novos métodos de extração de petróleo tornarão aquele país a grande potência energética. Junto com ele, Canadá, México, Argentina e Brasil podem ter um lugar ao sol. De ser isso verdade, uma nova geopolítica se desenha, com, por um lado, um polo chinês-asiático e outro americano.

Perguntas que é preciso fazer

Isso num contexto político e cultural que não aceita hegemonias, no qual, portanto, a multiplicidade de polos e subpolos requer uma nova institucionalidade global.

Diante disso, como ficará o Brasil: pendendo para a Alba (Aliança Bolivariana para as Américas), de inspiração chavista?

À margem da nova aliança atlântica proposta pelos Estados Unidos que, por agora, contempla apenas a América do Norte e a Europa?

Iremos fortalecer nossos laços como mundo árabe longínquo, ou este terminará por se aconchegar na dupla formada pela China e pela Índia, ambos países carentes de energia?

E como nos situaremos na dinâmica da nova fase do capitalismo global?

Ao que eu saiba, ela continuará dependendo do aumento contínuo de produtividade para assegurar as bases do bem-estar social (que não será decorrência automática disso, mas de políticas adequadas).

Como, então, querer acelerar o crescimento utilizando truques e maquiagens, do tipo subsídios tópicos, exceções de impostos setoriais, salvamento de empresas via hospital BNDES ou Caixa Econômica?

Na época do Real, o PT queria dar o calote na dívida externa

Quando o PSDB fez o Plano Real, percebeu as oportunidades que se abriam para o Brasil com a globalização, desde que ajustássemos a economia e iniciássemos políticas de inclusão social. Na época o PT não entendeu do que se tratava.

Queria dar o calote da dívida externa e sustentava o inadequado programa Fome Zero, que jamais saiu do papel.

Foram as bolsas que o PSDB introduziu que salvaram o PT quando este, tardiamente, se deu conta de que era melhor fazer uma política de transferência direta de rendas. Em geral, aferrou-se à ideia de que a globalização seria uma ideologia – o neoliberalismo -, e não a maneira contemporânea de organizar a produção com base em novas tecnologias e novas normas.

Não estará o PT repetindo o equívoco, com uma leitura míope do mundo e distorcida do papel do Estado? A resposta cabe ao governo.

Ao PSDB cumpre oferecer a sua visão alternativa e um programa contemporâneo que amplie as possibilidades de realização pessoal e coletiva dos brasileiros.

Sem esquecer o passado, mas com os olhos no futuro.

01/03/2013

às 16:56 \ Política & Cia

Mau exemplo de Lula chega ao ministro Mantega, ele joga fora os anos FHC e diz a investidores estrangeiros que respeito a contratos no Brasil existe “pelo menos desde 2003″ — de novo, como se o Brasil tivesse começado com o lulalato

Mantega se reúne com investidores nos EUA para programa de infraestrutura (Foto: EFE)

Mantega se reúne com investidores nos EUA para programa de infraestrutura (Foto: EFE)

Já comentei, no blog, que o estreitamento da convivência com o ex-presidento Lula fez mal aos bons modos, à civilidade e ao espírito republicano da presidente Dilma Rousseff.

Foi o caso da célebre e infeliz declaração de que Lula e ela, no poder, não herdaram “nada”, mas “construíram” – a velha história que Lula transformou em mantra megalomaníaco e segundo a qual o Brasil não começou com Pedro Álvares Cabral (1500), o descobridor, nem com o primeiro governador-geral, Tomé de Souza (1549-1533), nem sequer com o Imperador Pedro II (1831-1889), ou com Getúlio Vargas (1930-1945/1951-1954), ou mesmo com Juscelino Kubitschek (1956-1961) – começou com ele, o “deus” do lulalato.

A presidente Dilma vinha tratando com elegância e reconhecimento o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), a quem convidou mais de uma vez para eventos no Planalto e no Alvorada, chamou de “querido presidente” e cujos méritos na estabilidade econômica e trajetória democrática do país reconheceu quando FHC completou 80 anos.

Deu um passo atrás no trato republicano com sua declaração eleitoreira de dias atrás. Vai ver que levou um aperto de seu mentor – “neztepaiz” de co-Presidência, nada é impossível.

Mas o mau exemplo de Lula se espraia, e atinge agora a geralmente sóbria, objetiva área econômica. O sempre sereno ministro da Fazenda, Guido Mantega, sereno e previsível a ponto de tornar-se levemente aborrecido, foi contaminado.

Hoje, como vocês podem ver na home page do site de VEJA, concedeu longa entrevista sobre a economia, seus tropeços em 2012 e seu suposto brilhante futuro. Dias atrás, porém, ao expor a investidores um gigantesco plano de 235 bilhões de dólares em concessões a serem supostamente feitas na área de infraestrutura nos próximos anos, o sereno Mantega pisou na bola feio.

Primeiro, o ministro incursionou por uma área que os governos adoram – anunciar bombasticamente coisas que não aconteceram e que não se sabe se vão ocorrer, mas exibem números espantosos. Referiu-se à construção de 7,5 mil quilômetros de novas rodovias, 10 mil quilômetros de ferrovias (juro por Deus!), falou do nosso velho conhecido, o trem-bala, mencionou concessões gigantescas na área energética (eletricidade e gás natural), citou dois grandes aeroportos internacionais etc etc.

Em seguida, descreveu a estrutura de financiamento para investidores estrangeiros, que incluem, é claro, o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa, apelou para que os colossais fundos de pensão americanos se interessem pelo filão brasileiro, apresentou o total que se pretende investir – quase inacreditáveis 235 bilhões de dólares e abanou no ar uma rentabilidade de encher os olhos da plateia: 10% ao ano, em moeda forte.

No capítulo das garantias, e vendo que investidores na plateia o apertavam sobre recentes intervenções do governo na área de energia – houve quem mencionasse “quebra de contrato” — , aí chegou a hora da bobagem monumental: lembrou que o Brasil, diferentemente do que ocorria no passado, é um país que propicia não apenas rentabilidade, mas “segurança”, com regras claras e contratos que têm sido respeitados “pelo menos desde 2003”.

Repito: pelo menos desde 2003!!! Ou seja, desde o início do lulalato!!!

Quer dizer, os acertos fundamentais do governo Itamar em 1994, começando pelo próprio Plano Real, e tudo o que veio depois nos dois governos de FHC não focam considerados!

Quer dizer que não existiu a atitude do governo FHC que — sob críticas ferozes dos que hoje ocupam o poder – de praticamente santifica, como pedra de toque da recuperação da credibilidade do país, o cumprimento dos contratos???

Mantega jogou levianamente pela janela todo um elenco de acertos da era FHC adotados em direção do que chamou de “regras claras e contratos respeitados”: a autonomia do Banco Central, que agiu sem as interferências políticas que hoje se esboçam, as privatizações devidamente precedidas de reformas na Constituição devidamente aprovadas pelo Congresso, a renegociação da dívida dos Estados – em que se retiraram colossais esqueletos do armário –, a renegociação impecável da dívida externa, que permitiu ao lulalato praticamente quitá-la, depois, a privatização de bancos estaduais irresponsáveis, o escrupuloso cumprimento de todos os contratos e… a Lei de Responsabilidade Fiscal, marco jurídico fundamental para o respeito aos pactos jurídicos.

Não se reconhece, no Mantega demagogo que adota o estalinismo lulopetista de querer reescrever o passado – mesmo o passado recente –, aquele economista técnico e objetivo que, ainda como assessor do candidato Lula, viajou à Europa em 2002 para ver como funcionavam bancos centrais independentes, como o alemão e o britânico, visando à eventual adoção do mesmo status para o BC brasileiro.

Fala-se, em bastidores do PT, que entre os candidatos a governador de São Paulo cogitados por Lula para tentar arrebatar o Palácio dos Bandeirantes dos tucanos, estaria Mantega – no caso de a economia voltar a crescer com intensidade.

Pode ser, então, que essa ainda distante mosca azul tenha picado o ministro e transmitido, a ele, o mal da megalomania do lulalato.

23/02/2013

às 15:30 \ Bytes de Memória

O presidente Itamar Franco e suas memórias políticas — que eu nunca escrevi

Itamar Franco -- altivo e rabugento na maturidade (Foto: Sérgio Lima / Folhapress)

Itamar Franco -- altivo e rabugento na maturidade -- além de topetudo (Foto: Sérgio Lima / Folhapress)

Amigas e amigos do blog, a doença súbita e fulminante que levou embora o ex-presidente Itamar Franco em julho do ano passado arrastou consigo um político digno, um homem público que, medidos altos e baixos, deixou um saldo muito positivo, e um senador recém-eleito (PPS-MG) que vinha fazendo, em relação ao lulalato, o que anda muito em falta faz no Congresso: uma oposição séria, firme e consistente.

De minha parte, levou planos de tentar extrair do ex-presidente, cuja genuína modéstia o afastava da ideia de escrever uma autobiografia, material para um eventual livro de memórias de sua longa carreira.

Enfrentando a máquina do regime

Embora eu tenha criticado Itamar em vários artigos quando presidente (1992-1995) e, mais ainda, em seu período posterior, como governador de Minas Gerais (1999-2003), sentia respeito por aquele prefeito de Juiz de Fora, pouco conhecido fora de sua cidade, que, em 1974, lançou-se a uma candidatura aparentemente suicida ao Senado pelo MDB.

Enfrentava a máquina estadual e a do governo militar, que empurravam o senador José Augusto, da então Arena, diversas vezes deputado estadual, que assumira em 1972 a cadeira do falecido Milton Campos, instituição conservadora mineira.

Itamar em ação como senador (PPS-MG) em 2011: oposição séria, firme e consistente (Foto: Agência Senado)

Ganhou estourado, na avalanche que levou a oposição em 1974, em plena ditadura militar, a eleger 16 dos 22 senadores cujos mandatos se renovavam. No Senado, foi um encrenqueiro que deixava a disciplina partidária sempre que sua consciência o impelia em outra direção.

Tive poucos contatos com Itamar senador. Para meu constrangimento, me chamava de “doutor”. Certa feita, me presenteou com uma separata — espécie de livreto, editado pelo Senado — com um discurso sobre desenvolvimento do país e uma dedicatória.

A mudança nas entrevistas coletivas

A despeito dos muitos reparos que lhe fiz como presidente e governador em artigos nos jornais O Estado de S. Paulo e O Globo, para os quais colaborava enquanto trabalhava na Editora Abril, continuou me tratando com cortesia e civilidade.

Certa vez, escrevi artigo criticando a bagunça e o desrespeito que ocorriam em suas entrevistas coletivas, com jornalistas detendo-o à saída do Palácio do Planalto e enfiando microfones no rosto do presidente da República. Mostrei exemplos do que ocorria em outros países, onde presidentes só falavam a jornalistas em locais adequados, dotados de púlpito, microfone e um mínimo de cerimonial e organização.

Para minha surpresa, no mesmo dia da publicação do artigo o presidente decidiu organizar formalmente seus contatos com a imprensa, e o noticiário do dia seguinte informava ter sido o artigo o motivador da iniciativa. Algumas semanas mais tarde, é verdade, voltou-se à desorganização anterior, mas obviamente me senti lisonjeado.

Sozinho no aeroporto, carregando sua maleta

Certa vez, por acaso, presenciei uma cena eloquente sobre a simplicidade e a modéstia do ex-presidente, no aeroporto de Brasília. Ele ainda não se elegera senador por Minas. Eu iria voltar a São Paulo e me encontrava no mezanino do Aeroporto Internacional Presidente Juscelino Kubitschek quando vi que Itamar desembarcara, no piso inferior, de algum voo doméstico.

Como ex-presidente, a ele cabia direito, por lei, a seguranças, motorista e alguns assessores. Mas 0 ex-presidente surgiu sozinho, carregando a própria maleta. Fiquei observando lá de cima. Ele foi caminhando, maleta na mão, em direção a um automóvel que o esperava do lado oposto àquele em que desembarcara. Uma trajetória de várias centenas de metros. Lá foi o ex-presidente. Reconhecido por algum passageiro, parava, cumprimentava e trocava dois dedos de conversa. Assim foi indo. Andava e parava para conversar. Deu alguns autógrafos, acenou para pessoas que o saudavam. Atravessou o aeroporto inteiro, sem alarde, como mais um cidadão, até entrar num Vectra preto.

Nos meses que antecederam a sua morte, mantive contatos permanentes com José Quintiliano Fonseca, assessor do então recém-eleito senador, e estávamos programando uma longa conversa com o ex-presidente, em Brasília, quando ele subitamente adoeceu.

A morte que sobreviria em poucos dias, a 2 de julho de 2011, tirou de cena um político honrado e um oposicionista de grande peso e credibilidade, que ainda poderia prestar bons serviços ao país – e também meu projeto de convencê-lo a trabalhar com ele em suas memórias políticas.

 A pedido do diretor de VEJA, Eurípedes Alcântara, escrevi o perfil do ex-presidente que segue abaixo e foi publicado na edição da revista de nº 2.225, de 13 de julho de 2011 e no qual expresso minha opinião sobre seu governo e sua figura pública. As fotos originalmente publicadas na revista impressa são apenas a principal do post, acima, e a de Itamar jovem, abaixo:

 RABUGICE E VIRTUDE

Itamar Franco foi um governante exemplar. Fez o mal em público e o bem anonimamente, mesmo contra sua vontade

O topete, único, irrepetível, quase inverossímil, era a um só tempo realidade física e metáfora. Se fazia as delícias dos caricaturistas, servia-lhe como símbolo de altivez, refugiada no recesso da modéstia mineira de Itamar Augusto Cautiero Franco, ex-presidente da República (1992-1994) e senador (PPS-MG), morto no dia 2, em São Paulo, aos 81 anos, por efeitos colaterais de uma leucemia.

O topete o acompanharia, nos dois sentidos, até o fim: em seu corpo, cremado numa solenidade em Contagem (MG), e em sua atitude – por desejo expresso de Itamar, a família recusou as honras de chefe de estado, um velório no Palácio do Planalto ou no Senado e até transporte oficial, excetuado o avião da FAB que o levou para o velório em Juiz de Fora, sua cidade de adoção, e em Belo Horizonte.

O primado da vida adulta ensina que a morte não santifica ninguém. Itamar não escapa à regra. Foi, durante boa parte da carreira, um político de horizontes modestos, raspando no provincianismo. Como tantos políticos banais, mudou várias vezes de partido.

Itamar, o vice, na posse com Collor: o aventureiro procurava um carimbo de honradez (Foto: Agência Estado)

Em 1989, permitiu que um aventureiro, Fernando Collor, recorresse a sua reputação de integridade para conferir carimbo de honradez a sua ambição presidencial. Teve falhas, cometeu erros e, depois de deixar a Presidência, revelou-se um embaixador omisso e problemático em três diferentes postos além de, mais tarde, um governador de Minas incômodo e trapalhão.

O poder, porém, aqui e ali faz emergir o condão de engrandecer homens comuns. O zero à esquerda Harry S. Truman, vice de um gigante como Franklin D. Roosevelt nos Estados Unidos, conduziu com firmeza o país à vitória final na II Guerra Mundial e teve pulso para fazer frente à URSS na Guerra Fria.

O revolucionário comunista Nelson Mandela, após 27 anos de dura, impiedosa cadeia, foi capaz de sair estendendo a mão a seus algozes para um processo de reconciliação que livrou a África do Sul de uma guerra civil, transformou-a na única democracia do continente e a ele próprio num dos grandes estadistas do século XX.

No caso de Itamar, coube-lhe a coragem e a ousadia de, com o Plano Real, lançar o Brasil no rumo certo, cravando a mais importante das estacas para o crescimento econômico com estabilidade, sem o qual nenhum país chega a parte alguma. Passando por cima de velhas convicções nacionalistas, iniciou um processo de privatizações e abertura da economia que continuaria com seu sucessor, Fernando Henrique Cardoso.

 

A ALTIVEZ -- do jovem Itamar não se diluiu na maturidade. Ao contrário, ela se fortaleceu e ficará como seu legado ao mundo oficial e da política (Foto: Álbum de Família)

A ALTIVEZ do jovem Itamar não se diluiu na maturidade. Ao contrário, ela se fortaleceu e ficará como seu legado ao mundo oficial e da política (Foto: Álbum de Família)

Não parecia que, com o impeachment de Collor, o mineiro nascido em alto-mar e registrado pela mãe em Salvador chegaria a tanto. Durante bom tempo, governou de forma zi­gue­za­guean­te o suficiente para que se importasse o sentido de um adjetivo – “mercurial”, que em inglês significa volátil ou imprevisível – para defini-lo.

Rompeu uma tradição e nunca entrava no Planalto pela rampa principal, preferindo descer de um cansado Opala preto e ingressar por uma porta lateral. Recusou o Alvorada, continuando a morar no Palácio do Jaburu. Rabugento, reclamava com regularidade das altas de juros promovidas pelo Banco Central, como se o governo não fosse dele.

Na vida pessoal, divorciado e pai de duas filhas adultas que não viviam em Brasília, arranjava namoradas mais jovens e chegou a provocar a imprensa com uma que era imaginária. Sofreu o constrangimento de apresentar-se no Sambódromo do Rio de Janeiro ao lado de uma alpinista do mundo de celebridades que não vestia roupa íntima. Passou um mau bocado quando um sobrinho, integrante de uma delegação oficial à Colômbia, morreu de overdose de cocaína.

Começou com um ministério recheado de antigos colegas do Senado e, mais tarde, enxertado por desconhecidos não raro medíocres, de duração efêmera. Só na crucial Fazenda teve seis titulares e seis ministros interinos em 27 meses de gestão. Mas não transigia com irregularidades.

 

Com o então ministro da Fazenda, Rubens Ricupero, o presidente Itamar exibe as recém-lançadas cédulas do real, em 1994: escolhere FHC para ministro da Fazenda foi gesto de temerária criatividade (Foto: extra.globo.com)

Afastou um grande amigo, o chefe da Casa Civil Henrique Har­grea­ves, quando se suspeitou de seu envolvimento na roubalheira detectada pela “CPI dos Anões do Orçamento”. Três meses depois, esclarecida a correção de Hargreaves, renomeou-o para o posto. Embora o governo fosse administrativamente errático, em pouco tempo Itamar restaurou a dignidade da Presidência após a podridão ética do período Collor.

Mais que tudo, teve a grandeza de colocar numa posição-chave, que se mostraria depois capaz de mudar radicalmente os rumos do país, um político e intelectual em quem confiava, mas de cuja visão do mundo não compartilhava – Fernando Henrique Cardoso, instalado, num gesto de temerária criatividade, no comando da economia.

Itamar romperia com o ministro que o Plano Real elegeu e reelegeu como presidente, convencido de que FHC conspirou para que o PMDB não lançasse candidato a presidente em 1998, quando pensava concorrer. Manteve rancor e distância do amigo por anos. No final da vida, fora-se o rancor, desmentindo o dito de Tancredo Neves segundo o qual o guardava em geladeira.

Lula e o PT não aceitaram sua convocação para integrar, pós-Collor, um governo de salvação nacional. Mais tarde Lula o chamaria de “filho da p…”. Isso não impediu Itamar de apoiá-lo para presidente em 2002. Teve, porém, a dignidade de se afastar da senda moral trilhada pelo líder populista e seus acólitos e foi para a oposição, pela qual se elegeu pela terceira vez senador por Minas, em 2010.

Era um homem de bem e probo, num país em que esse pré-requisito se tornou, na vida política, uma virtude.

18/01/2013

às 19:00 \ Vasto Mundo

Grécia: a crise começou com uma fraude

Manifestantes durante conflito com a polícia no centro de Atenas, Grécia

Publicado originalmente a 17 de junho de 2011.

A crise grega que está nas manchetes, inclusive do site de VEJA, tem mil explicações, amigos do blog, mas seu olho do furacão começou com uma fraude, uma maracutaia inacreditável praticada pelo partido conservador Nova Democracia, que governou a Grécia por seis anos, até 2009.

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

Vencedor das eleições, o novo primeiro-ministro do Partido Socialista (Pasok), Giorgos Papandreu, constatou em poucos dias que seus antecessores haviam maquiado escandalosamente as contas públicas para os parceiros da União Europeia e o Banco Central Europeu (BCE). O verdadeiro déficit públic do país, de gravíssimos 15,7% do PIB, era mais do que o dobro do informado pelo governo anterior.

O déficit verdadeiro era a conta que chegava para ser paga pela gastança do governo do antecessor de Papandreu, Kostas Karamanlis (2004-2009), que, em vez de atuar dentro das possibilidades do Orçamento e, mais, equacionar o que restava de déficit devido aos investimentos na preparação das Olimpíadas de 2004 pelo governo socialista que o precedeu, preferiu continuar torrando dinheiro público – e mentir.

Bola de neve de desconfiança e um brutal ajuste fiscal

A desconfiança dos mercados para com a Grécia, a partir daí, diante do temor de que os empréstimos ao governo e às empresas gregas não seriam quitados, fez rolar uma bola de neve que explodiu nas mãos de Papandreu.

O primeiro-ministro conseguiu realizar um brutal ajuste fiscal, o mais severo já feito por um país da zona do euro desde o estabelecimento da moeda comum, em 2000, e baixou em 5 pontos percentuais o rombo. A essa altura, porém, os cortes orçamentários e outras medidas restritivas haviam levantado um turbilhão de protestos na sociedade, que foram num crescendo tal que, apenas nos últimos 15 meses, houve 22 greves gerais no país.

A União Europeia, o BCE e o Fundo Monetário Internacional (FMI) – que muitos chamam de troika, ressuscitando a velha palavra da extinta União Soviética – socorreram a Grécia há um ano com um empréstimo de 110 bilhões de euros (algo como 250 bilhões de reais), mas o atoleiro grego não melhorou, e o Papandreu necessita de mais 60 bilhões de euros (140 bilhões de reais).

Privatizar o banco estatal, serviços de águas, portos e até um cassino

Para tanto, as exigências da troika são severíssimas. Depois de baixar os 5 pontos percentuais no déficit, em dois anos, Papandreu agora precisa derrubá-lo de 10,5% para 7,5% até o final deste ano.

Para fazer frente ao total da dívida grega antes desses 60 bilhões, que supera 142% do PIB (só para comparar: a do Brasil bate nos 40% do PIB) e é de 328 bilhões de euros (750 bilhões de reais, uma enormidade para um país das dimensões da Grécia), o programa para o qual Papandreu precisa obter o consenso das principais forças políticas, e que o levou a reformar seu gabinete, consiste em basicamente dois pontos:

1. Corte de gastos de mais 28 bilhões de euros num país que já está no osso e que podou investimentos em saúde, educação e infraestrutura

2. Privatizações que obtenham de 50 a 60 bilhões de euros, para reduzir a sufocante dívida pública e que incluem o banco estatal Caixa Postal de Poupança, os portos de Atenas (Pireu) e Salônica, a segunda maior cidade grega depois da capital, os serviços de abastecimento de água das duas cidades, a empresa telefônica nacional, OTE, que já tem como sócio minoritário o gigante alemão Deutsche Telekon, e até o cassino de Atenas, que pertence — vejam só — ao governo.

Diante desse quadro dificílimo, quem começou tudo, o partido Nova Democracia, não tem colaborado em nada. Pode ser que Papandreu venha a obter para as medidas duras e mesmo um governo de união nacional, caso em que ele próprio disse que cederia seu cargo em prol de um acordo. Mas as palavras de Antonis Samaras, líder da Nova Democracia, ditas ainda esta semana são de uma hipcrisia aterradora: “Não estou disposto a apoiar uma politica que arrase nosso país”, afirmou.

Ele ignorou o fato de que foi o governo antecessor de Papandreu, de seu próprio partido, quem iniciou esse processo de derrocada do país com uma fraude.


 

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