17/05/2012
às 16:00 \ Vasto MundoSerá esta mulher uma “nova Merkel”, mais à esquerda?

CARRASCO ELEITORAL -- Hannelore Kraft: a governadora do maior Estado alemão impôs a 11ª derrota eleitoral estadual ao partido de Merkel (Foto: AP)
Viga-mestra na sustentação do ambicioso, generoso e hoje um tanto cambaleante projeto da União Europeia, a chanceler Angela Merkel pareceu, a certos observadores, ter abalado sua posição de líder mais importante da Europa depois da derrota eleitoral sofrida por seu partido no domingo passado.
De fato, foi feia a derrota no mais populoso e importante dos 16 Estados que compõem a Alemanha – o land de Renânia do Norte-Westfália, com 17,8 milhões de habitantes, entre os 82 milhões do país, quatro das maiores alemãs e 22% do colossal produto Produto Interno Bruto alemão, de 3,6 trilhões de dólares, o quarto maior do mundo.
A reeleição da social-democrata Hannelore Kraft, 51 anos, economista, casada, um filho, não foi nada, perto do desabamento da União Democrata-Cristã de Merkel, que, com apenas 26,3% dos votos, ficou aquém até das piores previsões anteriores pleito, que conferiam 30% ao partido, e teve seu pior desempenho no land desde a criação da República Federal da Alemanha, em 1949.
É cedo e arriscado fazer previsões para o 2º semestre de 2013
Além disso, o fato de ser a décima-primeira derrota consecutiva em eleições estaduais do partido de Merkel parece dar um recado de que os alemães estariam fartos de sua política de austeridade e, sobretudo, do apoio da Alemanha aos resgates de países da União Europeia em dificuldades, como Irlanda, Portugal e Grécia – com a Espanha na fila.

NOVOS AMIGOS -- Merkel com Hollande em Berlim: além de defender, com o colega francês, a permanência da Grécia no euro, a chanceler fez uma concessão às teses do novo presidente ao dizer que não são inconciliáveis a disciplina fiscal com o crescimento (Foto:tvi.iol.pt)
Não seria Hannelore Kraft, portanto, a candidata ideal dos social-democratas para derrotar Merkel nas próximas eleições – que deverão ocorrer em data ainda não fixada entre setembro e outubro de 2013 – e voltar ao poder que perderam há sete anos?
Seria Kraft a “nova Merkel”, mas uma Merkel de centro-esquerda, que daria uma reviravolta na austera política econômica da Alemanha e da União Europeia?
É muito cedo para dizer – cedo e arriscado. Em primeiro lugar, Kraft já deixou claro que não aspira ao cargo, embora se saiba que tudo pode mudar, como ocorre em política. Mais importante, ela pouco falou de política nacional e europeia durante sua campanha eleitoral, que tratou em grande parte de temas do dia-a-dia dos cidadãos – elevadores nos metrôs, o recolhimento e reciclagem do lixo, o fechamento de piscinas públicas por contenção de despesas.
Seu partido, o SPD, por sua vez, tem apoiado as principais medidas de austeridade de Merkel no Bundestag, o Parlamento alemão. E Kraft – característica relevante para a Alemanha como um todo – tem fama de “gastadora”: o Estado apresentou um déficit de 3,9 bilhões de dólares no ano passado e sua proposta de orçamento para este ano, que previa um déficit ainda maior, de 4,7 bilhões, foi rejeitada pelo parlamento estadual.
Vigor político invejável
O principal de tudo, porém, é o vigor político invejável que Merkel, com as derrotas locais e tudo, ainda ostenta, depois de sete difíceis e exaustivos anos no poder. Ela é, de longe, a personalidade política mais bem avaliada do país, com 64% de “bom” e “ótimo”.

SOB PROTEÇÃO -- Merkel e Hannelore se protegem da chuva para ouvir o papa Benedito XVI em Berlim, a 23 de setembro do ano passado (Foto: DPA)
“Na hora de fazer um balanço”, diz o dirigente democrata-cristão Peter Altmaier, “os alemães estão satisfeitos com sua liderança e, por isso, as eleições gerais é que vão contar, não os resultados estaduais”. Sua posição de dureza fiscal é apoiada por 55% dos alemães, segundo recente pesquisa de opinião realizada pelo jornal Die Welt, um dos mais importantes do país.
Finalmente, proeza das proezas, numa época em que desabam as finanças dos grandes países, principalmente na Europa, a chanceler ostenta um projeto de Orçamento para 2013 com um espantoso, quase inacreditável déficit zero.
É cedo, portanto, para começar a se pensar no fim da “era Merkel”. Aos 57 anos, e a despeito de todas as enormes dificuldades e desafios representados pela situação da Europa, a chanceler que recebeu esta semana o novo presidente socialista francês, François Hollande, e que defendeu a permanência da Grécia na zona do euro parece ter ainda muito caminho pela frente.
Tags: Angela Merkel, Bundestag, François Hollande, Hannelore Kraft, papa Benedito XVI, Parlamento alemão, Peter Altmaier, União Européia, “era Merkel”


























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