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Orestes Quércia

16/07/2014

às 17:00 \ Política & Cia

MARCO ANTONIO VILLA: no 15º aniversário da morte de Franco Montoro, democrata e campeão das “Diretas Já”, vemos como estão escassos os políticos de verdade

(Foto: Agência Brasil)

“O esquecimento de Franco Montoro é um ato perverso para a jovem democracia brasileira, tão carente de exemplos que dignifiquem o compromisso com o interesse público” (Foto: Agência Brasil)

MONTORO, PEDAGOGO DA POLÍTICA

Texto de Marco Antonio Villa* publicado no jornal O Estado de S. Paulo de 15 de julho

Marco-Antonio-Villa-veja.abril_.com_.br_-300x168Amanhã, dia 16 de julho, completam-se 15 anos do falecimento de André Franco Montoro. Ele percorreu um caminho raro entre os políticos brasileiros: foi vereador, deputado estadual, deputado federal, senador, governador de e ministro de Estado. Contudo nunca afastou o exercício da função pública da elaboração de ideias que tivessem aplicação prática na vida das pessoas.

O fortalecimento da sociedade civil sempre foi uma preocupação central da sua ação, isso num país onde o papel do Estado foi superdimensionado, tanto pela direita como pela esquerda.

Montoro teve na democracia cristã do pós-guerra a sua matriz ideológica. E com base nesse pensamento agiu como um pedagogo da política, escrevendo, debatendo e formando militantes.

Por onde passou foi deixando a sua marca. Nos dez meses em que esteve à frente do Ministério do Trabalho, durante o Gabinete Tancredo Neves, foi pioneiro no incentivo à sindicalização rural – tema, à época, explosivo – e criou o salário-família.

Na Câmara dos Deputados destacou-se na defesa dos trabalhadores e da democracia. Tanto que, após a extinção dos partidos políticos, em 1965, foi um dos primeiros a organizar o MDB. Cinco anos depois foi eleito senador, numa eleição marcada pelo medo, no auge do regime militar.

Nos anos de vida parlamentar foi um incansável propagador da integração econômica e cultural com a América Latina. De início foi voz solitária. Poucos se interessavam. Mas a pregação foi ganhando adeptos até ser incorporada à Constituição de 1988.

Assumiu o governo de São Paulo em março de 1983. O país estava em recessão – o produto interno bruto (PIB) caiu 2,9% – e com uma inflação anual de 211%. A economia estadual passava por uma profunda crise. O número de desempregados não parava de aumentar. E as finanças estaduais estavam em petição de miséria após o trágico quadriênio Maluf-Marin [Observação do colunista: sim, este mesmo José Maria Marin, decrépito presidente da CBF e à época, na política, capacho da ditadura militar].

Organizou um secretariado de nível ministerial. Teve entre seus principais colaboradores (incluindo os bancos e empresas estatais paulistas) José Serra, João Sayad, Luiz Carlos Bresser-Pereira, Almino Affonso, Miguel Reale Júnior, Almir Pazzianotto, José Gregori, Paulo Renato e Paulo de Tarso, entre outros.

Nomeou para a Prefeitura de São Paulo Mário Covas [a Constituição do regime militar não admitia eleições diretas para as capitais.]. Entendeu que na administração pública deviam ser escolhidos os melhores. E que o governador não devia temer a competência dos seus auxiliares, muito pelo contrário.

Pôs em prática os princípios defendidos desde os anos 1950. Fez da descentralização um dos carros-chefes do governo. Insistiu na tese de que o município é a base da democracia, da boa gestão e onde o cidadão vive. Fez o saneamento financeiro zerando o déficit orçamentário graças à austeridade nos gastos. Diversamente do governo anterior, deu à ética um papel central.

Relacionou-se com a Assembleia Legislativa de forma republicana. Acentuou a necessidade da participação do cidadão nos negócios públicos. E foi o primeiro governador a ter preocupação (e ação) com o meio ambiente – basta recordar o tombamento da Jureia, onde Paulo Maluf queria construir duas usinas nucleares.

Conviveu com diversos movimentos grevistas. Reivindicações contidas à força pelos governos anteriores acabaram eclodindo. Soube buscar soluções harmoniosas em meio à tensão política.

No tristemente célebre episódio da derrubada das grades do Palácio dos Bandeirantes agiu com moderação. Sabia que estavam em jogo a abertura democrática e o exercício da autoridade. Era uma provocação arquitetada pelos extremismos à direita e à esquerda. Tomou as decisões necessárias e saiu engrandecido.

A volta da democracia: primeiro governador de São Paulo eleito por voto direto após as imposições da ditadura, Montoro aparece em campanha eleitoral junto com Miro Teixeira, Tancredo Neves e Orestes Quércia (Foto: Angelo Perosa)

A volta da democracia: primeiro governador de São Paulo eleito por voto direto após as imposições da ditadura, Montoro aparece em campanha eleitoral junto a Raphael de Almeida Magalhães (primeiro à esquerda), Orestes Quércia, Tancredo Neves e Miro Teixeira, entre outros (Foto: Angelo Perosa)

A campanha das diretas teve início – efetivamente – no dia 25 de janeiro de 1984, no comício da Praça da Sé, por iniciativa do governador. Foi um ato de ousadia e coragem política. Poucos acreditaram no sucesso do comício. E a participação de 300 mil pessoas demonstrou a correta análise de conjuntura do governador Montoro. A partir daí, a campanha deslanchou. Foram realizados dezenas de atos por todo o Brasil. E em São Paulo, em 16 de abril, foi encerrada com o maior comício da História do Brasil. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

02/11/2013

às 18:00 \ Política & Cia

Eleições 2014: em pelo menos dez Estados, PT e PMDB, aliados no governo federal, estão se estranhando

"Os peemedebistas, ao fazer as contas, percebem claramente que tiveram muito mais força e influência com Lula quando o vice era José Alencar, do que agora que tem o vice Michel Temer instalado no Palácio do Jaburu" (Foto: Dida Sampaio / AE)

“Os peemedebistas, ao fazer as contas, percebem claramente que tiveram muito mais força e influência com Lula quando o vice era José Alencar, do que agora com o vice Michel Temer instalado no Palácio do Jaburu” (Foto: Dida Sampaio / AE)

Do blog Política & Economia Na Real, do jornalista José Márcio Mendonça e do economista Francisco Petros

O ETERNO DILEMA DO PMDB – 1

Desde o fracasso do governo José Sarney, um peemedebista de eterna alma na Arena (partido de sustentação da ditadura militar), e do insucesso das candidaturas presidenciais de Ulysses Guimarães e Orestes Quércia, o PMDB abdicou de disputar a Presidência da República com candidato próprio.

A estratégia peemedebista passou a ser a de desenvolver bem nos espaços intermediários do poder na República – municípios, Estados, assembleias legislativas, Câmara dos Deputados e Senado – e acumular forças para ser um parceiro imprescindível de quem estiver ocupando o Palácio do Planalto.

Assim, desde a saída de Sarney da presidência, apenas esporadicamente, e assim mesmo a muito contragosto, o PMDB militou na oposição em Brasília. E sempre atendeu prontamente ao chamado presidencial para se tornar um aliado, pouco importando quem e com quais razões.

Portanto, para o partido o que importa, de fato, não é a eleição presidencial. Ele sabe que, fortalecido no conjunto, será chamado às bodas do poder. Óbvio que há sempre um peemedebismo de grife, vaidoso, que se apega a algumas circunstâncias de mais brilho que de poder de fato. São os que querem, por exemplo, alianças para garantir ao partido a Vice-Presidência da República numa chapa provavelmente vencedora.

Não é o que pensa a maioria. A experiência atual desgastou o partido nesta linha: o fato de ter o vice Michel Temer na chapa de Dilma diminuiu a cota de poder no partido nos ministérios e órgãos públicos.

O eterno dilema do PMDB – 2

Os peemedebistas, ao fazer as contas, percebem claramente que tiveram muito mais força e influência com Lula quando o vice era José Alencar, ex-peemedebista alojado em outro partido, do que agora com o vice instalado no Palácio do Jaburu.

É este o grande drama que assola o PMDB que não faz parte da cúpula partidária: garantir a aliança nacional em detrimento dos interesses locais, que dão musculatura ao partido ou exigir do parceiro PT apoio nos Estados em nome da aliança nacional?

Os cálculos variam, mas em pelo menos dez Estados, PT e PMDB estão ameaçando se estranhar. O PMDB considera que tem candidatos mais competitivos (com o “direito sagrado” de competir) e exige que o PT o apoie. Mas, o PT nem sempre está disposto a este “sacrifício”. Sequer aceita que Dilma voe, na campanha, para outro palanque que não o do petismo.

Um caso clássico é o do Rio de Janeiro, já tão decantado: Sérgio Cabral e o peemedebismo querem o apoio à candidatura do vice-governador Pezão, mas o PT (assim assegura seu presidente, Ruy Falcão), não abre mão da candidatura do senador Lindbergh Farias.

Com mais ou menos ênfase, o problema aparece no Rio Grande do Sul, Ceará, Espírito Santo, na Bahia, no Amazonas, no Pará e em Mato Grosso do Sul, pode pipocar em Minas e está aquecido até no Maranhão, com choques com a família Sarney, donatária do Estado.

03/06/2013

às 14:00 \ Política & Cia

Disputa pela herança de Quércia mostra mágica: o ex-governador, fazendo exclusivamente política desde jovem, acumulou um colossal patrimônio de 1,5 bilhão de reais

Quércia, morto em 2010: divisão sem acordo (Ilustração: Sattu; Foto: Sérgio Neves / AE)

Quércia, morto em 2010: divisão sem acordo (Ilustração: Sattu; Foto: Sérgio Neves / AE)

Durante décadas mantido em sigilo, finalmente começa a vir à tona o valor do colossal patrimônio acumulado pelo falecido ex-governador de São Paulo Orestes Quércia (PMDB) — por causa da disputa judicial por seus bens. Quércia, que fez política em tempo integral desde os 21 anos, quando se elegeu vereador e possuía como bem um automóvel Ford ano 1937, até morrer, aos 72 anos, em 2010, conseguiu a proeza extraordinária de amealhar fortuna de 1,5 bilhão de reais.

Conjuntos residenciais, vários shopping centers, um grande lote de fazendas (só na sua terra natal, 14 delas), edifícios inteiros em áreas nobres de São Paulo, duas retransmissoras de televisão, mansão de frente para o mar — nada faltou na vasta lista de bens valiosos do ex-governador que, tendo feito exclusivamente política ao longo de meio século, se ganhou tudo isso como empresário revelou-se um dos empreendedores mais argutos da história. Presume-se, para tanto, que fazia negócios durante as refeições, nos finais de semana e roubando horas de sono, pois todo o tempo restante sempre foi dedicado à política.

Confiram abaixo a disputa por esses bens.

Reportagem de João Batista Jr., publicada em edição impressa de VEJA São Paulo

 

 ESPÓLIO BILIONÁRIO NA MIRA

Fazendas, shoppings e outros bens deixados por Orestes Quércia estão no centro da partilha de herança, que põe, de um lado, a viúva, Alaíde, com os quatro filhos que tiveram juntos e, de outro, os dois primogênitos do político, nascidos quando ele ainda era solteiro

O complexo onde fica o Novotel Jaraguá, no centro, com 415 quartos, 25 salas para eventos, dois restaurantes e um teatro: 100 milhões de reais. A sede do Octavio Café, construída em um terreno de 1600 metros quadrados na Avenida Faria Lima: 50 milhões de reais.

A torre do bloco A do condomínio comercial Millenium Office Park, na Vila Olímpia, com sete pisos de 650 metros quadrados cada um: 55 milhões de reais. O prédio de treze pavimentos e 5 600 metros quadrados de área útil na esquina da Avenida Paulista com a Rua Frei Caneca, alugado para a Universidade Anhembi Morumbi: 70 milhões de reais.

A retransmissora da Record em Campinas: 60 milhões de reais. A afiliada da Band em Santos: 36 milhões de reais. Catorze fazendas em Pedregulho, no total de cerca de 3 000 hectares, com plantações de cafés especiais, cana-de-açúcar, soja e banana: 200 milhões de reais. Uma mansão na Chácara Flora com piscina e academia de ginástica em um terreno de 4 300 metros quadrados: 7,5 milhões de reais.

Uma casa com seis suítes de frente para o mar no condomínio mais sofisticado da Praia da Baleia: 6 milhões de reais. Quatro shoppings e galerias da rede Jaraguá, com unidades em São Paulo, Campinas, Araraquara e Indaiatuba e um total de 32 348 metros quadrados de área bruta locável: ao menos 300 milhões de reais.

Condomínio Millenium Office Park, na Vila Olímpia: 500000 reais em aluguel (Foto: Mario Rodrigues)

Condomínio Millenium Office Park, na Vila Olímpia: 500000 reais em aluguel (Foto: Mario Rodrigues)

Na lista acima, estão alguns dos principais bens de Orestes Quércia e quanto valem hoje, conforme estimativas de mercado. Ao morrer, em decorrência de câncer de próstata, na véspera do Natal de 2010, aos 72 anos, o paulista natural de Pedregulho (a 455 quilômetros da capital), que governou o estado de 1987 a 1991, deixou para trás uma fabulosa riqueza, hoje no centro de uma disputa entre herdeiros que parece longe de se encerrar.

De um lado, estão a viúva, a médica oftalmologista Alaíde, de 55 anos, e os quatro filhos que teve com ele: Cristiane, 27, Andreia, 26, Rodrigo, 22, e Pedro, 20. De outro, figuram os irmãos Sidney, 47, e Fernando, 46, ambos frutos de relacionamentos com mulheres diferentes, vividos antes de seu casamento.

Na terça-feira (14), um encontro dos dois últimos com os advogados representantes de Alaíde terminou sem acordo para a divisão do patrimônio, avaliado pelas partes, nos bastidores, em 1,5 bilhão de reais. No fim da conversa, depois de meses em busca de uma solução não litigiosa, os primogênitos decidiram que não querem mais esperar: vão entrar com uma ação para pleitear seu quinhão nessa fortuna.

A viúva ofereceu 20 milhões à Sidney e o mesmo à Fernando, para encerrar a briga, mas eles querem ao menos 50 milhões cada um (Fotos: Fernando Moraes)

A viúva ofereceu 20 milhões à Sidney e o mesmo à Fernando, para encerrar a briga, mas eles querem ao menos 50 milhões cada um (Fotos: Fernando Moraes)

A proximidade das duas frentes de batalha praticamente inexistia antes da morte de Quércia, que pouco via os dois mais velhos. Sidney, 47 anos, só foi reconhecido em 2002, após exame de DNA. Apesar de o pai continuar distante, recebeu seu apoio financeiro para cursar direito na Unip de Campinas – antes, ganhava a vida como motorista. Ele atua na área trabalhista e mora provisoriamente com o filho e a mulher em uma das dezenas de apartamentos da herança.

Fernando, 46, também estudou direito, mas na PUC-Campinas. É bem-sucedido na área tributária, com escritórios em São Paulo e no interior. Casado e pai de três filhas, foi reconhecido oficialmente em 1993, aos 27 anos, quando era delegado de polícia. Sua história, porém, difere da vivida por Sidney. “Tive algum contato com meu pai na infância”, lembra ele, batizado Orestes Fernando Corssini. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

04/02/2013

às 15:36 \ Política & Cia

Ao votar em massa em Henrique Alves, símbolo de tudo o que já combateu, o PSDB pisoteia em seus ideais de origem e dá uma facada nas costas de seus fundadores

Henrique Alves (polegar levantado) comemora sua vitória: com os votos do PSDB (Foto: Antonio Cruz / Agência Brasil)

Amigas e amigos do blog, mesmo metralhado por denúncias graves de possíveis delitos, o deputado Henrique Alves (PMDB-RN), membro de oligarquia que há mais de meio século se reveza nos principais postos de poder em seu Estado, foi eleito hoje, como se sabe, presidente da Câmara dos Deputados.

Presidente da Casa que deve representar o povo brasileiro.

Segunda pessoa na linha de sucessão da presidente da República, segundo a Constituição, depois apenas do vice-presidente.

Produto do conchavo mais rasteiro de um partido, o PMDB, que só pensa em cargos e vantagens.

Com o apoio feliz do Palácio do Planalto, tal como ocorria durante o lulalato.

Pois bem, deputados do PSDB — partido fundado em 1988 que tinha, entre outros, o objetivo de regenerar os costumes políticos brasileiros – votaram em massa nesse político que, além de tudo de mal que reprenta, só ostenta como proeza a se gabar o fato de estar na Câmara há 42 anos, embora não haja registro de uma única medida importante sequer que haja, em todo esse período,  empreendido.

O PSDB, que no Senado agiu como se espera de um partido de oposição e, mesmo para perder a eleição, cerrou fileiras com a candidatura do atuante senador Pedro Taques (PDT-MT), na Câmara votou maciçamente num candidato que só ajuda a desmoralizar ainda mais o Legislativo e, portanto, a enfraquecer a democracia brasileira.

A Ponte Estaiada Orestes Quércia, em São Paulo: homenagem a um político que o PSDB combateu duramente -- no passado (Foto: José Luís da Conceição)

Decepção a seus eleitores 

O PSDB decepciona seus eleitores não é de hoje. Vamos recordar aqui apenas um episódio, extremamente expressivo porque ocorreu no Estado de São Paulo, berço do partido supostamente “renovador”.

Refiro-me a uma concorrida homenagem do governo tucano de São Paulo ao ex-governador Orestes Quércia, falecido em dezembro de 2010. Quércia teve um final de vida de inspirar piedade nos homens de bem, golpeado que foi pela metástese fulminante de um câncer de próstata. Ninguém minimamente decente pôde se alegrar com isso.

O ex-governador, porém, como governante e como político, representava tudo de que os fundadores do PSDB queriam distância, por seus métodos e práticas, sem contar seu colossal, inverossímil enriquecimento pessoal durante os 25 anos período em que se dedicou em tempo integral à política como vereador, deputado estadual, prefeito de Campinas, senador da República, vice-governador e, finalmente, governador de São Paulo.

Muito em função das diferenças com Quércia, em 1988 poderoso e influente desde sua posição no Palácio dos Bandeirantes, tucanos de truz como o então senador e hoje ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os falecidos ex-governadores paulistas Franco Montoro e Mário Covas e o paranaense José Richa, do Paraná, os então deputados José Serra (SP) e Euclides Scalco (PR), jovens lideranças como o deputado Aécio Neves (MG) e dezenas de outros proeminentes nomes do PMDB país afora decidiram deixar o partido rumo a uma legenda que, entre outros objetivos, se pretendia mudar radicalmente, para melhor, o jeito de fazer política e de exercer o poder no Brasil.

Nesse quesito, pretendia-se que o PSDB estivesse do exato lado oposto da forma de agir na vida pública de Quércia e de outro governador da época com perfil similar, Newton Cardoso, o “Newtão”, de Minas Gerais e também do PMDB.

Passado jogado para o alto 

Alckmin: Maluf como aliado e Quércia como homenageado (Foto: Agência Brasil)

Pois bem, passam-se os anos e o governador tucano Geraldo Alckmin, em nome da “governabilidade” e com objetivos eleitorais para 2012 e 2014, jogou esse passado para o alto, fez as pazes do PSDB paulista com Quércia em 2010 e inclui o ex-governador em sua chapa para o Senado nas eleições daquele ano, junto com o tucano Aloysio Nunes Ferreira. A doença fez Quércia desistir da campanha e declarar apoio a Aloysio.

Coerente com seu passado, FHC esteve entre os poucos tucanos paulistas que não apoiaram a candidatura Quércia e gravou mensagem na TV apenas em favor de Aloysio, que acabou sendo eleito com votação recorde.

Colocar Quércia como parceiro de chapa, porém, não bastou para Alckmin. Ele precisou também homenagear o ex-governador — homenagem “justíssima”, disse, a um homem que “dedicou uma vida inteira a São Paulo e ao Brasil” –, batizando com seu nome uma bela e imponente ponte estaiada que liga a movimentada Avenida do Estado à pista central da Avenida Marginal do Tietê, mais movimentada ainda.

Covas, Maluf e uma facada nas costas 

Para dar o toque político que eventualmente faltasse a essa reviravolta histórica do PSDB paulista, a seção mais importante do partido, que representou uma metafórica facada nas costas dos fundadores do partido — e em especial do falecido governador Mário Covas, que Alckmin considera seu mentor —, lá estava como convidado, na inauguração, sorridente e feliz, o deputado Paulo Maluf (PP), que conseguiu pular da posição de pária e alvo político da ferocidade do PT a firme apoiador do lulalato e do governo Dilma e, agora, igualmente aliado do governador Alckmin, a quem os malufistas apoiam na Assembleia e do qual obtiveram cargos no governo.

Desde o tempo em que os bichos falavam até sua morte, em 2001, Covas foi um implacável adversário de Maluf, de suas ideias, de sua atuação na vida pública e de sua forma de fazer política, e com igual energia combateu Quércia e tudo o que ele representava, dentro do PMDB e, depois, no PSDB.

Alckmin, de um só golpe, já havia absolvido dois rivais e antípodas históricos de um PSDB que não existe mais. O PSDB que não existe mais, e ao qual falta combatividade e, com exceções, vergonha na cara, acabou de pintar, hoje, na Câmara dos Deputados, seu feio auto-retrato.

Apoiar alguém como Henrique Alves, digno sucessor da memória de Quércia, é aplicar uma punhalada a mais nas costas de Covas, de Montoro e de outros que acreditavam haver um caminho mais decente a percorrer na vida pública. É pisotear os ideais que esses homens de bem defendiam.

O presidente do partido, deputado Sérgio Guerra (PE), disse que o apoio de deputados tucanos a Henrique Alves não constrange o PSDB. É verdade: a este PSDB, com as honrosas exceções de sempre, é claro que não…

08/01/2012

às 19:31 \ Política & Cia

Com homenagem a Quércia, que incluiu Maluf, Alckmin dá facada nas costas dos ideais de um PSDB que não mais existe

A ponte estaiada "Governador Orestes Quércia": símbolo, em SP, da absolvição por Alckmin de um jeito de fazer política que inclui Maluf (Foto: José Luis da Conceição/Divulgação)

A ponte estaiada "Governador Orestes Quércia": símbolo, em SP, da absolvição por Alckmin de um jeito de fazer política que inclui Maluf (Foto: José Luis da Conceição/Divulgação)

(Publicado originalmente a 28 de julho de 2011)

Amigos, o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia morreu em dezembro passado, sofreu muito com a recidiva de um antigo câncer de próstata em que ocorreu metástese e nenhum cidadão de bem, seja de que posição política for, pode ter ficado feliz com seu final de vida.

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

Quércia, porém, como governante e como político, representava tudo de que os fundadores do PSDB, em 1988, queriam distância, por seus métodos e práticas, sem contar seu brutal enriquecimento pessoal durante um período em que se dedicou em tempo integral à política como vereador, deputado estadual, prefeito de Campinas e senador da República.

Muito em função das diferenças com Quércia, então poderoso governador de São Paulo, tucanos de truz como o então senador e hoje ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os falecidos ex-governadores Franco Montoro e Mário Covas, de São Paulo, e José Richa, do Paraná, os então deputados José Serra (SP) e Euclides Scalco (PR), jovens lideranças como o deputado Aécio Neves (MG) e dezenas de outros proeminentes nomes do PMDB país afora decidiram deixar o partido rumo a uma legenda que, entre outros objetivos, se pretendia regeneradora dos costumes políticos brasileiros.

Nesse quesito, pretendia-se que o PSDB estivesse do exato lado oposto da forma de agir na vida pública de Quércia e de outro governador da época, Newton Cardoso, de Minas.

Passado jogado para o alto

geraldo-alckmin-agencia-brasil

Pois bem, passam-se os anos e o governador tucano Geraldo Alckmin, em nome da “governabilidade” e com objetivos eleitorais para 2012 e 2014, joga esse passado para o alto, faz as pazes do PSDB paulista com Quércia em 2010 e inclui o ex-governador em sua chapa para o Senado no ano passado, junto com o tucano Aloysio Nunes Ferreira. A doença fez Quércia desistir da campanha e declarar apoio a Aloysio, eleito com votação recorde.

Coerente com seu passado, FHC esteve entre os raríssimos tucanos que não apoiaram a candidatura Quércia e gravou mensagem na TV apenas em favor de Aloysio.

Colocar Quércia como parceiro de chapa, porém, não bastou para Alckmin. Ele precisou também homenagear o ex-governador — homenagem “justíssima”, disse, a um homem que “dedicou uma vida inteira a São Paulo e ao Brasil” –, batizando com seu nome uma bela e imponente ponte estaiada que liga a movimentadíssima Avenida do Estado à pista central da Avenida Marginal do Tietê, mais movimentada ainda.

Covas, Maluf e uma facada nas costas

Para dar o toque político que eventualmente faltasse a essa reviravolta histórica do PSDB paulista, uma metafórica facada nas costas dos fundadores do partido — e em especial do falecido governador Mário Covas, que Alckmin considera seu mentor — lá estava como convidado, na inauguração, sorridente e feliz, o deputado Paulo Maluf (PP), que conseguiu pular da posição de pária e alvo político da ferocidade do PT a firme apoiador do lulalato e do governo Dilma e, agora, igualmente aliado do governador Alckmin, a quem os malufistas apoiam na Assembleia e do qual obtiveram cargos no governo.

Desde o tempo em que os bichos falavam até sua morte, em 2001, Covas foi um implacável adversário de Maluf, de suas ideias, de sua atuação na vida pública e de sua forma de fazer política, e com igual energia combateu Quércia e tudo o que ele representava.

Alckmin, de um só golpe, absolveu dois rivais e antípodas históricos de um PSDB que não existe mais.

13/09/2011

às 19:52 \ Vasto Mundo

Dirigentes espanhóis divulgam seu patrimônio. Perto dos nossos políticos, parecem pedintes…

zapatero-mariano

Zapatero, o governante socialista, e Rajoy, o líder conservador: na meia idade, patrimônios a anos-luz de congêneres brasileiros

Amigos, os espanhóis deixaram esta semana por algum tempo afastadas as preocupações sobre a capacidade de o país arcar com seus débitos – no âmbito geral da crise de alguns países da zona do euro – para discutir o patrimônio declarado de seus principais políticos, que acaba de ser divulgado.

Como brasileiro, tive vontade de rir com a reação da mídia e do público. O excelente jornal El Periódico, de Barcelona, por exemplo, trouxe como uma das manchetes sobre o tema a seguinte: “A difusão dos bens de parlamentares causa furor”.

Pensei comigo: “Se eles soubessem como é no Brasil…”

Causou “furor”, entre outras informações, saber que o homem mais rico das Cortes – o Legislativo espanhol – é o presidente do Congresso dos Deputados, José Bono, cujo patrimônio é de 1,7 milhão de euros, ou algo como 4 milhões de reais. Ele chegou a ser denunciado pela imprensa de extrema direita, no passado, por suposto enriquecimento suspeito, mas o caso foi arquivado.

Não é de rir? Com certeza há centenas de prefeitos de cidades médias e até pequenas no Brasil com patrimônio de valor superior. Bem como vereadores, deputados estaduais, governadores, deputados federais, senadores…

Lembro-me de que, há uns bons 10 anos atrás, VEJA realizou um levantamento independente, com avaliadores confiáveis, sobre o patrimônio visível do ex-presidente e senador José Sarney (PMDB-AP), presidente do Senado. Sarney se dedica em tempo integral à vida pública há cerca de 60 anos – e, no entanto, e naquela época, VEJA chegou à conclusão de que seus bens valiam 100 milhões de reais. A valores de hoje, só Deus sabe quanto.

Há ainda mais tempo, VEJA mostrou que o falecido ex-governador Orestes Quércia, que desde seus 20 anos só fez política, havia conseguido amealhar, em bens oficialmente declarados, 52 milhões de reais – patrimônio que quando de sua morte, no ano passado, estimava-se bem superior a 1 bilhão de reais.

O falecido ex-ministro e ex-governador Antonio Carlos Magalhães, o ACM, que igualmente só se dedicou à política durante sua longa vida, faleceu em 2007 como dono de um império, que incluía emissora de TV filiada à Rede Globo, emissoras de rádio, jornal e uma plêiade de negócios.

Em comparação com os nossos, os políticos espanhóis parecem pedintes. Vejam só os 3 principais casos:

O primeiro-ministro socialista José Luís Rodríguez Zapatero ainda não tem casa própria. Seu patrimônio consiste em um imóvel ainda em construção de valor não declarado na cidade onde cresceu e se formou, León, em sociedade com a mulher, Sonsoles Espinosa, para o qual não solicitou empréstimo. Aos 51 anos, em contas bancárias e 3 diferentes planos de aposentadoria privada, acumula 158 mil euros (370 mil reais). Não tem automóvel.

O líder do principal partido de oposição, o Partido Popular (PP) e provável vencedor das eleições gerais de novembro, Mariano Rajoy, aos 56 anos possui um apartamento e 3 garagens em Madri, uma casa em Pontevedra, em sua Galícia natal, e 597 mil euros (1,4 milhão de euros) em depósitos bancários, ações e investimentos vários. Não tem automóvel.

Rubalcaba: um bom dinheiro em investimentos, mas proprietário de um só imóvel e dois carros velhos

O candidato socialista à sucessão de Zapatero, Alfredo Pérez Rubalcaba, químico de formação, ex-ministro do Interior, é dono de um apartamento em Madri, co-proprietário de uma garagem, dispõe de 984 mil euros (2,3 milhões de reais) em depósitos bancários, investimentos e ações, um automóvel Mazda 1998 e um Skoda 2000.

São os três principais políticos da Espanha no momento, todos de homem já de meia idade, fase em que pessoas de classe média/média alta na Europa, como é seu caso, amealharam tanto ou mais do que eles.

01/05/2011

às 18:02 \ Política & Cia

Alckmin, ou quem tudo quer…

Alckmin: ficando com a turma do sim, senhor

Amigos, vale a pena ler os dois primeiros tópicos da coluna deste domingo do jornalista Carlos Brickmann, o Carlinhos, para os amigos. A coluna é publicada em 5 diferentes jornais.

Um dia, o líder máximo do PMDB, Orestes Quércia, decidiu livrar-se de seus adversários internos. Conseguiu afastar do partido políticos como Franco Montoro, Fernando Henrique, Covas.

O partido ganhou unidade e perdeu substância. O PMDB, maior partido do país, desde 1998 nem tem candidato à Presidência.

O governador paulista Geraldo Alckmin repete hoje a manobra que não deu certo com Quércia – um político, aliás, muito mais competente do que ele.

Kassab: atraindo seguidores do governador

Isolou seus adversários internos do PSDB, resolveu se vingar da derrota que sofreu para Gilberto Kassab, do DEM, nas eleições [para a Prefeitura de São Paulo] de 2008 (e, de quebra, dos tucanos ligados a Serra, que apoiaram o vitorioso), tomou o comando municipal do partido.

Aliás, que partido?

O PSDB paulista centralizou o comando e está se dissolvendo.

Ficou com Alckmin a turma do sim, senhor – aqueles cujo melhor representante é o secretário que pediu às grandes empresas que troquem seus caríssimos geradores que queimam derivados de petróleo por modelos a álcool, sem qualquer compensação, e passem a vender energia, para evitar a falta de luz.

O PSDB corre o risco de transformar-se num partido quimicamente puro e eleitoralmente fraco.

Enquanto isso, o prefeito Kassab vai formando seu novo partido, com maioria de políticos provenientes da antiga oposição, PSDB e DEM. O PSD (o nome está sendo disputado: talvez acabe sendo outro) cresce atraindo antigos seguidores de Alckmin.

Nesse jogo, onde Serra se situa? Ganha um sanduíche de pão integral com queijo branco light e uma folha de alface quem conseguir achá-lo no jogo.

Quem consegue achar Serra no jogo Alckmin-Kassab

Memória de gordo

Política é um mundo estranho, mas às vezes previsível. Para livrar-se de seus adversários, Quércia deu força a grandes aliados, como Almino Affonso e Alberto Goldman. Completado o serviço, livrou-se também dos dois.

27/02/2011

às 16:10 \ Política & Cia

Qual será o segredo de enriquecer fazendo política em tempo integral?

Orestes Quércia: política em tempo integral durante 48 anos e um patrimônio declarado de 117 milhões de reais

Amigos, é impressionante como a gente encontra grandes empresários residindo dentro de muitos de nossos políticos, não?

O falecido ex-governador paulista Orestes Quércia, que morreu aos 72 anos, fazia política em tempo integral desde que, aos 24 anos, se elegeu vereador – e mesmo assim construiu um patrimônio que chegou a incluir um grande jornal, vasta carteira de imóveis urbanos, fazendas, emissoras de rádio e repetidoras de TV. O presidente do Senado, José Sarney, é político igualmente em tempo integral há 55 anos — e ainda assim encontro tempo e energia para deter, hoje, um império no Maranhão, começando com uma vasta rede de comunicações.

Os exemplos são inúmeros.

Hoje o Estadão mostra que insuspeitadas habilidades empresariais de políticos ocorrem também entre deputados estaduais – mais precisamente entre os que presidem as Assembléias Legislativas e administram suas gordas verbas.

Levantamento feito pelo jornal mostra que dos 26 deputados estaduais e 1 distrital (no Distrito Federal) que comandam atualmente as Assembleias Legislativas (e, no DF, a Assembléia Distrital), 11 mais que dobraram seu patrimônio apenas nos últimos quatro anos.

Amigos, levante a mão quem entre vocês, trabalhando duro, conseguiu dobrar o patrimônio nos últimos quatro anos, tá?

Leia os detalhes aqui.

25/02/2011

às 17:00 \ Política & Cia

Itamar Franco: “A única coisa que a oposição não pode fazer é se calar”

A partir uma troca de farpas com o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), durante o processo de votação do novo salário mínimo na Casa, e das duras críticas que fez ao projeto do governo Dilma, o senador e ex-presidente da República Itamar Franco (PPS-MG) parece trazido um vigor oposicionista que distoa da malemolência dos demais senadores não alinhados com o Planalto.

Itamar tem experiência no Senado, onde ocupou uma cadeira por dois mandatos consecutivos (de 1975 a 1983 e de 1983 a 1989, quando precisou renunciar a um período que iria até 1991 para ser candidato a vice-presidente na chapa de Fernando Collor).

Vale a pena ler a entrevista que concedeu ao Estadão.

De volta ao Senado depois de 21 anos, o ex-presidente Itamar Franco (PPS-MG) foi responsável pela oposição mais dura feita ao governo federal na sessão em que foi aprovada a proposta de reajuste do valor do salário mínimo para R$ 545. Mais do que criticar o valor proposto pelo Palácio do Planalto, Itamar deixou clara sua insatisfação com a aplicação de um decreto, que considera inconstitucional, para regular esse reajuste. Para ele, foi o “primeiro ato institucional” do governo da presidente Dilma Rousseff.

Itamar diz se sentir “triste” na sua volta ao Senado e critica a passividade da Casa. “Hoje o Senado está na mão de quatro, cinco, seis pessoas”, diz nesta entrevista ao Estado.

Na sessão do Senado que definiu o valor do salário mínimo, o senhor fez a contestação mais dura ao governo, acusando-o de violar a Constituição. Depois dessa sessão, como o senhor se sente na sua volta ao Senado?

Vou dizer com muita sinceridade. Com muita tristeza. Porque eu pertenci a um Senado [refere-se ao mandato iniciado em 1975, durante o regime militgar] e àquela época tínhamos 22 Estados. O MDB fez 16 senadores e o governo só 6. Mas havia, por incrível que pareça, mais respeito do que hoje.

Era um regime mais fechado, mas, em certos aspectos, tínhamos mais liberdade de ação. Nosso mandato podia ser cassado em dez segundos, mas a maioria (governista) respeitava mais a minoria (de oposição).

Por que isso acontecia?

A minoria tinha grandes senadores, como Franco Montoro, Orestes Quércia, Paulo Brossard, Roberto Saturnino, que davam à minoria uma base forte. A gente estava acostumado àquele ambiente difícil, mas mais aberto do que é hoje.

O Senado hoje é um grupo fechado. Eu diria, com todo o respeito àqueles que estão chegando comigo, que hoje o Senado está na mão de quatro, cinco, seis pessoas.

E há um comando muito forte do Executivo, principalmente sobre o Senado.

O senhor disse que a decisão do governo de usar um decreto na discussão do reajuste do salário mínimo era o “primeiro ato institucional” do governo Dilma…

Isso nos entristece. Porque mal se começa o período do governo da presidente Dilma, já se viola a Constituição.

É muito triste chegar ao Senado da República e constatar, e a opinião pública precisa saber disso, que estamos tutelados pelo Executivo.

O senhor se sentiu isolado na sessão do mínimo?

Eu acho que a única coisa que a oposição não poderá fazer é se calar. O mais sério não foi só a violência contra o regimento. Foi a modificação da Constituição. Isso preocupa.

Para o senhor, isso abre um precedente perigoso?

Muito perigoso. Hoje, foi sobre um decreto sobre o salário mínimo. Amanhã, quem sabe?

O senhor ocupou o plenário nesta quinta-feira para ler o célebre discurso do ex-deputado Ulysses Guimarães, feito durante a promulgação da Constituição de 1988. E afirmou que, se tivesse intimidade com a presidente Dilma, a aconselharia a lê-lo.

Eu não tenho liberdade com a presidente. Falei com ela três ou quatro vezes por telefone. Não tenho intimidade. Mas não só ela, nós todos deveríamos meditar sobre essas palavras de Ulysses Guimarães. Eu quando li o discurso fiquei muito comovido porque fez lembrar como foi aquela luta.

Mas essa também não é uma luta da presidente Dilma e do ex-presidente Lula, por exemplo?

Foi uma luta.

Não é mais?

Vamos aguardar. Por ora…

O início do governo não lhe agrada?

Achei ontem [quarta-feira, 23] muito preocupante. A gente não brinca quando se viola a Constituição. É um passo muito difícil. Violou-se ontem, imagine, por causa de um decreto de salário mínimo. Uma coisa simples demais para se violar a Constituição. E o que é mais grave: o Senado aceitou essa violação da Constituição.

30/01/2011

às 15:06 \ Política & Cia

Kassab, ex-joão-ninguém na política, está prestes a trair eleitores e aliados por pura ambição pessoal

Amigos, vocês vão me desculpar a insistência no assunto, mas não dá para se conformar com a cara de pau com que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, negocia sua quase certa passagem do DEM para o PMDB, e também – como demonstraram os cochichos e sorrisinhos com Lula e Dilma na recente homenagem prestada ao vice-presidente José Alencar –, de um partido de oposição para a chamada “base de sustentação” do governo.

Kassab, embora deputado federal bem votado, era um joão-ninguém no cenário político brasileiro até que, única e exclusivamente pela aliança que há 16 anos perdura em São Paulo entre o PSDB e o DEM, foi transformado em candidato a vice na chapa do então candidato tucano a prefeito José Serra, em 2004.

Serra precisou aplacar arestas internas no PSDB para emplacar Kassab, que tinha um pé no malufismo. No fim, derrotou folgadamente a prefeita petista Marta Suplicy, que tentava a reeleição, por 3,3 milhões de votos contra 2,7 milhões – 600 mil votos mais. E Kassab foi junto.

Quanto Serra renunciou à Prefeitura, em março de 2006, a fim de disputar e vencer as eleições para o governo do Estado, Kassab assumiu a prefeitura da maior cidade brasileira. Nas eleições de 2008, com total apoio do governador, acabou sendo eleito, uma vez mais contra a ex-prefeita Marta Suplicy, com vantagem ainda maior do que a obtida por Serra quatro anos antes – 3,8 milhões contra 2,4 milhões.

Nos 9 meses em que assumiu como vice, o prefeito teve forte apoio administrativo do governador tucano Geraldo Alckmin. Depois, durante o mandato que ele próprio adquiriu nas urnas, governou em parceria com Serra, cuja administração colaborou ou mesmo assumiu grandes obras no âmbito da Prefeitura, como a reforma das Marginais dos rios Tietê e Pinheiros. O vice-governador Alberto Goldman, que sucedeu Serra para que o governador concorresse à Presidência no ano passado, manteve o mesmo diapasão.

Agora, Kassab resolveu ir embora e deixar para trás seu partido, o DEM, e o aliado PSDB.

Por qual razão seria?

Foi atraído pela “ideologia” do PMDB?

O maciço apoio do DEM, do PSDB, do PPS, do PTB e de outros partidos aliados não permitem que ele faça uma boa gestão?

A transferência acarretará algum benefício para a população de São Paulo?

Nada disso.

Kassab planeja essa transferência imoral, traindo seus eleitores e seus aliados, por pura ambição política. Quer mandar no PMDB paulista, que é magro no plano federal mas abriga uma grande rede de prefeitos no interior. Quer ocupar o vácuo deixado pela morte do ex-governador Orestes Quércia. Está de olho em uma candidatura ao governo estadual em 2014, quando certamente tentará tomar o Palácio dos Bandeirantes da aliança PSDB-DEM, que sempre o sustentou.

Kassab não está, como disse certa vez grosseiramente Lula sobre o falecido governador Leonel Brizola, pisando no pescoço da mãe para satisfazer suas ambições. Mas quase. E única e exclusivamente por ambição pessoal.

O curioso, agora, será observar a trajetória que percorrerá o patrono de Kassab no PSDB, José Serra. Que se mantém mudo como uma estátua.

 

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