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Operação Condor

17/09/2013

às 18:20 \ Política & Cia

Ministra diz que exumar os restos mortais do ex-presidente João Goulart “também é exumar a ditadura”

João Vicente, filho de João Goulart, durante a reunião de hoje: para ele, a exumação é "passo importante", mas ainda faltam outras providências para esclarecer a morte do pai (Foto: Wilson Dias / Agência Brasil)

Da Agência Brasil

“Exumar João Goulart é também exumar a ditadura e saber as perversidades que ela fez”, disse hoje a ministra da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, Maria do Rosário, ao participar da abertura da primeira reunião técnica com a equipe de peritos responsável pelo procedimento.

Integram o grupo profissionais brasileiros, argentinos e uruguaios, além de um cubano, conforme pedido da família do ex-presidente.

A exumação faz parte de uma investigação para esclarecer se a morte de João Goulart, conhecido popularmente como Jango, foi em decorrência de ataque cardíaco, como divulgado à época pelas autoridades do regime militar. A família suspeita que ele tenha sido assassinado. [Jango morreu a 6 de dezembro de 1976.]

Os peritos internacionais e integrantes do Comitê Internacional da Cruz Vermelha auxiliarão nos trabalhos com experiência adquirida em processos semelhantes ocorridos em países vizinhos, como as exumações dos restos mortais do ex-presidente chileno Salvador Allende e do poeta Pablo Neruda.

“Pesquisa histórica” sobre a Operação Condor

No encontro de hoje, que ocorreu a porta fechadas [na sede da Polícia Federal, em Brasília], não foi definida a data em que será feita a exumação. A expectativa é que ocorra até o fim do ano.

No dia 16 de outubro haverá nova reunião, no mesmo local, para definir um protocolo único de ação dos peritos.

Durante a abertura do evento, Maria do Rosário destacou que a exumação integra processo de pesquisa histórica sobre a Operação Condor, montada pelas ditaduras do Brasil, Argentina e Uruguai para perseguir opositores.

Maria do Rosário enfatizou que João Goulart foi o único presidente brasileiro a morrer no exílio, tendo sido perseguido durante todo o período em que esteve fora do país pela ditadura militar.

Ela garantiu que, após serem periciados, na capital federal, os restos mortais retornarão ao município gaúcho de São Borja [onde seu corpo está sepultado].

“A ideia é que ele saia de São Borja, venha para Brasília para ser periciado neste prédio da Polícia Federal e depois volte a São Borja. As amostras serão analisadas, em primeiro lugar, com excelência técnica, pelo governo brasileiro, com os peritos da Argentina, do Uruguai e de Cuba, como a família sugeriu, com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha, que participa conosco, mas que depois essas amostras também estejam em laboratórios internacionais, mesmo procedimento utilizado com o poeta Pablo Neruda e com Salvador Allende, no Chile”, disse.

Honras de chefe de Estado?

Mesmo sem garantir que o corpo de João Goulart será recebido em Brasília com honras de chefe de Estado, a ministra disse que o governo trabalha com a “ideia e a responsabilidade de quem lida com um presidente da República que não recebeu as honras devidas no momento da sua morte”.

“Sem dúvida, estamos trabalhando com esse objetivo, mas existem procedimentos que estão sendo observados. São trabalhos paralelos que estão sendo feitos”, acrescentou.

De acordo com a Polícia Federal, o caixão deverá ser aberto em Brasília, onde serão feitos, no prédio da instituição, exames de DNA e toxicológicos. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

29/05/2013

às 14:00 \ Política & Cia

A comissão de frente da mentira: quem teme a verdade sobre a ditadura?

Texto de Luiz Cláudio Cunha publicado em Sul21

A COMISSÃO DE FRENTE DA MENTIRA: QUEM TEME A VERDADE SOBRE A DITADURA?

O ministro, o general, o comissário?

O Brasil descobriu nos últimos dias que a tropa de elite dos altos escalões da República que combate a verdade é mais forte e abusada do que se imaginava. Cerram fileiras ali, entre outros, o ministro da Defesa, comandantes do Exército e da Marinha e até mesmo um dos sete ilustres membros da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que deve ser a primeira trincheira de seu resgate perante o país.

As fantasias foram rasgadas, de vez, com a apresentação em Brasília, na terça-feira (21), do balanço do primeiro ano de atividades da CNV. Ali, com gráficos e documentos inquestionáveis, a historiadora Heloísa Starling, da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenadora da pesquisa da CNV, apresentou dados perturbadores sobre a repressão que marcou a ditadura de 1964-85. Entre eles, a grave acusação de que, em plena democracia, a Marinha mentiu para o Palácio do Planalto.

Em 1993, o presidente Itamar Franco pediu dados sobre desaparecidos. A Marinha informou que os presos citados tinham fugido ou estavam sumidos. Baseada no cruzamento de 12.072 páginas do CENIMAR, o serviço secreto da Marinha, a equipe de pesquisa da CNV apurou que 11 pessoas daquela lista estavam mortas até dezembro de 1972 — e a Marinha sabia disso. Um dos mortos, cujo nome a Marinha sonegou a Itamar Franco, era o ex-deputado Rubens Paiva, preso e desaparecido em janeiro de 1971.

“É o primeiro documento oficial que diz que Rubens Paiva está morto. A Marinha brasileira ocultou deliberadamente documentos já no período democrático”, declarou Starling. A Marinha reagiu no mesmo dia, burocraticamente, sem desmentir a acusação e sem rebater o que revelam seus arquivos secretos: “Não há qualquer outro registro nos arquivos desta Força, diferente daqueles encaminhamos ao Ministério da Justiça em 1993”, gaguejou a Marinha, em sua inconvincente nota oficial.

Dias antes, quem tropeçou foi o Exército. No sábado, 11 de maio, o tenente-coronel André Alves, comandante do 2º Regimento de Cavalaria Mecanizada de São Borja (600 km a oeste de Porto Alegre) informou ao prefeito Farelo Almeida que o Exército não atenderia seu pedido para fazer a segurança do túmulo do ex-presidente João Goulart (1919-1976), filho ilustre da cidade e enterrado há 36 anos no cemitério local, o Jardim da Paz. A pedido da família Goulart, a CNV aprovou a exumação dos restos de Jango para esclarecer, com a ajuda de peritos internacionais, a suspeita de que o ex-presidente foi envenenado, no exílio, no marco da Operação Condor, a conexão repressiva que unia as ditaduras do Cone Sul na década de 1970.

O oficial de São Borja disse ao prefeito que o pedido fora avaliado e negado por seu chefe imediato, o general Geraldo Antônio Miotto, comandante da 3ºª Divisão de Exército, baseada em Santa Maria.

O general Miotto e o jazigo de Jango: "sem jurisdição"

O general Miotto e o jazigo de Jango: "sem jurisdição"

A alegação do general para a recusa soou sobrenatural: “A área não é jurisdição das Forças Armadas”. Estranho seria se fosse. Exércitos não existem para patrulhar cemitérios, embora a História mostre que eles costumem povoá-los com os mortos de guerras ou de golpes de Estado que eles patrocinam. O general definiu que a missão de vigilância cabia à Brigada Militar (a força pública estadual) ou à Guarda Municipal, esquecido que a questão central aqui não é a ‘área’, mas a missão que lhe incumbe neste caso dos restos mortais de Jango.

Não compete a qualquer general definir que a guarda do cemitério, neste tema específico, seja encargo do Estado ou do Município. A decisão de exumar o ex-presidente derrubado em 1964 pelo Exército a que o general Miotto hoje serve não é preciosismo de lideranças municipais ou de comandantes estaduais. É uma decisão política do mais alto nível, adotada pela CNV em Brasília, articulada com a família Goulart e especialistas forenses de outros países, e que a ninguém mais cabe discutir. Ao Exército, como sempre, resta cumprir ordens.

Ninguém é ingênuo para imaginar que a recusa institucional do Exército de dar segurança a esta missão federal seja mero rompante de um tenente-coronel de São Borja ou de um general de Santa Maria. Pelas implicações políticas envolvidas, parece óbvio que a recusa tenha sido acertada dentro da escala de comando. Pela cadeia hierárquica, progressivamente, o general Carlos Bolívar Goellner (comandante Militar do Sul), o general Enzo Martins Peri (comandante do Exército em Brasília) e o chefe de ambos, o embaixador Celso Amorim (ministro da Defesa).

Todas estas estrelas fulgurantes não perceberam o dano político provocado pelo ‘não’ burocrático da guarnição militar do sul. Seria tão mais simples atender ao pedido elementar do prefeito, sem apelar para as tecnicalidades e pretextos jurídicos que só escancaram uma situação melancolicamente clara: o Exército não é parceiro da CNV e da sociedade brasileira na luta para descobrir a verdade.

No caso emblemático de Jango, que marca a longa intervenção militar de duas décadas na vida do país, o Exército perdeu a grande chance (mais uma) de demonstrar ao país que é uma instituição nacional sem qualquer amarra a um passado de violência institucional, de subversão constitucional e de truculência repressiva que enodoam sua farda e sua história. O Exército da atualidade, como instituição da lei e da ordem constitucional, tem todos os motivos do mundo para atender sem constrangimentos à sua missão histórica e assumir os encargos que o Estado Democrático de Direito lhe impõe.

Uma tropa do Exército zelando pela integridade de um cemitério sob investigação federal de relevante interesse histórico seria uma demonstração cabal, firme, eloquente, de que este Exército tem apenas o compromisso com o futuro, não com o passado que muitos tentam negar ou escamotear. Esta boba recusa de São Borja escancara um incompreensível alinhamento do Exército do governo Dilma Rousseff, quatro décadas depois, com a postura ofensiva e indefensável do Exército do Governo Ernesto Geisel.

Um serviu à ditadura de ontem que tremeu ao simples regresso do presidente, morto, à sua terra natal. O outro serve à democracia de hoje que ampara a plena investigação sobre a morte suspeita de um presidente respeitado pelo povo que o elegeu e temido pelo regime que o derrubou. A diferença ostensiva entre estas duas eras militares está decalcada na ficha impecável dos atuais comandantes militares do Brasil. Eles, como as tropas que hoje comandam, nada têm a ver com as truculências cometidas no regime derrocado pela democracia. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

19/02/2013

às 16:00 \ Política & Cia, Vasto Mundo

José Mujica, o presidente ex-guerrilheiro do Uruguai, esmaga juíza que enfrenta torturadores da ditadura

Mariana Mota, a juíza, e o presidente do Uruguai, José Mujica

Mariana Mota, a juíza, e o presidente do Uruguai, José Mujica

Reportagem de Luiz Cláudio Cunha, publicado no site Sul21

Feche os olhos e imagine a seguinte tragédia em três atos:

Ato 1. A presidente Dilma Rousseff, ex-guerrilheira e presa política, é pressionada por oficiais ligados à linha dura do regime militar, irritados com o juiz de São Paulo que reconheceu a morte sob torturas do jornalista Vladimir Herzog nos porões do DOI-CODI do II Exército, durante a ditadura.

Ato 2. A presidente Dilma Rousseff cede à pressão dos quartéis, procura uma revista semanal e cobra publicamente uma reação do Supremo Tribunal Federal contra o magistrado incômodo.

Ato 3. Submisso, o STF acata a queixa do Palácio do Planalto e pune o juiz, que acaba inesperadamente removido para um inofensivo tribunal de causas menores, sem envolvimento com direitos humanos, reforçando a blindagem dos torturadores e assegurando a impunidade aos crimes de lesa-humanidade.

Agora, abra os olhos porque esse drama, é claro, não aconteceu no Brasil.

Mas acaba de assombrar o Uruguai, que chega ao fundo do poço de uma guerra aparentemente perdida na área crucial dos direitos humanos, graças a um personagem até então insuspeito: o ex-líder da guerrilha Tupamaro, o ex-preso político e atual presidente da República, José “Pepe” Mujica.

Na preguiçosa Quarta-Feira de Cinzas (13), os cinco ministros da Suprema Corte de Justiça (SCJ) do Uruguai aproveitaram a ressaca de um país relaxado pelo Carnaval para aplicar o mais duro golpe na luta contra a impunidade e a tortura no Uruguai, que padeceu por 12 anos (1973-1985) sob uma feroz ditadura militar.

Reagindo ao dedo rígido e à língua venenosa de Mujica, os juízes supremos em Montevidéu removeram a juíza Mariana Mota, de repente, do Juizado Penal de 7º Turno, que nos últimos quatro anos sob sua valente direção transformou-se no tribunal mais importante do país na área dos direitos humanos.

A magistrada mais conhecida e temida do Uruguai foi transferida para um inócuo juizado civil, onde não poderá mais alcançar os repressores que estremeciam diante dessa mulher esguia, de cabelos castanhos curtos, pele clara e ar tímido, que prefere roupas despojadas e esportivas à vestimenta formal e descolorida das juízas mais conservadoras.

Os óculos de leitura de aros finos não escondem o olhar doce, mas firme, dessa uruguaia de fala mansa, casada, com três filhos (entre 13 e 15 anos) que aparenta ser bem mais jovem do que os 40 e poucos anos que tem.

O riso dos dinossauros

Apesar da discrição, que explica sua aversão a fotos, Mariana Mota tornou-se a cara mais visível e valente da Justiça uruguaia, o que justifica a comoção pública provocada por sua inesperada remoção da linha de frente do Judiciário.

Na sexta-feira, quando ela se apresentou na sede da Suprema Corte, no centro de Montevidéu, para conhecer seu novo destino burocrático, o prédio apertado foi invadido por 300 manifestantes que protestavam pela decisão arbitrária.

Eram estudantes, avós, mães e filhos de torturados e desaparecidos políticos e organizações de direitos humanos, inconformados com a destituição de Mota.

“Suprema Corte de Injusticia”, bradavam os manifestantes, entre eles o músico Daniel Viglietti (versão local de Chico Buarque dos tempos de protesto) e o escritor Eduardo Galeano. A polícia foi chamada para evacuar o prédio e permitir o ato de posse de Mota em seu novo juizado civil.

Luís Almagro, o chanceler, e Huidobro (centro), o ministro da Defesa: contente

Luís Almagro, o chanceler, e Huidobro (centro), o ministro da Defesa

Pairava no ar um pesado sentimento de orfandade diante das violências ainda mal apuradas do Estado, até agora sob a mira certeira da juíza destituída. O constrangimento generalizado pela violência cometida pelos senhores da Suprema Corte ficou evidente até no Ministério do ladino presidente Mujica.

O seu chanceler, Luís Almagro, não se valeu de mesuras diplomáticas para definir de pronto: “Mariana Mota é uma juíza extraordinária, que está próxima do ideal que se pretende do direito e da justiça”. Naturalmente preocupado com a repercussão no mundo que Mujica desprezou, o ministro de Relações Exteriores reconheceu: “O Uruguai perde posicionamento internacional com a remoção. Mota é o membro do Poder Judiciário que mais cabalmente entendeu a dimensão do tema dos direitos humanos e da vigência das convenções internacionais”. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

27/09/2012

às 17:00 \ Política & Cia

COMISSÃO DA VERDADE: Brasil entrou de cabeça na Operação Condor de repressão ilegal a oposicionistas durante a ditadura, diz jornalista. O país “tem que apurar essa coisa vergonhosa”, acrescenta

Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo J.B. Scalco, na época da reportagem que revelou ações da Operação Condor (Foto Ricardo Chaves)

Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo J.B. Scalco, na época da reportagem que revelou ações da Operação Condor (Foto Ricardo Chaves)

Do blog de Roldão Arruda, no Estadão.

Brasil entrou de cabeça na Operação Condor, diz jornalista

Com João Domingos/BRASÍLIA

O repórter João Domingos, da sucursal do Estado em Brasília, conversou com o jornalista Luiz Cláudio Cunha sobre suas novas atividades na Comissão Nacional da Verdade. Ele vai participar de um grupo voltado exclusivamente para a investigação das ações do Brasil na Operação Condor – uma espécie de consórcio formado entre os governos militares do Cone Sul para perseguir opositores políticos.

Cunha é o autor da reportagem publicada em novembro de 1978 pela revista VEJA que revelou o sequestro dos uruguaios Universindo Diaz e Lilian Celiberti, numa ação conjunta de policiais do Brasil e do Uruguai.

Com a reportagem, Cunha venceu os prêmios Esso, Vladimir Herzog, Abril e Embratel e acabou com o segredo das ações conjuntas dos governos militares de seis países do Cone Sul no Brasil.

Por causa da reportagem, as vidas de Diaz e de Lilian foram poupadas. São os dois únicos casos conhecidos de pessoas sequestradas na Operação Condor que ficaram vivas. Diaz morreu no início deste mês de câncer.

Em 2008, quando o sequestro completou 30 anos, Luiz Cláudio Cunha lançou pela Editora L&PM o livro Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios. Segundo suas informações, o governo militar brasileiro foi um dos organizadores da Operação Condor e participou ativamente de suas operações, embora tenha negado sempre. “O Brasil sempre foi cínico quando se tratou dessa questão”, diz ele.

A seguir, os principais trechos da conversa, que já teve trechos publicados na edição impressa do Estado.

Como será sua atuação na Comissão da Verdade?

Fui convidado para ser consultor sobre as questões que envolvem a Operação Condor. Serei apenas uma peça a mais, uma espécie de porta de entrada para a comissão, pelo conhecimento que tenho, pelas pessoas que conheço. Posso agregar informações e trazer para a comissão, que tem um poder de fogo muito forte.

Qual é o poder de fogo da comissão?

Ela tem poderes legais de abrir todos os arquivos, sejam públicos ou secretos. Ninguém pode negar a ela nenhuma informação. Se algo é secreto, pode ser secreto para outros, não para a Comissão da Verdade.

Como será o exame desses arquivos?

Nós vamos fazer um roteiro de trabalho, ver as conexões do Brasil com os países do Cone Sul no caso da Operação Condor, verificar documentos do Arquivo Nacional, do Centro de Informações do Exército (CIE), do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI), pedir informações a embaixadas. O fundamental é achar um foco.

Como foi a participação do Brasil na Operação Condor?

O Brasil sempre foi cínico quando se tratou dessa questão. Sempre procurou dizer que era um problema dos vizinhos Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai. Pelo que já se sabe, o Brasil entrou de cabeça na Operação Condor. Essa operação foi uma conexão transnacional, da qual o Brasil foi sócio fundador e militante. O Brasil tem que apurar essa coisa vergonhosa, relatar os nomes dos envolvidos.

Além do caso dos uruguaios Universindo Dias e Lilian Celiberti, que o senhor desvendou numa reportagem da revista VEJA, conhece mais algum caso?

Tem outro que deixa tudo muito claro. É o Caso Campiglia/Galeão. No dia 12 de março de 1980, os argentinos Horácio Campiglia e Mônica de Binstock foram presos ilegalmente no Aeroporto do Galeão. Eles eram militantes do grupo esquerdista Motoneros. O governo argentino mandou um Hércules C-130 pegá-los.

Imagine se um avião desse porte desceria na Base Aérea do Galeão sem que as autoridades soubessem. Os dois foram levados para a Argentina, torturados e até hoje estão desaparecidos, conforme constatado por documentos da Embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires, revelados durante o governo de Bill Clinton.

24/09/2012

às 14:00 \ Política & Cia

Universindo, mi hermano

Universindo Diaz, sobrevivente, historiador e ativista político (Foto: Arquivo Pessoal)

Universindo Diaz, sobrevivente, historiador e ativista político (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Artigo de Luiz Cláudio Cunha, publicado em 20 de setembro de 2012, no Observatório da Imprensa

OPERAÇÃO CONDOR

 

UNIVERSINDO, MI HERMANO

[Texto introdutório de Luiz Egypto, editor do Observatório da Imprensa]

Um comando do Exército uruguaio, com a conivência do regime militar brasileiro, saiu de Montevidéu, atravessou clandestinamente a fronteira em novembro de 1978 e desembarcou em Porto Alegre, onde sequestrou um casal de militantes da oposição uruguaia – Universindo Díaz e Lilian Celiberti – e seus dois filhos menores.

A operação ilegal foi descoberta por dois jornalistas brasileiros – o repórter Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo João Baptista Scalco, da sucursal da revista VEJA no Rio Grande do Sul. Alertados por um telefonema anônimo, dirigiram-se ao apartamento onde o casal morava, na capital gaúcha, e foram recebidos por homens armados.

A inesperada aparição dos jornalistas quebrou o sigilo da operação e evitou que os sequestrados fossem mortos. A denúncia do sequestro, que ganhou as manchetes da imprensa brasileira, transformou-se num escândalo internacional, que constrangeu os regimes militares do Brasil e do Uruguai.

O trabalho de investigação de VEJA e dos repórteres Cunha e Scalco foi distinguido, em 1979, com o troféu principal do Prêmio Esso, além de conquistar os prêmios Vladimir Herzog, Telesp e Abril (hors concurs).

Em 2008, trinta anos após o sequestro, Cunha escreveu o livro Operação Condor: o sequestro dos uruguaios. Uma reportagem dos tempos da ditadura, publicado pela L&PM Editores e premiado com o Jabuti, o Vladimir Herzog e o Casa de Las Americas (Cuba), na categoria de Livro Reportagem.

Na segunda-feira (17/9), a Comissão Nacional da Verdade aprovou a criação de um grupo de trabalho voltado para a Operação Condor, o qual contará com a colaboração do jornalista Luiz Cláudio Cunha.

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O táxi parou à beira da grande avenida, em Montevidéu, e descemos do carro. Trocamos um beijo na face, na velha tradição uruguaia, e nos despedimos com um abraço apertado, acolchoado pelos casacos pesados que nos protegiam do frio de zero grau no final da manhã azulada, sob o sol tíbio do inverno no Uruguai.

Voltei ao táxi, que me levava ao aeroporto de Carrasco e ao voo de volta ao Brasil, e dei uma última olhada pelo vidro traseiro. Vi o homem encasacado, com o seu típico boné de lã, se afastando aos poucos, no seu passo lento e manco, engolido pela multidão.

Foi a última imagem que guardei em vida de Universindo Rodríguez Díaz, naquela terça-feira, 17 de julho de 2012. Passados 47 dias, Universindo morreu aos 60 anos, num domingo ainda frio, 2 de setembro.

O homem que sobreviveu às torturas e violências das ditaduras no Brasil e no Uruguai, entre 1978 e 1983, não resistiu ao passo acelerado, imparável, de um mieloma múltiplo, um câncer agressivo e letal que se desenvolve na medula, gerando um crescimento desordenado dos glóbulos brancos, derrubando o sistema imunológico, comprometendo gravemente os rins e submetendo o paciente a dores fortes nos ossos.

Três décadas antes, Universindo padeceu na carne e na alma os efeitos de um suplício igualmente traiçoeiro, oculto, que se disseminava como metástase pelas veias abertas do Cone Sul: o terror de Estado, que atravessava fronteiras legais e geográficas e ultrapassava os limites do sofrimento humano graças ao foco maligno da Operação Condor, a multinacional da repressão que contaminou as Forças Armadas da região com o germe dos bandoleiros sem uniformes convertidos ao sequestro, tortura, assassinato e desaparecimento de quem se opunha ao arbítrio.

 

O DOI-CODI uruguaio

Universindo sobreviveu ao horror, a partir de novembro de 1978, quando foi sequestrado em Porto Alegre, numa blitz da Condor uruguaia, junto com Lílian Celiberti e seus dois filhos, Camilo (8 anos) e Francesca (3).

Lilian Celiberti e Universindo Diaz

Lilian Celiberti e Universindo Diaz tal qual eram nos anos 70

O casal desarmado, integrante do Partido por la Victoria del Pueblo (PVP), uma sigla de esquerda clandestina (como todas as outras) que se opunha à ditadura no Uruguai, operava no sul do Brasil com um objetivo que fazia tremer os generais de Montevidéu: recolher informações em primeira mão de refugiados sobre as torturas praticadas nos 28 quarteis do território uruguaio e denunciá-las no exterior, por intermédio da imprensa e de entidades de direitos humanos na Europa. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

24/07/2012

às 16:00 \ Política & Cia

As garras do Brasil na nefanda “Operação Condor” — aliança clandestina entre órgãos de repressão das hoje extintas ditaduras militares do Cone Sul

 

Generais da ditadura argentina:

Generais da ditadura argentina: Operação Condor -- colaboração entre órgãos de repressão das falecidas ditaduras do Cone Sul -- foi tema de Seminário na Câmara dos Deputados

(Palestra do jornalista Luiz Cláudio Cunha no Seminário Internacional sobre a Operação Condor, ocorrido na  Câmara dos Deputados, em Brasília, no dia 5 de julho de 2012)

 

As garras do Brasil na Condor

A mais longa ditadura da maior nação do continente não poderia ficar de fora do clube mais sinistro dos regimes militares da América do Sul. O Brasil dos generais do regime de 1964 estava lá, de corpo e alma, na reunião secreta em Santiago do Chile, em novembro de 1975, que criou a Operação Condor.

Nascia a mais articulada e mais ampla manifestação de terrorismo de Estado na história mundial. Nunca houve uma coordenação tão extensa entre tantos países para um combate tão impiedoso e sangrento a grupos de dissensão política ou de luta armada, confrontados à margem das leis por técnicas consagradas no submundo do crime.

Tempos depois, em 1991, as democracias renascidas da região construíram um difícil pacto de integração política e econômica batizado de Mercosul. Dezesseis anos antes, contudo, os generais das seis ditaduras do Cone Sul — Chile, Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e Bolívia — tinham conseguido realizar, a ferro e fogo, uma proeza ainda mais improvável: um secreto entendimento pela desintegração física, política e psicológica de milhares de pessoas.

A Operação Condor trouxe para dentro do Estado ilegítimo das ditaduras as práticas ilegais da violência de bandos paramilitares, transformando agentes da lei em executores ou cúmplices encapuzados de uma dissimulada política oficial de extermínio.

O BRASIL NO CONDOR Tio Caco e Dr. Sabino, os dois militares do Centro de Informações do Exército (CIE), veteranos da  guerrilha do Araguaia, que representaram o  Brasil no Chile em novembro de 1975  na  fundação da Operação Condor: Ten-cel de Cavalaria Flávio de Marco (Tio Caco), e Major de Infantaria Thaumaturgo Sotero Vaz (Dr. Sabino)

O BRASIL NO CONDOR -- Tio Caco e Dr. Sabino, os dois militares do Centro de Informações do Exército (CIE), veteranos da guerrilha do Araguaia, que representaram o Brasil no Chile em novembro de 1975, na fundação da Operação Condor: tenente-coronel de Cavalaria Flávio de Marco (Tio Caco), e major de Infantaria Thaumaturgo Sotero Vaz (Dr. Sabino)

O envolvimento de efetivos regulares da segurança com as práticas bandoleiras de grupos assassinos explica, de alguma forma, a leniência e depois a conivência com o crime por parte de corporações historicamente fundadas na lei e na ordem.

O Esquadrão da Morte, em países como Brasil, Argentina e Uruguai, contaminou o Exército. O Exército perdeu os limites com a obsessão da guerra antisubversiva. A luta contra a guerrilha transbordou as fronteiras da lei e exacerbou a violência. A virulência clandestina e sem controle do esquadrão empolgou o Exército. O Exército apodreceu com o Esquadrão da Morte. O esquadrão confundiu-se com o Exército, o Exército virou naqueles tempos um esquadrão. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

20/06/2012

às 17:00 \ Política & Cia

Luiz Cláudio Cunha: Amaral de Souza, recém-falecido, foi o mais medíocre governador da história do Rio Grande do Sul — e fiel seguidor da ditadura militar

(Texto publicado em Sul21, em 19 de junho de 2012, por Luiz Cláudio Cunha)

AMARAL DE SOUZA (1929-2012): AS VERRUGAS DA MAL CONTADA HISTÓRIA DA DITADURA

 

Pinte-me como eu sou, com verrugas e tudo.

(Oliver Cromwell, 1599-1658, Lorde Protetor do

Reino Unido, ao pintor oficial da corte, Peter Lely)

 

Amaral de Souza: retocado... e Lorde Cromwell: com verrugas e tudo

Amaral de Souza: retocado... e Lorde Cromwell: com verrugas e tudo

Um jovem mal informado ou desatento imaginaria que o Rio Grande do Sul perdeu um gigante, na quarta-feira 13, quando morreu o ex-governador [biônico] gaúcho José Augusto Amaral de Souza, dois meses antes de completar 83 anos, vítima de complicações de um AVC que desde 2006 o confinava a uma cadeira de rodas.

Ele ganhou honras de Estado, luto oficial de três dias e os discursos e elogios de praxe da generosa tradição brasileira, que cobre qualquer morto com a pátina da complacência e repinta biografias sem as cicatrizes, espinhas e rugas conferidas pela vida política.

“Um líder importante do Rio Grande”, definiu, com exagero, o governador Tarso Genro. Foi desenhado com linhas ainda mais indulgentes pelos sete políticos de partidos e tendências diversas que o sucederam no Palácio Piratini, a partir de 1982, [esses] por decisão exclusiva do voto popular: Jair Soares (PP), Pedro Simon (PMDB), Alceu Collares (PDT), Antônio Britto (PMDB), Olívio Dutra (PT), Germano Rigotto (PMDB) e Yeda Crusius (PSDB).

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Honras de estado

No limite da fidalguia, uns e outros louvaram Amaral pelos adjetivos piedosos que ocultam a rugosidade natural do último governador indicado pela ditadura dos generais de 1964: “conciliador, absoluto respeito pelos adversários, afável, vida pública sem máculas, atuação importante na política, administrador sério, importância fundamental na transição para a democracia, um amigo, grande companheiro”, e coisas do gênero.

Os sete sucessores de Amaral de Souza que alcançaram pelo voto popular o palácio que Amaral ocupou sem nenhum voto do eleitor gaúcho não cometeriam a deselegância de admitir publicamente o que muitos deles reconhecem mas ninguém diz: Amaral de Souza conseguiu ser a figura mais medíocre da safra dos quatro apagados governadores biônicos, escolhidos pelos quartéis, no período sem povo e sem liberdade que marcou o Piratini e o Rio Grande do Sul entre 1966 (dois anos após o golpe) e 1983 (dois anos antes da queda da ditadura). » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

07/03/2012

às 16:47 \ Vasto Mundo

Luiz Cláudio Cunha: Uruguai reabre na Justiça caso do sequestro de Lilian e Universindo

Oswaldo Pires e Manoel Bezerra, advogados, com Pedro Seelig, Jo„o Augusto Rosa e Orandir Lucas, policiais de participaram do sequestro dos exilados uruguaios Lilian Celiberti e Universindo Dias

Amigos, compartilho com vocês matéria do excelente jornalista e querido amigo Luiz Cláudio Cunha, publicada no site Sul 21.

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Uruguai reabre na Justiça caso do sequestro de Lilian e Universindo

 

Testemunha brasileira vai depor em Montevidéu

 

No crepúsculo de fevereiro, alvorecer de 2012, a Justiça uruguaia aceitou enfim reabrir o caso dos uruguaios Universindo Rodríguez Díaz e Lílian Celiberti, sequestrados em novembro de 1978 em Porto Alegre, numa ação combinada de policiais do DOPS gaúcho e militares do Exército de Montevidéu. Agiam clandestinamente em território brasileiro no âmbito da ‘Operação Condor’, que caçava opositores das ditaduras do Cone Sul nos turbulentos anos 70 do século passado.

Universindo e Lilian, detida com seus dois filhos – Camilo (8 anos) e Francesca (3) -, foram torturados na sede do DOPS em Porto Alegre e nos quartéis de Montevidéu. Ficaram cinco anos presos, sob a falsa acusação de “invadir o país com armas e material subversivo”. Libertados em 1983, dois anos antes da queda da ditadura uruguaia, foram os primeiros presos políticos a denunciar na Justiça o regime de força, já em 1984, quando os militares ainda mantinham o poder.

Nenhum dos militares citados compareceu na época ao tribunal do Juzgado Penal de 7º Turno.

O chefe do comando uruguaio em solo gaúcho, capitão Eduardo Ferro, teve a sua intimação judicial jogada no fundo do cofre do então comandante do Exército da ditadura, general Hugo Medina. E o caso morreu ali.

Até que, em julho passado, o presidente José Mujica, um ex-guerrilheiro Tupamaro preso e torturado pelo regime militar à época, mandou um decreto à Suprema Corte revogando todos os atos administrativos que impediam o julgamento de violações aos direitos humanos pela caduca ‘Ley de Caducidad’, que os militares se concederam como garantia de impunidade. Mais de 80 casos de lesa-humanidade foram então ressuscitados, entre eles o dos sequestrados em Porto Alegre.

Durante meses, realizou-se uma garimpagem nos arquivos da Justiça para resgatar o processo ‘desaparecido’ pelo regime militar.

Reencontrado, enfim, Lilian Celiberti compareceu na terça-feira, 28 de fevereiro, ao Juizado da calle Misiones, na Ciudad Vieja de Montevidéu, onde se concentram os casos contra a ditadura, e formalizou a denúncia, aceita pela juíza Mariana Motta.

Foi ela a dura magistrada que, em fevereiro de 2011, condenou o ex-presidente Juan María Bordaberry a 30 anos de prisão por liderar o golpe de Estado de 1973 que dissolveu o Parlamento e a centenária democracia do país, também responsabilizado diretamente por 14 assassinatos e desaparecimentos forçados durante a ditadura. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

25/05/2011

às 20:02 \ Política & Cia

Justiça gaúcha dá ganho de causa a jornalista em processo que lhe movia ex-policial sequestrador

Documentos do inspetor Jo„o Augusto da Rosa: ação contra o jornalista Luiz Cláudio Cunha foi julgada improcedente

O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul confirmou hoje, por unanimidade, a decisão da juíza Cláudia Maria Hardt que, no dia 6 de julho do ano passado, julgou improcedente a ação do inspetor aposentado do DOPS gaúcho João Augusto da Rosa, de codinome “Irno”, contra o jornalista Luiz Cláudio Cunha, autor do livro Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios (L&PM Editores 2008). Na obra, Cunha, como testemunha involuntária do caso, conta o episódio do sequestro clandestino e ilegal de um casal de militantes de esquerda uruguaios por policiais brasileiros, que os entregaram a militares do país vizinho.

Ele cobriu o caso para VEJA, de cuja sucursal em Porto Alegre era chefe. Foram, ao longo de ano e meio, 86 reportagens sobre o sequestro e suas implicações, o que valeu o Prêmio Esso de Jornalismo para a revista e o repórter.

O crime fez parte da tristemente famosa “Operação Condor”, que uniu clandestinamente as forças de repressão das ditaduras então em vigor no Cone Sul – Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Uruguai e Paraguai.

O sequestrador pedia na Justiça indenização por supostos “danos morais” devido à menção – obrigatória por ser verdade – de sua participação no sequestro de Lilian Celiberti, os dois filhos menores dela e de Universindo Diaz. “Irno” não somente participou do crime, pelo qual recebeu condenação da qual se livraria em recurso. Foi ele quem apontou uma pistola para a cabeça do jornalista, que chegou ao apartamento no qual residiam os dois uruguaios após ser alertado por um telefonema anônimo.

Os três desembargadores encarrregados do processo na 9ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça gaúcho não apenas decidiram em favor do jornalista, como também deram um voto de louvor à sentença de primeira instância da juíza Cláudia Maria Hardt, da 18ª Vara Cível de Porto Alegre.

Diante do resultado do julgamento, disse o jornalista:

– Tenho certeza que o acórdão, que deve ser publicado em dois ou três dias, será uma peça importante para demarcar o espaço da liberdade de expressão e a nossa conduta como jornalistas diante do aparato da repressão e os abusos aos direitos humanos.

24/05/2011

às 20:31 \ Política & Cia

Ex-policial que seqüestrou durante a ditadura agora processa jornalista que viu tudo e contou — em VEJA e em livro

Cunha: o seqüestrador que deveria estar na cadeia tenta condenar, na Justiça, o jornalista que testemunhou seu crime e o relatou em VEJA

Amigos, no país da impunidade mais vergonhosa que é o Brasil, não faltava mais nada: um seqüestrador que deveria estar na cadeia tenta condenar na Justiça o jornalista que presenciou e denunciou seu crime.

A história tem mais de 30 anos – é de novembro de 1978 – mas, pelo visto, ainda não terminou.

O inspetor aposentado do DOPS gaúcho João Augusto da Rosa, vulgo ‘Irno’, um dos autores do seqüestro ilegal e clandestino ocorrido em Porto Alegre dos refugiados uruguaios Universindo Díaz e Lílian Celiberti, mais os dois filhos menores dela, tenta hoje nesta quarta, 25, um recurso na Justiça gaúcha para condenar o jornalista Luiz Cláudio Cunha.

Na ocasião, Luiz Cláudio era chefe da sucursal de VEJA em Porto Alegre e, depois de receber um telefonema anônimo, acabou sendo testemunha involuntária do sequestro, uma ação coordenada de militares da então ditadura que sufocava o Uruguai e de policiais da polícia política do Rio Grande do Sul no âmbito da nefanda “Operação Condor”, organização clandestina que, na década de 70, coordenou ações de repressão a opositores do regime nas seis ditaduras do Cone Sul – Argentina, Brasil, Chile, Bolívia, Uruguai e Paraguai.

A desembargadora Marilena Bonzanini, do Tribunal de Justiça gaúcho, relatora do processo, julgará o recurso de Irno, de que participarão também os desembargadores Íris Helena Medeiros Nogueira e Leonel Pires Ohlweiler, da 9ª Câmara Cível do TJ.

Para o seqüestrador, revelar a verdade é “injúria”

O seqüestrador insiste na ação que instaurou, em 2009, contra o jornalista e a Editora L&PM que, em 2008, publicaram o livro Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios — uma reportagem dos tempos da ditadura (livro extraordinário, que já indiquei aos amigos do blog). Quer ser indenizado em dinheiro.

“Irno” considera que o jornalista cometeu injúria contra si ao narrar a história, apoiado não apenas no que ele e o falecido fotógrafo J. B. Scalco presenciaram, mas num maciço conjunto de provas divulgadas em reportagens de VEJA durante mais de um ano e que valeram aos jornalistas a à revista, entre outros, o Prêmio Esso de 1979.

(O policial aposentado, por alguma razão, não está processando VEJA pela extensa cobertura de 86 semanas que proporcionou a seus leitores, entre novembro de 1978 e junho de 1980, com os detalhes escabrosos do sequestro praticado há 33 anos.)

Foi ele quem apontou uma pistola para o rosto do jornalista

“Irno” foi o homem desconhecido que apontou uma pistola para o rosto de Luiz Cláudio num apartamento situado na rua Botafogo, no bairro Menino Deus, na tarde de 17 de novembro de 1978. A ação foi presenciada pelo fotógrafo de Placar J. B. Scalco, já falecido, que acompanhara Luiz Cláudio até o apartamento onde o seqüestro estava ocorrendo. Os uruguaios também foram testemunhas.

Depois de um exaustivo trabalho de investigação, ele acabou sendo foi reconhecido pelo jornalista e pelo fotógrafo J.B Scalco como um dos sequestradores dos uruguaios.

O reconhecimento aconteceu na CPI instaurada pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul sobre o caso e também na Justiça Federal, que condenou Irno em primeira instância a pena de 6 meses de prisão por “abuso de poder” e suspensão de suas atividades de policial em Porto Alegre por dois anos.

Oswaldo Pires e Manoel Bezerra, advogados, com Pedro Seelig, João Augusto Rosa e Orandir Lucas, policiais de participaram do sequestro dos exilados uruguaios

Ganhou recurso “por insuficiência de provas”. As principais estavam presas no Uruguai

Ele recorreu e ganhou o recurso no Tribunal de Alçada do Rio Grande do Sul por “insuficiência de provas” – as principais provas, os dois militantes de esquerda uruguaios, estavam encerrados nas masmorras da ditadura do país vizinho.

“Irno” integrava a equipe do notório delegado Pedro Seelig, diretor do DOPS gaúcho e a peça mais importante do aparato repressivo da ditadura no sul do do país. Seelig — tal como se deu com “Irno” e o ex-jogador de futebol do Internacional de Porto Alegre e então escrivão Orandir Potassi Lucas, o “Didi Pedalada”, outro seqüestrador identificado pelos jornalistas – foi mais tarde reconhecido pelos uruguaios como o chefe das sessões de tortura em Lílian e em Universindo na antiga sede do DOPS, na avenida Ipiranga, na capital gaúcha, das quais participava o major do Exército uruguaio Glauco Yanonne.

Camilo e Francesca Cesariego, filhos de Lilian Celiberti e Universindo Diaz, com seus avós

Juíza nega em primeira instância e fala em “triste episódio”

A primeira tentativa de “Irno” de inverter de ver punido quem denunciou o crime que ele cometeu esbarrou na firme decisão contrária em primeira instância. No dia 6 de julho passado, a juíza Cláudia Maria Hardt, da 18ª Vara Cível do Foro de Porto Alegre, julgou improcedente a ação do seqüestrador do DOPS, que ela define como “triste episódio contado no livro… relato pertencente a um tempo ‘página infeliz da nossa história’, nas palavras do próprio Chico Buarque”.

Diferentemente do que ocorrera em 1983, Lílian Celiberti pôde ser testemunha em juízo, em favor de Luiz Cláudio, e teve a chance — face a face, pela primeira vez após o sequestro —, de apontar João Augusto da Rosa (o “Irno”) como um dos seus seqüestradores. Confirmou tudo o que o jornalista disse e escreveu em VEJA e no livro.

A juíza Hardt acentua, em sua sentença final: “Não há que se olvidar os abusos cometidos pelas autoridades instituídas durante o período do regime militar brasileiro. São inúmeras as compilações históricas e os relatos dos que vivenciaram a etapa em que o país esteve distanciado da democracia. Inegáveis as arbitrariedades, os excessos e as violências infligidas a muitas pessoas. Também não se pode desconsiderar as restrições impostas à imprensa naqueles momentos em que muitos dos direitos irmanados com a dignidade humana e a liberdade foram deixados de lado”.

 

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