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ONU

15/10/2013

às 14:00 \ Tema Livre

Com a virtual censura a biografias não autorizadas, estamos dando “bai-bai brazil” à palavra e à imagem, num país abandonado pelos políticos e, agora, surpreendentemente, também pelos próprios intelectuais

Foto de Manuel Bandeira, Mário de Andrade e outros 14 escritores na Semana de Arte Moderna de 1922. O articulista não obteve a tempo as 16 autorizações dos herdeiros para publicá-la.

Foto de Manuel Bandeira, Mário de Andrade e outros 14 escritores na Semana de Arte Moderna de 1922. O articulista não obteve a tempo as 16 autorizações dos herdeiros para publicá-la.

Artigo de Leonel Kaz, publicado em seu blog no site de VEJA

PALAVRAS E IMAGENS, BAI BAI BRAZIL!

Leonel Kaz1. Armou-se um vendaval, uma tormenta em torno de biografias não-autorizadas. Roberto Carlos se entristece se publicarem algo sem que ele leia primeiro. Outros artistas resolveram aderir, sem se dar conta da complexidade do tema.

2. A batalha se dá no campo da honra (artigo 20 do Código Civil), tanto no tocante a palavras quanto a imagens. Nem umas nem outras podem afrontar a privacidade pessoal ou macular a imagem (compreendida aí imagem como algo que fira, insisto, tanto por palavras quanto por fotografias a “imagem” de alguém).

3. Se o artista ou seu herdeiro estiverem diante de abusos, que processem o meliante que usurpou, atacou, vilipendiou, comercializou, mercantilizou imagens ou assacou palavras contra o dito cujo biografado, artista ou não. A lei já lhes faculta isto.

4. Ocorre que não é, infelizmente, com bom senso que a vida é vivida. Os editores que, até então, publicavam livros voltados à história do país, qualquer história (da música, do teatro, do futebol) ficaram de pés e mãos atados. Ninguém publica mais nada sem a necessidade de uma enxurrada de autorizações prévias de familiares, muitas vezes até sobrinhos-netos (embora a lei só permita este eventual direito a descendentes diretos), que entram na Justiça a fim de “ganhar algum”.

5. Assim, na famosa foto da visita de Manuel Bandeira a São Paulo para a Semana de Arte Moderna de 1922, em que ele posa ao lado de Mário de Andrade e outros 14 escritores, será preciso ir atrás de todos os 16 herdeiros para obter a autorização de publicar a foto. Essa interpretação equívoca da lei não existe em nenhum país da Terra! Em contrapartida, é público e notório que o poeta Ledo Ivo tentou, em seu livro de poesias, publicar uma singela foto sua ao lado de Bandeira e não obteve a autorização.

6. Curiosa a sanha contra os “biógrafos e editores que ganham fortunas”. Parece o roto correndo atrás do esfarrapado, num país em que a porcentagem de recursos na cultura não chega a milésimos do dinheiro público. Simples assim: em relação aos Estados Unidos temos dez vezes menos bibliotecas e um índice de leitura per capita dez vezes menor também.

7. Por outro lado, temos o custo Brasil para tudo. Além do octogésimo-nono lugar em educação e acima do centésimo posto em competitividade entre os países da ONU, choramos na sarjeta as 2600 horas/ ano dispendidas com pagamentos de impostos, quase 10 vezes mais do que a média de outros países. Chegamos lá: o editor de livros, filmes, videos, documentários – seja lá o que for, que não imprensa – precisará gastar o mesmo tempo com autorizações.

8. Não são apenas as imagens fotográficas, mas também as imagens das obras artísticas. É sabido que a ninguém mais é permitido reproduzir uma pintura de Volpi – mesmo que em livro escolar, apenas para dar um exemplo – sem pagar valores a pretensos advogados das partes da mesma família.

9. E assim vamos atacando as imagens e fazendo um fuzuê interpretativo quanto à honra (já que os herdeiros sempre consideram o que quer que seja como uma mácula, esperando ganhar o alento de algum juiz desprevenido), e dando “bai-bai brazil” à palavra e à imagem, num país abandonado pelos políticos e, agora, surpreendentemente, abandonado pelos próprios intelectuais.

10. Por isso, já soube, que depois que a Justiça, a pedido do filho de Renato Russo, proibiu a paródia a Eduardo e Mônica (Deus! Uma paródia que o tempo e o vento levam!), a Procure Não-Rir / Associação dos Portugueses Enxovalhados, e Papagaios Ofendidos já está contratando advogados para impedir que piadas sejam proferidas sem o devido pagamento de direitos autorais…

P.S. Imprensa, prepara-te: do jeito que as coisas vão, o seu dia de ficar sem o direito a palavras e imagens também há de chegar!

22/09/2013

às 13:04 \ Disseram

Paulo Sérgio Pinheiro: “A indignação não deve ser só com as armas químicas. A guerra convencional continua”

“A indignação não deve ser só com as armas químicas. A guerra convencional continua”

Paulo Sérgio Pinheiro, presidente da Comissão de Inquérito da ONU que investiga os crimes contra os direitos humanos no conflito sírio, em entrevista à Folha de S.Paulo

14/09/2013

às 18:00 \ Política & Cia

ESPIONAGEM — O embaixador dos Estados Unidos no Brasil garante: “O Brasil não é o nosso alvo”

Thomas Shannon: "Imagino que a espionagem tenha pouco respaldo no direito internacional, mas existe muita cooperação entre os países" (Foto: Sergio Dutti)

Thomas Shannon: "Imagino que a espionagem tenha pouco respaldo no direito internacional, mas existe muita cooperação entre os países" (Foto: Sergio Dutti)

Entrevista concedida a Diogo Schelp, publicada em edição impressa de VEJA

THOMAS SHANNON: “O BRASIL NÃO É O NOSSO ALVO”

O embaixador americano diz que a segurança é a principal meta dos programas de espionagem e que a polícia brasileira se beneficia do trabalho dos agentes dos EUA

O diplomata de carreira Thomas Shannon assumiu o comando da embaixada americana em Brasília em 2010 em meio ao vazamento de documentos secretos pelo site WikiLeaks e devolveu o posto, na última semana, no auge das acusações de que a Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês) monitorou comunicações internas do governo brasileiro.

Sobre a revelação de que até a presidente brasileira foi espionada, Shannon preferiu não falar, porque Dilma Rousseff trataria do assunto diretamente com o presidente americano Barack  Obama durante a cúpula do G20 na Rússia, na semana passada.

Shannon assumirá o cargo de conselheiro especial do secretário de estado John Kerry, em Washington, e será substituído em Brasília por Liliana Ayalde.

Se eu fizesse um tour agora pela embaixada, encontraria uma sala com agentes americanos escutando as conversas do governo brasileiro via satélite?

Não, não e não. Obviamente, eu não posso dar detalhes sobre o nosso trabalho de inteligência. Isso não seria adequado neste momento. Mas posso dizer que não existe uma sala como essa.

O que são, então, X-Keyscore, Fornsat e outros programas de espionagem que, segundo os documentos secretos vazados pelo ex-analista de inteligência Edward Snowden, funcionam dentro das embaixadas americanas?

Até agora, o meu governo falou publicamente desses programas de maneira bem cautelosa. Eu não vou além, porque essa é uma conversa entre governos.

Foi por isso que o Brasil enviou um time de técnicos para conversar com membros dos nossos serviços de inteligência e que o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, foi recebido em Washington pelo vice-presidente Joe Biden e pelo secretário de Justiça Eric Holder.

Ressalto, porém, que o jornal O Globo (que divulgou documentos sobre a atuação da espionagem americana no Brasil) apresentou essa informação de maneira sensacionalista e fora de contexto. Ele não captou bem a realidade dos nossos programas, especialmente no que se refere ao Brasil.

O país não é o alvo desses programas, mas sim um dos mais importantes centros de conectividade para o mundo.

O Brasil é o quarto ou quinto hub (centro que recebe e redistribui dados) de comunicações do mundo. Diferentes organizações e grupos que são de interesse do meu e de outros governos usam esses hubs para se comunicar, para esconder e para compartilhar seus planos de ação. Nós desenvolvemos a capacidade de medir o fuxo de informação, especialmente aquela que parte de organizações ou de países sensíveis. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

09/09/2013

às 19:54 \ Política & Cia

ESPIONAGEM CONTRA O BRASIL: Dilma fala em “interesses econômicos e estratégicos” dos EUA, mas deixa de lado, entre outros pontos, um, fundamental: as luvas de pelica de seu governo para com o terrorismo

O atentato terrorista cometido pelo Hezbollah no aeroporto de Burgas, na Bulgária, em julho do ano passado: Brasil usa luvas de pelica para tratar de tema ultra-sensível para as grandes potências (Foto: Getty Images)

Comentei anteriormente a questão da espionagem eletrônica dos Estados Unidos sobre (ou contra) o Brasil e a própria presidente Dilma Rousseff.

A presidente hoje voltou à carga, visivelmente indignada diante de evidências de que parte da espionagem teria se voltado contra a Petrobras, detentora de tecnologia de ponta na exploração de petróleo em águas profundas e das enormes reservas da camada do pré-sal. A espionagem, segundo Dilma, tem em vista “interesses econômicos e estratégicos”.

A presidente tem razão — aliás, espionagem tem sempre esses dois objetivos em mente, além do político e do especificamente militar. No post anterior, procurei apontar, como já fizera anteriormente, por que razões um país como o Brasil se torna alvo “natural” da espionagem de outras nações, no plano da realpolitik que rege as relações internacionais.

O post, porém, só sobrevoou a questão.

Há pontos ali que podem perfeitamente ser desenvolvidos, e que a presidente Dilma não tocou nem de longe, hoje.

Mencionei, graças a lembrete do amigo Caio Blinder, titular de brilhante blog no site de VEJA, a questão da Tríplice Fronteira — Brasil-Argentina-Paraguai –, onde há muitos anos os EUA acreditam, com boas razões, aninharem-se focos de arrecadação de dinheiro e de outras atividades ligadas ao terrorismo no Oriente Médio.

O Brasil, com o lulopetismo no poder, finge que não vê e não toma providências minimamente sérias a respeito. E é bom lembrar o quanto, depois dos atentados às Torres Gêmeas em 2001, o terrorismo passou a ocupar um papel central, decisivo, determinante na política externa, na estratégia militar e na visão do mundo da superpotência americana.

Como sabemos, essa preocupação atingiu níveis de obsessão, próximos à paranoia, durante o governo do presidente George Bush, com o país reinterpretando leis, criando outras ao arrepio da Constituição e atropelando seu público compromisso histórico com as liberdades democráticas e os direitos humanos para admitir, com eufemismos horrorosos, práticas hediondas como a tortura, as prisões secretas em países aliados e a condenação de pessoas sem julgamento, além de erguer o símbolo de barbárie que se tornou a prisão existente na base militar de Guantánamo, em Cuba.

A diplomacia do lulopetismo, extremamente light com governos bolivarianos e com rivais e mesmo inimigos dos Estados Unidos, é boazinha em relação à questão do terrorismo. Não adota, como os EUA e muitas outras nações, posturas para classificar como tais notórias organizações terroristas — a começar pelos narcoterroristas e bandidos das Farc, as chamadas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, grupo armado que vive de sequestros, extorsão, tráfico de drogas e assassinatos sob encomenda.

Como se sabe, o PT velho de guerra coexistiu e coabitou com as Farc no chamado Foro de São Paulo, entidade que congrega partidos e grupos de esquerda da América Latina, até que os bandidos colombianos deixaram formalmente a entidade. (Confira aqui a lista de partidos e entidades que participam.)

Continuam, na verdade, de alguma forma representados, porque uma tal Marcha Patriótica colombiana que, sim, o integra, é uma organização marxista muito próxima às Farc no espectro político do país, prega uma “solução negociada para o conflito armado” e condena a mão firme dos últimos governos colombianos, que vêm impondo derrota sobre derrota aos terroristas.

Não são apenas as Farc que deixam de ser consideradas terroristas, por uma política de luvas de pelica do Itamaraty que considera tais gestos uma “interferência nos assuntos internos” de outros países.

Essa mesma política tem mantido o país em uma vergonhosa atitude de permanecer em cima do muro mesmo em casos escabrosos de violações de direitos humanos que os governo lulopetisnas deixaram de condenar na ONU, praticados por países como o Irã, a Síria, o Sudão, a Coreia do Norte e a China.

Integrantes da milícia do Hezbollah em cerimônia no Líbano: para os EUA e a União Europeia, são terroristas. O Brasil, como sempre, silencia (Foto: independent.co.uk)

As delicadas luvas de pelica impedem que, além das Farc, outras organizações que notoriamente praticam o terrorismo recebam vista grossa dos governos lulopetistas. Como, por exemplo, o Hezbollah no Líbano.

Ora, dirão, o Hezbollah é um partido político legítimo no Líbano e, além do mais, pratica uma intensa ação social, propiciando escolas para crianças, abrigos para idosos, alimentação para os pobres.

O problema é que, no meio disso tudo, o Hezbollah tem um braço armado cujos integrantes sequestram, matam, incendeiam e jogam bombas, tudo financiado pelo Irã dos aiatolás atômicos. É tido como organização terrorista pelos Estados Unidos, pelo Canadá, pela Austrália…

Não foi por outra razão que, semanas atrás, o grupo que inclui o maior número de países civilizados do mundo — a União Europeia — incluiu o braço armado do Hezbollah na sua lista de entidades terroristas. A medida implica a congelação de ativos que o grupo possui em países comunitários e em um controle mais estrito de seus movimentos na Europa.

Foi o fecho de prolongadas negociações que se travam desde o começo do ano, quando órgãos de inteligência europeus descobriram evidências de que o Hezbollah estava por trás de um atentado terrorista ocorrido na Bulgária — membro da UE — em julho do ano passado. Na ocasião, um terrorista suicida que se fez passar por cidadão americano explodiu um ônibus com 42 turistas israelenses que deixava o aeroporto de Burgas, no sudoeste do país, rumo a um resort, matando cinco turistas e o motorista, e causando ferimentos em 32 outras pessoas.

O alcance da decisão da UE pode ser medido pelo fato de que o Hezbollah não apenas é um partido político como participa da coligação que governa o Líbano. A decisão de separar seu braço político do militar teria o objetivo de convencer aos grupos radicais do movimento a se passar para a vertente moderada.

Os países que mais insistiram em isolar os terroristas do Hezbollah foram o Reino Unido, a Holanda e a França. Como as decisões desse tipo na UE precisam obter a sempre difícil unanimidade dos 28 membros, foi necessário vencer as reticências do grupo formado principalmente pela República Checa, a Irlanda, Malta e Chipre.

“É muito bom que a União Europeia tenha decidido definir o Hezbollah como o que é — uma organização terrorista”, disse o chanceler hol.andês, Frans Timmermans. A chefe da diplomacia euopeia, a britânica Catherine Ashton, por sua vez, lembrou que a medida permitirá congelar os recursos do grupo terrorista, dificultar sua arrecadação de fundos e, portanto, “limitar grandemente sua capacidade de ação”.

Enquanto isso, no Brasil…

 

01/08/2013

às 16:00 \ Política & Cia

Cesar Maia comenta, com absoluta razão, a mágica que o governo fez para fazer o país dar um salto no Índice de Desenvolvimento Humano

O ex-deputado, ex-secretário da Fazenda, ex-prefeito do Rio e atual vereador Cesar Maia (DEM), que é economista, fez em seu “ex-blog” uma pertinente análise da estranha e inexplicada mágica que o governo fez para mostrar um suposto “grande salto” ocorrido no Índice de desenvolvimento Humano (IDH), criado pela ONU com base em dados sobre expectativa de vida ao nascer, nível de educação e Produto Interno Bruto (PIB) per capita.

Curiosamente, antes da mudança de critério feita às escondidas e sem explicações pelo governo, o IDH do Brasil durante o governo FHC (no ano 2000) era de 0,766 — o índice é tanto melhor quanto mais próximo chega de 1 — e, com base no censo de 2010 (governo Lula) estava em 0,727.

Mas, como há explicação para tudo… Vejam o que diz Cesar Maia:

IDH: CURIOSAS E PROBLEMÁTICAS MUDANÇAS DE CRITÉRIO!

1. Com base nos Censos de 1991 e 2000, o PNUD e o Governo Federal anunciaram os dados do IDH para o Brasil todo.

Esses dados serviram como elementos para priorizar as políticas públicas em nível municipal, estadual e federal.

2. Em 1991 o IDH do Brasil, divulgado anos depois, foi de 0,696.

Em 2000 o IDH do Brasil, divulgado em 2003, foi de 0,766.

3. Na segunda-feira, 29, foram divulgados os dados de IDH em base aos dados censitários de 2010.

O IDH do Brasil avançou para 0,727.

Mas como, se o de 2000, antes divulgado, já era de 0,766?

Foi anunciado que houve uma mudança de critério.

4. Essa mudança de critério baixou o IDH, em base ao censo de 1991, de 0,696 para 0,493.

Uma redução de 30%.

E baixou o IDH de 2000 de 0,766 para 0,612.

Uma redução de 20%.

5. Mudanças tão drásticas exigiriam explicações semanas antes, para que se pudesse entender e tirar dúvidas. Mas nenhuma explicação foi dada.

E apresentou-se um enorme crescimento do IDH, que — se levasse em conta o número anterior de 2000 — seria uma redução.

6. E como ficaram os governos de todos os níveis, que se pautaram pelos números oficiais anteriores para fazer seus planejamentos sociais?

Algo que merece uma explicação detalhada e didática.

29/07/2013

às 10:03 \ Disseram

19 de novembro como Dia Mundial da Privada, decreta ONU

“A diversão e o riso que podem seguir a designação de 19 de novembro como Dia Mundial da Privada já terá sido útil se chamar a atenção das pessoas para o fato de que 2,5 bilhões de pessoas não têm saneamento básico.”

Organização das Nações Unidas, que oficializou a data para chamar a atenção para realidade de 1,1 bilhão de pessoas que não têm acesso a banheiros

07/06/2013

às 15:00 \ Vasto Mundo

Malvada vodca: expectativa de vida diminui na Rússia por excesso de consumo de bebidas alcoólicas

EXAGERO -- Moscovitas bebem na comemoração do Dia do Guarda de Fronteira (Foto: Alexander Nemeno VAFP)

EXAGERO -- Moscovitas bebem na comemoração do Dia do Guarda de Fronteira (Foto: Alexander Nemeno VAFP)

Reportagem de Tatiana Gianini, publicada em edição impressa de VEJA

MALVADA VODCA

A Rússia foi o único dos grandes países emergentes em que a expectativa de vida diminuiu em 2012, como consequência do consumo excessivo de álcool

Poucas coisas são tão associadas à Rússia quanto a vodca. Diminutivo da palavra voda, o termo russo para água, a bebida é consumida à tarde ou à noite, em especial durante o inverno. O consumo excessivo do destilado é um estereótipo nacional que se tornou um grave problema de saúde pública.

O governo estima que cada russo beba 18 litros de álcool por ano, mais do que o dobro do máximo recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Uma em cada cinco mortes no país está relacionada ao álcool. No ano passado, o vício foi o principal responsável pela queda na expectativa de vida russa, o primeiro retrocesso desde 2003.

Um russo nascido em 2012 viverá, em média, 69,7 anos em vez dos 69,8 anos calculados em 2011. Apesar de pequena, a queda no índice surpreende porque segue uma tendência oposta ao que se espera de uma nação emergente. Em meio às conquistas recentes da medicina e ao crescimento da riqueza no país, era de esperar um aumento na expectativa de vida.

Em comparação, estima-se que os brasileiros e os chineses nascidos em 2012 vivam até os 73,8 anos, e o índice só melhora ano após ano. A ONU prevê que, em 2050, haverá 116 milhões de pessoas na Rússia, 30 milhões a menos do que hoje, em parte como consequência da redução da expectativa de vida.

O famoso destilado é apenas um dos vilões. Pela garganta dos russos também descem cerveja, vinho e uísque em quantidades recordes. Os óbitos relacionados ao alcoolismo são causados principalmente por doenças e por suicídio. Além disso, sob a influência do álcool, 30000 russos morrem anualmente em acidentes de trânsito. Dos 12000 assassinatos ocorridos em 2010, 75% foram cometidos por bêbados.

O problema é antigo. No século XVI, o primeiro czar russo, Ivan, o Terrível, abriu tavernas estatais, chamadas de kabaks. Em 1648, um terço da população masculina do país estava em dívida com as kabaks. Nos tempos da União Soviética, a mesma proporção da força de trabalho se ausentava do serviço por embriaguez.

Em 1985, o dirigente Mikhail Gorbachev lançou uma campanha para reduzir o alcoolismo, com o objetivo de aumentar a produtividade no país. Ele restringiu a venda de álcool e destruiu destilarias caseiras. Seu erro foi acreditar que o alcoolismo era a causa, e não o sintoma, das mazelas sociais do comunismo. Inicialmente, a expectativa de vida teve um pequeno aumento, mas a produtividade dos russos, não. Os prejuízos de 28 bilhões de rublos provocados pela redução do comércio de bebidas apenas acentuaram o declínio econômico da União Soviética.

O presidente Vladimir Putin agora tem o desafio de combater o problema de forma duradoura.

30/05/2013

às 14:00 \ Tema Livre

O criador de insetos jura: “barata fica boa com azeite, para ser servida como canapé”

PÔSSAS: Produção limitada para aves e répteis — por enquanto (Foto: Nidin Sanches)

PÔSSAS: Produção limitada para aves e répteis — por enquanto (Foto: Nidin Sanches)

Entrevista concedida a Fabrício Lobel, publicada em edição impressa de VEJA

AS BARATAS QUE SAEM CARAS

Luiz Otávio Possas, criador de insetos se anima com a sugestão da ONU para que eles sejam usados no combate à fome no mundo

Depois do anúncio da ONU, o senhor venderá insetos para consumo humano?

Infelizmente, minha produção hoje é toda voltada para o preparo de ração para aves e répteis. O Ministério da Agricultura não permite a venda de insetos para alimentação humana no Brasil. Mas eu estou pleiteando isso.

Qualquer inseto pode ser consumido?

Não. Tem de haver fiscalização do governo sobre os produtores, senão vai ter gente pegando qualquer barata para vender. Meu produto é de primeira qualidade. Totalmente limpo e rico em proteína.

No seu site, 14 gramas de baratas desidratadas custam 9,60 reais. Não é um produto caro demais para enfrentar a fome mundial?

É caro mesmo. A farinha de proteína de inseto custa 100 reais o quilo. Mas isso é porque minha produção é pequena, cerca de 1 tonelada por mês. Se eu produzir mais, o preço cairá.

O senhor já comeu os seus insetos?

Claro, a gente não pode ter preconceitos.

O mais gostoso é o tenébrio, uma larva de besouro. Fica uma delícia quando bem fritinho ao alho e óleo. Meus amigos dizem que tem gosto de camarão.

O macarrão com grilo também é bom.

A barata não tem um gosto característico, mas fica boa com azeite, para ser servida como canapé. Tem também o grilo coberto de chocolate, que fica crocante. As crianças adoram.

O senhor come inseto sempre?

Não. Ainda prefiro um bom bife malpassado.

26/05/2013

às 17:00 \ Tema Livre

O 4G — telefonia móvel ultrarrápida — passou no teste. Confira abaixo perguntas e respostas importantes sobre o novo sistema

ELE MUDA A MINHA VIDA? (Foto: Istickphoto)

ELE MUDA A MINHA VIDA? (Foto: Istickphoto)

Reportagem de Victor Caputo, com colaboração de Henrique Carneiro publicada em edição impressa de VEJA 

 

O 4G PASSOU NO TESTE

O novo sistema ultrarrápido de telefonia móvel começa agora a ser instalado nas maiores cidades. Poucos brasileiros poderão tê-lo: ele custa caro e não estará disponível em todo o país

A implantação no Brasil da quarta geração da telefonia móvel, o 4G, começa para valer no fim deste mês. O sistema será instalado primeiramente nas cidades-sede da Copa das Confederações. Em dezembro, será a vez das cidades-sede da Copa do Mundo. Até agora, o 4G só estava disponível em operação experimental em seis cidades-piloto.

Até o fim deste ano, vinte em cada 100 brasileiros terão a opção de aderir a um sistema de telefonia muitíssimo superior ao atual. Na última década, o smartphone e o 3G revolucionaram o acesso à internet e o uso do celular. Com os smartphones e, em especial, o iPhone, a telefonia móvel rompeu o limite das ligações de voz e passou a ser mais usada para acessar a internet.

O 3G, em operação comercial desde 1998, ofereceu as condições para conexão remota com a web. Mas tem limitações irritantes. Sua lentidão não permite o tráfego de arquivos pesados. É impossível assistir a filmes em alta resolução em smartphones ou tablets. O 4G, que multiplica por dez a velocidade de uma conexão móvel, chega a superar a velocidade da internet a cabo padrão nas residências.

Em seu caso, as limitações são de outra ordem: é caro para o consumidor e, pelo cronograma de instalação, por muito tempo só estará disponível numa fração do território brasileiro. A seguir, as respostas às dúvidas mais frequentes sobre o 4G.

 

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QUANDO PODEREI TER O 4G?

Até 2014, o sistema só estará disponível em quinze cidades (veja o quadro acima). Quatro operadoras adquiriram concessões no leilão de 2,9 bilhões de reais realizado em junho de 2012.

Até agora, apenas a Claro testou a rede em seis cidades-piloto, com 5000 clientes. A partir de 30 de abril, a Oi, a Tim e a Vivo oferecerão planos de conexão em mais cinco cidades. No fim do ano, a rede 4G chegará a outras quatro metrópoles, entre elas São Paulo.

ELE MUDA MINHA VIDA?

O 4G permite assistir a filmes em alta resolução, por streaming, do YouTube e de serviços como o Netflix em smartphones ou tablets. Streaming é o sistema pelo qual os arquivos rodam imediatamente na internet, sem a necessidade de baixá-los. Entrar em sites leva milésimos de segundo.

POSSO ENTÃO CANCELAR A INTERNET DE CASA?

No teste feito por VEJA em Campos do Jordão, uma das cidades-piloto que contam com a cobertura, o 4G atingiu a velocidade de 47 megabites por segundo, suficiente para baixar uma música digital em um segundo. É melhor que a internet a cabo padrão de 10 megabites por segundo existente na maioria das casas.

No futuro, infelizmente, a qualidade tende a cair. A transmissão de dados da telefonia funciona como uma estrada. Quanto maior a quantidade de carros na rodovia, menor é a velocidade do tráfego. Ou seja, à medida que o número de pessoas conectadas ao 4G aumentar, maior será o congestionamento de dados e menor a velocidade do serviço.

Estima-se que o desempenho caia para um terço do atual já no próximo dia 30, com a ampliação do sistema. Isso não chega a assustar, pois, ainda assim, o 4G oferecerá velocidade superior à disponível hoje pela internet fixa mais popular. Aliás, a web via cabo também evolui. Já existe no Brasil um serviço com velocidade superior à do 4G, mas ele custa o dobro do preço de um plano 4G.

No futuro, o Fiber, do Google, em fase de testes nos Estados Unidos, deverá oferecer internet fixa com velocidade de 1 gigabite, vinte vezes mais eficiente que o 4G.

EM UMA CIDADE SEM 4G, O CELULAR FICA SEM INTERNET?

Não. O sistema troca automaticamente para 3G.

 

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POR QUE O 4G É TÃO CARO?

A tecnologia é nova, e o preço alto decorre das despesas com desenvolvimento e instalação. Em geral, os preços caem à medida que o número de consumidores aumenta e os investimentos iniciais tenham sido recompensados. No início, um pacote de serviços 4G custará dezesseis vezes mais que um 3G. Além dos 2,9 bilhões de reais investidos na compra da concessão para operar a rede, estima-se que cada uma das empresas deve gastar até 6 bilhões de reais até 2014 para instalar antenas.

SERÁ PRECISO TROCAR O CELULAR?

Sim. O 4G demanda aparelhos adaptados, mais caros que os com 3G. Como o Brasil não adotou o padrão internacional de transmissão de dados, a oferta inicial é de apenas cinco smartphones. Não será possível usar o iPhone nem o iPad. Aliás, ainda não há nenhum tablet habilitado.

 

OS PRIMEIROS 5 -- Poucos smartphones com 4G estão à venda no Brasil: o Galaxy SIII, da Sansung, o Rarz HD, da Motorola, dois da linha Lumia, da Nokia, e o Optimus G, da LG

OS PRIMEIROS 5 -- Poucos smartphones com 4G estão à venda no Brasil: o Galaxy SIII, da Sansung, o Rarz HD, da Motorola, dois da linha Lumia, da Nokia, e o Optimus G, da LG

POR QUE O BRASIL ADOTOU UM PADRÃO POUCO COMUM?

As informações de smartphones são enviadas por ondas de rádio, que operam em determinadas frequências. A União Internacional de Telecomunicação, agência da ONU, recomenda a frequência de 700 mega-hertz para o 4G. “No Brasil, essa faixa está ocupada com a transmissão da televisão analógica”, explica o engenheiro Marcelo Zuffo, da Universidade de São Paulo. “O país precisou optar pela de 2500 mega-hertz, que oferece pior cobertura e necessita de maiores investimentos para ser instalada.” A faixa de 700 mega-hertz terá de ser desocupada até 2018. Aí o Brasil entrará no padrão internacional.

É MELHOR ESPERAR PELO 5G?

Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco, explica: “O sistema atual deverá evoluir para o que é conhecido como 4G+, pouco diferente do 4G. Ainda não se sabe quando haverá o 5G”.

 

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O 4G chegou ao Brasil com uma lacuna de três anos em relação ao começo das operações nos Estados Unidos. É um intervalo curto se comparado aos seis anos de demora do 3G ou aos dezessete anos que levou o celular. A primeira ligação telefônica feita de um aparelho móvel completou quarenta anos.

Em 3 de abril de 1973, o americano Martin Cooper usou o protótipo do primeiro modelo de celular de sua empresa, a Motorola, para ligar para o telefone fixo de um engenheiro de uma concorrente. Em tom de desafio, ele disse: “Ligo de um telefone portátil que posso carregar para qualquer lugar”.

No Brasil, a primeira ligação ocorreu em 1990. Foi uma conversa encenada entre dois ministros: Ozires Silva, da Infraestrutura, e Jarbas Passarinho, da Justiça. O primeiro celular a navegar na web foi o Nokia 9000 Communicator, em 1996. Baixar um arquivo da rede naquele smartphone rudimentar demorava horas.

Com a chegada do 4G, a simbiose torna-se perfeita e nosso acesso ao mundo digital muda definitivamente. Na opinião do americano Charles Golvin, especialista em telecomunicações da consultoria Forrester, “o 4G dá início a um novo momento da tecnologia móvel, em que há a possibilidade inédita de trocar instantaneamente qualquer tipo de informação digital”.

22/04/2013

às 19:45 \ Política & Cia

J.R.Guzzo: Governo Dilma promove por decreto miseráveis a pobres e faz mágica com estatísticas, mas o fato é que quase não estamos saindo do lugar

"O governo quer que a população acredite na demência segundo a qual um cidadão que ganha 71 reais por mês não é mais miserável; ao mesmo tempo, não quer que acredite nos números divulgados pelas Nações Unidas"

"O governo quer que a população acredite na demência segundo a qual um cidadão que ganha 71 reais por mês não é mais miserável; ao mesmo tempo, não quer que acredite nos números divulgados pelas Nações Unidas" (Foto: ABr)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

EFEITOS COLATERAIS

O governo brasileiro viciou-se em confundir estatísticas com realidades.

Está escrito em algum papel oficial? Então é verdade.

Como fomos todos informados pela presidente Dilma Rousseff, não há mais miseráveis no Brasil desde o dia 31 de março, quando foi riscado do cadastro federal o nome do último cidadão brasileiro com renda inferior a 70 reais por mês.

A partir daí, quem ganha 71 mensais deixou de ser miserável, pois para a ciência estatística a miséria acaba naqueles 70 reaizinhos – ou cerca de 1,25 dólar por dia, pela média dos critérios internacionais.

Daí para a frente o sujeito é promovido a pobre e deixa de incomodar tanto. “O cadastro foi zerado”, anunciou Dilma. Conclusão: como não existem mais nomes no cadastro, não existem mais miseráveis no Brasil.

Ah, sim, ainda há um probleminha com gente que ganha menos de 70 reais por mês e que não estava inscrita na lista oficial; é mera questão de tempo até o governo encontrar todo mundo, dar um dinheirinho a mais para eles e acabar não apenas com a “miséria cadastrada”, como falam os técnicos do Palácio do Planalto, mas com o problema inteiro.

Nada disso faz nexo no mundo do bom-senso, mas o governo tornou-se dependente de um outro vício – massagear números aqui e ali e fazer uso deles para tratar como retardado mental todo brasileiro que foi à escola, prestou um pouco de atenção às aulas e acabou aprendendo alguma coisa. O problema de meter-se por essa trilha é que, com frequência, os especialistas em fazer mágicas aritméticas têm de experimentar o próprio veneno.

Acaba de acontecer, mais uma vez, com as últimas cifras da ONU sobre o Índice de Desenvolvimento Humano em 187 países – uma medida que informa o nível de bem-estar da população — e não da “economia” –, em termos de vida saudável, acesso ao conhecimento e padrão de vida decente, traduzido em dinheiro no bolso do povo.

O Brasil pegou o 85º lugar em 2013, dezesseis postos abaixo do Cazaquistão e outras potências do mesmo quilate. Não é um desastre. É apenas aquilo que realmente somos – a mediocridade em estado puro.

Só na América Latina, ficamos atrás de Argentina, Chile, Uruguai, Cuba, Panamá, México, Venezuela e Peru, com a Colômbia prometendo passar à frente já no próximo levantamento. Sobra o quê, aqui em volta? Só os casos de subdesenvolvimento que já estão num leito de UTI.

A coisa não para aí. Já que o negócio é ficar refogando números, como a presidente Dilma tanto gosta, por que não servir a salada inteira? Em 1980, mais de vinte anos antes de o ex-presidente Lula decidir que o Brasil tinha sido inventado por ele, o IDH brasileiro era de 522, numa escala que começa no zero e chega ao máximo de 1000; subiu sem parar nesse tempo todo, chegando a quase 700, ou perto de 35% a mais, no Ano I da Nova História do Brasil – 2003 -, quando Lula começou sua primeira Presidência.

Nestes dez anos de Lula, Dilma e PT, o índice foi para os 730 onde está hoje. Mais: durante os dois anos do governo Dilma, o IDH brasileiro ficou perto do nível de pressão zero por zero, com crescimento praticamente nulo.

O que toda essa tabuada está dizendo, no mundo das coisas reais, é o contrário do que diz o mundo da propaganda oficial: com a sexta ou sétima maior economia do mundo em volume, o Brasil simplesmente não consegue repassar o bem-estar dessa grandeza, nem de longe, para os brasileiros que a constroem.

O governo, assim que recebeu os últimos números, entrou no seu modo habitual de indignação automática: a ONU está errada, as cifras são injustas etc. Quer que a população acredite na demência segundo a qual um cidadão que ganha 71 reais por mês não é mais miserável; ao mesmo tempo, não quer que acredite nos números da ONU.

Mais que tudo, ignora o fato de que “a revolução na renda” registrada nos governos petistas, e patenteada como invenção pessoal e exclusiva de Lula, é uma mentira: o mundo inteiro, mesmo nos casos mais desesperados da África, viveu uma rápida e inédita redução da pobreza durante os dez anos de governo lulista. De 2000 para cá, 70 milhões de pessoas saem da miséria a cada ano pelo mundo afora. Em apenas seis anos, de 2005 a 2011, a pobreza mundial foi reduzida em meio bilhão de seres humanos.

Desde 2003, os países pobres vêm aumentando em 5% ao ano, em média, a sua renda per capita. De onde Lula e Dilma foram tirar a lenda segundo a qual fizeram o que ninguém jamais havia feito?

Vá com calma ao mexer em estatísticas, presidente. É um produto que pode ter efeitos colaterais indesejáveis.

 

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