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Nicolas Sarkozy

05/05/2013

às 16:00 \ Tema Livre

ENTREVISTA: Carla Bruni-Sarkozy, ex-primeira-dama, ex-modelo, cantora e compositora: o belo fruto de um caso de amor. Ela fala até de seu pai biológico, que vive no Brasil

Carla Bruni: "Eu estava profundamente apaixonada. Ainda estou, mas o começo de um relacionamento é um momento único" (Foto: Nicolas Guerin / Getty Images)

Carla Bruni: "Eu estava profundamente apaixonada. Ainda estou, mas o começo de um relacionamento é um momento único" (Foto: Nicolas Guerin / Getty Images)

Entrevista concedida a Tatiana Gianini, de Paris, publicada em edição impressa de VEJA

 CARLA BRUNI-SARKOZI, O BELO FRUTO DE UM CASO

A cantora e ex-primeira-dama da França fala do pai biológico, que vive no Brasil, e diz que acorda o marido, Nicolas Sarkozy, para mostrar as canções que compõe no meio da noite

Ao entrar na sala do hotel Saint James Paris para a entrevista com Carla Bruni, encontrei a ex-primeira-dama da França (2008-2012) comprimindo as costas contra a quina de uma parede, gemendo:

– Ai, a gente passa o dia carregando filho e fica com uma dor na lombar…!

A cena seria algo constrangedora se tivesse sido protagonizada por outra mulher. Mas sendo Carla Bruni ficou sensual.

É impossível dissociá-la da sensualidade, atributo que exala também nas canções que compõe e canta, as últimas reunidas no CD Little French Songs, lançado neste mês. Italiana de Turim, naturalizada francesa, a ex-modelo de 45 anos tem uma menina de 1 ano e 6 meses com o ex-presidente Nicolas Sarkozy e um filho de 11 anos de um relacionamento anterior.

Entre uma tragada e outra de um cigarro eletrônico – que contém nicotina, mas produz um vapor sem cheiro -, Carla falou sobre o pai biológico, Maurizio Remmert, e sobre a vida fora do Palácio do Eliseu.

Na música Pas une Dame, a senhora afirma ser “o fruto do acaso da existência incerta”. Trata-se de uma menção ao fato de ter descoberto, aos 28 anos, que era filha de um amante de sua mãe?

A expressão “o fruto do acaso” fala sobre mim, sobre a forma como nasci e sobre o fato de eu ter tido dois pais – o que é melhor do que não ter tido nenhum, diga-se de passagem.

As músicas têm uma origem pessoal, mas, como artista, eu busco entender como os momentos da minha vida podem alcançar as experiências dos outros.

A ideia da existência incerta vale para todos. Não temos certeza de nada nesta vida, além da morte. Se alguém acha que terá um marido ao lado para sempre, está enganado. Pode-se perdê-lo amanhã. Por isso, é preciso cuidar dele.

"Se alguém acha que terá um marido ao lado para sempre, está enganado. Pode-se perdê-lo amanhã. Por isso, é preciso cuidar dele" (Foto: Michael Kappeler / AFP)

"Se alguém acha que terá um marido ao lado para sempre, está enganado. Pode-se perdê-lo amanhã. Por isso, é preciso cuidar dele" (Foto: Michael Kappeler / AFP)

 

Como ocorreu a aproximação com seu pai biológico?

Pouco antes de morrer, meu pai de criação (o industrial e compositor clássico Alberto Bruni Tedeschi), que até então eu pensava ser o único, me disse que eu tinha outro pai, biológico.

Perguntei a minha mãe se aquilo era verdade. Ela confirmou a história, meio sem graça. Só disse: “Pois é… é verdade”.

Então eu procurei o Maurizio. Ele tinha fotos antigas que minha mãe lhe enviava desde os meus tempos de modelo. Os dois sempre estiveram em contato, mas ela nunca me contava nada!

Somos italianos, muito carinhosos e alegres. Não foi um momento negativo da minha vida, e sim de felicidade. De repente, descobri que tinha uma nova irmã, Consuelo.

O que a senhora tem em comum com seu pai?

Maurizio é meu único parente que, como eu, toca violão. Nessas horas, não há como negar a herança genética.

Eu comecei a tocar aos 7 anos sem ter a influência nem conhecer os hábitos do meu pai biológico. Eu me pareço muito com ele. Foi estranho quando o encontrei. Maurizio era a peça perdida do meu quebra-cabeça. Antes de conhecê-lo, eu me sentia como a imagem inconclusa de um jogo de montar.

Seu pai vive em São Paulo. Vocês se encontram com frequência?

Não muita, infelizmente. Algumas vezes, ele vem a Paris. Em outras, vamos ao Brasil.

Maurizio me levou a Jericoacoara e a Fortaleza. Foi maravilhoso. O Brasil é um dos países mais lindos do mundo. Gostaria de ter tempo para visitá-lo com mais calma.

A senhora tinha todos os atributos normalmente associados a uma primeira-dama ou teve de aprender?

Cada mulher que assume esse papel tem de desempenhá-lo à sua maneira.

É muito difícil julgar. Recebi muito apoio de minha antecessora, Bernadette Chirac. Como ela foi primeira-dama por doze anos, conhecia o Palácio do Eliseu como ninguém. Para me beneficiar dos seus conselhos, eu a convidei para almoçar diversas vezes.

Eu me tornei francesa quando me casei (nove meses depois de Sarkozy assumir a Presidência), e precisava aprender mais sobre o país. Bernadette me deu ótimos conselhos. Um deles é que, para uma primeira-dama, a melhor coisa a fazer é trabalho humanitário.

Trata-se de uma boa oportunidade de ajudar os outros, porque abre muitas portas. Eu pude me dedicar mais à minha luta incansável contra a aids (seu irmão Virginio morreu da doença, em 2006). Como parte de minhas iniciativas contra a aids, visitei Benin, Burkina Faso e outros países africanos.

Em 2010, a senhora divulgou uma carta pública contra o apedrejamento da iraniana Sakineh Ashtiani. Como primeira-dama, gostaria de ter tido mais liberdade para levantar a voz contra aquilo que lhe causava indignação?

Naquele episódio, não fiz mais do que escrever a carta. Quando se ocupa a posição de primeira-dama, é preciso respeitar o fato de que o posto é muito maior do que você. Não se tratava de mim, de minha opinião.

Mesmo agora, durante a campanha de divulgação de meu novo disco, muitas vezes sou indagada sobre temas políticos. Adoraria responder a essas perguntas. Não o faço porque, sendo casada com um político, é difícil dar minha opinião.

Minhas ideias sempre seriam confundidas com o pensamento de meu marido, como se ele estivesse falando por meu intermédio.

Apesar disso, a senhora se posicionou a favor do casamento gay. Sarkozy é contra. Como a senhora lida com diferenças de opinião como essa?

Isso é diferente, porque o mundo caminha para a liberação do casamento entre homossexuais.

Meu marido e eu não precisamos ter a mesma opinião. Ele tem um enorme talento para o convencimento. Eu me guio mais pela emoção.

Qual foi sua maior gafe como primeira-dama?

Sempre fui muito cuidadosa, mas cometi gafes. Um dia, estava dando uma entrevista quando meu marido apareceu para dar um oi. Quando saiu, comentei: “Ele trabalhou a noite toda, pauvre chou (pobrezinho)”. No dia seguinte, o apelido estava em todos os jornais.

A senhora se sentia solitária como primeira-dama?

Não, de maneira nenhuma. Eu tinha meu marido, os quatro filhos para cuidar (incluindo os três do casamento anterior de Sarkozy) e o trabalho humanitário.

Havia sempre muita gente ao redor e eu estava profundamente apaixonada. Ainda estou, mas o começo de um relacionamento é único. Prefiro estar sozinha ao compor, mas no resto do tempo sou sociável.

A julgar pela letra da canção Liberté (Liberdade), do seu novo CD, a senhora se sentiu aliviada ao deixar o Eliseu.

Liberté foi escrita em parte enquanto eu era primeira-dama e em parte depois. Eu quis fazer uma declaração de independência com essa música, talvez porque de fato eu esteja mais livre agora que deixei de ser primeira-dama.

No entanto, essa canção é ambivalente. Acredito firmemente que a liberdade precisa de restrições para prosperar.

A liberdade completa não passa de anarquia. É um conceito sedutor, mas perigoso. Quando se tem filhos, entende-se melhor quanto a liberdade total é tóxica para o ser humano. Limites são necessários.

Costumo dizer que, para erguer uma casa, é preciso construir paredes, os limites. Quando está livre de obrigações, o ser humano não tem de se preocupar com nada, tampouco tem com quem se preocupar. É quando se está livre e, ao mesmo tempo, sozinho.

A recém-conquistada liberdade também consiste em poder vestir jeans, e não apenas roupas formais?

Nunca abandonei totalmente os jeans. O que tentei fazer como primeira-dama foi honrar a tradição francesa de elegância.

Na França há excelentes estilistas de alta-costura. Eu concluí que, para representar o país, não deveria usar jeans. Foi um prazer para mim difundir a cultura da França dessa forma, fazendo jus à sua reputação de elegância e beleza.

Que comentário a senhora faria sobre o estilo de Michelle Obama?

Ela é fantástica, assim como a mulher do premiê inglês David Cameron, Samantha.

Michelle tem uma pele linda, fresca como uma rosa.

A beleza, depois de certa idade, está muito mais ligada à elegância, à simpatia e à inteligência. Até os 35 anos de idade, mesmo uma pessoa desagradável pode ser considerada bonita. Depois, não mais.

Qual é o seu limite quando se trata de manter uma aparência jovem?

Quando eu era mais nova, costumava cuidar muito da pele com protetor solar e tratamentos a laser, para tirar manchas e pequenas rugas. Meu rosto e meu corpo eram minhas ferramentas de trabalho como modelo.

Agora, eu me importo bem menos com isso. Não sou contra a cirurgia plástica, mas acho que meu rosto ficaria um pouco diferente se eu fizesse alguma intervenção. Não uso toxina botulínica porque só se pode colocá-la aqui (ela franze a testa para mostrar as linhas de expressão).

A pele muda, não importa o que se faça. Além disso, não é sexy ter a pele lisinha aos 50 anos. Fica artificial. A idade de qualquer pessoa pode ser descoberta quando se olha para seu cabelo ou se escuta sua voz.

Mas, se existisse uma pílula que rejuvenescesse vinte anos sem exageros, eu tomaria agora mesmo.

A senhora é mais alta do que seu marido. Precisou abrir mão dos sapatos com salto?

Sou mais alta do que a maioria das pessoas, não só dos homens, e não gosto disso.

Salto alto é lindo, mas é uma tortura para os pés e para as costas. Só uso sapatos assim quando não tenho escolha. Quando chego em casa, fico louca para tirá-los.

"Eu comecei a tocar aos 7 anos" (Foto: AP)

"Eu comecei a tocar aos 7 anos" (Foto: AP)

Costuma-se dizer que as francesas não se sentem culpadas por amamentar os filhos por pouco tempo. A senhora também não?

Eu nasci na Itália. Talvez por isso tenho uma forma diferente de lidar com meus filhos. Eu adorava quando eles eram bebês de colo. Agora tenho babá para me ajudar, mas naquela fase eu fazia tudo sozinha.

Tive sorte de não precisar voltar ao trabalho logo após o parto. Na França, a licença-maternidade é muito curta. Em alguns casos, de apenas dois meses.

Amamentei Aurélien por sete meses e Giulia por cinco. Eu me preocupo mais com meu filho do que com minha filha, porque acho que as mulheres são mais fortes do que os homens. Não tenho medo de ele ser frágil fisicamente, mas sim psicologi­camente. Por instinto, acho que os homens precisam de mais proteção.

Há uma canção sobre uma prece em seu disco. A senhora é religiosa?

É uma reza sem Deus. Gosto de fazer isso quando estou confusa ou desesperada.

Em seu álbum anterior, há uma referência à cocaína em uma canção de amor sobre Sarkozy. A senhora mostra suas músicas ao marido quando está compondo?

Meu pobre marido é minha cobaia. Não só mostro as letras a ele como canto e toco. Às vezes faço isso no meio da noite, que é quando componho e fico ansiosa para ter uma avaliação do que fiz.

Aliás, toda a família é minha cobaia. Mostrar meu trabalho aos outros é a melhor forma de saber o efeito que ele terá no público.

Le Pingouin descreve um homem sem charme, apesar do ar de “pequeno soberano”. A senhora já negou que essa música seja uma referência ao presidente François Hollande, que derrotou Sarkozy nas eleições do ano passado. O que a irrita nas pessoas?

Não gosto de indelicadezas desnecessárias, como quando alguém lhe diz: “Nossa, como você engordou”. Sim, pessoas assim existem. Ou quando, no ônibus, cansada, às vezes grávida, ninguém se digna a oferecer-lhe o assento.

Mas a senhora anda de ônibus?

Peguei o metrô recentemente. Com uma roupa mais esportiva, um boné e sem maquiagem, não sou reconhecida. Ou então ninguém dá a mínima.

A senhora foi top model e primeira-dama, é mãe de dois filhos e tem uma carreira musical respeitável. O que vem agora?

A segunda parte da vida não é tão fácil. Amigos morrem, a gente morre. Não quero ser muito dramática. Gostaria que minha vida permanecesse como está. Se eu pudesse abrir mão de tudo o que tenho por algo, seria pela saúde e pela felicidade das pessoas que amo.

Primeira-dama, nunca mais?

Não penso nisso. Não é algo que dependa de mim.

08/09/2012

às 16:00 \ Livros & Filmes

Boa leitura para o feriadão (3): Caio Blinder comenta a ótima biografia do “chanceler de ferro” alemão Bismarck

Portrait Of Otto Von Bismark 1894

Otto Von Bismark, 1894 (Foto: Bettmann/Corbis/Latinstock)

 

Resenha de Caio Blinder publicada na edição impressa de VEJA

 

Têmpera perdida

Biografia de Otto von Bismarck, o “chanceler de ferro” crucial para a unificação da Alemanha, revela um líder cuja determinação faz falta à atual Europa em crise

 

Aí estão a primeira-ministra alemã Angela Merkel, como estava o presidente francês Nicolas Sarkozy. Líderes pequenos para a gigantesca crise europeia. Nem vamos cruzar o Atlântico para as terras de Barack Obama. Basta ficar no núcleo duro da Europa (melhor esquecer a desolação na sua periferia) para sentir o drama de liderança.

Se a política é a arte do possível, como disse um grande antecessor de Merkel, o possível hoje é sofrível. Diplomata e estadista, o prussiano Otto von Bismarck (1815-1898), conhecido como “o chanceler de ferro”, foi um exímio, ambicioso e implacável executor dessa arte do possível (a frase, aliás, é dele).

Em junho de 1862, numa recepção na embaixada russa em Londres, na qual estava presente outro gigante, o futuro primeiro-ministro britânico Benjamin Disraeli, Bismarck disse: “Em breve, eu vou assumir a condução do governo prussiano. Minha primeira tarefa será reorganizar o Exército. Assim que o Exército inspirar respeito, eu vou aproveitar o primeiro bom pretexto para declarar guerra contra a Áustria, dissolver o Parlamento alemão, subjugar os Estados menores e unificar a Alemanha sob liderança prussiana”.

Disraeli anotou a bravata. Dito, possível e feito (em nove anos).

Na sua exaustiva biografia, Bismarck: A Life, publicada nos Estados Unidos pela Oxford University Press, o historiador americano Jonathan Steinberg, professor da Universidade da Pensilvânia, vende muito bem o seu peixe, o tubarão Bismarck.

O líder alemão (a rigor, prussiano) e Napoleão Bonaparte foram, afinal de contas, os estadistas de maior impacto na Europa do século XIX. E Bismarck criou o país que estaria no centro de duas guerras mundiais no século XX. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

07/09/2012

às 12:00 \ Vasto Mundo

Boa leitura para o feriadão (1) — O primeiro-ministro de Portugal: “Nosso objetivo é tirar o Estado da economia, acabar com o Estado patrão, dono de empresas. Pretendemos atrair capital novo e deixar atuar a livre iniciativa”

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Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro de Portugal: "As medidas de austeridade que estamos adotando não são a origem do problema. São parte da solução" (Foto: Mario Proença / Bloomberg / Getty Images)

O ESTADO NO SEU DEVIDO LUGAR

 

(Entrevista a Duda Teixeira, publicada na edição impressa de VEJA)

 

O primeiro-ministro de Portugal vê na crise a oportunidade para fazer reformas. Ele vai cortar os benefícios sociais de quem não precisa, privatizar estatais e abrir a economia

Para muitos economistas, Portugal está a caminho de se tornar, depois da Grécia, a próxima nação da zona do euro a afundar. A taxa de desemprego é de 15%, superior à média europeia, e o PIB deve encolher 3% em 2012.

O desafio de Pedro Passos Coelho, de 47 anos, primeiro-ministro português, no cargo desde junho de 2011, é reduzir a dívida e os gastos públicos e, ao mesmo tempo, tirar o país da recessão.

Antes de Coelho assumir, Portugal só se salvou da quebra por receber um pacote de ajuda externa no valor de 78 bilhões de euros, um terço do que foi obtido pela Grécia. Com voz de barítono, que usava para cantar fados em ocasiões privadas, Passos Coelho falou a VEJA na residência oficial do chefe de governo, o Palácio São Bento, em Lisboa.

 

O governo brasileiro quer encarecer e dificultar a importação de vinhos, incluindo os portugueses, para beneficiar os produtores da Serra Gaúcha. Qual sua opinião sobre isso?

O protecionismo, por mais que pareça dar oportunidades imediatas aos grupos nacionais, é pouco eficiente a médio e longo prazo. Quando se diminui a exposição do país à competição externa, os consumidores são obrigados a pagar um preço mais elevado por um determinado nível de consumo ou de realização de serviços.

Ora, se uma parte desse gasto for liberada para a compra de outro produto ou para investimentos, a economia no seu conjunto ganhará mais. Portanto, mais vale privilegiar a competição internacional do que proteger os nossos campeões internos.

 

O que o senhor diz aos portugueses que culpam a chanceler alemã Angela Merkel e o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy pela crise europeia?

Esse é um clichê muito difundido na imprensa. O fato de Alemanha e França procurarem soluções para a crise resultou na ideia errônea de que eles eram de certa forma responsáveis ou até beneficiários dessa situação.

Nada mais exagerado.

Primeiro porque, apesar de serem os líderes de duas das principais economias europeias, as decisões finais sobre os rumos do bloco são tomadas por um comitê mais amplo de chefes de governo e de Estado. Segundo, a situação adversa que Portugal vive hoje não veio em consequência das decisões de Merkel ou de Sarkozy.

Os desequilíbrios existentes em Portugal são resultado de más decisões tomadas por nós mesmos. Usamos mal o dinheiro, selecionamos mal os projetos de obras públicas, aumentamos os impostos para gastar em serviços de pouco valor, não flexibilizamos suficientemente o mercado de trabalho, não abrimos a economia…

Os líderes europeus não agravaram nossos problemas. Ao contrário, eles nos ajudaram a encontrar uma saída para eles.

 

Sarkozy e Merkel se reúnem em Bruxelas para conversar sobre a crise na UE (Fabrizio Bensch/Reuters)

O ex-presidente francês Nicolas Sarkozy e a chanceler alemã Angela Merkel: "os líderes europeus não causaram nem agravaram os problemas de Portugal. Os responsáveis foram nós mesmo, os portugueses" (Foto: Fabrizio Bensch / Reuters)

 

A Grécia está imersa no caos social e ainda negocia para não pagar uma parte de sua dívida. Toda a ajuda em dinheiro vinda de fora parece não ser suficiente para equilibrar as contas e superar a recessão. Alguns analistas dizem que Portugal será a próxima Grécia. Qual o risco de isso ocorrer?

Nosso país tem adotado medidas que a comunidade internacional e a União Europeia consideram bem-sucedidas. Corrigimos algumas deficiências em tempo recorde. Internamente, fizemos um acerto duro nos gastos públicos.

Apesar de a crise econômica ter reduzido a nossa receita tributária e aumentado as nossas despesas com benefícios sociais para os desempregados, conseguimos cortar o déficit estrutural em 4 pontos porcentuais.

Externamente, reduzimos o déficit na balança de pagamentos. Nesse quesito, alcançamos em dezembro de 2011 uma meta que todos esperavam ser possível atingir apenas em dezembro de 2012. Essa conquista ocorreu não apenas por causa da nossa política de austeridade, mas sobretudo porque os setores exportadores, como o têxtil e o automotivo, tiveram um desempenho superior ao previsto.

O turismo, que representa 10% do PIB, também foi muito bem. Até 2013 vamos atingir o equilíbrio nas contas externas. Isso dá aos mercados uma sensação de estabilidade e de confiança em relação a nós. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

02/09/2012

às 14:00 \ Vasto Mundo

Gilles Lapouge: para o mundo, a Europa é Angela Merkel

Presidente francês, François Hollande ao lado da chanceler alemã Angela Merkel: renovada camaradagem franco-alemã (Foto: Larry Downing / Reuters)

O presidente francês, François Hollande ao lado da chanceler alemã Angela Merkel: renovada camaradagem franco-alemã (Foto: Larry Downing / Reuters)

 

Artigo publicado hoje por Gilles Lapouge no jornal O Estado de S.Paulo

 

A VOLTA DO EIXO FRANCO-ALEMÃO

O que é que o eixo franco-alemão está aprontando? Julgávamos que estivesse perdido, fundido, que tivesse sido atirado à lata do lixo da História desde que o socialista François Hollande sucedeu a Nicolas Sarkozy na presidência, no dia 6 de maio. Nada disso! O eixo reapareceu!

Cautelosamente, na ponta dos pés. Bastaram três meses para Hollande compreender que França e Alemanha estão condenadas a se entender, a continuar atreladas ao mesmo carro que terão de puxar no mesmo passo.

Contudo, os primeiros encontros de Hollande e Merkel foram cordiais, porém tensos. O francês, desejoso de afrouxar o punho de ferro com o qual a chanceler alemã controla há alguns anos a Europa e a França, teve a ideia de contra-atacar aproximando-se dos países do Sul da Europa, especialmente Espanha e Itália.

Não era uma ideia tresloucada. Ele soube tirar algumas vantagens desta aproximação. Os três países do Sul conseguiram que Merkel moderasse suas exigências. Evidentemente, aceitaram as regras de austeridade que ela impôs a todos os membros da zona do euro, mas também fizeram Berlim ceder num ponto: a Alemanha toleraria que a Europa também tomasse algumas medidas para se recuperar.

Concretamente, a França queria consagrar por meio de uma lei fundamental a “regra de ouro”, ou seja, todos os países do euro aceitariam o compromisso de apresentar orçamentos equilibrados. Em troca, Merkel ratificaria um plano de recuperação europeu dotado de 120 bilhões.

Hollande gabou-se então de ter feito Merkel sentir o seu poder, em lugar de prostrar-se diante dela como, segundo os socialistas, Sarkozy gostava de fazer.

Triunfalismo de verão

Esse triunfalismo não durou até o fim do verão. A realidade, que havia sido escorraçada, voltou ao galope. Percebia-se que um médio e dois pequenos podem se aliar e mostrar seus pequenos músculos, mas que não podem dobrar um “grandão”.

Em outras palavras, três países da zona do euro do Sul não valem um país também da zona do euro do Norte.

Além disso, a crise da dívida europeia, longe de evaporar ao sol do verão, cresceu – na Grécia, na Itália e na Espanha. Conclusão: uma virada brutal para Hollande, que se voltou novamente para a poderosa Merkel.

Há alguns dias, o ministro das Finanças da França, Pierre Moscovici, foi a Berlim, onde anunciou que “um grupo bilateral França-Alemanha avaliará as decisões relativas à Grécia e à Espanha”.

Segundo as palavras do ministro: “Na crise da dívida, França e Alemanha serão os sustentáculos de uma solução estrutural”. E as divergências entre Paris e Berlim? Mas não há divergências! Horas mais tarde, Hollande foi ainda mais longe, declarando-se favorável a uma integração solidária dos países do euro, que deve conduzir a uma união política.

Angela Merkel é recebida na China pelo premiê Wen Jiabao: "Normal. Para o mundo inteiro, a Europa é Angela Merkel" (Foto: Jason Lee / Reuters)

Angela Merkel é recebida na China pelo premiê Wen Jiabao: "Normal. Para o mundo inteiro, a Europa é Angela Merkel" (Foto: Jason Lee / Reuters)

Onde é que Hollande vai buscar tudo isto? Não muito longe. Em Berlim, onde a chanceler não se cansa de dizer que quer mais solidariedade entre os países da zona do euro, mas com a condição de que a União Europeia exerça um controle maior sobre as políticas orçamentárias dos países membros.

E Hollande, que detesta tudo o que se parece com o abandono da soberania, ouviu religiosamente Merkel e não protestou. Absolutamente. Bem no gênero de Sarkozy.

E Merkel, neste meio tempo? A chanceler foi recebida a Pequim com grande pompa e circunstância. O primeiro-ministro, Wen Jiabao, a acolheu em Tianjin, sua cidade natal.

Normal. Para o mundo inteiro, a Europa é Angela Merkel.

29/07/2012

às 18:00 \ Vasto Mundo

Valérie Trierweiler: madame primeira-dama da França quebra o barraco

PANCADÃO Crise político-familiar: Valérie tripudia (Foto: Francois Mori / AP)

Crise político-familiar: Valérie, mulher do presidente francês, tripudia (Foto: Francois Mori / AP)

 

(Texto publicado na edição impressa de VEJA)

MADAME QUEBRA O BARRACO

Fina, intelectual, engajada? A mulher do presidente francês François Hollande mostra seu lado Carminha, briga com a ex dele e se intromete em assuntos políticos. Mas promete se controlar. Poucos acreditam que consiga

Pobre François Hollande. Administrar uma economia na zona disfuncional do euro, com pálido crescimento de 0,3%, dívida pública equivalente a 90% do PIB e o maior desemprego em doze anos não é nada comparado aos problemas familiares que contempla (…).

Complicado mesmo para o presidente francês é equilibrar a atual mulher, a ex e os filhos conjuntos, sete no total, todos em estados variados de insatisfação. As relações entre cônjuges presentes e passadas raramente são pacíficas, ainda mais quando a atual é mais nova, mais metida e mais malvada – e a transição amorosa foi iniciada muitos anos antes que a ex ficasse sabendo.

Como são todos ardorosos integrantes do Partido Socialista, talvez fosse possível manter uma entente moderadamente pouco cordial se Valérie Trierweiler, a temperamental jornalista de 47 anos que ocupa o coração de Hollande e um gabinete cheio de assessores no Palácio do Eliseu, não resolvesse detonar a ex, Ségolène Royal, com o infame tuíte que abalou Paris.

A intervenção foi tão violenta, com uma reação justificadamente tão negativa, que Valérie precisou sair de cena. Reapareceu em público no feriado nacional, o 14 de Julho, vestida com uma capa sem graça e colocada fora do palanque presidencial. Mas sem nenhuma cara de ter cedido a Bastilha. “Agora vou contar até dez antes de usar o Twitter”, tripudiou, sacudindo a cabeleira de leoa.

A ironia da encrenca familiar de Hollande é que ele e seus partidários o colocavam como o total oposto do antecessor derrotado, Nicolas Sarkozy, com seu exibicionismo e sua movimentada vida conjugal (a mulher, Cécilia, o abandonou logo depois da posse e voltou para o amante; um mês depois, a ex-modelo Carla Bruni entrou em sua vida com estrépito global).

A própria Valérie semeou entrevistas em que se punha no papel de politicamente engajada e intelectualmente refinada em comparação com Carla. Na verdade, a vida amorosa do sem dúvida discreto Hollande sempre teve complicações maiores. Durante trinta anos, ele compartilhou a estrada com Ségolène Royal.

 

PANCADÃO Hollande segura a pose, no Eliseu (Foto: Benoit Tessier / AP)

O presidente Hollande segura a pose, no Palácio do Eliseu (Foto: Benoit Tessier / AP)

Como ele, Ségolène era uma política de pouca expressão até resolver tentar a Presidência, em 2007. Na disputa interna do partido, derrotou ao próprio Hollande, que teve dificuldade para deglutir a derrota. Em compensação, ele já podia se sentir vingado. Havia anos mantinha o caso com Valérie, ela também casada, com três filhos. Logo após a derrota de Ségolène para Sarkozy, a separação foi oficializada.

Era, portanto, a traída e abandonada que teria direito a curtir mágoa eterna, mas os caminhos do coração são tortuosos. Com a vitória de Hollande, Ségolène se reaproximou do ex e estava até esperando ser a futura presidente do Congresso francês. Bastava só ser reeleita deputada, como acontecia fazia décadas.

Na cidade dela, porém, o partido estava rachado e Hollande manifestou o “apoio presidencial” à ex-mulher. Enciumada, Valérie foi ao Twitter e defendeu o adversário de Ségolène. Ségolène perdeu, como aconteceria de qualquer maneira, e o mundo político francês tremeu. Como qualquer cônjuge de político, Valérie tem direito a falar tudo o que acha dentro de casa (alguém imagina que o marido da primeira-ministra Angela Merkel não tenha uma opinião ou duas sobre o papel da Alemanha na crise grega?). Mas interferir no jogo político com base apenas em sua vantajosa posição conjugal é uma afronta às regras da democracia.

Ségolène declarou-se mortificada e, depois, o filho mais velho dela com Hollande, Thomas, disse que nem ele nem os irmãos estavam mais falando com Valérie. “Eu sabia que alguma coisa viria dela algum dia, mas não um golpe tão violento. Foi uma loucura”, fuzilou.

 

PANCADÃO O filho Thomas e a mãe agredida se revoltam (Foto: Jean-Paul Pelissier / Reuters)

O filho Thomas e a mãe agredida se revoltam (Foto: Jean-Paul Pelissier / Reuters)

Hollande viu-se, assim, em cima de um vulcão familiar. Recolhida ao silêncio obsequioso, Valérie lançou um livro, já planejado, de fotos sobre a campanha do marido. Número de fotografias em que ela própria aparece: cinquenta. Referência a Ségolène: “Sim. O homem que amo teve outra mulher antes de mim”.

A “outra”, claro, é a mãe dos quatro filhos de Hollande. “Ela agiu por ciúme e, como é inteligente, viu que errou. Como primeira-dama, ela não tem legitimidade para interferir em política”, disse a VEJA o especialista em comunicação política Arnaud Mercier, da Universidade de Lorraine.

“Os assuntos privados têm de ser resolvidos em particular”, suspirou Hollande. Só falta convencer disso suas mulheres. Uma das quais apelidada de Rottweiler.

15/05/2012

às 19:30 \ Vasto Mundo

França dá lição de tolerância e civilidade ao deixar de lado vida pessoal e romances do novo presidente

Sarkozy se despede de François Hollande, sob os olhares da namorada do novo presidente, Valérie Trierweiler (à esquerda) e da ex-primeira-dama Carla Bruni, ainda acima do peso devido à recente gravidez (Foto: AFP)

Sei que leitores mais conservadores não vão gostar muito deste post, mas acho que a França, a velha, boa e tolerante França, deu hoje uma lição de civilidade ao mundo, na posse do presidente socialista François Hollande.

Não foi apenas o clima de cordialidade em que se deu a transmissão de cargo do conservador Nicolas Sarkozy para Hollande, adversários duros durante a campanha eleitoral. Nem a confraternização com políticos de outras tendências convidados para a cerimônia – como o ex-presidente Jacques Chirac, conservador como Sarkozy e seu patrono, e que acabou, a dias da eleição, declarando que não votaria no ex-afilhado, mas em seu rival.

Nem me refiro, tampouco, ao fato de estar presente a uma cerimônia que fez parte da festa de posse, no Hôtel de Ville – magnífica sede da Prefeitura de Paris – a ex-companheira de Hollande e sua ex-rival dentro do Partido Socialista, Ségolène Royal, mãe dos quatro filhos do presidente e candidata, ela própria, ao Palácio do Eliseu em 2007, derrotada por Sarkozy.

Prefiro me deter no fato de que a vida pessoal do presidente, especialmente sua vida sentimental, passaram longe de qualquer patrulhamento. Lá estava, no Eliseu, pela primeira vez na história da V República, fundada em 1958 – e, ao que se sabe, de qualquer das repúblicas anteriores –, não a cônjuge do presidente, mas a namorada, a companheira, ou como queiram — Valérie Trierweiler, a bela e classuda jornalista de 47 anos com quem Hollande, 58 anos, está envolvido desde 2004 e com quem vive desde 2007.

(Curiosamente, a própria TV estatal francesa havia informado, na véspera, que Trierweiler não estaria no Eliseu para a cerimônia — o que registrei em post anterior).

Valerie Tierweiler, a bela jornalista de 47 anos: namoro com o presidente começou quando os dois tinham outros parceiros (Foto: revista ELLE)

Os dois não têm planos de casar, e praticamente ninguém na França deu um pio a respeito. O presidente tampouco era casado com Ségolène, com quem teve seus quatro filhos. E passou batido o fato, notório, de que seu relacionamento com Valérie, se começou em 2004, começou enquanto ele vivia com Ségolène, de quem só se separaria em 2007.

Note-se que a própria jornalista estava, àquela altura, casada com o também jornalista Denis Trierweiler, pai de seus três filhos.

Nada de muito novo, na verdade, tendo-se em conta que Sarkozy se divorciou da primeira mulher, Cecilia, durante seu mandato, começou a namorar a cantora e ex-modelo Carla Bruni – que havia tido vários relacionamentos antes, com, entre outros, os músicos Mick Jagger e Eric Clapton, já tinha um filho de um casamento anterior e ainda por cima nasceu na Itália, e não na França – e tornou-a primeira-dama ao se casar com ela em 2008. Carla Bruni tinha 40 anos. O casal presidencial acabaria tendo uma filha enquanto no Eliseu, a pequena Giulia, nascida no final do ano passado.

 

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15/05/2012

às 0:10 \ Vasto Mundo

O “presidente comum” da França toma posse hoje, em circunstâncias incomuns e num palácio nada comum

Hollande com Sarkozy no dia 8 passado, em celebração do final da II Guerra Mundial (Foto: veja.abril.com.br)

O socialista François Hollande toma posse hoje como presidente da República Francesa, a partir das 10 horas da manhã (5 da madrugada, no Brasil), numa cerimônia simples (para os padrões da França, bem entendido), em que não haverá desfiles militares de outrora nem a participação da família, como no caso de seu antecessor, Nicolas Sarkozy, que trouxe para a festa, no Palácio do Eliseu, a então mulher, Cecília, e os cinco filhos de então – uma de suas várias atitudes supostamente “americanizadas” que provocaram muxoxos nos franceses.

Hollande chegará ao Eliseu às 10 da manhã, será recebido por Sarkozy, com o qual ficará 20 minutos: o presidente lhe mostrará rapidamente o palácio, conversarão amenidades e Hollande receberá dossiês confidenciais e os códigos secretos do arsenal nuclear francês.

O pátio central do Palácio do Eliseu: em estilo clássico francês, inaugurado em 1722 como mansão de um conde (Foto: ambafrance.con.org)

Depois disso, o novo presidente prestará juramento, fará um discurso à nação e, após visitar o Túmulo do Soldado Desconhecido, no Arco do Triunfo, prestará homenagem a duas personalidades históricas e embarcará rumo a Berlim para encontrar-se com a chanceler alemã Angela Merkel. O fato de seguir para esse encontro no mesmo dia da posse dá ideia da importância que a França confere a seu relacionamento com a Alemanha.

O “presidente comum” toma posse em circunstâncias nada comuns. A Europa vive uma séria crise econômico-financeira desde 2008 e ele, durante sua campanha, se distanciou consideravelmente dos compromissos assumidos pela França no âmbito da União Europeia, que prevêem drásticas medidas de austeridade e cortes de gastos visando o equilíbrio fiscal. Defende que a Europa só sai da crise dando ênfase a políticas de crescimento, e a eventual renegociação de prazos, metas e políticas aprovadas por 26 dos 27 integrantes da União Europeia — só o Reino Unido ficou de fora — será um problema político considerável.

O “presidente comum” dispensará as gigantescas limusines de praxe e chegará ao Eliseu num Citroen DS5 híbrido – dupla mensagem sobre o que considera a excelência da indústria francesa e o interesse em energias limpas. A partir da posse, será o carro oficial do presidente.

O Citröen DS5 híbrido: a partir de agora, o carro oficial da Presidência (Foto: Peugeot-Citroën)

Seus quatro filhos assistirão a tudo de casa, pela TV, junto à mãe, Ségoulène Royal, ex-companheira de Hollande e ex-candidata à Presidência derrotada por Sarkozy em 2007. Também não comparecerá à solenidade a atual companheira do presidente, a jornalista Valérie Trierweiller – que há 22 anos trabalha na editoria de política da revista Paris-Match.

Hollande promete simplificar o protocolo espetaculoso da Presidência francesa, diz querer se aproximar da simplicidade das democracias escandinavas, pretende dispor de um esquema de segurança menos aparatoso (o atual envolve mais de 100 agentes) e tenciona diminuir o orçamento do Eliseu, próximo dos 100 milhões de euros anuais (250 milhões de reais), excluídas as viagens.

A fachada do Palácio, que dá para a Rue du Fauburg Saint-Honoré, a duas quadras da Avenida des Champs Elysées (Foto: sottolestelle.fr)

Mas não adiantou sua tentativa de permanecer em seu apartamento na Rive Gauche de Paris. “Aqui tenho meus hábitos, meus vizinhos, meu padeiro, meu jornaleiro”, declarou. “Estou em casa”.

Os serviços de segurança argumentam que continuar em sua significaria um grande transtorno para os moradores da região, devido à necessidade constante de bloqueio de ruas e outras providências normais de proteção de um chefe de Estado.

Um dos salões do Eliseu: pompa e luxos extraordinários (Foto: AFP)

Hollande, o “presidente comum”, terá, assim, que se conformar em morar e trabalhar no magnífico Palácio do Eliseu, com seu riquíssimo acervo de móveis raros, quadros, estatuetas, tapeçarias, candelabros — um palácio de pompa e luxo extraordinários.

Trata-se do antigo Hôtel d’Évreux, em estilo clássico francês, terminado de construir em 1722 para um conde, comprado em 1753 pelo rei Luís XV para sua amante, Madame Pompadour e que, depois de passar por várias outras mãos, terminou sendo propriedade do Estado francês e, desde 1873, é sede da Presidência da República.

Coragem, Hollande! Não vai ser tão ruim assim…

 

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08/05/2012

às 15:12 \ Vasto Mundo

Republico post que saiu com erros: “Insistência de François Hollande na necessidade de crescimento faz líderes da União Europeia começarem a mudar o discurso”

 

Hollande e sua companheira, a jornalista Valérie Trierweiler, antes do discurso da vitória em Tulle, na França (Foto: ctv.ca)

Amigos, este post, publicado nesta segunda, dia 7, foi ao ar incompleto e sem algumas informações relevantes. Eu o corrigi ao longo do dia, mas acho melhor republicá-lo na home page em respeito aos leitores que se interessam pelo assunto. Lá vai o texto atualizado:

Em política tudo se ajeita, e a vitória do candidato socialista François Hollande no segundo turno das eleições presidenciais na França neste domingo parece comprovar a tese.

Hollande se elegeu com uma plataforma francamente irrealista – em que promete austeridade fiscal, com o equilíbrio total das contas públicas até o final de seu mandato, em cinco anos, e simultaneamente uma volta ao crescimento, com investimentos públicos a uma volta atrás em reformas duras aprovadas por seu antecessor, o derrotado Nicolas Sarkozy, como baixar a idade-limite para a aposentadoria de 62 para 60 anos, enquanto a Europa inteira está subindo a faixa etária, em alguns casos para 68 anos.

 

Sarkozy admitindo a derrota: Hollande quer revogar várias de suas medidas (Foto: bbc.co.uk)

Isso tudo num país com uma dívida pública de 1,7 trilhão de euros (4,25 trilhões de reais), ou 86% de seu Produto Interno Bruto, e cuja nota de qualificação foi recentemente rebaixada pelas agências de avaliação de risco.

A questão é que está colando a insistência mantida pelo novo presidente durante toda a campanha, e na qual se mantém, de que a Europa deve mudar o discurso da austeridade para enfatizar, sem prejuízo da preocupação fiscal, para o desenvolvimento – “a austeridade não deve ser uma fatalidade”, disse ele no discurso de vitória na cidade de Tulle, na região de Limousin, no centro do país.

Está colando porque, afinal, a França é a França, baluarte da União Europeia, a segunda maior economia da Europa e a quinta do mundo.

O presidente eleito anunciara durante a campanha que, sem a elaboração de um pacto pelo crescimento, a França deixaria o Pacto Orçamentário Europeu, aprovado e assinado no final do ano após duríssimas negociações por 25 dos 27 países da União Europeia que, entre outras medidas, introduziu a chamada “regra de ouro”, limitando legal e/ou constitucionalmente o déficit orçamentário dos membros da UE e atribuindo à Corte de Justiça da Europa, com sede em Luxemburgo, o poder de sancionar os governos que não cumpram os limites.

Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu: crescimento e austeridade não são incompatíveis (Foto: veja.abril.com.br)

Hollande rechaçou durante a campanha os princípios fundamentais do Pacto Orçamentário. Propôs, por exemplo, flexibilizar (ou seja, alongar) os prazos já combinados para que os países reduzam seu déficit público e sua dívida – em vez de 2013, espichar para 2017 –, introduzir medidas que favoreçam o crescimento, e renegociar a filosofia supranacional do acordo – que é o coração de tudo o que foi pactado.

Quer, também, entre outros objetivos, que o Banco Central Europeu não mais irrigue o sistema monetário por meio de empréstimos a bancos, mas aos governos. Os bancos recebem dinheiro a juro quase zero e, com ele, compram títulos que lhes dão renda — mas não investem nem emprestam. Governos, argumenta Hollande, fariam girar a roda da economia por meio de investimento público com os avancos do BCE.

Hollande, não tenham dúvidas, não conseguirá manter essas posturas, porque não interessa à França criar impasses insolúveis à União Europeia da qual, desde os anos 50, é um dos esteios. Mas seu discurso ao longo da campanha já rendeu concessões à necessidade de investimentos de parte de uma penca de líderes europeus.

Passaram nos últimos dias a mencionar políticas de desenvolvimento desde o presidente da União Europeia, o belga Herman Van Rompuy, ao presidente da Comissão Europeia – algo como o primeiro-ministro da União –, o português Durão Barroso, passando pelo primeiro-ministro da Itália, Mario Monti, e o poderoso presidente do Banco Central Europeu, o também italiano Mario Draghi, que decretou: “Não há incompatibilidade entre rigor fiscal e políticas de crescimento”.

O entendimento franco-alemão -- que Sarkozy e Angela Merkel mantiveram em nível elevado -- foi desde os primórdios base para a União Europeia. O desafio de Hollande é mantê-lo (Foto: AFP)

Uma vez no Palácio do Eliseu, a primeira tarefa de Hollande será acertar-se com a chanceler alemã Angela Merkel, mentora das políticas de austeridade europeias. Merkel telefonou ontem mesmo para o novo presidente francês convidando-o para um encontro em Berlim, e o governo, em nota oficial, expressou seu desejo de manter os “fortes laços de amizade” da Alemanha com a França.

Merkel disse que receberá o novo presidente “de braços abertos”, mas, em recado que não poderia ser mais claro, afirmou que acordos complexos como o Pacto Fiscal “não podem ser revistos a cada eleição”. O eixo franco-alemão é a base da União Europeia desde seus primórdios e, no enfrentamento da atual crise, Merkel teve o agora quase ex-presidente Sarkozy como firme aliado na defesa das principais medidas, a ponto de cunhar-se o termo “Merkozy” para batizar o entendimento da dupla de governantes.

Não parece verossímil que ela e Hollande deixem de se entender — governos mais à direita na França e mais à esquerda na Alemanha, e vice-versa, vêm se entendendo e superando divergências há mais de cinco décadas.

Poderá contribuir para o abrandamento da posição alemã — algo como não arredar pé do equilíbrio nas contas públicas, mas fazer concessões na direção do crescimento — o fato de a própria Merkel não andar lá tão bem das pernas eleitoralmente dentro da própria e próspera Alemanha.

Neste mesmo domingo, seu partido, o democrata-cristão CDU, ganhou sem maioria, por diferença mínima, as eleições no importante Estado de Schleswig-Holstein, onde fica Hamburgo, como tem acontecido em outras eleições regionais. Não há certeza de que ela própria se reeleja para a função que ocupa desde 2005. O mandato de Merkel vai até outubro do ano que vem.

08/05/2012

às 14:00 \ Vasto Mundo

J. R. Guzzo: em relação à França e às eleições, o fato que realmente interessa é que se trata de um dos países mais bem-sucedidos do mundo — um país de verdade, e não um parque de diversões

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François Hollande: "A mudança é agora", e a segunda-feira amanheceu igual na França. Ainda bem. (Foto: Veja.com)

Amigos, este artigo do jornalista J. R. Guzzo está estampado na edição de VEJA que está nas bancas. Foi, portanto, escrito antes das eleições francesas.

Mas suas considerações são tão inteligentes, pertinentes e saborosas que não resisti: publico no blog.

Vale muitíssimo a pena. Deleitem-se.

MELHOR ASSIM

 

J. R. Guzzo

J. R. Guzzo

O presidente Nicolas Sarkozy assumiu em 2007 seu cargo, do qual pode estar se despedindo neste fim de semana, com a promessa de construir nada menos do que uma “nova França” – tarefa realmente ambiciosa, num país que está aí há uns 2000 anos e já viu mais ou menos tudo o que poderia ter visto.

O resultado final de todos os seus esforços é que a França de hoje continua muito parecida, no bom e no ruim, com a de cinco anos atrás – e, pelo que tem ensinado a experiência, a França de daqui a cinco anos será muito parecida com a de hoje.

Não é, naturalmente, o que dizem os políticos, a mídia e quem se dedica a explicar como o mundo funciona; anunciam graves consequências para a França, a Europa e o alinhamento dos planetas no sistema solar caso neste segundo e decisivo turno das eleições presidenciais Sarkozy consiga se segurar em sua cadeira – ou se, ao contrário, tiver de passá-la para o candidato da oposição e favorito, François Hollande.

O primeiro é o campeão da “direita”, o segundo o campeão da “esquerda” e ambos pregam programas opostos entre si. Um garante que se o outro ganhar a França se transformará numa ruína praticamente imediata. Mas no mundo das realidades, seja quem for o vencedor, a França acordará nesta segunda-feira com a mesma cara que tinha na véspera.

É uma boa notícia. A França de hoje tem muito mais do bom do que do ruim – e nesses casos o melhor que pode lhe acontecer é ir se segurando mais ou menos onde está.

O fato que realmente interessa, e do qual bem pouco se fala, é o seguinte: a França é um dos países mais bem-sucedidos do mundo. Tem problemas, claro, e alguns deles são até reais. Mas é um país de verdade, com 65 milhões de habitantes, e não um parque de diversões – e tem uma situação admirável para quem chegou a esse porte.

Não há um único buraco em seus 11 000 quilômetros de autoestradas de primeiríssima classe. O trem-bala existe; está sempre no horário, mantém velocidade média de 300 quilômetros por hora e sua rede já é cinco vezes maior que o trajeto entre Rio de Janeiro e São Paulo. A França tem um PIB per capita acima dos 42 mil dólares anuais.

Na França, o trem-bala é real e chega na hora (Foto: Divulgação)

Na França, o trem-bala existe, anda a uma média de 300 km/h e chega na hora; a França produz muito mais do que o Brasil, num território equivalente a 6% do nosso, e com um terço da população. O cidadão francês não sabe o que é um assalto à mão armada, nunca ouviu falar em firma reconhecida e, lá, a classe C emergiu há 100 anos (Foto: Divulgação)

Soube aproveitar com inteligência, rapidez e eficácia todo o avanço tecnológico das últimas décadas. Produz mais que o Brasil, num território equivalente a 6% do nosso e com um terço da nossa população. O salário mínimo é cinco vezes superior ao brasileiro, a saúde pública é impecável e a classe C já emergiu 100 anos atrás.

O cidadão francês não sabe o que é um assalto a mão armada, e não tem a menor ideia do que possa ser um arrastão em prédios de apartamento. Nunca ouviu falar em firma reconhecida, nem em desabamento de morros. Desconhece a existência de filas de ônibus. Rouba-se pouco, e jamais com prejuízo para os serviços públicos.

Os fiscais não extorquem: apenas fiscalizam. A soma de todas as suas dificuldades, considerando-se a vida como ela é, parece uma brincadeira quando comparada à de certos Brics, a começar pelo que é representado na letra B.

A França, certamente, tem complicações sérias, como o desemprego e a invasão de seu território pelos pobres do mundo que, por bem ou por mal, querem emigrar para lá. Também tem uma paixão mal resolvida, e provavelmente sem solução, pelo “Estado forte”, a quem se atribui poderes comparáveis aos de Nossa Senhora de Lourdes. Já conseguiu ter um Ministério da Educação e outro do Ensino Público, e mantém curiosidades como o Ministério da Coesão Social ou o da Ruralidade.

Sarkozy, com o seu estilo MMA de governar, não conseguiu diminuir nenhum desses problemas; também não os tornou piores do que eram ao assumir. Hollande, que carrega o malvado apelido de “Pudim” e tem como principal destaque de sua carreira o fato de nunca ter se destacado em nada, parece o homem certo para repetir o mesmo trajeto.

Melhor para a França. Ela tem a sorte de não precisar dos seus políticos para conservar tudo aquilo que já soube construir.

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Um presidente fã de Jimi Hendrix: o tempo passa (Foto: AP)

Era costume dizer que um dos primeiros sinais da velhice aparece quando o indivíduo começa a ser chamado de “senhor” pelo médico (ou, pior ainda, pelo padre), e já trata um e outro de “você”.

François Hollande acaba de dar uma nova contribuição para as práticas populares de contagem do tempo. Em sua juventude, foi um fã entusiasmado de Jimi Hendrix – e, quando alguém que pode tornar-se presidente da França tem no seu álbum de ídolos alguém como Jimi Hendrix, ficamos avisados, mais uma vez, de que a vida está passando depressa.

07/05/2012

às 19:45 \ Vasto Mundo

Veja porque a derrota dos conservadores no Reino Unido não significa “virada” à esquerda

O primeiro-ministro David Cameron cumprimenta o prefeito conservador de Londres, c, reeleito (Foto: mirro.co.uk)

Setores de esquerda já estão enxergando uma “virada” na Europa com a derrota do presidente conservador Nicolas Sarkozy na França pelo socialista François Hollande.

E estão colocando no bolo a lambada que os conservadores britânicos, os tories, levaram nas recentes eleições municipais parciais: os trabalhistas ficaram com 38% dos votos, os conservadores 31% e seus aliados liberais, 16%.

Os números, de fato, são bonitos para os trabalhistas: das 181 cidades em que se realizaram eleições, eles obtiveram o controle de 75 (32 mais do que têm atualmente), os conservadores perderam 12, ficando com 42, e os liberais caíram de 7 para 6. Em números de conselheiros municipais, cresceram espetacularmente, passando dos 823 que detinham para 2.158, enquanto os conservadores desabavam de 1.410 para 1.005 e os liberais, percentualmente mais ainda, de 767 para 431.

Os trabalhistas venceram a primeira eleição direta para prefeito em Liverpool, terra dos Beatles e a nona maior cidade do Reino Unido (na maioria das cidades, vige o parlamentarismo, com o partido majoritário escolhendo, entre os conselheiros ou vereadores, o prefeito). E recuperaram o controle da segunda maior cidade da Inglaterra, Birmingham, além de Glasgow, na Escócia, e de Cardiff, no País de Gales.

A joia da coroa, porém – Londres –, ficou com os conservadores, com a reeleição do prefeito tory Boris Johnson.

De todo modo, impõem-se três comentários:

1) foram apenas eleições municipais;

2) o primeiro-ministro conservador David Cameron ainda tem três longos anos de mandato pela frente e, principalmente…

3) o tédio e o desinteresse do eleitorado foi a grande marca dessas eleições, em que o voto, como sempre, não foi obrigatório: apenas 32% dos eleitores compareceram.

Por comparação, veja-se o que ocorreu na eleição presidencial francesa: 81% dos eleitores votaram.

Cedo demais para se falar em qualquer “virada”.

 

 

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