05/05/2013
às 16:00 \ Tema LivreENTREVISTA: Carla Bruni-Sarkozy, ex-primeira-dama, ex-modelo, cantora e compositora: o belo fruto de um caso de amor. Ela fala até de seu pai biológico, que vive no Brasil

Carla Bruni: "Eu estava profundamente apaixonada. Ainda estou, mas o começo de um relacionamento é um momento único" (Foto: Nicolas Guerin / Getty Images)
Entrevista concedida a Tatiana Gianini, de Paris, publicada em edição impressa de VEJA
CARLA BRUNI-SARKOZI, O BELO FRUTO DE UM CASO
A cantora e ex-primeira-dama da França fala do pai biológico, que vive no Brasil, e diz que acorda o marido, Nicolas Sarkozy, para mostrar as canções que compõe no meio da noite
Ao entrar na sala do hotel Saint James Paris para a entrevista com Carla Bruni, encontrei a ex-primeira-dama da França (2008-2012) comprimindo as costas contra a quina de uma parede, gemendo:
– Ai, a gente passa o dia carregando filho e fica com uma dor na lombar…!
A cena seria algo constrangedora se tivesse sido protagonizada por outra mulher. Mas sendo Carla Bruni ficou sensual.
É impossível dissociá-la da sensualidade, atributo que exala também nas canções que compõe e canta, as últimas reunidas no CD Little French Songs, lançado neste mês. Italiana de Turim, naturalizada francesa, a ex-modelo de 45 anos tem uma menina de 1 ano e 6 meses com o ex-presidente Nicolas Sarkozy e um filho de 11 anos de um relacionamento anterior.
Entre uma tragada e outra de um cigarro eletrônico – que contém nicotina, mas produz um vapor sem cheiro -, Carla falou sobre o pai biológico, Maurizio Remmert, e sobre a vida fora do Palácio do Eliseu.
Na música Pas une Dame, a senhora afirma ser “o fruto do acaso da existência incerta”. Trata-se de uma menção ao fato de ter descoberto, aos 28 anos, que era filha de um amante de sua mãe?
A expressão “o fruto do acaso” fala sobre mim, sobre a forma como nasci e sobre o fato de eu ter tido dois pais – o que é melhor do que não ter tido nenhum, diga-se de passagem.
As músicas têm uma origem pessoal, mas, como artista, eu busco entender como os momentos da minha vida podem alcançar as experiências dos outros.
A ideia da existência incerta vale para todos. Não temos certeza de nada nesta vida, além da morte. Se alguém acha que terá um marido ao lado para sempre, está enganado. Pode-se perdê-lo amanhã. Por isso, é preciso cuidar dele.

"Se alguém acha que terá um marido ao lado para sempre, está enganado. Pode-se perdê-lo amanhã. Por isso, é preciso cuidar dele" (Foto: Michael Kappeler / AFP)
Como ocorreu a aproximação com seu pai biológico?
Pouco antes de morrer, meu pai de criação (o industrial e compositor clássico Alberto Bruni Tedeschi), que até então eu pensava ser o único, me disse que eu tinha outro pai, biológico.
Perguntei a minha mãe se aquilo era verdade. Ela confirmou a história, meio sem graça. Só disse: “Pois é… é verdade”.
Então eu procurei o Maurizio. Ele tinha fotos antigas que minha mãe lhe enviava desde os meus tempos de modelo. Os dois sempre estiveram em contato, mas ela nunca me contava nada!
Somos italianos, muito carinhosos e alegres. Não foi um momento negativo da minha vida, e sim de felicidade. De repente, descobri que tinha uma nova irmã, Consuelo.
O que a senhora tem em comum com seu pai?
Maurizio é meu único parente que, como eu, toca violão. Nessas horas, não há como negar a herança genética.
Eu comecei a tocar aos 7 anos sem ter a influência nem conhecer os hábitos do meu pai biológico. Eu me pareço muito com ele. Foi estranho quando o encontrei. Maurizio era a peça perdida do meu quebra-cabeça. Antes de conhecê-lo, eu me sentia como a imagem inconclusa de um jogo de montar.
Seu pai vive em São Paulo. Vocês se encontram com frequência?
Não muita, infelizmente. Algumas vezes, ele vem a Paris. Em outras, vamos ao Brasil.
Maurizio me levou a Jericoacoara e a Fortaleza. Foi maravilhoso. O Brasil é um dos países mais lindos do mundo. Gostaria de ter tempo para visitá-lo com mais calma.
A senhora tinha todos os atributos normalmente associados a uma primeira-dama ou teve de aprender?
Cada mulher que assume esse papel tem de desempenhá-lo à sua maneira.
É muito difícil julgar. Recebi muito apoio de minha antecessora, Bernadette Chirac. Como ela foi primeira-dama por doze anos, conhecia o Palácio do Eliseu como ninguém. Para me beneficiar dos seus conselhos, eu a convidei para almoçar diversas vezes.
Eu me tornei francesa quando me casei (nove meses depois de Sarkozy assumir a Presidência), e precisava aprender mais sobre o país. Bernadette me deu ótimos conselhos. Um deles é que, para uma primeira-dama, a melhor coisa a fazer é trabalho humanitário.
Trata-se de uma boa oportunidade de ajudar os outros, porque abre muitas portas. Eu pude me dedicar mais à minha luta incansável contra a aids (seu irmão Virginio morreu da doença, em 2006). Como parte de minhas iniciativas contra a aids, visitei Benin, Burkina Faso e outros países africanos.
Em 2010, a senhora divulgou uma carta pública contra o apedrejamento da iraniana Sakineh Ashtiani. Como primeira-dama, gostaria de ter tido mais liberdade para levantar a voz contra aquilo que lhe causava indignação?
Naquele episódio, não fiz mais do que escrever a carta. Quando se ocupa a posição de primeira-dama, é preciso respeitar o fato de que o posto é muito maior do que você. Não se tratava de mim, de minha opinião.
Mesmo agora, durante a campanha de divulgação de meu novo disco, muitas vezes sou indagada sobre temas políticos. Adoraria responder a essas perguntas. Não o faço porque, sendo casada com um político, é difícil dar minha opinião.
Minhas ideias sempre seriam confundidas com o pensamento de meu marido, como se ele estivesse falando por meu intermédio.
Apesar disso, a senhora se posicionou a favor do casamento gay. Sarkozy é contra. Como a senhora lida com diferenças de opinião como essa?
Isso é diferente, porque o mundo caminha para a liberação do casamento entre homossexuais.
Meu marido e eu não precisamos ter a mesma opinião. Ele tem um enorme talento para o convencimento. Eu me guio mais pela emoção.
Qual foi sua maior gafe como primeira-dama?
Sempre fui muito cuidadosa, mas cometi gafes. Um dia, estava dando uma entrevista quando meu marido apareceu para dar um oi. Quando saiu, comentei: “Ele trabalhou a noite toda, pauvre chou (pobrezinho)”. No dia seguinte, o apelido estava em todos os jornais.
A senhora se sentia solitária como primeira-dama?
Não, de maneira nenhuma. Eu tinha meu marido, os quatro filhos para cuidar (incluindo os três do casamento anterior de Sarkozy) e o trabalho humanitário.
Havia sempre muita gente ao redor e eu estava profundamente apaixonada. Ainda estou, mas o começo de um relacionamento é único. Prefiro estar sozinha ao compor, mas no resto do tempo sou sociável.
A julgar pela letra da canção Liberté (Liberdade), do seu novo CD, a senhora se sentiu aliviada ao deixar o Eliseu.
Liberté foi escrita em parte enquanto eu era primeira-dama e em parte depois. Eu quis fazer uma declaração de independência com essa música, talvez porque de fato eu esteja mais livre agora que deixei de ser primeira-dama.
No entanto, essa canção é ambivalente. Acredito firmemente que a liberdade precisa de restrições para prosperar.
A liberdade completa não passa de anarquia. É um conceito sedutor, mas perigoso. Quando se tem filhos, entende-se melhor quanto a liberdade total é tóxica para o ser humano. Limites são necessários.
Costumo dizer que, para erguer uma casa, é preciso construir paredes, os limites. Quando está livre de obrigações, o ser humano não tem de se preocupar com nada, tampouco tem com quem se preocupar. É quando se está livre e, ao mesmo tempo, sozinho.
A recém-conquistada liberdade também consiste em poder vestir jeans, e não apenas roupas formais?
Nunca abandonei totalmente os jeans. O que tentei fazer como primeira-dama foi honrar a tradição francesa de elegância.
Na França há excelentes estilistas de alta-costura. Eu concluí que, para representar o país, não deveria usar jeans. Foi um prazer para mim difundir a cultura da França dessa forma, fazendo jus à sua reputação de elegância e beleza.
Que comentário a senhora faria sobre o estilo de Michelle Obama?
Ela é fantástica, assim como a mulher do premiê inglês David Cameron, Samantha.
Michelle tem uma pele linda, fresca como uma rosa.
A beleza, depois de certa idade, está muito mais ligada à elegância, à simpatia e à inteligência. Até os 35 anos de idade, mesmo uma pessoa desagradável pode ser considerada bonita. Depois, não mais.
Qual é o seu limite quando se trata de manter uma aparência jovem?
Quando eu era mais nova, costumava cuidar muito da pele com protetor solar e tratamentos a laser, para tirar manchas e pequenas rugas. Meu rosto e meu corpo eram minhas ferramentas de trabalho como modelo.
Agora, eu me importo bem menos com isso. Não sou contra a cirurgia plástica, mas acho que meu rosto ficaria um pouco diferente se eu fizesse alguma intervenção. Não uso toxina botulínica porque só se pode colocá-la aqui (ela franze a testa para mostrar as linhas de expressão).
A pele muda, não importa o que se faça. Além disso, não é sexy ter a pele lisinha aos 50 anos. Fica artificial. A idade de qualquer pessoa pode ser descoberta quando se olha para seu cabelo ou se escuta sua voz.
Mas, se existisse uma pílula que rejuvenescesse vinte anos sem exageros, eu tomaria agora mesmo.
A senhora é mais alta do que seu marido. Precisou abrir mão dos sapatos com salto?
Sou mais alta do que a maioria das pessoas, não só dos homens, e não gosto disso.
Salto alto é lindo, mas é uma tortura para os pés e para as costas. Só uso sapatos assim quando não tenho escolha. Quando chego em casa, fico louca para tirá-los.
Costuma-se dizer que as francesas não se sentem culpadas por amamentar os filhos por pouco tempo. A senhora também não?
Eu nasci na Itália. Talvez por isso tenho uma forma diferente de lidar com meus filhos. Eu adorava quando eles eram bebês de colo. Agora tenho babá para me ajudar, mas naquela fase eu fazia tudo sozinha.
Tive sorte de não precisar voltar ao trabalho logo após o parto. Na França, a licença-maternidade é muito curta. Em alguns casos, de apenas dois meses.
Amamentei Aurélien por sete meses e Giulia por cinco. Eu me preocupo mais com meu filho do que com minha filha, porque acho que as mulheres são mais fortes do que os homens. Não tenho medo de ele ser frágil fisicamente, mas sim psicologicamente. Por instinto, acho que os homens precisam de mais proteção.
Há uma canção sobre uma prece em seu disco. A senhora é religiosa?
É uma reza sem Deus. Gosto de fazer isso quando estou confusa ou desesperada.
Em seu álbum anterior, há uma referência à cocaína em uma canção de amor sobre Sarkozy. A senhora mostra suas músicas ao marido quando está compondo?
Meu pobre marido é minha cobaia. Não só mostro as letras a ele como canto e toco. Às vezes faço isso no meio da noite, que é quando componho e fico ansiosa para ter uma avaliação do que fiz.
Aliás, toda a família é minha cobaia. Mostrar meu trabalho aos outros é a melhor forma de saber o efeito que ele terá no público.
Le Pingouin descreve um homem sem charme, apesar do ar de “pequeno soberano”. A senhora já negou que essa música seja uma referência ao presidente François Hollande, que derrotou Sarkozy nas eleições do ano passado. O que a irrita nas pessoas?
Não gosto de indelicadezas desnecessárias, como quando alguém lhe diz: “Nossa, como você engordou”. Sim, pessoas assim existem. Ou quando, no ônibus, cansada, às vezes grávida, ninguém se digna a oferecer-lhe o assento.
Mas a senhora anda de ônibus?
Peguei o metrô recentemente. Com uma roupa mais esportiva, um boné e sem maquiagem, não sou reconhecida. Ou então ninguém dá a mínima.
A senhora foi top model e primeira-dama, é mãe de dois filhos e tem uma carreira musical respeitável. O que vem agora?
A segunda parte da vida não é tão fácil. Amigos morrem, a gente morre. Não quero ser muito dramática. Gostaria que minha vida permanecesse como está. Se eu pudesse abrir mão de tudo o que tenho por algo, seria pela saúde e pela felicidade das pessoas que amo.
Primeira-dama, nunca mais?
Não penso nisso. Não é algo que dependa de mim.
Tags: "Liberté", "Little French Songs", "Pas une Dame", aids, Alberto Bruni Tedeschi, apedrejamento, Bernadette Chirac, Carla Bruni, Casamento gay, cirurgia plástica, David Cameron, François Hollande, Maurizio Remmert, Michelle Obama, Nicolas Sarkozy, Sakineh Ashtiani, Samantha Cameron


















































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