12/01/2013
às 14:00 \ Música no BlogBeatles: documentário de Scorsese é o épico necessário sobre George Harrison
Publicado originalmente em 2 de novembro de 2011.
Por Daniel Setti
Living in the Material World, documentário de Martin Scorsese sobre George Harrison (1943-2001) – que já começa a estar disponível no Brasil em DVD e, extra-oficialmente, na internet – é, além de um evidente deleite para os fãs do quiet beatle, um épico audiovisual necessário, em se tratando da importância dos Beatles e das quatro pessoas que o integraram. E que vale a pena ser assistido no cinema. Torçamos para que os distribuidores brasileiros não deixem passar esta oportunidade.
Assisti ao filme de três horas e meia em sessão ocorrida segunda-feira na edição barcelonesa do In-Edit, festival inteiramente de dedicado a documentários musicais que já foi organizado também em países como Brasil, Argentina e Chile. Diante de uma telona e na companhia de uma sala organizadamente lotada, a experiência vale ainda mais.
Documento definitivo
Se a história dos Beatles já fora muito bem contada em Anthology (1995) e John Lennon é foco de diversas produções do gênero – só para citar duas, as ótimas Imagine (1988) e The U.S. vs John Lennon (2006) –, faltava que alguém se debruçasse sobre as trajetórias individuais dos outros rapazes de Liverpool. Os próximos devem ser, obviamente, Paul e Ringo. (Uma pena saber que, ao prevalecer a lógica comercial mórbida do mercado, eles só ganharão os seus relatos documentais definitivos quando não estiverem mais aqui.).
Living in the Material World exerce o devido papel de documento essencial. em primeiro lugar, por abraçar toda a preciosa obra de George, desde quando estreou como compositor em disco com “Don’t Bother Me”, incluída timidamente em With the Beatles (1963) – e desafiando a tirania da dupla Lennon-McCArtney -, às últimas canções que criou antes de morrer (material transformado no ótimo disco póstumo Brainwashed, de 2002).

O casal Nancy Shevell e Paul McCartney, Yoko Ono, Olivia Harrison, viúva de George, Barbara Bach e o marido, Ringo Starr, na estreia do documentário, dia 2 de outubro em Londres (Foto: Dave Hogan - Getty Images)
Entre os dois momentos, esmiúçam-se, com áudio, vídeo e fotografias, as joias eternas que escreveu para os Beatles e sua carreira solo, que começou oficialmente com o sublime álbum All Things Must Pass (1970). Espécie de fio condutor da trilha sonora do documentário, o repertório da bolacha tripla mostrou o quanto Harrison vinha acumulando criatividade durante os últimos anos do grupo, sem que pudesse ver suas músicas publicadas.
Retrato íntimo
Outro mérito de Scorsese foi trazer à tona muito mais da vida pessoal do reservado rockstar do que qualquer fã está acostumado, sem que tal iniciativa descambe para a fofoca ou o sensacionalismo tardio. A história do astro, afinal de contas, ajuda a entender sua obra.
Entre os entrevistados estão seus irmãos Harry e Peter, a primeira mulher, Pattie, e a segunda, Olivia, com quem esteve casado entre 1978 e sua morte, 23 anos depois. Ambas tratam de assuntos espinhosos: Pattie, de como trocou George por um de seus melhores amigos, Eric Clapton (outro participante, e que também aborda o tema), e Olivia, ainda que com extrema delicadeza, sugerindo as dificuldades do guitarrista em manter-lhe a fidelidade.
Completa o lado mais íntimo do documentário a presença do filho do casal e único filho de George, Dhani (atualmente com 33 anos), confidenciando as aparições do pai em seus sonhos e narrando, em off, as cartas que o então jovem roqueiro escrevia aos seus pais durante as intermináveis e exaustivas turnês dos Beatles.
Interesses ecléticos, amizades idem
A respeitosa investigação da vida privada de Harrison arquitetada por Scorsese também passa pela compreensão da ampla gama dos interesses do músico.
Em 1966, quando a beatlemania ainda ensurdecia os estádios do mundo, George já mirava a imersão espiritual por meio da cultura e religião indiana, algo que influiria decisivamente não apenas em sua música, mas que também levaria até o fim de sua vida; na década de 1970, enquanto outros superastros abraçavam a megalomania, ele inaugurava a era dos concertos beneficentes a vítimas da guerra Índia-Paquistão (1971) que levou à independência da miserável Bangladesh, ou pagava do seu próprio bolso as revolucionários filmes do coletivo humorístico britânico Monty Python. Nas horas vagas, ainda se dedicava a hobbys como acompanhar de perto o automobilismo esportivo.
Ao atuar em áreas tão diferentes áreas, Harrison colecionou um clube de amigos que eram, ao mesmo tempo, seus ídolos e admiradores. Um grupo cujo ecletismo é louvado por um de seus integrantes, o cultuado diretor Terry Gilliam (um dos fundadores do Monty Phyton). Não à toa, entre os entrevistados estão também o ex-campeão de Fórmula 1 Jackie Stewart, a atriz/cantora Jane Birkin, a fotógrafa Astrid Kirchherr e o excêntrico produtor musical Phil Spector.
Além deles, músicos como Ravi Shankar – também seu guru espiritual –, Tom Petty e, claro, Paul McCartney e Ringo Starr (contribuindo com um lindo e emocionado depoimento final), comparecem, intercalados com antigas respostas dadas por Lennon e pelo próprio George. Em alguns casos, relatando exatamente as mesmas histórias e com as mesmas palavras de Anthology. Único pecado do filme, aliás, juntamente com o reaproveitamento de entrevistas do épico sobre os Beatles. Fora isso, são 208 minutos a serem saboreados até a última nota musical.
(Mais sobre música neste link)
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