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Marisa Letícia

03/12/2012

às 16:40 \ Política & Cia

REPORTAGEM INDISPENSÁVEL: O escândalo Rosegate — uma mulher que sabe demais

DUAS DÉCADAS -- Lula pediu a Dilma Rousseff que mantivesse Rose na chefia do escritório da Presidência em São Paulo. Lula e Rose são próximos há quase 20 anos (Fotos: Denise Andrade :: Conteúdo Estadão)

DUAS DÉCADAS -- Lula pediu a Dilma Rousseff que mantivesse Rose na chefia do escritório da Presidência em São Paulo. Lula e Rose são próximos há quase 20 anos (Fotos: Denise Andrade :: Conteúdo Estadão)

Por Otávio Cabral, Laura Diniz e Rodrigo Rangel, reportagem de capa da edição de VEJA que está nas bancas

 

UMA MULHER QUE SABE DEMAIS

Quem é e como agia a ex-secretária Rosemary Noronha, cuja intimidade com Lula lhe rendeu prestígio e um cargo central no governo, que ela usava para bisbilhotar o poder, fazer nomeações e ajudar uma quadrilha especializada em vender pareceres falsos e enriquecer empresários trambiqueiros.

Lula, como sempre, não sabe de nada.

Quando passou a faixa presidencial a Dilma Rousseff, em 2011, Luiz Inácio Lula da Silva apresentou à sua sucessora o nome de quatro pessoas que ele não gostaria de ver desamparadas: sua secretária pessoal, o chefe da equipe de segurança, o curador do acervo do Palácio do Planalto (esse a pedido da ex-primeira-dama Marisa Letícia) e Rosemary Nóvoa de Noronha.

Dos quatro, Rosemary era, de longe, quem mais tinha intimidade com o ex-presidente. Ex-bancária e ex-secretária por ele alçada à chefia do gabinete da Presidência da República em São Paulo em 2003, Rose chamava seu benfeitor de “chefe”, mas volta e meia fazia questão de deixar escapar um “Luiz Inácio” diante de colegas e amigos.

Visitas à cabine privativa do Aerolula

Nas 28 viagens internacionais que fez ao seu lado, como integrante da comitiva oficial, o acesso irrestrito ao superior incluía visitas à cabine privativa do Aerolula, de onde – conta um colaborador do governo – ela saía toda prosa. “O chefe agora vai descansar. Não quer ser incomodado.”

Chamada de “madame” pelos muitos desafetos que colecionou ao longo dos dois mandatos de Lula. Rose sempre teve prazer em exibir seu status de protegida do presidente. Em algum momento, decidiu também ganhar dinheiro com ele.

Até onde mostraram as investigações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, não chegou a fazer fortuna. Rose, 57 anos, foi indiciada na Operação Porto Seguro, que terminou com a prisão de seis pessoas. Entre elas, estão os irmãos Paulo e Rubens Vieira, diretores da Agência Nacional de Águas (ANA) e da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) respectivamente — já libertados.

Enriquecendo diretores de agências e empresários trambiqueiros

A julgar pelos e-mails e telefonemas interceptados pela polícia, ambos chegaram ao cargo por influência de Rose, que pediu as nomeações diretamente a Lula. Ao contrário da ex-secretária — mas com a ajuda dela –, os irmãos não só fizeram fortuna como contribuíram para deixar mais ricos um número não conhecido de empresários trambiqueiros.

Por encomenda deles, concluiu a PF, a dupla subornava funcionários públicos para que produzissem pareceres técnicos favoráveis aos seus “negócios”. O papel de Rose era facilitar o acesso dos Vieira a políticos e funcionários de interesse da quadrilha. Para isso, ela invocava frequentemente os nomes de Lula, o “PR” (jargão usado no funcionalismo para se referir ao presidente da República), e de José Dirceu, o “JD”.

Quando conheceu os dois, nos anos 90, Rose era uma morena de cabelos longos e contornos voluptuosos que, trabalhando como bancária, passou a frequentar o sindicato da categoria em São Paulo. Ex-colegas daquele tempo lembram que ela chegou a participar de plenárias e discussões partidárias, mas nunca se destacou como dirigente. Fazia mais sucesso nas festas que aconteciam nas quadras do sindicato, que ficava ao lado da sede nacional do PT, no centro da cidade.

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A afinidade entre a categoria e o partido contribuiu para que ela logo chamasse a atenção dos chefes petistas, como o então deputado José Dirceu, de quem se aproximou. Ele a contratou como secretária logo depois.

Aprofundando a proximidade com Lula

Meses mais tarde, Rose começou a circular em torno de Lula, então candidato derrotado duas vezes em disputas à Presidência. A partir daí, embora oficialmente continuasse a trabalhar para Dirceu, passou a organizar a agenda de Lula e cuidar de suas contas. A proximidade entre os dois se aprofundou ao longo dos anos.

Quando Lula chegou ao poder, criou um escritório para a Presidência da República em São Paulo, na esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta, e Rose foi imediatamente encaixada na lista de funcionários.

Foi ela a responsável pela reforma do escritório e sua decoração, que inclui um grande mural do petista chutando uma bola com a camisa do Corinthians e, sobre os sofás, almofadas revestidas com reproduções de fotos do ex-presidente. Logo após a reforma. Rose foi promovida a chefe do escritório, com salário de 11.000 reais.

Acompanhando Lula em viagens em que Marisa não ia

A partir daí, a ex-secretária ascendeu a um novo patamar. Nas viagens internacionais a que Marisa não ia (contam amigos que a ex-primeira-dama não lhe dirige a palavra e a ignora em eventos públicos), era Rose que acompanhava Lula.

Embora tenha feito 28 viagens com o ex-presidente, seu nome apareceu no Diário Oficial – como é de praxe entre os funcionários de sua categoria DAS – apenas em uma das primeiras, para Havana em 2003. Foi a única da comitiva a se hospedar na mesma ala de Lula. Nas demais vezes, seu nome foi incluído em uma lista de funcionários de segundo escalão que é enviada ao Itamaraty para homologação coletiva – e anônima – no Diário Oficial.

Foi o auge do prestígio de Rose, e ela se esbaldou nele. “Imagine uma pessoa que passou a vida pendurada no cheque especial e. de repente, recebe uma herança de um tio. Essa é a Rose”, descreve um antigo amigo. Frequentemente, convidava-se para almoços com diretores do Banco do Brasil – o gabinete que ela chefiava ficava no mesmo prédio do banco.

MEU CHEFE, MEU ÍDOLO -- o gabinete da Presidência em São Paulo, decorado por Rose com um pôster de Lula e almofadas estampadas com fotos do petista (Foto: Antonio Milena / Milenar)

MEU CHEFE, MEU ÍDOLO -- O gabinete da Presidência em São Paulo, decorado por Rose com um pôster de Lula e almofadas estampadas com fotos do ex-presidente (Foto: Antonio Milena / Milenar)

Almoços de 500 reais

Nessas ocasiões, sempre sugeria restaurantes como o chique, e caro, Fasano. “Pedia camarão ou lagosta. E um vinho “caro”, como gostava de falar. Os almoços nunca saíam por menos de 500 reais”, diz um dirigente. Sabia usar informações que obtinha no escritório, onde também despachavam os ministros em viagem a São Paulo. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

18/11/2012

às 18:09 \ Política & Cia

Governador do DF contraria projeto do estádio para a Copa e quer que suas cores mudem de verde e amarelo para o vermelho do PT

Obras do Estádio Nacional de Brasília no fim de outubro de 2012 (Foto: Ademir Rodrigues / Ministério do Esporte)

Obras do Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha no fim de outubro (Foto: Ademir Rodrigues / Ministério do Esporte)

PT QUER QUE O ELEFANTE BRANCO DE BRASÍLIA SEJA… VERMELHO

Agnelo quer trocar verde, amarelo e azul da bandeira pela cor do seu partido

Governo estima custo da obra em 800 milhões de reais. Senadores acham que preço deve passar de 1 bilhão de reais. Em Brasília, muitos acreditam que a conta será ainda mais salgada – algo na casa de 1,5 bilhão, só de dinheiro público

Do site de VEJA

Ele deverá consumir 1 bilhão de reais de dinheiro público e tem tudo para se transformar num abacaxi para o Distrito Federal depois da Copa do Mundo. Se depender do PT, o Estádio Nacional de Brasília deverá ser também o único elefante branco do Mundial vestido de vermelho – a vontade do governador Agnelo Queiroz é de que essa seja a cor das cadeiras da nova arena, que substituiu o antigo estádio Mané Garrincha. [Mas o nome do falecido craque permanecerá no estádio, que será "Estádio Nacional Mané Garrincha].

Um dos projetos mais contestados entre as doze sedes de jogos da Copa de 2014, a nova arena enfrenta uma perspectiva preocupante, já que não existe nenhum clube de grande porte na capital federal. Com isso, o uso do estádio depois da Copa do Mundo de 2014, a princípio, se limitará a eventuais amistosos da seleção brasileira – que raramente marca partidas no país – e alguns shows e eventos, ainda que Brasília (palco do primeiro cancelamento de obras prometidas para 2014) nem sempre esteja na rota dos grandes espetáculos que visitam o país.

O petista Agnelo, que garante que o governo distrital encontrará uma forma de evitar que o estádio fique sem uso, contraria o projeto original do estádio, que previa cadeiras nas cores da bandeira nacional, verde, amarelo e azul. Nesta quinta-feira, aliás, o governo inicia, em parceria com a Coca-Cola, patrocinadora oficial da Copa, uma campanha de coleta de garrafas PET que serão recicladas e usadas na fabricação dos assentos do estádio.

Promotores poderão entrar com ação contra

A mudança é alvo de uma ação encaminhada à Promotoria do Patrimônio Público do DF. O governo anunciou a alteração como certa, mas os promotores aguardam uma nota técnica para decidir sobre a questão.

A maquete do estádio ainda está como foi projetada, com os assentos lembrando a bandeira. Especializado em desenho de arenas esportivas e responsável pelo projeto de Brasília, o arquiteto Eduardo de Castro Mello explica que a ideia inicial seria a de manter a área vip na cor azul, “significando a hospitalidade”.

Já os assentos das arquibancadas iriam variar do amarelo claro ao verde. Essas variações de tons, usadas, por exemplo, nos estádios da África do Sul para a Copa de 2010, não só destacariam as cores nacionais como também serviriam para passar a impressão de que o estádio está cheio mesmo quando esse não é o caso.

Com 70.000 lugares e nenhum time capaz de atrair público desse porte ao estádio, Brasília tem, de fato, de levar esse problema em conta (no vídeo abaixo, divulgado pelo governo, imagens das obras na cidade).

Apesar de ter seu projeto contestado pelo desejo de Agnelo Queiroz, o arquiteto evita entrar numa controvérsia com o governador: “A gente apresenta as cores, mas não levamos nada para o lado político, a decisão é do cliente”.

 

Mudança de planos: quando exibiu a maquete do estádio para Valcke, da Fifa, e Marin, do COL, Agnelo Queiroz (ao centro) mostrou cadeiras em verde, amarelo e azul (Foto: Governo do Distrito Federal / Divulgação)

Mudança de planos: quando exibiu a maquete do estádio para Valcke, da Fifa, e Marin, do COL, Agnelo Queiroz (ao centro) mostrou cadeiras em verde, amarelo e azul (Foto: Governo do Distrito Federal)

O autor do projeto conta, no entanto, que descartou o vermelho na hora de desenhar o estádio, previsto para ser entregue na virada do ano. A nova arena será palco do jogo de abertura da Copa das Confederações, no dia 15 de junho de 2013, além de receber sete partidas no Mundial de 2014.

Pode custar até 1,5 bilhão

De acordo com a assessoria do governo distrital, as obras do estádio custarão 800 milhões de reais.

Os senadores pelo DF Cristovam Buarque (PDT) e Rodrigo Rollemberg (PSB), porém, já afirmaram na tribuna da Casa que o preço deve passar de 1 bilhão de reais.

Em Brasília, muitos acreditam que a conta será ainda mais salgada – algo na casa de 1,5 bilhão.

O vermelho seria uma “decisão técnica”

A assessoria de Agnelo diz que a escolha das cores das cadeiras foi uma decisão técnica da Secretaria Extraordinária da Copa do Mundo de Brasília, órgão do governo. “Não houve alteração, já que o edital de licitação das cadeiras afirmava que as cores ainda seriam definidas”, afirma, ignorando o fato de o projeto ter outras cores. “Baseado nas experiências de outros estádios do Brasil e do mundo, a secretária escolheu o vermelho para os assentos da arena e a cor vinho para os camarotes.”

Outra explicação oficial é de que o vermelho facilita a substituição das cadeiras, apesar de se tratar de uma das cores mais sujeitas ao desbotamento. “A secretaria da Copa avaliou que, com o passar do tempo, as demais cores mudam. O verde, sob impacto do sol, torna-se cinza; o amarelo fica com aspecto de sujo”, diz a nota da assessoria. Entre os principais projetos de estádios para a Copa, nenhum adotou o vermelho.

As cores dos demais

O Maracanã, por exemplo, terá o azul em boa parte de suas tribunas. O Mineirão, em Belo Horizonte, usará o cinza. Palco da abertura do Mundial, a arena do Corinthians, em São Paulo, adotará branco ou cinza. Palco de uma das semifinais, o Castelão, de Fortaleza, terá assentos brancos.

O pedido de Agnelo lembra outra intervenção de gosto duvidoso dos petistas no conjunto arquitetônico da capital federal: a ordem da ex-primeira-dama Marisa Letícia, mulher de Luiz Inácio Lula da Silva, para que fossem plantados nos jardins do Palácio da Alvorada canteiros com flores vermelhas no formato da estrela do partido. A repercussão negativa fez com que os canteiros fossem alterados.

VEJAM AGORA UM VÍDEO SOBRE O ESTÁDIO DE BRASÍLIA:

 

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07/05/2012

às 12:03 \ Livros & Filmes

Reportagem imperdível da revista BRAVO!: FHC fala de sua longa relação com Dona Ruth — “ela me ensinou muito” –, de seu valor intelectual, de sua obra, do papel da mulher em sua vida. E não deixa de abordar nem infidelidade conjugal

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Fernando Henrique e Ruth Cardoso em 1982, na cidade norte-americana de Berkeley. A professora dizia, brincando, que a imagem é falsa porque FHC nunca lavou louça (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

O ex-presidente FHC fala sobre o legado acadêmico, a atuação política e a vida doméstica da antropóloga Ruth Cardoso, que tem ensaios reunidos em livro

(Reportagem de Armando Antenore publicada pela revista Bravo!, da Editora Abril)

As cenas ainda se espalham pela internet, em resquícios de telejornais e inúmeras fotografias: na Sala São Paulo, a grandiosa casa paulistana de concertos, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva se aproximou de um prostrado Fernando Henrique Cardoso, que olhava o corpo inerte da mulher.

A antropóloga Ruth Cardoso, de 77 anos, morrera um dia antes. Portadora de doença coronariana, sofreu uma arritmia cardíaca grave e desmaiou na cozinha do apartamento que dividia com o marido. Quando o socorro chegou, já não havia o que fazer. Eram 20h40 de uma terça-feira bastante fria.

Na quarta, 25 de junho de 2008, ao longo do velório, Fernando Henrique não se cansava de acariciar a fronte de Ruth e tirou os óculos diversas vezes para enxugar as lágrimas. Mal avistou Lula, permitiu que o sucessor lhe desse um abraço prolongado. O petista ficou na cerimônia por uns 30 minutos.

Ao partir, consolou novamente o tucano e lhe disse: “Se precisar de mim, peça. Estou à disposição”. Durante aquele breve período, os dois principais líderes políticos do Brasil contemporâneo baixaram armas e abdicaram das farpas que costumam trocar.

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A pesquisadora na década de 1940, em Araraquara (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

O velório atraiu, igualmente, acadêmicos de múltiplas tendências e variados espécimes do Distrito Federal, alguns até mais antagônicos do que Lula e FHC. Navegantes das redes sociais, blogueiros e a mídia convencional enxergaram na comunhão temporária de adversários um símbolo daquilo que Ruth despertou enquanto viveu: a unanimidade.

Conforme tais interpretações, a ex-primeira-dama e uma das fundadoras do PSDB se notabilizou por conquistar, dentro e fora da universidade, o respeito e a admiração de gregos e troianos, seja sob a faceta de professora e orientadora, seja à frente do Comunidade Solidária.

O programa do governo Fernando Henrique, engendrado pela antropóloga, estimulou as ações conjuntas entre ONGs, empresários, movimentos populares e o Estado com o objetivo de erradicar a pobreza.

Como poetas, romancistas, músicos e pintores, os intelectuais – e os políticos – sobrevivem à morte não apenas em razão do que produziram mas também graças à imagem póstuma que se constroi deles. A da pesquisadora ganhou os contornos iniciais justamente na Sala São Paulo.

Em setembro de 2009, o desenho adquiriu maior nitidez com a criação do Centro Ruth Cardoso, que se impôs a meta de preservar e disseminar o legado da homenageada. Um ano depois, apareceu Fragmentos de uma Vida, perfil da docente que a editora Globo encomendou para o escritor Ignácio de Loyola Brandão.

Depois, chegou às livrarias Ruth Cardoso – Obra Reunida. A coletânea de 567 páginas, lançada pela Mameluco, agrupa todos os artigos acadêmicos da ex-primeira-dama. São 41 textos – o mais velho, de 1959; o mais recente, de 2004. A antropóloga Teresa Pires do Rio Caldeira, amiga e discípula de Ruth que leciona na Universidade da Califórnia, em Berkeley, se encarregou de organizar e apresentar o volume.

Um time de quatro renomadas pensadoras a ajudou: Céline Sachs-Jeantet, Esther Império Hambúrguer, Eunice Ribeiro Durham e Helena Sampaio.

 

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Fernando Henrique e Ruth na década de 1950. À época, os dois estavam noivos (Foto: Acervo Particular)

Quem vasculha o site do Centro, atravessa o perfil assinado por Loyola ou destrincha o prefácio da coletânea sai com uma impressão francamente positiva da professora. Sobram aprovações, faltam pontos de vista menos parciais.

Espirituosa, discreta, sempre atenta às novidades, educadora nata, cosmopolita, vocacionada para a atuação em equipe, interlocutora brilhante, exímia dona de casa, mãe e avó carinhosas são as qualificações que vêm à cabeça de internautas e leitores. Uma boutade, cunhada pela própria Ruth, resumiria à perfeição o seu caráter, segundo Loyola. “Isto não está de acordo com nossos padrões araraquarenses”, proclamava, irônica, quando se flagrava diante de circunstâncias em que o recato e a ética despencavam ladeira abaixo.

O gracejo, claro, se refere à cidade do interior paulista onde a acadêmica nasceu e se criou. Ela só trocaria Araraquara pela capital do estado em 1946, aos 15 anos, para ingressar num tradicional colégio católico, o extinto Des Oiseaux.

 

Cozinhas comunitárias

Filha única de um guarda-livros com uma farmacêutica que dava aulas de botânica, química e biologia, Ruth Corrêa Leite Cardoso estudou ciências sociais entre 1949 e 1952. À época, as turmas que frequentavam o curso da Universidade de São Paulo somavam uma dúzia de alunos, se tanto.

Foi também na USP que, em 1957, a jovem socióloga virou assistente do lendário Egon Schaden, catedrático de antropologia. Começou, assim, uma duradoura carreira no ensino superior. Perto de intelectuais da mesma geração, escreveu pouco e publicou menos ainda. Divulgou o grosso de seus ensaios nos círculos restritos da “alta cultura”: mesas de reuniões científicas, jornais e revistas de pequena tiragem, seminários e debates. Sobressaiu-se bem mais como orientadora de pós-graduandos e como agente política em contínuo diálogo com a sociedade civil.

 

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Em 1954, com o primeiro filho, Paulo Henrique. Depois nasceriam Luciana e Beatriz (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

Pioneira da antropologia urbana

Muitos lhe conferem o mérito de introduzir no país a antropologia urbana – pioneirismo que assumiu junto de Eunice Durhan, Gilberto Velho e outros. Investigando as cidades, se interessou por detectar e analisar processos socioculturais emergentes, capazes de transformar o cotidiano, em especial o das áreas pobres.

Não à toa, se debruçou sobre a rotina das favelas, a integração dos migrantes japoneses no Brasil, as novas configurações da juventude, o feminismo, os meios de comunicação, o terceiro setor, as cozinhas comunitárias e a adoção de crianças pelas classes baixas.

Em fevereiro de 1953, se casou com FHC, que mais tarde despontaria como sociólogo. Os dois geraram Paulo Henrique, Luciana e Beatriz.

Não raro, a trajetória do marido exigiu renúncias da antropóloga. De 1964 a 1968, por exemplo, Ruth morou no Chile e na França, já que a ditadura militar empurrou Fernando Henrique para o exílio. O afastamento compulsório da USP fez a pesquisadora adiar o doutorado, só concluído em 1972.

Na década de 1990, voltou a abandonar as pesquisas, agora premida pela eleição do cônjuge à Presidência da República, de que tomaria posse em 1º de janeiro de 1995. Tornou-se primeira-dama a contragosto, mas acabou revitalizando a função, que exerceu durante oito anos (1995-2003). Até então, nenhuma intelectual alcançara aquele status no país. De modo idêntico, nunca a mulher de um presidente concebera e dirigira um programa social tão intrincado e abrangente quanto o Comunidade Solidária.

 

O panegírico desumaniza a pessoa morta

Semanas atrás, o jornalista e curador Marcelo Rezende, colaborador de BRAVO!, redigiu um artigo em que comenta o abrupto e prematuro falecimento de outro jornalista: Daniel Piza. A reflexão se encontra no blog do Instituto Moreira Salles. Ali, Rezende analisa o substantivo “panegírico”: “Trata-se de um discurso, de uma louvação (…). É geralmente aquilo que os vivos decidem realizar quando estão diante da evidência concreta da morte”.

Tributos do gênero, pondera o autor, transcendem o mero elogio, uma vez que se escoram apenas no superlativo. O panegírico desumaniza o morto. Santifica-o, lhe esculpe feições de herói. Já o elogio “permite a contradição, o contraponto infeliz na existência de alguém e do personagem desse mesmo alguém”. Certamente, Ruth Cardoso merece vários dos adjetivos risonhos que lhe imputam. Mas será que fazia jus aos exageros? Como ela própria avaliaria a mitificação latente nos panegíricos que inspirou?

Para discutir a questão e relembrar a professora, BRAVO! entrevistou Fernando Henrique durante três horas, em São Paulo. Uma parte da conversa ocorreu no instituto que leva o nome do sociólogo, no centro da cidade. A outra, no apartamento no bairro de Higienópolis onde o ex-presidente, 80 anos, viveu com a antropóloga.

 

O legado intelectual

Está em curso um movimento para consolidar a imagem de dona Ruth Cardoso como a de uma figura exemplar…

[Interrompendo o repórter] Sim, mas nenhuma iniciativa partiu da família. As homenagens nasceram de maneira espontânea. São os amigos, os alunos e os colaboradores de Ruth que se atribuem a tarefa de reverenciá-la. Eu e meus filhos não pedimos nada a ninguém.

 

De que modo a ex-primeira-dama reagiria diante de tantos aplausos? O senhor já pensou no assunto?

Já. Imagino que reagiria bem, ainda que timidamente. Ruth não almejava os holofotes. Nunca sonhou, por exemplo, que implantariam uma cátedra com o nome dela na Universidade Columbia, em Nova York, como aconteceu há uns três anos. Aquela antropóloga toda aplicada, na verdade, não se preocupava nem sequer em arquivar o que escrevia. Não ficava lambendo a cria. Era mais desleixada do que eu nesse sentido – e menos autoconfiante. Padecia de insegurança.

 

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A antropóloga e o sociólogo em 1965, no Chile, onde moravam. Eles haviam deixado o Brasil por causa da ditadura (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

Insegurança? Não dava a menor impressão.

De fato: os inseguros costumam parecer afirmativos. No fundo, Ruth ignorava o próprio valor. Não possuía uma autoestima muito elevada. A minha sempre se revelou maior.

Tanto que, em casa, meus filhos brincam: “Pai, você precisa fazer uma lipoaspiração no ego!” [risos] É engraçado… As pessoas me chamam de vaidoso, de ambicioso, de sei lá o quê. Falam que, desde criancinha, eu queria ocupar a Presidência. Bobagem! Pura fantasia! Quando jovem – e mesmo na maturidade -, jamais cogitei me eleger presidente.

As coisas foram se desenrolando. Tampouco me considero vaidoso. Ou, pelo menos, não do jeito que o senso comum define a palavra. Tenho vaidade intelectual. Sob outros ângulos, porém, sou mais descuidado do que cuidadoso. Não cultivo vaidade física, pessoal. Nunca liguei além da conta para esse negócio de roupa, de elegância.

 

Dona Ruth se sentia insegura em que aspectos?

Apenas intelectualmente. No papel de mulher, de mãe ou de professora, não. Desempenhava-os com tranquilidade e confiança. Só nutria dúvidas sobre sua competência como pensadora.

 

Por isso escreveu pouco?

É provável. Ela adorava lecionar. Preparava as aulas demoradamente, expressava-se bem em classe, zelava pelos alunos. Entretanto, sofria para escrever. Talvez até desconhecesse o prazer da escrita. Era muito crítica. E quem é muito crítico acaba se descobrindo autocrítico demais.

Não por acaso, Ruth normalmente rejeitava o que produzia – rabiscava o texto, mexia e remexia nas frases, torturava-se. Também não ambicionava publicar. Tinha ideias relevantes, mas nem sempre julgava necessário estruturá-las num ensaio, construir teorias. Preferia ensinar, fazer observações de campo e agir socialmente.

 

O senhor, em contrapartida, escreveu bastante e publicou trabalhos de grande repercussão. Conviver com um intelectual tão fértil inibiu dona Ruth?

Não acredito. Tratava-se mais de uma exigência dela em relação a si própria. Mesmo porque nós não competíamos. Pelo contrário: nos ajudávamos, um apoiava o outro. Encontro tanto casal disputando espaço… Nós, não.

Eu, inclusive, mostrava a Ruth tudo o que escrevia: livros, ensaios e artigos de jornal. Ela os lia antes da publicação. E opinava, corrigia, discordava.

 

Não há o risco de se estar supervalorizando o legado acadêmico de dona Ruth por razões políticas?

De maneira nenhuma. Os que resgatam a contribuição de Ruth não têm relações diretas com o jogo partidário. Pegue a série de artigos recém-lançada. As organizadoras da coletânea são pesquisadoras de alto nível, que se conservam longe da política.

Ninguém de bom senso negará a importância de Ruth para a modernização da antropologia no Brasil. Ela e a Eunice (Durham) constituíram o time de antropólogos que primeiro se interessaram pelo urbano. Tradicionalmente, a disciplina se dedica à análise dos povos ágrafos, que não dispõem da escrita.

Ruth, no entanto, sempre achou mais pertinente esmiuçar o universo das cidades, talvez por ser de uma geração que viu o país se urbanizar.

 

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Ruth e FHC desembarcam no Chile com as filhas, em 1973. A família, desta vez, viajou à passeio (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

A ex-primeira-dama influenciou o senhor como intelectual?

Sim. Vou lhe citar alguns exemplos. Eu estudei as teses de Claude Lévi-Strauss [antropólogo] superficialmente. Mas a Ruth as conhecia muito. Em 1962 e 63, frequentou seminários dele na França. Ela, então, me ensinava o que sabia.

Conversávamos sobre Lévi-Strauss e outros autores que me são menos familiares: o Manuel Castells [sociólogo], o Michel Foucault [filósofo] e o próprio Alain Touraine [sociólogo], com quem tive aulas. Ruth ainda me alertou para a força dos movimentos sociais.

Recordo que, lá pela década de 1970, grupos da periferia de São Paulo reivindicavam do governo avanços na área da saúde pública. Eu olhava aquilo e previa: “Não vai resultar em nada”. Sob o meu prisma, os grupos pressionavam o Estado à toa porque as exigências populares se perderiam no gabinete do burocrata.

Ruth não raciocinava desse jeito. Ela já notava que existia a chance de aquelas ações causarem – como realmente causaram – mudanças mais profundas, mais políticas na estrutura do Estado. Ou melhor: que daqueles grupos surgiriam vereadores, deputados e outras lideranças capazes de agir efetivamente dentro da máquina estatal.

Influenciado pelo marxismo, eu acreditava que as transformações só iriam decorrer da luta de classes – do choque entre o proletariado e a burguesia. Ruth me corrigia: “Não, a luta não precisa ser apenas de classes. A luta também pode ser do povo contra o Estado”.

 

Quer dizer que ela se opunha à predominância das interpretações marxistas na USP da época?

Exato. Eu, Ruth, Paul Singer [economista], José Arthur Gianotti, Bento Prado Júnior [ambos filósofos], Octavio Ianni [sociólogo] e outros participamos do famoso seminário sobre O Capital, de Karl Marx, que se iniciou em 1958. Ao longo de seis anos, nossa turma se reunia periodicamente para debater os diversos volumes do livro. Ruth, portanto, tinha intimidade com as teorias de Marx.

Acontece que nunca adotou uma visão estritamente marxista. Ela ia na contramão de todos nós e não enxergava a luta de classes como o único motor da história. Daí se interessar tanto pelo conceito de sociedade civil – uma ideia extramarxista, digamos.

 

A atuação como primeira-dama

 

Dona Ruth não desejava que o senhor virasse político. Por quê?

Na década de 1950, quando a gente se formou, havia o consenso de que a carreira acadêmica é uma espécie de sacerdócio. Deveríamos viver para o ensino e a pesquisa. Eu próprio considerava pecado receber dinheiro por qualquer atividade que não a de professor.

Embora descenda de uma família com larga trajetória política (meu bisavô governou Goiás, meu tio-avô ocupou o cargo de ministro da Guerra, meu pai se elegeu deputado), procurei evitar tal caminho na juventude. Não participei nem mesmo do movimento estudantil enquanto cursava ciências sociais. Os militares só me mandaram para o exílio após o golpe de 1964 porque eu defendia reformas na universidade – mudanças que os conservadores taxavam de subversivas.

Não me expulsaram do país em razão de militância partidária ou algo do gênero. Logo depois que voltei, resisti à ditadura intelectualmente, fazendo pesquisas, escrevendo artigos em jornais de oposição e promovendo conferências. Ruth também se comportava desse modo. Queríamos protestar, mas continuávamos sem a intenção de ingressar na política propriamente dita.

Ocorre que, com o passar dos anos, as circunstâncias me levaram para o Senado e, depois, para o Executivo. Ruth, sobretudo no início, discordava de minha resolução. Temia perder a privacidade. Arrepiava-se diante da ideia de nossa vida se tornar mais pública, mais institucional, repleta de pompa. Mesmo assim, nunca deixou de se engajar em minhas campanhas eleitorais. E, quando cheguei à Presidência, desempenhou brilhantemente as funções que atribuiu para si.

 

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Em 1985, num comício durante as eleições para prefeito de São Paulo. FHC acabou derrotado (Foto: Andrés Otero / Ary Brandi / Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

Entretanto, não gostava que a chamassem de primeira-dama.

Ruth, na verdade, refutava o conceito muito norte-americano de que a primeira-dama ocupa um cargo. “Não, quem ocupa um cargo é o presidente da República”, argumentava. “Ele, sim, tem obrigações previstas pela lei. A primeira-dama precisa apenas se manter autônoma e desempenhar os papéis que julgar adequados. Cada uma deve agir como achar melhor, sem tarefas definidas.”

Tanto que Ruth sempre defendeu a Marisa [Letícia, mulher de Lula]. As duas se portaram de forma bem diferente em Brasília. Marisa, todos sabemos, abdicou de qualquer protagonismo. E Ruth a apoiava: “Ela está se respeitando. Não trai a própria personalidade, não é exibida, não interfere no governo. Por que vou criticá-la?”

 

Como dona Ruth lidava com o gigantesco cerimonial da Presidência?

Não apreciava nada daquilo, lógico, mas se conformava. Curiosamente, no final de meu segundo mandato, já demonstrava grande apreço pelas seguranças que a acompanhavam. Professora em tempo integral, quando resolvia ver um espetáculo, fazia questão de que as moças assistissem à peça também. Não deixava que a esperassem na porta do teatro.

Depois, lhes indagava sobre a montagem e dava explicações sobre o dramaturgo, o diretor e o elenco. Às vezes, havia atores nus em cena – e as seguranças se horrorizavam. No enterro de Ruth, algumas viajaram para São Paulo e quiseram carregar o caixão. Criou-se uma relação de afeto.

 

O senhor dividia com dona Ruth os problemas do governo?

Não sei se o verbo correto é dividir, porque Ruth evitava se meter diretamente na minha administração. Ela observava à distância. Não bancava o pistolão em área nenhuma. Dirigia o Comunidade Solidária e ponto.

Agora, nós conversávamos intensamente sobre quase tudo. Certos temas a seduziam menos. Economia, por exemplo – o câmbio, as estratégias do Banco Central. As atenções de Ruth se voltavam mais para a educação, a saúde e a cultura.

 

Ela discordava muito do senhor?

Ô! E abertamente! Em inúmeras ocasiões.

 

Mencione uma, pelo menos.

Ruth detestava os partidos clientelistas – aqueles que não abraçam propriamente uma ideologia, um programa, e só almejam mamar nas tetas do Estado. Os adesistas, né? Em virtude disso, ela jamais suportou determinados setores do extinto PFL e não aceitava o acordo que firmei com os pefelistas.

Na teoria, Ruth tinha consciência de que apenas os ditadores governam sem alianças. Só que na prática… Ela reclamava: “Como assim?! Você precisa dizer tal coisa para fulano!” Eu respondia: “Um político não deve ir tão direto ao ponto. Se disser tal coisa, me derrubarão!”

Quem está fora da disputa partidária analisa as situações e as pessoas sob a ótica dos estereótipos. No entanto, quando se aproxima delas, termina reformulando o julgamento. Vai soar estranho, mas em qualquer partido existem canalhas do bem e canalhas do mal, canalhas que traem e canalhas que não traem, canalhas inteligentes e canalhas obtusos, canalhas competentes e canalhas incompetentes. Para distinguir uns dos outros, é preciso estrada. Ruth, no começo, não dispunha de tanta vivência. Depois, foi aprendendo.

 

Em 1994, a futura primeira-dama criticou publicamente o senador Antônio Carlos Magalhães, um dos caciques do PFL. Associou-o à ditadura e às oligarquias.

Pois é… Ruth não se permitia intimidades com o ACM. Conhecedor das restrições dela, Antônio Carlos tratava de agradá-la. Ele podia ser uma serpente ou um encantador de serpentes. Dependia dos ventos.

Com a Ruth, costumava exibir os melhores modos.

Mas não adiantava. Certa vez, o convidei para tomar um café em casa. Tasso Jereissati [um dos líderes do PSDB] nos acompanhou. Ruth, que se encontrava no apartamento, resolveu preparar o café e se dirigiu à cozinha. Pronto: o Antônio Carlos subiu na tribuna do Senado e proferiu um discurso sobre o episódio. “A mulher do presidente abre mão de empregados e tem o desprendimento de fazer o próprio café.”

 

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O casal presidencial, em viagem ao Pantanal, na década de 1990 (Foto: Evandro Teixeira / Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

Como dona Ruth encarava as privatizações que o governo do senhor incentivou? O processo sempre recebeu pesadas críticas. Agora, inclusive, um livro-reportagem que aborda o assunto se transformou em best-seller: A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr.

Ela concordava com as privatizações. À época, todo mundo concordava. Somente um pequeno grupo de ultranacionalistas, não apenas do PT, se posicionava contra. Preconizava que iríamos sucatear as indústrias brasileiras. Imagine! Sobre o livro do rapaz…

 

O senhor o leu?

Não.

 

Pretende lê-lo?

Não. Vou ler livro de malandro? O autor trabalhava para os petistas [durante as eleições presidenciais de 2010, a Polícia Federal indiciou Ribeiro Jr. sob a acusação de que ele quebrou o sigilo fiscal de tucanos com o intuito de produzir dossiês; o jornalista nega]. O propósito da reportagem é criar uma cortina de fumaça, tirar o foco da herança deixada por Lula: as corrupções que pipocam no governo federal. Você leu o livro? Conte-me algo que aparece lá.

 

O repórter procura demonstrar que o ex-governador José Serra, do PSDB, e alguns parentes se beneficiaram financeiramente das privatizações.

O Serra? Impossível! Coloco minha mão no fogo. Serra não teve nenhuma relação com as privatizações. Nada! Zero! Zero! E outra coisa: quem rouba uma hora se entrega. Nunca vi ladrão que, cedo ou tarde, não transpareça. Vamos verificar se algo mudará no padrão do Serra. Vamos verificar se a família dele ostentará riqueza…

 

A vida doméstica

Dona Ruth apoiava com veemência as causas feministas. Como tal engajamento reverberava dentro de casa?

Desde o namoro, e até antes, nós transitávamos num círculo ilustrado, culto, que preconizava a equivalência entre homens e mulheres. Compartilhávamos, portanto, de ideias similares sobre o tema. Mas existia uma diferença importante em nossas posturas – a mesma que distingue o liberal do igualitário. O liberal aceita, tolera. O igualitário bota em prática.

Eu, liberal, concordava teoricamente com as reivindicações do feminismo. Ruth, igualitária, tratava de fazê-las acontecer. Ela sempre quis, por exemplo, que todos da família ajudassem no trabalho doméstico. Para um homem da minha geração, assumir atribuições dessa natureza beira o absurdo. Mesmo assim, às vezes, eu tirava a louça da mesa após as refeições. Foi o máximo de concessão que me permiti.

Ainda hoje, recolho a louça no meu apartamento ou no de amigos. À época da Presidência, também recolhia. Já lavar os pratos me custa mais. Se necessário, lavo – só que me desagrada. Na década de 1980, passamos uma temporada em Berkeley [na Califórnia, Estados Unidos]. Há uma foto do período que me flagra lavando louça. Ruth garantia que a imagem é falsa, que aquele milagre jamais ocorreu. [risos]

 

Os filósofos Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram o Brasil em 1960. Na ocasião, o senhor os recebeu para um jantar. O que dona Ruth sentiu quando travou contato com uma lenda do feminismo?

Decepcionou-se. Simone nos pareceu tão bonita quanto distante, fria e dura. Antipática, enfim. Para piorar, tratava o Sartre – um tipo sorridente, carismático – como criança: “Não faça isso, não faça aquilo!” E titubeou diante da sopa de mandioquinha que Ruth preparou.

Na hora da sobremesa, nos vingamos. Servimos goiabada com queijo, combinação que desagradou ainda mais a Simone. Ela torceu o nariz e acabou engolindo o doce por mera educação.

Apesar de feminista e intelectual, Ruth prezava as tarefas de casa. Cozinhava bem, tricotava, costurava e adorava jardinagem. Só não entendia direito de contas. Não gastava excessivamente, mas se atrapalhava com cheques e números. Não tinha noção de preço.

 

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Na Muralha da China, na década de 1990 (Foto: Evandro Teixeira / Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

Na contramão de Lula e dona Marisa, que costumam demonstrar carinho em público, o senhor e dona Ruth se comportavam de maneira sóbria. Faltava romantismo entre vocês?

Não. Na intimidade, nos mostrávamos calorosos. A discrição se manifestava apenas publicamente – um recato que cultivamos desde a juventude.

Além do mais, em casamentos longos como o nosso, cria-se uma base afetiva que é estável, independentemente das aparências, dos altos e baixos, das oscilações pontuais.

 

Em 2009, o senhor reconheceu como filho o adolescente Tomás, que teria nascido de uma relação extraconjugal. O rapaz já fez 20 anos. Recentemente, porém, testes de DNA demonstraram que o senhor não é o pai dele. Em que momento dona Ruth soube da história?

No momento em que o filho surgiu.

 

E qual a reação dela?

Ruim, né? Mas também compreensiva. Ruth conhecia a vida. Estava ciente de que o ser humano passa por períodos de variação.

 

O senhor cogitou se separar?

Não. Nunca me enxerguei sem a Ruth. Desculpe… Não gostaria de alongar o assunto, em nome da reserva que pautava meu casamento.

Acrescento apenas que, a despeito do DNA, sigo mantendo um relacionamento muito bom com Tomás, tanto em termos afetivos quanto cíveis. Posso afirmar igualmente que Ruth morreu numa ótima fase de nossa união. À semelhança de qualquer casal, atravessamos etapas de maior e menor cumplicidade. Até criar nossos filhos, nos conservamos bem próximos. Depois, houve certo distanciamento.

E, nos últimos 15 anos, uma reaproximação intensa – de tal maneira que a morte dela me afetou como um raio em dia de sol.

 

O livro

Ruth Cardoso – Obra Reunida. Organização e apresentação de Teresa Pires do Rio Caldeira. Editora Mameluco, 567 págs., R$ 78.

12/02/2012

às 15:00 \ Livros & Filmes

Perderam “Melancolia” no cinema? Corram para alugar o DVD. Um filme a um só tempo triste, belíssimo e desconcertante

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"Melancolia": a atriz Kirsten Dunst, vestida de noiva, boiando entre a vegetação de um riacho (Foto: Divulgação)

“Melancolia”, do diretor dinamarquês Lars Von Trier, é um filme a um só tempo tristíssimo e belo, comovente e desconcertante. De longe, um dos melhores filmes lançados no Brasil de um ano para cá.

Se vocês não puderam vê-lo nos cinemas, corram para alugar o DVD. É de arrasar.

Vejam por quê:

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Melancolia - A hora do adeus

Em Melancolia, de Lars von Trier, duas irmãs esperam o fim do mundo

Durante oito minutos, ao som de Tristão e Isolda, de Wagner, vários tableaux vivants de beleza sublime se sucedem: Kirsten Dunst, vestida de noiva, boiando entre a vegetação de um riacho, ou andando penosamente em um bosque, arrastando um emaranhado de redes atrás de si; Charlotte Gainsbourg, desesperada, caminhando com os pés virados para trás, com um menino ao colo; ou os três personagens postados diante de um castelo, em uma noite iluminada por duas luas – uma é a Lua de fato e a outra, o gigantesco planeta [fictício] Melancolia, que, depois de sair de trás do Sol e passar por Mercúrio e Vênus, se aproxima da Terra – com a qual então colide estrondosamente.

O diretor Lars von Trier não esconde da plateia que esse prólogo de Melancolia (Melancholia, Dinamarca/Suécia/França/Alemanha, 2011) adianta tanto os desenvolvimentos como o desfecho do filme. Mas o faz porque tem um propósito específico: surpreender não com a ideia do fim do mundo, mas com a maneira como seus personagens o receberão.

Imitando o que julga ser felicidade

Do rigor formal e grandiosidade operística da abertura, Von Trier salta para a linguagem do Dogma na primeira parte, denominada “Justine”: com a câmera na mão, mostra as festividades do casamento de Justine (Kirsten) e Michael (Alexander Skarsgard).

Os noivos são recebidos por Claire (Charlotte), a irmã de Justine, e seu marido (Kiefer Sutherland), em um belíssimo castelo, para um jantar repleto de flores e homenagens. Aos poucos, as fissuras sob essa superfície se revelam.

A mãe de Justine (Charlotte Rampling) é uma niilista implacável. Seu pai, um inconsequente. Seu chefe (Stellan Skarsgard), um grosseirão.

E ela própria está imitando o que julga ser felicidade: Justine sofre de uma depressão difusa, mas intransponível, que nem sequer a paixão do noivo consegue aliviar – de onde a celebração termina em rompimento.

"Melancolia" é um belo filme, e a beleza começa com o visual impecável

Os desenvolvimentos estão aflorando com tal força como que pela ação gravitacional do planeta Melancolia: ainda que alguns duvidem da colisão, todos estão sob o empuxo da ideia do fim de todas as coisas. Na segunda parte do filme, “Claire”, Von Trier disseca o que acontece quando se conclui que não há escapatória. Só as duas irmãs permanecem agora no castelo.

Justine, antes tão errática, se fortalece: não tem o que perder, e a aniquilação pode até ser um alívio ou dar-lhe algum sentido. E Claire, antes tão composta, desaba: ela ama a vida e tem um filho, e o adeus é para ela um sofrimento infinito.

Não parece muito, mas é. Ainda que as declarações desastradas de Von Trier em Cannes (por motivos insondáveis, ele disse “compreender Hitler”) tenham eclipsado o filme que ele levava ao festival, Melancolia é um de seus mais belos trabalhos – uma história compassiva, poética e pungente sobre uma mortalidade tão próxima e brutal que não há nem como desviar os olhos dela.

(Resenha escrita pela crítica de cinema Isabela Boscov, também editora executiva de VEJA, publicada na edição da semana do lançamento do filme nos cinemas do país, a de  3 de agosto de 2011)

19/01/2011

às 18:11 \ Política & Cia

Como fazer a estrela do PT sumir dos jardins da Granja do Torto?

Jardim da residência oficial, na Granja do Torto, ostenta símbolo petista e, mais ao fundo, mapa do Brasil (Foto: Ed Ferreira/AE)

Foi preciso o governo anterior estar enfraquecido por um escândalo de dimensões colossais, ainda em fase de processo no Supremo Tribunal Federal — o do mensalão, em 2005 — para que a ex-primeira-dama Marisa Letícia enfim mandasse sumir o esdrúxulo canteiro de sálvias vermelhas com o formato da estrela do PT nos jardins do Palácio da Alvorada. A gritaria e os protestos ocorridos no ano anterior, 2004, de nada serviram.

O delicado projeto dos jardins, tombados e, portanto, insuscetíveis de sofrer alterações, foi oferecido pelo imperador Hiroito, do Japão, ao então presidente Juscelino Kubitschek, em 1957, durante visita ao Brasil do príncipe Mikasa, irmão do imperador.

A estrela do Alvorada sumiu com o Mensalão.

O que será preciso para sumir a outra, feita nos jardins da Granja do Torto, descoberta pelo jornal O Estado de S. Paulo? O Torto, onde mora provisoriamente a presidente Dilma Rousseff, é propriedade pública, que evidentemente não pode abrigar o simbolo de um partido político, mesmo disfarçado em canteiro de flores.

A estrela do PT flagrada no Alvorada em 2004 (Foto: Ronaldo de Oliveira/CBPress)

 

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