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Maradona

16/07/2014

às 21:15 \ Tema Livre

COPA 2014: Os donos da bola

(Foto: Ivan Pacheco/Veja.com)

Os alemães conseguiram, de algum jeito, humilhar a Seleção Brasileira e conquistar a sua torcida. Um time realmente excepcional (Foto: Ivan Pacheco/Veja.com)

Por Heraldo Palmeira*

O Maracanã, solene como de costume, renasceu com o ícone mundial e juntou-se ao Estádio Azteca, da Cidade do México, na honrosa galeria de palcos que abrigaram duas finais de Copa. E nos garante perenidade em algum panteão honroso do futebol mundial.

Num cenário de tanta força histórica, o povo vaiou sem piedade quem não merecia colocar a mão na taça. E os alemães pareceram levemente impactados pelo peso de uma final, pois não exerceram com desenvoltura sua clara superioridade sobre uma seleção da Argentina sem grande brilhantismo.

Ou, de forma subliminar, reforçaram nossa certeza de que não precisava muito jogo para desmanchar aquela Seleção Brasileira que vimos rastejando em campo.

Ao final, placar justo. Taça nas mãos de quem, durante o torneio inteiro, mais mereceu dentro de campo.

Uma seleção exemplar que ainda deu-se ao luxo de esbanjar categoria fora dele. Pelo respeito e pela integração à comunidade de gente simples do pedaço paradisíaco da Bahia onde decidiu instalar sua delegação. Pela convivência extraordinária com o povo brasileiro em todos os jogos. Até na goleada humilhante que nos aplicaram, onde souberam bater no dono da casa e conquistar o apoio de toda sua família.

Mais do que tudo, os alemães deixaram uma montanha de lições para nossos “mestres” do futebol. De fora para dentro do campo, mostraram como o esporte que mais apaixona o mundo pode ser tratado como projeto de nação, sem um milímetro das papagaiadas que dominam tudo por aqui.

Sem criar ídolos de pano com a função de carregar time e país nas costas. Apostando exclusivamente na ideia de grupo forte, homogêneo e competente.

Prepararam-se anos a fio planejando detalhes milimétricos. Como trabalhar com rigor diversas gerações de jogadores promissores. Como instalar a delegação no Brasil em lugar isolado, com ambiente de calor tropical e sem ar condicionado. Como treinar todos os dias e usufruir um único dia de folga. Vieram para ganhar o título. E ganharam sem surpresa, sem contestação.

A Argentina não trouxe um grande time e nem deveria estar na final, pois a Holanda apresentou bem mais credenciais e só perdeu na loteria dos pênaltis. Ao fim, comandados por seu semideus Lionel Messi, os hermanos mostraram a cara verdadeira, demonstrando completo desconforto com o merecido papel de coadjuvantes e falta de educação com os campeões e com o público.

Messi, que além de jogador quase perfeito sempre pareceu um gentleman, quebrou seu próprio encanto. Ao invés de agradecer pelo prêmio imerecido de melhor jogador da Copa – que caberia como uma luva no holandês Arjen Robben –, desprezou o troféu, a medalha de vice-campeão e mostrou-se descortês com todos. Com cara de menino mimado, causou decepção generalizada inclusive pelo baixo rendimento no jogo.

(Foto: FIFA/Getty Images)

A postura de Messi ao sair de campo foi a mesma até receber o troféu de melhor da Copa e a medalha de vice — para ele, prêmios descartáveis, aparentemente (Foto: FIFA/Getty Images)

Seus defensores alegam que ele passou mal durante a partida e ficou indisposto. Jornais argentinos, lambendo as feridas, já carregam a mão acusando-o de problemas físicos ou emocionais (diante de grandes pressões), que provocam crises de vômito como a que ele enfrentou durante a partida. Faltou explicar a deselegância que contagiou todos os jogadores do time na hora das premiações.

Os hermanos, com a surrada viola enfiada no saco, voltaram para casa para curtir mais uma de suas tradicionais tragédias.

No fundo, já sabem que Messi – para quem preparam um andor dando-lhe a braçadeira de capitão que cabia ao gigante Javier Mascherano – é muito mais espanhol do que argentino, dificilmente ganhará uma Copa, nunca vai chegar ao patamar de Maradona, que nunca foi melhor do que Pelé.

Que cheguem em paz, pois passou da hora do papá voltar para debaixo da saia da mamá. Antes que descubra um alemão debaixo dela, com a taça na mão.

*Heraldo Palmeira é documentarista e produtor musical.

15/07/2014

às 6:00 \ Disseram

Nem os argentinos acharam Messi o melhor da Copa

“Leo [Messi] daria o céu, mas quando não é justo e os marqueteiros querem fazê-lo ganhar algo que não ganhou, se torna injusto.”

Maradona, ex-craque argentino, ao comentar o prêmio de melhor da Copa dado a Lionel Messi; para o ex-jogador e treinador, quem jogou melhor no Mundial foi o colombiano James Rodríguez, artilheiro da Copa com seis gols marcados

14/07/2014

às 15:45 \ Tema Livre

Não conseguindo ganhar a terceira Copa que disputa, Messi continuará muito, mas muito longe dos números do Rei Pelé

(Fotos: Ivan Pacheco/Veja.com :: Time & Life Pictures/Getty Images)

Messi é o melhor jogador do mundo e um craque extraordinário — nem dá para discutir isso. Mas ainda está longe, e longe ficará, do Rei, único e inigualável (Fotos: Ivan Pacheco/Veja.com :: Time & Life Pictures/Getty Images)

Acabou a brincadeira. Com a seleção da Argentina perdendo a final da Copa de 2014 para a Alemanha, seus torcedores mais fanáticos – bem como os do F. C. Barcelona — que querem comparar Messi não mais a Maradona, mas já a Pelé, terão que engolir essa.

Ganhe Messi os títulos que ganhe, faça os gols que faça, para ele não mais será possível atingir a inigualável marca do Rei, quanto mais superá-la.

Quem quer ser o melhor de todos os tempos precisa apresentar também Copas em seu ativo, certo?

Pois bem, Messi ja disputou três Copas — e não ganhou nenhuma.

O Atleta do Século disputou quatro — e ganhou três!

Para igualar-se a Pelé seria necessário haver uma conjunção de fatores com a interferência direta não mais do Papa Francisco, argentino torcedor San Lorenzo, mas do próprio Altíssimo: a Argentina precisaria vencer consecutivamente as Copas de 2018, 2022 e 2026, e Messi teria que atuar em todas elas. Na de 2026, o fabuloso atacante estará com 39 anos.

Messi é um craque extraordinário, sem dúvida o melhor jogador do mundo atualmente, a despeito do respectivo troféu da última temporada ter sido atribuído a Cristiano Ronaldo.

Não se discutem as qualidades excepcionais do grande argentino — mas a verdade é que nem ele Messi e com quase absoluta certeza nenhum outro atleta jamais chegará à marca de Pelé, próxima do impossível.

Também em gols Messi, apesar da incrível média de mais de 1 por partida que já realizou em mais de uma campanha do Barça, La Pulga não alcançará Pelé. Ele ainda não chegou aos 500 gols, com os 27 anos já referidos. O Rei, como se sabe, fez — dados oficiais — 1.282.

Confira clicando aqui todos os números oficiais da carreira de Pelé.

11/07/2014

às 19:00 \ Tema Livre

VÍDEOS: Já que a final da Copa será uma grande revanche, (re)vejam os gols decisivos das finais Alemanha x Argentina anteriores — e algo mais

Maradona disputa bola com Buchwald e Brehme na final da Copa de 1990 em Roma: possibilidade de terceira final entre alemães e argentinos (Foto: Pedro Martinelli - Arquivo Abril)

Maradona disputa bola com Buchwald e Brehme na final da Copa de 1990 em Roma: o Maracanã verá a terceira final entre alemães e argentinos (Foto: Pedro Martinelli – Arquivo Abril)

Enquanto os brasileiros amanhecem colhendo os cacos do que foi a maior humilhação da história do futebol mundial, a Copa de 2014 continua.

E, com a Alemanha classificada com louvor ao cubo, depois de aplicar magistralmente 7 a 1 sobre os donos da casa, o grande duelo de domingo no Maracanã será uma reedição de outras duas finais de Mundiais: pela terceira vez, Alemanha e Argentina se enfrentam pelo caneco de ouro. Vai ser uma super-revanche.

O Rio de Janeiro testemunhará um épico tira-teimas, já que nossos vizinhos enfrentaram os alemães em duas finais. Em ambas, a equipe europeia ainda era conhecida como Alemanha Ocidental, pois a reunificação ocorreria meses após a Copa de 1990.

Na de 1986, no México, prevaleceu a alvicelste de Maradona, que após fazer 2 a 0 com Brown e Valdano e tomar o empate (Rummenigge e Völler), selou o bicampeonato com gol chorado de Burruchaga a sete minutos do final (crédito vídeo: Globo; narração do mítico Osmar Santos):

Quatro anos depois, na Itália, veio o troco. Vitória da Alemanha sobre os hermanos com gol de pênalti duvidoso aos 40 minutos do segundo tempo, convertido por Brehme. Uma nova tricampeã mundial surgia (crédito vídeo: Globo; narração de Galvão Bueno):

25/06/2014

às 14:29 \ Tema Livre

VÍDEOS e COPA: A mordida de Suárez foi um horror, mas está longe de ser a primeira agressão notável em um Mundial. Relembrem outras que entraram para a história

Observado por Éder, Maradona aplica voadora em Batista, durante a inesquecível vitória do Brasil sobre a Argentina em 1982: 3 a 1 (Foto: George Herringshaw - Sporting-heroes.net)

Observado por Éder, Maradona aplica “voadora” em Batista, durante a inesquecível vitória do Brasil sobre a Argentina em 1982, em Barcelona: 3 a 1 (Foto: George Herringshaw – Sporting-heroes.net)

A FIFA praticamente implora aos jogadores que pratiquem o tal fair play. E, na maior parte do tempo, as Copas do Mundo são torneios razoavelmente civilizados.

No entanto, os atletas são feitos de carne e osso, e vez ou outra esquecem que estão sob vigia de dezenas de milhares de espectadores, e centenas de milhões de telespectadores, agindo como se encontrassem em uma pelada dominical sem lei.

A inacreditável – e reincidente – mordida do uruguaio Luis Suárez no zagueiro italiano Giorgio Chiellini, ocorrida na partida disputada ontem na Arena das Dunas em Natal, já entrou para a história das grandes agressões cometidas em Copas.

Mas está longe de ser a primeira a chocar o mundo e entrar pela porta dos fundos no folclore do futebol.

Repasso, em ordem cronológica, cinco outros episódios registrados em vídeo disponíveis no YouTube em que um jogador perdeu a cabeça e descontou no adversário, em partidas de copas do mundo.

Unas renderam suspensão de mais de um jogo, prática à qual a FIFA aderiu nos anos 1990, e que deverá se aplicar a Suárez; outros apenas ocasionaram expulsão de campo, enquanto algum simplesmente passou batido.

– Copa do México, 1970: Pelé (Brasil) x Fontes (Uruguai) (Crédito: Pelé Eterno, de Aníbal Massaini Neto)

Muitos contemporâneos de Pelé falam sobre o quão malandro o Rei era em campo. Na semifinal da mítica Copa de 70, vencida pelo Brasil por 3 a 1, ele demonstrou este “talento”, se vingando de um pisão horroroso e desleal do zagueiro uruguaio Fontes com uma vigorosa cotovelada no nariz.

Reparem como ele ginga o corpo para que o juiz não enxergasse, além de ele próprio simular ter sido golpeado. Funcionou, e o camisa 10 saiu incólume.

Pelé foi violento mas, aqui, argumentou-se que ele estava revidando a uma agressão anterior.

-Copa da Espanha, 1982: Maradona (Argentina) x Batista (Brasil) (Crédito: Canal Plus)

O velho hábito de partir para a agressão diante de uma vitória incontestável – no caso, 3 a 1 para a mágica seleção de Telê Santana – voltou a ser utilizado pelos argentinos. Ainda jovem e impetuoso, mas já craque, Diego Armando Maradona perdeu as estribeiras e deferiu uma “voadora” na barriga do meio-campo Batista, recebendo cartão vermelho.

Eu estava lá, e vi o jovem craque sair vaiado e xingado do hoje demolido Estádio de Sarriá, em Barcelona.

-Copa dos EUA, 1994: Leonardo (Brasil) x Ramos (EUA) (Crédito: ABC)

Quem diria. O simpático, articulado, bonito e bom moço Leonardo – embora para mim apenas um mero “armandinho” – lançando o cotovelo na cara do rival dos EUA, que naquele dia perderiam por 1 a 0.

A jogada marcou a carreira do hoje dirigente, que não só foi para o chuveiro mais cedo, como também não pôde participar das quartas, semi e final vencidas pelo Brasil. Marcou injustamente, porque, embora condenável, foi um ato isolado de Leonardo que não repetiria nada semelhante dali para a frente.

A FIFA começava sua perseguição aos agressores, demonstrando desde a estreia – quando o boliviano Marco El Diablo Etcheverry foi expulso aos 4 minutos e perdeu os outros dois jogos da primeira fase – que a linha passara a ser dura.

-Copa dos EUA, 1994: Tassotti (Itália) x Luis Enrique (Espanha) (Crédito: desconhecido)

Quando jogador, Luis Enrique, recém-contratado como técnico do Barcelona, protagonizou um dos lances mais emblemáticos da Copa de 1994: teve o nariz estourado por uma cotovelada do italiano Mauro Tassotti em embate válido pelas quartas-de-final.

O lance ocorreu já nos descontos e dentro da área, o que renderia pênalti e expulsão… caso o árbitro húngaro Sándor Puhl houvesse visto. Os italianos acabaram vencendo por 2 a 1, e chegariam à final contra o Brasil, que, por incrível que pareça, seria apitada justamente por Puhl.

Uma tremenda incoerência da FIFA que, dias antes, pela primeira vez em sua história recorrera a imagens gravadas para punir Tassotti com oito jogos de suspensão.

-Copa da Alemanha, 2006: Zidane (França) x Materazzi (Itália) (Crédito: Sky Mondiale)

Sem dúvida, a agressão mais famosa da história dos mundiais. Após escutar do zagueiro italiano Marco Materazzi ofensas à sua irmã – embora haja teorias de que os xingamentos se referiam à origem argelina do grande craque – Zinedine Zidane lhe aplica uma cabeçada fulminante no peito e vai para o vestiário.

Em plena prorrogação da final, vencida pela Itália nos pênaltis.

 

 

23/06/2014

às 14:07 \ Tema Livre

COPA 2014: Rodeado das encrencas de sempre, Maradona comentarista ganha 12 milhões de euros por ano da TV venezuelana. Da brasileira, queria incluir garotas de programa no “salário”

(Foto: Hugo Harada/Agência Gazeta do Povo/Estadão Conteúdo)

O lendário Maradona trouxe ao Rio para lhe fazer companhia o filho, Dieguito, e a mãe do garoto, Verónica Ojeda, com quem não está mais se relacionando. Ele queria que seu salário de comentarista incluísse garotas de programa (Foto: Hugo Harada/Agência Gazeta do Povo/Estadão Conteúdo)

Nota de Juliana Linhares, publicada na edição impressa de VEJA

Quem mais poderia inventar que foi barrado no Maracanã se não Maradona? E quem mais pediria a um canal esportivo pagamento não contabilizado, fora algumas chicas, como revelou o redator-chefe de VEJA Lauro Jardim?

[Sim, Maradona pediu que o SporTV, além de pagar sua remuneração como comentarista, lhe desse um dinheiro por fora e proporcionasse garotas de programa para seu desfrute. É claro que o canal recusou.]

Rejeitada a proposta, continuou só com o programa que está gravando agora no centro de imprensa no Rio, pago ao nada desprezível cachê de 12 milhões de euros anuais pela televisão venezuelana (“Viva Chávez!”, “Viva Maduro!”).

E resolveu trazer de Buenos Aires uma das loiras falsas que o cercam, Verónica Ojeda, mãe de seu filho Dieguito, à qual até recentemente processava para reaver bens.

Outra dessas encrencadas, Rocío Oliva, anda por TVs argentinas dizendo que apanhava dele e outras baixarias impublicáveis.

21/06/2014

às 15:00 \ Tema Livre

Lembranças da Copa, por um jornalista que está cobrindo seu 9º Mundial

Frankfurt, 1974: o grande Johan Cruyff com a mulher, Danny Foster, e Chantal, a mais velha de seus três filhos (Foto: Gamma)

Frankfurt, 1974: o grande Johan Cruyff com a mulher, Danny Foster, e Chantal, a mais velha de seus três filhos (Foto: Gamma)

Carlos Maranhão

Carlos Maranhão

Por Carlos Maranhão*

Eu me lembro que a gente podia entrar na concentração da Holanda. Como não havia um número tão grande de repórteres, sobravam cadeiras vagas nas mesas do restaurante. Os jogadores se sentavam conosco para dar entrevistas.

Vários deles bebiam cerveja em lata. Alguns acendiam cigarros sob as vistas do técnico Rinus Michels.

Eles se chamavam Cruyff, Neeskens, Van Hanegem, Rep, Haan…

Eu me lembro que chovia quase todo dia na Alemanha, em 1974, quando fui cobrir para a revista Placar a minha primeira Copa do Mundo. Esta agora será a nona.

Eu me lembro que, no dia 26 de junho, em Gelsenkirchen, assisti maravilhado àqueles mesmos craques que bebiam, fumavam e jogavam massacrarem a Argentina por 4 a 0. Os argentinos eram cabeludos e insolentes, mas não fumavam e não bebiam, ao menos diante de nós na concentração, à qual tínhamos igualmente acesso.

Na parede, logo na entrada, estava pregado um telegrama de incentivo, assinado pelo “tenente-general Juan Domingo Perón”. Ele morreu menos de uma semana depois.

Eu me lembro que quando o jogo terminou os jornalistas argentinos sentados perto de mim ficaram mudos, estáticos, aparvalhados, sem acreditar no que acabara de acontecer diante de seus olhos.

Um deles era o célebre Julio César Pasquato, o Juvenal, estrela da revista El Gráfico. Depois de uns minutos, parecendo cair em si, Juvenal se levantou, segurando sua máquina de escrever, e disse para os colegas que costumavam reverenciá-lo:

– Vamos, pibes. Acabamos de ver los campeones“.

Eu me lembro que em 1978 acompanhei a maior parte da Copa em Buenos Aires, de onde vi pela TV, no centro de imprensa da Calle San Martín, cercado de gente ensandecida, outro momento inacreditável do futebol argentino: aqueles até hoje mal esclarecidos 6 a 0 contra o Peru, em Rosário.

Eu me lembro que naquela noite fria foi minha vez de ficar mudo, estático, aparvalhado.

Eu me lembro que o sol ainda brilhava no céu de Barcelona no fim da tarde escaldante de 5 de julho de 1982, enquanto no gramado do Estádio Sarriá o jogador Paolo Rossi marcava um, dois, três gols.

Eu me lembro que chorei. Foi o jogo mais triste da minha vida.

Eu me lembro que no dia seguinte, ao acompanhar o melancólico embarque dos jogadores brasileiros, levei nas mãos uma pequena obra-prima do fotógrafo J.B. Scalco, que morreria jovem menos de um ano depois: a imagem de Falcão festejando de braços abertos o gol de empate que poderia ter nos classificado e eliminado a Itália.

(Foto: J. B. Scalco)

Falcão empata em 2 a 2 a partida em que, por 3 a 2, a Itália eliminaria o fantástico time do Brasil na Copa de 1982: “Foi o jogo mais triste da minha vida” (Foto: J. B. Scalco)

Foi a única vez que pedi autógrafo a um jogador. Passados tantos e tantos anos, a assinatura vai se apagando. A foto está pendurada aqui na parede. Ainda dói um pouco.

Eu me lembro do momento em que recebi na redação o desenho do publicitário e artista plástico Francesc Petit que seria a bela e triste capa de Placar: a bandeira do Brasil vertendo uma lágrima pela derrota para a França na amaldiçoada decisão por pênaltis.

Eu me lembro do título que escrevi: “A história dos azares e dos erros de 21 de junho de 1986″.

Eu me lembro que consolei meus dois filhos no domingo de 1990 em que Maradona deu o passe fatal para Caniggia. Vi a Copa em casa. Foi tão curta para nós que dela não lembro de mais nada.

Eu me lembro que transcorreram quatro anos e Maradona desceu ao inferno. Centenas de jornalistas se amontoavam no hotel de Dallas em que cartolas e médicos davam entrevistas sobre o caso de doping que o alijou da Copa.

Quando praticamente todos já se haviam retirado, fui atrás de João Havelange, que era o presidente da Fifa. Enquanto se servia sozinho de saladas em um bufê, ele me deu detalhes de bastidores sobre o escândalo. “Maradona é como um filho para mim”, disse em certo momento.

Eu me lembro que não acreditei no que ouvi.

Muito menos, em um primeiro momento, na bola que Baggio chutou em direção às nuvens de Los Angeles e fez o Brasil inteiro berrar de alegria.

Eu me lembro que também duvidei do que estava escrito no impresso distribuído na tribuna de imprensa do Stade de France poucos minutos antes do início da final de 1998: a escalação de Edmundo no lugar de Ronaldo. Logo em seguida nos entregaram outro papel, com a troca certa. Ou errada?

Eu me lembro que, apesar da acachapante derrota e daqueles torcedores insuportáveis buzinando por Paris inteira aos gritos de “trois zéro, trois zéro, trois zéro” pela madrugada adentro, foi a Copa que tive mais prazer em acompanhar ao vivo. Por estar onde eu estava.

Eu me lembro, de 2006 e 2010, muito mais da organização alemã e da alegria sul-africana do que de nossos novos fracassos, embora não tenha esquecido de Roberto Carlos ajeitando a meia enquanto Zidane levantava a bola para Henry. Ou do destrambelhado Felipe Melo. Ou da trapalhada de Júlio César. Ou de Dunga isolando seus jogadores do resto da humanidade.

Eu me lembro com muito mais clareza da felicidade que senti ao olhar Cafu levantando o troféu em Yokohama. O sentimento não se desfez e não ficou menor nem quando, ao sair do vestiário, de banho tomado, o altivo capitão passou de nariz levantado por vários jornalistas sem atender aos nossos apelos para uma última e rápida entrevista.

Cafu provavelmente jamais se deu conta, a exemplo de muitos e muitos jogadores, de que somos somente intermediários entre ele e o responsável, em derradeira análise, ao lado do talento individual, por sua fama, idolatria e fortuna: o torcedor, que paga ingresso, dá audiência à televisão e consome os produtos que anuncia.

Por tudo isso, deve-lhe explicações e atenção.

(Foto: AP)

O capitão que jamais deveria ter recusado atenção aos torcedores (Foto: AP)

Eu não me lembro de ter visto Zico, Falcão e Sócrates recusando um autógrafo para seus fãs ou uma entrevista para pequenas emissoras de rádio do interior e estagiários de jornal.

Eu me lembro que eles jamais ganharam uma Copa. Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Zizinho, Ademir de Menezes e Bauer também não, assim como nenhum húngaro, nenhum holandês. Di Stéfano e George Best nem chegaram a disputá-la.

Eu me lembro que Jorginho e Zinho foram campeões mundiais. Na condição de titulares.

Mas o que me lembro de melhor – porque me levou a sonhar, a soltar minha imaginação infantil e a ter orgulho de ser brasileiro – foi o que ouvi pela Rádio Bandeirantes na tarde de 29 de junho de 1958, na transmissão de Pedro Luiz e Edson Leite.

Guardo a narrativa em um velho disco e no coração: “Zero a zero Brasil e Suécia. Quatro minutos decorridos. O couro é movimentado atrás, recuado para Gunnar Gren, que entrega na direita para Bergmark. Cruza para Simmonson, tenta a finta, cruzou para Liedholm, para, dribla, vai chutar, fuzila para… o gol! Gol de Liedholm para a equipe sueca! Um para os suecos, zero para o Brasil. (…) Escora bem Zito, põe na área, vai o Brasil para o ataque com Garrincha, cruza da linha de fundo na boca do… gooooooool! Vavá empata a partida para a equipe brasileira! (…) Atenção, Brasil! Reiniciada a partida final pela Copa do Mundo. Quarenta e cinco minutos que decidirão a sorte do Brasil no campeonato mundial. (…) Fica na esquerda agora com Orlando, Orlando para Pelé, Pelé domina no peito, de calcanhar para Zagallo, Zagallo prepara-se, tem Pelé, levantou para Pelé, entrou de cabeça para o arco e gooooool! Pelé! Com uma cabeçada extraordinária marca o quinto gol do Brasil! Brasil, campeão mundial de futebol!”.

​(Este texto foi inspirado no livro “Memorando”, de Geraldo Mayrink e Fernando Moreira Salles, publicado pela editora Companhia das Letras em 1993. Um de seus trechos: “Eu me lembro que futebol se jogava com formação dois, três, cinco, beque central, lateral-esquerdo, center-half… etc. E que, em geral, marcavam-se gols”)

* Carlos Maranhão, atualmente envolvido em projeto especial da Editora Abril, foi editor-assistente em VEJA, editor de Playboy e diretor de Redação de Placar e diretor de Redação de VEJA São Paulo. A serviço de Placar e VEJA, cobriu as Copas do Mundo de 1974, 1978, 1982, 1986, 1994, 1998, 2002, 2006 e 2010, e está trabalhando nesta para Placar e VEJA.

17/06/2014

às 15:29 \ Tema Livre

VÍDEOS e COPA: Espanha e Portugal, duas seleções de elite desta copa, surpreenderam ao receberem goleadas humilhantes; relembrem outros episódios em que pesos-pesados do futebol passaram pela mesma vergonha

O argentino Lionel Messi e o alemão Jerome Boateng disputam bola nas quartas-de-final da Copa da África do Sul, em Cape Town, no dia 3 de julho de 2010: 4 a 0 para a Alemanha (Foto: Joern Pollex - Getty Images)

O argentino Lionel Messi e o alemão Jerome Boateng disputam bola nas quartas-de-final da Copa da África do Sul, em Cape Town, no dia 3 de julho de 2010: 4 a 0 para a Alemanha (Foto: Joern Pollex – Getty Images)

O mundo mal se recuperava do choque causado pela estrondosa goleada aplicada na sexta-feira pela Holanda à atual campeã do mundo, Espanha, quando Portugal, capitaneada por Cristiano Ronaldo, atual melhor jogador do planeta, ofereceu outro vexame aos brasileiros três dias depois: 4×0.

Teóricos da conspiração poderão culpar o calor ou qualquer outro detalhe “exótico” da Arena Fonte Nova, em Salvador, cenário dos dois improváveis massacres. Mas a verdade é que esta espécie de “papelão” dada por grandes seleções em mundiais é quase tão antiga quanto o torneio esportivo mais importante do mundo. Vamos relembrar alguns episódios:

1950 – Copa do Brasil: Brasil 6 x 1 Espanha (Vídeo: Record – You Tube)

O antigo apelido Fúria, que a Espanha carregava desde a conquista da medalha de prata nas Olimpíadas de 1920, em Antuérpia, assombraria os adversários antes e durante a primeira fase do mundial do Maracanazo. Até que veio o esquadrão anfitrião para colocar os pingos nos is, em jogo valendo pelo quadrangular final.

1986 – Copa do México: Dinamarca 6 x 1 Uruguai (Vídeo: Globo – You Tube)

Ainda falando em apelidos de seleções, quem acompanhou a Copa de 1986 jamais esquecerá a Dinamáquina. Encabeçados pelos endiabrados Preben Elkjaer e Michael Laudrup, os escandinavos foram a grande zebra da etapa classificatória, passando como um rolo compressor em um grupo que incluía dois campeões mundiais, a extinta Alemanha Ocidental e o Uruguai.

Aos nossos bravos vizinhos coube o maior castigo, um épico 6 a 1.

Em mais uma prova de que o futebol é maravilhoso, entre outras coisas, por ser imprevisível, os dinamarqueses foram despachados por placar parecido, 5 a 1, da Espanha nas oitavas-de-final.

2010 – Copa da África do Sul: Alemanha 4 x 0 Argentina (Vídeo: Sportv – You Tube)

A explicação para a Alemanha ter chegado como favorita ao Brasil vem do mundial anterior, na África do Sul, quando esta mesma geração de Müller, Özil, Schweinsteiger e Lahm foi a grande sensação, por sua força ofensiva.

A seleção de Joachim Löw cairia na semifinal diante da futura campeã Espanha, mas não sem antes esculhambar os bicampeões argentinos, os quais já haviam eliminado, também em quartas-fe-final, jogando em casa em 2006.

Sim, justo a Argentina tendo como técnico justamente ele, Maradona, um velho conhecido (disputou, como jogador, duas finais contra os alemães, vencendo em 1986 e perdendo em 1990). Com Messi e tudo.

14/06/2014

às 14:14 \ Tema Livre

COPA 2014: O grande goleiro Buffon, capitão da Itália — cujo time estreia hoje –, está se tornando o 3º atleta a atuar em cinco Mundiais

(Foto: Getty Images)

O grande goleiro Gianluigi Buffon beijando a Copa do Mundo conquistada pela Itália em 2006, na qual só tomou dois gols: entrando para a galeria exclusivíssima dos que têm 5 Copas nas costas (Foto: Getty Images)

A estreia, hoje às 18 horas, em Manaus, do time da Itália, tetracampeão mundial, não é um acontecimento apenas pelo fato de a Azzurra começar a Copa de 2014 enfrentando um adversário duríssimo — a Inglaterra — e protagonizando um clássico do futebol internacional.

A partida poderá ainda significar a glorificação do goleiro e capitão Gianluigi Buffon, 36 anos, como o terceiro jogador de futebol da história a completar cinco Copas do Mundo em seu espetacular currículo, que inclui títulos italianos e internacionais, prêmios de todo tipo como melhor goleiro, inclusão entre os finalistas da Bola de Ouro e, claro, o Mundial de 2006, na Alemanha.

Digo “poderá” porque não está segura a escalação do goleiraço, recuperando-se de lesão.

Se jogar hoje, ele se juntará à pequena relação em que figura um dos grandes craques da história do  

Fotos: Picture Alliance/DPA :: Reprodução SporTV

Matthäus: impressionantes cinco Copas pela Alemanha, 150 partidas com  sua seleção e um recorde de jogos disputados em Mundiais  – 25 — difícil de bater. Já o goleiro Carbajal atuava em equipe modesta e é lembrado apenas por ter sido o primeiro a emplacar cinco Mundiais (Fotos: Picture Alliance/DPA :: Reprodução SporTV)

futebol, o meio-campo alemão Lothar Matthäus, uma legenda, que não apenas atuou em cinco Copas — a última delas em 1998, já com 37 anos de idade — como é o recordista absoluto em número de partidas disputadas em Mundiais (25). Dele, disse Maradona em seu livro autobiográfico Yo Soy Diego: “Ele foi o adversário mais difícil que já tive, e acho que isto é o suficiente para defini-lo”.

O primeiro jogador a atingir a marca de cinco Copas fez história mais por isto do que por seus méritos ou títulos: o goleiro mexicano Antonio Carbajal, que defendeu sua seleção entre as Copas de 1950 e 1966 e, embora fosse bom na posição, integrava um México muito menos importante no cenário mundial do que é hoje.

Quanto a Buffon, mesmo que a Itália chegue à final e, portanto, ele atue em 7 partidas, continuará atrás de Matthäus no número de vezes em que defendeu sua seleção. Terá vestido a jaqueta da Azzurra 147 vezes. O alemão envergou as cores de seu país em 150 partidas.

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COPA 2014: 3 a 1 foi placar largo demais para um Brasil ajudado pelo juiz e que jogou muito aquém do que sabe

01/03/2014

às 12:05 \ Disseram

Mais uma de Diego Maradona: “Eu estou disposto a ser um soldado da Venezuela para o que me mandarem”

“Eu estou disposto a ser um soldado da Venezuela para o que me mandarem”

Maradona, em vídeo que anunciava sua contratação pelo canal venezuelano Telesur para comentar partidas da Copa; a emissora foi criada por Hugo Chávez (1954-2013), com quem o ex-jogador disse ter uma “ligação espiritual”

 

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