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Maradona

01/03/2014

às 12:05 \ Disseram

Mais uma de Diego Maradona: “Eu estou disposto a ser um soldado da Venezuela para o que me mandarem”

“Eu estou disposto a ser um soldado da Venezuela para o que me mandarem”

Maradona, em vídeo que anunciava sua contratação pelo canal venezuelano Telesur para comentar partidas da Copa; a emissora foi criada por Hugo Chávez (1954-2013), com quem o ex-jogador disse ter uma “ligação espiritual”

25/02/2014

às 14:00 \ Política & Cia

O cidadão Maradona, cada vez melhor como ex-jogador de futebol, fala em Chávez no céu e diz que oposição ao chavismo lhe dá “asco”

Hugo Chávez no céu

No momento em que os principais países do mundo estão preocupados com a enorme repressão do governo “bolivariano” da Venezuela às manifestações de protesto em curso no país, com mortos e feridos, ele ataca de novo: o velho rebelde Diego Armando Maradona, agora “um soldado” do regime do falecido coronel Hugo Chávez.

Não bastou que Maradona escolhesse esse período tumultuado na vida da Venezuela para assinar contrato como comentarista da rede “bolivariana” de televisão Telesur — mantida basicamente pelo dinheiro público venezuelano — durante a Copa do Mundo do Brasil.

O grande craque do passado, que tem entre suas inúmeras tatuagens uma de Che Guevara e que resolveu se tratar mais de uma vez em Cuba dos graves problemas de saúde que teve por adição a drogas, resolveu também fazer uma declaração de amor ao regime de Chávez e do sucessor, Nicolás Maduro, e pesadas críticas à oposição, que, disse, lhe dá “asco”.

Não escapou nem uma referência a Chávez “no céu”.

Maradona ao assinar contrato com a Telesur: comentarista, "bolivariano" e um "soldado" da Venezuela (Foto: victorhugomorales.com.ar)

Maradona ao assinar contrato com a Telesur: comentarista, “bolivariano” e um “soldado” da Venezuela (Foto: victorhugomorales.com.ar)

Vejam só as declarações do craque feitas ao site do jornalista uruguaio estabelecido na Argentina Victor Hugo Morales:

– Estamos vendo todas as mentiras que os imperialistas estão dizendo e criando [sobre a crise na Venezuela] (…) e eu estou disposto a ser um soldado da Venezuela para o que quiserem, porque a verdade é que esses senhores [da oposição] — se é que se pode dizer que são senhores — já dão asco. Por isso, creio na Venezuela, viva Chávez, viva Maduro, viva a Venezuela e… aguentem firme, aguentem porque Venezuela, Maduro e Chávez no céu nos estão acompanhando. (…) Eu me sinto muito orgulhoso de defender uma pátria bolivariana como o comandante Chávez queria.

Um homem é também produto das escolhas que faz.

Por isso é que, há muitos anos, Maradona continua, para mim, sendo apenas o extraordinário jogador de futebol que foi um dia.

13/01/2014

às 19:08 \ Tema Livre

BOLA DE OURO: Que Maradona, que nada! Perante bilhões de telespectadores, Pelé recebe consagração definitiva da FIFA — o maior do século XX, o maior da história, o primeiro a receber o troféu honorário. Confiram seus números i-ni-gua-lá-veis

 

A reparação de uma injustiça histórica: o maior craque da história recebe, enfim, sua Bola de Ouro (Foto: AFP)

A reparação de uma injustiça histórica: o maior craque da história recebe, enfim, sua Bola de Ouro (Foto: AFP)

A insistência de considerar Maradona não apenas equivalente, mas melhor do que Pelé, de parte não somente de jornalistas e torcedores argentinos, mas de muita gente que se pretende entendida em futebol — como jornalistas norte-americanos, que até há pouco tempo mal sabiam quem era a bola, durante um jogo –, foi definitivamente pulverizada hoje diante de uma plateia planetária de bilhões de telespectadores durante a solenidade de entrega da Bola de Ouro para o melhor jogador de 2013, merecidamente atribuída ao português Cristiano Ronaldo, do Real Madrid.

A FIFA e a revista francesa France Football reservaram um bom trecho da cerimônia em Zurique, na Suíça, conduzida pelo ex-craque holandês Ruud Gullit e pela atriz e modelo brasileira Fernanda Lima, para homenagear Pelé com uma Bola de Ouro honorária — a primeira desde a unificação dos troféus atribuídos pela prestigiosa revista e pela FIFA, em julho de 2010 –, uma vez que o troféu, durante a longa carreira do supercraque, só era atribuído a jogadores que atuavam na Europa, onde o camisa 10 nunca defendeu qualquer clube.

O discurso do presidente da FIFA, Joseph Blatter, e as próprias decisões anteriores da entidade por ele mencionadas não deixam qualquer dúvida: Pelé, o maior craque do século XX, eleito por técnicos e jogadores por votação da FIFA, foi justamente chamado por Blatter de “o maior jogador de futebol da história” e de “o jogador que mais motivou, em todos os tempos, pessoas no mundo inteiro a interessar-se por futebol e praticá-lo”.

Maradona ficou a anos-luz dos recordes impressionantes de Pelé, algo que mesmo o endeusado argentino Messi, aos 26 anos, tem muito pouca chance de alcançar. Para isso, ele ou outro pretendente ao trono precisaria, entre outras proezas, fazer o seguinte:

* Disputar mais do que as quatro Copas do Mundo de que Pelé participou e vencer mais do que as três que ele conquistou.

* Marcar mais de 1.281 gols na carreira, algo que nenhum jogador de futebol fez em qualquer tempo. Como comparação, basta dizer que Maradona, muitas vezes apontado como melhor que o Rei, marcou menos de um terço deste total — 356 gols.

* Marcar por sua seleção mais do que os recordistas 95 feitos por Pelé pela seleção brasileira. (Messi, até agora, fez 37 pelo time da Argentina).

* Ser bicampeão mundial de futebol por sua seleção com menos de 22 anos. Messi, 26 anos, ainda não foi nenhuma vez. O grande Cruyff nunca chegou lá. Maradona ganhou sua única Copa (a de 1986) aos 26 anos.

 

Pelé em jogada clássica -- a bicicleta -- que ele cansou de repetir ao longo da carreira e com a qual marcou cinco gols (Foto: Alberto Ferreira / Jornal do Brasil)

Pelé em jogada clássica — a bicicleta — que ele cansou de repetir ao longo da carreira e com a qual marcou cinco gols (Foto: Alberto Ferreira / Jornal do Brasil)

* Marcar mais do que os 8 gols em uma só partida que estufaram as redes do Botafogo de Ribeirão Preto nos famosos 11 a 0 aplicados pelo Santos no time do interior no Campeonato Paulista de 1964.

* Ser 11 vezes artilheiro de um campeonato regional duríssimo, como era o Paulista entre 1957 e 1973.

* Marcar mais de 58 gols em 37 jogos durante um campeonato, como fez Pelé no disputadíssimo Paulista de 1958.

* Conquistar, no total, mais do que 60 títulos, entre os quais as três Copas do Mundo mencionadas, mais dois mundiais interclubes, duas Libertadores da América, cinco Taças Brasil e dez campeonatos locais, como foi o caso de Pelé com o Paulista.

* Marcar num só ano mais do que os 127 gols registrados por Pelé em 1957. Só como comparação, no melhor ano de sua carreira, 2000, Romário fez 73 gols. Ronaldo Fenômeno, no auge, balançou redes 63 vezes em 1997.

Quem acha que Messi é igual ou melhor do que Pelé precisa assistir ao ótimo DVD Pelé Eterno, que mostra a inacreditável trajetória do Rei.

A CBF deveria promover exportações maciças do DVD para a Argentina…

Relembrem (ou vejam) várias mágicas do Rei retiradas do DVD Pelé Eterno:

04/01/2014

às 16:15 \ Tema Livre

O grande Cruyff, um dos maiores craques da história, em entrevista: “Futebol é inteligência e qualidade, mas também um pouco de amor. Se não, só o dinheiro não funciona.”

Cruyff: genial como jogador, técnico e, hoje, inspirador do maior time do mundo, o Barcelona (Foto Claudio Versiani)

Publicado originalmente em 13 de fevereiro de 2011campeões de audiência 02

O maior time de futebol do mundo da atualidade, o Barcelona, recebeu por anos a fio a magia de seu jogo quase incomparável — para mim, só Pelé o superou — e, depois, sua genialidade também como treinador. A herança do grande Johan Cruyff, todos reconhecem, ficou. É ele o grande inspirador do futebol-espetáculo ganhador do Barça, que herdou muito da espetacular “Laranja Mecânica”, o supertime da Holanda que encantou o mundo na Copa de 1974, na Alemanha.

A serviço da excelente Revista ESPN, o jornalista Daniel Setti entrevistou esse gênio para a edição de janeiro. E sendo, além de um ótimo jornalista, também meu filho, resolveu fazer uma surpresa ao pai: comprou uma camisa oficial da seleção da Holanda e, ao final da entrevista, explicou a Cruyff minha admiração de décadas pelo craque, pelo treinador e pelo cidadão que ele é, e solicitou-lhe uma dedicatória. Cruyff gentilmente topou (veja na foto abaixo) e, no Natal, recebi do filho de presente-surpresa a camiseta, com os dizeres estampados em tamanho grande na frente: “Para Ricardo, Johan Cruyff”.

Leiam a entrevista, que vale a pena. Uma lição para nossos jogadores, técnicos e cartolas.

Cruyff com Daniel, autografando a camiseta… para mim

O senhor grisalho de 63 anos que cumprimenta a reportagem, rosto queimado de sol e rabiscado por sadias rugas, tem cadeira cativa ao lado de Pelé, Garrincha, Di Stefano e Maradona no camarote sagrado de imortais do futebol. Mesmo assim seus belos olhos azuis, que nesta fria e ensolarada manhã outonal de Barcelona combinam com uma camisa da mesma cor e um moderno casaco lilás, preferem transmitir respeito e seriedade a afetação e arrogância.

Ainda que seja rico, famoso e venerado desde que, há quatro décadas, revolucionou o futebol dentro de campo – com dribles, movimentação imprevisível e gols – e fora dele (foi o primeiro jogador a ter patrocínio individual, da marca Puma), anda literalmente com os pés no chão.

São suas próprias pernas que o levam diariamente de sua casa ao charmoso casarão-sede da fundação que tem seu nome, ambos no elegante bairro de Bonanova, na zona norte da cidade catalã. Pendurou as chuteiras há 26 anos, levando consigo 22 canecos, três Bolas de Ouro e 425 gols oficiais, e aposentou a prancheta de treinador há 14 (acumulando outros 14 troféus), mas suas opiniões a respeito do mundo da bola têm cada vez mais peso.

Não só pela agudeza e pela firmeza de suas ideias – expostas nos artigos que escreve no jornal catalão El Periódico –, mas principalmente por suas iniciativas em prol da educação e do estímulo ao esporte. Este senhor grisalho, um holandês que se recusa a se acomodar nos mimos da idolatria e rejeita o senso comum, chama-se Johan Cruyff.

O responsável pela eternização da camisa 14 é sinônimo de futebol moderno em qualquer capítulo de sua biografia. Como jogador, nos primeiros anos colocou a Holanda no mapa ao ganhar incríveis três Copas dos Campeões da Europa (hoje Champions League) seguidas com o então pouco expressivo Ajax (1971, 72 e 73) para depois encabeçar a Laranja Mecânica, mitológica seleção de seu país na Copa de 1974.

(Veja no vídeo abaixo uma sucessão de lances de Cruyff com a famosa camisa 14, que virou sua marca:)

Contratado pelo Barça em 1973, enlouqueceu os torcedores culés com não apenas seu jogo, mas também seu atrevimento – desafiava árbitros e policiais – e sua rebeldia (fumava e usava cabelo comprido). Identificou-se a tal ponto com as culturas barcelonesa e barcelonista que até hoje vive na cidade, fala espanhol com sotaque catalão (exagerando o som do “l”), viu o caçula de seus três filhos vestir o manto azul-grená (Jordi, hoje atuando em Malta) e apenas recentemente deixou de ser presidente de honra do clube por desavenças políticas com o novo presidente, Sandro Rosell.

Cruyff: 22 canecos, três Bolas de Ouro e 425 gols oficiais

Após passagem pelo futebol norte-americano e um retorno à Holanda, voltaria ao Camp Nou para fazer história como técnico do dream team do Barcelona no início dos anos 1990, enquadrando gênios indomáveis como Romário e Stoichkov e faturando quatro campeonatos espanhois consecutivos e a primeira das três copas europeias ostentadas hoje pela equipe.

“Cruyff deixou no Barcelona um testamento ideológico, trabalhado sobre o gosto futebolístico do espectador, a quem ele educou”, disse recentemente o argentino Jorge Valdano, diretor de esportes do maior rival do Barcelona, o Real Madrid. “A ponto de que hoje é impossível triunfar no Barcelona sem jogar bem o futebol. Em Barcelona, ele é como o Oráculo”, conclui.

Valdano não poderia ter sido mais preciso. O que Johan Cruyff fez em suas passagens pelo clube catalão como jogador (1973-1978) e técnico (1988-1996) reverbera indiretamente, por exemplo, na impressionante performance do Barça de Messi na humilhante goleada sobre os merengues por 5 a 0 quatro dias após esta entrevista.

Não fosse a propagação das convicções imutáveis de “El Flaco” (“O Magro”) de que o futebol deve ser jogado sempre de maneira ofensiva e artística, provavelmente o atual melhor time do mundo, comandado desde 2008 por seu pupilo Pep Guardiola, não existiria. O próprio técnico disse após a goleada que boa parte da “culpa” por seu Barça é e seu mestre. Algo aparentado com a definição de Cruyff sobre os futebolistas: “O jogador é uma espécie de artista, e o público tem de se divertir”.

Cruyff atuando como treinador do Barcelona

“O Barcelona definiu seu estilo de jogo desde que Cruyff se converteu em seu treinador, e este estilo ofensivo encantou a torcida e mudou a própria filosofia do clube, que desde então sempre procura respeitar este direcionamento”, teoriza o jornalista espanhol Jorge Ruiz Esteve. “E como jogador, Cruyff foi um símbolo, porque era um jovem europeu moderno, que tinha cabelo comprido e andava com uma mulher de minissaia em plena ditadura franquista espanhola”, ressalta o historiador do Barça Carles Santacana Torres.

Neste encontro exclusivo com a ESPN, na sala de estar de sua fundação, o astro repassou todas as fases de sua trajetória, falou sobre sua relação com Romário, elegeu a nova Laranja Mecânica e criticou a retranca de Brasil e Holanda em 2010. “O time que trai seu estilo de jogo não pode obter sucesso”. Com vocês, Johan Cruyff.

O senhor transformou-se em sinônimo de futebol moderno e ofensivo. Qual é a origem dessa definição?

Começou há muitos anos e não teve a ver só comigo, mas também com o Ajax dos anos 70. Na Holanda eles são muito exigentes, e as pessoas que vão ao estádio querem curtir. Tudo aconteceu muito rápido. Em 1964, 65 eu era apenas o segundo jogador profissional, tínhamos muitas limitações. E em 1969 já jogamos a final da Copa da Europa com o Ajax [perdeu a decisão para o Milan, em Madri]. Em três ou quatro anos houve enormes mudanças. Era algo totalmente diferente. Por exemplo, os zagueiros não se conformavam em apenas defender, também queriam atacar. O futebol que jogávamos era o de que todo mundo gostava e de que até hoje, 30 e tantos anos mais tarde, ainda gosta. E é praticado por times como o Barcelona.

Como treinador, quem foi ou é o “novo Cruyff”?

Bom, agora o mais conhecido é o Guardiola. Porque tem a mesma filosofia e administra com sucesso o mesmo problema que tinha como jogador. Era um volante defensor assim [faz um sinal com um dedo indicando a magreza de Guardiola], mas quando tinha a posse de bola, podia ser muito bom. E o Barcelona de agora é um exemplo a ser seguido na mesma linha, porque o Xavi é baixinho, o Iniesta é baixinho e o Busquets é alto, mas também é assim [faz o mesmo gesto com o dedo].

O que um técnico tem de trabalhar em um jogador “assim”?

Em primeiro lugar, a técnica e a qualidade. Então a bola tem de ser sua amiga, mas muitas vezes ela é sua inimiga, porque está em todas as partes. Isso é importante. E, digo outra vez, você está jogando para o público, e o público paga. É uma espécie de artista, e as pessoas têm de se divertir.

Mas futebol é só diversão?

Bom, como se trata de um esporte – e isso é o principal problema que enfrentam os dirigentes –, temos um negócio nas mãos, um negócio em que colocamos emoções, portanto muito difícil de administrar. Por isso você tem que conhecê-lo bem de dentro. Se você não o viveu, é muito difícil saber administrar bem. Passei por todas as etapas para conhecer todos esses detalhes com destaque. Por exemplo, nos Estados Unidos [NR: Cruyff jogou no país entre os anos 1978 e 1982, passando por três equipes], o marketing esportivo estava muito mais à frente que no resto do mundo. E ali se podia aprender a respeito do que é o negócio do futebol. É uma questão de educação. Nos Estados Unidos você vai para a Universidade por fazer esporte, enquanto na Europa ou na América do Sul, estudar e praticar esportes ao mesmo não é possível. É o maior absurdo que há. Com nossas organizações, estivemos em São Paulo. Os números são chocantes. Por exemplo, entre 80 jogadores que já haviam participado de alguma Copa do Mundo, cerca de 15, ou seja 20%, se encontravam abaixo da linha de pobreza! E estou falando do país do mais alto nível [futebolístico]. É um desastre total, não só para o jogador, mas para qualquer criança que o tenha como um herói e o veja caindo.

No Brasil os jogadores planejam ganhar todo o dinheiro que possam enquanto estão em atividade, a chamada “independência financeira”, porque acreditam que não têm como garantir o que vem depois…

Se você não tem inteligência por não ter sido educado… ou melhor dizendo, se você não está acostumado a viver fora do futebol, é muito difícil. Porque o futebol é uma vida irreal: todos os dias você está em um jornal; todos querem saber sobre a sua vida; e você não sabe nada, sabe só jogar futebol. Mas a carreira termina quando você tem 35 anos. O que fará depois? Não há nenhum clube que se preocupe com isso. É um desastre pela simples razão de que o futebol no mundo, sobretudo no Brasil, é um aspecto importantíssimo da vida. Eu estive lá e vi todo mundo correndo, fazendo exercícios, praticando esportes. E deixam cair todos os seus heróis!

Qual é o perfil dos alunos de seu instituto? Ex-jogadores?

Ex-esportistas, não só do mundo do futebol. Os ex-jogadores são os mais difíceis, ganham muito dinheiro. Sobretudo para esses a necessidade de saber algo é importantíssima. Sempre você pode gastar dinheiro para viver bem, mas jogar dinheiro fora é absurdo.

Que lembranças o senhor tem da partida em que a Holanda eliminou o Brasil na Copa de 1974 por 2 x 0?

Muito boas porque ganhamos [risos]! Não, é que jogamos muito bem aquele mundial. Foi mais ou menos a consolidação do futebol holandês. Ainda se assistia pouco ao futebol de clubes porque haviam menos aparelhos de TV. As pessoas conheciam muito pouco a nossa seleção, foi a revolução total. Já estávamos jogando daquela maneira havia quatro ou cinco anos.

Mas e como foi chegar para enfrentar a então tri-campeã mundial, mesmo com essa bagagem de vários anos de futebol bem jogado?

O Brasil naquela época estava mudando. Quer dizer, nos anos 50 e 60 mandavam os peloteros (NR: expressão espanhola para jogadores habilidosos), e em 1974 dominava a força. Havia uma grande diferença com a gente, que íamos na direção contrária à força, fomos com a técnica. Técnica e inteligência.

Não chegou nem a ser um jogo difícil?

Bom, era o Brasil. Mas nós éramos muito melhores futebolisticamente, éramos o que eles haviam sido antes. Eles passavam por uma mudança de mentalidade, indo mais para o lado físico. É preciso ter em conta que, quando você tem sucesso, há muitos outros garotos te assistindo, e eles sempre pensam que podem fazer melhor do que você.

Na opinião do senhor, existiu ou existe algum time ou seleção com estilo de jogo parecido ao da Laranja Mecânica?

Agora o Barcelona é mais ou menos assim. Sempre com a combinação entre jogar bem, dar espetáculo e ganhar. Muitas vezes uma ou duas dessas três fases falha. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

02/10/2013

às 15:06 \ Tema Livre

A Pelé o que é de Pelé: finalmente, um museu só para ele — o maior jogador de futebol da história. E confira aqui todos os números OFICIAIS de sua carreira

CASARÃO DO VALONGO A construção do século XIX, em Santos, abrigará o Museu Pelé, a um custo total de 23 milhões de reais pela reforma e 8,5 milhões pela instalação (Foto: Claudio Gatti)

UM MUSEU INTEIRO SÓ PARA O “REI” — O Casarão do Valongo, construção do século XIX, em Santos, abrigará o Museu Pelé, a um custo total de 23 milhões de reais pela reforma e 8,5 milhões pela instalação (Foto: Claudio Gatti)

Publicado originalmente em 6 de maio de 2012.

(Reportagem do redator-chefe Fábio Altman publicada na edição impressa de VEJA)

 

A PELÉ O QUE É DE PELÉ

Levemente incomodado com a profusão de candidatos a rei que vagam por aí, ele mesmo encomendou um levantamento estatístico – o definitivo – em torno de seus títulos e gols. Será difícil mesmo alcançá-lo

“Até o Edson, que conhece o Pelé desde criança, ficou impressionado com os números.” A indefectível, já clássica e folclórica terceira pessoa do singular é usada pelo Rei do futebol para justificar o espanto com um levantamento estatístico encomendado por ele mesmo para acabar com a dúvida seminal (quem é o maior jogador da história?) – como se fosse necessário dirimi-la.

Pelé pediu a Rogério Lopes Zilli, o estudioso que o ajuda na montagem do acervo de um museu que abrigará sua coleção de peças pessoais, em Santos (SP), que enumerasse todos os títulos e gols de sua carreira.

É, a partir de agora, a contagem oficial, reunida a partir de súmulas, filmes, entrevistas e recortes de jornal. É Pelé por Pelé, em um levantamento entregue com exclusividade a VEJA.

São 61 títulos oficiais, aí incluídos o tri pela seleção e o bi mundial pelo Santos, além de 25 outros troféus em torneios no Brasil e no exterior.

São 1.282 gols – “nem 1 281, nem 1 283, como costuma aparecer”, ressalta – em 1.366 partidas oficiais. A média é de 0,93 gol por jogo. Para efeitos de comparação, Messi tinha até a semana passada 267 gols em 398 partidas (média de 0,67). Neymar, prestes a chegar ao centésimo gol santista, marcou 117 vezes em 204 jogos, contando os da seleção (média de 0,57). Maradona fez 311 gols em 587 partidas (média de 0,53).

 

pele-trofeu

O ATLETA DO SÉCULO – ”O pessoal brinca porque pelo menos podiam ter posto uma roupinha na taça. Olha, não foi fácil levantá-la, não. Tem 23 quilos e quase 1 metro de altura. Quem me deu foi o jornal francês ‘L’Équipe’, que fez uma votação com gente do mundo inteiro. Fiquei na frente do Jesse Owens, do Paavo Nurmi e do Emil Zátopek – grandes atletas olímpicos -. Não é legal porque foi o Pelé, não. Ali era um brasileiro.” (Pelé teve 178 votos. Owens, 169. Entre os futebolistas, o segundo foi Di Stéfano, com apenas 12 votos.)”

Diz Edson: “Pedi essa investigação, a primeira que realmente fiz, e a mais completa, para ver se param com essa história de sempre dizerem que nasceu um novo Pelé. O Maradona, o Messi e agora o Neymar são todos grandes jogadores, mas o que o Pelé fez não foi qualquer coisa”.

É curioso que ele próprio se preocupe em reunir números para demonstrar seu tamanho histórico. Na boca de qualquer outro atleta soaria arrogante – vindo dele é quase ingênuo, serve apenas para alimentar ainda mais a fogueira de discussões em torno da mais importante das coisas sem importância, o futebol.

Essa estatística, segundo Pelé, é a cereja a colorir o bolo do museu com 2.300 peças que será inaugurado em Santos, no fim do ano, no Casarão do Valongo, construção do século XIX, no centro da cidade, tombado pelo patrimônio histórico. A reforma custou 23 milhões de reais. A instalação da mostra exigirá outros 8,5 milhões.

“Não há, em todo o mundo, nenhum museu dedicado a um único esportista”, diz José Eduardo Moura, diretor do projeto. Serão fotos, camisas, bolas, taças e tudo quanto é tipo de lembrança, com destaque para a inseparável caixa de engraxate que Pelé diz ter usado quando tinha 15 anos, entregue de presente pela mãe – junto com os primeiros 400 réis amealhados ao lustrar sapatos alheios – quando o menino, já campeão do mundo, morava em Santos, chegado de Bauru.

Falta algo? “Sim”, diz Pelé. A devida homenagem ao pai, já falecido, por um recorde que o camisa 10 lamenta nunca ter conseguido bater. “O Dondinho fez cinco gols de cabeça em um único jogo, nos anos 40. O Pelé não passou de dois.” É marca que tira o sono de Edson – mas que não encolhe a súmula oficial de sua espetacular carreira, agora definitivamente compilada para quem quiser cotejá-la com a de outros que andam ganhando títulos e marcando muitos gols, sonhando um dia ser Pelé.

 

pelé taça

A RÉPLICA DA JULES RIMET – ”Essa ninguém tem, porque a da CBF foi roubada e derretida. A deles era de ouro bruto, a minha é só folheada. Mas o peso é o mesmo. Ganhei da FIFA e do governo mexicano logo depois da vitória contra a Itália, no tri. Nenhum outro jogador recebeu, não. Só o Pelé. Foi uma homenagem e tanto.”

Pelé escolheu dois troféus de predileção na coleção de 2.300 itens que serão expostos em Santos a partir do fim do ano. Ele próprio explica a importância dos objetos – às vezes na primeira pessoa, muitas vezes na inseparável terceira pessoa, nas fotos acima.

A SÚMULA DEFINITIVA DO REI

TÍTULOS – 61 AO TODO

Títulos pelo Santos

 

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pelé títulos seleção

 

TODOS OS GOLS DO MAIOR ARTILHEIRO DA HISTÓRIA

gols DE PELÉ

 

03/06/2013

às 18:06 \ Tema Livre

Não quero ser estraga-festa, mas Neymar enfrentará vários desafios difíceis para se consagrar no Barça

A glória por tanto tempo esperada: Neymar, com a camisa e as bandeiras do melhor time do mundo, é saudado por mais de 50 mil torcedores no Camp Nou (Foto: Luis Gene / AFP)

Que não fique nenhuma dúvida, amigas e amigos do blog: Neymar é um craque do futebol, um garoto bacana que tem tudo para dar certo em qualquer time do mundo. Apesar de sua pouca idade, 21 anos, o atacante nascido em Mogi das Cruzes (SP) vem demonstrando um bom grau de maturidade na construção de sua carreira, que vai talvez melhor extra-campo do que no próprio futebol, orientado pela empresa de Ronaldo Fenômeno.

Em poucos anos de futebol, a na flor da idade, Neymar já construiu uma imagem internacional — a ponto de até seu estilo de cabelo ser copiado por jogadores dos quatro cantos do mundo. Tão simpático, afável e brincalhão com os torcedores como é na vida real, muito à vontade nos comerciais que faz, o futebol e o marketing forjaram uma espécie de marca que outros grandes jogadores não conseguiram nem em muitos anos de carreira.

Agora, não nos iludamos: Neymar pode ter dificuldades de adaptação ao Barcelona e ao futebol europeu. Os adversários que encontrará, dentro da própria Espanha e, mais ainda, nas disputas internacionais do Barça, não permitirão que ele faça a grande maioria das jogadas com que costumava encantar no Santos.

Neymar precisará levar em conta, nas firulas, dribles, chapéus, jogadas de calcanhar e outras diabruras a que nos acostumamos aqui, uma série de fatores de que anda carente o futebol brasileiro: a grande velocidade com que se pratica o futebol na Europa, a exigência implacável dos técnicos de marcação no campo todo, a força física dos atletas que lá jogam, a insensibilidade absoluta dos árbritros ao jogo de corpo que, no Brasil, resulta em “cavação” de faltas e pênaltis — e por aí vai.

Especificamente no Barça — onde já se esboçou uma discussão sobre que número (lá chamado dorsal) levará, algo altamente simbólico na Espanha e em outros países da Europa –, a primeira questão é no lugar de quem Neymar vai entrar.

Sim, porque para o craque ex-Santos jogar, alguém vai ter que sair de um time azeitadíssimo, que, apesar de um leve declínio sofrido no último ano, vem ganhando tudo o que disputa desde 2008 e encantando o mundo com a beleza e eficiência de seu jogo coletivo, e a habilidade de vários de seus craques.

Entra Neymar no ataque — e David Villa, o maior artilheiro da seleção espanhola de todos os tempos, ídolo até das torcidas adversárias, ficará de vez no banco? (Excelente jogador, Villa sofreu uma fratura séria tempos depois de ser contratado ao Valencia, submeteu-se a uma longa e penosa recuperação e, desde que voltou ao time, não consegue do técnico Tito Vilanova, como ocorreu também com o treinador interino Jordi Roura, uma sequência de jogos suficiente para firmar-se de vez. Este não é um pequeno problema — Villa custou mais caro que Neymar: 60 milhões de euros.

Entra Neymar no ataque, e o Barça tira Pedro, o talismã que marca em todas as decisões, o garoto das Ilhas Canárias promovido pelo legendário técnico Pep Guardiola e que a torcida adora?

O Barça é um time magnífico, mas é uma equipe enjoada. Um percentual considerável de jogadores que não são catalães ou não foram formados na famosa “fábrica” de La Masia, seu centro de preparação de jogadores para o futuro, costumam encontrar problemas de adaptação e acabam indo embora. Não custa lembrar que nem monstros sagrados como Maradona ou Romário tiveram trajetória longa no Barça.

Mais recentemente, um centroavante fabuloso como o sueco-cigano Ibrahimovic acabou sendo vendido para a Itália com grande prejuízo para o clube — alto, forte, habilidoso e goleador, ele não conseguiu se sintonizar com o vestiário.

No Barça, Neymar vai precisar voltar para marcar, algo que pouco fazia no Santos, terá que suar muito em exercícios e dieta específicos para aumentar a massa muscular — sem isso, esqueça ser titular absoluto –, e deixar de lado sua tendência ao individualismo em prol do jogo coletivo. Sim, é verdade que o time joga muito em função de Messi, o melhor jogador do mundo, mas quem acompanha o Barça sabe o quanto Messi, de sua parte, se empenha em jogar para a equipe.

Um outro aspecto não pouco relevante nessa história toda será sua conduta fora de campo. O Barça é extremamente estrito com jogadores que adoram baladas noturnas, adotam atitudes extravagantes e se deixam seduzir pela enorme série de tentações trazidas pela celebridade. O clube ostenta uma tradição do que alguns chamariam de caretice, mas que vem dando certo desde sempre — e o jogador que sai da linha cedo ou tarde é espirrado. A censura aos boas-vidas costuma vir inclusive de colegas de equipe.

Os exemplos são incontáveis e, só para ficar em um recente, o excelente zagueiro Piqué, catalão de estirpe, ídolo da torcida e chamado “Piquenbauer” pelos que apostam que ele possui o estilo e chegará ao mesmo patamar do divino alemão Franz Beckenbauer, antes de acomodar-se e ter filho com a cantora colombiana Shakira frequentou mais as páginas de fofocas do que as de esporte — e amargou uma até então impensável reserva.

Tal como a maioria dos brasileiros, enxergo em Neymar qualidades suficientes para superar esses desafios, que não são fáceis.

Mas não custa lembrar que todos esses desafios — e alguns mais — o estarão esperando em Barcelona.

 

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25/05/2013

às 17:00 \ Tema Livre

MESSI — Quero ser gigante

"Sempre disse que quero ganhar tudo com o Barcelona e com a Argentina, e o Mundial é algo que sonho ganhar" (Foto: Domenico Dolce)

"Sempre disse que quero ganhar tudo com o Barcelona e com a Argentina, e o Mundial é algo que sonho ganhar" (Foto: Domenico Dolce)

Reportagem de Ismael dos Anjos, publicada em edição impressa da revista Alfa

QUERO SER GIGANTE

Apenas mais um gênio ou um novo mito do futebol? O melhor jogador do mundo faz planos para responder a essa pergunta na Copa de 2014: “Não é só o Brasil que deseja ser campeão”

Foram cerca de quatro horas de sessão para que Lionel Andrés Messi tatuasse na perna esquerda, aquela responsável por mais de 60% dos seus gols, as mãos rechonchudas do seu filho, Thiago Messi Roccuzzo, nascido em novembro do ano passado.

O desenho não tem mais do que 15 centímetros de altura, uns 8 de comprimento, no máximo, mas há ali certa poesia, o instantâneo de tudo que ele alcançou até agora – a biografia de um jogador de futebol resumida em uma perna, marcada por gols dignos de videogame, dribles impressionantes, elogios sem fim, prêmios, marcas de botinadas dos adversários, e agora em uma tatuagem do seu filho.

Essa história, no entanto, ainda tem capítulos a serem escritos, um final aberto, uma incógnita. Quando Thiago crescer e tiver uma noção melhor de quem é seu pai, seu conto de ninar favorito pode ser este, a do jogador baixinho, nascido em Rosário, que se tornou o maior artilheiro da história de seu clube, superou o recorde de redes balançadas em uma mesma edição do Campeonato Espanhol, com 50, e da Liga dos Campeões, com 14 gols.

Ou pode ser a de um jogador ainda maior. A fábula de um mito.

 

As mãos do filhote na perna contam outro capítulo da história ainda inacabada de Messi (Foto: Juan Mabromata / AFP)

As mãos do filhote na perna contam outro capítulo da história ainda inacabada de Messi (Foto: Juan Mabromata / AFP)

Pelos próximos 14 meses, até a final da Copa do Mundo do Brasil no Estádio do Maracanã, lá pelas 18 horas do dia 13 de julho de 2014, Messi pode desenhar novos rumos para a sua perna esquerda e definir essa história de ninar para Thiago – será ele um jogador espetacular, como Johan Cruijff e Zico, ou uma lenda, um alienígena da bola, como Pelé e Maradona?

“Sempre disse que quero ganhar tudo com o Barcelona e com a Argentina, e o Mundial é algo que sonho ganhar”, disse ele em entrevista exclusiva para a Alfa.

Será a terceira tentativa de Messi, agora líder absoluto da seleção alviceleste, de levar seu país ao topo do futebol mundial. “A diferença é que muitos de nós chegamos com mais experiência para competir, e isso é algo a mais. Temos bastante clareza de que o Brasil joga em casa e tentará ficar com esse prêmio. Mas não é só o Brasil que o deseja, e faremos todo o possível para sermos campeões.”

Mais maduro, menos tímido, mais seguro de si e ainda mais genial com a bola nos pés, Messi parece pronto para assumir esse papel.

Para o fanático torcedor brasileiro, esta reportagem não tem muitas boas notícias, sejamos sinceros logo de início. Messi é um jogador melhor hoje do que era ontem, e isso se repete desde seus 16 anos de idade, quando debutou em um amistoso contra o Porto, na inauguração do Estádio do Dragão, em novembro de 2003.

Um jogador criado para ser genial desde a infância, quando saiu da Argentina para jogar no Barcelona (Foto: Barcelona)

Um jogador criado para ser genial desde a infância, quando saiu da Argentina para jogar no Barcelona (Foto: Barcelona)

E, nesta escalada, promete chegar tinindo à estreia da Argentina na Copa do Mundo para tentar virar lenda. “Seu futebol mudou muito pouco, mas ele cresceu muitíssimo”, diz Ivan San Antonio, jornalista responsável pela cobertura do Barcelona no jornal catalão Sport.

Principal jogador de uma geração de craques, como Cristiano Ronaldo, Zlatan Ibrahimovic e Falcao García, o baixinho chamava a atenção desde as categorias de base. Para San Antonio, Messi joga, hoje, como jogava quando era juvenil.

A diferença é que está absurdamente mais seguro, assumindo confortavelmente o papel de craque. “Seu futebol era espetacular com 13, 14, 15, 16, 20, assim como é agora, com 25 anos de idade”, conta. “Me lembro de que, quando ele era juvenil, era um desastre na zona de imprensa. Todas as respostas eram monossilábicas: `Sí. No. Sí. No’. Com 15 anos, você pode até ser um grande futebolista, mas não uma pessoa madura. Mais velho, ele formou uma personalidade, assumiu sua responsabilidade dentro da equipe e, hoje, sabe que é seu líder.”

Números não faltam para botar medo até no mais otimista dos brasileiros.

Coletivamente, La Pulga, como é chamado carinhosamente pelos argentinos, conquistou três Ligas dos Campeões da Europa, dois Mundiais de Clubes, seis campeonatos espanhóis e uma medalha de ouro com a Argentina nas Olimpíadas de Pequim.

Com as vitórias – e o tempo -, o garoto tímido de 15 anos deu lugar a um homem de 25, que, mesmo com poucas palavras, se converteu em um capitão natural e um pai de família que já pensa em legado e posteridade. “A timidez é uma situação do próprio crescimento”, explica Messi. “Ainda que, muitas vezes, se confunda o respeito com a timidez. De toda maneira, isso nunca foi problema para mim.”

 

Com o filho, o pequeno Thiago: Messi está mais experiente, e hoje é um pai de família (Foto: Chroma Press)

Com o filho, o pequeno Thiago: Messi está mais experiente, e hoje é um pai de família (Foto: Chroma Press)

Esse novo Messi, mais maduro e seguro, pode ser visto não apenas nos jogos de futebol. Garoto-propaganda de marcas como Adidas, Procter & Gamble e até Herbalife, o bom moço já amealhou, em oito anos de carreira, uma fortuna de mais de R$ 400 milhões, entre salários, contratos de patrocínio e bonificações.

Um dos parceiros comerciais mais ativos de Messi, a grife italiana Dolce & Gabbana viu na paixão que o jogador desperta nos estádios uma forma de ultrapassar as passarelas. “Ele é o novo ícone da atualidade. É jovem e conhecido no mundo inteiro, mas é um cara simples, com valores fortes e tradicionais”, diz Stefano Gabbana.

É da marca, por exemplo, o smoking negro de bolinhas brancas que Messi vestiu para receber o prêmio de melhor do mundo da Fifa em janeiro. “Mesmo tão novo, ele tem uma noção clara sobre quem é, o que faz e o que representa”, explica Domenico Dolce, responsável pelos cliques do jogador em um hotel em Barcelona, que ainda garante: o modelo foi escolha do próprio Messi. “Para nós, isso significa ter personalidade.”

“AFETO DOS ARGENTINOS”

 

"A timidez é uma situação do próprio crescimento. De toda maneira, isso nunca foi problema para mim" (Foto: Domenico Dolce)

"A timidez é uma situação do próprio crescimento. De toda maneira, isso nunca foi problema para mim" (Foto: Domenico Dolce)

O último desafio de Messi foi conquistar os seus compatriotas, que sempre olharam com dúvidas para o jogador por ele ter partido tão cedo para a Espanha (em busca de uma chance no futebol e de um tratamento para a deficiência hormonal de crescimento que apresentava aos 13 anos de idade) e por não repetir o futebol vitorioso do Barcelona.

Em La Plata, na província de Buenos Aires, torcedores chegaram a pichar os muros da cidade em 2009: “Messi não é argentino”. Nessa relação tão complicada como um tango, os jornais argentinos criticavam as atuações e até o fato de ele não cantar o hino nacional. Mas, no ano passado, o meia-atacante ganhou de vez o respeito em seu país.

Com 12 gols marcados – três deles apenas contra o Brasil -, o camisa 10 igualou em um só ano o recorde de tentos que Gabriel Batistuta havia estabelecido em 1998, e ajudou a colocar uma renovada seleção azul e branca no topo das Eliminatórias Sul-Americanas para a Copa do Mundo.

“É a realização de um desejo, pois todos nós queremos ser bem tratados pelo nosso povo”, diz Messi. “Eu me sinto querido pelas pessoas de Barcelona, mas me faltava o afeto dos argentinos.”

 

No Barcelona, com o tutor Ronaldinho Gaúcho (Foto: Luis Gene / AFP)

No Barcelona, com o tutor Ronaldinho Gaúcho (Foto: Luis Gene / AFP)

Adaptado ao protagonismo, Lionel Messi também tomou para si a faixa de capitão do elenco comandado por Alejandro Sabella e assumiu de bom grado o encargo de líder futebolístico do país. “A seleção não é uma coisa em que você coloca a camisa e já sabe como jogar, em qualquer lugar. Tem jogos nas eliminatórias que são muito difíceis pelas circunstâncias”, afirma o ex-jogador e comentarista Juan Pablo Sorín, ídolo dos argentinos e capitão de Messi durante a Copa do Mundo de 2006, na Alemanha.

“O mais admirável de Messi não é seu talento, sua velocidade com a bola e a história de ser um jogador de Playstation. Para mim, o ponto fundamental é que ele é um cara que vai se superando, incluindo aí a dificuldade de não jogar tudo o que podia pela seleção. Depois de eu ter sofrido em minha época com brasileiros como Ronaldo e Ronaldinho, fico feliz de ter visto crescer esse pedaço de jogador e de ter um argentino, com a humildade que ele tem e o tipo de pessoa que ele é, como o melhor do mundo”, completa Sorín.

DE FRENTE PARA O GOL

 

Na seleção argentina, disputando a bola com Neymar -- "Me faltava o afeto dos argentinos" (Foto: Rich Schultz / Getty Images)

Na seleção argentina, disputando a bola com Neymar -- "Me faltava o afeto dos argentinos" (Foto: Rich Schultz / Getty Images)

Com duas participações em mundiais de seleções, Messi chega à Copa do Mundo com a melhor chance da carreira para levantar a taça mais cobiçada do mundo.

Se alguém tem que estar preocupado, é Luiz Felipe Scolari, técnico da seleção brasileira desde novembro do ano passado. Felipão tem nas costas o peso de comandar o escrete canarinho em casa, em um país pouquíssimo tolerante com fracassos – não ser campeão do mundo aqui, talvez caindo para a Argentina, vai ser pior, muito pior, do que o Maracanazo de 16 de julho de 1950, quando o Brasil perdeu a final da Copa para o Uruguai por 2 a 1.

Mas o técnico não parece perder noites pensando em Messi. “Vejo a vontade de ganhar uma Copa como uma situação normal de um atleta que joga em uma excelente seleção — que já foi campeã do mundo — e tem excelentes jogadores ao lado. Se o jogador disser que `vou lá, mas não vou ganhar’, não tem nem que ser convocado”, diz Felipão.

“Mas, para uma seleção ser campeã do mundo, não pode depender de um só jogador. Neste momento, a Argentina é uma equipe muito homogênea. Atenção especial só merecem os jogadores da nossa seleção que, por acaso, não tiverem essa mesma gana. Aí, sim, a gente pode ficar preocupado.”

 

Juan Pablo Sorín: "O mais admirável de Messi não é seu talento, sua velocidade com a bola e a história de ser um jogador de Playstation. Para mim, o ponto fundamental é que ele é um cara que vai se superando, incluindo aí a dificuldade de não jogar tudo o que podia pela seleção"  (Foto: Domenico Dolce)

Ronaldinho Gaúcho: "Messi preocupa toda seleção e todo time que vão jogar contra ele, porque é o melhor do mundo" (Foto: Domenico Dolce)

Autor da assistências para o primeiro gol de Messi – em um jogo contra o Albacete, em maio de 2005 -, Ronaldinho Gaúcho, atualmente no Atlético-MG, lembra o apoio aos primeiros passos do argentino como profissional. “Como chegou muito novo, sempre procurei fazê-lo se sentir à vontade, tentando ajudar nas coisas do futebol. Fico feliz em ter participado desse começo da carreira porque é um grande amigo”, afirma.

Para Messi, a proteção do gaúcho e também do meia Deco, com quem jogou no Barcelona por quase quatro anos, foi fundamental. “Sempre vou me lembrar dos dois. São duas pessoas excelentes, me ajudaram muito a crescer esportivamente.” Hoje um possível concorrente ao título que Messi pretende vencer em 2014, Ronaldinho é mais realista: “Messi preocupa toda seleção e todo time que vão jogar contra ele, porque é o melhor do mundo”.

Enquanto os adversários bolam retrancas e os argentinos sonham com um terceiro representante de Dios, depois de Maradona e do novo papa, Jorge Mario Bergoglio, La Pulga segue escrevendo sua biografia com dribles e chutes canhotos.

“Messi é um gênio do futebol, alguém que Deus tocou com uma varinha mágica e disse: Você vai ser o melhor jogador de futebol da história”, diz o jornalista Ivan San Antonio. “Para mim, não lhe falta ganhar um Mundial, mas entendo que, se ganhar o Mundial do Brasil, não restará dúvida alguma sobre ele. Será coroado por todo o mundo e ninguém poderá discutir que é o melhor futebolista.”

Thiago com certeza terá boas histórias para ninar.

DISCUSSÃO SEM FIM

 

Ivan San Antonio: "Messi é um gênio do futebol, alguém que Deus tocou com uma varinha mágica e disse: Você vai ser o melhor jogador de futebol da história" (Foto: Harold Cunningham / Getty Images)

Messi segundo Ivan San Antônio, jornalista catalão: "É um gênio do futebol, alguém que Deus tocou com uma varinha mágica e disse: Você vai ser o melhor jogador de futebol da história" (Foto: Harold Cunningham / Getty Images)

Uma disputa entre os números de Messi, Maradona e Pelé

É difícil comparar épocas distintas, mas é possível compreender a efetividade que cada jogador teve em sua carreira. Os índices separados por Alfa levam em conta os números dos jogadores aos 25 anos, 9 meses e 6 dias, idade de Messi ao fim de março de 2013

 

- Messi tem 32 gols pela Argentina – Faltam 2 para superar Maradona

 

- Messi já conquistou 12 títulos pelo Barcelona* – Maradona e Pelé respectivamente tinham 4 e 9 em seus clubes

 

- Com a mesma idade de Messi, Pelé havia feito 815 gols em sua carreira – Messi, “apenas” 343 gols

 

Uma disputa entre os números de Pelé, Messi e Maradona (Fotos: Ag. Globo :: Reuters :: Press Lamina)

Uma disputa entre os números de Pelé, Messi e Maradona (Fotos: Ag. Globo :: Reuters :: Press Lamina)

- Maradona tem uma média de 0,37 gol por jogo pela Argentina – Messi tem média de 0,41 gol

 

* Apenas campeonatos nacionais e internacionais com mais de dois participantes

08/05/2013

às 16:33 \ Tema Livre

VÍDEO: Provocação divertida dos “hermanos” argentinos usa papa, Maradona e Messi contra Pelé

Provocações: Yayo, e sua "cumbia papal"

Provocações: Yayo, e sua "cumbia papal"

Rolou na Argentina a divertida Cumbia Papal, canção de Yayo Guridi e seu grupo, comediantes do programa vespertino Peligro, Sin Codificar, do canal de TV Telefe.

Cumbia é um ritmo argentino intenso e alegre, e a Cumbia Papal, com sua inevitável carga de ridículo, acaba sendo um capítulo a mais na farra de provocações entre brasileiros e argentinos.

Na letra da “música”, em determinado momento, os alegres hermanos cantam:

Franciso Primeiro /

Te quer o mundo inteiro/

Por direito divino /

O papa é argentino/

Brasileiro decepcionado está /

Temos Pancho [apelido para Francisco] Primeiro, que é maior do que Pelé.

Confiram, e divirtam-se:

13/03/2013

às 19:11 \ Vasto Mundo

Nem elegendo o papa imprensa argentina esquece de Maradona e Messi… Vejam só

Na Argentina, mão de deus e Papa! (Foto: Arquivo)

Na Argentina, mão de deus e Papa! (Foto: Arquivo)

Amigas e amigos do blog, pensei em escrever um post curtinho e brincalhão perguntando: será que, tendo agora um papa nascido em seu país, os argentinos vão esquecer um pouco (pelo menos) de Maradona e sua eterna comparação com Pelé?

Nem deu tempo.

Pois a versão on-line do jornal esportivo argentino Olé já tascou na primeira página: “La Mano de Dios” — em recordação ao famoso gol de mão feito por Maradona na Copa de 1986 contra a Inglaterra, no México.

E acrescentou, logo abaixo do título e da foto do novo papa: “Maradona, Messi… E agora Jorge Mario Bergoglio, eleito como o novo papa. O cardeal recebeu 77 votos e será chamado Francisco I. Pela primeira vez na história, o sumo pontífice é argentino. E é torcedor do San Lorenzo”.

 

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10/03/2013

às 16:00 \ Bytes de Memória

Nos 60 anos de Zico, uma homenagem: a mais ampla reportagem de VEJA com o craque no seu auge — e os bastidores de sua feitura

Zico, o novo camisa 10: "Com Pelé, não há comparação" (Foto: M.M. Passos)

Zico com a camisa 10, que também celebrizou: "Com Pelé, não há comparação" (Foto: M.M. Passos)

Vocês sabiam que Zico, um dos grandes craques do futebol mundial em todos os tempos — que se tornou sessentão esta semana — é formado em Contabilidade e gostaria de ter estudado piano?

Que seu apelido de garoto era “Caroço”?

Que não se considera o melhor dos três irmãos Antunes que se aventuraram no futebol — para ele, o baixinho Edu, que infernizou os adversários do América e do Vasco durante um período dos anos 70, era o cara?

Que, vindo das divisões inferiores do Flamento e já jogando uma barbaridade, nunca teve uma chance no time principal com o então técnico Zagalo?

O grande Zico completou 60 anos de idade esta semana e recebeu muitas homenagens. A minha é a de republicar reportagem/perfil que fiz para VEJA quando o craque estava no auge, às vésperas da Copa de 1982 — com as informações curiosas mencionadas acima e muitas outras.

A “chamada” da capa (veja foto abaixo) dizia: “O Grande Zico”. E o título da reportagem, dentro da revista, era: “O nosso craque maior”. A foto de abertura da reportagem é a foto que abre este post.

Depois do final da reportagem, leia um texto em que conto bastidores de sua feitura.

Reportagem publicada na edição de VEJA de 17 de março de 1982

O NOSSO CRAQUE MAIOR

Vencidos problemas e preconceitos, Zico chega aos 29 anos como o melhor jogador do Brasil e com tudo para explodir na Copa do Mundo

Quando as seleções do Brasil e da Alemanha Ocidental pisarem o gramado do Maracanã, no Rio de Janeiro, no próximo domingo, os apreciadores estarão diante do que, no momento, o futebol internacional pode oferecer de melhor – e testemunharão, de quebra, o confronto direto de duas superestrelas desse esporte: o brasileiro Arthur Antunes Coimbra, o Zico, 29 anos, e o alemão Karl-Heinz Rummenigge, 26.

Poucos críticos e torcedores, excetuados talvez os argentinos, deixariam de considerar Brasil e Alemanha o maior clássico do planeta.

Da mesma forma, o mundo parece convencido de que Zico e Rummenigge compõem, com o argentino Maradona, o trio de gigantes de sua geração.

Embora seja um amistoso preparatório para a Copa do Mundo da Espanha, que começa em junho, o jogo de domingo oferece atrações capazes de transformá-lo num grande acontecimento. Em primeiro lugar, há o ressentimento dos alemães com o duro retrospecto sobre os encontros Brasil e Alemanha – em nove jogos, o Brasil venceu seis, empatou dois e perdeu apenas um.

Além disso, o fortíssimo time do técnico Jupp Derwall ainda parece francamente atônito com a impiedosa goleada de 4 a 1 que lhe foi imposta pela equipe de Telê Santana no Mundialito do Uruguai, há pouco mais de um ano. São temperos que certamente apimentarão o duelo entre Zico e Rummenigge.

Trata-se de um daqueles tira-teimas entre craques que tanto atrai as multidões – no último deles, entre Zico e Maradona, Zico levou a melhor.

Num Flamengo e Boca Juniors realizado em setembro passado, o Flamengo ganhou de 2 a 0 – dois gols de Zico, numa partida em que Maradona jogou mal e saiu antes do fim.

Zico merece todo o respeito dos alemães. “Ele é um jogador-exceção, uma raposa, um craque que conquista a bola com leveza e agilidade”, diz o meio-campo Wolfgang Dremmler, 27 anos, que no domingo atuará contra o Brasil.

A exibição ao lado de Rummenigge, um habilíssimo atacante sem posição fixa, eleito o melhor jogador da Europa em 1980 e 1981, será uma boa oportunidade para que Zico se consolide na posição de primeiro aspirante a uma coroa que foi de Pelé por muitos anos e, na prática, está sem dono desde que o holandês Johann Cruyff se afastou da Seleção Holandesa, às vésperas da Copa de 1978.

CURRÍCULO ESPLÊNDIDO

Com Sócrates, na vitória contra a Alemanha por 2 a 1, em maio de 1981: o grande clássico do futebol mundial (Foto: J.B. Scalco)

Com Sócrates, na vitória contra a Alemanha por 2 a 1, em maio de 1981: o grande clássico do futebol mundial (Foto: J.B. Scalco)

Que Zico é o maior jogador do Brasil ninguém mais duvida – nem mesmo Sócrates, o atacante do Corinthians, reconhecidamente o único que poderia fazer-lhe sombra de forma direta. “Isso não se discute: o melhor jogador do Brasil é Zico”, encerra Sócrates.

Fantasmas e preconceitos ficaram para trás

E já ficaram definitivamente para trás alguns fantasmas e preconceitos que assombraram a carreira de Zico.

Pipoqueiro? “Santo Deus, eu queria ter um pipoqueiro desses em cada clube que eu treinar”, diz o técnico Oswaldo Brandão, o primeiro a convocar Zico para a Seleção, no início de 1976.

Jogador que só vai bem no Maracanã? Basta ver a chuva de gols que Zico marca por todo o Brasil, ou, então, os aplausos que recebeu da insaciável torcida paulista no magro empate por 1 a 1 contra a Checoslováquia, no início do mês. Mesmo no “purgatório” tradicional à saída do estádio, onde nem Sócrates escapou de xingamentos, Zico foi poupado.

Craque que não dá certo na Seleção? Que se ouça, então, o técnico Telê, para quem Zico é “o maior nome do futebol brasileiro”, “um dos melhores jogadores do mundo” e “um grande profissional”, que em vinte das 28 partidas da Seleção disputadas desde que Telê assumiu, há dois anos, fez dezenove gols, sem contar os que proporcionou a seus companheiros.

Ninguém, no futebol brasileiro atual, chega perto do esplêndido currículo do novo camisa 10 da Seleção. Zico foi seis vezes campeão da Taça Guanabara e seis vezes campeão do Rio de Janeiro pelo Flamengo, ganhou três títulos de torneios internacionais pela Seleção e dois pelo Flamengo, foi campeão da Taça Libertadores da América e Mundial de Clubes no ano passado.

Vibrando com mais um gol: o principal artilheiro do Flamengo (Foto: Ricardo Chaves)

Vibrando com mais um gol: o principal artilheiro do Flamengo (Foto: Ricardo Chaves)

O maior artilheiro da história do Flamento: em 8 campeonatos, artilheiro em 5 e vice em 2

De 1974 para cá, quando se firmou de vez no ataque do Flamengo, em oito campeonatos disputados no Rio, Zico foi artilheiro em cinco e vice-artilheiro em dois.

Um dos poucos jogadores profissionais em todos os tempos a superar a marca dos 500 gols, até a semana passada ele balançara as redes adversárias exatas 560 vezes, 502 das quais no Flamengo – o que o transforma no maior artilheiro da história do clube -, 53 na Seleção Brasileira e cinco em outras seleções.

Para onde se olhe na carreira de Zico, lá estará sendo quebrado algum recorde.

Foi ele, por exemplo, o maior goleador do Maracanã num único campeonato, o de 1975, com trinta gols, batendo um recorde estabelecido ainda na década de 50 pelo legendário Ademir de Menezes e igualado na década seguinte pelo artilheiro Quarentinha, do Botafogo.

Foi ainda Zico quem mais gols marcou num único jogo no Maracanã – seis, na goleada de 7 a 1 do Flamengo contra o Goytacaz, em março de 1979, dose repetida três meses depois contra o Niterói. Na segunda-feira dia 22 ele receberá o Troféu Craque do Ano da revista Placar, escolhido pelo voto dos leitores, unanimidade do Júri Especial da revista e por um júri de jornalistas esportivos de quatro capitais brasileiras.

AUTÓGRAFOS EM BOLAS

Na escolinha do Flamengo: em cinco anos, de "Caroço" a supercraque (Foto: A. J. B.)

Na escolinha do Flamengo: em cinco anos, de "Caroço" a supercraque (Foto: A. J. B.)

Ele próprio diz: “Não há comparação com Pelé”

Zico chega ao limiar da Copa do Mundo com uma unanimidade nacional semelhante à ostentada por Pelé. “Mas não há termo de comparação entre Zico e Pelé”, ressalva o camisa 10 do Flamengo.

As estatísticas sugerem que mesmo o grande Zico não poderá reprisar a glória do genial Pelé. Zico precisou chegar aos 29 anos de idade para ter marcado 500 gols. Pelé, com a mesma idade, já havia colecionado 1.000.

Mas os dois se parecem ao menos na infinita paciência com que ambos sabem conviver com a condição de ídolo. “Este rapaz já não se pertence, não pode ficar tranquilo um minuto”, irrita-se o supervisor do Flamengo, Domingos Bosco.

Celebridade com paciência infinita

É verdade. Tome-se ao acaso qualquer dia na vida de Zico e se terá uma prova para os nervos de um mortal comum. Dia de jogo do Flamengo em Fortaleza, no Ceará, por exemplo. No restaurante em que ele almoça no Hotel Praiano, o garçom larga na mesa o filé do maior jogador do Brasil, saca do bolso uma câmara e põe-se a fotografar o craque.

Hoje, com sandra, Júnior e Bruno (Foto: Ricardo Chaves)

Hoje, com Sandra, Júnior e Bruno (Foto: Ricardo Chaves)

Nos 15 minutos em que se aventura a chegar perto da piscina, não consegue parar: dá autógrafos em bolas, raquetes de tênis, cartões-postais. Segura criancinhas para fotografias, abraça fãs que nunca viu, é sucessivamente beijado.

Na sede do Flamengo no Rio, na Gávea, é pior ainda.

Num dia normal, como antes da recente partida contra o Atlético Mineiro, Zico pode bem demorar 40 minutos entre o final do treino e o momento em que, enfim, exausto, pode entrar no banho.

No percurso, entrevistas a cinco emissoras de rádio, a três jornalistas italianos e a dois árabes que mal falam português, uma ida até as arquibancadas para conversar com crianças excepcionais trazidas por uma professora, uma pausa para receber sua imagem entalhada em madeira por um fã adolescente – e, claro, incontáveis autógrafos.

SUCESSO NO TEATRINHO

Os pais, com Antunes, Tonico, Zico, Nando e Edu (Foto: Abril)

Os pais, seu Antunes e dona Matilde, com Antunes, Tonico, Zico, Nando e Edu (Foto: Abril)

“Quem perde a paciência às vezes sou eu”, diz a mulher, Sandra

“As pessoas às vezes abusam, mas ele dificilmente perde a paciência”, diz Sandra de Sá Coimbra, 26 anos, a mulher de Zico. “Eu é que às vezes perco”, arremata, lembrando casos em que Zico mal pôde permanecer numa boate ou teve o braço confiscado por algum fã num restaurante no momento exato de levar o garfo à boca. “Faz parte de minha vida”, diz Zico, resignado. “Essas pessoas só me vêem de longe nos estádios, gostam de mim. Eu não me escondo, não.”

Maria José, a “Zezé”, 38 anos, irmã mais velha de Zico, psicóloga com consultório em Copacabana e professora na Universidade Gama Filho, acha que Zico “tem muito equilíbrio para conviver com essa glória e ser um homem feliz”.

Pragmático, o próprio Zico explica sua técnica para sobreviver quando está em trânsito por algum lugar público: “Você não pode é parar. Se parar, aglomera”. Nas férias com Sandra e os filhos Arthur Júnior, de 4 anos, e Bruno, de 3, o recurso é ir para o exterior. “No Brasil, não tem mais lugar nenhum em que eu passe despercebido”, diz ele com simplicidade.

Caminho para os filhos flamenguistas foi aberto… no Fluminense

O caminho de Zico para a glória, desde que era o pequeno craque “Caroço” (apelido resultante de um quisto próximo a seu olho esquerdo, já eliminado) das peladas em Quintino Bocaiúva, um subúrbio a 45 minutos de ônibus do centro do Rio, entre Cascadura e Piedade, na zona norte, já entrou para a legenda do futebol brasileiro.

O alfaiate José Antunes Coimbra – “seu” Antunes, o pai, hoje com 81 anos – fora goleiro na juventude, depois que emigrou de Portugal, mas mesmo assim se opusera a que os filhos, todos flamenguistas roxos como ele, jogassem futebol profissionalmente.

Segundo a mãe, dona Matilde, o filho caçula era um menino bem-comportado, que não dava trabalho. “Ele gostava muito de cantar e de participar do teatrinho da escola”, lembra-se sua primeira professora no Grupo Escolar Rocha Pombo, dona Neide Almeida Sampaio. “Uma vez ele foi o caçador na encenação do ‘Chapeuzinho Vermelho’ e se saiu muito bem.” Acima de tudo, ele gostava de futebol.

Um garoto que antes dos 10 anos encantava Quintino nas peladas de rua, Zico, porém, obedecia ao pai – e foi preciso que o irmão José Carlos, o “Zeca”, hoje um economista de 37 anos, mais conhecido por Antunes, abrisse caminho para uma breve carreira no Fluminense para que os irmãos pudessem segui-lo.

MAMADEIRA E SERIEDADE

Com a primeira professora, dona Neide: lembrando o "Chapeuzinho Vermelho" (Foto: Sérgio Bebezovsky)

Com a primeira professora, dona Neide: lembrando o "Chapeuzinho Vermelho" (Foto: Sérgio Berezovsky)

Fernando, o “Nando”, formado em Comunicações, 36 anos, acabou jogando no Madureira e no Futebol Clube do Porto, de Portugal. Eduardo, o “Edu”, hoje com 35 anos, concluindo o curso de Educação Física, treinador dos juvenis do América Carioca e instrutor da Funabem no Rio, foi uma sensação no América, jogou no Vasco e no Flamengo, esteve entre os quarenta selecionados para a Copa do México e encerrou sua carreira no mês passado pelo Campo Grande, no Rio.

O moleque franzinho faz 14 gols numa partida de futebol de salão 

Dos cinco homens – Zezé, a psicóloga, é a única mulher -, apenas Antônio, o “Tonico”, 36 anos, formado em Administração e funcionário do Detran, não foi jogador profissional.

A história do Zico craque começou com o radialista Celso Garcia, da Rádio Tupi, vizinho de bairro dos Antunes, sendo chamado para ver o garoto em ação no futebol de salão do Clube River, em Piedade.

O Santos, time de Zico, então com 14 anos, ganhou de 22 a 2, e aquele franzino atacante fez catorze gols. “Fiquei impressionado, com a certeza de que tinha descoberto um craque excepcional”, diz Garcia, hoje conselheiro o Flamengo.

Moisés enfrenta Zico: usando o "direito da falta" (Foto: Rodolpho Machado)

Moisés enfrenta Zico: usando o "direito da falta" (Foto: Rodolpho Machado)

Zagalo, técnico, nunca lhe deu uma chance no time principal do Fla

Garcia levou Zico para treinar na Gávea e espantou o treinador dos juvenis, Modesto Bria, com o físico mirrado do garoto: 1,55 metro e 37 quilos. “Isso aqui é coisa muito séria, Celso”, reclamou Bria. “Esse menino precisa é de mamadeira.”

Mas Zico agradou em cheio no primeiro treino – e daí para a frente ninguém o segurou, nem a má vontade de técnicos sem visão.

Joubert não o deixava treinar, já crescido, com os profissionais. Zagalo, mais tarde, nunca lhe deu uma chance no time principal. E Antoninho conseguiu excluí-lo dos convocados para a Olimpíada de Munique, em 1974, mesmo sendo o Flamengo campeão estadual e Zico, ainda um aspirante o artilheiro do time.

GOSTOS SIMPLES

O vôlei na praia: cada vez mais raro (Foto: Adalberto Diniz)

O vôlei na praia: cada vez mais raro (Foto: Adalberto Diniz)

O baixinho magricela ganha peso, músculos e altura

Um intenso programa de condicionamento físico transformaria Zico completamente. Dividido em três fases – uma completa revisão médica, tratamento à base de anabolizantes hormonais para estimular o crescimento combinado com superalimentação e treinamentos físicos especiais -, o programa fez Zico ganhar 17 centímetros e 13 quilos de 1969 a 1974. Valeu.

Zico não se importa de ser chamado de craque de laboratório. “O futebol eu sempre tive, ninguém me ensinou”, diz. Embora poucos notem, ele acabou ficando 2 centímetros mais alto que Pelé, e hoje tem 66 quilos.

O maior jogador do Brasil é um homem de gostos simples. Seu prato preferido é filé com fritas, arroz e feijão. Quando frequenta seus restaurantes prediletos no Rio, o Castelo da Lagoa, o Antiquarius e o Mário’s, costuma pedir frutos do mar.

Gosta de cerveja gelada e de vinho rosê, embora só beba socialmente, e odeia gravata. Passa a maior parte do tempo com roupa esporte, e usa muito – por força de um contrato de publicidade – os artigos da marca Le Coq Sportif.

Zico dispensa os penduricalhos que normalmente enfeitam os jogadores de futebol: junto com o relógio, usa uma pequena pulseira de ouro, presente de Sandra. E, no pescoço, uma medalha também de ouro mostrando dois peixinhos nadando entrelaçados – referência a seu signo e presente que ganhou no Dia dos Pais do ano passado.

No lazer, o vôlei de praia de outrora tomou-se impraticável. Seu grande passatempo, hoje, é a aparelhagem de vídeo-cassete instalada num painel de mais de 2 metros em sua sala. Ali, Zico tem quase todos os gols que marcou e uma enorme coleção de filmes e musicais. Confessa-se “amarrado” em samba e conhece de cor os sambas-enredos das principais escolas do Rio. Vai pouco a cinema – prefere ver em casa – e muito a teatro.

PLANOS ABANDONADOS

Com a torcida: "Eles gostam de mim" (Foto: Ricardo Chavez)

Com a torcida: "Eles gostam de mim" (Foto: Ricardo Chaves)

Um homem de família, que beija o pai, os tios e os irmãos homens

É um homem de família. Costuma beijar não só mãe e a irmã, mas também o pai, os tios e os irmãos homens. Sabe de memória as datas de aniversário de todos os parentes e amigos mais próximos, e não deixa passá-las sem um presente. Gosta de trabalhar com os que lhe são próximos: seu procurador, João Batista de Almeida, é irmão de dona Neide, a primeira professora, e o irmão Antunes ajuda a administrar seus negócios.

Longe do público, é brincalhão e considerado pelos companheiros de time “um grande gozador”. “Pintou um lance, ele encarna”, diz o lateral Leandro, do Flamengo. Seu círculo de amizades é elástico. No mundo do futebol, os mais próximos são Cláudio Adão, do Vasco, e sua mulher, Paula, o goleiro reserva do Flamengo, Cantarele, e o lateral Júnior. Mas nele figuram também o cantor Fagner, o comediante Chico Anysio e os atores Carlos Eduardo Dollabela, Pepita Rodrigues e Fábio Júnior.

Casado há sete anos com Sandra, primeira namorada e irmã mais nova de Suely, mulher de Edu, declara-se até hoje apaixonado pela “mulher, irmã, amiga e amante”. “Nunca tivemos uma crise ou briga séria”, garante Sandra, que o chama de “Filho”. Para os colegas de Flamengo é “Galo” – uma alusão ao apelido “Galinho de Quintino” com o qual foi batizado pelo locutor Waldir Amaral.

Sandra vai com frequência ao Maracanã para assistir aos jogos de Zico, e tem viajado ao exterior durante as excursões do Flamengo, para ficar próxima do marido. Sandra vai à Copa da Espanha, e Zico aplaude a idéia.

O futebol obrigou o supercraque a arquivar alguns planos. Ele gostaria de estudar piano, se tivesse tempo. Sandra, que passou no vestibular de Comunicações da Gama Filho em 1977 mas deixou os estudos quando ficou grávida de Arthur Júnior, tateia algum horário para que Zico estude inglês, como ela. Zico, que fez Contabilidade, abandonou seu curso de Educação Física na Faculdade Castello Branco em 1974, por falta de tempo.

ESPÍRITO DE LIDERANÇA

O vídeo-cassete: quase todos os gols (Foto: Avanir Niko)

O vídeo-cassete: quase todos os gols (Foto: Avanir Niko)

 

Tempo também falta para Zico exercer como gostaria suas funções de presidente do Sindicato dos Atletas Profissionais do Rio de Janeiro. “Vou lá quando dá”, desculpa-se.

Mas faz o que pode. Atualmente, Zico empenha-se sobretudo pela criação de uma entidade nacional de atletas profissionais, pela destinação da renda de um teste da Loteria Esportiva às entidades assistenciais dos jogadores e por uma reformulação da lei do passe, que “escraviza o jogador ao clube”. “Ele é um grande líder de nossa classe”, diz Zé Mário, substituído por Zico no cargo quando se transferiu do Vasco para a Portuguesa, em São Paulo.

Só reivindica para o grupo

“O Zico tem um grande espírito de liderança”, afirma o advogado Antônio Augusto Dunshee de Abranches, presidente do Flamengo, acostumado a receber o craque para tratar das reivindicações dos jogadores. Foi Zico quem exigiu que o vestiário fosse reformado, ou que os jogadores tivessem participação nas rendas. “Quando ele reivindica, é sempre para o grupo, nunca só para ele”, atesta o lateral Júnior.

É claro que Zico sabe também defender seus próprios interesses – mas, rumo aos 30 anos e próximo de disputar a que provavelmente será sua última Copa do Mundo, ele ainda não é exatamente um bilionário do futebol. Obviamente, está muito longe de ser pobre. Mora com família numa bela casa de três andares, quatro suítes e piscina na Barra da Tijuca, no Rio, servida por quatro empregados permanentes e dois eventuais.

Um bom patrimônio, mas longe do que poderia ser

Para comprá-la no ano passado, porém, teve que vender seu primeiro apartamento, na Tijuca, porque lhe faltavam os 7 milhões de cruzeiros da entrada. Além disso, possui dois apartamentos, dois terrenos, uma casa de veraneio em Praia Grande, no litoral fluminense, uma loja de artigos esportivos – a Zico Esportes, na Tijuca – e três automóveis: uma Caravan, um Passat Dacon e um Del Rey.

 

COTAS ESPECIAIS

A casa de Zico: patrimônio em alta com a renda

A casa de Zico: patrimônio em alta com a renda (Foto: Ricardo Chaves)

A condição de jogador mais bem pago do futebol brasileiro – entre luvas e salários, ele ganha hoje cerca de 3 milhões de cruzeiros mensais estipulados por um contrato que vai até maio de 1983 – não permitiu que Zico juntasse um patrimônio muito superior a 100 milhões de cruzeiros.

A preços de hoje, portanto, é menos que a quarta parte do primeiro contrato assinado por Pelé com o Cosmos de Nova York, em 1977. “Proporcionalmente ao que ele traz para o clube, Zico é o jogador mais barato do Brasil”, exagera Michel Assef, assessor jurídico do Flamengo.

A tendência, porém, é a aceleração do ritmo de sua caminhada para a riqueza: seu contrato atual prevê cotas especiais por participação em jogos no exterior, e o sistema de prêmios do Flamengo, com participação dos jogadores na renda e nos direitos de televisamento, permite, nas boas fases do Flamengo, que Zico receba pelo menos 1,5 milhão adicional por mês.

Acima de tudo Zico está agora entrando de rijo no terreno em que realmente uma celebridade esportiva hoje ganha dinheiro: os contratos de publicidade. “Quando terminarem esses contratos, ele será um homem rico”, assegura George Helal, vice-presidente do Flamengo, velho amigo do jogador e seu sócio na firma Zico Participações e Empreendimentos Ltda.

Para ele, o irmão Edu foi melhor

A empresa comercializará, no futuro, a marca “Zico”, já patenteada, como fez Pelé. Hoje, cuida dos negócios publicitários de Zico, que tem contratos com a Coca-Cola, Le Coq Sportif, Wella (xampus), Calcigenol (fortificante), Losango (turismo) e Estrela (brinquedos). Quanto Zico está ganhando com tudo isso? “Bem…”, desconversa o jogador, com um sorriso reticente.

Ele se torna bem mais loquaz ao falar de futebol – e é modesto ao analisar suas qualidades. Acredita sinceramente que seu irmão Edu o “superava longe em termos de qualidade técnica”. Talvez se trate de um tique familiar: o pai, “seu Antunes”, jura que o melhor entre os filhos era Antunes. Considera-se um bom jogador, embora admita que precisa aperfeiçoar o chute de esquerda com bola parada e não se veja como um marcador eficiente.

Suas jogadas preferidas são partir do meio de campo com a bola dominada, em arrancada fulminante rumo ao gol – cada vez mais difícil, hoje em dia -, e chutar de primeira, quando consegue, uma bola cruzada da linha de fundo. Acha que sua principal característica é a rapidez dentro da área: “Procuro não enfeitar – quero jogar a bola dentro do gol, pegar o goleiro no contrapé”.

O POVO SABE

Garoto dos anúncios, como este da Coca-Cola

Garoto dos anúncios, como este da Coca-Cola

Quanto à Copa, Zico entende que Telê está no caminho certo, que não há “casos claros de injustiçados” e que “é preciso respeitar o fato de que certos técnicos trabalham melhor com certos tipos de jogador”. Baseado sobretudo na divisão de chaves, ele aponta Alemanha e Espanha como grandes forças que poderão cruzar o caminho do Brasil.

Entre os jogadores estrangeiros, acha que brilharão sobretudo o argentino Maradona, os alemães Breitner, Runimenigge e Hansi Müller, e o inglês Keegan. Do Brasil, omitindo-se da lista, ele aponta como os melhores Sócrates, Júnior, Leandro, Cerezo e Luizinho.

Falando de política e de economia

Zico também não se acanha em selecionar nomes em política. Nessa área, é ecumênico. O senador Tancredo Neves, ex-PP, agora PMDB, é “um cara de cabeça muito legal”. Sandra Cavalcanti, candidata do PTB ao governo do Rio, que conhece pessoalmente, “é uma cabeça poderosa”. Seu rival do ex-PP e agora do PMDB, Miro Teixeira, amigo pessoal de Zico, representa “sangue novo”.

Ele apoia o projeto de abertura do presidente Figueiredo – e publicou um artigo no jornal Hora do Povo, do MR8. “Não vejo problema algum nisso”, diz Zico, que no entanto esclarece não se tratar de coluna fixa, como o jornal deu a entender. “Eu estava falando dos problemas do jogador de futebol.”

Zico não está satisfeito com o estado da economia. “Então vou ser a favor dessa inflação terrível que aí está comendo tudo?”, pergunta. “Vou dizer que a situação econômica é boa? Claro que não é”, diz, apontando como uma das causas a “má administração”.

Zico acha que o brasileiro está plenamente preparado para votar. Espera que haja logo eleições diretas para a Presidência – “Temos que chegar lá” – e não aprovou a vinculação de votos estabelecida pelo pacote de novembro: “Deve haver liberdade de escolha”.

Pretende votar em seu amigo Márcio Braga, ex-presidente do Flamengo, para deputado federal. Com a incorporação, produto direto dos casuísmos eleitorais do governo, se Márcio, ex-PP, mantiver sua candidatura, Zico, portanto, vai acabar votando no PMDB nas eleições de novembro.

Mas Zico lembra que “política não é meu setor”, e acha que as pessoas célebres, no Brasil, são patrulhadas caso não se pronunciem “sobre tudo”. Sua vida está centrada mesmo é no futebol. Segundo o craque, para o Brasil estrear em pleno estilo na Espanha, “só falta o pessoal poder ficar com a cabeça voltada para a Copa”.

A dele já está – e, no auge da forma, Zico poderá voltar da Espanha como o maior jogador do mundo.

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BYTES DE MEMÓRIA — BASTIDORES

Não basta trabalhar muito: jornalista também precisa ter sorte

Zico não voltou da Espanha com o título que ele e seus companheiros mereciam: o de tetracampeão do mundo.

Eu estive naquela Copa, por dever profissional, e vi a extraordinária seleção de Telê Santana passar dançando pelas primeiras três partidas, classificar-se em primeiro lugar em seu grupo, dar um baile de 3 a 1 na fortíssima Argentina – com Maradona já despontando e tudo o mais — e, na “tragédia de Sarriá”, cair por 3 a 2 ante uma Itália até então medíocre, que se classificara para o misto de oitavas e quartas de final daquela disputa com três empates.

Mas a história com Zico começou assim: J. R. Guzzo, o diretor de Redação de VEJA, me chamou à sua sala, um belo dia, logo no final de 1981, e disse:

– Setti, vou mandar você para a Copa do Mundo da Espanha. Você terá duas tarefas: cobrir a Seleção Brasileira e chefiar a equipe da revista que vai para a Copa.

Saí da sala com um misto de euforia, por poder trabalhar num tema que me apaixonava, e de forte aperto no estômago. Eu não era jornalista da área esportiva — era sub-editor da então importante editoria de Internacional, na qual trabalhava havia seis anos.

De bigodão e bolsa a tiracolo, com Zico no estacionamento da Gávea, dia 9 de março de 1982: o assédio ao craque era tanto que só ali foi possível terminar a entrevista (Foto: Rodolpho Machado)

Gostava de futebol e sabia quem eram todos os personagens ligados à Seleção. Nisso, estava confortável. — o problema é ninguém com quem eu trataria. Nenhuma fonte de informação, a começar pelo técnico Telê Santana, tinha ideia de quem eu era.

E cerca de 400 jornalistas, todos da área, experientes, iriam cobrir a Copa.

Guzzo, com minha designação, queria um olhar diferente sobre a Seleção, e estava plenamente ciente de que eu precisava me enfronhar no tema antes de embarcar para a Europa, meses depois. Assim, ficou combinado que eu passaria a dividir meu tempo entre as tarefas da Internacional e a cobertura de alguns treinos e amistosos da Seleção Brasileira. (Foi o que fiz no Morumbi, no Maracanã, no Recife e em São Luís do Maranhão).

A primeira etapa desse processo, porém, era um desafio: fazer no começo de março uma reportagem de capa, extensa e detalhada, sobre Zico, o maior craque do país na época.

Fui auxiliado, na tarefa, pelo repórter Maurício Cardoso, que sabia tudo de futebol e conhecia todo mundo nesse terreno. Ele ouviu várias pessoas do entorno do craque e o técnico Telê. (Infelizmente, por decisão que escapou de meu alcance, ele não teve crédito na reportagem.)

Pesquisei muito, li tudo o que podia sobre Zico e, não sem dificuldade, consegui manter uma primeira conversa com ele no final de um treino no agradabilíssimo Hotel Rancho Silvestre, em Embu das Artes, a meia hora da sede da Editora Abril, um oásis verdejante, dotado até de campo de futebol com medidas oficiais, onde a seleção tradicionalmente se concentrava quando em São Paulo.

No caso, estava concentrada para um amistoso contra a poderosa Alemanha Ocidental.

Conversando com Júnior e Zico durante a entrega do troféu "Bola de Ouro", da revista "Placar", no Copacabana Palace, a 22 de março de 1982 (Foto: Rodolpho Machado)

Na conversa com Zico, interrompida por constantes pedidos de declarações feitas por colegas, acabei combinando com ele de continuar a entrevista no Rio. Dias depois, fui de manhã até sua casa na Barra da Tijuca, mas o Galinho de Quintino estava com a agenda atrapalhada e me pediu para encontrá-lo mais tarde, durante um treino do Flamengo, seu clube, na Gávea.

Naquela época, Zico era uma das quatro ou cinco pessoas mais célebres do país. Perguntei a ele em que lugar do Brasil ele conseguia ficar sossegado com a mulher e os filhos — para almoçar num restaurante, ir a um cinema ou a um teatro.

Zico respondeu, com simplicidade, como se fosse a coisa mais natural do mundo — e que era mesmo, para ele:

– Que lugar? Nenhum.

Imaginem então vocês na Gávea o que era assédio ao craque. Assisti ao treino do Flamengo, conversei com alguns jogadores e dirigentes a respeito do objeto de minha reportagem mas, com Zico… Uma pedreira. Solicitado por Deus e o mundo, ele demorou uns 40 minutos entre o final do treino e a chegada aos vestiários, para tomar banho. Me fazia sinal para esperar, e assim fiz.

Só consegui terminar a entrevista iniciada no verdejante Hotel Rancho Silvestre no estacionamento da Gávea, perto do Ford Del Rey de Zico. Aquele contato preliminar seria aprofundado no mesmo mês, quando reencontrei o Galinho no Copacabana Palace, no Rio, onde recebeu da revista Placar a Bola de Ouro por suas atuações em 1981, e em diversos amistosos que a Seleção realizou no Brasil antes de embarcar para a Europa. Quando lá chegamos, Zico já confiava em mim e se tornara uma boa fonte de informações.

Voltando à reportagem de capa: depois de falar com o craque, era preciso, ainda, tentar entrevistar pessoas de sua família, com integrantes espalhados por vários bairros do Rio, agendas e interesses diferentes.

E aí veio a sorte, atributo fundamental para jornalistas cumprirem bem suas tarefas.

Exatamente naquela semana anterior à partida contra a Alemanha o apresentador Silvio Santos comandava o programa Esta é sua vida — e o personagem era, precisamente, Zico. Ou seja, tratava-se de um programa sobre a vida de Zico, da infância até a glória no futebol. E a produção providenciou a presença, nos longínquos estúdios da então TVS na Vila Guilherme, em São Paulo, de toda a família de Zico, de vários amigos de infância e até de sua primeira professora!

Com o craque no dia 6 de julho de 1982, na concentração de Más Badó, próxima a Barcelona, no dia seguinte à derrota da Seleção para a Itália e sua eliminação da Copa de 1982

Maurício Cardoso e eu seguimos para a Vila Guilherme num carro da Abril, com o fotógrafo Sérgio Berezovsky (hoje diretor de Redação da revista Quatro Rodas). Para nossa surpresa, quase não havia jornalistas na gravação do programa. Pudemos entrevistar os pais de Zico, seu irmão Edu — um driblador infernal que jogava uma barbaridade, quanto atuou pelo América e, depois, pelo Vasco –. sua primeira professora…

A sucursal de VEJA no Rio, dirigida por Zuenir Ventura, também colaborou com algumas declarações.

De posse dessa montanha de informações, sentei-me à minha mesa na redação de VEJA, então na sede da Abril na Marginal do Tietê, em São Paulo, e escrevi o texto.

Até hoje não sei por que cargas d’água não incluí na reportagem uma informação inacreditável que me foi fornecida pela mãe do craque, dona Matilde: Zico, contou-me ela, mamou do leite materno até os 11 anos de idade.

 

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