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Luiz Cláudio Cunha

31/03/2014

às 20:00 \ Política & Cia

50 ANOS DO GOLPE DE 1964: Com palestra em seminário da USP e da Brown University, Luiz Cláudio Cunha desnuda a participação da ditadura brasileira nos crimes dos ex-regimes autoritários do Cone Sul

Ilustração do artista alemão para a edição de 1549 da sátira "A Nau dos Insensatos", do também alemão Sebastian Brant

Ilustração do artista alemão Albrecht Dürer para a capa da edição de 1549 da sátira “A Nau dos Insensatos”, do também alemão Sebastian Brant

No âmbito do seminário internacional “O Golpe de 1964 e a onda autoritária na América Latina”, co-patrocinado pela Universidade de São Paulo e pela Brown University, dos Estados Unidos, o jornalista Luiz Cláudio Cunha falou sobre a participação da extinta ditadura brasileira na chamada Operação Condor, conjunto de operações repressivas ilegais em que colaboraram outros regimes totalitários do Cone Sul nos anos 70 e 80.

O evento, que transcorreu de segunda a sexta-feira da semana passada em auditório na Praça da Reitoria, no campus da USP, foi uma promoção do Departamento de História da Universidade, sob coordenação da professora Maria Helena Capelato, com comissão integrada pelos professores Marcos Napolitano e Janaína Teles, também da História da USP, e James Green, da História da Brown University,

Participaram alguns dos principais especialistas no período militar e historiadores de seis universidades brasileiras, duas dos Estados Unidos, uma do Chile e uma da Argentina, além de um representante do National Security Archive, de Washington, e outra da Comissão Nacional da Verdade. O único não acadêmico era Luiz Cláudio.

A palestra de Luiz Cláudio, veterano batalhador pelos direitos humanos, Prêmio Esso de Jornalismo e autor, entre outros, do livro O Seqüestro dos Uruguaios — Uma Reportagem dos Tempos da Ditadura (Editora L&PM, 2008, 472 págs.), intensamente documentada, é uma peça histórica cuja leitura vale a pena.

Confiram:

As penas verde-amarelas da Condor — As conexões repressivas do Brasil com as ditaduras no Cone Sul

As conexões repressivas do Brasil com as ditaduras no Cone Sul.

A plateia bem comportada que tomava as poltronas de veludo vermelho do centenário Teatro Solís, no centro de Montevidéu, irrompeu em aplausos entusiasmados quando ouviu o refrão final de Disculpe, o grande sucesso de Los Nocheros, o grupo folclórico patrioteiro que fazia sucesso com a música que a ultradireita do Uruguai assumiu como seu hino anticomunista.

Disculpe si no me entiende

Disculpe si no lo entiendo

Usted habla por la boca de otra gente y yo,

Y yo soy solo el eco de mi pueblo

O público daquela noite, 25 de agosto de 1975, não podia ser mais fiel: eram generais, oficiais de inteligência e agregados da elite militar de 15 países reunidos nos preparativos da 11º Conferência dos Exércitos Americanos (CEA), que seria aberta dois meses depois.

E a atração musical no palco não podia ser mais confiável.

O quarteto de Los Nocheros — três guitarras e um bumbo — teve o seu disco patrocinado pela DINARP, o organismo de propaganda criado logo após o golpe militar civil-militar de 1973.

Dois músicos do grupo eram ligados à DNII, a Dirección Nacional de Información y Inteligência, a polícia política patrocinada com recursos da CIA norte-americana e inspirada no ‘Esquadrão da Morte’ do delegado brasileiro Sérgio Fleury.

O quarteto almoçava com frequência com o comandante da secreta Compañia de Contrainformaciones, o braço repressivo do Exército. E Los Nocheros chegaram a cantar na festa de aniversário da unidade militar, instalada num quartel na esquina da calle Colorado e bulevar Artigas, dois quilômetros ao norte do Obelisco, marco turístico de Montevidéu.

Em 20 de outubro, enfim, abriu-se a 11ª CEA, que reuniu por cinco dias os comandantes da repressão mais louvados pelos nocheros do continente.

O anfitrião da CEA, general Julio César Vadora, comandante do Exército uruguaio, expôs a ideia fixa daquele distinto público: “No campo de batalha da sedição, deve haver um estreito enlace entre os Exércitos [...]“.

Maior do Exército, que amanheceu já no dia 11 de setembro no regimento de Peñalolén onde o general Augusto Pinochet instalou o QG do golpe contra o presidente chileno Salvador Allende em 1973. O general Álvarez ecoou o mantra de seu líder: “O mundo se encontra em guerra. Uma guerra [...] de ações solapadas em que não se distingue vanguarda e retaguarda [...]“.

O general uruguaio Luís Vicente Queirolo, secretário-geral da conferência, foi mais claro: “Existe uma coordenação entre os exércitos do continente para combater e impedir a infiltração marxista [...]“.

A estrela principal da reunião acabou sendo o chefe da delegação argentina, nomeado há menos de dois meses pela presidente Isabelita Perón para o comando do Exército.

Se for preciso, deverão morrer na Argentina todas as pessoas necessárias para alcançar a segurança do país”

O tenente-general Jorge Rafael Videla ganhou as manchetes dos jornais ao antecipar o futuro em Montevidéu: “Se for preciso, deverão morrer na Argentina todas as pessoas necessárias para alcançar a segurança do país…”, avisou Videla, seis meses antes de liderar o golpe que matou e fez desaparecer 30 mil pessoas que ‘ameaçavam’ a segurança nacional.

O líder da comitiva brasileira, mais discreto, era o general Fritz Azevedo Manso, chefe do Estado-Maior do Exército, que derrubou João Goulart duas vezes no espaço de uma década.

Em 1954, como tenente-coronel, Fritz assinou o manifesto de 82 oficiais que levou à queda do então ministro do Trabalho de Getúlio Vargas. Em 1964, como coronel, Fritz conspirou no golpe que depôs o presidente da República. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

13/03/2014

às 0:28 \ Política & Cia

Relação dos agraciados com a Medalha Chico Mendes inclui o jornalista Luiz Cláudio Cunha

O Grupo Tortura Nunca Mais, do Rio de Janeiro, divulgou hoje a relação dos homenageados com a Medalha Chico Mendes de Resistência, que completa sua 26ª edição em 2014 — como ressaltam os organizadores, no ano do cinquentenário do golpe de 1964.

Foram agraciados 13 pessoas, a começar pelo controvertido ativista e jornalista Julian Assange (fundador do WikiLeaks), ao lado de nomes como o teatrólogo Amir Haddad (do grupo Grupo Tá na Rua), o cacique Ládio Veron (da Nação Guarani-Kaiowá), o advogado Manoel Martins (ex-preso político), o morador de rua Rafael Braga (condenado à prisão sob a acusação de portar material explosivo e incendiário durante uma das manifestações de junho passado, no Rio), os membros do Ministério Público Federal Raquel Dodge (uma das subprocuradoras-gerais da República) e Sérgio Suiama (procurador da República no Rio de Janeiro) e o jornalista Luiz Cláudio Cunha, colaborador frequente deste blog e, entre outros, autor do livro Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios (Editora L&PM, 2008, 472 páginas).

Cinco personalidades receberam homenagens in memoriam: o ex-presidente João Goulart; o pedreiro Amarildo Dias de Souza (desaparecido desde julho do ano passado depois de detido por policiais militares que diziam pretender conduzi-lo à Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha, no Rio); o ex-deputado Luiz Maranhão (do Comitê Central do Partido Comunista, preso pelo antigo DOI-Codi em 1974 e depois desaparecido); Adriano Fonseca Filho (guerrilheiro do então clandestino PCdoB desaparecido em 1973 no Araguaia); e Marcos Antônio da Silva Lima (ex-marinheiro que aderiu à luta armada e foi morto por integrantes do Exército em 1970).

O prêmio Chico Mendes foi criado em 1988 para homenagear pessoas e grupos engajados na luta por direitos humanos. Seus organizadores dizem que se tratou de uma reação à entrega da ‘Medalha do Pacificador’, condecoração do Exército, a pessoas denunciadas por violações dos direitos humanos, como o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, do DOI-Codi paulista, e os delegados do extinto DOPS Sérgio Paranhos Fleury (SP) e Pedro Seelig (RS), frequentemente responsabilizados por torturas em presos políticos durante o regime militar.

Desde a primeira concessão da Medalha Chico Mendes, em 1989, foram agraciadas personalidades como o cardeal Paulo Evaristo Arns, arcebispo emérito de São Paulo, o promotor Hélio Bicudo, os jornalistas Barbosa Lima Sobrinho, Luís Fernando Veríssimo e Alceu Amoroso Lima, o arquiteto Oscar Niemeyer, o ativista Herbert de Souza — o Betinho –, o educador Paulo Freire, a deputado Luíza Erundina (PSB-SP) e a estilista Zuzu Angel, além de entidades como a Anistia Internacional, a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e a ONG internacional Human Rights Watch, com sede em Nova York e sucursais em 15 outras grandes cidades do mundo.

A Medalha Chico Mendes tem como promotores, além do Grupo Tortura Nunca Mais, outras 14 entidades, entre elas a Associação Brasileira de Imprensa, a Comissão de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil do Rio de Janeiro, o MST, o Centro pela Justiça e Direito Internacional (CEJIL) e o Comitê Chico Mendes.

17/07/2013

às 10:04 \ Política & Cia

Carlos Brickmann: Ladroeira nova é coisa velha

"As notícias merecem primeira página: revelam como superfaturar obras, roubando dinheiro público. Mas não são novidade, não"

"As notícias merecem primeira página: revelam como superfaturar obras, roubando dinheiro público. Mas não são novidade, não"

Nota da coluna de Brickmann publicada hoje por diversos jornais

LADROEIRA É COISA VELHA

Todos surpresos com a denúncia da multinacional alemã Siemens a respeito de acertos para fraudar licitações no Brasil. A imprensa se surpreendeu tanto que deu manchete de primeira página.

As notícias merecem primeira página: revelam como superfaturar obras, roubando dinheiro público. Mas não são novidade, não.

Este colunista desde 2008 vem publicando notícias sobre investigações internacionais, na França e na Suíça, a respeito da multinacional francesa Alstom e suas relações com obras públicas em São Paulo entre 1995 e 2003, período em que o Estado foi governado por Mário Covas e Geraldo Alckmin, ambos do PSDB.

Dúvidas? Veja no Google, “Carlos Brickmann” “Alstom”.

As propinas citadas atingem US$ 7 milhões. Se alguém prefere não acreditar em jornalistas brasileiros, as notícias também saíram no Wall Street Journal, americano, e na revista alemã Der Spiegel.

O ótimo repórter Luiz Cláudio Cunha publicou, no Congresso em Foco, em 2012, informações estarrecedoras sobre licitações na CEEE, estatal gaúcha de eletricidade, envolvendo empreiteiras brasileiras de grande porte e empresas multinacionais como Alstom e Brown-Boveri.

A denúncia da Siemens (que admite ter participado dos acertos) só pode surpreender por um motivo: a inação dos responsáveis pela investigação dos fatos que já eram de conhecimento público. Por que as investigações por aqui não andaram, embora as houvesse em outros países?

Excelente pergunta.

Segue-se outra pergunta: quem é que ficou cego, surdo e mudo diante do grande escândalo?

05/07/2013

às 20:11 \ Política & Cia

Luiz Cláudio Cunha, afastado da Comissão da Verdade, diz ter sido punido por “crime de opinião”

Dilma, de costas, aplaude os membros da Comissão da Verdade no dia de sua instalação, 16 de maio do ano passado: da esquerda para a direita, José Carlos Dias, Maria Rita Kehl, Rosa Maria Cardoso da Cunha, Paulo Sérgo Pinheiro, José Paulo Cavalcanti e Gilson Dipp. Estava mais à esquerda e não aparece na foto o ex-procurador-geral da República Cláudio Fonteles. Em segundo plano, os ex-presidentes José Sarney e Lula, o vice Michel Temer, e os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor (Foto: O Globo)

A verdade sobre a Comissão da Verdade

Artigo de Luiz Cláudio Cunha (*) publicado no jornal O Globo

No final da manhã desta terça-feira, 2 de julho, fui inesperadamente comunicado de meu afastamento da Comissão Nacional da Verdade (CNV). Ali atuava como consultor do Grupo de Trabalho da Operação Condor, formalmente convidado desde setembro passado pelo ministro do Superior Tribunal de Justiça Gilson Dipp e pela advogada Rosa Cardoso.

De repente, contra o voto divergente de Cardoso, fui punido pela decisão irrecorrível de quatro comissários — Paulo Sérgio Pinheiro, José Carlos Dias, Maria Rita Kehl e José Paulo Cavalcanti — pelo suposto delito de opinião.

Com um atraso de 40 dias, o quarteto justificou minha saída como uma retaliação contra um artigo meu (“A comissão de frente da mentira: quem teme a verdade sobre a ditadura?”), de larga circulação na internet, a partir de 24 de maio passado.

Lá, eu denunciava a falta de empenho do Ministro da Defesa e seus comandantes do Exército e da Marinha no resgate da verdade sobre graves violações de direitos humanos cometidos especialmente nos 21 anos do Estado ditatorial-militar instituído em 1964, alvo central da missão conferida por lei à CNV.

Mais do que isso, criticava a despropositada entrevista, dias antes, do comissário José Carlos Dias, em que antecipava seu veto a qualquer parecer que rasgue o manto de impunidade que cobre os torturadores do país há longos 34 anos. “Não cabe à CNV fazer este tipo de recomendação”, disse ele, atropelando os limites de um relatório que o país só conhecerá no final de 2014.

Papel feio para um ex-advogado de 700 presos políticos e ex-ministro da Justiça que não pode esquecer que o Brasil assina lá fora tratados internacionais contra crimes de lesa-humanidade que não cumpre aqui dentro.

O consultor agora afastado pelo crime de discordar não tem, contudo, importância.

O mais relevante é o alvo visível do quarteto punitivo da CNV: a advogada Rosa Cardoso, hoje herdeira solitária da confiança das entidades de direitos humanos, cada vez mais desconfiadas sobre o resultado final dos trabalhos da comissão.

A solidão aumentou em meados de maio, com o afastamento do comissário Cláudio Fonteles, ex-procurador-geral da República, que renunciou exaurido pelo confronto permanente com Paulo Sérgio Pinheiro.

Na essência, é um confronto entre visões díspares que podem levar a CNV à implosão: de um lado, Fonteles, sempre aberto e conectado com a rua e, de outro, Pinheiro, sempre desconfiado e fechado ao escrutínio externo.

Líder do quarteto e professor de ciência política, Pinheiro tem, apesar da imagem cordial, um estilo centralizador, exasperado, irritadiço, que explode em chiliques e gritos que transbordam as finas paredes do segundo andar do CCBB, em Brasília, onde funciona a CNV.

Crítico do sistema de coordenação rotativa adotada desde o início da comissão, ele deixa transparecer seu devaneio nunca explícito: ser o ‘presidente’ permanente da CNV, sem interrupção, até o momento glorioso da foto de entrega do relatório final, no crepúsculo de 2014. Pelo estilo, gestos e e-mails, Pinheiro exibe a pretensão de ser uma espécie de tutor sobre os outros comissários, base do afastamento de Fonteles e do isolamento de Cardoso.

Para as entidades de vítimas da ditadura, Pinheiro é definido como distante e arrogante. Durante alguns dias, Iara Xavier Pereira, que teve a mãe presa, o marido e dois irmãos mortos pela ditadura, amanheceu cedinho na sede da CNV em Brasília, em busca de informações.

Desistiu no dia em que ouviu o comentário jocoso e descuidado de alguém da equipe de Pinheiro: “Ah, ela está vindo aqui todo dia só para fiscalizar o ponto das pessoas…”.

Ivan Seixas, presidente do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana em São Paulo, sobreviveu às torturas do DOI-CODI, mas sucumbiu a uma bronca pesada de Pinheiro, que ficou irritado com a revelação da agenda de visitas de empresários e diplomatas americanos ao DOPS paulista na ditadura.

“Isso atrapalhou entendimentos meus com o consulado daqui dos Estados Unidos”, reclamou ele, ao ponto de telefonar depois para o embaixador Thomas Shannon Jr., em Brasília, para se desculpar.

Graças aos salamaleques diplomáticos de Pinheiro com o Departamento de Estado, a CNV completou em maio seu primeiro aniversário e ainda espera, resignada, pela desclassificação de documentos americanos que podem revelar detalhes secretos da ditadura, como já aconteceu com o Chile e a Argentina desde o governo de Bill Clinton (1993-2001).

Os jornalistas e a simples hipótese de uma entrevista coletiva deixam Pinheiro exasperado e arredio. Na sexta-feira, 29 de março, véspera da Páscoa, repassei a Pinheiro e aos outros comissários, via e-mail, uma notícia sobre uma ‘lambada’ do Planalto: “Dona Dilma, irretocável”, comentei.

Era uma reportagem de Júnia Gama, em O Globo, dizendo que a presidente cobrava “uma catarse das feridas abertas pela ditadura”, insatisfeita com a falta de mobilização da opinião pública.

Pinheiro odiou o puxão de orelhas presidencial, e me respondeu desqualificando a imprensa. “Pura especulação…quizílias… As futriquinhas sobre cisões no interior da CNV pertencem ao reino da fantasia”, replicou, 69 minutos depois, exatos 80 dias antes da quizília que defenestrou Fonteles.

O secretismo militante de Pinheiro, que imagina prestar contas ao país só no relatório final de 2014, irrita as entidades de direitos humanos.

Em fevereiro passado, repetindo um pedido não atendido sete meses antes, o Instituto de Estudos da Religião (ISER), uma respeitada ONG do Rio de Janeiro dedicada aos direitos humanos e à democracia, pediu de novo informações sobre o método de trabalho, o planejamento, o calendário e a agenda de audiências públicas da CNV. “São questões fundamentais para que movimentos da sociedade civil possam viabilizar o monitoramento democrático das ações do poder público”, ressaltou o secretário-executivo do ISER, Pedro Strozenberg, que assinava o pedido.

Em 5 de março, doze dias após o ofício do ISER, Pinheiro, então coordenador da CVN, confessou sua aversão à transparência, enviando um e-mail explícito aos comissários e seus assessores diretos: “Minha tendência é não responder nada… Ou poderíamos dar respostas lacônicas. Acho um desperdício obrigar os colegas a responder a essas questões quando têm mais o que fazer… Não creio que a CNV esteja sujeita a esse monitoramento… Creio que podemos nos beneficiar do sigilo em relação a nossos trabalhos internos”.

No dia 5 de abril, sob a coordenação de Pinheiro, sua equipe na CNV avaliou um trabalho sobre ‘Documentos Sigilosos’, que previa, no caso de ‘informações sensíveis’, a classificação de documentos, uma incongruência para qualquer Comissão da Verdade às voltas justamente com a desclassificação de segredos cultivados pela ditadura.

Consciente do risco político de não divulgar papéis classificados por ela, no acesso a acervos militares, o estudo da CNV alertava para a principal ‘desvantagem’ nessa arriscada decisão: “Criticas da sociedade e da mídia”.

O que abre uma questão crucial: sem a sociedade e a mídia, qual a vantagem de uma Comissão da Verdade?

O futuro da CNV, na crise atual, depende do resultado desse confronto desigual entre o quarteto liderado por Paulo Sérgio Pinheiro e a firme e solitária resistência de Rosa Cardoso, único elo com o grito que hoje ecoa pelo país: “Vem, vem pra rua, vem!”.

*Jornalista, desde terça-feira é ex-consultor da CNV.

29/05/2013

às 14:00 \ Política & Cia

A comissão de frente da mentira: quem teme a verdade sobre a ditadura?

Texto de Luiz Cláudio Cunha publicado em Sul21

A COMISSÃO DE FRENTE DA MENTIRA: QUEM TEME A VERDADE SOBRE A DITADURA?

O ministro, o general, o comissário?

O Brasil descobriu nos últimos dias que a tropa de elite dos altos escalões da República que combate a verdade é mais forte e abusada do que se imaginava. Cerram fileiras ali, entre outros, o ministro da Defesa, comandantes do Exército e da Marinha e até mesmo um dos sete ilustres membros da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que deve ser a primeira trincheira de seu resgate perante o país.

As fantasias foram rasgadas, de vez, com a apresentação em Brasília, na terça-feira (21), do balanço do primeiro ano de atividades da CNV. Ali, com gráficos e documentos inquestionáveis, a historiadora Heloísa Starling, da Universidade Federal de Minas Gerais e coordenadora da pesquisa da CNV, apresentou dados perturbadores sobre a repressão que marcou a ditadura de 1964-85. Entre eles, a grave acusação de que, em plena democracia, a Marinha mentiu para o Palácio do Planalto.

Em 1993, o presidente Itamar Franco pediu dados sobre desaparecidos. A Marinha informou que os presos citados tinham fugido ou estavam sumidos. Baseada no cruzamento de 12.072 páginas do CENIMAR, o serviço secreto da Marinha, a equipe de pesquisa da CNV apurou que 11 pessoas daquela lista estavam mortas até dezembro de 1972 — e a Marinha sabia disso. Um dos mortos, cujo nome a Marinha sonegou a Itamar Franco, era o ex-deputado Rubens Paiva, preso e desaparecido em janeiro de 1971.

“É o primeiro documento oficial que diz que Rubens Paiva está morto. A Marinha brasileira ocultou deliberadamente documentos já no período democrático”, declarou Starling. A Marinha reagiu no mesmo dia, burocraticamente, sem desmentir a acusação e sem rebater o que revelam seus arquivos secretos: “Não há qualquer outro registro nos arquivos desta Força, diferente daqueles encaminhamos ao Ministério da Justiça em 1993”, gaguejou a Marinha, em sua inconvincente nota oficial.

Dias antes, quem tropeçou foi o Exército. No sábado, 11 de maio, o tenente-coronel André Alves, comandante do 2º Regimento de Cavalaria Mecanizada de São Borja (600 km a oeste de Porto Alegre) informou ao prefeito Farelo Almeida que o Exército não atenderia seu pedido para fazer a segurança do túmulo do ex-presidente João Goulart (1919-1976), filho ilustre da cidade e enterrado há 36 anos no cemitério local, o Jardim da Paz. A pedido da família Goulart, a CNV aprovou a exumação dos restos de Jango para esclarecer, com a ajuda de peritos internacionais, a suspeita de que o ex-presidente foi envenenado, no exílio, no marco da Operação Condor, a conexão repressiva que unia as ditaduras do Cone Sul na década de 1970.

O oficial de São Borja disse ao prefeito que o pedido fora avaliado e negado por seu chefe imediato, o general Geraldo Antônio Miotto, comandante da 3ºª Divisão de Exército, baseada em Santa Maria.

O general Miotto e o jazigo de Jango: "sem jurisdição"

O general Miotto e o jazigo de Jango: "sem jurisdição"

A alegação do general para a recusa soou sobrenatural: “A área não é jurisdição das Forças Armadas”. Estranho seria se fosse. Exércitos não existem para patrulhar cemitérios, embora a História mostre que eles costumem povoá-los com os mortos de guerras ou de golpes de Estado que eles patrocinam. O general definiu que a missão de vigilância cabia à Brigada Militar (a força pública estadual) ou à Guarda Municipal, esquecido que a questão central aqui não é a ‘área’, mas a missão que lhe incumbe neste caso dos restos mortais de Jango.

Não compete a qualquer general definir que a guarda do cemitério, neste tema específico, seja encargo do Estado ou do Município. A decisão de exumar o ex-presidente derrubado em 1964 pelo Exército a que o general Miotto hoje serve não é preciosismo de lideranças municipais ou de comandantes estaduais. É uma decisão política do mais alto nível, adotada pela CNV em Brasília, articulada com a família Goulart e especialistas forenses de outros países, e que a ninguém mais cabe discutir. Ao Exército, como sempre, resta cumprir ordens.

Ninguém é ingênuo para imaginar que a recusa institucional do Exército de dar segurança a esta missão federal seja mero rompante de um tenente-coronel de São Borja ou de um general de Santa Maria. Pelas implicações políticas envolvidas, parece óbvio que a recusa tenha sido acertada dentro da escala de comando. Pela cadeia hierárquica, progressivamente, o general Carlos Bolívar Goellner (comandante Militar do Sul), o general Enzo Martins Peri (comandante do Exército em Brasília) e o chefe de ambos, o embaixador Celso Amorim (ministro da Defesa).

Todas estas estrelas fulgurantes não perceberam o dano político provocado pelo ‘não’ burocrático da guarnição militar do sul. Seria tão mais simples atender ao pedido elementar do prefeito, sem apelar para as tecnicalidades e pretextos jurídicos que só escancaram uma situação melancolicamente clara: o Exército não é parceiro da CNV e da sociedade brasileira na luta para descobrir a verdade.

No caso emblemático de Jango, que marca a longa intervenção militar de duas décadas na vida do país, o Exército perdeu a grande chance (mais uma) de demonstrar ao país que é uma instituição nacional sem qualquer amarra a um passado de violência institucional, de subversão constitucional e de truculência repressiva que enodoam sua farda e sua história. O Exército da atualidade, como instituição da lei e da ordem constitucional, tem todos os motivos do mundo para atender sem constrangimentos à sua missão histórica e assumir os encargos que o Estado Democrático de Direito lhe impõe.

Uma tropa do Exército zelando pela integridade de um cemitério sob investigação federal de relevante interesse histórico seria uma demonstração cabal, firme, eloquente, de que este Exército tem apenas o compromisso com o futuro, não com o passado que muitos tentam negar ou escamotear. Esta boba recusa de São Borja escancara um incompreensível alinhamento do Exército do governo Dilma Rousseff, quatro décadas depois, com a postura ofensiva e indefensável do Exército do Governo Ernesto Geisel.

Um serviu à ditadura de ontem que tremeu ao simples regresso do presidente, morto, à sua terra natal. O outro serve à democracia de hoje que ampara a plena investigação sobre a morte suspeita de um presidente respeitado pelo povo que o elegeu e temido pelo regime que o derrubou. A diferença ostensiva entre estas duas eras militares está decalcada na ficha impecável dos atuais comandantes militares do Brasil. Eles, como as tropas que hoje comandam, nada têm a ver com as truculências cometidas no regime derrocado pela democracia. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

19/02/2013

às 16:00 \ Política & Cia, Vasto Mundo

José Mujica, o presidente ex-guerrilheiro do Uruguai, esmaga juíza que enfrenta torturadores da ditadura

Mariana Mota, a juíza, e o presidente do Uruguai, José Mujica

Mariana Mota, a juíza, e o presidente do Uruguai, José Mujica

Reportagem de Luiz Cláudio Cunha, publicado no site Sul21

Feche os olhos e imagine a seguinte tragédia em três atos:

Ato 1. A presidente Dilma Rousseff, ex-guerrilheira e presa política, é pressionada por oficiais ligados à linha dura do regime militar, irritados com o juiz de São Paulo que reconheceu a morte sob torturas do jornalista Vladimir Herzog nos porões do DOI-CODI do II Exército, durante a ditadura.

Ato 2. A presidente Dilma Rousseff cede à pressão dos quartéis, procura uma revista semanal e cobra publicamente uma reação do Supremo Tribunal Federal contra o magistrado incômodo.

Ato 3. Submisso, o STF acata a queixa do Palácio do Planalto e pune o juiz, que acaba inesperadamente removido para um inofensivo tribunal de causas menores, sem envolvimento com direitos humanos, reforçando a blindagem dos torturadores e assegurando a impunidade aos crimes de lesa-humanidade.

Agora, abra os olhos porque esse drama, é claro, não aconteceu no Brasil.

Mas acaba de assombrar o Uruguai, que chega ao fundo do poço de uma guerra aparentemente perdida na área crucial dos direitos humanos, graças a um personagem até então insuspeito: o ex-líder da guerrilha Tupamaro, o ex-preso político e atual presidente da República, José “Pepe” Mujica.

Na preguiçosa Quarta-Feira de Cinzas (13), os cinco ministros da Suprema Corte de Justiça (SCJ) do Uruguai aproveitaram a ressaca de um país relaxado pelo Carnaval para aplicar o mais duro golpe na luta contra a impunidade e a tortura no Uruguai, que padeceu por 12 anos (1973-1985) sob uma feroz ditadura militar.

Reagindo ao dedo rígido e à língua venenosa de Mujica, os juízes supremos em Montevidéu removeram a juíza Mariana Mota, de repente, do Juizado Penal de 7º Turno, que nos últimos quatro anos sob sua valente direção transformou-se no tribunal mais importante do país na área dos direitos humanos.

A magistrada mais conhecida e temida do Uruguai foi transferida para um inócuo juizado civil, onde não poderá mais alcançar os repressores que estremeciam diante dessa mulher esguia, de cabelos castanhos curtos, pele clara e ar tímido, que prefere roupas despojadas e esportivas à vestimenta formal e descolorida das juízas mais conservadoras.

Os óculos de leitura de aros finos não escondem o olhar doce, mas firme, dessa uruguaia de fala mansa, casada, com três filhos (entre 13 e 15 anos) que aparenta ser bem mais jovem do que os 40 e poucos anos que tem.

O riso dos dinossauros

Apesar da discrição, que explica sua aversão a fotos, Mariana Mota tornou-se a cara mais visível e valente da Justiça uruguaia, o que justifica a comoção pública provocada por sua inesperada remoção da linha de frente do Judiciário.

Na sexta-feira, quando ela se apresentou na sede da Suprema Corte, no centro de Montevidéu, para conhecer seu novo destino burocrático, o prédio apertado foi invadido por 300 manifestantes que protestavam pela decisão arbitrária.

Eram estudantes, avós, mães e filhos de torturados e desaparecidos políticos e organizações de direitos humanos, inconformados com a destituição de Mota.

“Suprema Corte de Injusticia”, bradavam os manifestantes, entre eles o músico Daniel Viglietti (versão local de Chico Buarque dos tempos de protesto) e o escritor Eduardo Galeano. A polícia foi chamada para evacuar o prédio e permitir o ato de posse de Mota em seu novo juizado civil.

Luís Almagro, o chanceler, e Huidobro (centro), o ministro da Defesa: contente

Luís Almagro, o chanceler, e Huidobro (centro), o ministro da Defesa

Pairava no ar um pesado sentimento de orfandade diante das violências ainda mal apuradas do Estado, até agora sob a mira certeira da juíza destituída. O constrangimento generalizado pela violência cometida pelos senhores da Suprema Corte ficou evidente até no Ministério do ladino presidente Mujica.

O seu chanceler, Luís Almagro, não se valeu de mesuras diplomáticas para definir de pronto: “Mariana Mota é uma juíza extraordinária, que está próxima do ideal que se pretende do direito e da justiça”. Naturalmente preocupado com a repercussão no mundo que Mujica desprezou, o ministro de Relações Exteriores reconheceu: “O Uruguai perde posicionamento internacional com a remoção. Mota é o membro do Poder Judiciário que mais cabalmente entendeu a dimensão do tema dos direitos humanos e da vigência das convenções internacionais”. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

13/11/2012

às 12:07 \ Política & Cia

A mídia e a Justiça de duas caras: a história do massacre contra um pequeno e valente jornal

A mídia e a Justiça de duas caras 

Por Luiz Cláudio Cunha, no Observatório da Imprensa

O Brasil de duas caras foi desmascarado na quarta-feira (7/11), no coração de Porto Alegre. A obra Uma Reportagem, Duas Sentenças, que o jornalista Elmar Bones autografou na 58ª Feira do Livro, na capital gaúcha, é uma pancada doída no fígado de um país marcado pela hipocrisia e um choque na consciência de duas instituições fundamentais da democracia: a Mídia e a Justiça.

Uma ReportagemDuas-Sentenças Nas suas enxutas 144 páginas, arrumadas em apenas duas semanas numa edição modesta da combalida editora do autor, a denúncia de Bones é um oportuno dique de contenção e reflexão contra a maré triunfalista de uma imprensa caudalosa nos elogios sem freios à Suprema Corte que julga a enxurrada de falcatruas da quadrilha do mensalão.

Existe corrupção e existem juízes em Brasília, como prova o Supremo Tribunal Federal. Mas também existe corrupção e faltam juízes em Porto Alegre, como lembra Bones, vítima do mais persistente, inclemente, longo processo judicial contra a liberdade de expressão no país. Não existe paralelo de uma ação tão prolongada da Justiça contra um órgão de imprensa no Brasil pós-ditadura de 1964, tudo isso sob o silêncio continuado da mídia e a inércia complacente de juízes.

É um absurdo contraponto de mutismo e omissão em Porto Alegre ao espetáculo de estridência e protagonismo que se escuta e vê em Brasília. A mídia e a Justiça estão lá e cá, em campos opostos, emitindo sinais contraditórios sobre seus papéis. Cumprem bem seu ofício na capital brasileira e fazem muito mal (ou não fazem) o seu trabalho na capital gaúcha.

O espanto de Dilma: “Nunca vi nada igual” 

O calvário de Bones começou em 2001, quando seu pequeno jornal, o , um mensário de cinco mil exemplares, ousou contar a história da maior fraude do Rio Grande do Sul, praticada por uma quadrilha infiltrada em licitações de geradores na CEEE, a empresa pública de energia elétrica do Estado.

Praticaram, em valores corrigidos, uma tunga de mais de R$ 800 milhões, quase 15 vezes o montante do mensalão agora em causa no Supremo Tribunal Federal. O jornal contou que, em março de 1987, o líder do governo do PMDB na Assembleia gaúcha, o deputado caxiense Germano Rigotto, forçou a criação do cargo de “assistente da diretoria financeira” na CEEE, contrariando a determinação do governador Pedro Simon de austeridade total na empresa, que acumulava dividas de US$ 1,8 bilhão.

Acomodou-se lá Lindomar Rigotto, irmão do deputado. “Era um pleito político da base do PMDB de Caxias do Sul”, reconheceu o secretário de Minas e Energia da época, Alcides Saldanha, na CPI instalada em 1995, no governo Antônio Britto.

Na administração anterior, no governo Alceu Collares, a investigação ganhou eletricidade quando a sindicância interna da CEEE foi remetida, em dezembro de 1994, à Contadoria e Auditoria Geral do Estado (CAGE) pela espantada secretária de Minas e Energia: “Eu nunca tinha visto nada igual”, confessou diante de tantos malfeitos a economista Dilma Rousseff, no início de uma carreira política que 16 anos depois a levaria ao Palácio do Planalto.

O Rio Grande nunca viu uma CPI como aquela. Foi a primeira comissão parlamentar, entre as 139 criadas no estado desde 1947, que apontou os nomes de corruptores e corruptos. Foram denunciadas 11 marcas famosas (Camargo Correa, Alstom, Brown Boveri, Coemsa, Lorenzetti, entre outras) e 13 funcionários importantes, com destaque para Lindomar Rigotto, citado em 13 depoimentos como a figura central da organização criminosa.

Está lá no relatório final: “De tudo o que se apurou, tem-se como comprovada a prática de corrupção passiva e enriquecimento ilícito de Lindomar Vargas Rigotto”, escreveu o relator, o deputado petista e ex-prefeito caxiense Pepe Vargas, primo de Lindomar e Germano Rigotto e atual ministro da Desenvolvimento Agrário do governo Dilma Rousseff.

O crime sem gasolina 

As 260 caixas de papelão da CPI, contendo os autos de 30 volumes e 80 anexos envolvendo 41 réus – 12 empresas e 29 pessoas físicas –, foram remetidas no final de 1996 ao Ministério Público e transformadas numa ação civil pública na 2ª Vara Cível da Fazenda Pública na capital gaúcha.

Lá, ao contrário do mensalão que entusiasma o país e a mídia pela celeridade do Supremo, o processo nº 011960058232 da fraude da CEEE hiberna e acumula poeira sob o inexplicável desinteresse da imprensa e do Judiciário, envolto há 16 anos num inexplicável, constrangedor “segredo de justiça”.

Por alguma insondável razão, nenhum repórter, nenhum pauteiro, nenhum jornal, nenhum magistrado em Porto Alegre se anima e se inspira a aplicar à maior fraude da história gaúcha a overdose de transparência e informações relatadas aos borbotões em Brasília nas manchetes de jornais, capas de revista e transmissões ao vivo das emissoras de rádio e TV, transformando cada ministro do Supremo em celebridade midiática no maior julgamento de sua história.

O mistério na CEEE aumentou, uma década depois, com o fim violento do principal implicado, Lindomar Rigotto. Dono então de uma boate da moda no litoral gaúcho, o ex-executivo da CEEE foi morto com um tiro no olho desferido por um assaltante, no Carnaval de 1999.

Dois anos depois, com a determinação que não tinha a burocrática imprensa tradicional, Bones foi atrás dessa história, superando a pobreza de seu jornal: “A reportagem foi feita num momento muito difícil. Não tínhamos nem gasolina para mandar um repórter ao litoral, para pesquisar o processo do crime no fórum”, conta ele no livro.

A reportagem de quatro páginas de 2001 deu ao os principais prêmios do jornalismo, incluindo o prestigiado Esso. Quem não gostou foi a família Rigotto, que abriu dois processos na Justiça: um por calúnia e difamação, outro pedindo indenização por dano moral. A denúncia foi feita pela matriarca, dona Julieta, hoje com 91 anos, mãe de Lindomar e Germano.

No processo penal, Bones foi absolvido e até elogiado pelo promotor e pela juíza. A ação civil, pela extinta Lei de Imprensa, chegou a ser arquivada mas foi reaberta em 2003, quando Germano Rigotto já era governador. A empresa JÁ Editores foi condenada por dano moral. Assim, a mesma Justiça conseguiu chegar a duas conclusões díspares: absolveu o jornalista e condenou o jornal por ter publicado a mesma reportagem!  » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

27/09/2012

às 17:00 \ Política & Cia

COMISSÃO DA VERDADE: Brasil entrou de cabeça na Operação Condor de repressão ilegal a oposicionistas durante a ditadura, diz jornalista. O país “tem que apurar essa coisa vergonhosa”, acrescenta

Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo J.B. Scalco, na época da reportagem que revelou ações da Operação Condor (Foto Ricardo Chaves)

Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo J.B. Scalco, na época da reportagem que revelou ações da Operação Condor (Foto Ricardo Chaves)

Do blog de Roldão Arruda, no Estadão.

Brasil entrou de cabeça na Operação Condor, diz jornalista

Com João Domingos/BRASÍLIA

O repórter João Domingos, da sucursal do Estado em Brasília, conversou com o jornalista Luiz Cláudio Cunha sobre suas novas atividades na Comissão Nacional da Verdade. Ele vai participar de um grupo voltado exclusivamente para a investigação das ações do Brasil na Operação Condor – uma espécie de consórcio formado entre os governos militares do Cone Sul para perseguir opositores políticos.

Cunha é o autor da reportagem publicada em novembro de 1978 pela revista VEJA que revelou o sequestro dos uruguaios Universindo Diaz e Lilian Celiberti, numa ação conjunta de policiais do Brasil e do Uruguai.

Com a reportagem, Cunha venceu os prêmios Esso, Vladimir Herzog, Abril e Embratel e acabou com o segredo das ações conjuntas dos governos militares de seis países do Cone Sul no Brasil.

Por causa da reportagem, as vidas de Diaz e de Lilian foram poupadas. São os dois únicos casos conhecidos de pessoas sequestradas na Operação Condor que ficaram vivas. Diaz morreu no início deste mês de câncer.

Em 2008, quando o sequestro completou 30 anos, Luiz Cláudio Cunha lançou pela Editora L&PM o livro Operação Condor: o Sequestro dos Uruguaios. Segundo suas informações, o governo militar brasileiro foi um dos organizadores da Operação Condor e participou ativamente de suas operações, embora tenha negado sempre. “O Brasil sempre foi cínico quando se tratou dessa questão”, diz ele.

A seguir, os principais trechos da conversa, que já teve trechos publicados na edição impressa do Estado.

Como será sua atuação na Comissão da Verdade?

Fui convidado para ser consultor sobre as questões que envolvem a Operação Condor. Serei apenas uma peça a mais, uma espécie de porta de entrada para a comissão, pelo conhecimento que tenho, pelas pessoas que conheço. Posso agregar informações e trazer para a comissão, que tem um poder de fogo muito forte.

Qual é o poder de fogo da comissão?

Ela tem poderes legais de abrir todos os arquivos, sejam públicos ou secretos. Ninguém pode negar a ela nenhuma informação. Se algo é secreto, pode ser secreto para outros, não para a Comissão da Verdade.

Como será o exame desses arquivos?

Nós vamos fazer um roteiro de trabalho, ver as conexões do Brasil com os países do Cone Sul no caso da Operação Condor, verificar documentos do Arquivo Nacional, do Centro de Informações do Exército (CIE), do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI), pedir informações a embaixadas. O fundamental é achar um foco.

Como foi a participação do Brasil na Operação Condor?

O Brasil sempre foi cínico quando se tratou dessa questão. Sempre procurou dizer que era um problema dos vizinhos Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai. Pelo que já se sabe, o Brasil entrou de cabeça na Operação Condor. Essa operação foi uma conexão transnacional, da qual o Brasil foi sócio fundador e militante. O Brasil tem que apurar essa coisa vergonhosa, relatar os nomes dos envolvidos.

Além do caso dos uruguaios Universindo Dias e Lilian Celiberti, que o senhor desvendou numa reportagem da revista VEJA, conhece mais algum caso?

Tem outro que deixa tudo muito claro. É o Caso Campiglia/Galeão. No dia 12 de março de 1980, os argentinos Horácio Campiglia e Mônica de Binstock foram presos ilegalmente no Aeroporto do Galeão. Eles eram militantes do grupo esquerdista Motoneros. O governo argentino mandou um Hércules C-130 pegá-los.

Imagine se um avião desse porte desceria na Base Aérea do Galeão sem que as autoridades soubessem. Os dois foram levados para a Argentina, torturados e até hoje estão desaparecidos, conforme constatado por documentos da Embaixada dos Estados Unidos em Buenos Aires, revelados durante o governo de Bill Clinton.

24/09/2012

às 14:00 \ Política & Cia

Universindo, mi hermano

Universindo Diaz, sobrevivente, historiador e ativista político (Foto: Arquivo Pessoal)

Universindo Diaz, sobrevivente, historiador e ativista político (Foto: Arquivo Pessoal)

 

Artigo de Luiz Cláudio Cunha, publicado em 20 de setembro de 2012, no Observatório da Imprensa

OPERAÇÃO CONDOR

 

UNIVERSINDO, MI HERMANO

[Texto introdutório de Luiz Egypto, editor do Observatório da Imprensa]

Um comando do Exército uruguaio, com a conivência do regime militar brasileiro, saiu de Montevidéu, atravessou clandestinamente a fronteira em novembro de 1978 e desembarcou em Porto Alegre, onde sequestrou um casal de militantes da oposição uruguaia – Universindo Díaz e Lilian Celiberti – e seus dois filhos menores.

A operação ilegal foi descoberta por dois jornalistas brasileiros – o repórter Luiz Cláudio Cunha e o fotógrafo João Baptista Scalco, da sucursal da revista VEJA no Rio Grande do Sul. Alertados por um telefonema anônimo, dirigiram-se ao apartamento onde o casal morava, na capital gaúcha, e foram recebidos por homens armados.

A inesperada aparição dos jornalistas quebrou o sigilo da operação e evitou que os sequestrados fossem mortos. A denúncia do sequestro, que ganhou as manchetes da imprensa brasileira, transformou-se num escândalo internacional, que constrangeu os regimes militares do Brasil e do Uruguai.

O trabalho de investigação de VEJA e dos repórteres Cunha e Scalco foi distinguido, em 1979, com o troféu principal do Prêmio Esso, além de conquistar os prêmios Vladimir Herzog, Telesp e Abril (hors concurs).

Em 2008, trinta anos após o sequestro, Cunha escreveu o livro Operação Condor: o sequestro dos uruguaios. Uma reportagem dos tempos da ditadura, publicado pela L&PM Editores e premiado com o Jabuti, o Vladimir Herzog e o Casa de Las Americas (Cuba), na categoria de Livro Reportagem.

Na segunda-feira (17/9), a Comissão Nacional da Verdade aprovou a criação de um grupo de trabalho voltado para a Operação Condor, o qual contará com a colaboração do jornalista Luiz Cláudio Cunha.

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O táxi parou à beira da grande avenida, em Montevidéu, e descemos do carro. Trocamos um beijo na face, na velha tradição uruguaia, e nos despedimos com um abraço apertado, acolchoado pelos casacos pesados que nos protegiam do frio de zero grau no final da manhã azulada, sob o sol tíbio do inverno no Uruguai.

Voltei ao táxi, que me levava ao aeroporto de Carrasco e ao voo de volta ao Brasil, e dei uma última olhada pelo vidro traseiro. Vi o homem encasacado, com o seu típico boné de lã, se afastando aos poucos, no seu passo lento e manco, engolido pela multidão.

Foi a última imagem que guardei em vida de Universindo Rodríguez Díaz, naquela terça-feira, 17 de julho de 2012. Passados 47 dias, Universindo morreu aos 60 anos, num domingo ainda frio, 2 de setembro.

O homem que sobreviveu às torturas e violências das ditaduras no Brasil e no Uruguai, entre 1978 e 1983, não resistiu ao passo acelerado, imparável, de um mieloma múltiplo, um câncer agressivo e letal que se desenvolve na medula, gerando um crescimento desordenado dos glóbulos brancos, derrubando o sistema imunológico, comprometendo gravemente os rins e submetendo o paciente a dores fortes nos ossos.

Três décadas antes, Universindo padeceu na carne e na alma os efeitos de um suplício igualmente traiçoeiro, oculto, que se disseminava como metástase pelas veias abertas do Cone Sul: o terror de Estado, que atravessava fronteiras legais e geográficas e ultrapassava os limites do sofrimento humano graças ao foco maligno da Operação Condor, a multinacional da repressão que contaminou as Forças Armadas da região com o germe dos bandoleiros sem uniformes convertidos ao sequestro, tortura, assassinato e desaparecimento de quem se opunha ao arbítrio.

 

O DOI-CODI uruguaio

Universindo sobreviveu ao horror, a partir de novembro de 1978, quando foi sequestrado em Porto Alegre, numa blitz da Condor uruguaia, junto com Lílian Celiberti e seus dois filhos, Camilo (8 anos) e Francesca (3).

Lilian Celiberti e Universindo Diaz

Lilian Celiberti e Universindo Diaz tal qual eram nos anos 70

O casal desarmado, integrante do Partido por la Victoria del Pueblo (PVP), uma sigla de esquerda clandestina (como todas as outras) que se opunha à ditadura no Uruguai, operava no sul do Brasil com um objetivo que fazia tremer os generais de Montevidéu: recolher informações em primeira mão de refugiados sobre as torturas praticadas nos 28 quarteis do território uruguaio e denunciá-las no exterior, por intermédio da imprensa e de entidades de direitos humanos na Europa. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

31/05/2012

às 19:37 \ Política & Cia

O jornalista Luiz Cláudio Cunha responde aos leitores que duvidaram dos números de vítimas da ditadura apresentados em seu texto

Recebeu muitos comentários reparadores o post que publiquei anteontem, 29, com texto do jornalista Luiz Cláudio Cunha e sob o título “Comissão da Verdade: ex-ministro do Exército zomba da democracia e insinua ameaça de golpe militar”. Além de críticas, os reparos vieram sobretudo de leitores que argumentaram não ter sido em hipótese alguma de “milhares” o número de pessoas mortas ou desaparecidas durante a ditadura (1964-1985).

A resposta de Luiz Cláudio Cunha:

Sinceramente, e com o respeito que de uma forma geral leitores merecem, me espanta o analfabetismo com que alguns receberam o que escrevi.

Tentam me pegar pela mentira, já que estaria falando em “milhares” de mortos num país onde as vítimas fatais não passam realmente de 400, aí incluídos os 138 desaparecidos da lista oficial.

Como veterano militante em prol dos direitos humanos, obviamente estou ciente desses números.

O meu trecho, para quem não tem o viés ideológico ou a carência de letramento que prejudica o raciocínio, diz o seguinte: “Fechou o Congresso três vezes, prendeu, torturou, sequestrou e matou milhares de opositores…”

A frase é integra e clara para quem leu com um mínimo de atenção o texto e entende corretamente o idioma: os milhares de opositores afetados pela treva de duas décadas são contadas em quatro, cinco ou seis dígitos — ou seja, sempre milhares, dezenas, centenas deles.

Detalhando.

São as centenas de milhares de brasileiros que, ao longo de duas décadas, foram espionados, fichados, investigados, detidos para interrrogatórios ou processados.

São as dezenas de milhares presos e torturados.

São as milhares de pessoas sequestradas, junto com as centenas de pessoas mortas e desaparecidas.

Total: MILHARES de vítimas da ditadura entre 1964 e 1985.

E sangrenta, sim, porque muito sangue correu nesses 21 anos. Dos presos e dos torturados que sobreviveram, dos mortos e desaparecidos que sangraram até morrer.

Milhares deles, no total.

Portanto, as pessoas de má-fé ou cegueira ideológica que aprendam português antes de tentar negar a história e a verdade.

 

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