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Itália

09/05/2013

às 15:00 \ Vasto Mundo

Ora, ora, quem diria: a Itália, apresentada muitas vezes como sinal de bagunça e desgoverno, dá exemplo na União Europeia

Ora, ora, ora, quem diria?

Não sei se os amigos do blog prestaram atenção aos dados finalmente consolidados de 2012 sobre a situação das finanças dos países europeus – brutalmente afetados pela crise de 2008 –, a cargo do Eurostat, o organismo da União Europeia responsável por todos os dados oficiais.

Vou ajuda-los.

Há ali surpresas espantosas. Quem diria, por exemplo, que a desgraçada, estraçalhada, humilhada Grécia, com déficit público equivalente a 10% do PIB, estivesse melhor do que a Espanha, com assustadores 10,6% — o maior entre os 27 países-membros da União Europeia?

Sabem o poderoso Reino Unido, orgulhosa sexta maior economia do mundo?

Pois bem amigos, com 6,3% do PIB de déficit público, o país governado pelo primeiro-ministro David Cameron tem resultado i-gual-zinho ao de… Chipre, o pequeno país-ilha de 1 milhão de habitantes cujos bancos precisaram ser socorridos pela União Europeia para não levar a economia local para ao buraco, espalhando efeitos até para a Rússia.

A lista de surpresas é longa – e inclui, por exemplo, a Polônia ex-comunista (déficit de 3,9% do PIB) bem melhor do que a França eterna (4,8%).

A maior de todas, porém, vem da Itália: o país sem governo estável e até sem presidente da República até há poucos dia, agora pilotado pelo jovem primeiro-ministro Enrico Letta à frente de uma complicada e heterogênea coligação, frequentemente citado como sinônimo de desgoverno e bagunça apresenta o MELHOR resultados entre os 17 países cujos dados o Eurostat divulgou: déficit de 3% do PIB, rigorosamente dentro das normas da União Europeia.

Sinal de competência do governo de técnicos do primeiro-ministro Mario Monti, responsável por uma rigorosa e ousada e curta gestão (novembro de 2011 a abril deste ano).

O único dos 27 países da União Europeia a apresentar superávit foi a Alemanha – 0,2% do PIB.

01/05/2013

às 19:24 \ Tema Livre

COPA DOS CAMPEÕES: final só de alemães pode ser início de nova era no futebol

O timaço do Bayern de Munique comemora o primeiro gol, de Robben, nos 3 x 0 de hoje contra o Barça: novos horizontes para o futebol alemão (Foto: Mike Hewitt / Getty Images)

Foi surpreendente e espetacular a massacrante derrota de 7 x 0 imposta pelo Bayern de Munique contra o Barcelona — até agora o melhor time do mundo, disparado — nas duas partidas pela semifinais da Liga dos Campeões da Europa, o mais importante campeonato de times que existe.

Hoje, como se sabe, foi 3 x 0, com direito a olé, na própria casa sagrada do adversário, o Camp Nou, com um Barça atarantado em campo e os alemães jogando com rapidez, força, inteligência e habilidade.

Houve também as esplêndidas atuações do Borussia Dortmund contra o timaço do Real Madrid na mesma etapa da competição provoca — de modo que, pela primeira vez na história, haverá uma finalíssima só com clubes alemães o próximo dia 25, em Londres.

O campeonato alemão pode ser a nova referência

Mas há algo de maior importância em questão: pelo que se viu em campo, nas quatro partidas entre alemães e espanhóis, não é arriscado nem maluco prever que está chegando a vez de, mais que o futebol, o campeonato alemão passar a perna nos demais grandes certames europeus — como os da Premier League, da Inglaterra, os da Espanha e da Itália — e tornar-se a referência mundial.

Se ocorrer, como parece, já era hora: como seleção, os alemães sempre foram, e sempre são, uma sombra ameaçadora sobre os adversários. Tricampeões do mundo em 1954, 1974 e 1990, els chegaram nada menos do que outras quatro vezes à final, em 19 Copas.

O surpreendente (e forte) time do Borussia comemora sua passagem para a final da Liga dos Campeões, após eliminar o Real Madrid (Foto: Ira Fassbender / Reuters)

Por alguma razão, porém, o campeonato da Bundesliga, a Federação alemã, não provoca o mesmo interesse nem movimenta o número de jogadores famosos e a dinheirama de outros certames.

As coisas parecem estar mudando, e foi o grande Paul Breitner quem, há poucos dias, informou ao público brasileiro disso, em entrevista aos colegas jornalistas da ESPN Brasil comandada por João Palomino.

Times alemãs não estão endividados — e não precisam de xeques árabes

Legendário craque, que foi lateral-esquerdo e depois meio-campo da seleção alemã e figura entre os grandes jogadores da história do futebol, Breitner previu que a Bundesliga chegará ao topo por várias razões.

Em primeiro lugar, disse Breitner, os times alemães, diferentemente do que ocorre com gigantes de outros países, como o Manchester United britânico, os principais da Itália, o Real Madrid e o próprio Barça, não estão pesadamente endividados. Pelo contrário, com estádios sempre lotados, gordos elencos de sócios, patrocinadores de peso para clubes, arenas e jogadores, vários deles nadam em dinheiro, como é o caso do Bayern.

“Nós não dependemos de xeques árabes”, proclamou também o craque, hoje ele próprio dirigente do Bayern e consultor da Bundesliga.

O grande Breitner em sua entrevista à ESPN Brasil: "Não precisamos de xeques árabes" (Foto: ESPN Brasil)

A isso, acrescentou o crescente número de grandes jogadores de outros países que já estão na Bundesliga ou prestes a integrá-la, por sua organização, capacidade financeira e o extraordinário apoio da torcida alemã, que não apenas lota os estádios das várias divisões do campeonato como é uma das mais entusiásticas e participantes do mundo.

Só o Bayern e o Borussia dão duas boas seleções

Entre outros exemplos, citou o caso do meio-campo Javi Martínez, ex-Athletic de Bilbao, cobiçado por clubes ingleses, sondado pelos dois maiores espanhóis, com possibilidades na Itália e na Holanda mas que preferiu a Alemanha — e foi o atleta mais caro da história do Bayern: por sua multa rescisória o clube pagou 40 milhões de euros (algo como 105 milhões de reais) e mais salários e outros benefícios cujos detalhes não foram divulgados.

E é verdade: se pegarmos apenas o Bayern e o Borussia, seria possível formar não somente uma excelente seleção da Alemanha, como também um fortíssimo time exclusivamente com jogadores estrangeiros, como o próprio Martínez, o atacante francês Ribéry, o lateral austríaco de origem africana Alaba, o atacante polonês Lewandowski, o meia-atacante holandês Robben, o zagueiro sérvio Subotic, quem sabe até os brasileiros Felipe Santana e Rafinha.

Guardiola, a nova e grande atração

Breitner lembrou igualmente que a contratação pelo Bayern do mais badalado técnico do momento, Pep Guardiola, o maior vencedor de títulos no Barça desde a fundação do clube, em 1899, com certeza levará outros craques a interessar-se pelo campeão alemão e por outras equipes da Bundesliga. A própria presença de Guardiola já será, enfatizou, uma grande atração em si.

Além do mais, como os torcedores brasileiros puderam apreciar nas quatro partidas semifinais — bem como nas etapas anteriores –, o jogo alemão não é mais apenas de força, velocidade, passes longos e bolas altas. Tal como começa a ocorrer com a seleção da Itália, o jogo de passes de pé para pé, dribles, jogadas de qualidade técnica, tabelinhas e outras formas de jogar futebol que encantam as plateias são cada vez mais comuns no futebol alemão.

A autoimolação que a grande maioria da imprensa esportiva da Espanha está agora fazendo em relação ao Barcelona e ao Real Madrid — como se nada do que existisse nas duas grandes equipes valesse coisa alguma –, embora exagerada e passional como sempre, é um forte indicador de que haverá turbulência nos dois gigantes.

E que a preeminência do Barcelona, além de ameaçada exteriormente — vejam o Bayern, que timaço –, está sendo posta em xeque também dentro de suas próprias hostes: críticas ao técnico Tito Vilanova, pedidos exaltados de corte de cabeças, dirigentes estremecidos entre si, jogadores desmotivados pela campanha deste ano…

Por tudo isso, parece-me que Paul Breitner tem boa chance de haver previsto corretamente o futuro.

25/12/2012

às 17:00 \ Política & Cia

Decisão do Supremo de soltar o assassino Cesare Battisti equipara o país a uma república de bananas

Battisti ontem, 4ª feira, ao deixar a Penitenciária da Papuda, em Brasília

Publicado originalmente a 8 de junho de 2011.

“Decisão da Justiça não se discute, se cumpre”.

Isso pode valer para poderes públicos, mas, para um jornalista, discutir uma decisão da Justiça é obrigação.

Então quero deixar claro aqui, com todas as letras, minha opinião de que cobre de vergonha o país a decisão do Supremo Tribunal Federal que, por 6 votos a 3 – felizmente houve esses 3 votos – decidiu libertar o ex-terrorista italiano Cesare Battisti, condenado à prisão perpétua na Itália, em diferentes instâncias, por 4 assassinatos cometidos na década de 70.

Battisti estava preso na Polícia Federal em Brasília desde 2007, enquanto aguardava uma decisão final sobre um pedido de extradição solicitado pela Itália. Ele nunca cumpriu pena em seu país pelos crimes que cometeu. Andou foragido pela França, passou por outras partes até se fixar na terra do vale-tudo, o velho e bom Brasil.

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Campeões de Audiência

O Supremo decidiu em 2009 que caberia sua extradição, mas deixou a decisão final nas mãos do então presidente da República. O então ministro da Justiça, Tarso Genro, defensor intransigente do criminoso, alegava que ele poderia ser “perseguido” na Itália, se para lá enviado.

No último dia do lulalato, o ex-presidente decidiu não extraditar Battisti, com base num absurdo parecer da Advocacia-Geral da União (AGU) que, na linha de Tarso Genro, alegava que Battisti, extraditado, correria riscos em sua integridade em seu país – como se a Itália não fosse a democracia visceral que é, e sim um Irã, uma Coreia do Norte ou uma Somália. Na ocasião escrevi um indignado post a respeito.

De tudo o que se falou durante as longas 6 horas de duração do julgamento, gostaria de pinçar apenas três passagens, dos ministros que foram voto vencido.

1) Sentido de existência do Supremo com a decisão

Como o Supremo não tomou conhecimento do recurso interposto pelo governo italiano, o ministro Gilmar Mendes levantou a questão sobre se, ao delegar ao Planalto a palavra final num processo de extradição, o Supremo não perderia o sentido de existência: “Se for assim, o papel do tribunal é de um clube lítero-poético recreativo”, comparou, segundo o site de VEJA.

Mendes lembrou que o Supremo havia recomendado ao grão-vizir do lulalato que cumprisse o acordo internacional com a Itália, e que o presidente não poderia decidir manter Battisti no Brasil sob a alegação de que em seu país é um “perseguido” político:

– Nós estamos a falar de alguém que é condenado por 4 assassinatos. Não estamos a falar de alguém que foi preso por estar fazendo um passeio, um trottoir.

2) Nenhuma razão ponderável para supor que Battisti fosse submetido a “condições desumanas” na Itália

A ministra Ellen Gracie não viu base no parecer da Advocacia-Geral da União que sustentou a decisão de Lula:

– Li e reli o parecer oferecido pela AGU ao presidente e ali não encontrei menção a qualquer razão ponderável, a qualquer indício que nos levasse a crer que o extraditando [Battisti] fosse ser submetido a condições desumanas [na Itália].

3) Lula descumpriu a lei e a decisão anterior do Supremo

Por sua vez, o presidente do Supremo, Cezar Peluso – que aliás chegou ao Supremo por designação de Lula, em junho de 2003 –,foi direto ao ponto:

– Estou convencido que o senhor presidente da República, neste caso, descumpriu a lei e a decisão do Supremo Tribunal Federal.

Esses três ministros exerceram seu papel e não concordaram com uma decisão que, neste episódio, equipara o país perante a Itália, a União Europeia e o mundo a uma república de bananas.

Leia mais em:

- Ainda existe vergonha na cara “neste país”: Ministério Público pede a deportação do assassino Battisti

- Governo brasileiro manobra, mas Corte Internacional de Justiça vai julgar o caso do ex-terrorista Battisti

- Ex-terrorista Battisti agora tem documentos em ordem e quer agradecer Lula pessoalmente por poder viver sossegado no Brasil

10/10/2012

às 14:00 \ Política & Cia

PERGUNTAR NÃO OFENDE: quando é que o Supremo vai mandar apreender os passaportes dos mensaleiros condenados?

Um condenado pelo mensalão já tinha sumido, sossegado, desde julho, e só reapareceu domingo, para votar -- deixando em suspense aqueles que querem combater a impunidade no Brasil. O país vai permitir o vexame de ver condenados pelo mensalão desaparecerem do mapa? (Foto: viajeaqui.abril.com.br)

Um deles chegou a sumir – e desde julho, antes mesmo que o Supremo Tribunal Federal o condenasse, em decisão unânime, por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro.

O ex-vice-presidente de marketing do Banco do Brasil (ninguém menos) Henrique Pizzolato está sujeito a uma pena mínima de 12 anos prisão.

Mas viajou tranquilamente, passou pelo controle de passaportes da Polícia Federal — e só tornou a aparecer em público no domingo passado, quando a imprensa registrou seu comparecimento para votar no Rio.

Há versões segundo as quais Pizzolato, tal como outro foragido ilustre, o banqueiro Salvatore Cacciola, tem dupla nacionalidade — italiana e brasileira. Seu advogado disse, dias atrás, que o cliente se encontrava “na Europa”. Temeu-se, então, que o ex-vice-presidente do BB pudesse haver-se evaporado para livrar-se da cadeia.

Quando é que os ministros do Supremo vão mandar apreender os passaportes de todos os réus?

Nós, brasileiros, não precisamos passar pelo vexame e pela vergonha de, após sete anos de tramitação, um processo tão importante ser julgado — mas os condenados sumirem do mapa.

24/09/2012

às 19:08 \ Tema Livre

VÍDEO SENSACIONAL: Maradona, no auge — quando só o aquecimento já valia o ingresso

Maradona, em um tempo em que o treino, por si só, já valia o ingresso

O grande Maradona, em um tempo em que só o aquecimento já era um show espetacular

Amigas e amigos do blog, recordem uma grande época de um grande craque: Maradona, no auge da carreira, no time italiano do Napoli. Um artista completo, cujo show já começava no aquecimento.

No começo do vídeo, aparece outro grande craque: o brasileiro careca.

 

 

11/09/2012

às 21:10 \ Vasto Mundo

Para a Catalunha ser independente, falta combinar com muita gente

A Catalunha celebra hoje seu grande dia no ambiente mais indepedentista dos últimos anos e pendente de importantes mudanças econômicas.

A multidão que ocupou todo o centro de Barcelona portava bandeiras independentistas, como esta (a bandeira da Catalunha em vigor não contém a estrela branca sobre fundo azul) (Foto: Lluis Gene / AFP)

Não bastava a gravíssima situação da economia espanhola, com crescimento próximo a zero, o desemprego batendo em um quarto da população economicamente ativa, o sistema bancário dependendo de uma multibilionária injeção de recursos do Banco Central Europeu, o próprio governo dependurado numa dívida pública superior a 70% do Produto Interno Bruto – e por aí vai.

A colossal manifestação independentista promovida hoje por diversos organismos da Catalunha, a mais rica e a segunda mais populosa das comunidades autônomas (espécies de Estados norte-americanos) da Espanha e parte integrante do país há 500 anos, torna-se agora um problema primordial para o chefe de governo, Mariano Rajoy.

A população foi às ruas para comemorar a chamada data nacional da Catalunha — paradoxalmente, a celebração de uma derrota, quando os catalães rebelados durante a Guerra de Sucessão Espanhola de 1714 foram derrotados pelas tropas enviadas pelo rei Felipe V de Borbón.

Mas a ocasião foi aproveitada por movimentos independentistas e pelo próprio governo nacionalista catalão para, no bojo de um protesto contra as regras fiscais em vigor que, argumentam, retira mais impostos da região do que os investimentos feitos pela administração em retorno, defender que a melhor saída para os 7,5 milhões de catalães é desligar-se da Espanha.

Movimento separatista catalão

Para a Catalunha ser um "novo Estado da Europa" é preciso combinar com muita gente... a começar por aliados da Espanha na União Europeia que têm seus próprios movimentos separatistas (Foto: EFE)

A questão nacional da Catalunha é uma ferida latente que, de tempos em tempos, volta a latejar. Sufocada duramente em sua cultura e tradições durante a ditadura do generalíssimo Franco (1939-1975), que proibia até a utilização do idioma catalão, a região ganhou autonomia considerável – muito superior à dos Estados brasileiros – com a redemocratização do país.

Um passo adiante na direção de mais autonomia ocorreria entre 2005 e 2006, quando um novo Estatuto de Autonomia (equivalente a uma constituição local) seria sucessivamente aprovado pelo Parlamento catalão, referendado pelo eleitorado e receberia o OK das Cortes, o Parlamento espanhol, sob a égide do chefe de governo socialista José Luís Rodríguez Zapatero.

Em 2010, porém, o clima entre Madri e Barcelona azedou consideravelmente quando o Tribunal Constitucional da Espanha, ao julgar um recurso apresentado pelo então oposicionista Partido Popular, conservador, hoje no governo, considerou inconstitucionais uma série de prerrogativas asseguradas às instituições catalãs pelo novo Estatuto.

A decisão, que podou dezenas de artigos do Estatuto, levou setores até então favoráveis a uma acomodação da Catalunha dentro da Espanha a caminhar para o independentismo.

 

A ideia de uma Catalunha independente enfrenta enormes dificuldades constitucionais e políticas para se concretizar

 

Na manifestação de hoje, a principal palavra de ordem foi “Catalunha, um novo Estado na Europa”. Falta, porém, combinar com muita gente.

As enormes dificuldades constitucionais e políticas para concretizar a independência da Catalunha incluem, entre outras, as seguintes:

1. Um plebiscito sobre a questão não pode, segundo a Constituição, se circunscrever apenas à Catalunha. Deve ser decidido “pelo conjunto do povo espanhol”.

2. O PP, no governo, dispõe de maioria absoluta tanto no Congresso de Deputados como no Senado e tem condições de evitar que uma eventual reforma da Constituição para permitir um plebiscito local seja sequer discutida — quanto mais aprovada.

3. É altamente duvidoso afirmar-se que a independência é desejada pela maioria da população da Catalunha, que nos últimos 30 anos sofreu um grande influxo de imigração estrangeira e de migração interna de espanhóis de outras regiões. Os levantamentos de opinião pública ao longo dos últimos anos apontavam consistentemente para um máximo de 25% de independentistas. Houve um aumento no contingente depois da questão do Estatuto, mas o movimento pró-independência interessa mais a políticos catalães e a uma considerável parte da elite — intelectuais, a universidade, a imprensa, parte do empresariado — do que aqueles que os espanhóis chamam de ciudadanos de a pie – ou seja, as pessoas comuns da rua, em grande parte confortáveis com o fato de serem cidadãos da Catalunha e da Espanha.

4. É altamente duvidoso achar que “Catalunya, el nou Estat d’Europa”, como diziam as faixas, seja bem visto por boa parte dos… Estados da Europa, especialmente os parceiros da Espanha na União Europeia que abrigam, eles próprios, minorias separatistas: entre outros exemplos, a Grã-Bretanha tem a velha questão da Irlanda do Norte e, mais recentemente, a da Escócia; a França, a Córsega e o País Basco Francês; a Itália, os separatistas racistas da Liga Norte, que inventaram um país fictício que querem transformar em realidade, a “Padania”; a Bélgica vive permanentemente as tensões entre suas comunidades de língua francesa e holandesa.

Não parece lógico que tais países queiram abrir as comportas de seus próprios problemas e aceitar a Catalunha como membro da União Europeia – sem contar que o governo espanhol tem pleno direito de veto a esse movimento.

22/07/2012

às 17:05 \ Tema Livre

Só de brincadeira: atrás do quê — ou de quem — correm os vários povos?

O que os motiva?

O que os motiva?

29/06/2012

às 18:47 \ Tema Livre

Eurocopa: a Espanha que se prepare, pois a surpreendente Itália não está para brincar

O primeiro gol de Balotelli contra o goleirão Neuer: uma nova e diferente Azzurra (Foto: seattlepi.com)

 

Se cuide, Espanha, que a Itália vem aí!

Depois de vencer a poderosa Alemanha, ontem, por 2 gols a 1 — merecia mais –, a seleção da Itália que disputa a Eurocopa 2012 foi, como se sabe, para a finalíssima contra os espanhois, no domingo, dia 1º de julho.

Como sempre um tanto desacreditada, o time, com a nova filosofia de jogo e a renovação parcial do elenco promovidas pelo treinador Cesare Prandelli, afasta-se cada vez mais da Squadra Azzurra de há tantas competições — fechadíssima atrás, jogando à base de contra-ataques, temerosa de avançar e parca em gols.

Não, desta vez é uma equipe sólida, com uma defesa para ninguém botar defeito mas, como se viu contra a Alemanha, que sabe agredir. E, sobretudo, com o craque que mais brilhou na competição: o extraordinário meio-campo Andrea Pirlo, que já fizera bonito na campeã do mundo de 2006 e que hoje, perto dos 33 anos de idade, está jogando como nunca: passes perfeitos, dribles na hora exata, lançamentos com precisão milimétrica, um fôlego impressionante e a disposição de estar em todos os cantos do campo — até um gol da Alemanha ele salvou ontem.

O grande Pirlo dando conta de três ingleses, na partida em que a Itália venceu" (Foto: guardian.co.uk)

O grande Pirlo dando conta de três ingleses, inclusive do capitão Gerrard (centro), na partida em que a Itália venceu (Foto: guardian.co.uk)

Pirlo, sempre discreto e sem espalhafato em campo, é um daqueles raríssimos casos de jogador em que a bola parece uma prolongação das pernas. Não é por acaso que, transferindo-se do Milan para o Juventus, a Vecchia Signora voltou a ser campeã italiana — e, feito raro, invicta.

A seleção da Espanha, pois, apontada como favorita desde o começo da competição, que se cuide: a campeã da Eurocopa passada, em 2008, e campeã do mundo, em 2010, não está na ponta dos cascos, como se tem observado. Não se trata apenas do esgotamento dos principais jogadores — que integram o Barça e o Real Madrid –, mas de um desequilíbrio evidente causado por um desfalque e pelas consequências na armação do time: o do zagueiro Puyol, capitão do Barcelona, que não pôde ser convocado por estar em recuperação de cirurgia no joelho.

Não é que Puyol, zagueiro de qualidade, leal e raçudo, seja o melhor central do mundo. Mas, como o treinador Vicente del Bosque visivelmente não confia em Albiol, do Real, para o posto, manteve-o no banco e deslocou para o lugar de Puyol, e para fazer parceria com o barcelonês Piqué, o hoje zagueiro do Real Sergio Ramos, que, como lateral direito veloz, forte, de chute poderoso e cruzamentos perigosos, era uma arma perigosíssima, quase letal de La Roja.

Puyol: sua contusão teve um efeito dominó na seleção da Espanha (Foto: imagensa.com)

Puyol: sua contusão teve um efeito dominó na seleção da Espanha (Foto: imagensa.com)

O time espanhol, portanto, pelo efeito dominó da ausência de Puyol, está capenga pela direita, já que quem ocupa a lateral, de forma incompreensível para mim, é o jogador mais fraco da equipe, Arbeloa — ruim para atacar, fraco para defender e contumaz em fazer faltas que levam perigo para o gol de Casillas.

07/06/2012

às 16:30 \ Política & Cia

J.R. Guzzo: O absurdo e o conto do vigário da “publicidade oficial”

(Publicado na edição de VEJA que está nas bancas)

NÓS E OS OUTROS

J. R. Guzzo

J. R. Guzzo

“Só no Brasil” — eis aí três palavras que todo brasileiro costuma ouvir, 365 dias por ano, a respeito de coisas que só acontecem por aqui, geralmente muito ruins, e que são desconhecidas no resto do mundo.

Em geral começam como uma discreta trapaça no uso do dinheiro público, depois se transformam num hábito nacional e, no fim, acabam virando um maciço conto do vigário aplicado o tempo todo pelos governos — que, como viciados em drogas, não conseguem mais viver sem ele. É o que acontece, entre tantos outros pecados exóticos, com a “publicidade oficial”.

Qualquer cidadão sabe muito bem do que se trata — são esses anúncios que governantes de todos os níveis, da alta administração federal a remotas prefeituras do interior, pagam (com dinheiro do orçamento, é claro) para publicar em jornais e revistas, no rádio e na televisão. Dizem, ali, quanto são bondosos, eficazes e trabalhadores — e mostram as obras de seus governos, reais ou imaginárias, como se estivessem fazendo um imenso favor à população que pagou por elas.

Publicidade que trata o contribuinte como um bobo alegre

A maioria dessa publicidade, para não dizer toda, trata o contribuinte como um perfeito bobo alegre, pronto a acreditar em qualquer coisa que lhe dizem.

Ainda recentemente, em São Paulo, o cidadão podia ver na TV, pago com o seu dinheiro, um anúncio do governo do Estado que começava com a imagem de uma vaca, filmada de ré; a câmera se deslocava, então, para mostrar o que deveria ser uma rija lavradora, entregue à sua labuta de tirar, às 5 da manhã, o leite nosso de todo dia.

Mas o que aparece é uma graça de garota, com umas botas de cano alto que poderiam ter saído de uma loja Hermès, jeans de grife e sob a luz do meio-dia, com as mãos a distância segurando as tetas do bicho. Ela diz, aí, que sua grande alegria na vida é saber que o leite tirado com o seu trabalho é distribuído pelo governo para crianças pobres etc.

A única coisa real, no anúncio todo, é a vaca.

Neste assunto, todos fazem, e ninguém critica ninguém: delitos coletivos nunca recebem condenação

Não há inocente aqui; todos os políticos, sem nenhuma exceção, fazem o mesmo quando estão no governo.

Nesse assunto, ninguém critica ninguém, no conforto geral de saber que delitos coletivos nunca são realmente condenados. É assim que permanece viva, cada vez mais, a publicidade oficial — uma aberração só vista no Brasil.

Dá para imaginar o governo da Itália, por exemplo, gastando fortunas na mídia para dizer “Itália — um país para todos”?

Ou algo assim: “Prefeitura de Londres — antes não tinha, agora tem”? Não dá.

O funcionário que sugerisse uma coisa dessas seria provavelmente encaminhado a uma instituição psiquiátrica.

Nos outros países não tem propaganda oficial, no Brasil tem (Foto: Reprodução)

LÁ NÃO TEM -- Já imaginaram um cartaz semelhante, em inglês, é claro, em Londres? O funcionário que sugerisse tal coisa seria encaminhado a uma instituição psiquiátrica

Neste momento, com a campanha eleitoral, a coisa pega fogo. No ano passado, só o governo federal gastou mais de 3 bilhões de reais em “comunicação”, entre publicidade e patrocínios. Juntando a isso estados e prefeituras, o volume de gastos entra em mares nunca dantes navegados.

Os políticos alegam que é pouco, diante do total de quase 90 bilhões aplicados no mercado publicitário brasileiro em 2011. Pode ser, mas o dinheiro não é deles — é do cidadão, e está sendo jogado no lixo para pagar os elogios que fazem a si próprios.

A imprensa de verdade vive do apoio de seu público e dos anúncios privados que ele atrai, e não de verbas publicitárias do governo

Sua desculpa é que os governantes têm o dever de “informar a população” e “prestar contas” de como estão aplicando o orçamento.

É uma piada. Não informam coisa nenhuma, e, na hora de prestar contas de verdade, fazem justamente o contrário: desligam a chave geral para deixar tudo o mais escuro possível.

Os órgãos de comunicação, sem dúvida, se beneficiam da publicidade oficial; nenhum deles é uma santa casa de misericórdia, e todos têm de pagar suas despesas. Mas a imprensa de verdade vive do apoio do seu público e dos anúncios privados que ele atrai, e não de verbas publicitárias do governo. Seu único mandamento, nessa história toda, é manter a própria independência. E os que não mantiverem? Problema deles.

Veículos que, em troca de anúncios, só publicam o que interessa ao governo, e escondem tudo o que não interessa, têm de resolver isso com os seus leitores, ouvintes e espectadores; se eles desconfiarem que estão sendo enganados, podem ir embora. O certo, no fim de todas as contas, é que o governo não deveria pagar um único tostão para a mídia publicar sua propaganda.

Neste momento, com a campanha eleitoral, a coisa pega fogo

Neste momento, com a campanha eleitoral, a coisa pega fogo

Eis aí mais uma coisa que nos separa, por exemplo, de um país como a Alemanha, onde publicidade oficial não existe. É que a Alemanha, coitada, é apenas a Alemanha.

Já o Brasil é o Brasil — aqui há dinheiro de sobra para o governo jogar pela janela. Somos um país onde a população é riquíssima.

25/05/2012

às 16:00 \ Vasto Mundo

Corrigindo um erro que cometi: sim, o novo governo italiano, pela primeira vez, está taxando as propriedades da Igreja

O primeiro-ministro Mario Monti com o papa Benedito XVI: taxação inédita dos imóveis da igreja (Foto: mwnews.it)

Errei ao publicar um post há algumas semanas dizendo que o arrocho fiscal e as medidas de austeridade promovidas pelo primeiro-ministro da Itália, Mario Monti, imitaram governos anteriores e deixaram fora de taxação os milhares de imóveis pertencentes à igreja católica e não dedicados ao culto – cujo número, conforme estimativas de diferentes fontes, varia de 50 mil a 100 mil propriedades.

O leitor Daniel Peccini Correa, a quem agradeço o toque, me advertiu para o erro.

Se errei, preciso corrigir. É minha obrigação.

O post foi publicado no dia 2 de abril. Deixei de levar em conta que dias antes, a 24 de março, o Parlamento aprovou a chamada “lei de conversão” nº 27/2012, que modifica uma lei de 1992, na qual se elencam os casos de isenção do IMU (imposto municipal único, equivalente ao nosso IPTU).

Só não estão suscetíveis ao imposto os imóveis “utilizados por entidades não-comerciais destinadas exclusivamente ao desenvolvimento sem objetivo de lucro de atividades assistenciais, previdenciárias, sanitárias, didáticas, culturais, recreativas, esportivas e de religião ou culto”.

A lei chega a detalhar sobre como proceder no caso, que não é raro, de uso misto (comercial e não comercial).

O percentual básico do IMU é de 0,76% sobre o valor do imóvel, podendo variar conforme uma série de situações.

O novo imposto estará em fase experimental de arrecadação até o final de 2014, e entrará em vigor em caráter definitivo a partir de 2015.

Diferentemente do que se passou com seus antecessores, o primeiro-ministro Mario Monti (um economista sem partido, ex-comissário da União Europeia — espécie de ministro da UE –, chefe de um governo de técnicos que tenta debelar a crise econômica até as eleições de abril de 2013) quebrou o tabu de não tocar no patrimônio da igreja católica.

 

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