26/06/2012
às 16:31 \ Vasto MundoO colosso chinês começa a desacelerar
(Reportagem de Ana Luiza Daltro publicada na edição impressa de VEJA)
A QUEDA NO MOTOR CHINÊS
A diminuição na velocidade do gigante asiático significa que um Chile deixará de ser produzido pela China neste ano
Poucos países se beneficiaram tanto da emergência chinesa como o Brasil. No ano passado, os exportadores brasileiros venderam 44 bilhões de dólares à China. Há dez anos, as exportações para o gigante eram de apenas 2,5 bilhões de dólares. Nesse período, portanto, as vendas avançaram 1 660%. Apesar de alguns setores da indústria sofrerem com a concorrência de importados baratos chineses, a relação comercial entre os dois países tem sido favorável ao Brasil.
Os chineses são os maiores compradores das mercadorias brasileiras, à frente de americanos e europeus, e aparecem também como os principais investidores no setor produtivo do país. Se no passado o Brasil pegava um resfriado quando os Estados Unidos espirravam, agora é a saúde chinesa que passou a ser acompanhada com atenção. Assim sendo, não será indolor a freada chinesa esperada para este ano. Depois de manter uma taxa de expansão média de 11% na última década, o PIB do país deverá crescer 7% em 2012, segundo as últimas previsões dos analistas internacionais.

A estagnação econômica na Europa, a fragilidade da retomada americana, a rentabilidade de suas empresas em queda... O urso panda chinês está cansando (Ilustração: morningwhistle.com)
O país sente os efeitos da estagnação econômica europeia e da frágil retomada americana. Ao mesmo tempo, esbarra em obstáculos internos que o impedem de manter a velocidade de crescimento tendo como base apenas as suas forças. A rentabilidade das empresas está em queda, entre outros motivos, por causa da elevação no custo da mão de obra. Os salários, embora ainda baixos, têm subido rapidamente.
Investir na China, portanto, ficou menos atraente. O governo também deverá reduzir os estímulos para a construção de prédios comerciais. Existem milhões de metros quadrados prontos, mas desocupados. Menos gastos em construção representam menos consumo de aço, o que diminui a necessidade de importação de minério de ferro. A Vale já sentiu os efeitos. A empresa brasileira de mineração encerrou o primeiro trimestre enfrentando uma queda nos lucros. O preço médio da tonelada métrica do minério caiu de 126 dólares para 109 no último ano.
Mas, se os investimentos chineses recuaram, o consumo de alimentos não. Bom para as vendas de commodities agrícolas, cuja cotação não sentiu em nada, até o momento, os efeitos da desaceleração chinesa. Isso se deve, em parte, à política decidida pelos dirigentes do Partido Comunista. A meta para os próximos anos é diminuir o ritmo nas grandes obras de engenharia e incentivar a melhora do bem-estar da população. Os salários estão em alta, e há programas de estímulo à aquisição de eletrodomésticos.
A população tem aumentado o consumo de proteínas, contribuindo para as vendas recorde de soja do Brasil neste ano. “A China compra hoje 57 milhões de toneladas de soja entre os 90 milhões negociados anualmente. Há apenas três anos, o país comprava 38 milhões”, afirma Liones Severo, gerente comercial para o Brasil da trading Chinatex. Faz coro Francisco Turra, presidente da União Brasileira de Avicultura: “Os negócios estão bem sólidos. O consumo de carne de frango per capita, que era de 4 quilos por ano em 2008, subiu para 10 quilos e tem potencial para crescer muito mais. Os brasileiros consomem, em média, 47 quilos”.
A abertura do mercado chinês à carne de frango brasileira ocorreu apenas em 2009, e às 24 fábricas já habilitadas a exportar para o país devem se somar outras 41 em breve. “Os chineses agora vão começar a ter uma coisa que se chama renda”, diz Turra.
De qualquer maneira, os efeitos da queda na velocidade chinesa não deixarão de ter impacto global. Se mantivesse o ritmo anterior, o total produzido pelo país neste ano seria de 8,1 trilhões de dólares. No ritmo atual, o PIB deverá atingir 7,8 trilhões de dólares. A diferença, de 300 bilhões, é equivalente ao PIB do Chile. A diminuição nas compras de prédios comerciais já equivale a 34 vezes o total da área de escritórios de alto padrão entregues em São Paulo no ano passado, e a queda na venda de carros significará que um volume similar ao total produzido no Brasil em um ano deixará de ser entregue. Diante do tamanho da economia chinesa e de seu antigo ritmo de expansão, as consequências de sua freada serão inevitavelmente colossais.
O dragão perde força
Leia também:
Tags: commodities agrícolas, emergência chinesa, estagnação econômica europeia, exportações, importados, Partido Comunista Chinês, relação comercial, soja, Vale




























Contas do município de SP não permitem aumentar subsídio de passagens
Imprensa internacional destaca descontentamento com governantes
Senado aprova novas regras para o Fundo de Participação dos Estados
Governo envia Força Nacional para quatro estados e DF
Brasil leva 57 Leões no Festival de Cannes















