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II Guerra

28/06/2013

às 15:00 \ Vasto Mundo

EUA: aumenta a discussão sobre os “drones”, aviões sem piloto que cumprem objetivos militares — mas também matam civis e crianças

 

NADA CIRÚRGICO -- Um drone em pleno ataque (Foto: Divulgação)

NADA CIRÚRGICO -- Um drone em pleno ataque (Foto: Divulgação)

Reportagem de André Petry, de Nova Iorque, publicada em edição impressa de VEJA

ESSE AVIÃO TEM RUMO?

Os drones – como os americanos chamam as aeronaves pilotadas por controle remoto – são um show como arma de guerra, mas apresentam um enorme desafio à ética

Há mais de um século os militares procuram um avião que, controlado remotamente, possa espionar as fileiras inimigas e, de preferência, atacá-las. A busca começou na I Guerra Mundial, chegou aos campos de batalha na II Guerra Mundial, tomou impulso durante a Guerra Fria e atingiu um certo apogeu quando Israel inventou uma versão moderna de aviões não tripulados durante os conflitos com o Líbano na década de 80.

Até então os aviões eram usados em missões de reconhecimento. Os americanos, com seu olho de águia para a tecnologia, inspiraram-se no sucesso israelense e criaram seu próprio avião de controle remoto – o Predator, que entrou em operação em 1995. Era um avião humilde, que os militares americanos tratavam como mero “planador com motor de snowmobile”.

A história começou a mudar em 12 de setembro de 2001, dia seguinte aos devastadores atentados a Nova York e Washington. Naquele dia, os Estados Unidos despacharam três aviões controlados remotamente para o Afeganistão. A novidade é que as aeronaves já não eram apenas espiãs, não serviam somente para missões de reconhecimento.

Além de reunirem tudo o que a tecnologia moderna permitia – de sensores miniaturizados a câmeras de alta definição -, eles carregavam armas: explosivos, bombas, mísseis. O drone (zangão, em inglês), como os americanos chamam o avião pela semelhança, no barulho e na forma, com um zangão, começou a mudar o curso dos conflitos militares.

Em 2009, ao falar da eficácia dos drones, Leon Panetta, então diretor da CIA, afirmou: “Falando francamente, não tem nada igual”.

Os drones americanos, em geral, são pilotados por dois militares, que ficam numa base em território americano. Um pilota o avião. O outro comanda sensores e câmeras. Versões mais modernas dispensam até o controle remoto. Os drones voam autonomamente, seguindo um plano previamente estabelecido.

São máquinas maravilhosas. Filmam tudo, em imagens de alta definição, não oferecem risco à vida de nenhum piloto, podem voar a mais de 20000 metros de altura, carregam toneladas de explosivos, fazem voos transoceânicos e podem permanecer no ar por horas, dias, semanas – já há projetos de drones que ficam anos sem precisar aterrissar.

Protesto contra o uso da arma no Paquistão: na lista dos mortos, até 900 civis e 200 crianças (Foto: Corbis / Latinstock)

Protesto contra o uso da arma no Paquistão: na lista dos mortos, até 900 civis e 200 crianças (Foto: Corbis / Latinstock)

São o sonho de qualquer militar. São precisos e rápidos. Foram a principal arma americana para localizar e matar cinquenta líderes da Al Qaeda, virtualmente destruindo a organização terrorista. Os militares saúdam os drones como a chegada da guerra cirúrgica e asséptica como um videogame.

Por trás das maravilhas divulgadas sobre os drones, no entanto, há um universo controverso, incômodo e desconcertante. Mesmo que a disparidade na capacidade militar entre inimigos exista desde que alguém jogou a primeira pedra na savana africana, é perturbador que um militar, sentado numa poltrona, numa sala com ar condicionado, possa matar alguém do outro lado do planeta.

Os ataques de drones começaram no Afeganistão, durante o governo de George W. Bush, em resposta aos atentados de 2001. Mas, usando a autorização dada pelo Congresso ainda no governo anterior para enfrentar os terroristas, o governo de Barack Obama alçou os drones à sua era de ouro.

Os ataques se espalharam para o Paquistão, o Iêmem, a Somália. Já houve até operações nas Filipinas. Em qualquer país, os alvos são sempre terroristas, ou militantes, ou suspeitos – mas, por suspeitos, entenda-se qualquer pessoa que age como se fosse terrorista. Há drones sob o controle da Força Aérea, mas outros são comandados pela CIA, a agência de serviço secreto.

Embora a frequência dos ataques venha caindo nos últimos meses, estima-se que, só no Paquistão, o total de mortos oscile entre 2500 e 3500. Entidades internacionais calculam que, entre os mortos, pode haver até 900 civis e 200 crianças.

Há dúvidas sobre a legalidade, a moralidade e até a eficácia dos ataques. A Casa Branca alega que as operações estão respaldadas pela autorização do Congresso concedida ainda no governo Bush, e os ataques dos drones têm sido singularmente precisos e eficazes, como mostra o desmonte da Al Qaeda.

Os críticos dizem que a Casa Branca extrapola abusivamente o alcance da autorização do Congresso ao alvejar suspeitos cuja identidade nem sequer conhece, e não se pode falar em precisão quando, numa lista de até 3500 mortos, apenas cinquenta são líderes da Al Qaeda, o alvo principal.

Em discurso recente, o presidente Barack Obama admitiu o uso abusivo de drones ao dizer que, de agora em diante, eles só serão usados como última opção e só quando houver “quase certeza” de que o alvo está no local sob mira e não há risco para civis. Mas nada disse sobre a CIA, que, aparentemente, continua comandando drones, apesar de ser uma agência secreta.

Sob as leis internacionais, a questão é ainda mais complexa. Um relatório das Nações Unidas, que abriu uma investigação especial sobre as vítimas civis dos drones, afirma que, se outros países alegassem a mesma autoridade dos Estados Unidos para “matar pessoas em qualquer lugar e a qualquer hora, o resultado seria o caos”. A ambiguidade moral da atitude americana é evidente.

Em artigo publicado no New York Review of Books, o diretor da Human Rights Watch, Kenneth Roth, questionou: “Será que o governo realmente tem o direito de atacar qualquer um que entenda ser um combatente contra os EUA? E se essa pessoa estiver caminhando nas ruas de Londres ou Paris?”.

Os drones acabaram transformados em estrelas da guerra sem que ninguém antevisse o fenômeno. Assim, a arma começou a ser empregada sem limites éticos, sem objetivos estratégicos, sem uma doutrina. O desafio é adaptar os códigos militares do século XX a uma arma do século XXI. Nas décadas de 40 e 50, os presidentes Harry Truman e Dwight Eisenhower tiveram de enfrentar o desafio de definir uma doutrina para disciplinar o uso de uma nova tecnologia militar – a nuclear. Houve abusos, que os vencedores deixaram esquecidos nas cinzas.

MORTE A DISTÂNCIA -- Operadores de drones numa base da Força Aérea, no estado do Novo México: nas telas, imagens do Afeganistão (Foto: Reuters)

MORTE A DISTÂNCIA -- Operadores de drones numa base da Força Aérea, no estado do Novo México: nas telas, imagens do Afeganistão (Foto: Reuters)

Na II Guerra, depois da explosão das bombas sobre Hiroshima e Nagasaki, houve militares americanos de alta patente confessando o temor de que poderiam acabar sendo processados como criminosos de guerra, caso o Japão tivesse saído vitorioso.

Mas a política americana, com a definição de limites e objetivos, ajudou a evitar uma hecatombe nuclear. Obama precisa alçar-se ao desafio de disciplinar a nova tecnologia, enquanto há tempo – em vez de estabelecer um padrão de uso que, como diz a ONU, levaria ao caos.

No mundo civil, as regras estão começando a aparecer, pois é inevitável que drones sigam o mesmo caminho de outras inovações tecnológicas, como a internet e o GPS, que foram criadas no meio militar e acabaram virando objetos de uso comercial. Nos próximos cinco anos, a Federal Aviation Administration (FAA), órgão responsável pela aviação americana, estima que haverá cerca de 7 500 drones voando no país em atividades civis: monitorando o clima, fertilizando plantações, ajudando em operações de resgate, patrulhando fronteiras.

Já há empresas de energia elétrica que usam drones para inspecionar o estado das linhas de transmissão. Os estados americanos já disputam entre si para ser sede da nova indústria, as universidades já estão criando as primeiras faculdades de drones.

Num sinal de que o futuro é vasto, na semana passada a Domino’s, cadeia de lojas de pizza, postou um vídeo no YouTube mostrando, na Inglaterra, um drone voando sobre árvores e rios para entregar duas pizzas a um cliente – aqui, sim, rápido, cirúrgico e eficaz. E sem dúvidas éticas.

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27/04/2013

às 17:00 \ Vasto Mundo

Lembrando o Holocausto: “A dor não vai embora”

DURAS LEMBRANÇAS -- Helga registrou tudo o que viu em seu diário: "Escrever no campo me fez sentir humana em meio à selvageria" (Foto: Splash News)

DURAS LEMBRANÇAS -- Helga registrou tudo o que viu em seu diário: "Escrever no campo me fez sentir humana em meio à selvageria" (Foto: Splash News)

Reportagem de Monica Weinberg, publicada em edição impressa de VEJA

 

“A DOR NÃO VAI EMBORA”

Muitas crianças judias registraram em diários os horrores que viveram nos campos de concentração nazistas. Quase todos, porém, se perderam em meio aos destroços da II Guerra, o que faz do relato da artista plástica checa Helga Weiss, hoje com 83 anos, uma preciosidade histórica.

Em papéis amarelados que passaram décadas mofando na gaveta – e agora foram reunidos no recém-lançado O Diário de Helga (Ed. Intrínseca, 256 páginas, 39,90 reais) -, ela percorre os anos de 1938 a 1945, contando as privações que viveu na Praga ocupada pelos alemães e expondo em um texto ao mesmo tempo simples e cortante a barbárie que testemunhou primeiro no campo de Terezín, depois em Auschwitz.

Ali desembarcou aos 14 anos. Sobreviveu por um lance de sorte: Helga conseguiu se passar por mais velha e entrou na fila dos que eram considerados aptos para o trabalho. Em nenhum momento se separou da mãe, mas perdeu o pai, que a incentivou, ainda em Terezín, a abandonar os desenhos de temática infantil para despejar no papel o que via no campo.

Uma amostra dessa intensa produção está nestas páginas – material que permaneceu intacto graças a um tio de Helga que trabalhava no departamento de registros no campo checo e escondeu o maço de papéis em um buraco cavado em uma parede de tijolos, para recuperá-lo depois da guerra.

Os capítulos pós-Terezín foram escritos quando ela já estava em casa, no mesmo apartamento onde até hoje vive, em Praga. Diz Helga, viúva de um músico, que tem dois filhos e três netos: “Eu posso ter sobrevivido ao campo de extermínio, mas seus cheiros, sons e horrores nunca vão me deixar”.

A seguir, trechos da entrevista que ela concedeu a VEJA

CHEGOU A NOSSA HORA

O antissemitismo se disseminava por Praga entre os anos de 1938 e 1940. Eu não podia mais ir à escola, ao teatro, ao cinema, nem andar em um parque vizinho à minha casa, cenário de minha infância, onde duas placas – uma em checo, outra em alemão – diziam: “Proibido judeus”.

Lembro da sensação de ter de pregar a estrela de um amarelo intenso com a inscrição “Jude” em minha blusa e ser tomada de raiva, ódio, vontade de gritar e chorar quando me olhavam com desdém no meio da rua. Mas congelava o semblante, num esforço sobrenatural para não demonstrar nenhuma emoção. Não queria dar esse prazer aos alemães.

Um dia, veio a notícia que já esperávamos: eu e meus pais estávamos na lista dos convocados para o campo de Terezín. Comecei a embrutecer e a virar adulta ali, aos 12 anos.

 

SONHO AINDA DISTANTE -- Helga fez o desenho aos 14 anos: "Nunca perdi a esperança de voltar para casa"

SONHO AINDA DISTANTE -- Helga fez o desenho aos 14 anos: "Nunca perdi a esperança de voltar para casa"

A SOMBRA DA MORTE

Terezín funcionava como uma escala antes de Auschwitz e de outros campos de extermínio. Era alardeado pelos alemães como um lugar modelo – mentira deslavada que um comitê internacional da Cruz Vermelha engoliu na famosa visita que fez ali em 1944. Avisados da inspeção, os nazistas se esmeraram para dar ares de humanidade ao local: pintaram paredes, demoliram as camas de três andares e construíram uma escola de fachada.

A comissão ficou sem entender o horror que era. Todos os dias, pessoas morriam às dezenas de tuberculose, tifo ou vítimas de castigos públicos ao estilo medieval. Certa vez, mandaram um grupo para a forca. Era gente que tinha conseguido burlar a proibição de enviar cartas para fora do campo.

Eu não podia sair do quarto, mas vi da minha janela a sombra deles a caminho da morte. Estavam curvados, resignados. Se alguém ousasse reagir ou fugir de Terezín, outros pagavam da forma mais terrível possível: a deportação imediata para Auschwitz.

IMAGEM DO INFERNO

Tudo o que sabia quando embarquei no trem que partia de Terezín em outubro de 1944 era que estávamos indo para o leste. O destino era Auschwitz. A primeira imagem que tive daquele lugar foi a de um mar de chaminés soltando uma fumaça espessa, escura. Achei que eram fábricas, mas um alemão esclareceu: “São câmaras de gás. Vocês estão num campo de extermínio”. Entrei ao lado da minha mãe em uma fila da qual não se via o fim.

Um homem ia analisando caso a caso. Ao que tudo indica, era Josef Mengele. Nunca vou ter certeza. Não olhei o seu rosto. Fixei-me apenas no dedo, que ora se movia para a esquerda – o lado das crianças e dos velhos que iam direto para as câmaras da morte -, ora para a direita – a fila dos mais fortes e aptos ao trabalho escravo no campo.

Aquele homem tomava a decisão sobre quem ia viver ou morrer em questão de segundos. Não escondia o prazer que tinha de brincar de Deus. Eu tinha 14 anos, mas parecia mais velha, e acabei me juntando aos trabalhadores, com minha mãe.

 

ATOS DE TERROR -- Contagem de pernas em Auschwitz: quando a guerra terminou, ninguém queria ouvir falar das barbáries no campo

ATOS DE TERROR -- Contagem de pernas em Auschwitz: quando a guerra terminou, ninguém queria ouvir falar das barbáries no campo

“PERDI A MELHOR FASE”

Divertiam-se raspando nossa cabeça. Eu me imaginava horrorosa, mas não havia espelho em Auschwitz. Um dia, vi minha imagem refletida na janela, cadavérica, feia, velha. Não era uma adolescente. Na verdade, tinha de me esforçar muito para me sentir humana. Descobri da forma mais brutal possível que, a partir de certo estágio de degradação, você passa a ter as reações instintivas de um animal.

Aprendi a viver à base de pouca comida. Perdi as contas de quantas vezes fiquei doente e, mesmo sem remédios, me curei, movida por uma vontade fora do normal de sobreviver. Isso eu nunca perdi. Mas, ao mesmo tempo, me perguntava: quando o arame farpado for arrancado e os muros demolidos, seremos capazes de viver entre aqueles que seguiram sua vida sem interrupções?

DOIS DIAS SALVADORES

Conforme os russos avançavam, os alemães fugiam de campo em campo, carregando num trem para gado os poucos judeus que restaram. Eu estava entre eles. Desembarcamos em Mauthausen, na Áustria, apenas dois dias depois de a câmara de gás ter sido desativada. Escapei da morte por esses dois dias. Sim, porque, mesmo diante da derrota iminente, os nazistas estavam decididos a seguir em frente com a solução final. Ocorreu-me pular daquele trem e fugir, mas minha mãe não aguentaria ir comigo. Enquanto os vagões cruzavam o cenário de terra devastada, pessoas na rua arremessavam pão em nossa direção, e eu pensava: “Meu Deus, essas pessoas são boas!”.

NINGUÉM QUERIA OUVIR

Depois da guerra, ficava me perguntando: por que justamente eu sobrevivi, se havia gente tão mais talentosa e inteligente? Há várias respostas possíveis. Fui útil no campo, trabalhando na colheita, depois na montagem de aviões. Também mantive a disciplina de comer mesmo quando tinha asco do que vinha no prato.

A idade ainda contou a favor. Mas havia muita gente, assim como eu, que jamais teve a sensação de ser livre de novo. Tive sorte. Das 15000 crianças enviadas a Terezín, sobraram 100. Eu e minha mãe recuperamos o apartamento onde vivíamos antes, lugar que me trazia à mente as lembranças da infância ceifada e uma dor terrível pela ausência de meu pai, que nunca mais voltei a ver.

Meu corpo aguentou todo o horror, mas, ao chegar em casa, desabei e fui levada a um hospital. A solidão de quem passou por um pesadelo como esse é algo insuportável. Em meio aos escombros e às feridas não cicatrizadas, ninguém queria ouvir minha história.

 

Pães sendo transportados em carros fúnebres

Pães sendo transportados em carros fúnebres

REVIRAR A MEMÓRIA

Meu diário ficou décadas acumulando pó no fundo da gaveta. Se lesse, era como se estivesse lá, no meio do inferno de novo. Resolvi publicá-lo agora porque estou velha e me aflige ainda ver a intolerância chegando a graus extremos na política, na religião, como se pouco, ou nada, se tenha aprendido sobre os riscos e as consequências de alimentar o ódio.

Ter sido alvo de tamanha selvageria me tornou muito mais resistente às adversidades, e dura. Escrever meu diário foi a maneira que encontrei de me sentir humana. Em certo sentido, foi também o que me salvou.

20/04/2012

às 12:03 \ Vasto Mundo

Eleições nos EUA: Obama já foi dado como morto mas agora, com adversário definido, está mais vivo do que nunca

EXERCITANDO-SE Obama já está em campanha reeleitoral: presença em mais de 100 eventos para arrecadar doações financeiras

EXERCITANDO-SE -- Obama já está em campanha reeleitoral: presença em mais de 100 eventos para arrecadar doações financeiras (Foto: Brendan Smialowski / AFP)

ELE ESTÁ EM FORMA

Naquela que será a eleição mais cara e tecnológica da história, Obama já foi dado como morto – mas agora, com seu adversário definido, está mais vivo que nunca

(Reportagem do correspondente de VEJA em Nova York, André Petry)

O país mais poderoso do mundo terá uma eleição de fracos.

O presidente Barack Obama, um líder hesitante cujo carisma se derreteu no poder, vai enfrentar o republicano Mitt Romney, político tão vacilante que já foi contra e a favor de quase tudo – do aborto ao seguro-saúde compulsório.

Na semana passada, sublinhando sua vitória anticlimática, Romney tornou-se o candidato presidencial republicano por W.O. O ultraconservador Rick Santorum, ex-senador pela Pensilvânia, surpreendeu ao desistir abruptamente da disputa. Como era o único adversário sério, Romney colocou uma mão na taça. A menos que aconteça algum desastre, falta só a solenidade oficial para colocar a outra mão.

Os candidatos não animam, mas a campanha será épica

Mas, ao contrário do que os republicanos achavam e desejavam, será uma parada duríssima. Mais que isso: improvável. Quando Romney lançou sua pré-candidatura, em abril do ano passado, Obama vinha sendo dado como morto, mas o anúncio fúnebre fora precoce. Na semana passada, as pequisas mostravam que Obama larga na frente: 48,5% contra 43,2%.

Os candidatos não animam, mas a campanha será épica. A tecnologia, normalmente mais bem explorada pelos democratas, será protagonista. Há quatro anos, o Twitter era uma ferramenta embrionária e, no dia da eleição, o comitê de Obama mandou dois modestos tuítes aos eleitores. Hoje, o Twitter é acionado a cada minuto.

O Facebook já existia, mas era quatro vezes menor e uma exclusividade dos jovens. Hoje, a faixa etária dos americanos que mais cresce no Facebook é dos usuários com 50 anos ou mais. O iPad não existia. O iPhone fora introduzido no ano anterior. Os fotógrafos ainda ficavam empolgados ao capturar imagens de Obama com um BlackBerry na mão.

Além da tecnologia, bilhões de dólares serão gastos

Além da tecnologia, a campanha será um espetáculo de bilhões de dólares. Depois que a Suprema Corte decidiu que qualquer pessoa, empresa ou sindicato pode doar quanto quiser, desde que seja para um comitê sem vínculo com o candidato [mas que na prática sempre apoiam algum], as campanhas viraram oceanos de dinheiro. Estima-se que, desta vez, ela poderá chegar a 2 bilhões de dólares, a mais cara da história.

Como o dinheiro é essencial, mas ninguém até hoje provou que se pode comprar uma vitória presidencial na democracia americana, os cifrões pesam porém não decidem.

Romney e aliados já começaram a se mobilizar para levantar 600 milhões de dólares e estão cortejando os suspeitos de sempre: os irmãos Charles e David Koch, bilionários que patrocinam causas conservadoras.

Horas depois da desistência de Santorum, o comitê eleitoral democrata mandava e-mail aos eleitores pedindo contribuição de “3 dólares ou mais”, a ser feita nas 24 horas seguintes. “Serão horas críticas”, dizia o e-mail. Os democratas queriam mostrar poder de fogo diante da definição de Romney como o adversário republicano.

O dinheiro é a mensagem. Em 2008, Obama arrecadou 760 milhões de dólares. Agora, já foi a mais de 100 eventos para angariar fundos. Num deles, no célebre Apollo Theater, no Harlem, casa que abrigou sumidades da música negra, subiu ao palco e cantou um pedacinho de Let’s Stay Together, de Al Green.

Veja o vídeo:

O fator desemprego

Obama é um candidato pesado de carregar porque a taxa de desemprego, embora em queda, permanece alta.

Mas o desemprego – tema que Romney escolheu para fazer Obama sangrar – não é um indicador preciso das chances reeleitorais de um presidente. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

30/03/2012

às 18:30 \ Tema Livre

Vídeo: a sensacional história do avião da II Guerra recuperado de seu túmulo de gelo após 50 anos — para, perfeito, voar de novo

O P-38 "Glacier Girl", reconstruído após 50 anos no gelo, voando na região da base da Força Aérea dos EUA em Langley, Virginia (Foto9: kowabunga.org)

Amigos, já trouxe ao blog a história da superfortaleza voadora B-29 que fez aterrissagem forçada na Groenlândia logo após a II Guerra Mundial, quando realizava missão de espionagem – e que, meio século depois, ao ser retirada do túmulo de gelo, foi recuperada. Só que, infelizmente, pegou fogo e explodiu numa tentativa de decolagem.

Hoje trago história semelhante, com final feliz – e muito mais complicada.

Todo um esquadrão da Força Aérea dos Estados Unidos que seguia para a Grã-Bretanha a fim de reforçar os esforços dos Aliados contra a Alemanha nazista durante a mesma II Guerra, em julho de 1942, levantou voo de Presque Isle, no Estado do Maine, quase na fronteira do Canadá, fez uma escala já no próprio Canadá, em Goose Bay, realizou uma segunda escala na mesma Groenlândia e seguiu rumo a outra parada na Islândia – mas antes disso uma terrível tempestade obrigou os dois bombardeiros B-17 e os seis caças P-38 e seus 25 tripulantes a voltarem à Groenlândia.

Já quase sem combustível, os oito aparelhos realizaram aterrissagens forçadas. Quase por milagre, ninguém sofreu ferimentos graves, e todos foram posteriormente resgatados. Os aviões, porém, tiveram que ficar para trás.

Foi necessário derreter mais de 7 metros de gelo até chegar à carcaça do velho avião (Foto: airman.dodlive.mil)

Cinquenta anos depois, no entanto, em 1992, um grupo de entusiastas de aviação voltou a Groenlândia e localizou um dos aviões. O grupo incluía um integrante daquelas tripulações – Brad McManus, com 24 anos de idade no dia da aterrissagem forçada e, aos 74 anos, único sobrevivente dos aviadores envolvidos quando a reportagem do vídeo abaixo, feita pela rede americana de TV ABC, foi realizada. O aparelho era um P-38, que por alguma razão se encontrava a 1 quilômetro do local original, e sepultado por uma camada de gelo de mais de 7 metros.

Foi necessário derreter o gelo e transformar o local numa espécie de grande gruta para que o velho caça fosse retirado em partes.

A restauração demorou nada menos do que dez anos, e requereu grandes esforços de técnicos e especialistas em várias áreas, voluntários, tais como criar moldes específicos para fabricar determinadas peças.

O "Glacier Girl" reconstruído e perefeito virou atração em exibições e feiras, como a Airventure, em Oshkosh, no Estado de Wisconsin, EUA (Foto: Airventure)

Valeu a pena. Segundo o piloto Steve Hinton, que aparece no vídeo abaixo, os EUA fabricaram nada menos do que 10 mil aviões P-38 durante a II Guerra, mas só três ainda voavam quando a reportagem foi ao ar, em 2002. Batizado de Glacier Girl (garota do glaciar), o caça reconstruído realizou um vôo comemorativo levando o veterano McManus a bordo e, naturalmente, virou uma atração em feiras e exposições de aeronáutica pelo mundo todo.

Agora, confiram o vídeo da aventura:

 

24/03/2012

às 16:08 \ Livros & Filmes

Eles já foram donos do mundo: em livro, a história da dinastia Rothschild

Marie-Helene-e-o-barao-Guy

Marie-Helène, o barão Guy e Édouard de Rothschild, aos 5 anos, em Ferrières: o então garoto é hoje um bilionário que prefere discrição em vez de badalação e opulência (Foto: Arnold Newman / Getty Images)


Os donos do mundo

Capa: Dinastia Rothschild

Capa: Dinastia Rothschild

A biografia dos Rothschild, o clã mais rico da Europa, mostra como o poder e a fortuna da família influenciaram a história – e prova que, sim, os ricos também choram

Por muito tempo – do século XIX ao início do século XX -, a expressão “rico como um Rothschild” era usada largamente por toda a Europa quando se queria descrever alguém que realmente tivesse dinheiro. Muito dinheiro. O mundo de então não conhecia nenhuma outra entidade, além dos governos e das casas reais, que detivesse tanto poder econômico quanto o clã de banqueiros judeus estabelecidos em Frankfurt, Viena, Nápoles, Londres e, sobretudo, Paris.

A certa altura, dizia-se mesmo que os Rothschild eram donos de tudo – “até do bom gosto”, segundo detratores incomodados com o crescente apetite da família para adquirir obras de arte festejadas e cobiçadas, como telas de Vermeer e desenhos de Fragonard.

Eles souberam da derrota de Napoleão antes dos governos inglês e francês

Sem falar que o sistema de envio de mensagens desenvolvido pelo banco M.A. Rothschild e Filhos se mostrou ágil e eficiente a ponto de ser utilizado pelos serviços de inteligência de vários países. Um exemplo: os escritórios londrinos e parisienses da empresa receberam a notícia da vitória do general inglês Wellington sobre Napoleão, na batalha de Waterloo, um dia antes dos respectivos governos.

Esse é apenas o início da saga da família contada pelo escritor e jornalista americano Herbert R. Lottman em A Dinastia Rothschild (tradução de Ana Ban; L± 400 páginas; 58 reais).

As compras de arte de Edmond foram a base do acervo do Louvre

Radicado em Paris desde os anos 50, Lottman é especializado em monumentos franceses. Escreveu biografias dos escritores Flaubert, Camus, Colette e Júlio Verne, além do painel histórico A Rive Gauche: Escritores, Artistas e Políticos em Paris 1934-1953. Os Rothschild ganham o mesmo tratamento de exaltação nacional.

O ramo francês do clã sempre foi o mais poderoso e cintilante, tendo produzido, além de homens de negócios, mecenas, colecionadores de arte – como Edmond de Rothschild, cujas aquisições formaram a base do acervo do Louvre – filantropos e, claro, playboys. “Eles foram os Medici de seu tempo”, diz o autor, em referência à célebre família da Itália renascentista.

Édouard de Rothschild hoje, aos 55 anos (Foto: Franck Prevel / Getty Images)

Ferrovias, petróleo e código de ética

Para Lottman, os Rothschild se destacaram e levaram vantagem sobre a concorrência devido a seu “conhecimento inequívoco de como o dinheiro se comporta”. Por terem escritórios espalhados por toda a Europa, podiam emitir títulos em todas as moedas importantes da época e foram pioneiros em empreendimentos modernos como as ferrovias e a exploração do petróleo.

Também seguiam um rígido código de ética (“lealdade à família e discrição na condução dos negócios alheios”) e eram adeptos dos casamentos consanguíneos, como na realeza, para manter a independência mesmo dentro da comunidade judaica, na qual seus grandes rivais foram os também banqueiros Pereire e Lazard.

Sobretudo, procuraram utilizar suas poderosas conexões econômicas e políticas para interferir em possíveis conflitos entre nações – a paz é sempre melhor para os negócios, era seu lema.

Impávido colosso O barão James de Rothschild, fundador do ramo francês do clã, ganhou título de nobreza da corte austríaca: “A paz é sempre melhor para os negócios” (Foto: AKG / LatinStock)

IMPÁVIDO COLOSSO -- O barão James de Rothschild, fundador do ramo francês do clã, ganhou título de nobreza da corte austríaca: “A paz é sempre melhor para os negócios” (Foto: AKG / LatinStock)

Apesar de a figura mais importante do livro ser o barão James de Rothschild, o fundador da família na França (o título de nobreza veio da corte de Viena, pelos serviços prestados por seu banco durante as guerras napoleônicas), a dinastia começou com seu pai, Mayer Amschel, no gueto de Frankfurt, num tempo em que os judeus não tinham direito nem a sobrenome.

Foi ele quem iniciou a fortuna como especialista em moedas antigas, consultor financeiro e, por razões ainda nebulosas, fornecedor de moedas raras e objetos de arte para a corte e quem mais pudesse pagar por tais itens.

Mas, como os ricos também choram, o grande drama dos Rothschild aconteceu no século XX, quando decisões equivocadas e negócios malsucedidos provocaram significativas perdas de capital. Durante a II Guerra, eles se viram obrigados a se refugiar nos Estados Unidos, onde nunca se sentiram realmente à vontade ou gozaram do poder e distinção de que desfrutavam na Europa.

Um Rotschild do século XXI, longe da vida mundana

A grande figura desse período é o barão Guy de Rothschild, misto de financista e bon-vivant que, ao lado da mulher, a não judia Marie-Hélène, restaurou o castelo da família, Ferrières, promoveu nele históricas festas para o jet set internacional e mais tarde o doou à Universidade de Paris. Foi Guy quem amargou a liquidação do banco da família pelo governo socialista de François Mitterrand, em 1981, e tentou recomeçar no lugar que sua família tanto evitara: Nova York.

Seu filho Édouard, hoje com 54 anos, é visto como um Rothschild atípico: prefere os negócios, e só eles, aos esportes e à vida mundana. É a dinastia Rothschild no século XXI, um tempo em que já não se fazem mais ricos como antigamente.

(Resenha de Mario Mendes publicada na edição impressa de VEJA)

06/01/2012

às 20:20 \ Tema Livre

Steven Pinker: Vivemos no melhor dos tempos

Em entrevista para a jornalista Gabriela Carelli, de VEJA desta semana, o psicólogo Steven Pinker conta: “Vivemos no melhor dos tempos”. Confiram:

 

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Steven Pinker

O psicólogo Steven Pinker demonstra por estatísticas que, apesar de a brutalidade e a intolerância estarem sempre à espreita, a humanidade vive o seu mais pacífico período histórico (Foto: via Newscom)

O canadense Steven Pinker, de 57 anos, professor de psicologia da universidade americana de Harvard, é autor de treze livros que fizeram dele uma celebridade intelectual planetária. Seu sucesso se deu sem que ele fosse forçado a banalizar suas concepções científicas. Em seu novo livro, The Better Angels of Our Nature – Why Violence Has Declined (Os Anjos Bons Dentro de Nós – Por que a Violência Declinou), Pinker demonstra com estatísticas que a humanidade passa por seu mais pacífico período histórico. Nessa visão, o terrorismo islâmico, os massacres em escolas e locais públicos e a criminalidade urbana empalidecem diante da brutalidade sem limites das eras anteriores. Pinker diz que o anjo civilizatório, enfim, aprisionou a maldade inata do homem.

 

Por que os ataques de 11 de setembro de 2001 ou o massacre de quase uma centena de inocentes na Noruega em julho passado não desmentem sua tese?

As estatísticas são imprescindíveis para justificar qualquer argumento científico. Elas são um método válido e seguro de avaliação. É o que torna a minha tese legítima. Nenhum cientista sério poderia afirmar que vivemos o período mais pacífico da humanidade só com base em impressões que ele próprio ou os outros têm sobre determinados eventos. A mente humana é vulnerável a enganos e ilusões. Nossas impressões sobre quão violento e cruel é um determinado episódio devem-se à nossa memória, que sempre é contaminada pelas emoções que sentimos quando presenciamos ou vivenciamos algo. Hoje em dia, grande parte da elite intelectual, principalmente na sociologia, psicologia e antropologia, menospreza a estatística e o raciocínio lógico. Esse preconceito só contribui para a proliferação de uma pseudociência e suas análises mal fundamentadas. O fato é que, desde 1945, o número de mortos em guerras ou de vítimas de assassinatos e estupros é o menor dos últimos 5 000 anos, quando se leva em conta a relação com o total da população.

 

ataques 11 de setembro e Oslo

Terrorismo: 11 de setembro e atentado de Oslo, na Noruega

 

Para quem tem um parente morto de forma violenta, as estatísticas não valem muita coisa, certo?

Desde o lançamento do livro, fui surpreendido por reações inesperadas. Algumas pessoas duvidaram do meu trabalho, outras puseram em xeque minha idoneidade. Houve quem se enfureceu e considerou minha tese obscena. Muitos acadêmicos se revoltaram. Por isso, é sempre bom esclarecer alguns pontos. Em nenhum momento eu disse que a violência desapareceu. Quando esta entrevista for publicada, tragédias e crimes estarão na primeira página dos jornais. Também não quis minimizar eventos trágicos recentes, como a guerra no Iraque ou o massacre em Darfur, nem as grandes guerras ou as atrocidades cometidas por ditadores e genocidas. Tudo isso é condenável e doloroso. Mas não invalida a constatação de que o mundo já foi muito pior do que é agora. Grandes pensadores teorizaram sobre como teria sido a vida dos homens no estado natural antes do advento das leis e das formas mais rudimentares de governo. Com ajuda da alta tecnologia podemos agora não apenas teorizar sobre o grau de barbárie da pré-história, mas estimar com precisão o número altíssimo de pessoas que morriam massacradas por inimigos. Nada autoriza a ideia tão disseminada de que o passado humano foi bucólico, pastoril e pacífico. Há poucos séculos matavam-se pessoas com base em superstições avalizadas pela hierarquia religiosa, a escravidão era oficial e apenas discordar da opinião vigente podia equivaler a uma sentença de morte.

 

Alguns cientistas acreditam que o declínio da violência se deve a uma mudança na própria natureza humana. O senhor acha isso possível?

É improvável. A reação violenta foi um traço incorporado à humanidade durante o processo evolutivo. Ser violento foi determinante para a sobrevivência da espécie na defesa contra as feras, na caça e, claro, na disputa por uma mulher no acasalamento. Até os 2 anos as crianças são extremamente violentas. Só não matam umas às outras porque não damos a elas revólveres ou facas e porque estamos presentes para ensiná-las a se comportar. Elas se valem da violência para disputar espaço com os irmãos e a atenção dos pais. As mães ficam furiosas quando leem isso, mas a neurociência comprovou que as pessoas aprendem a ser menos violentas com a maturidade. Isso coincide com o desenvolvimento do lobo frontal, a região do cérebro responsável pela linguagem, pelo domínio motor, mas principalmente pela personalidade, a consciência de si mesmo e da existência do outro. O prazer com a violência é uma realidade. As pessoas são coibidas de praticá-la nos moldes da pré-história ou da Idade Média, mas dão vazão a ela em games, assistindo a filmes de Mel Gibson ou a lutas de vale-tudo. As pesquisas mostram que de 70% a 90% dos homens já se imaginaram matando alguém. Entre as mulheres esse número varia de 40% a 60%.

 

Por que então o mundo se tornou mais pacífico?

Meu livro mostra que uma sucessão de eventos históricos fez com que o lado bom do homem sobressaísse ao violento e animalesco. Todos temos demônios e anjos dentro de nós. O processo civilizatório, com o advento do estado, a institucionalização da Justiça, a difusão e o aprimoramento da cultura, permitiu que os anjos derrotassem os demônios. Foi o que livrou a espécie humana da barbárie. No século XVII, o filósofo Thomas Hobbes enunciou no seu Leviatã que, na ausência de regras de convivência sob leis e imposições da sociedade, a vida humana era “solitária, miserável, repugnante, brutal e curta”.

 

A constatação de que o “estado natural” do homem é a violência encerra a discussão sobre o que influi mais no comportamento humano, a natureza ou o aprendizado?

Estamos longe de pôr um ponto final na questão sobre o que pesa mais, a genética ou o que aprendemos no decorrer da vida. Mas, no estado natural, quem tem razão é Hobbes, e não o suíço Jean-Jacques Rousseau, cujo argumento era que o ser humano nasce bom e é, posteriormente, corrompido pela sociedade. Durante toda a minha carreira, tentei derrubar essa falácia de que a mente é uma tábula rasa e de que qualquer traço humano é fruto do meio em que ele vive ou é moldado pelas instituições sociais.

 

O senhor despertou fúria ao afirmar que o Holocausto não foi o primeiro genocídio da história…

Eu sou judeu também e sou sensível a essa questão. O Holocausto tem características únicas, terríveis, que o tornam um ato de horror incomparável. Os nazistas estavam tão empenhados em matar os judeus e em varrê-los do mapa que os buscavam a milhares de quilômetros de distância para ser mortos em câmaras de gás. O extermínio dos judeus não foi o primeiro genocídio da história, mas foi o mais cruel. Há um outro ponto em relação à II Guerra. Sem dúvida, foi o evento no qual mais se mataram pessoas desde o surgimento da espécie humana. Mas não está claro se, em porcentagem de população, morreram naquela guerra mais pessoas do que em outras.

 

Auschwitz

"Holocausto tem características únicas, terríveis, que o tornam um ato de horror incomparável" Na foto, Auschwitz, um dos principais campos de concentração nazista

 

A que se deve a emergência do nazismo na Europa na plenitude da civilização do século XX?

O declínio da violência através dos séculos deu-se de forma cíclica. Aos picos de violência, como as grandes guerras do século passado, sempre se seguiu o retorno ao estado pacífico. As estatísticas comprovam que, com o passar dos séculos, aos picos de violência se sucedem períodos cada vez mais duradouros de paz. No caso da Alemanha, é preciso observar que, por baixo da fina camada de verniz civilizatório da República de Weimar, o curto período democrático depois da I Guerra, fervia o nacionalismo retrógrado baseado na ideia da superioridade racial teutônica que descambaria no nazismo. Foi algo tão forte que apagou a noção do bem e do mal. Muitos dos carrascos nazistas se consideravam bons soldados e cidadãos que apenas cumpriam seu dever.

 

Em que situações as pessoas se tornam cegas a ponto de compactuar com atrocidades como as cometidas pelos nazistas?

A filósofa alemã Hannah Arendt foi uma das primeiras a tentar explicar esse fenômeno, que ela definiu como “a banalização do mal”. Em seu trabalho, de 1963, ela defendeu a tese de que as maiores atrocidades da história não foram de responsabilidade de sociopatas ou fanáticos, mas de pessoas comuns que se deixaram levar por líderes carismáticos. Essas pessoas cometeram as maiores atrocidades sem se dar conta do grau de maldade de suas ações. Hoje as ideologias fazem o papel dos líderes carismáticos nesse processo de arrastar pessoas normais para a prática de atos insanos.

 

Ainda fica de pé a ideia de que o bem e o mal são definidos culturalmente?

Em geral, as pessoas entendem que o mal está em produzir sofrimento nos outros por meio de atos premeditados e sem uma razão muito forte. O mais interessante, no entanto, é que a maioria dos indivíduos que cometem atos perversos não acha que agiu com maldade. O cérebro humano evoluiu de forma a sempre advogar a favor de si próprio. Somos os mais devotos defensores de nós mesmos. A primeira reação ao sermos confrontados com o fato de termos feito algo ruim é tentar nos convencer e aos outros de que aquilo não foi tão grave. A segunda é transferir a responsabilidade. Nosso cérebro quer sempre nos fazer acreditar que se agimos mal foi porque fomos provocados.

 

O neurocientista americano Sam Harris defende a ideia de que existe uma “ciência da moral”, ou seja, que o bem e o mal podem ser definidos com rigor metodológico. O senhor concorda?

Entendo o argumento de Sam Harris. A suposição de Harris se baseia no fato de que a moral é tradicionalmente definida pela religião ou pela filosofia. Nessas duas cátedras, as definições de bem e de mal estão dissociadas de algo imprescindível, a questão do sofrimento humano. No conceito de ciência da moralidade, sempre que há sofrimento o mal está presente. Quando há felicidade, o bem prevaleceu. De fato, se tomamos o fenômeno por essas características de apuração simples, é possível obter uma resposta objetiva e mais científica do que sejam o bem e o mal.

 

Na sua visão, quais foram as razões que levaram ao fracasso os sistemas políticos movidos pela ideia de estabelecer a igualdade entre os homens?

O comunismo e outros governos fundados sobre utopias encorajaram as pessoas a ser violentas quando as convocaram para lutar por um sonho. Pelo sonho vale tudo. Aqueles sistemas políticos levaram as pessoas a acreditar que fora da utopia não existe o bem. Por essa razão, tanto o comunismo como o nazismo e o fascismo degeneraram no assassinato coletivo de enormes proporções. A lição aqui é que a violência inata do homem está sempre à espreita e que os governos democráticos são a forma mais eficaz de impedir que ela se manifeste na sua pior forma.

 

Como o senhor avalia o impacto dos avanços tecnológicos e da internet na violência?

A suposição de que o maior acesso a armas mais potentes aumenta a violência é equivocada. Ao ler notícias como a do massacre na Noruega, muita gente pode ter a impressão de que a tecnologia contribuiu para que um só indivíduo matasse quase uma centena de pessoas. Episódios desse tipo distorcem a percepção da realidade. Depois de Hiroshima e Nagasaki, nunca mais um país ousou acionar seu arsenal nuclear – não por questões técnicas, mas pela imposição moral.

 

Bomba de Hiroshima

"Depois de Hiroshima e Nagasaki, nunca mais um país ousou acionar seu arsenal nuclear - não por questões técnicas, mas pela imposição moral"

 

O senhor é um otimista incurável?

Sou pessimista e otimista ao mesmo tempo. Acredito que a violência deva aumentar no futuro próximo. A história mostra que mudanças culturais e sociais, crises econômicas, novas ideologias e tecnologias podem incitar guerras, conflitos, rebeliões e enfurecer determinados grupos sociais. Mas sou otimista em relação ao fortalecimento dos períodos de paz depois de surtos de violência extrema. Os períodos de paz tendem a ser cada vez mais longos e duradouros.

10/12/2011

às 19:00 \ Política & Cia

“O Ocidente vai perder a supremacia para a Ásia”

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Ian Morris, historiador e arqueólogo britânico (Foto: Gilberto Tadday)

Amigos, essa entrevista é com o historiador e arqueólogo britânico Ian Morris é muito importante e interessante e achei que deveria compartilhar com aqueles leitoresw que por acaso não a tenham lido na edição de VEJA que está saindo das bancas hoje.

Foi feita por André Petry, correspondente da revista em Nova York, com o título abaixo, em negrito.

A geografia sempre vence

Autor de um livro excepcional, o historiador e arqueólogo fala das lições da história e prevê que o Ocidente está a menos de um século de perder a supremacia para a Ásia

Mesmo falando e escrevendo apenas em inglês, mesmo dando aulas em Stanford, na Califórnia, mesmo tendo nascido na inglesa Stoke-on-Trent, e como tal ser herdeiro do primeiro império global, o historiador e arqueólogo Ian Morris, 51 anos, não caiu na armadilha de ver o mundo apenas através da lente anglo-saxônica.

Num livro estupendo, Why the West Rules — For Now (Por que o Ocidente domina o mundo — Por enquanto), Morris narra os últimos 15.000 anos da história humana entrelaçando biologia, sociologia e geografia, com destaque para a geografia, e explica por que impérios caem e o que o futuro nos reserva. “A geografia é a razão das mudanças mais profundas”, diz.

Mantido o atual compasso, ele arrisca: a Ásia vai superar o ocidente em 2103. A seguir, sua entrevista a VEJA.

O senhor afirma que a história humana tem três forças motrizes: a biologia, a sociologia e a geografia. Elas são igualmente relevantes?

São diferentes. A biologia não nos deixa esquecer que somos animais, só que símios inteligentes. Temos necessidades parecidas com as de outros animais e fazemos coisas semelhantes. A grande diferença está no modo como nos adaptamos ao mundo.

Os demais animais se adaptam através da biologia, da evolução genética, que é extremamente lenta. Nós, com nosso cérebro grande, contamos com a evolução cultural. Quando acabou a última era do gelo, há 15.000 anos, todos os animais fizeram a mesma coisa, inclusive os humanos: alimentaram-se da repentina fartura de plantas e animais menores.

Só que nós, mais por acidente que por esperteza, inventamos a agricultura. A população começou a crescer, surgiram as comunidades agrárias, inventamos as cidades, os Estados, os impérios, e aqui estamos. A biologia explica por que estamos tentando melhorar nosso padrão de vida constantemente, mas não como fazemos isso.

É onde entra a sociologia. Ela nos ensina que somos muitíssimo parecidos uns com os outros, não importa de que lugar do planeta venhamos, não importa a cor da pele. Temos um modo próprio de fazer as coisas. Em geral, somos movidos por ganância, preguiça ou medo. Estamos sempre em busca do meio mais lucrativo, mais fácil e mais seguro de fazer as coisas.

A biologia e a sociologia explicam as semelhanças globais, enquanto a geografia explica as diferenças regionais?

Sim. A geografia determina em que lugares o nível de desenvolvimento será maior ou menor. Se colocarmos 500.000 pessoas no Brasil e 500.000 na Alemanha, elas vão se desenvolver de forma desigual porque estarão em locais distintos, diante de desafios diversos, e não porque brasileiros e alemães tenham diferenças de natureza biológica ou sociológica.

Diferenças étnicas são questões de geografia (Foto: Diana Abreu / Nova Escola)

Diferenças étnicas são questões de geografia (Foto: Diana Abreu / Nova Escola)

Então somos premiados com boa geografia, ou punidos com má geografia, e nada podemos fazer para interferir no nosso destino?

A geografia determina o nível de desenvolvimento, mas o nível de desenvolvimento, à medida que se materializa, provoca um efeito tal que acaba mudando o significado da geografia. A má geografia pode virar boa geografia. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

 

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