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Hitler

08/04/2013

às 18:00 \ Política & Cia

Maílson da Nóbrega: Desperta, Congresso

De dentro do Congresso, Tancredo Neves e Ulysses Guimarães tiveram papel fundamental para a democracia (Foto: Luiz Antonio / Ag. O Globo)

De dentro do Congresso, Tancredo Neves e Ulysses Guimarães tiveram papel fundamental para a democracia (Foto: Luiz Antonio / Agência O Globo)

Artigo publicação em edição impressa de VEJA

DESPERTA, CONGRESSO

O Congresso teve participação decisiva nos acontecimentos que possibilitaram o fim do regime militar. Líderes como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves e Mario Covas foram figuras-chave na restauração da democracia. Ações de mesmo relevo não ocorreram, porém, no âmbito das finanças públicas. E ainda agora o Congresso continua renunciando às suas prerrogativas em tributação, despesa pública e endividamento federal.

O moderno Parlamento nasceu de decisões sobre finanças públicas. No livro sobre a emergência dos Estados europeus (Birth of the Leviathan), Thomas Ertman, da Universidade Harvard, mostra como as assembleias contribuíram para limitar e depois abolir o absolutismo. Tudo começou entre os séculos XII e XIII com uma mudança fundamental: o declínio das formas de serviço militar gratuito. Tropas assalariadas se tornaram a base da organização para a guerra.

A conquista e a ocupação de territórios eram consideradas, então (e ainda o seriam até a derrota de Hitler, em 1945), essenciais para a prosperidade. Para mobilizarem exércitos cada vez mais numerosos, incluindo a contratação de mercenários, e assim financiarem seus projetos de expansão e defesa, os reis precisavam de recursos. Uma saída rápida era permitir a indivíduos arrecadar tributos em troca do recolhimento antecipado. Outra era vender cargos na administração pública.

Com o tempo, ficou difícil cobrar tributos sem o apoio da nobreza, do clero e dos comerciantes. Assembleias representativas foram criadas para legitimar a atividade de arrecadar. Entre idas e vindas, elas assumiram o controle do poder dos reis, que delas dependiam para custear as guerras. O custo do conflito com a França levou os barões feudais ingleses a impor ao rei João sem Terra a Carta Magna (1215), que atribuiu a uma assembleia (o futuro Parlamento) o poder definitivo de tributar (salvo irrelevantes exceções). Nascia a série de avanços institucionais que legariam à Inglaterra a Revolução Industrial e a democracia.

Esse processo levou à assunção dos parlamentos ao poder supremo. Os reis se tornaram figuras simbólicas ou desapareceram. Dois destaques foram a Revolução Gloriosa inglesa (1688) e a Revolução Francesa (1789). O Parlamento inglês e a Assembleia Nacional francesa adquiriram o poder exclusivo de tributar, autorizar a despesa pública e aprovar o endividamento do governo. Estudos mostram que a democracia surgiu mais rapidamente nos países que faziam guerras frequentes.

Os países ibéricos foram retardatários nesses movimentos, que lá aconteceriam apenas nos séculos XIX e XX. Com parlamentos fracos, a democracia tardou. O Congresso brasileiro é herdeiro dessa tradição. Aqui, o agente reformador foi o Executivo. O Legislativo teve participação secundária ou nula na modernização das finanças públicas, principalmente nas ações que desaguaram na Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF) 2000.

Novos avanços e a preservação das conquistas dependem, por isso, do compromisso do governo com sadios princípios fiscais. Nos últimos dois anos, o que se tem visto é o desmonte das instituições fiscais, sob a complacência do Congresso.

O Executivo expande a seu bel-prazer a dívida federal para suprir de recursos bancos federais. Usa contabilidade criativa para fazer crer que cumpriu metas fiscais. Anuncia, sem consulta ao Congresso, que transferirá recursos do Tesouro para empresas de energia elétrica e ferrovias. Está em curso a criação de um novo banco, disfarçado de fundo, pelo qual o Tesouro aportará recursos à vontade a bancos privados para que financiem a infraestrutura. É alarmante.

O Congresso precisa, pois, assumir suas relevantes prerrogativas. Cumpre-lhe liderar, pela primeira vez, um processo de construção institucional para coibir práticas do Executivo que geram desperdícios e má alocação dos recursos da sociedade.

A Câmara e o Senado dispõem de pessoal altamente qualificado para auxiliar na tarefa. O Congresso poderia começar questionando subsídios concedidos sem prévia autorização legislativa. Outra ideia é debruçar-se sobre o já existente projeto de nova lei orçamentária, que teria importância semelhante à da LRF. Os ganhos seriam enormes. Isso vai acontecer?

18/11/2012

às 12:00 \ Tema Livre

Uma fascinante (e perturbadora) incursão pela história da manipulação da fotografia

CONVITE À ILUSÃO -- Em 1960, o artista Yves Klein montou a foto do seu "salto no vazio" num subúrbio perto de Paris: nem toda manipulação é para trapacear; mas toda ela é para iludir

CONVITE À ILUSÃO -- Em 1960, o artista Yves Klein montou a foto do seu "salto no vazio" num subúrbio perto de Paris: nem toda manipulação é para trapacear; mas toda ela é para iludir

Publicado por André Petry, de Nova York, em edição impressa de VEJA

 

 VALE POR MIL PALAVRAS?

Exposição de fotos manipuladas, no Metropolitan, ilumina o drama moderno: são tantas imagens e é tão fácil adulterá-las

 

Nada foi mais manipulado na história da fotografia do que o céu. O azul do céu, com seu clarão de espanto, era intenso demais para a sensibilidade das primeiras emulsões fotográficas.

Uma paisagem era um desafio: ou o céu comparecia em todo o seu esplendor, mas o resto da paisagem virava um borrão escuro, ou a paisagem aparecia claramente, mas o céu saía aguado, esbranquiçado, desbotado.

A solução encontrada pelos pioneiros da fotografia era engenhosa. Primeiro, faziam um negativo do céu, depois outro negativo da paisagem. No escuro do laboratório, sobrepunham um negativo ao outro – e assim revelava-se a paisagem na sua inteireza, inclusive a vivacidade do azul-celeste. A manipulação humana era o meio através do qual a imagem fotográfica conseguia traduzir a realidade visível. Era verdade ou era mentira?

O fim da autoridade documental da fotografia

Em fevereiro de 1990, a Adobe, multinacional americana de programas de computador, lançou um produto inovador no mercado. Chamava-se Photoshop 1.0. Era um editor de imagens digitais. Permitia retrabalhar uma imagem infinitamente: alterar cores, aumentar ou diminuir contrastes, até mesmo eliminar ou acrescentar elementos à cena.

A ideia da Adobe era vender o Photoshop a designers gráficos e afins, mas a novidade logo chamou a atenção de fotógrafos da indústria da moda e da publicidade, e pouco depois capturou o interesse de artistas e repórteres fotográficos.

Quando finalmente chegaram ao mercado os celulares equipados com câmera digital, no fim dos anos 90, o Photoshop tornou-se popular entre os milhares, milhões de fotógrafos amadores.

A fotografia que reproduzia a realidade com rigor estava morta e enterrada.

A Adobe, que desde então já produziu outras doze versões mais avançadas do Photoshop, tornou-se a vilã mundial do fim da autoridade documental da fotografia. Incomodada com esse posto, a multinacional resolveu patrocinar uma exposição no Metropolitan Museum, em Nova York, para demonstrar que a manipulação fotográfica é anterior ao advento do Photoshop.

A mostra reúne mais de 200 trabalhos e narra a fascinante história da manipulação da fotografia desde o seu nascimento, em 1839. Incidentalmente, a exposição ajuda a iluminar uma combinação dramática do nosso tempo: numa cultura cada vez mais visual, nunca foi tão fácil, e tão acessível, adulterar o mundo visível.

 

O MINISTRO SUMIU -- Em 1937, Hitler tirou uma foto com outros nazistas. Por razões desconhecidas, seu ministro da Propaganda, Goebels, foi apagado da cena

O MINISTRO SUMIU -- Em 1937, Hitler tirou uma foto com outros nazistas. Por razões desconhecidas, seu ministro da Propaganda, Goebels, foi apagado da cena

Desde que os sumérios inventaram a escrita 4 000 anos antes de Cristo, nunca a humanidade viveu uma era tão visual. São as televisões a cabo com 500 canais, o YouTube, o stream video na internet, as redes sociais de fotografia, como Instagram e Pinterest. O Flickr, um álbum on-line no qual os usuários compartilham fotos entre si, recebe 3 000 novas imagens a cada minuto.

Hoje, todo mundo é fotógrafo. Em breve, haverá 3 bilhões de celulares com câmeras em circulação no planeta. Ao lado da explosão visual, Photoshop e congêneres decuplicaram a capacidade de manipular uma imagem. A fertilidade visual do nosso tempo, somada à infinita capacidade de adulterar o mundo visível, é um convite ao desnorteio: afinal, onde está a verdade visual?

A história humana mostra que temos uma necessidade cultural de reproduzir nosso entorno com o maior rigor possível. E a fotografia nos fascina porque carrega a promessa – apenas a promessa – de transcrever o mundo com autenticidade. Daí nossa relação instável com a fotografia, ora vista como heroína, ora como bandida; ora como arte, ora como documento; ora como verdade, ora como mentira.

Mas a fotografia como instrumento capaz de replicar fielmente tudo o que nos rodeia sempre foi mais ideal retórico do que realidade prática, mais desejo do que conquista – a começar pelos céus do século XX.

Nem por isso renunciamos à autoridade documental da fotografia. E, por isso, gerações foram vítimas das mais grosseiras falsificações na União Soviética de Stalin, na Alemanha nazista de Hitler. Mas, também aqui, a manipulação política começou cedo.

O primeiro grande exemplo da desonestidade intelectual a serviço da ideologia – algo que não se limita ao passado – ocorreu na Comuna de Paris, em 1871. Sufocado o levante dos parisienses, o governo vencedor fabricou imagens para denunciar a brutalidade e a crueldade dos rebeldes. As fotos estão na exposição do Met. São aberrações, mas aos olhos de hoje.

PRÉ-PHOTOSHOP da Saturday Evening Post, em 1941: muito antes do Photoshop

PRÉ-PHOTOSHOP da "Saturday Evening Post", em 1941: muito antes do Photoshop

Nem toda manipulação fotográfica é feita para enganar e trapacear, mas toda manipulação é feita para iludir. Foi assim que chegou à imprensa, fosse para criar uma capa mais agradável aos olhos, como no exemplo da Saturday Evening Post, fosse para dramatizar um crime com ênfase racial, como fez a Time em 1994: chegou às bancas depois de escurecer artificialmente a pele do negro O. J. Simpson.

A busca da verdade visual não é sinônimo de pureza visual, um ideal que o modernismo disseminou com o movimento da “fotografia pura”. Mas a pureza no âmbito humano – ideológica, sexual, racial – é a busca de um ideal fascista. Nestes tempos incrédulos, é bom não confundir pureza com verdade.

 

LEIAM TAMBÉM:

Em fotos adulteradas, mentiras sobre a História

02/05/2012

às 15:22 \ Vasto Mundo

Grécia: antes insignificante, partido nazista deve chegar ao Parlamento. Seu líder já disse que Hitler deveria ter ganho a II Guerra

Os nazistas gregos ostentando suas bandeiras: símbolo copiado da suástica e ataques a imigrantes nas ruas (Foto: libcom.org)

Não apenas a França tem eleições neste domingo, 6, em que se decidirá, em segundo turno, quem será o presidente da República pelos próximos 5 anos.

Também a Grécia realiza eleições gerais para a escolha de um governo que substitua o do respeitado técnico Lucas Papademos, ex-vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE), que aceitou em novembro passado formar um gabinete de transição para enfrentar a pavorosa crise financeira, econômica e social por que passa o país.

Como tem ocorrido em países da Europa em crise, a descrença e a desesperança, que alimentam o rancor, provocaram, entre outras consequências, o fortalecimento de agremiações de extrema direita, inclusive um partido – denominado Aurora Dourada –, de corte francamente nazista, a ponto de seu símbolo, ostentado em cartazes e bandeiras, ser inspirado na cruz suástica.

“Os imigrantes são parasitas e criminosos, vamos expulsá-los”

Os nazistas gregos, até então um grupelho insignificante, deverão chegar ao Parlamento. Eles são menos significativos pelos números que, segundo as pesquisas de opinião, poderão atingir nas eleições – 5% dos votos, ou um máximo de 15 deputados entre os 300 que compõem o Parlamento grego – e mais pela simbologia de adquirirem representação parlamentar.

Sem contar, é claro, a guarida que suas ideias e práticas encontram em parcelas da sociedade. Tal como os squadristi fascistas de Mussolini na Itália, eles “patrulham” as ruas das grandes cidades, agredindo militantes de esquerda, imigrantes e homossexuais, não raro sob aplausos de populares.

A ênfase dos nazistas dirige-se aos imigrantes – algo entre 6% e 7% da população de 10,5 milhões de habitantes, a maioria proveniente da Europa Oriental, especialmente da Albânia. “Os imigrantes são parasitas e criminosos”, disse recentemente Ilyas Panayotaros, porta-voz do partido. “Se chegarmos ao governo, vamos deportá-los e fecharemos nossas fronteiras com minas e cercas eletrificadas”, delira.

Nikolaos Michaloliakos: partidário da "ditadura dos coronéis" o ex-militar expulso do Exército é o líder do partido

Seu líder, um produto da Guerra Fria que já foi financiado pela CIA

O líder desses alucinados é Nikolaos Michaloliakos, ex-integrante de comandos especiais gregos que foi expulso do Exército, cumpriu duas penas de prisão por violência, uma delas por posse de explosivos e armas de grosso calibre, e já chegou a declarar publicamente que teria “sido melhor” que a Alemanha de Hitler houvesse vencido a II Guerra Mundial.

Michaloliakos, um apreciador da feroz “ditadura dos coronéis” que oprimiu a Grécia entre 1967 e 1974, nunca deixa dúvidas sobre de que lado está: muitos de seus partidários barra pesada se alistaram como voluntários na guerra da Bósnia (1992-1995) para ajudar os sérvios bósnios, com apoio do então governo comunista ditadorial da Sérvia, em sua “limpeza étnica” contra os bósnios muçulmanos.

Segundo pesquisa realizsada por jornalistas gregos, eles teriam participado do tristemente famoso massacre de Srebenica, em julho de 1995, em que 8 mil homens e meninos muçulmanos foram mortos nessa cidade por tropas de sérvios bósnios comandadas pelo general Ratko Mladic, hoje sendo julgado como criminoso de guerra pelo Tribunal de Haia.

Michaloliakos é produto da Guerra Fria e, mais especificamente, da CIA americana, pois integrava os grupos da extrema direita financiados pela agência para espionar e sabotar grupos de esquerda e pró-soviéticos.

16/02/2012

às 20:11 \ Tema Livre

Fotos: campanhas de publicidade de interesse público usam imagens chocantes. Confira essas aqui

Ações de propaganda e publicidade são criadas para vender um produto, um serviço ou, muitas vezes, uma ideia.

Falar em propaganda é falar em emoções — pois estudos indicam que elas são responsáveis pelo impulso, a vontade ou mesmo a obsessão de comprar ou fazer algo.

Há campanhas que requerem cenas chocantes ou violentas, que após o impacto emocional causado supostamente levam à conscientização, como é o caso das que versam sobre violência infantil, bebida e direção ou abuso de drogas.

Separamos aqui quatro campanhas com imagens fortes, todas de interesse público. Vejam só:

 

One drop of water!, ou Uma gota de água

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"Bad water kills more children than war" - Água contaminada mata mais crianças do que uma guerra (campanha da Unicef)

Cartaz de Campanha da Unicef — a agência da ONU para a infância — contra a poluição da água em prol da água para consumo, com a finalidade de angariar fundos para a melhoria da qualidade da água, de outubro de 2011.

 

Beber e dirigir é suicídio

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O álcool é pior que uma arma para o motorista. Campanha do governo da China

Campanha criada pela agência de publicidade chinesa Dentsu contra direção e bebida, em janeiro de 2008.

 

Não há velho viciado

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"Não existe essa de viciado velhinho" -- é o que diz, em tradução livre, o lema dos cartazes

Essa campanha foi desenvolvida pela agência de publicidade inglesa AMV DDBO, para uma clínica de recuperação no Reino Unido, a Focus 12, em dezembro de 2007.

Em três cartazes e um filme para a televisão, aparecem idosos consumindo drogas pesadas, como heroína, crack e cocaína. A mensagem: dependentes químicos têm vida curta, não vivem até a terceira idade.

 

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Outro dos slogans da campanha, além do mencionado na legenda da foto acima, é "Pegue seu futuro de volta"

 

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Um dos cartazes se refere diretamente ao crack

O filme para televisão

Duas senhoras idosas preparam a cocaína com uma carta de baralho, enquanto lembram dos velhos tempos; um homem aperta o torniquete no braço de sua esposa antes de injetar heroína na veia; em uma cozinha em ruínas, um homem de idade usa um tubo improvisado para fumar crack; e, mais preocupante que tudo, outro idoso injeta droga entre os dedos dos pés antes de cair em sua poltrona. O slogan, em tradução livre: “Não existe essa de viciado velhinho”.

 

Dia mundial da AIDS 2009

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Para o slogan "A Aids é um assassino em série", a campanha não hesitou em usar a imagem do genocida Hitler fazendo sexo com uma mulher

A campanha para promover o Dia mundial da Aids 2009 – World AIDS Day 2009 –, utilizou um apelo fortíssimo, ao associar o número de mortes causados pela doença todos os anos a ditadores assassinos como Adolf Hitler, Josef Stalin e Saddam Hussein.

A agência alemã Regenbogen e.v., de Berlin, responsável pela campanha, criou o slogan: “AIDS is a mass murderer”, ou A Aids é um assassino em série.

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Também o ditador iraquiano Saddam Hussein foi utilizado na campanha, da mesma forma como...

 

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... o tirano assassino Josef Stalin

12/02/2012

às 15:00 \ Livros & Filmes

Perderam “Melancolia” no cinema? Corram para alugar o DVD. Um filme a um só tempo triste, belíssimo e desconcertante

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"Melancolia": a atriz Kirsten Dunst, vestida de noiva, boiando entre a vegetação de um riacho (Foto: Divulgação)

“Melancolia”, do diretor dinamarquês Lars Von Trier, é um filme a um só tempo tristíssimo e belo, comovente e desconcertante. De longe, um dos melhores filmes lançados no Brasil de um ano para cá.

Se vocês não puderam vê-lo nos cinemas, corram para alugar o DVD. É de arrasar.

Vejam por quê:

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Melancolia - A hora do adeus

Em Melancolia, de Lars von Trier, duas irmãs esperam o fim do mundo

Durante oito minutos, ao som de Tristão e Isolda, de Wagner, vários tableaux vivants de beleza sublime se sucedem: Kirsten Dunst, vestida de noiva, boiando entre a vegetação de um riacho, ou andando penosamente em um bosque, arrastando um emaranhado de redes atrás de si; Charlotte Gainsbourg, desesperada, caminhando com os pés virados para trás, com um menino ao colo; ou os três personagens postados diante de um castelo, em uma noite iluminada por duas luas – uma é a Lua de fato e a outra, o gigantesco planeta [fictício] Melancolia, que, depois de sair de trás do Sol e passar por Mercúrio e Vênus, se aproxima da Terra – com a qual então colide estrondosamente.

O diretor Lars von Trier não esconde da plateia que esse prólogo de Melancolia (Melancholia, Dinamarca/Suécia/França/Alemanha, 2011) adianta tanto os desenvolvimentos como o desfecho do filme. Mas o faz porque tem um propósito específico: surpreender não com a ideia do fim do mundo, mas com a maneira como seus personagens o receberão.

Imitando o que julga ser felicidade

Do rigor formal e grandiosidade operística da abertura, Von Trier salta para a linguagem do Dogma na primeira parte, denominada “Justine”: com a câmera na mão, mostra as festividades do casamento de Justine (Kirsten) e Michael (Alexander Skarsgard).

Os noivos são recebidos por Claire (Charlotte), a irmã de Justine, e seu marido (Kiefer Sutherland), em um belíssimo castelo, para um jantar repleto de flores e homenagens. Aos poucos, as fissuras sob essa superfície se revelam.

A mãe de Justine (Charlotte Rampling) é uma niilista implacável. Seu pai, um inconsequente. Seu chefe (Stellan Skarsgard), um grosseirão.

E ela própria está imitando o que julga ser felicidade: Justine sofre de uma depressão difusa, mas intransponível, que nem sequer a paixão do noivo consegue aliviar – de onde a celebração termina em rompimento.

"Melancolia" é um belo filme, e a beleza começa com o visual impecável

Os desenvolvimentos estão aflorando com tal força como que pela ação gravitacional do planeta Melancolia: ainda que alguns duvidem da colisão, todos estão sob o empuxo da ideia do fim de todas as coisas. Na segunda parte do filme, “Claire”, Von Trier disseca o que acontece quando se conclui que não há escapatória. Só as duas irmãs permanecem agora no castelo.

Justine, antes tão errática, se fortalece: não tem o que perder, e a aniquilação pode até ser um alívio ou dar-lhe algum sentido. E Claire, antes tão composta, desaba: ela ama a vida e tem um filho, e o adeus é para ela um sofrimento infinito.

Não parece muito, mas é. Ainda que as declarações desastradas de Von Trier em Cannes (por motivos insondáveis, ele disse “compreender Hitler”) tenham eclipsado o filme que ele levava ao festival, Melancolia é um de seus mais belos trabalhos – uma história compassiva, poética e pungente sobre uma mortalidade tão próxima e brutal que não há nem como desviar os olhos dela.

(Resenha escrita pela crítica de cinema Isabela Boscov, também editora executiva de VEJA, publicada na edição da semana do lançamento do filme nos cinemas do país, a de  3 de agosto de 2011)

15/12/2011

às 20:44 \ Vasto Mundo

Espanha: escândalo com genro não afeta apenas o Rei Juan Carlos, mas coloca a monarquia na berlinda

espanha rei com zapatero

Zapatero, acompanhado da mulher, Sonsoles, cumprimenta o Rei Juan Carlos antes do almoço no Palácio Real: elogios à "figura-chave da transição democrática" na Espanha. À esquerda do Rei, a Rainha Sofia (Foto: ABC)

O que não faz a ganância, não é mesmo?

Veja-se o caso de Iñaki Urdangarin, duque de Palma de Mallorca, suspeito de envolvimento em dois espetaculares escândalos de superfaturamento de eventos e desvio de dinheiro público por meio de duas fundações sem objetivo de lucro que dirige.

Genro do Rei da Espanha, Juan Carlos I, bastião da restauração democrática no país, Urdangarin — ora sendo responsável por um brutal desgaste do monarca e da própria monarquia constitucional — é desde o berço abençoado pela sorte.

Nascido de uma família burguesa do País Basco, alto, forte e bem apessoado, foi durante longos anos ídolo do handebol – esporte muito popular na Espanha –, tendo atuado em 14 temporadas pelo Barcelona, onde obteve 12 títulos internacionais e, entre títulos nacionais de pequena, média e alta significação, abiscoitou nada menos do que 40.

Espanha família real

O Rei com os três filhos, a nora, o genro e os oito netos. Saiu das fotos oficiais um ex-genro, separado da filha mais velha, Elena (de vermelho). Urdangarin é o mais alto na foto

Defendeu a seleção espanhola em três Olimpíadas, levando duas medalhas de bronze para casa.

Não bastasse isso, casou-se em 1997 com uma jovem bonita – Cristina, que além do mais vinha a ser a segunda dos três filhos do Rei. Com ela, teve três filhos e uma filha, todos bonitos e saudáveis.

Salário anual de 1 milhão de dólares

Portador de um diploma de economia, outro de administração e dois másters, sempre teve bons empregos e, atualmente, ganha o confortabilíssimo salári de 1 milhão de dólares por ano como presidente da Comissão de Assuntos Públicos da multinacional Telefónica para os Estados Unidos e a América Latina, razão pela qual desde 2009 ele e família residem em Washington.

Precisava mesmo se enfiar em manobras obscuras, para dizer o mínimo, a ponto de o Rei tê-lo afastado da agenda oficial da família real por seu comportamento “não exemplar”?

PRIMERA COMUNION DE MIGUEL URDANGARIN

Iñaki Urdangarin, Cristina e os quatro filhos

Nada foi provado ainda contra Urdangarin, mas o assunto não sai das manchetes dos jornais e dos noticiários e programas de fofocas da TV, num momento especialmente delicado para o país, mergulhado em profunda crise econômica, abatido pela dúvida dos mercados quanto a sua capacidade de fazer frente a sua dívida pública e em transição de um governo socialista, derrotado nas urnas, para um conservador, do Partido Popular.

O momento também não poderia ser pior para o Rei, que nesta semana está recebendo líderes de todos os partidos para os contatos obrigatórios antes de chamar o líder do PP, Mariano Rajoy, para que forme um governo.

Apoios importantes

É verdade que o Rei vem merecendo apoios importantes, mesmo que não se mencione especificamente o escândalo.

Num almoço de despedida que ofereceu no Palácio Real – em grande parte um museu, utilizado apenas para cerimônias – ao ainda presidente do governo (primeiro-ministro) José Luís Rodríguez Zapatero, sua mulher, Sonsoles Espinosa, e todos os atuais ministros, Juan Carlos ouviu de Zapatero que ele foi “figura-chave na Transição” (o período entre a morte do ditador Francisco Franco, em 1975, e a entrada em vigor da Constituição democrática de 1978) um agradecimento “de coração” por seu “compromisso com a Espanha”.

No Congresso de Deputados, Juan Manuel Albendea (PP), o deputado mais velho, que presidia interinamente a sessão inaugural, destacou que o Rei desenvolve “exemplarmente” seu papel há 36 anos, e pediu que os presentes rendessem a ele “uma merecida homenagem de gratidão, respeito e carinho”. O plenário prorrompeu em aplausos, excetuados os deputados nacionalistas bascos e catalães.

Também o atual líder dos socialistas, Alfonso Pérez Rubalcaba, candidato derrotado nas eleições de 20 de novembro, expressou o “apoio sem fissuras” do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) ao Rei, e destacou as decisões adotadas pela Casa Real para “avançar no caminho da transparência”. (O Rei decidiu colocar todas as contas e despesas da Casa Real à disposição do público, na internet).

O principal jornal da Espanha, El País, de centro-esquerda, assinalou, em editorial, que o gesto de transparência “é a melhor garantia para dissipar dúvidas acerca de uma instituição que conta com o afeto majoritário dos cidadãos, principalmente pelos serviços que prestou em momentos difíceis da Transição, nos quais esteve em jogo o futuro da democracia e da Monarquia constitucional”.

Estrago já feito

O problema, porém, é que, mesmo ainda sem Urdangarin ter sido indiciado em inquérito, um estrago está feito. A Espanha tem sido um país monárquico desde sempre, excetuadas a curtíssima experiência republicana ocorrida entre 1873 e 1874, e, depois, a avançada mas trágica República restaurada em 1931 para, em 1936, ver explodir contra ela o levante fascista comandado por Franco e a guerra civil que terminou com a vitória dos chamados “nacionalistas”, em 1939.

Mesmo tendo o país vivido períodos republicanos tão curtos, não foi fácil a restauração da monarquia, após a morte de Franco, que se auto-intitulou Caudillo e permaneceu, por conta própria, como o teórico regente de um trono inexistente.

Juan Carlos havia sido designado sucessor do Caudillo como chefe de Estado, num esquema arquitetado pelo ditador em que caberia ao futuro Rei ser peça decorativa. O regime autoritário, em que tudo estaria, segundo expressão da época, “atado e bem atado” seguiria em frente.

Desconfianças diante do jovem Rei e da monarquia

Morto Franco, o jovem Rei de 37 anos era visto com compreensível desconfiança, ainda mais que fora educado sob o controle de Franco. As desconfianças se estendiam não apenas a ele, mas à instituição monárquica.

Espanha Alfonxo XIII

O Rei Alfonso XIII, avô de Juan Carlos: vaidoso e mundano, deu seu beneplácito a uma ditadura e abdicou após vitória dos republicanos numa eleição

O pai de Juan Carlos e aspirante à Coroa, don Juan de Borbón, levava uma vida pessoal dissoluta e apregoava convicções democráticas nunca confirmadas na prática, tendo sido simpatizante de Mussolini e Hitler durante um tempo e flertado com a ditadura franquista com o objetivo supremo, muitas vezes manifestado com avidez, de ir para o trono fosse como fosse.

Don Juan, porém, nunca mereceu a confiança de Franco, até por seus constantes ziguezagues políticos, e não foi sem dificuldade que engoliu ser preterido pelo filho.

O avô foi um rei odiado

Seu pai, o último rei da Espanha, Alfonso XIII, avô de Juan Carlos, vaidoso e mundano, conduziu a o país de forma tão desastrosa em que a certa altura, premido por uma sucessão de crises e de insatisfação popular, abençoou um golpe de Estado: em 1923, o general Miguel Primo de Rivera assumiu como ditador após suspender a Constituição, dissolver o Parlamento e calar a imprensa, governando, sob beneplácito real, até 1930 – quando, num gesto raríssimo, o general-ditador renunciou e mudou-se para Paris. Doente, morreu um mês depois.

Pode-se dizer que o Rei era odiado e, quando tentou restabelecer um regime democrático, realizando eleições, viu os partidos republicanos terem grande maioria de votos e abdicou, em 1931.

ESpanha rei alfonso xiii com primo de rivera

O Rei Alfonso XIII com o general Miguel Primo de Rivera

O jovem Rei, porém, mostrou-se ousado e corajoso mal assumiu com a morte de Franco. Em poucos meses, livrou-se do veterano homem de confiança que o ditador instalara como chefe do governo, Carlos Arias Navarro. Para seu lugar, trouxe o jovem quarentão e simpático Adolfo Suárez, membro do partido oficial mas sem um passado negro pelas costas, e com ele manobrou de tal forma que as Cortes, o Parlamento biônico da ditadura, decidiram se autodissolver.

O Rei e Suárez convocaram eleições gerais e um Parlamento saído das urnas redigiu uma Constituição democrática que entrou em vigor em 1978, cautelosamente adotando a monarquia, com apoio praticamente unânime dos parlamentares, inclusive dos historicamente republicanos socialistas e comunistas. Submetida a plebiscito, a Carta foi aprovada por grande maioria.

Em fevereiro de 1981, quando altos chefes militares tentaram um golpe de Estado e um tenente-coronel da Guarda Civil, com um grupo de homens armados, ocupou o Congresso , o Rei se legitimou de vez.

Como comandante supremo das Forças Armadas, convocou ao Palácio de la Zarzuela ou falou diretamente por telefone com generais leais – que conhecia por ter cursado as três academias militares, do Exército, Força Aérea e Marinha –, chamou às falas militares rebeldes, ordenou a prisão de um general de alto coturno que fora esteio da ditadura e lutara na Guerra Civil, Milans del Bosch, e foi à televisão denunciar os golpistas e reafirmar sua convicção democrática.

Espanha Príncipe Girona

O príncipe herdeiro, Felipe de Borbón (à direita), com o presidente do governo nacionalista catalão: "gesto nítido de apoio à monarquia" (Foto: El Periódico)

Toda essa longa trajetória, agora, está abalada. Não se discute, na Espanha, apenas o “caso Urdangarin”. Discute-se, agora, a própria conveniência da monarquia. De ontem, quarta, para hoje, quinta, dia 15, os sete principais jornais espanhóis publicaram 57 artigos sobre o escândalo, e não poucos questionavam a necessidade e a conveniência de se manter o regime.

O herdeiro promete “adaptar e adequar” a Coroa aos novos tempos

Justamente por isso, e não por acaso, durante uma solenidade que presidiu em Barcelona, o príncipe herdeiro, Felipe, 43 anos, acompanhado da mulher, Letícia, e uma vez mais sem tocar no escândalo, acentuou seu propósito de “adaptar e adequar” a Coroa aos novos tempos e, muito aplaudido, falou em “rigor, seriedade e coerência”.

Curiosamente, a solenidade foi prestigiada em massa pelo governo nacionalista catalão, tendo à frente seu presidente, Artur Mas, no que o centenário jornal La Vanguardia interpretou como “um gesto nítido de apoio à monarquia através dos príncipes Felipe e Letícia”.

Que ninguém se iluda, porém. A crise não passou.

30/09/2011

às 16:02 \ Livros & Filmes

O cineasta Lars Von Trier recorda o desastre que foi sua brincadeira sobre Hitler e, com base na própria experiência, diz: “A depressão é o fim do mundo”

 

Lars von trier, Self Assignment, May 2011

Lars Von Trier: "Sou a favor da pornografia. Pornografia é mostrar as coisas como elas são" (Foto: Nicolas Guerin/Contour/Getty Images)

Amigos do blog, é de primeira água, instigante, surpreendente e tem passagens comovedoras essa entrevista que o cineasta dinamarquês Lars Von Trier concedeu à editora executiva de VEJA Isabela Boscov. Seu título original está em negrito abaixo.

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“A depressão é o fim do mundo”

Expulso do Festival de Cannes por dizer que “entendia Hitler”, em uma piada de mau gosto, o diretor dinamarquês dá, com o belíssimo Melancolia, a melhor resposta possível à celeuma

Afável, animado, bem-humorado: sim, esse é o diretor Lars von Trier dando entrevista. Em maio passado, Von Trier protagonizou uma das maiores celeumas da história do Festival de Cannes ao afirmar, durante uma entrevista coletiva, que “entendia Hitler”.

Pediu desculpas pela piada péssima, mas foi expulso do evento, declarado persona non grata no festival e voltou para casa (de carro, porque tem pavor de avião) com a pecha de monstro. Um dos fundadores do movimento Dogma e autor de obras-primas como Os Idiotas, Dançando no Escuro e Dogville, esse dinamarquês de 55 anos tem uma longa reputação como um entrevistado provocador, que gosta de chocar. (Um exemplo mais antigo, e clássico: “Sou a favor da pornografia. Pornografia é mostrar as coisas como elas são”.) Mas tem também uma longa história como um cineasta de honestidade irredutível, que denuncia de maneira invariavelmente controversa a burrice do consenso, o germe fascista que existe em cada indivíduo e a propensão humana a tiranizar.

De anos para cá, porém, com Anticristo e agora com o belíssimo Melancolia, o cinema de Von Trier se virou para seu interior. Ansioso desde sempre e depressivo crônico desde que sua mãe lhe revelou, no leito de morte, que ele não era filho do homem que sempre acreditara ser seu pai – e que já falecera, deixando-o sem nenhum protagonista com quem tirar a limpo sua história -, ele faz, com Melancolia, uma parábola pungente do fim do mundo que cada ser humano terá de viver com sua própria morte.

A seguir, trechos da entrevista que Von Trier concedeu a VEJA, de Copenhague. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

21/08/2011

às 15:00 \ Livros & Filmes

Num livro extraordinário, o berço de um gigante: o jovem Churchill

Winston Churchill, 1899

O jovem Winston Churchill, em 1899

Amigos, nesta resenha o diretor de Redação de VEJA, Eurípedes Alcântara, recomenda fortemente essa magistral obra autobiográfica do grande estadista britânico Sir Winston Churchill sobre sua mocidade incrivelmente aventureira. A resenha foi publicada originalmente em VEJA de 10 de agosto de 2011, sob o título de “O berço de um gigante: o jovem Churchill”.

MINHA MOCIDADE

Churchill narra seus primeiros 25 anos em um livro cheio de suspense e aventura, mas que contém as chaves para entender suas motivações mais profundas

Em tradução irretocável de Carlos Lacerda, político, jornalista e escritor morto em 1977, chega às livrarias a segunda edição de um livro extraordinário, Minha Mocidade (Nova Fronteira; 420 páginas; 79,90 reais), o relato autobiográfico dos primeiros 25 anos de vida de Winston Churchill. Nunca é demais reler Churchill. Nunca é demais ler mais livros escritos pela maior figura política do século XX, o homem que dizia ganhar “a vida com a garganta e a caneta” e que ganhou muito mais do que isso, ganhou a guerra contra Hitler usando com maes­tria aquelas mesmas armas.

De seus poderosos discursos transmitidos para a Europa ocupada pelas ondas curtas da BBC, disse o radialista americano Edward Murrow: “Churchill alistou a língua inglesa nas Forças Armadas e a mandou para o campo de batalha como ponta de lança de esperança para a Inglaterra e o mundo”. Em 1963, John Kennedy usou a mesma expressão, sem dizer que era de Murrow, ao conferir a Churchill o título de cidadão honorário dos Estados Unidos.

A melhor obra de um grande estadista que foi um grande escritor

Minha Mocidade é a melhor obra de Churchill, autor de 43 livros e centenas de artigos de jornal e dos discursos imortais. A melhor por nela exercitar com mais brilhantismo ainda seu formidável domínio do idioma inglês, o mais eficiente e flexível instrumento de expressão do pensamento humano. O livro foi escrito em 1930, quando Winston Churchill completou 56 anos e, tendo sido quase tudo na hierarquia política da Inglaterra, amargava um exílio longe do poder sem, é claro, imaginar as glórias que a vida lhe reservava, fosse como estadista, fosse como escritor.

Churchill escreveu Minha Mocidade pelos motivos mais básicos a mover os autores de grandes obras: dinheiro e glória. Nas suas páginas estão presentes as qualidades únicas que o levariam a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura em 1953, assim descritas pela Academia Sueca: “Apenas em raras ocasiões temos grandes estadistas e soldados que também foram grandes escritores. Pode-se pensar em Júlio César, Marco Aurélio e até Napoleão… Mas Churchill pode ser comparado melhor ainda a Benjamin Disraeli (político e escritor de origem judaica, duas vezes primeiro-ministro da Inglaterra no século XIX). Ambos foram grandes atores da história e desempenharam formidavelmente o papel principal”.

A última carga de cavalaria da história militar — e ele estava lá

O papel principal foi sempre o único que satisfez Winston Churchill, proeminência que ele buscou com determinação em todas as fases da vida, tendo tido a sorte de ser correspondido pelas circunstâncias, como fica claro em diversas passagens de Minha Mocidade. Podia o jovem tenente Winston Churchill, com ambições de grandeza e de transcendência tão conspícuas, ter almejado algo melhor do que participar junto com o 21º de Lanceiros do que foi a última carga de cavalaria da história militar?

No capítulo 15 do livro ele narra sua participação nessa batalha, em que os ingleses derrotaram o exército de fanáticos “mahdistas”, seguidores de uma seita muçulmana messiânica que havia triunfado sobre os egípcios e os turcos no Sudão. Que tal, mais tarde, como correspondente na Guerra dos Bôeres, na África do Sul, ser capturado e escapar espetacularmente da prisão? O episódio rendeu ao jovem Winston fama instantânea na Inglaterra, abrindo caminho para a sua primeira eleição à Câmara dos Comuns e o início da ininterrupta carreira parlamentar que só cessou com sua morte, em 1965.

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"Minha Mocidade": o retrato de uma era extinta

Expedições punitivas no Afeganistão

Tem especial sabor para o leitor atual a narrativa que Churchill faz das agruras dos militares ingleses em suas expedições punitivas aos indomáveis “pathans” do Afeganistão, país chamado de “fronteira noroeste”. Noroeste de Londres? Não. Noroeste da Índia, então a “joia da coroa” do império inglês. Churchill descreve a impenetrável geografia da região com seus vales plácidos circundados por formações montanhosas íngremes como agulhas e habitadas por etnias unidas (ora divididas) por indecifráveis acordos de sangue, de religião ou por teias ou ódios ancestrais ainda mais arcanos.

Desse cenário, onde por duas vezes Churchill se viu às portas da morte, a Inglaterra e, mais tarde, outras potências seriam expulsas pelos frugais e resilientes povos das montanhas – a União Soviética, em 1989, e, agora, como parece inevitável, os Estados Unidos. De tão movimentado e cheio de suspense, o subtítulo do livro de Churchill poderia ser eventualmente “O retrato do estadista quando jovem aventureiro”.

Um filho que tentou em vão mostrar seu valor ao pai

Mas Minha Mocidade é bem mais que um livro de aventuras. É também a investigação das motivações interiores de um filho que tentou em vão mostrar seu valor ao pai, Lord Randolph.

Alguns biógrafos reducionistas atribuem todo o ímpeto de Winston Churchill em busca de glória ao desejo de, a um tempo, triunfar sobre a sombra do pai e vingá-lo. Lord Randolph perdeu o posto de ministro da Fazenda ao cabo de uma manobra desastrada que, se tivesse dado certo, lhe daria mais independência dos políticos. Lord Randolph morreu desgostoso aos 45 anos. Winston tinha 20. “Quando releio esse livro tenho a sensação de ter feito o retrato de uma era extinta”, escreveu Churchill no prefácio de uma das edições inglesas, referindo-se ao longo reinado da rainha Victoria, um tempo já descrito como de “grandes homens e pequenos eventos”. Foi nesse período que nasceu e passou sua mocidade Winston Churchill, um grande homem e de um tempo de grandes eventos.

13/08/2011

às 14:03 \ Disseram

“Não faço nada para facilitar minha vida”

“No fundo, gosto de ser persona non grata. É um papel romântico e solitário que me aproxima de meus heróis. Acho que não faço nada para facilitar minha vida”

Lars von Trier, cineasta dinamarquês, que provocou escândalo no Festival de Cinema de Cannes ao dizer, e depois se arrepender do que disse, que simpatizava com Adolf Hitler.

15/05/2011

às 10:56 \ Política & Cia

O caso Higienópolis e outros semelhantes, por Carlos Brickmann

Jair Bolsonaro e Danilo "Bolsonaro" Gentili

Amigos, leiam seis das notas da coluna que o jornalista Carlos Brickmann publica hoje em cinco diferentes jornais, sob o título abaixo.

O país dos Bolsonaros

O deputado Jair Bolsonaro, o próprio, do PP fluminense, usa verba pública para imprimir panfletos contra as garantias dos direitos dos homossexuais. Bolsonaro foi eleito para manifestar sua opinião, é inviolável no exercício do seu mandato, concordemos ou não com o que diz. Mas com dinheiro público?

O humorista Danilo Bolsonaro Gentili não usou dinheiro público nem é contra os gays. Mas usou a exposição que teve por uso de uma concessão pública para fazer piadas no Twitter com as vítimas do nazismo.

Qual o motivo para vilipendiar os mortos em campos de concentração? Simples: entre os 55 mil habitantes do bairro planejado de Higienópolis, em São Paulo, 3.500 se manifestaram contra a construção de uma estação do Metrô.

Uma pessoa disse que o Metrô traria ao bairro pessoas com as quais não gostaria de conviver. Daí a conclusão de que o bairro inteiro era contra pobres.

Como em Higienópolis há muitos judeus (e muitos árabes, muitos japoneses, muitos italianos), Danilo Bolsonaro Gentili resolveu fazer piada sobre as mortes em campos de concentração.

Bolsonaro e Danilo Bolsonaro Gentili não estão sós: aproveitando o espaço oferecido por bolsonaros de bolso, colunistas que lavam as mãos, alguns bolsonaros saíram do armário louvando Hitler e o nazismo – isso quando gangues neonazistas de São Paulo atacam nas ruas homossexuais e nordestinos.

Não é hora de ficar quieto. Para Bolsonaro, Comissão de Ética. Para os demais bolsonaros, o artigo 20 da Lei 7.716, que pune racismo com prisão e multa.

O Bolsonarão

De Bolsonaro, que este colunista não entende por que ainda não foi submetido ao Conselho de Ética, louve-se a amplitude de seus ideais políticos. Já foi do Partido Democrata Cristão, do PPR, PPB, PTB, PFL; e agora é do PP.

O bolsonaro suplicante

Danilo Bolsonaro Gentili, assustado com a reação, pediu desculpas e pôs-se “à disposição da comunidade judaica”. Mas já devia estar à disposição da Justiça.

Os outros bolsonaros

Não dá para esquecer Rafinha Bolsonaro Bastos, do mesmo programa de TV em que atua Danilo Bolsonaro Gentili, que publicamente elogia o crime de estupro.

Segundo diz, só mulher feia é estuprada e deveria agradecer ao estuprador.

Apologia ao crime também é crime.

 

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