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Getúlio Vargas

09/06/2013

às 14:00 \ Livros & Filmes

Livro: o roqueiro-historiador da II Guerra escreveu uma excelente história da FEB na Itália do ponto de vista do soldado raso

Brasileiros em campanha na Itália

Brasileiros em campanha na Itália (Foto: Serv. Fotog. do Exército / Comando Militar do Leste)

Texto de Augusto Nunes, publicada em edição impressa de VEJA

COM A PALAVRA, O SOLDADO RASO

Intrigado com os silêncios do pai ex-pracinha, o baterista João Barone foi fundo na missão de estudar a II Guerra. Em 1942, ele enfim dá voz aos combatentes brasileiros

Mesmo antigos seguidores dos Paralamas do Sucesso reagem com espanto à descoberta de que o baterista João Barone é um especialista em II Guerra Mundial, já escreveu um livro sobre o tema e acaba de publicar outro, agora tratando exclusivamente da Força Expedicionária Brasileira (FEB).

Como é possível encontrar espaço na agitada agenda de roqueiro para pesquisas sobre o maior dos conflitos registrados desde o Dia da Criação? A leitura de 1942 — O Brasil e Sua Guerra Quase Desconhecida (Nova Fronteira; 304 páginas; 39,90 reais) ordena que a pergunta seja invertida: como é que Barone consegue atender aos compromissos da banda se aparentemente consome 24 horas por dia no resgate de acontecimentos ocorridos há setenta anos?

Filho de um dos 25 000 combatentes da FEB, o Barone historiador começou a tomar forma embalado não pelo que ouviu do pai, mas pelo que João de Lavor Reis e Silva, um introvertido de nascença, deixou de contar.

Ele se tornava mais retraído ainda quando a conversa enveredava pela experiência vivida entre setembro de 1944 e maio de 1945, período em que participou da ofensiva militar aliada que libertou o norte da Itália, consumou a derrocada dos alemães numa região de alta relevância estratégica e apressou o fim da guerra em território europeu.

Os filhos ansiavam por atos heroicos. Nas raras ocasiões em que se dispôs a falar sobre o assunto, o pracinha de poucas palavras interrompeu o relato no meio ou substituiu revelações por reticências. Barone primeiro recorreu à imaginação para reconstituir as aventuras encobertas pelo silêncio. Depois de herdar o capacete de expedicionário, saiu à caça de testemunhas, documentos e imagens que lhe permitissem ao menos vislumbrar o que o pai viu de perto.

Incursões pelos cenários do drama completaram o curso intensivo que fez de Barone um diplomado em II Guerra, com doutorado em FEB. O destino impediu que o soldado raso do Regimento Sampaio descobrisse que o filho hoje sabe muito mais do que ele sobre a guerra a que sobreviveu.

O velho pracinha gostaria de ouvir a assombrosa história do soldado Dálvaro José de Oliveira, que resistiu num único dia a dois naufrágios provocados por torpedos alemães. Ou o caso do catarinense que encontrou um conterrâneo de ascendência germânica no grupo de prisioneiros e trocou um caloroso abraço com o agora inimigo.

Quantas mulheres se engajaram na FEB? Quem foi o primeiro a tombar em combate, por que a metralhadora inimiga foi apelidada de “Lurdinha”, quantos bombardeios somaram os aviadores brasileiros? Barone sabe tudo isso. E muito mais. Conjugadas a depoimentos e revelações surpreendentes, as informações contidas no livro resultam numa narrativa sem parentesco com a história oficial.

Vista pelas lunetas dos chefes civis e militares, a saga da FEB parece o Brasil Maravilha dos discursos de Lula: se melhorar, estraga. Comandadas por generais que não fariam feio num confronto com Napoleão Bonaparte, as tropas brasileiras, protegidas pelos pilotos do Senta a Pua!, colecionaram vitórias tão espetaculares que nem vale a pena registrar um ou outro revés.

Essa versão edulcorada tem sido retificada por obras que tratam a verdade com o devido respeito. É o caso do essencial As Duas Faces da Glória, do jornalista William Waack. E é o caso de 1942. O entusiasmo de pracinha honorário em nenhum momento deforma o olhar de Barone. É o olhar do pai. Vista pelo filho de João de Lavor Reis e Silva — ou apenas João da Silva, protagonista do episódio fictício que abre o livro —, foi bonita a história da FEB.

HISTORIADOR AUTODIDATA -- Barone: anos visitando os cenários das batalhas e reunindo documentos, imagens e testemunhas para reconstituir a II Guerra da qual os expedicionários tomaram parte — e sobre a qual o pai, o soldado raso João de Lavor Reis e Silva, dava um jeito de jamais falar (Foto: André Valentim / Strana)

HISTORIADOR AUTODIDATA -- Barone: anos visitando os cenários das batalhas e reunindo documentos, imagens e testemunhas para reconstituir a II Guerra da qual os expedicionários tomaram parte — e sobre a qual o pai, o soldado raso João de Lavor Reis e Silva, dava um jeito de jamais falar (Foto: André Valentim / Strana)

Mas bonita de outro jeito. “As lições da participação brasileira vão muito além da velha necessidade de reafirmar a bravura e o heroísmo dos pracinhas no campo de batalha”, escreveu Barone. “Naquela época, foi tão difícil constituir uma força militar para tomar parte na guerra quanto é difícil nos dias de hoje preparar o país para sediar uma Copa do Mundo, uma Olimpíada ou para prevenir as enchentes de verão (vale lembrar que o total de 916 mortes e 345 desaparecimentos com as chuvas de 2011 no Rio por pouco não superou os cerca de 1 500 brasileiros mortos na II Guerra Mundial).”

Refletir sobre o que houve entre 1942 e 1945, insiste Barone, poderia ajudar a desfazer a sensação de que o país nunca aprende com os erros do passado. Não foram poucos os erros que pontuaram a saga da FEB — e que testaram a determinação de milhares de Joões da Silva na frente doméstica nos dois anos que precederam a partida para a Itália.

Criada oficialmente em 1943, a FEB teve de enfrentar as incertezas geradas pelos movimentos pendulares do governo de Getúlio Vargas, que oscilou entre as partes em guerra antes de definir-se pelos aliados. As tropas tiveram também de vencer intrigas políticas, uma estrutura militar envelhecida e, sobretudo, carências inverossímeis. No treinamento no Brasil, faltaram armas para combates simulados. (Para que se aprendesse a lidar com explosivos, latas de goiabada fizeram as vezes de minas terrestres.)

E continuaram faltando armas às tropas já acampadas na frente europeia. O comando americano teve de socorrer os brasileiros com trajes de frio, barracas de campanha, alimentos e outros suprimentos básicos. A FEB já tinha um hino meses antes de existir fisicamente. Como os pilotos do Senta a Pua! descobriram só às vésperas de uma parada militar que faltava um hino à Aeronáutica, resolveram desfilar ao som da marchinha carnavalesca Jardineira.

Esses monumentos ao jeitinho brasileiro comprovam que os nativos destes trêfegos trópicos recorrem a improvisos espertos até no meio de uma guerra. Nem sempre dá certo, ensinam os dramáticos episódios que Barone narra com a leveza que identifica os autores vacinados contra a linguagem pedante dos acadêmicos demais. O músico historiador falou pelo pai. O Brasil enfim pode ouvir como foi a guerra quase desconhecida pela voz de um João da Silva.

21/03/2013

às 16:50 \ Política & Cia

J. R. Guzzo: Para defender-se de seu próprio desabamento moral, o PT usa a imagem de um Getúlio Vargas “democrático” e “de esquerda” que nunca existiu

 “Mais difícil ainda, nessa tentativa de redecorar Getúlio Vargas como um santo para as massas brasileiras de 2013, é vender o homem como um político ‘democrático’ ou ‘de esquerda’. É o contrário, justamente, do que mostram a razão e os fatos” (Foto: CPDOC/FGV)

UM DITADOR ARMADO -- “O Estado Novo não reconhece direitos de indivíduos contra a coletividade”, disse o ditador Getúlio Vargas em 1938. Getúlio foi um tirano que governou por decreto, sob cuja ditadura se torturava, perseguia-se cruelmente adversários e se instituiu oficialmente a censura à imprensa (Foto: CPDOC/FGV)

Artigo publicado na edição de VEJA que está nas bancas

PASSADO IMAGINÁRIO

Por J. R. Guzzo

Uma das últimas modas no PT, no governo e na procissão de devotos que acompanha o ex-presidente Lula é lembrar a figura de outro  ex-presidente, Getúlio Vargas, para defender-se do desabamento moral em que todos estão metidos hoje.

A intenção desse novo plano mestre,  mencionado em documentos do partido e tema dos discursos a serem feitos nas “caravanas” que o ex-presidente planejou para este ano, é vender  ao público a seguinte história: Lula e seu “projeto para o Brasil” estão sendo agredidos, em 2013, pelo mesmo tipo de ofensiva que causou a  liquidação do governo de Getúlio em 1954.

A primeira reação é fazer uma sequência de perguntas: “O quê? Quem? Do que é mesmo que estão  falando?”. A segunda reação é constatar que, sim, o estado-maior do PT está dizendo isso mesmo: um personagem de outro mundo, de uma época  morta e de um Brasil que não existe mais está de volta entre nós.

Ele foi tirado do túmulo numa tentativa de convencer o público de que episódios  de corrupção, sejam lá quais forem os fatos que comprovam a sua existência, são apenas uma invenção das forças antipovo para armar “golpes de estado” contra governos democráticos e dedicados à causa popular, como teria sido o de Getúlio ─ e como seriam hoje os de Lula e sua sucessora, Dilma Rousseff.

Aliados preciosos do PT: Henrique Alves, Renan, Collor, Maluf, fugitivos do Código Penal…

A última causa popular que empolgou o PT foi a campanha em favor da eleição do deputado Henrique Alves para a presidência da Câmara e do senador Renan Calheiros para a presidência do Senado. Naturalmente, como acontece em quase tudo o que o partido faz hoje em dia, é uma clara  opção para enterrar-se mais ainda na vala comum da baixa política brasileira; Alves e Renan, sozinhos, valem por um samba-enredo completo sobre praticamente todos os vícios que fazem a vida pública nacional ser a miséria que ela é.

Mas, para o PT de 2013, ambos são aliados preciosos  das massas trabalhadoras, junto com Fernando Collor, Paulo Maluf, empreiteiros de obras, fugitivos do Código Penal, bilionários experientes em  lidar com os guichês de pagamento do Tesouro Nacional, e por aí afora.

Para o governo é tudo gente finíssima, empenhada em ajudar Lula no seu  projeto de salvar o Brasil. O erro, na visão petista, é apontar o que está errado ─ aí já se trata de uma campanha que a direita reacionária, golpista e  totalitária estaria fazendo contra Lula, como fez no passado contra Getúlio, com o apoio da “grande imprensa” e de “setores do Judiciário”.

Sua  arma de hoje, igual à de ontem, é o “moralismo” ─ delito atribuído automaticamente a quem aponta qualquer ato de imoralidade na vida pública. Getúlio, de acordo com esse sermão, foi um “mártir do moralismo”. Lula, os condenados do mensalão e toda a companheirada que frequenta o  noticiário policial são as vítimas da direita moralista no momento.

Vítimas da direita? É curioso, porque aquilo que se vê parece ser justamente o contrário. Para ficarmos apenas no caso mais recente da série: que  tipo de vítima poderia ser, por exemplo, a senhora Rosemary Noronha, a ex-chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo e amiga  pessoal de Lula, denunciada há três meses pelo Ministério Público por crimes de corrupção passiva, formação de quadrilha, falsidade ideológica e  tráfico de influência, junto com 23 outros suspeitos?

Da trinca de irmãos Paulo, Rubens e Marcelo Vieira, os sócios mais visíveis de “Rose”, o   primeiro era tratado pelo interessante apelido de “Paulo Grana”, conforme se constatou com a gravação de mais de 25 000 telefonemas trocados  entre os membros da quadrilha. Fizeram de tudo. Conseguiram até mesmo ressuscitar o ex-senador Gilberto Miranda, dono de um espetacular  prontuário aberto ainda nos tempos do governo José Sarney; imaginava-se que estivesse aposentado, mas constatou-se agora que continua na  vida de sempre, metido com a privatização de ilhas e áreas públicas em volta do Porto de Santos.

Ao longo desses três meses, Lula não foi capaz de  dizer uma única palavra sobre o caso; não se sabe, na verdade, o que poderia ter dito. Mas toda a conversa ao seu redor apresenta as Roses, os Paulos e os Gilbertos como réplicas atuais dos alvos utilizados há sessenta anos pela campanha contra Getúlio. Moral da história: sem nenhuma  explicação que possa justificar o que fazem no presente, Lula e seus aliados tentam pescar desculpas em histórias do passado. Como praticamente  ninguém sabe nada sobre elas, podem contá-las do jeito que quiserem.

O normal é imaginar o futuro. O PT de hoje imagina o passado. Tudo bem, mas há dificuldades claras com esse conto ─ os fatos, teimosamente, não combinam com a lição que Lula e o PT querem tirar dele. A primeira dessas dificuldades está na simples passagem do tempo.

O PT reinventa um passado que não existiu — um Getúlio “democrático” ou de “esquerda”. Ele foi o contrário disso

Getúlio Vargas  morreu quase sessenta anos atrás, em agosto de 1954. Só os brasileiros que hoje têm mais de 59 anos estavam vivos quando isso aconteceu; e  quem, a esta altura, pode estar interessado no assunto? A imensa maioria da população não tem a menor ideia de quem foi Getúlio, e boa parte dos  que sabem alguma coisa a respeito é indiferente ao personagem e à sua obra; despertam tanto interesse, hoje em dia, quanto a batalha de Tuiuti ou  as realizações do regente Feijó.

Mais difícil ainda, nessa tentativa de redecorar Getúlio Vargas como um santo para as massas brasileiras de 2013, é  vender o homem como um político “democrático” ou “de esquerda”. É o contrário, justamente, do que mostram a razão e os fatos.

Getúlio chegou ao poder em 1930 por meio de um golpe apoiado pelos militares; derrubou o presidente Washington Luís e impediu a posse de seu  sucessor legal, Júlio Prestes, de quem havia acabado de perder as eleições presidenciais. Dos dezenove anos que passou no governo, quinze foram  como ditador.

Seu Estado Novo criou uma censura oficial, legislava por decreto e permitia prisões sem processo. Perseguiu o movimento  comunista brasileiro, que tentara derrubá-lo num levante armado em 1935, com uma selvageria que nada fica a dever aos piores momentos da  repressão no Brasil.

Aprovou a utilização maciça e sistemática da tortura contra presos políticos; permanece célebre, até hoje, o pedido do  advogado Sobral Pinto para que fosse aplicado o artigo 14 da Lei de Proteção aos Animais em favor de seu cliente Harry Berger, militante  comunista que, na condição de ser humano, foi torturado até entrar em colapso mental. A filosofia de Getúlio sobre esse tipo de problema, obedecida pela Justiça que o seu governo controlava, era bem curta.

“Indivíduos não têm direitos, têm deveres”. E a entrega de Olga Benário à Gestapo de Hitler

“O Estado Novo não reconhece direitos de indivíduos contra a coletividade”,  resumiu ele em 1938. “Os indivíduos não têm direitos. Têm deveres.” Foi, enquanto pôde, um aliado virtual da Itália de Mussolini, de quem copiou  as leis trabalhistas, e da Alemanha de Hitler, a quem apoiava negando vistos a judeus que tentavam refugiar-se no Brasil.

Seu chefe de polícia e  homem de confiança Filinto Müller era um aberto simpatizante do nazismo. Em 1936, ambos entregaram à Gestapo, que a mandou para a morte no  campo de extermínio de Bernburg, a alemã Olga Benario, esposa do dirigente comunista Luís Carlos Prestes e presa como ele no Brasil; Olga estava  grávida no momento em que foi deportada.

Nenhum presidente na história do Brasil esteve tão diretamente ligado a um crime de morte, de forma  tão comprovada, como Getúlio Vargas no caso de Olga Benario. E este é o homem que Lula apresenta hoje como seu herói.

Outro problema sério, que sempre aparece quando se tenta demonstrar que Getúlio Vargas foi vítima de um golpe aplicado pela direita brasileira,  é encontrar o golpe. Getúlio não perdeu a Presidência da República por ter sido deposto num golpe da oposição extremista e conservadora, e sim  porque se suicidou.

Políticos veteranos, acostumados a enfrentar conflitos durante a vida toda, não se matam por causa de discursos da oposição,  manchetes agressivas na imprensa e atos de indisciplina militar; vão à luta contra quem os ameaça. Não há dúvida de que Getúlio, em agosto de  1954 e já a caminho do fim de seu mandato, dessa vez obtido pelo voto, estava numa situação extremamente complicada.

Getúlio foi vencido por uma combinação fatal de fatores, e se suicidou. Não foi deposto!

Agentes de seu governo eram acusados de crimes graves, incluindo o homicídio. Os adversários exigiam sua renúncia; cartazes com a letra “R” eram colados na fachada das  residências. O principal porta-voz da oposição radical, o deputado e jornalista Carlos Lacerda, comandava no Congresso, na imprensa e na rua  uma campanha incendiária por sua deposição.

Havia aberta insubordinação militar; oficiais da Aeronáutica interrogavam na base aérea do Galeão,  de forma francamente ilegal, funcionários de seu governo, e generais assinavam manifestos contra ele. Getúlio tinha a seu favor a lei, a popularidade e a opção de usar a força do Estado para enfrentar a desordem criada por seus inimigos. Preferiu se suicidar com um tiro no peito no Palácio do Catete — aos 71 anos de idade, foi vencido por uma combinação fatal de amargura, desilusões, cansaço e depressão em estágio  avançado.

O desfecho da história é bem conhecido. Getúlio foi substituído por seu vice-presidente, Café Filho, exatamente como previsto na Constituição. Um ano depois, na data marcada pelo calendário eleitoral, houve eleições livres e Juscelino Kubitschek, que não tivera a mínima participação na ofensiva contra Getúlio, foi eleito presidente da República, posto que ocupou até o fim do seu mandato.

Que raio de golpe teria sido esse?

Nenhum dos inimigos políticos do  presidente morto, a começar por Lacerda, jamais veio a ocupar cargo algum nos governos que se seguiram. Que raio de golpe teria sido esse, em  que o presidente não é derrubado e os golpistas não põem o pé dentro do palácio? Mais difícil ainda é achar semelhanças entre agosto de 1954 e  março de 2013. Não existe hoje o mínimo sinal de indisciplina militar.

O governo tem maioria disparada no Congresso Nacional, onde acaba de  eleger os presidentes das duas casas. Ninguém pede, nem de brincadeira, a renúncia de Dilma. A principal figura da oposição, caso se consiga  encontrar uma oposição no Brasil, não é um barril de pólvora como Carlos Lacerda ─ ao contrário, é um político que poderia concorrer ao título  de oposicionista mais camarada do mundo. Uma parte da imprensa, com certeza, não dá sossego ao governo. Mas não há um único jornalista ou  dono de empresa de comunicação brigando para ser presidente da República.

Os lulistas condenados no mensalão tiveram sete anos inteiros para preparar suas defesas, e todos os seus direitos foram respeitados no processo.  Ruídos falando em virar a mesa, até agora, só saíram do próprio PT e de gente como o malfadado Paulo Vieira, da trinca de “Rose”; foi pego numa  gravação dizendo que os juízes do mensalão “não vão sair de lá ilesos”, que era preciso “parar o Brasil” e que “o negócio agora é tumultuar o  processo”.

Áreas inteiras do governo viraram uma espécie de cracolândia para viciados no consumo ilegal de verbas

Manifestações de rua, só em favor do próprio governo, com ônibus fretados, lanches grátis e camisetas que o cofre público, de um jeito  ou de outro, acaba pagando.

As forças conservadoras, enfim, parecem perfeitamente felizes com o governo, entretidas em comprar helicópteros,  touros de raça e peruas Cayenne blindadas.

Estão dentro do ministério e da base aliada. Segundo o próprio Lula, nunca ganharam tanto dinheiro  como em seus dois mandatos de presidente.

Golpe de direita?

Getúlio?

Lacerda?

Não dá para ver nada disso.

Lula, com o PT atrás, fala em salvar a sua biografia, seu projeto nacional e a reputação do partido. Teriam mesmo de fazer essas coisas todas, pois áreas inteiras do governo federal viraram, nos últimos dez anos, uma espécie de cracolândia para viciados no consumo ilegal de verbas, favores e  empregos públicos. Para isso, porém, precisam se defender com base nos fatos do presente. Getúlio Vargas não pode ajudá-los.

15/03/2013

às 20:44 \ Política & Cia

O Ministério de Dilma: um monstrengo gigantesco, impossível de ser pilotado com eficiência — e que ela não pode enxugar

Reunião ministerial da presidente Dilma Rousseff (Foto: ABr)

Reunião ministerial da presidente Dilma Rousseff: nem nossos dois imperadores, D. Pedro I e D. Pedro II, dispuseram de tamanho séquito administrativo (Foto: Agência Brasil)

Com a habitual franqueza, o empresário Jorge Gerdau — exemplo de empreendedor bem-sucedido, cujo império siderúrgico embasado no Brasil já se estende por vários Estados americanos — decretou: o país, disse em entrevista à Folha de S. Paulo e ao UOL, precisa apenas de “meia dúzia de ministérios”, e não dos 39 que respondem à presidente Dilma Rousseff.

Mais contundente, continuou ele, com a autoridade de quem está à frente, voluntariamente, da Câmara de Políticas de Gestão da presidente:

– Quando a burrice, ou a loucura, ou a irresponsabilidade vai muito longe, de repente, sai um saneamento. Provavelmente estamos no limite desse período. (…) Eu já dei um toque na presidenta”.

Pois aí estamos. Com a recente criação da Secretaria da Micro e da Pequena Empresa, cujo futuro titular terá status de ministro, a presidente dispõe de um Ministério colossal, absurdo, gigantesco, talvez o maior Ministério de qualquer país do planeta, excetuadas eventualmente repúblicas corruptas da África, e com certeza o mais numeroso da história “deztepaiz”.

Mostrengo disforme e disfuncional

Não se trata apenas de um Ministério imenso. Pior que isso, a menos que ocorra o que prevê Gerdau, ele parece “imexível”, como diria um ex-ministro de triste memória: o ex-presidento Lula engordou enormemente a cúpula do governo em Brasília para melhor aquinhoar os chamados “partidos da base aliada” no Congresso — a conhecida salada que vai do PC do B ao malufismo, passando por fisiológicos do PMDB e siglas controladas por igrejas evangélicas –, Dilma seguiu adiante e agora é um problemaço político mexer nesse monstrengo disforme e disfuncional.

O Ministério de Dilma, como o do ex-presidento (que tinha 37 ministros), lembra a Hidra de Lerna da mitologia grega. A Hidra aparece no âmbito dos 12 trabalhos de Hércules, o semideus filho (adulterino) de Zeus, o rei dos deuses do Olimpo, com a mulher do rei de Tebas.

Não cabe neste espaço recordar relembrar a complicada história que levou Hércules, em busca de expiação e da imortalidade, a haver-se com uma dúzia de tarefas impossíveis. O fato é que já o segundo trabalho hercúleo consistia em enfrentar a Hidra, monstro aquático de nove cabeças, uma delas imortal.

O desafio era realmente para semideuses: para cada cabeça que o herói conseguia cortar, nasciam mais tantas quantas faltavam para decepar. Hércules, naturalmente, triunfou. Nem a cabeça imortal sobrou.

Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek: presidente realizadores que chegaram a governar com um máximo de 11 ministros

Se fosse uma empresa, o dono ficaria louco

Não é que a presidente não saiba do problema. E não foi preciso o “toque” de Gerdau. Ela conhece perfeitamente o tamanho da encrenca.

Nos cinco anos em que pilotou a Casa Civil e nos quase quatro em que coordenou o tão falado Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a hoje presidente manteve incontáveis encontros e reuniões de trabalho com empresários e executivos de grandes empresas, em vários casos de empresas multinacionais de dimensões gigantescas.

Portanto, a presidente, que é economista, nem precisaria perguntar a um desses seus freqüentes interlocutores se existiria, em suas companhias, alguma chance de dar certo o trato direto com 39 diretores.

Com certeza ouviria, como resposta, que lidar com 39 direct reports é um absurdo que fatalmente conduz a empresa a se tornar empresa burocratizada, hipopotâmica, aparvalhada – sem contar que o CEO, presidente ou dono provavelmente ficaria louco.

Pois um dos segredos do que hoje se considera uma boa governança empresarial consiste, justamente, por meio da delegação e outras formas de gestão, em diminuir o quanto possível o número de interlocutores obrigatórios de cada gestor em seu respectivo nível.

No 1º ano de mandato de Lula, a ministra só despachou uma vez com o presidento

O então presidento Lula acotovelou o máximo de partidos políticos possível no Ministério, em nome da “governabilidade”. Com isso, deixou inteiramente de lado qualquer busca de eficiência da máquina – no caso, a mais numerosa desde a Independência, em 1822. Nem nossos dois imperadores, D. Pedro I e D. Pedro II, dispuseram de tamanho séquito administrativo.

Reunião ministerial do presidente Barack Obama (Foto: Saul Loeb / AFP / Getty Images)

Reunião do presidente Barack Obama: equipe enxuta tocando o país mais rico e poderoso do mundo (Foto: Saul Loeb / AFP / Getty Images)

A multidão de gente elevada à categoria de ministros é tal que alguns raramente despacharam a sós com o presidento. Basta fazer as contas: levando-se em consideração as numerosas viagens ao exterior e os muitíssimos périplos pelo país, Lula, durante seus 8 anos de mandato, passou cerca de um terço de cada ano, ou pouco mais que isso, em Brasília.

Digamos que tenham sido 100, ou até 120 dias úteis por ano. Mesmo que despachasse diariamente com um ministro diferente — o que não ocorreu com Lula –, eles passariam mais de três meses sem contato com o ou a presidente. Não foi por outra razão que, no primeiro ano do primeiro lulalato, 2003, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, mesmo sendo na época politicamente muito próxima a Lula, só despachou com ele uma única vez.

Dilma viaja menos. Ainda assim, é impossível avistar-se com os ministros tête-à-tête com uma frequência minimamente desejável.

Como todos sabemos, Lula sempre gostou de se comparar a presidentes com marca de realizadores, como Getúlio Vargas ou Juscelino Kubitschek. Nunca mencionou, contudo, nem de longe, comparações com o tamanho dos respectivos times.

Getúlio e JK tiveram um máximo de 11 ministros

Não obstante os tempos obviamente sejam outros, e mais complexos, Getúlio, em seus quatro diferentes períodos de governo e 18 anos de poder (de 1930 a 1945 e, depois, de 1951 a 1954), governou com um mínimo de 7 e um máximo de 11 ministros.

JK (1956-1961) contou com 11 ministros, e 5 titulares do que então se chamavam “órgãos de assessoramento”, como os gabinetes Civil e Militar.

E vamos evitar falar de nomes, pelo amor de Deus. Ministros de Getúlio, JK e outros presidentes foram não raro gigantes políticos, que o país conhecia e respeitava.

Quem é capaz de citar o nome de cinco dos 39 ministros atuais?

Praticamente todos os países sérios e maduros são governados por times enxutos. Os presidentes americanos, por exemplo, conseguem tocar adiante a superpotência de 315 milhões de habitantes e uma economia colossal de mais de 15 trilhões de dólares com 15 ministros. A chanceler Angela Merkel conduz a Alemanha, quarta maior economia do planeta e país mais rico e importante da Europa, com 17 ministros — em sua primeira gestão, eram 15.

É claro que a eficiência de uma máquina pública não se mede apenas pelas dimensões do Ministério. Entretanto, o primeiro e grande empecilho para que ela ande a contento é o tamanho exagerado — que Lula não levou em conta durante o primeiro mandato, continuou a fazê-lo no segundo e que a “gerentona” Dilma ainda conseguiu engordar mais.

04/03/2013

às 15:00 \ Política & Cia

Por que Lula, em sua infinita modéstia, deveria incorporar mais sobrenomes a seu nome

Luizinácio Mandela Lincoln Kubitschek Vargas Gandhi da Silva

Luizinácio Mandela Lincoln Kubitschek Vargas Gandhi da Silva

Do impagável leitor Caio Frascino Cassaro, amigão do blog, referindo-se ao ex-presidento Lula:

Já que ele incorporou Lula ao seu nome de batismo, deveria juntar também tudo aquilo que pensa de si mesmo. Assim, seu nome passaria a ser:

Luizinácio Mandela Lincoln Kubitschek Vargas Gandhi da Silva.

01/03/2013

às 16:56 \ Política & Cia

Mau exemplo de Lula chega ao ministro Mantega, ele joga fora os anos FHC e diz a investidores estrangeiros que respeito a contratos no Brasil existe “pelo menos desde 2003″ — de novo, como se o Brasil tivesse começado com o lulalato

Mantega se reúne com investidores nos EUA para programa de infraestrutura (Foto: EFE)

Mantega se reúne com investidores nos EUA para programa de infraestrutura (Foto: EFE)

Já comentei, no blog, que o estreitamento da convivência com o ex-presidento Lula fez mal aos bons modos, à civilidade e ao espírito republicano da presidente Dilma Rousseff.

Foi o caso da célebre e infeliz declaração de que Lula e ela, no poder, não herdaram “nada”, mas “construíram” – a velha história que Lula transformou em mantra megalomaníaco e segundo a qual o Brasil não começou com Pedro Álvares Cabral (1500), o descobridor, nem com o primeiro governador-geral, Tomé de Souza (1549-1533), nem sequer com o Imperador Pedro II (1831-1889), ou com Getúlio Vargas (1930-1945/1951-1954), ou mesmo com Juscelino Kubitschek (1956-1961) – começou com ele, o “deus” do lulalato.

A presidente Dilma vinha tratando com elegância e reconhecimento o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), a quem convidou mais de uma vez para eventos no Planalto e no Alvorada, chamou de “querido presidente” e cujos méritos na estabilidade econômica e trajetória democrática do país reconheceu quando FHC completou 80 anos.

Deu um passo atrás no trato republicano com sua declaração eleitoreira de dias atrás. Vai ver que levou um aperto de seu mentor – “neztepaiz” de co-Presidência, nada é impossível.

Mas o mau exemplo de Lula se espraia, e atinge agora a geralmente sóbria, objetiva área econômica. O sempre sereno ministro da Fazenda, Guido Mantega, sereno e previsível a ponto de tornar-se levemente aborrecido, foi contaminado.

Hoje, como vocês podem ver na home page do site de VEJA, concedeu longa entrevista sobre a economia, seus tropeços em 2012 e seu suposto brilhante futuro. Dias atrás, porém, ao expor a investidores um gigantesco plano de 235 bilhões de dólares em concessões a serem supostamente feitas na área de infraestrutura nos próximos anos, o sereno Mantega pisou na bola feio.

Primeiro, o ministro incursionou por uma área que os governos adoram – anunciar bombasticamente coisas que não aconteceram e que não se sabe se vão ocorrer, mas exibem números espantosos. Referiu-se à construção de 7,5 mil quilômetros de novas rodovias, 10 mil quilômetros de ferrovias (juro por Deus!), falou do nosso velho conhecido, o trem-bala, mencionou concessões gigantescas na área energética (eletricidade e gás natural), citou dois grandes aeroportos internacionais etc etc.

Em seguida, descreveu a estrutura de financiamento para investidores estrangeiros, que incluem, é claro, o BNDES, o Banco do Brasil e a Caixa, apelou para que os colossais fundos de pensão americanos se interessem pelo filão brasileiro, apresentou o total que se pretende investir – quase inacreditáveis 235 bilhões de dólares e abanou no ar uma rentabilidade de encher os olhos da plateia: 10% ao ano, em moeda forte.

No capítulo das garantias, e vendo que investidores na plateia o apertavam sobre recentes intervenções do governo na área de energia – houve quem mencionasse “quebra de contrato” — , aí chegou a hora da bobagem monumental: lembrou que o Brasil, diferentemente do que ocorria no passado, é um país que propicia não apenas rentabilidade, mas “segurança”, com regras claras e contratos que têm sido respeitados “pelo menos desde 2003”.

Repito: pelo menos desde 2003!!! Ou seja, desde o início do lulalato!!!

Quer dizer, os acertos fundamentais do governo Itamar em 1994, começando pelo próprio Plano Real, e tudo o que veio depois nos dois governos de FHC não focam considerados!

Quer dizer que não existiu a atitude do governo FHC que — sob críticas ferozes dos que hoje ocupam o poder – de praticamente santifica, como pedra de toque da recuperação da credibilidade do país, o cumprimento dos contratos???

Mantega jogou levianamente pela janela todo um elenco de acertos da era FHC adotados em direção do que chamou de “regras claras e contratos respeitados”: a autonomia do Banco Central, que agiu sem as interferências políticas que hoje se esboçam, as privatizações devidamente precedidas de reformas na Constituição devidamente aprovadas pelo Congresso, a renegociação da dívida dos Estados – em que se retiraram colossais esqueletos do armário –, a renegociação impecável da dívida externa, que permitiu ao lulalato praticamente quitá-la, depois, a privatização de bancos estaduais irresponsáveis, o escrupuloso cumprimento de todos os contratos e… a Lei de Responsabilidade Fiscal, marco jurídico fundamental para o respeito aos pactos jurídicos.

Não se reconhece, no Mantega demagogo que adota o estalinismo lulopetista de querer reescrever o passado – mesmo o passado recente –, aquele economista técnico e objetivo que, ainda como assessor do candidato Lula, viajou à Europa em 2002 para ver como funcionavam bancos centrais independentes, como o alemão e o britânico, visando à eventual adoção do mesmo status para o BC brasileiro.

Fala-se, em bastidores do PT, que entre os candidatos a governador de São Paulo cogitados por Lula para tentar arrebatar o Palácio dos Bandeirantes dos tucanos, estaria Mantega – no caso de a economia voltar a crescer com intensidade.

Pode ser, então, que essa ainda distante mosca azul tenha picado o ministro e transmitido, a ele, o mal da megalomania do lulalato.

27/02/2013

às 19:15 \ Política & Cia

Augusto Nunes: “O Lincoln de cordão carnavalesco finge que aprendeu a ler para reduzir o estadista americano a uma versão de Lula em inglês”

Por Augusto Nunes

O único doutor honoris causa do mundo que sempre detestou escola e estudo guardou para a festa do 30° aniversário da CUT a notícia tão confiável quanto uma previsão de Guido Mantega.

“Estou lendo muito agora”, disse já no começo do palavrório desta quarta-feira. A plateia caiu na gargalhada. O palanque ambulante reiterou que o milagre que se consumara. “Só de livro do Ricardo Kotscho e do Frei Betto já li uns trezentos”, exemplificou.

A troca da gargalhada pelo riso respeitoso foi a senha para a viagem pela estratosfera.

“Estava lendo o livro do Lincoln’, decolou, caprichando na pose de quem decorou a Bíblia ainda no berçário. Não disse qual. Mas pelo menos descobriu que houve um Lincoln ─ Abraham ─ que foi presidente dos Estados Unidos. É um avanço e tanto.

Até recentemente, Lula achava que Lincoln era marca de cigarro e um tipo de automóvel. “Fiquei impressionado como a imprensa batia no Lincoln, em 1860, igualzinho bate em mim”, comparou-se o Exterminador do Plural ao vencedor da Guerra da Secessão [1861-1865].

No Brasil da Era da Mediocridade, não há limites para a bazófia. A lira do delírio encaixa qualquer partitura.

O posseiro do Planalto e o antigo inquilino da Casa Branca só não são idênticos porque o Lincoln de cordão carnavalesco é favorecido pelo aparecimento de armas inexistentes nos tempos da versão de Lula em inglês.

“O coitado não tinha computador”, descobriu. “Sabe o que ele fazia para saber de notícias? Ia para o telex, para o telégrafo, ficar numa sala esperando. Nós aqui poderemos xingar um ao outro em tempo real”.

Em sete anos e meio, como prova o post reproduzido na seção Vale Reprise, o animador de comício produziu 19 palavras manuscritas. Mas faz de conta que aprendeu a disparar desaforos pela internet.

De 2003 para cá, o ex-presidente repetiu em incontáveis palavrórios que é o Getúlio Vargas do século XXI. Agora lhe parece pouco. O maior dos governantes desde Tomé de Souza é páreo para o estadista que impediu a fragmentação dos EUA e acabou com a escravidão. Mas não tem chance alguma de morrer como o colega ianque.

Lincoln foi assassinado enquanto assistia a uma peça teatral.

Lula nem sabe o que é isso.

Jamais foi visto na plateia de algum. Nunca será.

Quem acha leitura pior que exercício em esteira decerto acha teatro mais detestável que três maratonas. Uma atrás da outra.

03/02/2013

às 18:30 \ Política & Cia

LEITURA PARA DOMINGO: O mensalão trouxe à baila a forma como são escolhidos os ministros do Supremo. É a melhor? Pode ser aperfeiçoada? Pode mudar?

Ministros do STF julgando o mensalão (Foto: Gervásio Baptista / STF)

Ministros do STF julgando o mensalão: o Supremo no centro das atenções, e críticas quanto à forma de compor o tribunal (Foto: Gervásio Baptista / STF)

Amigas e amigos do blog, este post foi originalmente publicado a 21 de agosto de 2012, mas o tema de que ele trata continua sendo extremamente oportuno.

Aproveito o domingo para sugerir sua leitura, para os muitos leitores novos do blog, ou eventual releitura, para os que já nos prestigiavam com sua atenção.

Poucas vezes, se é que alguma vez nos quase 123 anos de história da República, o Supremo Tribunal Federal esteve tão no centro das atenções nacionais como nesse período em que, a partir do dia 2 passado, começou a julgar o processo do mensalão.

Diante da importância do tribunal e da polêmica que cercou várias de suas decisões — desde o famoso empate na votação da Lei da Ficha Limpa, no final de 2010, resultado depois desempatado com a integração doministro Luiz Fux à corte, até a legalização dos abortos de fetos anencéfalos –, muitos leitores deste blog questionaram, em comentários, se a atual forma de indicação de ministros do Supremo é a melhor: o presidente da República escolhe um nome, o Senado o analisa, vota e, aprovado pelo Senado, o ministro é empossado. A partir daí, ocupa o cargo até completar 70 anos de idade ou resolver, por alguma razão, se retirar antes disso.

O Senado não faz a lição de casa

Pode-se, é claro, questionar a atual forma de indicação, prevista na Constituição. Antes de mais nada, porém, é preciso dizer que, se houve ou há ministros que não estão à altura do cargo, segundo opinaram e continuam opinando muitos leitores, o principal problema está no Senado.

O Senado nunca faz a lição de casa, não exerce seus deveres constitucionais, não questiona com a necessária profundidade os nomes propostos e não recusa ninguém, jamais, em tempo algum — nem um nome medíocre, com currículo abaixo da crítica para o cargo, como é o caso do atual ministro Dias Toffoli.

Para que vocês tenham uma ideia do que isso significa, em toda a história da República, os senadores só disseram “não” a um único nome – e isso em 1893. Ou seja, há 119 anos!!!

Não estou defendendo a tese de que o Senado deve recusar ministros para mostrar serviço.

Não! O problema é que os senadores, na grande maioria, não se preparam para as sabatinas, não “apertam” os candidatos, não são rigorosos com seus currículos. A maior parte dos integrantes da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania — que deve sabatinar os indicados – divaga, perde tempo em discurseiras, derrama-se em elogios ao indicado, age como se estivesse num clube de compadres.

Floriano Peixoto

Floriano Peixoto: o segundo presidente da República foi o único, até hoje, a ter recusada uma indicação sua para o Supremo -- mas se tratou de vingança política

O único indicado nome recusado pelo Senado, e assim mesmo por razões exclusivamente políticas, sem nada a ter com suas qualificações, foi o de Cândido Barata Ribeiro, abolicionista e republicano inflamado, ex-prefeito do Rio de Janeiro, nomeado em 1893 pelo presidente Floriano Peixoto (1891-1894) – hoje nome da conhecida rua de Copacabana.

Iniciando triste tradição logo nos primeiros passos do país pós-monarquia, o “Marechal de Ferro” governou de forma autoritária, obtendo do Congresso a suspensão de seus próprios trabalhos durante a maior parte do mandato (1891-1894) e implantando o estado de sítio.

No final de seu governo, já enfraquecido e com o Congresso ressuscitado, o Senado vingou-se de Floriano, com base no fato de Barata Ribeiro, médico de formação mas com grande experiência na vida pública, supostamente não ser detentor de “notável saber e reputação”, conforme exigia a Constituição de 1891, em seu artigo 56.

Suprema Corte dos EUA

Suprema Corte dos EUA: o Senado age com extremo rigor quando se trata de examinar a indicação presidencial para um dos postos vitalícios no tribunal

Vejam bem, a Constituição não mencionava notório ou notável “saber jurídico”. Mesmo assim, Barata Ribeiro, plenamente qualificado para o posto, dançou. E só, nunca mais ocorreu algo semelhante.

Nos EUA o Senado, sim, cumpre seu papel, e já recusou 12 nomes

Só para termos uma comparação, nos Estados Unidos, cuja Constituição inventou a fórmula da indicação presidencial passando pelo crivo do Senado, as indicações do presidente da República ao Senado são por vezes discutidas durante meses, em longas e severas sessões da Comissão de Justiça e, depois, do plenário do Senado.

Os ministros da Suprema Corte são nove, e seu mandato é vitalício: só deixam o posto por morte, aposentadoria por iniciativa própria ou, descumprindo a Constituição, por impeachment.

Ao longo da história, doze nomes já foram recusados pelos senadores, dois deles mesmo havendo sido indicados por um presidente popularíssimo, Ronald Reagan (1981-1989) – o último em 1987, o jurista conservador Robert Bork.

Sem contar os casos em que, diante das dificuldades à aprovação antevistas pelo presidente ou o próprio indicado, este desiste da empreitada, como ocorreu em 2005 com a ex-conselheira presidencial Harriet Miers, proposta pelo presidente George W. Bush, o Bush filho.

O então presidente Lula não teve esse problema: todos os seus oito indicados para o Supremo passaram incólumes pelo Senado. Desses oito, um morreu (Menezes Direito) e outro se aposentou (Eros Grau).

Juscelino Kubitschek e Getúlio Vargas

Juscelino designou quatro ministros, e Getúlio, como presidente eleito, apenas dois -- mas, durante a ditadura, foram 21 os magistrados que indicou

A presidente Dilma, com menos de dois anos no Planalto, já designou dois ministros — Luiz Fux e Rosa Maria Weber — e ainda este ano deverá apontar mais três, nas vagas de Cezar Peluso e Ayres Britto, que se aposentarão por atingir a idade-limite de 70 anos, e de Celso de Mello, o decado do tribunal, que poderia permanecer mais cinco anos no Supremo, onde serve há 23 anos, mas decidiu solicitar aposentadoria.

Lula indicou mais nomes do que Getúlio, JK ou Sarney

O número atingido durante o lulalato, por enquanto, é um recorde entre os presidentes democráticos que nos governaram. José Sarney (1985-1990) chegou a 5 ministros. Seguem-se Juscelino Kubitschek (1956-1960) e Fernando Collor (1990-1992), com quatro. Getúlio Vargas designou 21 em seus dezenove anos no poder, nas duas passagens pelo Palácio do Catete, no Rio – mas só dois como presidente eleito pelo povo (1951-1954).

Não é brincadeira ser ministro do Supremo, conforme comentei em outro post. Vale repetir os argumentos ali expostos. O ministro é um poderoso ente do Estado brasileiro. Nenhum outro servidor público, eleito ou não, entre os milhões de União, Estados e municípios, é detentor de igual importância – exceto o presidente da República.

O poder de um ministro do Supremo

Junto com seus outros 10 colegas, ele decide diretamente sobre a vida de centenas de milhares de brasileiros, e suas decisões afetam todos os 195 milhões. Os ministros julgam com freqüência causas envolvendo bilhões de reais. Têm função vitalícia até os 70 anos. E resolvem, em última instância e sem apelação, o que está certo ou errado e o que pode ou não ser feito – inclusive pelo Congresso, pelo presidente, pelos governadores, pelos prefeitos e pelos demais tribunais –, à luz da Constituição.

A atual forma de indicação é democrática? Poderia ser aperfeiçoada?

Com toda essa importância, será que um ministro do Supremo deveria ser indicado na forma atual, livremente pelo presidente da República, obedecidas algumas poucas condições previstas na Constituição – ter mais de 35 e menos de 65 anos de idade, “notável saber jurídico e reputação ilibada”? Passando apenas pelo questionamento formal, amigável, superficialíssimo do Senado?

Muitos leitores deste blog questionam o ritual adotado pela Constituição.

Não apenas os visitantes deste blog que protestaram, mas muito mais gente não acha suficientemente democrático o processo de nomeação dos ministros do STF e defende seu aprimoramento: juristas, integrantes do próprio Judiciário, historiadores, deputados e senadores que, sim, incluem gente do PT.

Antes de chegar ao poder, políticos do PT, em várias oportunidades, questionaram a fórmula mal copiada dos EUA – mais uma, entre tantas – e pregaram algum tipo de mudança. Chegou-se a falar nisso durante a campanha de Lula em 2002, embora nenhuma proposta de modificação haja sido incluída no programa de governo do então candidato. Dilma, em sua campanha, em 2010, nem tocou no assunto.

corte constitucional da Alemanha (Foto: Uli Deck DPA / lsw)

Corte Constitucional da Alemanha (Foto: Uli Deck DPA / lsw)

Como é em alguns outros países

Quem tem se destacado na discussão desse tema, em sucessivos artigos e estudos – e a quem mencionei em outros textos passados –, é o juiz de Direito e professor em São Paulo Alfredo Attié Jr., membro da Associação Juízes para a Democracia.

Em um de seus trabalhos, Attié Jr. mostrou diferentes formas de compor tribunais superiores – no caso, os Tribunais Constitucionais, em bom grau equivalentes ao STF – em vigor na Alemanha, na Itália e em Portugal como exemplos de como é possível, sim, ampliar a representatividade e a legitimidade política dos integrantes da cúpula do Judiciário.

Ressalte-se que nos três países vigora o regime parlamentarista de governo, e não o presidencialista, como o nosso. O papel do Legislativo, no parlamentarismo, é por definição mais acentuado. Ainda assim, vale a pena relembrar como são inteligentes e envolvem diferentes Poderes as formas de montar os altos tribunais nesses países — e como eles funcionam.

Como é na Alemanha

Cabe aos 69 integrantes da Câmara Alta ou Senado, o Bundesrat (representantes dos 16 Estados alemães), escolher metade dos 16 ministros do Tribunal Constitucional. O tribunal opera com duas câmaras de oito ministros.

A outra metade compete aos 603 deputados da Câmara Baixa, o Bundestag. Seis desses 16 ministros devem necessariamente ser pinçados entre os membros dos tribunais superiores federais. Os ministros têm mandato de doze anos e não podem ser reconduzidos ao posto.

Corte Constitucional da Itália (Foto: ANSA)

Corte Constitucional da Itália (Foto: ANSA)

Como é na Itália

O processo é mais complexo que na Alemanha.

Dos quinze ministros do Tribunal Constitucional, um terço é escolhido diretamente pelos integrantes dos tribunais superiores — ou seja, juízes elegem outros juízes.

Outro terço é indicado pelo Parlamento e os demais cinco ministros pelo presidente da República, com a aprovação do primeiro-ministro. Muitas vezes o real autor da indicação é o primeiro-ministro, já que o presidente italiano tem funções quase exclusivamente protocolares. O atual, porém, Giorgio Napolitano, é o político mais popular e respeitado da Itália e tem peso na vida política.

Há uma série de requisitos profissionais exigidos, e, tal como na Alemanha, os ministros têm mandato de doze anos, vedada a recondução sucessiva.

Como é em Portugal

Todos os 13 ministros da corte são escolhidos pela Assembléia da República – seis deles, no entanto, precisam obrigatoriamente provir dos tribunais superiores.

Também lá não há a vitaliciedade existente no Brasil: os ministros atuam no tribunal por um máximo de nove anos, sem possibilidade de recondução.

Elementos como esses provavelmente serão levados em conta se, por acaso, o Congresso resolver alterar a atual forma de formar o Supremo. Apesar das celeumas que envolvem as regras em vigor, não há sinal de que deputados e senadores pretendam alterá-las.

09/12/2012

às 19:22 \ Política & Cia

Neil Ferreira — A Outra e A Titular: é uma delícia falar mal da vida alheia

A Outra e A Titular eram Irmã Sol e Irmã Lua; quando a Uma aparecia no AeroLula, a Outra sumia (Fotos: Instituto Lula :: FolhaPress)

Neil: "A Outra e A Titular eram Irmã Sol e Irmã Lua; quando a Uma aparecia no AeroLula, a Outra sumia" (Fotos: Instituto Lula :: FolhaPress)

 

Por Neil maledicente confesso Ferreira, publicado no Diário do Comércio da Associação Comercial de São Paulo.

A OUTRA E A TITULAR: É UMA DELÍCIA FALAR MAL DA VIDA ALHEIA

O Ministro Marco Aurélio Mella levantou uma bola na rede para o Melandowski cortar e quase a dupla dinâmica melou o Julgamento do Mensalão.

O nosso lado destruiu com tamanha competência a tentativa meladora, que demos o maior baile neles. Joaquinzão, Fux, Gilmar, Celso de Mello e até a Camarilha hoje dos Três, Toffoli, Weber e Carmem Lúcia, trocaram de lado.

Melandowski fez algo que até eu que nada entendo de STFquês percebi:

Ao abraçar a tese do Marco Aurélio Mella, que foi feita pra melar, foi incoerente com a absolvição que deu ao “Delito de Formação de Quadrilha”, Dirceu o Inocente Injustiçado inclusive. Ao absolver da “Formação de Quadrilha”, impediu que a “Continuidade Delitiva” se estabelecesse, como bem perceberam Toffoli, Weber e Carmem Lúcia, que se sentiram, por coerência, obrigados a votar contra a “Continuidade Delitiva”, que livrava a cara até do João Paulo Cunha.

Isso tudo explodindo, só se fala de Lula e Rose, sendo Rose “A Marilyn do Lula”, como se isso tivesse qualquer importância na ordem das coisas, numa compulsão inaudita pra se meter na vida alheia. Eu si meto.

O Gilberto Carvalho disse que esse monte de lixo voando por aí — J. R. Guzzo escreveu na VEJA que “há 10 anos, Lula trouxe um monte de batedores de carteira”– é tudo culpa do FHC; no tempo dele os federais “não tinham a independência que agora têm”. Deve estar certo, ele é o Rei da Cocada Preta, da maior sabença deste mundo de Deus, supostamente sabe tudo sobre a morte do Celso Daniel.

Lula chifrou A Titular com A Outra, deglutindo modesto PF (prato feito e não Polícia Federal) de um baião de três — arroz, feijão e ovo frito mole –, que virou escândalo nacional. A Falha de S.Paulo deu nome aos bois (bois? (boisas são femininas, se temos Presidenta, temos boisas, oras). Apenasmente deu nome aos chifres e à que foi chifrada.

A Outra, móvel do ato talvez digno de repreensão, teria estabilidade no cargo que detinha desde 1993. “Estabilidade” vai por minha conta; no meu tempo, atingia estabilidade quem completasse 10 anos di sirviço no mesmo emprego; A Outra tinha uns 20.

Ninguém tem nada de ficar enchendo os pacová do Lula porque manteve uma funcionária funcionando por esse tempo todo. Teria tanta confiança nela, como Segunda Dama, que ela virou Primeira; alegadamente (quem “alegou” foi o Deputado Garotinho) teria carregado na sua bagagem que viajava como Mala Diplomática, o troquinho de 25 milhões de Euros, uns 75 milhõezinhos de Reais, para depositar no Banco do Espírito Santo.

O Ministro Marco Aurélio Mella levantou uma bola na rede para o Melandowski cortar e quase a dupla dinâmica melou o Julgamento do Mensalão (Foto: Agência Brasil)

"O Ministro Marco Aurélio Mella levantou uma bola na rede para o Melandowski cortar e quase a dupla dinâmica melou o Julgamento do Mensalão" (Foto: Agência Brasil)

Uma gorja perto das quantias propinodutadas nas corrupções oficiais, privadas e “joint ventures” oficiais-privadas, e já querem CPI.

Ter a mesma cumpanhera, esposa ou amante, por toda essa eternidade de 20 anos, é um feito admirável que por si só mereceria um troféu. Um dos dois, ou os dois em conjunto, devem possuir algo muito fora do comum; A Força deve estar com eles, que os proteja e guarde.

A discussão é se os honorários d´A Outra foram satisfeitos com dinheiro privado ou público; fora disso, nada tenho a declarar. Se você tiver, conte com todo o meu respeito. Vivemos num país em que enquanto não houver o “Controle Social da Mídia”, que é o codinome da Censura Cumpanhera, a livre expressão do pensamento ainda é livre; aproveite que está pra acabar.

Cito de memória alguns figurões do maior respeito, homenageados com votos, biografias, estátuas, nomes de cidades, ruas, praças, avenidas, estradas, aeroportos, que trilharam os mesmos caminhos ínvios trilhados por Lula e que levavam aos leitos Caixa Dois das suas respectivas Casas Civil e Militar, como diz o outro (quero ser apresentado a esse “o outro” que diz coisas tão sábias).

Getúlio Vargas, Franklin Delano Roosevelt, Perón, JK, JFK, Miterrand, Bill Clinton, Tancredo, FHC e não ponho minha mão no fogo pela Kirchner, ela carrega a tiracolo pra cima e pra baixo um jovem economista que é um gato, talequá Lula carregava A Outra no AeroLula. Lula pode contar com a aprovação e saudável inveja do “país dos mais 80%”: “U ômi papa todas.”

Serra e A. de Barros cabem no rol; não eram Chefes de Estado como os outros, mas chefiaram nas suas respectivas épocas um Estado muito mais rico e poderoso do que esses Estados mequetrefes, que só existem pra dar diplomas de “Doutor Honoris Causa” para PhDs em Ignorância Magna cum Laude.

Como sói suceder com todo segredo de alcova, estes eram tão secretos quanto “secreto” era o de JFK com a Monroe, que só a Máfia, eu e a torcida do Washington Redskins sabíamos.

A Outra e A Titular eram Irmã Sol e Irmã Lua; quando a Uma aparecia no AeroLula, a Outra sumia. A Outra fez umas 30 viagens internacionais, com passaporte oficial e todas as regalias do ramo, sempre que A Titular não estivesse na tripulação, e vice versa.

Fala-se agora que A Titular, na sua boa-fé, nunca teria se aproveitado da cansativa posição na relação com Lula, a não ser para nomear Melandowski para o cargo de Ministro do STF, é só o que se sabe. Fala-se que A Outra nomeou muito mais e conquistou mais vultosos benefícios, prestando sirviços. Não teria muito tempo pra enfiar o pé na jaca, o que fez com competência.

As más línguas matraqueiam 24 horas por dia, tacando mais veneno no “Rosegate”. Esquecem-se de que amanhã será outro dia e o escândalo do dia será outro e mais escandaloso ainda, como sói suceder nestes anos “DL”. “Anos DL” são os “Anos Depois de Lula.

O adeus ao Arquiteto de Brasília, no Palácio do Planalto, talvez o tenha deixado constrangido com o ninho de cobras em que a sua Brasília foi transformada. Comunista histórico, era um homem honrado.

25/11/2012

às 18:00 \ Tema Livre

Em exposição e livro, imagens da revista “O Cruzeiro” — que já foi para o Brasil a “televisão de papel”

O Cruzeiro

O Cruzeiro -- capa número 1

Reportagem de Marcelo Bortoloti, publicada em edição impressa de VEJA

 

A TELEVISÃO EM PAPEL

Um novo livro focaliza a fase de ouro de O Cruzeiro, publicação pioneira no Brasil dedicada a fazer toda semana um retrato ilustrado do país e de seu povo

 

Foi nos anos 40 e, principalmente, nos efervescentes anos 50 do século passado que o Brasil ganhou uma real identidade nacional, baseada em projetos ufanistas e mobilizações populares. A Marcha para o Oeste, que Getúlio Vargas empreendeu para preencher as imensas áreas desocupadas no interior, fez surgir dezenas de pistas de pouso, vilas e cidades e promoveu o contato com tribos indígenas desconhecidas.

Juscelino Kubitschek implantou a indústria automobilística e começou a construir Brasília e a fiscalizar a obra – tantas vezes embarcou num avião que ganhou o apelido de “presidente voador”. No Rio de Janeiro, os concursos de Miss Brasil, a partir de 1954, despertavam comoção nacional e o desempenho da representante brasileira no Miss Universo tinha ares de final de Copa do Mundo.

As imagens desse tempo em que os acontecimentos ganhavam contornos épicos chegaram pela primeira vez a todos os cantos do país nas páginas da revista O Cruzeiro, do empresário da comunicação Assis Chateaubriand, a pioneira na cobertura e na distribuição nacional de notícias. A população pôde enfim incorporar ao seu dia a dia elementos que lhe eram distantes, de guerras e revoluções à vida dos astros de Hollywood. Tudo isso na forma de fotografias caprichadas – esta, a chave do sucesso de O Cruzeiro.

 

PIONEIRA -- Inovação nos traços, com Millôr no Pif-Paf

PIONEIRA -- Inovação nos traços, com Millôr no "Pif-Paf"

Criada em 1928, tornou-se em seu auge, justamente os anos de ebulição nacionalista, a revista mais lida no país, com tiragem de 700.000 exemplares em um tempo em que o Brasil tinha pouco mais de 50 milhões de habitantes. Espelhava-se em outras publicações ilustradas que proliferavam no mundo e causou impacto imediato. “Como não havia televisão, a construção da identidade visual brasileira passou pelas fotos de O Cruzeiro“, diz o fotógrafo e antropólogo Milton Guran.

Uma TV em papel, O Cruzeiro popularizou as charges e ilustrações com o Pif-Paf, de Millôr Fernandes, e com O Amigo da Onça, que se tornou sinônimo de pessoa traiçoeira, criado pelo cartunista Péricles. Sobreviveu por 47 anos, até sucumbir à concorrência e ao declínio do império de Chateaubriand.

Um alentado conjunto das fotos e reportagens que deram relevância à publicação está reunido em uma exposição que o Instituto Moreira Salles vai inaugurar no próximo dia 22, em São Paulo, e no livro As Origens do Fotojornalismo no Brasil: um Olhar sobre O Cruzeiro (1940-1960), a ser lançado em dezembro, com 220 fotos de dezesseis profissionais que trabalharam na revista.

 

A MISS BRASIL MARTHA ROCHA -- O Cruzeiro inovou no humor, na cobertura de assuntos nacionais e na promoção de celebridades

A MISS BRASIL MARTHA ROCHA -- O Cruzeiro inovou no humor, na cobertura de assuntos nacionais e na promoção de celebridades

O conjunto ajuda a recontar momentos decisivos, como a ascensão e queda de Getúlio Vargas e a fundação do Museu de Arte de São Paulo (Masp). A revista também contribuiu para despertar o encanto popular pelas estrelas do cinema, que tinham lugar cativo na capa. “Os estúdios americanos enviavam fotos e reportagens de graça em troca de publicidade”, diz Helouise Costa, curadora do projeto ao lado de Sérgio Burgi.

Cultivou lendas duradouras, como a de que Martha Rocha perdeu a coroa de Miss Universo porque tinha 2 polegadas a mais nos quadris, pura invenção de um repórter imaginativo. O Cruzeiro tinha, sim, seus pecados, e bem graves. A pauta servia escancaradamente aos interesses particulares de Chateaubriand, elogiando e criticando quem ou o que ele mandasse.

O tom era de aberto sensacionalismo, manifestado principalmente no material produzido – ou, várias vezes, inventado – pela dupla formada pelo fotógrafo Jean Manzon e pelo repórter David Nasser. A coleção de imagens agora reunida, da qual VEJA publica quatro fotos, traz à tona essas ambiguidades e comprova o papel essencial de O Cruzeiro no esforço de levar aos brasileiros a visão de um Brasil e de um mundo em plena transformação que eles pouco conheciam.

 

O mundo lá fora

(Foto: Luciano Carneiro / Acervo Instituto Moreira Salles)

(Foto: Luciano Carneiro / Acervo Instituto Moreira Salles)

Uma das marcas de O Cruzeiro era investir pesadamente na cobertura de acontecimentos distantes, no Brasil e fora dele. Em 1951, o fotógrafo Luciano Carneiro foi despachado para a frente da Guerra da Coreia.

Piloto e paraquedista, ele teve permissão para saltar com 3500 soldados americanos encarregados de perseguir inimigos chineses e norte-coreanos em fuga.

Fez registros notáveis das tropas em ação. Lamentavelmente para o autor de uma obra tão vibrante, Carneiro morreria oito anos depois, aos 33, em um acidente aéreo, quando voltava da cobertura de um baile de debutantes em Brasília.

 

Contatos imediatos

 

(Foto: José Medeiros / Instituto Moreira Salles)

(Foto: José Medeiros / Instituto Moreira Salles)

A imagem de um índio ajudando a tirar um avião de um atoleiro, usada na reportagem que acompanhou uma expedição da Aeronáutica para criar pistas de pouso no interior, faz parte da vasta cobertura que O Cruzeiro dedicou à Marcha para o Oeste, nos anos 1940.

Diz a legenda: “Fortes, amigos, eles não se negam a ajudar os civilizados em qualquer tipo de serviço. Já é tempo de aproveitar a inteligência e a capacidade dos indígenas em prol do progresso e da civilização desta nossa República”.

Os textos tinham sempre um tom de aventura e fotógrafos e repórteres eram tratados como desbravadores. Foi a primeira publicação a divulgar imagens de tribos ainda desconhecidas, da seca no sertão nordestino e de rituais do candomblé.

 

Presidente voador

 

(Foto: Flávio Damm / Acervo Pessoal)

(Foto: Flávio Damm / Acervo Pessoal)

Em 1958, na cerimônia de inauguração de um heliponto no teto do Palácio do Catete, então a sede da Presidência da República, o fotógrafo Flávio Damm fez esta imagem do presidente Juscelino Kubitschek como se tivesse asas, aproveitando-se das estátuas de águias existentes no cume do edifício.

A foto reflete o que o francês Henri Cartier-Bresson chamava de “momento decisivo”, o clique no momento exato de registrar determinada situação que não voltará a se repetir.

Foi uma mudança de padrões – a troca das pesadonas câmeras Rolleiflex das fotos posadas e arranjadas pela imagem da ágil Leica, comprometida com a realidade e com o instantâneo da cena. A novidade rachou a redação de O Cruzeiro, mas a modernidade acabou prevalecendo.

 

Armação ilimitada

 

(Foto: Jean Manzon / Reprodução O Cruzeiro)

(Foto: Jean Manzon / Reprodução O Cruzeiro)

Por esta foto de fraque e cueca, feita em 1946, o deputado Barreto Pinto, do PTB, se tornou o primeiro político da história cassado por falta de decoro.

Barreto Pinto recebeu Manzon e Nasser para uma entrevista em seu gabinete e foi convencido pelo fotógrafo de que não precisava vestir a calça, já que todas as fotos seriam da cintura para cima. Vaidoso, ele ainda concordou em posar nos trajes ridículos.

Publicadas as imagens, as legendas davam a entender que o parlamentar recebia visitas naqueles trajes: “A nobreza dos passos revela a nobreza da origem. E o deputado queremista-trabalhista se dirige ao salão, onde os convidados o esperam há tanto tempo”.

Barreto Pinto processou a revista e perdeu.

 

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15/10/2012

às 17:00 \ Política & Cia

J. R. Guzzo: Preste atenção no que anda comendo, presidente Dilma. Pode ser ilegal

Nada de queijo mineiro no café da manhã da presidente (Foto: Gustavo Miranda / O Globo)

Nada de queijo mineiro no café da manhã da presidente (Foto: Gustavo Miranda / O Globo)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

 O QUEIJO E A LEI

Estaria a presidente Dilma Rousseff violando a lei se comesse uma fatia de queijo de minas? É perfeitamente possível que sim, pois ela tem de obedecer ao que o governo permite ou proíbe que os brasileiros ponham na boca ao fazer uma refeição.

Pelo bom-senso mais elementar, a presidente da República deveria ter o direito de comer em paz o seu queijo — sem precisar, antes, consultar o advogado-geral da União para saber se isso está ou não dentro da legalidade. Mas o Brasil é o Brasil.

Aqui, entre outros prodígios da lei, um papagaio tem de ser submetido a autópsia quando morre, para esclarecer suspeitas de alguma infração sanitária — e num país onde se exige um negócio desses, e as autoridades entendem que só existem dois tipos de coisas na vida, as obrigatórias e as proibidas, sempre é bom perguntar tudo.

No caso do queijo mineiro, por exemplo, nada é tão simples como parece. A rigor, ele praticamente não pode ser comido fora do território de Minas Gerais, pois tem de respeitar o Regulamento da Inspeção Industrial e Sanitária de Produtos de Origem Animal — e cumprir as exigências feitas ali, ao longo de 900 artigos, é mais do que promete a força humana.

Acredite-se ou não, o regulamento foi criado por um decreto do presidente Getúlio Vargas, em 1952, e está em vigor ate” hoje, como lembrou recentemente o suplemento de comida de O Estado de S. Paulo. Na verdade, é nele que se sustenta toda a fiscalização atual dos alimentos que vêm de qualquer bicho existente sobre a face da Terra — piorada, é claro, pelo tsunami de novas regras criadas de lá para cá.

É uma coisa tão velha que só os brasileiros com mais de 60 anos de idade tinham nascido quando o decreto começou a valer. É, também, um momento inesquecível do “estado” brasileiro em ação — esse “estado” que pretende saber tudo o que é melhor para você. O regulamento em questão, por exemplo, achou necessário explicar o que é um queijo — um produto de “formato cilíndrico”, com “untura manteigosa” e dotado de “buracos em cabeça de alfinete”.

Frango ao molho pardo em restaurante não pode, mas não está claro se é permitido fazer em casa (Foto: Assimsefaz.com)

Frango ao molho pardo em restaurante não pode, mas não está claro se é permitido fazer em casa (Foto: Assimsefaz.com)

É uma sorte, realmente, que o governo tenha pensado nisso: graças à sua sabedoria, nenhum cidadão corre hoje o risco de ver um queijo e não saber o que é aquilo. O problema real começa quando os escreventes da administração pública decidem o que se pode fazer ou não com um queijo canastra, digamos, e uma porção de outras coisas boas.

Para sair de Minas, o queijo tem de receber um carimbo de autorização do SIF, ou Serviço de Inspeção Federal, que faz pane do Mapa, ou Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, e não incomodar a Anvisa, ou Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que é do MS, ou Ministério da Saúde; também precisa fazer o que manda o Dipoa, ou Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal, e o Sisbi-Poa, ou Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal, ambos do mesmo Mapa, e obedecer à vigilância sanitária das prefeituras.

Deu para entender? Tanto faz. Mesmo que entendam, os pequenos produtores — de cujas queijarias sai quase todo o queijo mineiro que merece ser chamado assim — não têm a menor condição de cumprir as exigências de uma manada de burocratas desse tamanho. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

 

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