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Getúlio Vargas

04/10/2014

às 17:30 \ Política & Cia

VÍDEO: Vejam a monumental bobagem que Lula disse no programa de Tarso Genro (RS), candidato à reeleição no RS. Uma vez mais, o ex-presidento mostra sua pétrea, compacta, espantosa ignorância

Viram o vídeo?

Ouviram Lula dizer que jornalista não dá certo em postos do Executivo?

O trecho, caso muitos de vocês não tenham tido paciência de ir até o fim do vídeo, diz o seguinte:

“O povo gaúcho tem uma consciência acima da média da consciência política do povo brasileiro. Por que estou dizendo isso? Porque eu não conheço dentro do Brasil pessoas que eram importantes no meio de comunicação darem certo em Poder Executivo”, disse o ex-presidento, na TV.

E acrescentou: “[São] pessoas que passaram a vida inteira só perguntando, só perguntando”.

O que não se diz de besteira para tentar ganhar uma eleição, não? No caso, Lula tentava desqualificar a senadora Ana Amélia (PP), jornalista de profissão e candidata que disputa vaga no segundo turno da eleição para o governo do Rio Grande do Sul com o petista Tarso Genro e José Ivo Sartori (PMDB). Ana Amélia tem larga experiência em jornais e televisão. Ao lado de Lula, Tarso concordou.

Tudo bem que Lula se referiu ao Brasil, mas o ex-presidento mostra, como sempre que se atreve a ditar regras fora de seu milimétrico círculo de conhecimento, uma sesquipedal ignorância.

Será que, em se tratando de Brasil, ele nunca ouviu falar do jornalista e também fundador e dono de jornal Carlos Lacerda — sim, o mesmo tribuno implacável (e golpista) que, como deputado, ajudou a levar Getúlio Vargas ao suicídio, em 1954, depois teve alguma participação na renúncia de Jânio, em 1961, que conspirou para o golpe militar de 1964 e depois terminaria sendo cassado para, mais à frente, estender a mão a inimigos do passado, como o deposto presidente João Goulart e o ex-presidente Juscelino Kubitschek, em uma Frente Ampla para restaurar a democracia no país?

Lacerda, ainda em seu primeiro ano de governo, comparece a um congresso internacional de odontologia: até inimigos reconhecem o grande administrados que foi -- "apesar" de ser jornalista (Foto: Aborj)

Lacerda, ainda em seu primeiro ano de governo, comparece a um congresso internacional de odontologia: até inimigos reconhecem o grande administrados que foi — “apesar” de ser jornalista (Foto: Aborj)

Pois bem, o jornalista Carlos Lacerda, goste-se ou não dele e de sua atuação, foi um extraordinário governador do então Estado da Guanabara, entre 1961 e 1965. Depois do celebrado prefeito Pereira Passos (1902-1906), que transformou de forma radical a paisagem urbana do Rio de Janeiro sob o mandato do presidente Rodrigues Alves, Lacerda como governador da cidade-Estado seria de longe o maior administração da ex-capital da Repúbica até então — nem seus inimigos negam isso.

Lula, que só sabe História do Brasil — o pouco que sabe — de orelhada, também mostrou ignorar por completo que o presidente Café Filho, que conseguiu o milagre de governar o país após o impacto terrível que foi o suicídio de Vargas e ocupou o Palácio do Catete por 15 meses, era um jornalista que acabou absorvido pela política.

Vejam o que diz do Café Filho jornalista o site do renomado Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), provavelmente o mais completo e respeitado arquivo do gênero no país:

O presidente Café Filho discursa na inauguração da Refinaria de Cubatão (SP): jornalista que conduziu o país no período dificílimo após o suicídio de Getúlio (Foto: Acervo Refinaria Presidente Bernardes)

O presidente Café Filho discursa na inauguração da Refinaria de Cubatão (SP): jornalista que conduziu o país no período dificílimo após o suicídio de Getúlio (Foto: Acervo Refinaria Presidente Bernardes)

“A atividade regular de Café Filho no campo do jornalismo começou em 1921, quando fundou [em Natal, no Rio Grande do Norte, onde nasceu] o Jornal do Norte. Mudou-se para Recife em 1925, tornando-se diretor do jornal A Noite. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1929, tornando-se redator do jornal A Manhã. Durante a Revolução de 1930, Café Filho transferiu-se para o Rio Grande do Norte, onde foi nomeado chefe de polícia”.

Que tal?

Se olharmos para fora do país, então, pobre Lula.

Sabem quem foi jornalista, para começo de conversa? Sir Winston Churchill, o primeiro-ministro britânico que peitou sozinho durante mais de dois anos a duríssima luta contra a Alemanha nazista até a entrada dos Estados Unidos e da União Soviética na II Guerra Mundial — que seria consagrado como um dos maiores estadistas do século XX (para alguns, o maior), e que governou por nove anos, em duas passagens, o Reino Unido.

Churchill foi jornalista da pesada, começando por fazer de tudo como como correspondente de guerra, desde cobrir a luta do império espanhol contra guerrilheiros em Cuba, em 1895, para o hoje extinto jornal Daily Graphic, até aproveitar sua experiência de tenente de cavalaria no histórico 4º Regimento de Hussardos em guerras tribais na então fronteira noroeste da Índia (hoje Paquistão) para enviar despachos ao centenário The Daily Telegraph e para o hoje inexistente The Pioneer — material tão vasto que, depois, seria compilado em seu primeiro livro.

Mal retornado da Índia, Churchill foi enviado como correspondente de outro jornal, o Morning Post, para cobrir a Guerra dos Boers, movida pelos britânicos contra os colonizadores afrikaners, descendentes de holandeses, na África do Sul (1899-1902).

"Sir" Winston Churchill, o "buldogue inglês", em seu gabinete no número 10 da Downing Street, em Londres, em plena II Guerra -- em 1940. A foto é do legendário Cecil Beaton

“Sir” Winston Churchill, o “buldogue inglês”, em seu gabinete no número 10 da Downing Street, em Londres, em plena II Guerra — em 1940. A foto é do legendário Cecil Beaton

Churchill, que fez brilhante carreira militar e depois ingressou na política para outra carreira extraordinária, nunca deixou de escrever para jornais e revistas durante a vida, sem contar, naturalmente, os mais de quarenta livros que publicou, inclusive o monumental A Segunda Guerra Mundial, em seis volumes, um clássico. Mestre do idioma inglês, não por acaso receberia o Prêmio Nobel de Literatura em 1953.

Quem quiser conferir a trajetória desse “jornalista incompetente para o Executivo”, como Lula provavelmente o qualificaria, pode chegar neste link, neste outro aqui ou em mais este.

Ah, esta é também para Lula: caro ex-presidento, sabe outra mediocridade tenebrosa que foi jornalista?

O Mahatma Gandhi, libertador da Índia. O blog poderia fornecer uma centena de links, mas este aqui basta para mostrar algo da carreira, na África do Sul e na Índia, do jornalista Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948).

Acho que chega, não é mesmo?

28/08/2014

às 14:00 \ Política & Cia

Garotinho aconselha Dilma a ‘não se apavorar’

Dilma Rousseff almoça com Anthony Garotinho em restaurante popular no Rio de Janeiro (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)

Dilma Rousseff almoça com Anthony Garotinho em restaurante popular no Rio de Janeiro (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)

Por Daniel Haidar, do Rio de Janeiro, para o site de VEJA

Depois de almoçar em um restaurante popular com a presidente-candidata Dilma Rousseff, o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho (PR) disse, em conversa com jornalistas, que poderia dar alguns conselhos para a petista.

“O melhor conselho que alguém dá nessa hora é não se apavorar com nada. Ter calma. Se eu fosse ouvir muitas pessoas, não tinha nem sido candidato. Tudo muda”, afirmou Garotinho, que aparece em primeiro lugar na pesquisa Ibope, com 28% das intenções de voto.

Com uma derrota na corrida presidencial, em 2002 pelo PSB, e um histórico de alta rejeição na Zona Sul da capital fluminense, Garotinho falou em tom professoral que o eleitorado carioca é historicamente dividido.

“O Rio foi palco do episódio mais dramático da política brasileira, que foi o suicídio de Getúlio Vargas. Então existe uma ala da cidade que é lacerdista inveterada. Tudo que se pareça com povo, trabalhismo, Brizola, Jango (João Goulart), ela rejeita. E há outra área, que é esta aqui, na Zona Oeste, que é getulista, trabalhista e tudo que parece com Brizola ela acolhe. Eu sou assim”, afirmou, usando a histórica disputa entre Carlos Lacerda e Getúlio Vargas para definir o quadro atual.

24/08/2014

às 18:00 \ Política & Cia

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO: A cada 30 anos, o sr. Absurdo da Silva bate ponto, com estardalhaço, na política brasileira

(Foto: Reprodução/Facebook)

Como aconteceu com Getúlio Vargas e Tancredo Neves, uma situação absurda matou Eduardo Campos. Seu quinto filho, Miguel, teve a sorte de nascer na família certa, diz Roberto Pompeu de Toledo (Foto: Reprodução/Facebook)

O CÉU É O LIMITE

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

Roberto-Pompeu-de-ToledoA cada trinta anos, com margem de erro nunca superior a alguns poucos meses, o sr. Absurdo da Silva bate ponto, com o característico estardalhaço, na política brasileira.

Por obra sua, em agosto de 1954, o senhor que então ocupava o Palácio do Catete saiu de uma exaustiva reunião fazendo crer que se licenciava do cargo para, poucas horas depois, amanhecer morto, com uma mancha vermelha no pijama a denunciar o tiro que desferira no coração.

Em março de 1985, observada a aludida margem de erro, pregou uma peça no senhor que no dia seguinte ocuparia o Palácio da Alvorada. Forçou-o, em vez disso, a internar-se num hospital, acometido do mal que o mataria no mês seguinte.

Na semana passada, com a brutalidade que também lhe é característica, roubou a vida de uma jovem promessa da vida pública brasileira e fez a campanha eleitoral para a Presidência voltar à estaca zero.

Os dois primeiros eventos envolvem diretamente a Presidência da República, não uma candidatura, e por isso têm peso histórico maior. Iguala os três, no entanto, uma outra característica das intervenções do Absurdo da Silva: deixar à sua passagem um fortíssimo rastro emocional.

Ao clima de choque com a notícia seguem-se enterros históricos. Foi assim no caso de Getúlio Vargas, a vítima de 1954, assim no de Tancredo Neves, a de 1985, e não há dúvida de que no caso de Eduardo Campos, o sorteado de 2014, ocorrerá o mesmo (esta coluna está sendo escrita quando ainda transcorrem os trabalhos de reconhecimento dos corpos das vítimas do acidente aéreo de Santos).

Sendo Absurdo da Silva primo-irmão do Sobrenatural de Almeida, o clima emocional pode operar milagres. Getúlio Vargas re­colheu-se a seus aposentos, naquele dia, como um cadáver político – abandonado, vilipendiado, humilhado e sem chance de redenção. Ao amanhecer cadáver de verdade, assestou golpe de mestre nos adversários e garantiu-se o lugar de martirizado por uma causa perante a posteridade.

A morte de Eduardo Campos já provocou, se não um milagre, uma primeira grande reviravolta na campanha eleitoral, e pode provocar uma segunda.

A primeira reviravolta foi fazê-lo superar, embora da pior maneira possível, o maior dos desafios que tinha pela frente: tornar-se conhecido. Esse era o motivo pelo qual dormia tão pouco e tanto voava, nestes últimos tempos. Hoje provavelmente superou a todos, até a própria presidente da República, como o candidato mais conhecido da população.

A segunda e mais espetacular reviravolta esboça-se no horizonte com o impulso que, morto, pode dar à provável sucessora na candidatura presidencial, a ex-senadora Marina Silva. Quando se formou a surpreendente chapa com Eduardo Campos para presidente e Marina para vice, a expectativa era que Marina, com seus 20% dos votos na eleição passada, alavancaria as pretensões de Campos.

Inverte-se agora o quadro, e a memória e o martírio de Eduardo Campos fazem-se de poderosos multiplicadores do potencial de Marina.

Há problemas no caminho. Se Marina fazia um par afinado com Campos, é notória a desafinação com o partido dele, o Socialista, no qual ela se abrigou por mera conveniência, derrotadas suas pretensões de criar o próprio partido.

Caso tal estado de coisas impeça a promoção da vice à cabeça da chapa, está pronto o caminho para uma dupla auto­imolação: a das aspirações de Marina à Presidência e a do PSB a um papel maior do que o de eterno coadjuvante. Caso se confirme a candidatura de Marina, teremos uma campanha na TV que começará com cenas de Eduardo Campos em ação, lembrará sua sorte ingrata e terá sua figura a servir de fundo à nova candidata.

Daí em diante, com o reforço do Sobrenatural de Almeida à ação do Absurdo da Silva, o céu é o limite.

Resta uma palavra sobre o Miguel. Miguel é o bebê de 7 meses que Eduardo Campos deixa órfão de pai, o caçula de seus cinco filhos. Quando ele nasceu, Eduardo Campos escreveu no Facebook: “Hoje os médicos confirmaram o que já estava pré­diagnosticado havia algum tempo. Miguel, entre outras características que o fazem especial, nasceu com a síndrome de Down. Seja bem-vindo, querido Miguel. Como disse seu irmão, você nasceu na família certa”.

Um pai e uma família que recebem com tanta alegria um filho com síndrome de Down merecem respeito e admiração. Miguel nasceu mesmo na família certa.

23/08/2014

às 17:30 \ Livros & Filmes

DICA DE LEITURA — Incrível: terceiro e último volume da biografia de Getúlio mostra que durante mais de 20 anos ele contemplou o suicídio como forma de vencer a derrota

A SAÍDA HONROSA — No Aeroporto Santos Dumont, na então capital federal, Getúlio embarca para uma etapa da campanha presidencial de 1950: quatro anos mais tarde, tendo voltado pelo voto à trincheira que antes conquistara pelas armas, o presidente se convenceu de que o atentado contra Carlos Lacerda selaria sua ignomínia. Cumpriu então a promessa de suicídio com que tantas vezes acenara a si mesmo (Foto: Fundação Getúlio Vargas/FGV)

A SAÍDA HONROSA — No Aeroporto Santos Dumont, na então capital federal, Getúlio embarca para uma etapa da campanha presidencial de 1950: quatro anos mais tarde, tendo voltado pelo voto à trincheira que antes conquistara pelas armas, o presidente se convenceu de que o atentado contra Carlos Lacerda selaria sua ignomínia. Cumpriu então a promessa de suicídio com que tantas vezes acenara a si mesmo (Foto: Fundação Getúlio Vargas/FGV)

UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA

O último volume da biografia de Lira Neto confirma que, havia mais de duas décadas, Getúlio Vargas contemplava o suicídio como única forma de vencer a derrota

Resenha de Augusto Nunes publicada em edição impressa de VEJA

Sozinho em seu labirinto, o maior ator da política brasileira ensaiou pelo menos cinco vezes, ao longo de 24 anos, o desfecho da tragédia incomparável.

Cartas, anotações e bilhetes enfileirados pelo biógrafo Lira Neto comprovam, já no capítulo de abertura do terceiro e último volume de Getúlio 1945-1954 (Companhia das Letras; 430 páginas; 49,50 reais, ou 34,50 reais na versão eletrônica), que o protagonista do drama encerrado em 24 de agosto de 1954, quando apertou o gatilho do Colt 32, já costumava levar a mão ao coldre sempre que entrevia o fantasma da derrota irreversível – e, por trás dela, as humilhações reservadas aos apeados do poder.

Getúlio Dornelles Vargas sempre enxergou no suicídio a única forma de sobreviver à morte física, antecipar-se à vingança do inimigo vitorioso e seguir existindo na memória popular. Para o gaúcho de São Borja, nascido e criado em paragens conflagradas por duas guerras civis e antagonismos ferozes, a abreviação voluntária da vida não era a rendição que interrompe o confronto. Era a senha para o contra-ataque que desencadeia a guerra póstuma.

“E se perdermos?”, perguntou-se Getúlio num manuscrito datado de 3 de outubro de 1930, horas depois da deflagração do movimento armado que o levaria ao coração do poder. A resposta (“Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso”) seria repetida, com variações na forma que em nada afetam o conteúdo, em 10 de julho de 1932, quando registrou em uma carta o início da Revolução Constitucionalista, e em 19 de janeiro de 1942, ao optar pela adesão aos Aliados na II Guerra Mundial.

Nos três episódios, a vitória interrompeu o flerte com a morte – que seria retomado em abril de 1945, quando se multiplicaram as evidências de que a cúpula do Exército tramava a deposição do ditador.

“Estou resolvido ao sacrifício para que ele fique como um protesto, marcando a consciência dos traidores”, avisou. Desta vez, não cumpriu a promessa por acreditar que não fora liquidado politicamente. As urnas logo gritariam que o genial intuitivo estava certo.

Os adversários triunfantes ainda decoravam o nome das secretárias quando, com uma declaração de apoio divulgada a quatro dias do pleito, ele implodiu o favoritismo de Eduardo Gomes e garantiu a chegada de Eurico Dutra à Presidência da República.

Meses mais tarde, Getúlio elegeu-se senador por São Paulo e pelo Rio Grande do Sul, além de deputado federal por seis Estados. À impressionante demonstração de força, contudo, seguiu-se a confirmação de que não exagerava ao avaliar a extensão e a intensidade dos ódios acumulados ao longo dos quinze anos em que governou o país.

Bastaram algumas sessões, todas tumultuadas pelo som da fúria, para que desistisse de aparecer no Congresso, então no Rio de Janeiro. Não fez nenhum discurso nem apresentou projeto algum. Transformado pela bancada oposicionista em tema único dos virulentos comícios diários, retirou-se para a estância em São Borja. Ali, ao saber que os inimigos queriam castigá-lo com o desterro, escreveu a quinta mensagem de despedida. Afastada a ameaça, aproveitou a trégua para planejar o regresso ao Palácio do Catete.

Antes de optar pelo reinício da guerra, consultou apenas a filha Alzira. Amparado nas revelações que hibernam nos originais do segundo e ainda inédito livro de memórias da autora de Getúlio Vargas, Meu Pai, Lira Neto constata que Alzira foi a única confidente de um introspectivo visceral.

Numa das cartas trocadas entre a filha que chamava de “Ge” o pai que a tratava por “Rapariguinha”, Getúlio enumera os perigos que espreitavam todos os caminhos possíveis e pede a opinião da destinatária na última linha: “Que pensas?”. Admiravelmente precisas e argutas, as considerações de Alzira convenceram a esfinge de que era hora de regressar pela rota do voto à trincheira que havia conquistado pela trilha da insurreição armada.

getulio-lira-neto

 

Ao lado da exposição da face mórbida de um sedutor de multidões, a relação entre pai e filha figura entre os momentos especialmente luminosos da obra que, ao reconstituir exemplarmente a trajetória do homem que empunhou por quase vinte anos o bastão de mando, incorporou Lira Neto à tropa de elite dos biógrafos brasileiros.

“Da volta pela consagração popular ao suicídio”, resume o subtítulo do volume que exuma o período que vai de 1945 a 1954, provavelmente o mais instável, perturbador e sombrio do Brasil republicano. A temperatura política sempre roçando o ponto de combustão, o primitivismo da democracia ainda no berço e a selvageria eleitoral escancaram já nas primeiras páginas a inevitabilidade do final infeliz.

Em agosto de 1954, quando se conformara em sonhar apenas com a conclusão do mandato, Getúlio foi surpreendido pelo atentado contra Carlos Lacerda e entendeu que a 25ª hora chegara. Fundiu as mensagens pressagas na cartatestamento, o mais belo e comovente adeus produzido por um político.

Ninguém suspeitou da partida iminente, nem mesmo Alzira Vargas. Às 8 e meia da manhã, fechou a porta do quarto para abrir a bala, dois minutos depois, a porta de entrada na História.

16/08/2014

às 20:00 \ Política & Cia

A morte de Eduardo Campos é uma séria perda no processo de renovação generacional da política brasileira

(Foto: Carla Carniel/Frame/Estadão Conteúdo)

“Eduardo Campos já se formou em outra atmosfera, com menos intolerâncias, uma virtude” (Foto: Carla Carniel/Frame/Estadão Conteúdo)

A política brasileira sem Eduardo Campos

A morte do candidato do PSB tem o aspecto grave, entre outros, de representar uma perda séria no processo de renovação geracional na política brasileira

Editorial publicado no jornal O Globo

A morte de Eduardo Campos, num desastre aéreo em Santos, passa a constar das grandes tragédias ocorridas na política brasileira, em que líderes desapareceram de maneira traumática.

Entre elas, há o suicídio de Getúlio Vargas — também em agosto, mês de má fama na crônica da política nacional —, o desastre automobilístico de que Juscelino Kubitschek foi vítima, o desaparecimento no mar de Ulysses Guimarães e Severo Gomes, além do drama da morte de Tancredo Neves, eleito numa eleição indireta, mas com apoio popular, e que não conseguiu subir a rampa do Planalto.

O desaparecimento de Eduardo Campos tem, entre outros, o aspecto grave de representar uma perda séria no processo de renovação geracional da política brasileira. Com 49 anos, neto de Miguel Arraes, histórico político pernambucano, Campos se firmava como uma liderança que permaneceria no cenário nacional, mesmo se não saísse vitorioso nas urnas de outubro, ainda que sequer fosse ao segundo turno.

Não há dúvida que a campanha de 2014 projetaria o candidato, ex-governador de Pernambuco, presidente do PSB, para além das fronteiras do seu Estado e do Nordeste.

A perda de um político jovem, com capacidade de liderança — independentemente de partido e ideologia —, tem característica negativa especial num país que passou 21 anos numa ditadura militar (1964-1985), sem portanto formar quadros num ambiente institucional de liberdades.

Por este motivo, a política brasileira retomou a atividade na democracia ainda com lideranças das décadas de 1950 e 60. O apagão causado pela ditadura na prática impediu a formação de quase uma geração de políticos.

Os sobreviventes do regime militar desenvolveram virtudes, mas também deformações, cultivadas na resistência ao arbítrio. Eduardo Campos já se formou em outra atmosfera, com menos intolerâncias – uma virtude.

A aliança que lhe propôs Marina Silva, depois de não conseguir registrar seu partido Rede, foi prontamente aceita. O ato abriu-lhe novos espaços, os quais ele ocupava com habilidade, aparando arestas criadas pelas dificuldades previsíveis na articulação de propostas do PSB com a plataforma ambientalista da Rede, com a qual Marina atraiu dissidentes do Partido Verde, entre outros.

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27/07/2014

às 15:00 \ Política & Cia

Fernão Mesquita, a propósito do aniversário da Revolução de 1932: “São Paulo resistiu sozinho a Getúlio; São Paulo vem resistindo quase sozinho ao PT”

(Foto: Arquivo/AE)

Getúlio Vargas adiou a convocação de uma Constituinte e nomeou títeres como governadores dos Estados até que São Paulo se levantasse contra sua ditadura não declarada, a 9 de julho de 1932 (Foto: Arquivo/Agência Estado)

Que fique bem claro: publico com gosto o excelente artigo do jornalista Fernão Mesquita, mas discordo inteiramente dele no trecho em que aborda o que chama de “contragolpe de 1964″.

Texto de Fernão Lara Mesquita publicado no jornal O Estado de S. Paulo

São Paulo comemorou este mês o 82.º aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932, que muito pouca gente, no Estado e no resto do Brasil, sabe o que foi. É impróprio, aliás, usar verbos no passado para tratar deste assunto, pois a luta de 1932, que começara pelo menos 50 anos antes com o Movimento Abolicionista, que desaguou na República e se confunde com a história do jornal O Estado de S. Paulo, é exatamente a mesma de hoje.

Gira em torno da seguinte pergunta: onde se quer instalar a sociedade brasileira emancipada, no campo da civilização ou no da barbárie?

No Estado de Direito, com a lei igual para todos, ou nas variações do caudilhismo populista, onde fala quem pode e obedece quem tem juízo?

Numa meritocracia, em que só a educação e a dedicação no trabalho legitimam a diferença, ou no sistema em que a cooptação e a cumplicidade com a corrupção são os únicos caminhos para o poder e para a afluência?

O Movimento Abolicionista é o primeiro na história do Brasil a surgir nas ruas, não nos palácios, e a tomar o país inteiro numa avassaladora mobilização cívica. Nasceu sob inspiração direta da Revolução Americana.

Muitos de seus principais líderes brancos e negros frequentaram as mesmas “lojas maçônicas” lá, nos Estados Unidos, onde a elite do Iluminismo fugida do absolutismo monárquico europeu, regime sob o qual viviam o Brasil e o resto do mundo de então, iniciou o debate que resultaria no desenho das instituições da democracia moderna.

Tratava-se de uma humanidade escaldada por 2 mil anos dormindo sob o risco de sua majestade acordar de mau humor e mandar torturá-la até a morte sem ter de dar explicações a ninguém.

Para garantir que nunca mais fosse assim, aqueles conspiradores estabeleceram os princípios fundamentais da democracia que até hoje não se instalou por aqui: o império incontestável da lei, inclusive e principalmente sobre os governantes; a vontade popular, democraticamente aferida, como única fonte de legitimação dessa lei, e o mérito no trabalho como única fonte de legitimação do poder econômico; a descentralização do poder para garantir a fiscalização mais direta possível dos representados sobre os representantes, concentrando nos municípios todas as decisões e os serviços públicos que pudessem ser prestados no âmbito deles; nos Estados, apenas as que se referissem aos assuntos que envolvessem mais de um município; e na União, só as que não pudessem ser resolvidos por essas duas instâncias, mais as relações internacionais.

Para reduzir ainda mais o espaço para que as tentações do mando não produzissem os efeitos que sempre produzem no caráter dos homens, determinou-se que cada uma dessas instâncias de governo fosse dividida em três Poderes autônomos e independentes entre si, uns encarregados de fiscalizar os atos dos outros.

Não foi à toa, portanto, que os brasileiros oprimidos que testemunharam esse verdadeiro milagre se tivessem encantado a ponto de dedicar sua vida a fazê-lo acontecer também no Brasil.

Foi em nome desses princípios que nasceu a República. E foi para preservá-los que foram feitas a Revolução de 1930, a Revolução de 1932, a redemocratização de 1945, o contragolpe de 1964 e a redemocratização de 1985.

"Getúlio criou os sindicatos pelegos sustentados pelo estado; Lula e o PT são o produto direto deles" (Foto: Arquivo/AE)

“Getúlio criou os sindicatos pelegos sustentados pelo estado; Lula e o PT são o produto direto deles” (Foto: Arquivo/AE)

Getúlio traiu, como Lula, a bandeira da “ética na política”, que levou os dois ao poder, em 1930 e em 2002. Getúlio, adiando a convocação de uma Constituinte e nomeando títeres como governadores dos Estados até que São Paulo se levantasse contra a sua ditadura não declarada, em 1932; Lula, aliando-se a todos os “carcomidos” da política, que se elegeu atacando, para se perenizar no poder.

Foram 87 dias de uma guerra desigual contra os Exércitos da União. São Paulo foi derrotado militarmente, mas teve uma vitória moral tão indiscutível que Getúlio, depois de devolver o governo do Estado a lideranças paulistas (na pessoa de Armando Salles de Oliveira), sentiu-se constrangido a convocar finalmente a Constituinte que deu ao Brasil, em 1934, a única Constituição verdadeiramente democrática que o país teve.

Tão democrática que o caudilho não conseguiu conviver com ela e “fechou” o país, em 1937, impondo a sua própria lei e reinstalando a ditadura. Um movimento semelhante ao que o PT repetiu agora com o Decreto 8.243, que segue vigendo, recorde-se, e determina que nossas leis passarão a ser feitas não mais exclusivamente por um Congresso legitimado pelo voto de todos os brasileiros, mas pelos “movimentos sociais” que o partido escolher.

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22/07/2014

às 15:00 \ Política & Cia

OLIVEIROS FERREIRA: O governo negocia com baderneiros — mas deveria saber que o Estado não recua

(Foto: VEJA.com)

Ao negociar com os baderneiros black blocs como os da foto, que deveriam ter sido autuadas pela Polícia Civil e processados pela Justiça, Gilberto Carvalho não apenas deixou claro que o poder recuou, mas que o crime pode compensar (Foto: VEJA.com)

O GOVERNO DEVERIA SABER QUE O ESTADO NÃO RECUA

Texto de Oliveiros S. Ferreira

A crise do Estado, a que me refiro com frequência, pode dar-se como explosão. Na França, o pavio foi aceso na greve da Gendarmaria sob o governo Guy Mollet. A bomba explodiu na ação dos paraquedistas na Argélia, em 1958. Depois, enfrentando outra revolta, o General De Gaulle proclamou: “O poder não recua!” ─ e venceu!

A crise pode também dar-se silenciosamente, como no Brasil de hoje, ainda que o pavio tenha sido aceso na renúncia de Jânio em 1961 e um petardo haja explodido em 1964 sem grandes efeitos: o velho edifício social e político permaneceu intocado, afora pequenas emendas para tornar sua fachada mais bonita.

Hoje, a crise, silenciosa, corrói lentamente não apenas as instituições, mas também ─ o que é mais grave ─ as mentalidades.

Muito bem. Foi um general quem disse que o poder não recua. Mas De Gaulle não era só um general; era, sim, presidente da República, eleito pelo voto popular. Sufragado para manter o Estado uno e indivisível — soberano!

No Brasil não se pensa no Estado; cuida-se do governo e de como conservar o pequeno poder que ele dá a qualquer presidente que se instale no Planalto.

Tomemos dois casos que, aparentemente desconexos, traduzem idêntica realidade.

O secretário-geral da Presidência da República resolveu parlamentar com os black blocs para tentar evitar outras manifestações no estilo que esse grupo adota. O resultado ─ afora o rolo de papel higiênico que lhe jogaram para que entrasse no Itaquerão ─ foi nulo. Mas, se somos o governo, aplaudiremos que se tenha evidenciado que respeitamos as manifestações populares, somos contra a repressão da PM de São Paulo e queremos resolver o problema com negociação civilizada.

Os black blocs pensarão diferente: o poder recuou, e podemos continuar nossa atividade, pois contaremos sempre com boa vontade!

(Foto: AFP/Getty Images)

General De Gaulle: “O poder não recua!”(Foto: AFP/Getty Images)

O fato em si, teorias à parte, é que o Poder Executivo negociou com particulares que violaram a lei e provocaram, com sua organização, não só a perturbação da ordem e do sossego públicos como danos ao patrimônio privado e público.

Ao negociar com particulares que deveriam ter sido autuados pela Polícia Civil e processados pela Justiça, o secretário-geral não apenas deixou claro que o poder recuou, mas que o crime pode compensar. Ou as ações dos black blocs não estão capituladas como crime no Código Penal?

O outro fato, talvez mais grave, pois denota quem deveria, para sua segurança, cuidar da ordem deixou-se levar pelo que hoje parece ser a moda politicamente correta: se a livre manifestação é livre, a PM que se recolha aos quartéis até que seja fundida com a Polícia Civil (e seria fundida sem hierarquia?).

Trata-se de folheto que editado por Protestos.org sob a chancela da FGV ─ veementemente repudiado por esta instituição ─ ensina aos manifestantes em geral como proceder para evitar ser identificados pela repressão e processados ─ que usem máscaras! » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

03/05/2014

às 20:30 \ Livros & Filmes

Roberto Pompeu de Toledo: O Corvo e o Anjo Negro

carlos lacerda

“A República das Abelhas” conta a história da família de Carlos Lacerda e parte da história do Brasil (Foto: Jornal Opção)

“Os presos se convenceram de que se tratava do governador. Lacerda trepou num caixote e, ao começar a falar, ainda pôde observar que Gregório continuava a movimentar-se, agora convocando outros presos a que se aproximassem”

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

Roberto-Pompeu-de-ToledoUma porta lateral se abriu e apareceu um negro alto, rijo, bem-vestido. O ano é 1945 e o cenário, a chefia de polícia do Rio de Janeiro, onde está sendo interrogado um certo Euclides, acusado de ter provocado e agredido, numa confeitaria, o político e jornalista José Eduardo de Macedo Soares, crítico contumaz do ditador Getúlio Vargas.

Sob pressão intensa da imprensa oposicionista, naqueles extertores do Estado Novo em que o regime já não tinha forças para impor-se com o instrumento da censura, o chefe de polícia concordara em permitir que interrogadores independentes questionassem Euclides.

Pergunta daqui, pergunta dali, e enfim o acusado confessa: trabalhava para a guarda pessoal de Getúlio.

O negro só observava, calado.

Um dos interrogadores era outro jornalista, crítico ainda mais contumaz e acerbo do ditador: Carlos Lacerda. O chefe de polícia interrompeu o interrogatório. Se a investigação conduzia à Presidência da República, não era ele quem lhe daria continuidade. O negro não abriu a boca. Nem precisava.

O episódio consta do excelente A República das Abelhas, recém-lançado livro de Rodrigo Lacerda. O autor, romancista com livros premiados no currículo, é neto de Carlos Lacerda. A República das Abelhas é uma crônica familiar com meio século da história brasileira como pano de fundo.

Começa com Sebastião Lacerda, que foi político e juiz do Supremo Tribunal Federal, passa por Maurício Lacerda, filho de Sebastião, caso raro de advogado e deputado que, na República Velha, se distinguiu pela defesa dos trabalhadores (era “o tribuno da plebe”, diziam), e desemboca no filho de Maurício, Carlos Lacerda, antigo comunista que virou campeão do anticomunismo.

Tal qual o concebeu Rodrigo, o livro é narrado por um Carlos Lacerda que, já morto, repassa a própria vida e a dos antepassados. Sobre o negro daquele dia, o Carlos Lacerda do livro diz: “Tinha uma presença forte, porém não lhe demos maior importância”.

Se o Carlos Lacerda de 1945 já era o algoz de Getúlio, muito mais o seria o de agosto de 1954, mês em que se dá o famoso atentado da Rua Tonelero. Lacerda chegava em casa, à noite, acompanhado do major da Aeronáutica Rubens Vaz, quando um pistoleiro abrigado sob uma árvore disparou tiros que mataram Vaz e o feriram no pé.

Seguiu-se, em clima de insurreição, investigação da Aeronáutica que levou, de novo, à guarda pessoal de Getúlio e à figura de seu chefe – o negro Gregório Fortunato, apontado como mandante. “Foi quando reconheci o negro soturno que, em 1945, assistira ao interrogatório”, diz o Carlos Lacerda do livro.

A figura de Gregório finalmente emergia à luz do dia. Ele acumulara poderes que lhe permitiam traficâncias diversas, nos altos escalões do governo, mas era sobretudo o anjo da guarda de Getúlio – o “Anjo Negro”, como passou a ser chamado. Apelido por apelido, Lacerda ganhara o de “Corvo” do jornalista rival Samuel Wainer.

Getúlio e, de chapéu, sua sombra: o Anjo Negro (Foto: CPDOC/Fundação Getúlio Vargas)

Getúlio e, de chapéu, sua sombra: o Anjo Negro (Foto: CPDOC/Fundação Getúlio Vargas)

O encontro do Corvo e do Anjo Negro, este ainda que por interposta pessoa, na escuridão da noite da Rua Tonelero, confere um significado ao mesmo tempo sinistro e caricatural ao cruzamento dos destinos desses personagens tão marcantes do período, um sempre calado, o outro um dos verbos mais devastadores da política brasileira, um agindo nas sombras, o outro mais exposto impossível.

Mas o livro de Rodrigo narra ainda um último encontro entre os dois, de novo à noite, ocorrido quando Lacerda, agora governador da Guanabara, foi ao presídio da Rua Frei Caneca para tentar aplacar uma rebelião de presos.

Os presos não acreditaram, a princípio, que quem despontava no pátio era o governador. Continuaram a batucar em torno de uma enorme fogueira feita com restos de móveis e colchões. “De repente, do meio da escuridão e esgueirando-se por entre os corpos que rodeavam o fogo, surgiu Gregório Fortunato”, conta o Carlos Lacerda do livro.

“Eu o reconheci imediatamente, e ele a mim.” Gregório cumpria pena pelo crime de 1954 e Lacerda chegou a temer que ele viesse a se aproveitar da “chance inédita, quase miraculosa”, para se vingar. Não. Ao contrário, “como um autêntico Anjo Negro, vagaroso e soturno”, foi até os líderes da rebelião, e o clima mudou.

Os presos se convenceram de que se tratava do governador. Lacerda trepou num caixote e, ao começar a falar, ainda pôde observar que Gregório continuava a movimentar-se, agora convocando outros presos a que se aproximassem. Vivia-se, à luz indecisa da fogueira, o extraordinário momento em que o Anjo, amansado, colaborou com o Corvo.

25/04/2014

às 6:00 \ Disseram

Getúlio Vargas mudou com o tempo

“Ele (Getúlio Vargas) foi um ditador, e truculento, mas no final da vida (…) era outro.”

Tony Ramos, ator que interpreta o presidente suicida no filme de João Jardim, cuja estreia está prevista para o dia 1º de maio, em O Estado de S. Paulo

31/03/2014

às 17:00 \ Política & Cia

50 ANOS DO GOLPE MILITAR: FHC lamenta: “Faltam-nos crença na democracia e grandeza na vida política”

(Foto: Eduardo Nicolau / Estadão)

O ex-presidente em sua sala no Instituto que leva seu nome, em São Paulo: militares golpistas não tinham projeto (Foto: Eduardo Nicolau / Estadão)

Entrevista concedida à jornalista Laura Greenhalgh, de O Estado de S. Paulo

se entre ser socialista nos modos e marxista nas ideias. E fazia a cabeça da estudantada da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP).

Daí o golpe se consumou e o professor Fernando Henrique teve que sumir. Vazou, como se diz hoje. “Quando os policiais chegaram na Maria Antonia (nome da rua onde ficava a faculdade, em São Paulo) para me prender quase levaram o (filósofo) Bento Prado, achando que era eu”, comenta o ex-presidente ao lembrar de um tempo em que precisou pular de casa em casa, de cidade em cidade, às escondidas, até se fixar no Chile, para onde seguiram a mulher, Ruth Cardoso, e os filhos pequenos.

entrevista que se segue, o trigésimo-quarto mandatário brasileiro reflete sobre a ditadura e conclui que ela não chegou a desmontar o Estado regulador. “Falam tanto em neoliberalismo, mas nunca tivemos isso no País. Já liberalismo político, esse eu até gostaria que houvesse mais”.

A 50 anos do golpe que o levou para o exílio e aos 82 de idade, Fernando Henrique, deixa passar uma nota de amargura: “Não estamos em condição de ensinar democracia a ninguém, porque há muito a aprender. Faltam-nos, sobretudo, crença na democracia e grandeza na vida política.”

Onde o senhor estava quando tudo aconteceu, 50 anos atrás?

Semanas antes do golpe, quando houve aquele comício da Central do Brasil, eu estava no Rio, onde vivia meu pai. Passei pelo comício e embarquei lá mesmo, rumo a São Paulo.

Era 13 março. No trem estavam o (hoje ex-ministro) José Gregori, o (hoje ex-deputado federal) Plínio de Arruda Sampaio, com quem eu acabaria me reencontrando no exílio, e um rapaz chamado Marco Antonio Mastrobuono, que depois viria a casar com a Tutu, filha do Jânio Quadros.

Viemos conversando ao longo da viagem sobre a situação. Ali ninguém era entusiasta do Jango, eu também não era. Embora meu pai fosse um militar nacionalista, que inclusive havia sido deputado pelo PTB.

Seu pai era um nacionalista. E o senhor?

Um socialista. Tivera contato com o comunismo nos anos 1950, mas àquela altura, depois do stalinismo, não sobravam ilusões. Também não tinha ilusão de que o Jango seria algo extraordinário ao país, porque ele era um populista e eu, um acadêmico. E, na universidade, tínhamos a convicção de que as mudanças viriam da luta de classes, não do populismo.

Pois bem, chegando a São Paulo, encontrei um clima de grande agitação. Nessa época o Darcy (Ribeiro) já havia sido nomeado chefe da Casa Civil do Jango. E era muito amigo da minha família.

Nós nos falamos algumas vezes por telefone naqueles dias e isso terminou me trazendo uma dor de cabeça tremenda, pois o aparelho do Darcy estava grampeado e fui grampeado, também.

O que aconteceu exatamente?

O Darcy um dia me disse que viria a São Paulo e eu comentei “vem com cuidado aí com o Grupo dos Onze” (grupo de resistência radical concebido em 1963 pelo então governador gaúcho Leonel Brizola).

Disse aquilo por dizer, sem qualquer intenção, porque havia acontecido uma violência contra o ministro da Reforma Agrária do Jango, em São Paulo, algo assim. Esse comentário grampeado iria me complicar no futuro, quando fui processado na Justiça Militar.

Mas, na noite do golpe, lá na Maria Antonia, havia mesmo muita confusão. Eu exercia certa influência sobre alunos e professores mais jovens, embora fosse jovem também – tinha só 33 anos, mas já fazia parte do Conselho Universitário. Muitos dos meus colegas achavam que o golpe era do Jango e dos generais leais a ele, o Amaury Kruel, o Osvino Ferreira Alves.

A confusão era tanta que eu telefonei para o Luiz Hildebrando da Silva, que era da Medicina da USP e ligado ao Partidão (o então clandestino Partido Comunista Brasileiro), dizendo para ele vir até a Maria Antonia, pois estavam preparando um manifesto contra um golpe do presidente. E não um manifesto contra o golpe no presidente! Veja como estávamos perdidos na USP, isolados da vida política, mergulhados num marxismo teórico.

Vou contar uma passagem estapafúrdia: naqueles dias soubemos que haveria uma resistência armada no Sul e então o Bento Prado, o (cientista social) Leôncio Martins Rodrigues, o Paulo Alves Pinto, que era sobrinho do general Osvino, e eu cogitamos tomar um aviãozinho no Campo de Marte para lutar no Sul.

Ainda bem que não houve luta alguma (ri). Então, assim foi a minha última noite andando pela rua Maria Antonia. No dia seguinte, a polícia apareceu por lá para me prender. Quase levaram o Bento Prado, pensando que fosse eu.

Como escapou de ser preso na Maria Antonia?

Alunos meus ficaram nas esquinas, à espreita, para me avisar que a polícia estava lá, assim que eu me aproximasse. Acabei não indo à faculdade e naquela noite dormi na casa de um amigo, o cineasta Bráulio Muniz. Continuei me escondendo, daí fui para o Guarujá na casa do (fotógrafo) Thomas Farkas, com o Leôncio. E a Ruth (Cardoso), minha mulher, ficou aqui, tentando entender o que se passava.

Ruth procurou o Honório Monteiro, que fora ministro do presidente Dutra e era meu colega no Conselho Universitário. O Honório tentou interferir a meu favor junto ao Miguel Reale, então secretário de Segurança. Mas o Reale respondeu que no meu caso não havia o que fazer, porque “esse professor Cardoso não é só teórico, mas prático também”.

Outro amigo, o (economista, museólogo e autor teatral) Maurício Segall, que já se ocupava de organizar fugas, achou que eu tinha que cair fora, não havia condições de ficar no país. Saí por Viracopos e fui para Argentina, para a casa de um ex-colega meu na França, que mais tarde viria a ser ministro do Kirchner, o José Nun.

Tive convite para lecionar na Universidade de Buenos Aires, mas também convite para trabalhar na Cepal, no Chile. Preferi ir para o Chile. Meses depois Ruth veio ao meu encontro, com as crianças, e lá ficamos anos.

Voltou ao Brasil nesse período?

Duas vezes. Eu me encontrei em Paris com (o professor e crítico literário) Antonio Candido, que dava aulas por lá, e ele me ajudou a voltar ao Rio para ver meu pai. Era 1965. Quando meu pai morreu, eu estava no Chile, mas já com passaporte validado, portanto voltei para o enterro. Houve uma missa com muitos oficiais e um deles chegou perto do meu irmão para dizer, referindo-se a mim: “Ou ele vai embora ou vai ser preso”.

Vim para a casa do (empresário e editor) Fernando Gasparian, em São Paulo, dormi outra noite na casa do (sociólogo) Pedro Paulo Popovic, e regressei ao Chile. Acabei não sendo preso.

Houve o processo contra mim na Justiça Militar, com acusações ridículas, entre as quais aquela envolvendo o telefonema grampeado do Darcy, e outras histórias vindas da universidade, de colegas que naquele momento dedo-duraram bastante, mas depois virariam ultra-esquerdistas.

O general Peri Bevilacqua, neto do Benjamin Constant e homem ligado à minha família, foi quem me deu um habeas corpus anos depois (no Superior Tribunal Militar, de que era ministro). Mais tarde ele seria cassado, também. Pude devolver as medalhas do general para a família dele, quando estava na Presidência.

O que o senhor pesquisava na época do golpe?

O empresariado brasileiro. Foi minha tese de livre-docência, defendi em 1963 e publiquei-a no ano seguinte.

Contestava a visão da esquerda de que havia uma aliança dos latifundiários com os imperialistas, contra a burguesia nacional e o povo. Isso era bobagem. Os empresários tinham ligação com o campo e não eram antiimperialistas, com exceção de dois ou três. A esquerda apostava no papel progressista da burguesia nacional e eu tinha uma visão crítica em relação a isso.

Disse que não se entusiasmava por João Goulart. Como o definiria?

Jango não era de assustar ninguém e hoje seria um político muito mais tranquilo do que qualquer um desses governantes populistas da América Latina. Mas, no contexto da Guerra Fria, e pelos contatos que tinha com os comunistas, representava o horror naquele momento.

Vi isso acontecer de novo no Chile. Allende era um reformista e virou o belzebu. Enfim, Jango era um político brasileiro tradicional, populista, um latifundiário que nunca quis fazer revolução alguma. Levantava a bandeira das reformas de base e ninguém sabia exatamente o que eram.

Olhando sociologicamente: tínhamos o mundo contingenciado pela Guerra Fria, porém o Brasil começava a se encaixar no eixo dos investimentos estrangeiros, desde o Juscelino. Havia crescimento industrial, forte migração campo-cidade e um Estado incompetente para atender às demandas de uma sociedade que crescia.

Então, a população começou a se movimentar e ir para as ruas. Nós, acadêmicos, estávamos tão entretidos com os debates teóricos, que quando nos demos conta as ruas tinham entrado na universidade!

Qual era o projeto dos militares em 1964? Submeter o País a uma modernização imposta de cima para baixo?

Acho que nem tinham projeto. Setores pensavam de forma diferente e foram variando de posição até o final. O general Amaury Kruel (foi ministro da Guerra de Jango), por exemplo, foi um que variou até o momento do golpe. Mesmo o general Mourão, de Minas, não tinha noção do que deveria ser feito.

Quem tinha? Os oficiais da Escola Superior de Guerra, o grupo do Castello Branco. Esses sabiam que seria importante empreender no País a modernização conservadora. Mas, veja só, entregaram a economia ao (Otávio Gouveia de) Bulhões e ao (Roberto) Campos, que por sua vez saíram atrás da modernização capitalista – arrocho fiscal, arrocho salarial, tudo feito a machadinhas, o povo pagando um preço alto.

Implantaram um programa austero, que deu na explosão econômica dos anos 70. Ora, quem fez isso não foram os militares, mas o Bulhões e o Campos. Havia necessidade de modernizar o capitalismo brasileiro. E, consequentemente, frear o avanço do setor estatal. Até porque o Juscelino já tinha feito o enganche do país com o setor produtivo global e os militares sabiam disso.

O senhor acha que o regime, no seu primeiro momento, tratou de sepultar o legado varguista?

O Castello, talvez. A verdade é que os militares já estavam claramente divididos, e isso era visível no Clube Militar: havia o setor ultranacionalista e o setor democrático-liberal. Este se aproximava dos Estados Unidos. E o ultranacionalista, embora não engolindo os russos, achava que eles funcionavam como contrapeso ao poderio americano.

Isso, evidentemente, tem a ver com as posturas “ser Getúlio” ou “ser anti-Getúlio”, levando-se em conta que o Getúlio simbólico foi sempre o nacionalista-estatizante. É interessante notar como era o contexto da época: os militares nacionalistas-estatizantes, que nunca confiaram nas forças do mercado, eram chamados de esquerda, o que era exagero. E os democráticos-liberais eram vistos como direita, outro exagero.

Daí o regime foi se radicalizando.

Exato, foi radicalizando a tendência autoritária. Isso não foi pretendido no começo, mas foi se formando. E virou um monstro que, não fosse o (general Ernesto) Geisel ter-se oposto, justo ele, um nacionalista-estatizante, correríamos o risco de cair numa direita fascista. Uma direita que se justificaria pelo apego à ordem, e não pelo desenvolvimento capitalista.

Cabe ainda muita pesquisa sobre o período, para analisar com objetividade e entender como tudo aconteceu ao largo de um intenso processo de industrialização e urbanização. São Paulo, em meados da década de 70, crescia 5% ao ano. Havia mais de cinco milhões de pessoas vivendo aqui. Tivemos um crescimento econômico que não correspondeu ao social.

Isso começa a ser corrigido com a redemocratização e vem até agora. Penso que hoje, de novo, vivemos algo parecido. Não se tem mais a mobilidade rural-urbana do passado, mas uma intensa mobilidade social. As pessoas querem mais e o Estado não tem como dar.

Instalados no poder, os militares trataram de providenciar uma fachada de legalidade ao regime. Chegaram a falar em “democracia relativa”.De fato, eles nunca aceitaram que o regime não fosse visto como democrático.

Confira parte da entrevista de FHC no vídeo abaixo:

 

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