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Getúlio Vargas

04/01/2015

às 19:00 \ Política & Cia

CARLOS BRICKMANN: O Brasil sob velha direção

Algumas das notas da coluna que o jornalista Carlos Brickmann publica hoje em diversos jornais:

Carlos BrickmannCríticas ao Ministério de Dilma, vaias a alguns ministros na hora da posse, piadinhas sobre a convivência de acirrados adversários na mesma mesa.

Injustiça!

Dilma, a competenta, elaborou com rara habilidade seu projeto de reconciliação nacional.

Juntou na mesma área Patrus Ananias, para quem Stalin provavelmente não passava de um reformista burguês, com Kátia Abreu, para quem Gengis Khan ou era comunista ou no mínimo complacente com os comunistas.Juntou políticos desconhecidos, como George Hilton, com políticos fartamente conhecidos, como Eliseu Padilha, que vem com o selo de qualidade do Governo Fernando Henrique.

Juntou candidatos derrotados com políticos que vencem até (e principalmente) quando o país perde. A cereja do bolo, talvez como símbolo do prometido combate à corrupção, é Helder Barbalho, derrotado nas urnas, filho querido de Jader (cuja carreira política envolveu renúncia, para escapar à cassação, e um período de prisão), um dos herdeiros daquele famoso ranário em que sobravam investimentos com dinheiro público e faltavam rãs.

E, no esforço de conciliação, Valdemar Costa Neto, então hóspede da Penitenciária da Papuda, foi quem negociou com o governo a nomeação do ministro dos Transportes. É bonito, ainda mais no 1º de Janeiro, Dia da Confraternização Universal, em que todos tomaram posse, ver que Dilma faz conviver herbívoros e carnívoros.

O sagaz Getúlio Vargas certa vez definiu um ministério com a seguinte frase: alguns ministros não são capazes de nada, e os outros são capazes de tudo.

Cena de um dia festivo 1

O velho ministro da Fazenda, Guido Mantega, não compareceu à nova posse da presidente. Mas não houve fofocas: por sorte, ninguém percebeu.

Cena de um dia festivo 2

O novo ministro dos Esportes, George Hilton, foi barrado na portaria do Congresso. Ninguém o conhecia. Hilton é deputado federal há oito anos, desde 2006, ocupando o gabinete 843 do Anexo 4. Os seguranças devem ser muito distraídos.

Cena de um dia festivo 3

George Hilton foi um dos ministros vaiados durante a cerimônia de posse. Mas não deve ter ficado triste: isso demonstra que ao menos ali o reconheceram.

Cena triste de um dia festivo

O colunista James Akel, atento, notou que Marco Aurélio Garcia, Edison Lobão, Gilberto Carvalho e Alexandre Padilha passeavam sozinhos pelo salão, durante a posse, sem ninguém sequer os cumprimentasse. O então secretário de Estado americano Henry Kissinger disse certa vez que o poder é afrodisíaco. É possível imaginar, então, que a perda do poder tenha o efeito exatamente contrário.

31/12/2014

às 16:25 \ Política & Cia

A história do Rolls-Royce que Dilma usará na posse, amanhã, não é a que consta dos arquivos do Planalto

O Rolls-Royce presidencial fotografado durante o ensaio para a posse de Dilma feito pelo Cerimonial do Palácio do Planalto no domingo, dia 28, em Brasília (Foto: Ricardo Stuckert/Fotos Públicas)

O Rolls-Royce presidencial fotografado durante o ensaio para a posse de Dilma feito pelo Cerimonial do Palácio do Planalto no domingo, dia 28, em Brasília (Foto: Ricardo Stuckert/Fotos Públicas)

São vários os mitos sobre a origem do Rolls-Royce presidencial que será utilizado amanhã na posse da presidente Dilma Rousseff — como já ocorreu em 2010, e em várias posses de chefes de governo anteriores desde a do presidente Juscelino Kubitschek, em 1956, excetuada a de José Sarney, em 1985, dada a circunstância de que o presidente titular, Tancredo Neves, morreu antes de assumir.

O principal desses mitos é que o carro foi uma doação da Rainha Elizabeth II ao governo brasileiro.

Não, não foi.

Tampouco é correta a versão que, há alguns anos, o próprio Palácio do Planalto forneceu sobre o assunto e que permanece a oficial. Eu mesmo escrevi a respeito, pouco antes da posse de Dilma, a 1º de janeiro de 2010.

Este é um trecho do post:

“Com 57 anos de uso [agora são 61], ele ainda não chegou aos 30 mil quilômetros. O Rolls-Royce conversível da Presidência da República que vai transportar a presidente eleita, Dilma Rousseff, no dia de sua posse, 1º de janeiro próximo, está nos trinques e pronto para a tarefa. Trata-se de um modelo Silver Wraith Formal Cabriolet, com carroceria fabricada pela empresa britânica H. J. Mulliner & Co. S

“Com bancos de couro e madeira legítima revestindo parte do interior, o Rolls presidencial, macio e silencioso, tem motor 4,5 de 6 cilindros e uma potência relativamente pequena para um carro de 1,9 tonelada: 120 cavalos. Funciona com tração traseira e câmbio manual de quatro marchas. Ao longo dos anos, sofreu vários reparos e reformas executados pela empresa britânica.

“Ainda circula a lenda de que o Rolls foi um presente da rainha Elizabeth II, do Reino Unido, ao presidente Getúlio Vargas (1951-1954). Na verdade, Getúlio efetivamente recebeu o reluzente, esplêndido veículo de presente de empresários, mas o destinou a uso público, inicialmente a visitas oficiais: nele desfilaram, entre muitos chefes de Estado estrangeiros, o presidente americano Dwight Eisenhower, o presidente francês Charles de Gaulle e a própria rainha Elizabeth.

“Quem pesquisou e me contaria a história, ainda no primeiro mandato do presidente Lula (2003-2007), seria o responsável pelo setor de transportes do Palácio do Planalto, o coronel da reserva do Exército Paulo Renato Caldas Fayão, que também cuidou com carinho da frota presidencial durante os governos dos presidentes José Sarney (1985-1990) e Fernando Henrique Cardoso (1995-2003).”

O carrão, nos trinques, visto de perto (Foto: veja.abril.com.br)

O carrão, nos trinques, visto de perto (Foto: veja.abril.com.br)

Esta, portanto, é a versão oficial, do Palácio do Planalto, até hoje — e, veremos abaixo, ela está errada. Houve confusão com um segundo Rolls-Royce encontrado semiabandonado em uma garagem oficial em Brasília, mas agora não vem ao caso.

A pá de cal sobre as diferentes versões a respeito do carrão veio com o terceiro volume da espetacular trilogia Getúlio, do jornalista e historiador Lira Neto. A verdade simples é que o carro foi encomendado pelo governo, junto com outro, durante o governo democrático de Getúlio Vargas (1951-1954).

Está na página 258 do volume III de Lira Neto: “Em substituição aos Cadillac então em uso [pela Presidência], o palácio [do Catete, sede do governo de então] encomendara à britânica Rolls-Royce uma limusine fechada e outra conversível com capota de lona (esta última serve até hoje ao Palácio do Planalto, sendo utilizada em solenidades especiais, como as posses de presidentes e as comemorações do Dia da Pátria, em Brasília).

A primeira vez em que o Rolls-Royce foi utilizado em uma posse presidencial foi na do Presidente Juscelino Kubitschek (centro da foto) e de seu vice, João Goulart, a 31 de janeiro de 1956

A primeira vez em que o Rolls-Royce foi utilizado em uma posse presidencial foi na do Presidente Juscelino Kubitschek (centro da foto, acenando com a mão direita) e de seu vice, João Goulart, a 31 de janeiro de 1956 (Foto: Arquivo Nacional)

“Porém, a firma importadora, a Companhia Comercial de Motores e Veículos, aproveitou a ocasião para trazer de cambulhada outros dois luxuosos Rolls-Royce, posteriormente vendidos a particulares”.

A história completa, completíssima, utilizada por Lira Neto como fonte é o site Maxicar, portal especializado em carros antigos, que esgota o assunto de modo cabal, com todos os detalhes e minúcias possíveis. É um material muito interessante, que vale a pena ler aqui.

O curioso é que, tendo a própria versão oficial do Palácio e outras fontes disponíveis, a agência estatal Agência Brasil já tenha publicado a lorota de que o carro foi presente da Rainha da Inglaterra, conforme se pode conferir aqui.

30/11/2014

às 15:30 \ Política & Cia

O Ministério de Dilma: um monstrengo gigantesco, impossível de ser pilotado com eficiência — e que ela não pode enxugar

Reunião ministerial da presidente Dilma Rousseff (Foto: ABr)

Reunião ministerial da presidente Dilma Rousseff: nem nossos dois imperadores, D. Pedro I e D. Pedro II, dispuseram de tamanho séquito administrativo (Foto: Agência Brasil)

Post publicado originalmente a 15 de março de 2013

campeões de audiência 02Com a habitual franqueza, o empresário Jorge Gerdau — exemplo de empreendedor bem-sucedido, cujo império siderúrgico embasado no Brasil já se estende por vários Estados americanos — decretou: o país, disse em entrevista à Folha de S. Paulo e ao UOL, precisa apenas de “meia dúzia de ministérios”, e não dos 39 que respondem à presidente Dilma Rousseff.

Mais contundente, continuou ele, com a autoridade de quem está à frente, voluntariamente, da Câmara de Políticas de Gestão da presidente:

– Quando a burrice, ou a loucura, ou a irresponsabilidade vai muito longe, de repente, sai um saneamento. Provavelmente estamos no limite desse período. (…) Eu já dei um toque na presidenta”.

Pois aí estamos. Com a recente criação da Secretaria da Micro e da Pequena Empresa, cujo futuro titular terá status de ministro, a presidente dispõe de um Ministério colossal, absurdo, gigantesco, talvez o maior Ministério de qualquer país do planeta, excetuadas eventualmente repúblicas corruptas da África, e com certeza o mais numeroso da história “deztepaiz”.

Mostrengo disforme e disfuncional

Não se trata apenas de um Ministério imenso. Pior que isso, a menos que ocorra o que prevê Gerdau, ele parece “imexível”, como diria um ex-ministro de triste memória: o ex-presidento Lula engordou enormemente a cúpula do governo em Brasília para melhor aquinhoar os chamados “partidos da base aliada” no Congresso — a conhecida salada que vai do PC do B ao malufismo, passando por fisiológicos do PMDB e siglas controladas por igrejas evangélicas –, Dilma seguiu adiante e agora é um problemaço político mexer nesse monstrengo disforme e disfuncional.

O Ministério de Dilma, como o do ex-presidento (que tinha 37 ministros), lembra a Hidra de Lerna da mitologia grega. A Hidra aparece no âmbito dos 12 trabalhos de Hércules, o semideus filho (adulterino) de Zeus, o rei dos deuses do Olimpo, com a mulher do rei de Tebas.

Não cabe neste espaço recordar relembrar a complicada história que levou Hércules, em busca de expiação e da imortalidade, a haver-se com uma dúzia de tarefas impossíveis. O fato é que já o segundo trabalho hercúleo consistia em enfrentar a Hidra, monstro aquático de nove cabeças, uma delas imortal.

O desafio era realmente para semideuses: para cada cabeça que o herói conseguia cortar, nasciam mais tantas quantas faltavam para decepar. Hércules, naturalmente, triunfou. Nem a cabeça imortal sobrou.

Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek: presidente realizadores que chegaram a governar com um máximo de 11 ministros

Se fosse uma empresa, o dono ficaria louco

Não é que a presidente não saiba do problema. E não foi preciso o “toque” de Gerdau. Ela conhece perfeitamente o tamanho da encrenca.

Nos cinco anos em que pilotou a Casa Civil e nos quase quatro em que coordenou o tão falado Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a hoje presidente manteve incontáveis encontros e reuniões de trabalho com empresários e executivos de grandes empresas, em vários casos de empresas multinacionais de dimensões gigantescas.

Portanto, a presidente, que é economista, nem precisaria perguntar a um desses seus freqüentes interlocutores se existiria, em suas companhias, alguma chance de dar certo o trato direto com 39 diretores.

Com certeza ouviria, como resposta, que lidar com 39 direct reports é um absurdo que fatalmente conduz a empresa a se tornar empresa burocratizada, hipopotâmica, aparvalhada – sem contar que o CEO, presidente ou dono provavelmente ficaria louco.

Pois um dos segredos do que hoje se considera uma boa governança empresarial consiste, justamente, por meio da delegação e outras formas de gestão, em diminuir o quanto possível o número de interlocutores obrigatórios de cada gestor em seu respectivo nível.

No 1º ano de mandato de Lula, a ministra só despachou uma vez com o presidento

O então presidento Lula acotovelou o máximo de partidos políticos possível no Ministério, em nome da “governabilidade”. Com isso, deixou inteiramente de lado qualquer busca de eficiência da máquina – no caso, a mais numerosa desde a Independência, em 1822. Nem nossos dois imperadores, D. Pedro I e D. Pedro II, dispuseram de tamanho séquito administrativo.

Reunião ministerial do presidente Barack Obama (Foto: Saul Loeb / AFP / Getty Images)

Reunião do presidente Barack Obama: equipe enxuta tocando o país mais rico e poderoso do mundo (Foto: Saul Loeb / AFP / Getty Images)

A multidão de gente elevada à categoria de ministros é tal que alguns raramente despacharam a sós com o presidento. Basta fazer as contas: levando-se em consideração as numerosas viagens ao exterior e os muitíssimos périplos pelo país, Lula, durante seus 8 anos de mandato, passou cerca de um terço de cada ano, ou pouco mais que isso, em Brasília.

Digamos que tenham sido 100, ou até 120 dias úteis por ano. Mesmo que despachasse diariamente com um ministro diferente — o que não ocorreu com Lula –, eles passariam mais de três meses sem contato com o ou a presidente. Não foi por outra razão que, no primeiro ano do primeiro lulalato, 2003, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, mesmo sendo na época politicamente muito próxima a Lula, só despachou com ele uma única vez.

Dilma viaja menos. Ainda assim, é impossível avistar-se com os ministros tête-à-tête com uma frequência minimamente desejável.

Como todos sabemos, Lula sempre gostou de se comparar a presidentes com marca de realizadores, como Getúlio Vargas ou Juscelino Kubitschek. Nunca mencionou, contudo, nem de longe, comparações com o tamanho dos respectivos times.

Getúlio e JK tiveram um máximo de 11 ministros

Não obstante os tempos obviamente sejam outros, e mais complexos, Getúlio, em seus quatro diferentes períodos de governo e 18 anos de poder (de 1930 a 1945 e, depois, de 1951 a 1954), governou com um mínimo de 7 e um máximo de 11 ministros.

JK (1956-1961) contou com 11 ministros, e 5 titulares do que então se chamavam “órgãos de assessoramento”, como os gabinetes Civil e Militar.

E vamos evitar falar de nomes, pelo amor de Deus. Ministros de Getúlio, JK e outros presidentes foram não raro gigantes políticos, que o país conhecia e respeitava.

Quem é capaz de citar o nome de cinco dos 39 ministros atuais?

Praticamente todos os países sérios e maduros são governados por times enxutos. Os presidentes americanos, por exemplo, conseguem tocar adiante a superpotência de 315 milhões de habitantes e uma economia colossal de mais de 15 trilhões de dólares com 15 ministros. A chanceler Angela Merkel conduz a Alemanha, quarta maior economia do planeta e país mais rico e importante da Europa, com 17 ministros — em sua primeira gestão, eram 15.

É claro que a eficiência de uma máquina pública não se mede apenas pelas dimensões do Ministério. Entretanto, o primeiro e grande empecilho para que ela ande a contento é o tamanho exagerado — que Lula não levou em conta durante o primeiro mandato, continuou a fazê-lo no segundo e que a “gerentona” Dilma ainda conseguiu engordar mais.

04/10/2014

às 17:30 \ Política & Cia

VÍDEO: Vejam a monumental bobagem que Lula disse no programa de Tarso Genro (RS), candidato à reeleição no RS. Uma vez mais, o ex-presidento mostra sua pétrea, compacta, espantosa ignorância

Viram o vídeo?

Ouviram Lula dizer que jornalista não dá certo em postos do Executivo?

O trecho, caso muitos de vocês não tenham tido paciência de ir até o fim do vídeo, diz o seguinte:

“O povo gaúcho tem uma consciência acima da média da consciência política do povo brasileiro. Por que estou dizendo isso? Porque eu não conheço dentro do Brasil pessoas que eram importantes no meio de comunicação darem certo em Poder Executivo”, disse o ex-presidento, na TV.

E acrescentou: “[São] pessoas que passaram a vida inteira só perguntando, só perguntando”.

O que não se diz de besteira para tentar ganhar uma eleição, não? No caso, Lula tentava desqualificar a senadora Ana Amélia (PP), jornalista de profissão e candidata que disputa vaga no segundo turno da eleição para o governo do Rio Grande do Sul com o petista Tarso Genro e José Ivo Sartori (PMDB). Ana Amélia tem larga experiência em jornais e televisão. Ao lado de Lula, Tarso concordou.

Tudo bem que Lula se referiu ao Brasil, mas o ex-presidento mostra, como sempre que se atreve a ditar regras fora de seu milimétrico círculo de conhecimento, uma sesquipedal ignorância.

Será que, em se tratando de Brasil, ele nunca ouviu falar do jornalista e também fundador e dono de jornal Carlos Lacerda — sim, o mesmo tribuno implacável (e golpista) que, como deputado, ajudou a levar Getúlio Vargas ao suicídio, em 1954, depois teve alguma participação na renúncia de Jânio, em 1961, que conspirou para o golpe militar de 1964 e depois terminaria sendo cassado para, mais à frente, estender a mão a inimigos do passado, como o deposto presidente João Goulart e o ex-presidente Juscelino Kubitschek, em uma Frente Ampla para restaurar a democracia no país?

Lacerda, ainda em seu primeiro ano de governo, comparece a um congresso internacional de odontologia: até inimigos reconhecem o grande administrados que foi -- "apesar" de ser jornalista (Foto: Aborj)

Lacerda, ainda em seu primeiro ano de governo, comparece a um congresso internacional de odontologia: até inimigos reconhecem o grande administrados que foi — “apesar” de ser jornalista (Foto: Aborj)

Pois bem, o jornalista Carlos Lacerda, goste-se ou não dele e de sua atuação, foi um extraordinário governador do então Estado da Guanabara, entre 1961 e 1965. Depois do celebrado prefeito Pereira Passos (1902-1906), que transformou de forma radical a paisagem urbana do Rio de Janeiro sob o mandato do presidente Rodrigues Alves, Lacerda como governador da cidade-Estado seria de longe o maior administração da ex-capital da Repúbica até então — nem seus inimigos negam isso.

Lula, que só sabe História do Brasil — o pouco que sabe — de orelhada, também mostrou ignorar por completo que o presidente Café Filho, que conseguiu o milagre de governar o país após o impacto terrível que foi o suicídio de Vargas e ocupou o Palácio do Catete por 15 meses, era um jornalista que acabou absorvido pela política.

Vejam o que diz do Café Filho jornalista o site do renomado Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), provavelmente o mais completo e respeitado arquivo do gênero no país:

O presidente Café Filho discursa na inauguração da Refinaria de Cubatão (SP): jornalista que conduziu o país no período dificílimo após o suicídio de Getúlio (Foto: Acervo Refinaria Presidente Bernardes)

O presidente Café Filho discursa na inauguração da Refinaria de Cubatão (SP): jornalista que conduziu o país no período dificílimo após o suicídio de Getúlio (Foto: Acervo Refinaria Presidente Bernardes)

“A atividade regular de Café Filho no campo do jornalismo começou em 1921, quando fundou [em Natal, no Rio Grande do Norte, onde nasceu] o Jornal do Norte. Mudou-se para Recife em 1925, tornando-se diretor do jornal A Noite. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1929, tornando-se redator do jornal A Manhã. Durante a Revolução de 1930, Café Filho transferiu-se para o Rio Grande do Norte, onde foi nomeado chefe de polícia”.

Que tal?

Se olharmos para fora do país, então, pobre Lula.

Sabem quem foi jornalista, para começo de conversa? Sir Winston Churchill, o primeiro-ministro britânico que peitou sozinho durante mais de dois anos a duríssima luta contra a Alemanha nazista até a entrada dos Estados Unidos e da União Soviética na II Guerra Mundial — que seria consagrado como um dos maiores estadistas do século XX (para alguns, o maior), e que governou por nove anos, em duas passagens, o Reino Unido.

Churchill foi jornalista da pesada, começando por fazer de tudo como como correspondente de guerra, desde cobrir a luta do império espanhol contra guerrilheiros em Cuba, em 1895, para o hoje extinto jornal Daily Graphic, até aproveitar sua experiência de tenente de cavalaria no histórico 4º Regimento de Hussardos em guerras tribais na então fronteira noroeste da Índia (hoje Paquistão) para enviar despachos ao centenário The Daily Telegraph e para o hoje inexistente The Pioneer — material tão vasto que, depois, seria compilado em seu primeiro livro.

Mal retornado da Índia, Churchill foi enviado como correspondente de outro jornal, o Morning Post, para cobrir a Guerra dos Boers, movida pelos britânicos contra os colonizadores afrikaners, descendentes de holandeses, na África do Sul (1899-1902).

"Sir" Winston Churchill, o "buldogue inglês", em seu gabinete no número 10 da Downing Street, em Londres, em plena II Guerra -- em 1940. A foto é do legendário Cecil Beaton

“Sir” Winston Churchill, o “buldogue inglês”, em seu gabinete no número 10 da Downing Street, em Londres, em plena II Guerra — em 1940. A foto é do legendário Cecil Beaton

Churchill, que fez brilhante carreira militar e depois ingressou na política para outra carreira extraordinária, nunca deixou de escrever para jornais e revistas durante a vida, sem contar, naturalmente, os mais de quarenta livros que publicou, inclusive o monumental A Segunda Guerra Mundial, em seis volumes, um clássico. Mestre do idioma inglês, não por acaso receberia o Prêmio Nobel de Literatura em 1953.

Quem quiser conferir a trajetória desse “jornalista incompetente para o Executivo”, como Lula provavelmente o qualificaria, pode chegar neste link, neste outro aqui ou em mais este.

Ah, esta é também para Lula: caro ex-presidento, sabe outra mediocridade tenebrosa que foi jornalista?

O Mahatma Gandhi, libertador da Índia. O blog poderia fornecer uma centena de links, mas este aqui basta para mostrar algo da carreira, na África do Sul e na Índia, do jornalista Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948).

Acho que chega, não é mesmo?

28/08/2014

às 14:00 \ Política & Cia

Garotinho aconselha Dilma a ‘não se apavorar’

Dilma Rousseff almoça com Anthony Garotinho em restaurante popular no Rio de Janeiro (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)

Dilma Rousseff almoça com Anthony Garotinho em restaurante popular no Rio de Janeiro (Foto: Ricardo Moraes/Reuters)

Por Daniel Haidar, do Rio de Janeiro, para o site de VEJA

Depois de almoçar em um restaurante popular com a presidente-candidata Dilma Rousseff, o ex-governador do Rio de Janeiro Anthony Garotinho (PR) disse, em conversa com jornalistas, que poderia dar alguns conselhos para a petista.

“O melhor conselho que alguém dá nessa hora é não se apavorar com nada. Ter calma. Se eu fosse ouvir muitas pessoas, não tinha nem sido candidato. Tudo muda”, afirmou Garotinho, que aparece em primeiro lugar na pesquisa Ibope, com 28% das intenções de voto.

Com uma derrota na corrida presidencial, em 2002 pelo PSB, e um histórico de alta rejeição na Zona Sul da capital fluminense, Garotinho falou em tom professoral que o eleitorado carioca é historicamente dividido.

“O Rio foi palco do episódio mais dramático da política brasileira, que foi o suicídio de Getúlio Vargas. Então existe uma ala da cidade que é lacerdista inveterada. Tudo que se pareça com povo, trabalhismo, Brizola, Jango (João Goulart), ela rejeita. E há outra área, que é esta aqui, na Zona Oeste, que é getulista, trabalhista e tudo que parece com Brizola ela acolhe. Eu sou assim”, afirmou, usando a histórica disputa entre Carlos Lacerda e Getúlio Vargas para definir o quadro atual.

24/08/2014

às 18:00 \ Política & Cia

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO: A cada 30 anos, o sr. Absurdo da Silva bate ponto, com estardalhaço, na política brasileira

(Foto: Reprodução/Facebook)

Como aconteceu com Getúlio Vargas e Tancredo Neves, uma situação absurda matou Eduardo Campos. Seu quinto filho, Miguel, teve a sorte de nascer na família certa, diz Roberto Pompeu de Toledo (Foto: Reprodução/Facebook)

O CÉU É O LIMITE

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

Roberto-Pompeu-de-ToledoA cada trinta anos, com margem de erro nunca superior a alguns poucos meses, o sr. Absurdo da Silva bate ponto, com o característico estardalhaço, na política brasileira.

Por obra sua, em agosto de 1954, o senhor que então ocupava o Palácio do Catete saiu de uma exaustiva reunião fazendo crer que se licenciava do cargo para, poucas horas depois, amanhecer morto, com uma mancha vermelha no pijama a denunciar o tiro que desferira no coração.

Em março de 1985, observada a aludida margem de erro, pregou uma peça no senhor que no dia seguinte ocuparia o Palácio da Alvorada. Forçou-o, em vez disso, a internar-se num hospital, acometido do mal que o mataria no mês seguinte.

Na semana passada, com a brutalidade que também lhe é característica, roubou a vida de uma jovem promessa da vida pública brasileira e fez a campanha eleitoral para a Presidência voltar à estaca zero.

Os dois primeiros eventos envolvem diretamente a Presidência da República, não uma candidatura, e por isso têm peso histórico maior. Iguala os três, no entanto, uma outra característica das intervenções do Absurdo da Silva: deixar à sua passagem um fortíssimo rastro emocional.

Ao clima de choque com a notícia seguem-se enterros históricos. Foi assim no caso de Getúlio Vargas, a vítima de 1954, assim no de Tancredo Neves, a de 1985, e não há dúvida de que no caso de Eduardo Campos, o sorteado de 2014, ocorrerá o mesmo (esta coluna está sendo escrita quando ainda transcorrem os trabalhos de reconhecimento dos corpos das vítimas do acidente aéreo de Santos).

Sendo Absurdo da Silva primo-irmão do Sobrenatural de Almeida, o clima emocional pode operar milagres. Getúlio Vargas re­colheu-se a seus aposentos, naquele dia, como um cadáver político – abandonado, vilipendiado, humilhado e sem chance de redenção. Ao amanhecer cadáver de verdade, assestou golpe de mestre nos adversários e garantiu-se o lugar de martirizado por uma causa perante a posteridade.

A morte de Eduardo Campos já provocou, se não um milagre, uma primeira grande reviravolta na campanha eleitoral, e pode provocar uma segunda.

A primeira reviravolta foi fazê-lo superar, embora da pior maneira possível, o maior dos desafios que tinha pela frente: tornar-se conhecido. Esse era o motivo pelo qual dormia tão pouco e tanto voava, nestes últimos tempos. Hoje provavelmente superou a todos, até a própria presidente da República, como o candidato mais conhecido da população.

A segunda e mais espetacular reviravolta esboça-se no horizonte com o impulso que, morto, pode dar à provável sucessora na candidatura presidencial, a ex-senadora Marina Silva. Quando se formou a surpreendente chapa com Eduardo Campos para presidente e Marina para vice, a expectativa era que Marina, com seus 20% dos votos na eleição passada, alavancaria as pretensões de Campos.

Inverte-se agora o quadro, e a memória e o martírio de Eduardo Campos fazem-se de poderosos multiplicadores do potencial de Marina.

Há problemas no caminho. Se Marina fazia um par afinado com Campos, é notória a desafinação com o partido dele, o Socialista, no qual ela se abrigou por mera conveniência, derrotadas suas pretensões de criar o próprio partido.

Caso tal estado de coisas impeça a promoção da vice à cabeça da chapa, está pronto o caminho para uma dupla auto­imolação: a das aspirações de Marina à Presidência e a do PSB a um papel maior do que o de eterno coadjuvante. Caso se confirme a candidatura de Marina, teremos uma campanha na TV que começará com cenas de Eduardo Campos em ação, lembrará sua sorte ingrata e terá sua figura a servir de fundo à nova candidata.

Daí em diante, com o reforço do Sobrenatural de Almeida à ação do Absurdo da Silva, o céu é o limite.

Resta uma palavra sobre o Miguel. Miguel é o bebê de 7 meses que Eduardo Campos deixa órfão de pai, o caçula de seus cinco filhos. Quando ele nasceu, Eduardo Campos escreveu no Facebook: “Hoje os médicos confirmaram o que já estava pré­diagnosticado havia algum tempo. Miguel, entre outras características que o fazem especial, nasceu com a síndrome de Down. Seja bem-vindo, querido Miguel. Como disse seu irmão, você nasceu na família certa”.

Um pai e uma família que recebem com tanta alegria um filho com síndrome de Down merecem respeito e admiração. Miguel nasceu mesmo na família certa.

23/08/2014

às 17:30 \ Livros & Filmes

DICA DE LEITURA — Incrível: terceiro e último volume da biografia de Getúlio mostra que durante mais de 20 anos ele contemplou o suicídio como forma de vencer a derrota

A SAÍDA HONROSA — No Aeroporto Santos Dumont, na então capital federal, Getúlio embarca para uma etapa da campanha presidencial de 1950: quatro anos mais tarde, tendo voltado pelo voto à trincheira que antes conquistara pelas armas, o presidente se convenceu de que o atentado contra Carlos Lacerda selaria sua ignomínia. Cumpriu então a promessa de suicídio com que tantas vezes acenara a si mesmo (Foto: Fundação Getúlio Vargas/FGV)

A SAÍDA HONROSA — No Aeroporto Santos Dumont, na então capital federal, Getúlio embarca para uma etapa da campanha presidencial de 1950: quatro anos mais tarde, tendo voltado pelo voto à trincheira que antes conquistara pelas armas, o presidente se convenceu de que o atentado contra Carlos Lacerda selaria sua ignomínia. Cumpriu então a promessa de suicídio com que tantas vezes acenara a si mesmo (Foto: Fundação Getúlio Vargas/FGV)

UMA TRAGÉDIA ANUNCIADA

O último volume da biografia de Lira Neto confirma que, havia mais de duas décadas, Getúlio Vargas contemplava o suicídio como única forma de vencer a derrota

Resenha de Augusto Nunes publicada em edição impressa de VEJA

Sozinho em seu labirinto, o maior ator da política brasileira ensaiou pelo menos cinco vezes, ao longo de 24 anos, o desfecho da tragédia incomparável.

Cartas, anotações e bilhetes enfileirados pelo biógrafo Lira Neto comprovam, já no capítulo de abertura do terceiro e último volume de Getúlio 1945-1954 (Companhia das Letras; 430 páginas; 49,50 reais, ou 34,50 reais na versão eletrônica), que o protagonista do drama encerrado em 24 de agosto de 1954, quando apertou o gatilho do Colt 32, já costumava levar a mão ao coldre sempre que entrevia o fantasma da derrota irreversível – e, por trás dela, as humilhações reservadas aos apeados do poder.

Getúlio Dornelles Vargas sempre enxergou no suicídio a única forma de sobreviver à morte física, antecipar-se à vingança do inimigo vitorioso e seguir existindo na memória popular. Para o gaúcho de São Borja, nascido e criado em paragens conflagradas por duas guerras civis e antagonismos ferozes, a abreviação voluntária da vida não era a rendição que interrompe o confronto. Era a senha para o contra-ataque que desencadeia a guerra póstuma.

“E se perdermos?”, perguntou-se Getúlio num manuscrito datado de 3 de outubro de 1930, horas depois da deflagração do movimento armado que o levaria ao coração do poder. A resposta (“Sinto que só o sacrifício da vida poderá resgatar o erro de um fracasso”) seria repetida, com variações na forma que em nada afetam o conteúdo, em 10 de julho de 1932, quando registrou em uma carta o início da Revolução Constitucionalista, e em 19 de janeiro de 1942, ao optar pela adesão aos Aliados na II Guerra Mundial.

Nos três episódios, a vitória interrompeu o flerte com a morte – que seria retomado em abril de 1945, quando se multiplicaram as evidências de que a cúpula do Exército tramava a deposição do ditador.

“Estou resolvido ao sacrifício para que ele fique como um protesto, marcando a consciência dos traidores”, avisou. Desta vez, não cumpriu a promessa por acreditar que não fora liquidado politicamente. As urnas logo gritariam que o genial intuitivo estava certo.

Os adversários triunfantes ainda decoravam o nome das secretárias quando, com uma declaração de apoio divulgada a quatro dias do pleito, ele implodiu o favoritismo de Eduardo Gomes e garantiu a chegada de Eurico Dutra à Presidência da República.

Meses mais tarde, Getúlio elegeu-se senador por São Paulo e pelo Rio Grande do Sul, além de deputado federal por seis Estados. À impressionante demonstração de força, contudo, seguiu-se a confirmação de que não exagerava ao avaliar a extensão e a intensidade dos ódios acumulados ao longo dos quinze anos em que governou o país.

Bastaram algumas sessões, todas tumultuadas pelo som da fúria, para que desistisse de aparecer no Congresso, então no Rio de Janeiro. Não fez nenhum discurso nem apresentou projeto algum. Transformado pela bancada oposicionista em tema único dos virulentos comícios diários, retirou-se para a estância em São Borja. Ali, ao saber que os inimigos queriam castigá-lo com o desterro, escreveu a quinta mensagem de despedida. Afastada a ameaça, aproveitou a trégua para planejar o regresso ao Palácio do Catete.

Antes de optar pelo reinício da guerra, consultou apenas a filha Alzira. Amparado nas revelações que hibernam nos originais do segundo e ainda inédito livro de memórias da autora de Getúlio Vargas, Meu Pai, Lira Neto constata que Alzira foi a única confidente de um introspectivo visceral.

Numa das cartas trocadas entre a filha que chamava de “Ge” o pai que a tratava por “Rapariguinha”, Getúlio enumera os perigos que espreitavam todos os caminhos possíveis e pede a opinião da destinatária na última linha: “Que pensas?”. Admiravelmente precisas e argutas, as considerações de Alzira convenceram a esfinge de que era hora de regressar pela rota do voto à trincheira que havia conquistado pela trilha da insurreição armada.

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Ao lado da exposição da face mórbida de um sedutor de multidões, a relação entre pai e filha figura entre os momentos especialmente luminosos da obra que, ao reconstituir exemplarmente a trajetória do homem que empunhou por quase vinte anos o bastão de mando, incorporou Lira Neto à tropa de elite dos biógrafos brasileiros.

“Da volta pela consagração popular ao suicídio”, resume o subtítulo do volume que exuma o período que vai de 1945 a 1954, provavelmente o mais instável, perturbador e sombrio do Brasil republicano. A temperatura política sempre roçando o ponto de combustão, o primitivismo da democracia ainda no berço e a selvageria eleitoral escancaram já nas primeiras páginas a inevitabilidade do final infeliz.

Em agosto de 1954, quando se conformara em sonhar apenas com a conclusão do mandato, Getúlio foi surpreendido pelo atentado contra Carlos Lacerda e entendeu que a 25ª hora chegara. Fundiu as mensagens pressagas na cartatestamento, o mais belo e comovente adeus produzido por um político.

Ninguém suspeitou da partida iminente, nem mesmo Alzira Vargas. Às 8 e meia da manhã, fechou a porta do quarto para abrir a bala, dois minutos depois, a porta de entrada na História.

16/08/2014

às 20:00 \ Política & Cia

A morte de Eduardo Campos é uma séria perda no processo de renovação generacional da política brasileira

(Foto: Carla Carniel/Frame/Estadão Conteúdo)

“Eduardo Campos já se formou em outra atmosfera, com menos intolerâncias, uma virtude” (Foto: Carla Carniel/Frame/Estadão Conteúdo)

A política brasileira sem Eduardo Campos

A morte do candidato do PSB tem o aspecto grave, entre outros, de representar uma perda séria no processo de renovação geracional na política brasileira

Editorial publicado no jornal O Globo

A morte de Eduardo Campos, num desastre aéreo em Santos, passa a constar das grandes tragédias ocorridas na política brasileira, em que líderes desapareceram de maneira traumática.

Entre elas, há o suicídio de Getúlio Vargas — também em agosto, mês de má fama na crônica da política nacional —, o desastre automobilístico de que Juscelino Kubitschek foi vítima, o desaparecimento no mar de Ulysses Guimarães e Severo Gomes, além do drama da morte de Tancredo Neves, eleito numa eleição indireta, mas com apoio popular, e que não conseguiu subir a rampa do Planalto.

O desaparecimento de Eduardo Campos tem, entre outros, o aspecto grave de representar uma perda séria no processo de renovação geracional da política brasileira. Com 49 anos, neto de Miguel Arraes, histórico político pernambucano, Campos se firmava como uma liderança que permaneceria no cenário nacional, mesmo se não saísse vitorioso nas urnas de outubro, ainda que sequer fosse ao segundo turno.

Não há dúvida que a campanha de 2014 projetaria o candidato, ex-governador de Pernambuco, presidente do PSB, para além das fronteiras do seu Estado e do Nordeste.

A perda de um político jovem, com capacidade de liderança — independentemente de partido e ideologia —, tem característica negativa especial num país que passou 21 anos numa ditadura militar (1964-1985), sem portanto formar quadros num ambiente institucional de liberdades.

Por este motivo, a política brasileira retomou a atividade na democracia ainda com lideranças das décadas de 1950 e 60. O apagão causado pela ditadura na prática impediu a formação de quase uma geração de políticos.

Os sobreviventes do regime militar desenvolveram virtudes, mas também deformações, cultivadas na resistência ao arbítrio. Eduardo Campos já se formou em outra atmosfera, com menos intolerâncias – uma virtude.

A aliança que lhe propôs Marina Silva, depois de não conseguir registrar seu partido Rede, foi prontamente aceita. O ato abriu-lhe novos espaços, os quais ele ocupava com habilidade, aparando arestas criadas pelas dificuldades previsíveis na articulação de propostas do PSB com a plataforma ambientalista da Rede, com a qual Marina atraiu dissidentes do Partido Verde, entre outros.

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27/07/2014

às 15:00 \ Política & Cia

Fernão Mesquita, a propósito do aniversário da Revolução de 1932: “São Paulo resistiu sozinho a Getúlio; São Paulo vem resistindo quase sozinho ao PT”

(Foto: Arquivo/AE)

Getúlio Vargas adiou a convocação de uma Constituinte e nomeou títeres como governadores dos Estados até que São Paulo se levantasse contra sua ditadura não declarada, a 9 de julho de 1932 (Foto: Arquivo/Agência Estado)

Que fique bem claro: publico com gosto o excelente artigo do jornalista Fernão Mesquita, mas discordo inteiramente dele no trecho em que aborda o que chama de “contragolpe de 1964″.

Texto de Fernão Lara Mesquita publicado no jornal O Estado de S. Paulo

São Paulo comemorou este mês o 82.º aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932, que muito pouca gente, no Estado e no resto do Brasil, sabe o que foi. É impróprio, aliás, usar verbos no passado para tratar deste assunto, pois a luta de 1932, que começara pelo menos 50 anos antes com o Movimento Abolicionista, que desaguou na República e se confunde com a história do jornal O Estado de S. Paulo, é exatamente a mesma de hoje.

Gira em torno da seguinte pergunta: onde se quer instalar a sociedade brasileira emancipada, no campo da civilização ou no da barbárie?

No Estado de Direito, com a lei igual para todos, ou nas variações do caudilhismo populista, onde fala quem pode e obedece quem tem juízo?

Numa meritocracia, em que só a educação e a dedicação no trabalho legitimam a diferença, ou no sistema em que a cooptação e a cumplicidade com a corrupção são os únicos caminhos para o poder e para a afluência?

O Movimento Abolicionista é o primeiro na história do Brasil a surgir nas ruas, não nos palácios, e a tomar o país inteiro numa avassaladora mobilização cívica. Nasceu sob inspiração direta da Revolução Americana.

Muitos de seus principais líderes brancos e negros frequentaram as mesmas “lojas maçônicas” lá, nos Estados Unidos, onde a elite do Iluminismo fugida do absolutismo monárquico europeu, regime sob o qual viviam o Brasil e o resto do mundo de então, iniciou o debate que resultaria no desenho das instituições da democracia moderna.

Tratava-se de uma humanidade escaldada por 2 mil anos dormindo sob o risco de sua majestade acordar de mau humor e mandar torturá-la até a morte sem ter de dar explicações a ninguém.

Para garantir que nunca mais fosse assim, aqueles conspiradores estabeleceram os princípios fundamentais da democracia que até hoje não se instalou por aqui: o império incontestável da lei, inclusive e principalmente sobre os governantes; a vontade popular, democraticamente aferida, como única fonte de legitimação dessa lei, e o mérito no trabalho como única fonte de legitimação do poder econômico; a descentralização do poder para garantir a fiscalização mais direta possível dos representados sobre os representantes, concentrando nos municípios todas as decisões e os serviços públicos que pudessem ser prestados no âmbito deles; nos Estados, apenas as que se referissem aos assuntos que envolvessem mais de um município; e na União, só as que não pudessem ser resolvidos por essas duas instâncias, mais as relações internacionais.

Para reduzir ainda mais o espaço para que as tentações do mando não produzissem os efeitos que sempre produzem no caráter dos homens, determinou-se que cada uma dessas instâncias de governo fosse dividida em três Poderes autônomos e independentes entre si, uns encarregados de fiscalizar os atos dos outros.

Não foi à toa, portanto, que os brasileiros oprimidos que testemunharam esse verdadeiro milagre se tivessem encantado a ponto de dedicar sua vida a fazê-lo acontecer também no Brasil.

Foi em nome desses princípios que nasceu a República. E foi para preservá-los que foram feitas a Revolução de 1930, a Revolução de 1932, a redemocratização de 1945, o contragolpe de 1964 e a redemocratização de 1985.

"Getúlio criou os sindicatos pelegos sustentados pelo estado; Lula e o PT são o produto direto deles" (Foto: Arquivo/AE)

“Getúlio criou os sindicatos pelegos sustentados pelo estado; Lula e o PT são o produto direto deles” (Foto: Arquivo/AE)

Getúlio traiu, como Lula, a bandeira da “ética na política”, que levou os dois ao poder, em 1930 e em 2002. Getúlio, adiando a convocação de uma Constituinte e nomeando títeres como governadores dos Estados até que São Paulo se levantasse contra a sua ditadura não declarada, em 1932; Lula, aliando-se a todos os “carcomidos” da política, que se elegeu atacando, para se perenizar no poder.

Foram 87 dias de uma guerra desigual contra os Exércitos da União. São Paulo foi derrotado militarmente, mas teve uma vitória moral tão indiscutível que Getúlio, depois de devolver o governo do Estado a lideranças paulistas (na pessoa de Armando Salles de Oliveira), sentiu-se constrangido a convocar finalmente a Constituinte que deu ao Brasil, em 1934, a única Constituição verdadeiramente democrática que o país teve.

Tão democrática que o caudilho não conseguiu conviver com ela e “fechou” o país, em 1937, impondo a sua própria lei e reinstalando a ditadura. Um movimento semelhante ao que o PT repetiu agora com o Decreto 8.243, que segue vigendo, recorde-se, e determina que nossas leis passarão a ser feitas não mais exclusivamente por um Congresso legitimado pelo voto de todos os brasileiros, mas pelos “movimentos sociais” que o partido escolher.

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22/07/2014

às 15:00 \ Política & Cia

OLIVEIROS FERREIRA: O governo negocia com baderneiros — mas deveria saber que o Estado não recua

(Foto: VEJA.com)

Ao negociar com os baderneiros black blocs como os da foto, que deveriam ter sido autuadas pela Polícia Civil e processados pela Justiça, Gilberto Carvalho não apenas deixou claro que o poder recuou, mas que o crime pode compensar (Foto: VEJA.com)

O GOVERNO DEVERIA SABER QUE O ESTADO NÃO RECUA

Texto de Oliveiros S. Ferreira

A crise do Estado, a que me refiro com frequência, pode dar-se como explosão. Na França, o pavio foi aceso na greve da Gendarmaria sob o governo Guy Mollet. A bomba explodiu na ação dos paraquedistas na Argélia, em 1958. Depois, enfrentando outra revolta, o General De Gaulle proclamou: “O poder não recua!” ─ e venceu!

A crise pode também dar-se silenciosamente, como no Brasil de hoje, ainda que o pavio tenha sido aceso na renúncia de Jânio em 1961 e um petardo haja explodido em 1964 sem grandes efeitos: o velho edifício social e político permaneceu intocado, afora pequenas emendas para tornar sua fachada mais bonita.

Hoje, a crise, silenciosa, corrói lentamente não apenas as instituições, mas também ─ o que é mais grave ─ as mentalidades.

Muito bem. Foi um general quem disse que o poder não recua. Mas De Gaulle não era só um general; era, sim, presidente da República, eleito pelo voto popular. Sufragado para manter o Estado uno e indivisível — soberano!

No Brasil não se pensa no Estado; cuida-se do governo e de como conservar o pequeno poder que ele dá a qualquer presidente que se instale no Planalto.

Tomemos dois casos que, aparentemente desconexos, traduzem idêntica realidade.

O secretário-geral da Presidência da República resolveu parlamentar com os black blocs para tentar evitar outras manifestações no estilo que esse grupo adota. O resultado ─ afora o rolo de papel higiênico que lhe jogaram para que entrasse no Itaquerão ─ foi nulo. Mas, se somos o governo, aplaudiremos que se tenha evidenciado que respeitamos as manifestações populares, somos contra a repressão da PM de São Paulo e queremos resolver o problema com negociação civilizada.

Os black blocs pensarão diferente: o poder recuou, e podemos continuar nossa atividade, pois contaremos sempre com boa vontade!

(Foto: AFP/Getty Images)

General De Gaulle: “O poder não recua!”(Foto: AFP/Getty Images)

O fato em si, teorias à parte, é que o Poder Executivo negociou com particulares que violaram a lei e provocaram, com sua organização, não só a perturbação da ordem e do sossego públicos como danos ao patrimônio privado e público.

Ao negociar com particulares que deveriam ter sido autuados pela Polícia Civil e processados pela Justiça, o secretário-geral não apenas deixou claro que o poder recuou, mas que o crime pode compensar. Ou as ações dos black blocs não estão capituladas como crime no Código Penal?

O outro fato, talvez mais grave, pois denota quem deveria, para sua segurança, cuidar da ordem deixou-se levar pelo que hoje parece ser a moda politicamente correta: se a livre manifestação é livre, a PM que se recolha aos quartéis até que seja fundida com a Polícia Civil (e seria fundida sem hierarquia?).

Trata-se de folheto que editado por Protestos.org sob a chancela da FGV ─ veementemente repudiado por esta instituição ─ ensina aos manifestantes em geral como proceder para evitar ser identificados pela repressão e processados ─ que usem máscaras! » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

 

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