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Getúlio Vargas

16/08/2014

às 20:00 \ Política & Cia

A morte de Eduardo Campos é uma séria perda no processo de renovação generacional da política brasileira

(Foto: Carla Carniel/Frame/Estadão Conteúdo)

“Eduardo Campos já se formou em outra atmosfera, com menos intolerâncias, uma virtude” (Foto: Carla Carniel/Frame/Estadão Conteúdo)

A política brasileira sem Eduardo Campos

A morte do candidato do PSB tem o aspecto grave, entre outros, de representar uma perda séria no processo de renovação geracional na política brasileira

Editorial publicado no jornal O Globo

A morte de Eduardo Campos, num desastre aéreo em Santos, passa a constar das grandes tragédias ocorridas na política brasileira, em que líderes desapareceram de maneira traumática.

Entre elas, há o suicídio de Getúlio Vargas — também em agosto, mês de má fama na crônica da política nacional —, o desastre automobilístico de que Juscelino Kubitschek foi vítima, o desaparecimento no mar de Ulysses Guimarães e Severo Gomes, além do drama da morte de Tancredo Neves, eleito numa eleição indireta, mas com apoio popular, e que não conseguiu subir a rampa do Planalto.

O desaparecimento de Eduardo Campos tem, entre outros, o aspecto grave de representar uma perda séria no processo de renovação geracional da política brasileira. Com 49 anos, neto de Miguel Arraes, histórico político pernambucano, Campos se firmava como uma liderança que permaneceria no cenário nacional, mesmo se não saísse vitorioso nas urnas de outubro, ainda que sequer fosse ao segundo turno.

Não há dúvida que a campanha de 2014 projetaria o candidato, ex-governador de Pernambuco, presidente do PSB, para além das fronteiras do seu Estado e do Nordeste.

A perda de um político jovem, com capacidade de liderança — independentemente de partido e ideologia —, tem característica negativa especial num país que passou 21 anos numa ditadura militar (1964-1985), sem portanto formar quadros num ambiente institucional de liberdades.

Por este motivo, a política brasileira retomou a atividade na democracia ainda com lideranças das décadas de 1950 e 60. O apagão causado pela ditadura na prática impediu a formação de quase uma geração de políticos.

Os sobreviventes do regime militar desenvolveram virtudes, mas também deformações, cultivadas na resistência ao arbítrio. Eduardo Campos já se formou em outra atmosfera, com menos intolerâncias – uma virtude.

A aliança que lhe propôs Marina Silva, depois de não conseguir registrar seu partido Rede, foi prontamente aceita. O ato abriu-lhe novos espaços, os quais ele ocupava com habilidade, aparando arestas criadas pelas dificuldades previsíveis na articulação de propostas do PSB com a plataforma ambientalista da Rede, com a qual Marina atraiu dissidentes do Partido Verde, entre outros.

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27/07/2014

às 15:00 \ Política & Cia

Fernão Mesquita, a propósito do aniversário da Revolução de 1932: “São Paulo resistiu sozinho a Getúlio; São Paulo vem resistindo quase sozinho ao PT”

(Foto: Arquivo/AE)

Getúlio Vargas adiou a convocação de uma Constituinte e nomeou títeres como governadores dos Estados até que São Paulo se levantasse contra sua ditadura não declarada, a 9 de julho de 1932 (Foto: Arquivo/Agência Estado)

Que fique bem claro: publico com gosto o excelente artigo do jornalista Fernão Mesquita, mas discordo inteiramente dele no trecho em que aborda o que chama de “contragolpe de 1964″.

Texto de Fernão Lara Mesquita publicado no jornal O Estado de S. Paulo

São Paulo comemorou este mês o 82.º aniversário da Revolução Constitucionalista de 1932, que muito pouca gente, no Estado e no resto do Brasil, sabe o que foi. É impróprio, aliás, usar verbos no passado para tratar deste assunto, pois a luta de 1932, que começara pelo menos 50 anos antes com o Movimento Abolicionista, que desaguou na República e se confunde com a história do jornal O Estado de S. Paulo, é exatamente a mesma de hoje.

Gira em torno da seguinte pergunta: onde se quer instalar a sociedade brasileira emancipada, no campo da civilização ou no da barbárie?

No Estado de Direito, com a lei igual para todos, ou nas variações do caudilhismo populista, onde fala quem pode e obedece quem tem juízo?

Numa meritocracia, em que só a educação e a dedicação no trabalho legitimam a diferença, ou no sistema em que a cooptação e a cumplicidade com a corrupção são os únicos caminhos para o poder e para a afluência?

O Movimento Abolicionista é o primeiro na história do Brasil a surgir nas ruas, não nos palácios, e a tomar o país inteiro numa avassaladora mobilização cívica. Nasceu sob inspiração direta da Revolução Americana.

Muitos de seus principais líderes brancos e negros frequentaram as mesmas “lojas maçônicas” lá, nos Estados Unidos, onde a elite do Iluminismo fugida do absolutismo monárquico europeu, regime sob o qual viviam o Brasil e o resto do mundo de então, iniciou o debate que resultaria no desenho das instituições da democracia moderna.

Tratava-se de uma humanidade escaldada por 2 mil anos dormindo sob o risco de sua majestade acordar de mau humor e mandar torturá-la até a morte sem ter de dar explicações a ninguém.

Para garantir que nunca mais fosse assim, aqueles conspiradores estabeleceram os princípios fundamentais da democracia que até hoje não se instalou por aqui: o império incontestável da lei, inclusive e principalmente sobre os governantes; a vontade popular, democraticamente aferida, como única fonte de legitimação dessa lei, e o mérito no trabalho como única fonte de legitimação do poder econômico; a descentralização do poder para garantir a fiscalização mais direta possível dos representados sobre os representantes, concentrando nos municípios todas as decisões e os serviços públicos que pudessem ser prestados no âmbito deles; nos Estados, apenas as que se referissem aos assuntos que envolvessem mais de um município; e na União, só as que não pudessem ser resolvidos por essas duas instâncias, mais as relações internacionais.

Para reduzir ainda mais o espaço para que as tentações do mando não produzissem os efeitos que sempre produzem no caráter dos homens, determinou-se que cada uma dessas instâncias de governo fosse dividida em três Poderes autônomos e independentes entre si, uns encarregados de fiscalizar os atos dos outros.

Não foi à toa, portanto, que os brasileiros oprimidos que testemunharam esse verdadeiro milagre se tivessem encantado a ponto de dedicar sua vida a fazê-lo acontecer também no Brasil.

Foi em nome desses princípios que nasceu a República. E foi para preservá-los que foram feitas a Revolução de 1930, a Revolução de 1932, a redemocratização de 1945, o contragolpe de 1964 e a redemocratização de 1985.

"Getúlio criou os sindicatos pelegos sustentados pelo estado; Lula e o PT são o produto direto deles" (Foto: Arquivo/AE)

“Getúlio criou os sindicatos pelegos sustentados pelo estado; Lula e o PT são o produto direto deles” (Foto: Arquivo/AE)

Getúlio traiu, como Lula, a bandeira da “ética na política”, que levou os dois ao poder, em 1930 e em 2002. Getúlio, adiando a convocação de uma Constituinte e nomeando títeres como governadores dos Estados até que São Paulo se levantasse contra a sua ditadura não declarada, em 1932; Lula, aliando-se a todos os “carcomidos” da política, que se elegeu atacando, para se perenizar no poder.

Foram 87 dias de uma guerra desigual contra os Exércitos da União. São Paulo foi derrotado militarmente, mas teve uma vitória moral tão indiscutível que Getúlio, depois de devolver o governo do Estado a lideranças paulistas (na pessoa de Armando Salles de Oliveira), sentiu-se constrangido a convocar finalmente a Constituinte que deu ao Brasil, em 1934, a única Constituição verdadeiramente democrática que o país teve.

Tão democrática que o caudilho não conseguiu conviver com ela e “fechou” o país, em 1937, impondo a sua própria lei e reinstalando a ditadura. Um movimento semelhante ao que o PT repetiu agora com o Decreto 8.243, que segue vigendo, recorde-se, e determina que nossas leis passarão a ser feitas não mais exclusivamente por um Congresso legitimado pelo voto de todos os brasileiros, mas pelos “movimentos sociais” que o partido escolher.

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22/07/2014

às 15:00 \ Política & Cia

OLIVEIROS FERREIRA: O governo negocia com baderneiros — mas deveria saber que o Estado não recua

(Foto: VEJA.com)

Ao negociar com os baderneiros black blocs como os da foto, que deveriam ter sido autuadas pela Polícia Civil e processados pela Justiça, Gilberto Carvalho não apenas deixou claro que o poder recuou, mas que o crime pode compensar (Foto: VEJA.com)

O GOVERNO DEVERIA SABER QUE O ESTADO NÃO RECUA

Texto de Oliveiros S. Ferreira

A crise do Estado, a que me refiro com frequência, pode dar-se como explosão. Na França, o pavio foi aceso na greve da Gendarmaria sob o governo Guy Mollet. A bomba explodiu na ação dos paraquedistas na Argélia, em 1958. Depois, enfrentando outra revolta, o General De Gaulle proclamou: “O poder não recua!” ─ e venceu!

A crise pode também dar-se silenciosamente, como no Brasil de hoje, ainda que o pavio tenha sido aceso na renúncia de Jânio em 1961 e um petardo haja explodido em 1964 sem grandes efeitos: o velho edifício social e político permaneceu intocado, afora pequenas emendas para tornar sua fachada mais bonita.

Hoje, a crise, silenciosa, corrói lentamente não apenas as instituições, mas também ─ o que é mais grave ─ as mentalidades.

Muito bem. Foi um general quem disse que o poder não recua. Mas De Gaulle não era só um general; era, sim, presidente da República, eleito pelo voto popular. Sufragado para manter o Estado uno e indivisível — soberano!

No Brasil não se pensa no Estado; cuida-se do governo e de como conservar o pequeno poder que ele dá a qualquer presidente que se instale no Planalto.

Tomemos dois casos que, aparentemente desconexos, traduzem idêntica realidade.

O secretário-geral da Presidência da República resolveu parlamentar com os black blocs para tentar evitar outras manifestações no estilo que esse grupo adota. O resultado ─ afora o rolo de papel higiênico que lhe jogaram para que entrasse no Itaquerão ─ foi nulo. Mas, se somos o governo, aplaudiremos que se tenha evidenciado que respeitamos as manifestações populares, somos contra a repressão da PM de São Paulo e queremos resolver o problema com negociação civilizada.

Os black blocs pensarão diferente: o poder recuou, e podemos continuar nossa atividade, pois contaremos sempre com boa vontade!

(Foto: AFP/Getty Images)

General De Gaulle: “O poder não recua!”(Foto: AFP/Getty Images)

O fato em si, teorias à parte, é que o Poder Executivo negociou com particulares que violaram a lei e provocaram, com sua organização, não só a perturbação da ordem e do sossego públicos como danos ao patrimônio privado e público.

Ao negociar com particulares que deveriam ter sido autuados pela Polícia Civil e processados pela Justiça, o secretário-geral não apenas deixou claro que o poder recuou, mas que o crime pode compensar. Ou as ações dos black blocs não estão capituladas como crime no Código Penal?

O outro fato, talvez mais grave, pois denota quem deveria, para sua segurança, cuidar da ordem deixou-se levar pelo que hoje parece ser a moda politicamente correta: se a livre manifestação é livre, a PM que se recolha aos quartéis até que seja fundida com a Polícia Civil (e seria fundida sem hierarquia?).

Trata-se de folheto que editado por Protestos.org sob a chancela da FGV ─ veementemente repudiado por esta instituição ─ ensina aos manifestantes em geral como proceder para evitar ser identificados pela repressão e processados ─ que usem máscaras! » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

03/05/2014

às 20:30 \ Livros & Filmes

Roberto Pompeu de Toledo: O Corvo e o Anjo Negro

carlos lacerda

“A República das Abelhas” conta a história da família de Carlos Lacerda e parte da história do Brasil (Foto: Jornal Opção)

“Os presos se convenceram de que se tratava do governador. Lacerda trepou num caixote e, ao começar a falar, ainda pôde observar que Gregório continuava a movimentar-se, agora convocando outros presos a que se aproximassem”

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

Roberto-Pompeu-de-ToledoUma porta lateral se abriu e apareceu um negro alto, rijo, bem-vestido. O ano é 1945 e o cenário, a chefia de polícia do Rio de Janeiro, onde está sendo interrogado um certo Euclides, acusado de ter provocado e agredido, numa confeitaria, o político e jornalista José Eduardo de Macedo Soares, crítico contumaz do ditador Getúlio Vargas.

Sob pressão intensa da imprensa oposicionista, naqueles extertores do Estado Novo em que o regime já não tinha forças para impor-se com o instrumento da censura, o chefe de polícia concordara em permitir que interrogadores independentes questionassem Euclides.

Pergunta daqui, pergunta dali, e enfim o acusado confessa: trabalhava para a guarda pessoal de Getúlio.

O negro só observava, calado.

Um dos interrogadores era outro jornalista, crítico ainda mais contumaz e acerbo do ditador: Carlos Lacerda. O chefe de polícia interrompeu o interrogatório. Se a investigação conduzia à Presidência da República, não era ele quem lhe daria continuidade. O negro não abriu a boca. Nem precisava.

O episódio consta do excelente A República das Abelhas, recém-lançado livro de Rodrigo Lacerda. O autor, romancista com livros premiados no currículo, é neto de Carlos Lacerda. A República das Abelhas é uma crônica familiar com meio século da história brasileira como pano de fundo.

Começa com Sebastião Lacerda, que foi político e juiz do Supremo Tribunal Federal, passa por Maurício Lacerda, filho de Sebastião, caso raro de advogado e deputado que, na República Velha, se distinguiu pela defesa dos trabalhadores (era “o tribuno da plebe”, diziam), e desemboca no filho de Maurício, Carlos Lacerda, antigo comunista que virou campeão do anticomunismo.

Tal qual o concebeu Rodrigo, o livro é narrado por um Carlos Lacerda que, já morto, repassa a própria vida e a dos antepassados. Sobre o negro daquele dia, o Carlos Lacerda do livro diz: “Tinha uma presença forte, porém não lhe demos maior importância”.

Se o Carlos Lacerda de 1945 já era o algoz de Getúlio, muito mais o seria o de agosto de 1954, mês em que se dá o famoso atentado da Rua Tonelero. Lacerda chegava em casa, à noite, acompanhado do major da Aeronáutica Rubens Vaz, quando um pistoleiro abrigado sob uma árvore disparou tiros que mataram Vaz e o feriram no pé.

Seguiu-se, em clima de insurreição, investigação da Aeronáutica que levou, de novo, à guarda pessoal de Getúlio e à figura de seu chefe – o negro Gregório Fortunato, apontado como mandante. “Foi quando reconheci o negro soturno que, em 1945, assistira ao interrogatório”, diz o Carlos Lacerda do livro.

A figura de Gregório finalmente emergia à luz do dia. Ele acumulara poderes que lhe permitiam traficâncias diversas, nos altos escalões do governo, mas era sobretudo o anjo da guarda de Getúlio – o “Anjo Negro”, como passou a ser chamado. Apelido por apelido, Lacerda ganhara o de “Corvo” do jornalista rival Samuel Wainer.

Getúlio e, de chapéu, sua sombra: o Anjo Negro (Foto: CPDOC/Fundação Getúlio Vargas)

Getúlio e, de chapéu, sua sombra: o Anjo Negro (Foto: CPDOC/Fundação Getúlio Vargas)

O encontro do Corvo e do Anjo Negro, este ainda que por interposta pessoa, na escuridão da noite da Rua Tonelero, confere um significado ao mesmo tempo sinistro e caricatural ao cruzamento dos destinos desses personagens tão marcantes do período, um sempre calado, o outro um dos verbos mais devastadores da política brasileira, um agindo nas sombras, o outro mais exposto impossível.

Mas o livro de Rodrigo narra ainda um último encontro entre os dois, de novo à noite, ocorrido quando Lacerda, agora governador da Guanabara, foi ao presídio da Rua Frei Caneca para tentar aplacar uma rebelião de presos.

Os presos não acreditaram, a princípio, que quem despontava no pátio era o governador. Continuaram a batucar em torno de uma enorme fogueira feita com restos de móveis e colchões. “De repente, do meio da escuridão e esgueirando-se por entre os corpos que rodeavam o fogo, surgiu Gregório Fortunato”, conta o Carlos Lacerda do livro.

“Eu o reconheci imediatamente, e ele a mim.” Gregório cumpria pena pelo crime de 1954 e Lacerda chegou a temer que ele viesse a se aproveitar da “chance inédita, quase miraculosa”, para se vingar. Não. Ao contrário, “como um autêntico Anjo Negro, vagaroso e soturno”, foi até os líderes da rebelião, e o clima mudou.

Os presos se convenceram de que se tratava do governador. Lacerda trepou num caixote e, ao começar a falar, ainda pôde observar que Gregório continuava a movimentar-se, agora convocando outros presos a que se aproximassem. Vivia-se, à luz indecisa da fogueira, o extraordinário momento em que o Anjo, amansado, colaborou com o Corvo.

25/04/2014

às 6:00 \ Disseram

Getúlio Vargas mudou com o tempo

“Ele (Getúlio Vargas) foi um ditador, e truculento, mas no final da vida (…) era outro.”

Tony Ramos, ator que interpreta o presidente suicida no filme de João Jardim, cuja estreia está prevista para o dia 1º de maio, em O Estado de S. Paulo

31/03/2014

às 17:00 \ Política & Cia

50 ANOS DO GOLPE MILITAR: FHC lamenta: “Faltam-nos crença na democracia e grandeza na vida política”

(Foto: Eduardo Nicolau / Estadão)

O ex-presidente em sua sala no Instituto que leva seu nome, em São Paulo: militares golpistas não tinham projeto (Foto: Eduardo Nicolau / Estadão)

Entrevista concedida à jornalista Laura Greenhalgh, de O Estado de S. Paulo

se entre ser socialista nos modos e marxista nas ideias. E fazia a cabeça da estudantada da Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP).

Daí o golpe se consumou e o professor Fernando Henrique teve que sumir. Vazou, como se diz hoje. “Quando os policiais chegaram na Maria Antonia (nome da rua onde ficava a faculdade, em São Paulo) para me prender quase levaram o (filósofo) Bento Prado, achando que era eu”, comenta o ex-presidente ao lembrar de um tempo em que precisou pular de casa em casa, de cidade em cidade, às escondidas, até se fixar no Chile, para onde seguiram a mulher, Ruth Cardoso, e os filhos pequenos.

entrevista que se segue, o trigésimo-quarto mandatário brasileiro reflete sobre a ditadura e conclui que ela não chegou a desmontar o Estado regulador. “Falam tanto em neoliberalismo, mas nunca tivemos isso no País. Já liberalismo político, esse eu até gostaria que houvesse mais”.

A 50 anos do golpe que o levou para o exílio e aos 82 de idade, Fernando Henrique, deixa passar uma nota de amargura: “Não estamos em condição de ensinar democracia a ninguém, porque há muito a aprender. Faltam-nos, sobretudo, crença na democracia e grandeza na vida política.”

Onde o senhor estava quando tudo aconteceu, 50 anos atrás?

Semanas antes do golpe, quando houve aquele comício da Central do Brasil, eu estava no Rio, onde vivia meu pai. Passei pelo comício e embarquei lá mesmo, rumo a São Paulo.

Era 13 março. No trem estavam o (hoje ex-ministro) José Gregori, o (hoje ex-deputado federal) Plínio de Arruda Sampaio, com quem eu acabaria me reencontrando no exílio, e um rapaz chamado Marco Antonio Mastrobuono, que depois viria a casar com a Tutu, filha do Jânio Quadros.

Viemos conversando ao longo da viagem sobre a situação. Ali ninguém era entusiasta do Jango, eu também não era. Embora meu pai fosse um militar nacionalista, que inclusive havia sido deputado pelo PTB.

Seu pai era um nacionalista. E o senhor?

Um socialista. Tivera contato com o comunismo nos anos 1950, mas àquela altura, depois do stalinismo, não sobravam ilusões. Também não tinha ilusão de que o Jango seria algo extraordinário ao país, porque ele era um populista e eu, um acadêmico. E, na universidade, tínhamos a convicção de que as mudanças viriam da luta de classes, não do populismo.

Pois bem, chegando a São Paulo, encontrei um clima de grande agitação. Nessa época o Darcy (Ribeiro) já havia sido nomeado chefe da Casa Civil do Jango. E era muito amigo da minha família.

Nós nos falamos algumas vezes por telefone naqueles dias e isso terminou me trazendo uma dor de cabeça tremenda, pois o aparelho do Darcy estava grampeado e fui grampeado, também.

O que aconteceu exatamente?

O Darcy um dia me disse que viria a São Paulo e eu comentei “vem com cuidado aí com o Grupo dos Onze” (grupo de resistência radical concebido em 1963 pelo então governador gaúcho Leonel Brizola).

Disse aquilo por dizer, sem qualquer intenção, porque havia acontecido uma violência contra o ministro da Reforma Agrária do Jango, em São Paulo, algo assim. Esse comentário grampeado iria me complicar no futuro, quando fui processado na Justiça Militar.

Mas, na noite do golpe, lá na Maria Antonia, havia mesmo muita confusão. Eu exercia certa influência sobre alunos e professores mais jovens, embora fosse jovem também – tinha só 33 anos, mas já fazia parte do Conselho Universitário. Muitos dos meus colegas achavam que o golpe era do Jango e dos generais leais a ele, o Amaury Kruel, o Osvino Ferreira Alves.

A confusão era tanta que eu telefonei para o Luiz Hildebrando da Silva, que era da Medicina da USP e ligado ao Partidão (o então clandestino Partido Comunista Brasileiro), dizendo para ele vir até a Maria Antonia, pois estavam preparando um manifesto contra um golpe do presidente. E não um manifesto contra o golpe no presidente! Veja como estávamos perdidos na USP, isolados da vida política, mergulhados num marxismo teórico.

Vou contar uma passagem estapafúrdia: naqueles dias soubemos que haveria uma resistência armada no Sul e então o Bento Prado, o (cientista social) Leôncio Martins Rodrigues, o Paulo Alves Pinto, que era sobrinho do general Osvino, e eu cogitamos tomar um aviãozinho no Campo de Marte para lutar no Sul.

Ainda bem que não houve luta alguma (ri). Então, assim foi a minha última noite andando pela rua Maria Antonia. No dia seguinte, a polícia apareceu por lá para me prender. Quase levaram o Bento Prado, pensando que fosse eu.

Como escapou de ser preso na Maria Antonia?

Alunos meus ficaram nas esquinas, à espreita, para me avisar que a polícia estava lá, assim que eu me aproximasse. Acabei não indo à faculdade e naquela noite dormi na casa de um amigo, o cineasta Bráulio Muniz. Continuei me escondendo, daí fui para o Guarujá na casa do (fotógrafo) Thomas Farkas, com o Leôncio. E a Ruth (Cardoso), minha mulher, ficou aqui, tentando entender o que se passava.

Ruth procurou o Honório Monteiro, que fora ministro do presidente Dutra e era meu colega no Conselho Universitário. O Honório tentou interferir a meu favor junto ao Miguel Reale, então secretário de Segurança. Mas o Reale respondeu que no meu caso não havia o que fazer, porque “esse professor Cardoso não é só teórico, mas prático também”.

Outro amigo, o (economista, museólogo e autor teatral) Maurício Segall, que já se ocupava de organizar fugas, achou que eu tinha que cair fora, não havia condições de ficar no país. Saí por Viracopos e fui para Argentina, para a casa de um ex-colega meu na França, que mais tarde viria a ser ministro do Kirchner, o José Nun.

Tive convite para lecionar na Universidade de Buenos Aires, mas também convite para trabalhar na Cepal, no Chile. Preferi ir para o Chile. Meses depois Ruth veio ao meu encontro, com as crianças, e lá ficamos anos.

Voltou ao Brasil nesse período?

Duas vezes. Eu me encontrei em Paris com (o professor e crítico literário) Antonio Candido, que dava aulas por lá, e ele me ajudou a voltar ao Rio para ver meu pai. Era 1965. Quando meu pai morreu, eu estava no Chile, mas já com passaporte validado, portanto voltei para o enterro. Houve uma missa com muitos oficiais e um deles chegou perto do meu irmão para dizer, referindo-se a mim: “Ou ele vai embora ou vai ser preso”.

Vim para a casa do (empresário e editor) Fernando Gasparian, em São Paulo, dormi outra noite na casa do (sociólogo) Pedro Paulo Popovic, e regressei ao Chile. Acabei não sendo preso.

Houve o processo contra mim na Justiça Militar, com acusações ridículas, entre as quais aquela envolvendo o telefonema grampeado do Darcy, e outras histórias vindas da universidade, de colegas que naquele momento dedo-duraram bastante, mas depois virariam ultra-esquerdistas.

O general Peri Bevilacqua, neto do Benjamin Constant e homem ligado à minha família, foi quem me deu um habeas corpus anos depois (no Superior Tribunal Militar, de que era ministro). Mais tarde ele seria cassado, também. Pude devolver as medalhas do general para a família dele, quando estava na Presidência.

O que o senhor pesquisava na época do golpe?

O empresariado brasileiro. Foi minha tese de livre-docência, defendi em 1963 e publiquei-a no ano seguinte.

Contestava a visão da esquerda de que havia uma aliança dos latifundiários com os imperialistas, contra a burguesia nacional e o povo. Isso era bobagem. Os empresários tinham ligação com o campo e não eram antiimperialistas, com exceção de dois ou três. A esquerda apostava no papel progressista da burguesia nacional e eu tinha uma visão crítica em relação a isso.

Disse que não se entusiasmava por João Goulart. Como o definiria?

Jango não era de assustar ninguém e hoje seria um político muito mais tranquilo do que qualquer um desses governantes populistas da América Latina. Mas, no contexto da Guerra Fria, e pelos contatos que tinha com os comunistas, representava o horror naquele momento.

Vi isso acontecer de novo no Chile. Allende era um reformista e virou o belzebu. Enfim, Jango era um político brasileiro tradicional, populista, um latifundiário que nunca quis fazer revolução alguma. Levantava a bandeira das reformas de base e ninguém sabia exatamente o que eram.

Olhando sociologicamente: tínhamos o mundo contingenciado pela Guerra Fria, porém o Brasil começava a se encaixar no eixo dos investimentos estrangeiros, desde o Juscelino. Havia crescimento industrial, forte migração campo-cidade e um Estado incompetente para atender às demandas de uma sociedade que crescia.

Então, a população começou a se movimentar e ir para as ruas. Nós, acadêmicos, estávamos tão entretidos com os debates teóricos, que quando nos demos conta as ruas tinham entrado na universidade!

Qual era o projeto dos militares em 1964? Submeter o País a uma modernização imposta de cima para baixo?

Acho que nem tinham projeto. Setores pensavam de forma diferente e foram variando de posição até o final. O general Amaury Kruel (foi ministro da Guerra de Jango), por exemplo, foi um que variou até o momento do golpe. Mesmo o general Mourão, de Minas, não tinha noção do que deveria ser feito.

Quem tinha? Os oficiais da Escola Superior de Guerra, o grupo do Castello Branco. Esses sabiam que seria importante empreender no País a modernização conservadora. Mas, veja só, entregaram a economia ao (Otávio Gouveia de) Bulhões e ao (Roberto) Campos, que por sua vez saíram atrás da modernização capitalista – arrocho fiscal, arrocho salarial, tudo feito a machadinhas, o povo pagando um preço alto.

Implantaram um programa austero, que deu na explosão econômica dos anos 70. Ora, quem fez isso não foram os militares, mas o Bulhões e o Campos. Havia necessidade de modernizar o capitalismo brasileiro. E, consequentemente, frear o avanço do setor estatal. Até porque o Juscelino já tinha feito o enganche do país com o setor produtivo global e os militares sabiam disso.

O senhor acha que o regime, no seu primeiro momento, tratou de sepultar o legado varguista?

O Castello, talvez. A verdade é que os militares já estavam claramente divididos, e isso era visível no Clube Militar: havia o setor ultranacionalista e o setor democrático-liberal. Este se aproximava dos Estados Unidos. E o ultranacionalista, embora não engolindo os russos, achava que eles funcionavam como contrapeso ao poderio americano.

Isso, evidentemente, tem a ver com as posturas “ser Getúlio” ou “ser anti-Getúlio”, levando-se em conta que o Getúlio simbólico foi sempre o nacionalista-estatizante. É interessante notar como era o contexto da época: os militares nacionalistas-estatizantes, que nunca confiaram nas forças do mercado, eram chamados de esquerda, o que era exagero. E os democráticos-liberais eram vistos como direita, outro exagero.

Daí o regime foi se radicalizando.

Exato, foi radicalizando a tendência autoritária. Isso não foi pretendido no começo, mas foi se formando. E virou um monstro que, não fosse o (general Ernesto) Geisel ter-se oposto, justo ele, um nacionalista-estatizante, correríamos o risco de cair numa direita fascista. Uma direita que se justificaria pelo apego à ordem, e não pelo desenvolvimento capitalista.

Cabe ainda muita pesquisa sobre o período, para analisar com objetividade e entender como tudo aconteceu ao largo de um intenso processo de industrialização e urbanização. São Paulo, em meados da década de 70, crescia 5% ao ano. Havia mais de cinco milhões de pessoas vivendo aqui. Tivemos um crescimento econômico que não correspondeu ao social.

Isso começa a ser corrigido com a redemocratização e vem até agora. Penso que hoje, de novo, vivemos algo parecido. Não se tem mais a mobilidade rural-urbana do passado, mas uma intensa mobilidade social. As pessoas querem mais e o Estado não tem como dar.

Instalados no poder, os militares trataram de providenciar uma fachada de legalidade ao regime. Chegaram a falar em “democracia relativa”.De fato, eles nunca aceitaram que o regime não fosse visto como democrático.

Confira parte da entrevista de FHC no vídeo abaixo:

08/03/2014

às 19:00 \ Política & Cia

ROBERTO POMPEU DE TOLEDO: Brasilianas

"Quando a senhora deixar o governo, vai sentir falta desses confortos’, comentou a amiga. Dona Darcy respondeu: ‘Ah, quando isso acontecer já estarei velha. Nem precisarei mais de cabeleireiro"

“Quando a senhora deixar o governo, vai sentir falta desses confortos’, comentou a amiga. Dona Darcy respondeu: ‘Ah, quando isso acontecer já estarei velha. Nem precisarei mais de cabeleireiro”

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

BRASILIANAS

Roberto Pompeu de ToledoNuma visita a Paris, o deposto presidente João Goulart é bombardeado por perguntas de exilados.

“Presidente, quais as relações do general X com o capital financeiro nacional e internacional?” “O general X?”, começa Jango. “Conheço muito. Brinquei com ele quando moleque. Ligado ao imperialismo? Qual nada! Está querendo é enfiar dinheiro no bolso.”

Outro exilado ataca: “Mas o senhor sabe que o general Z é adepto da teoria da segurança nacional e da integração internacional”. Jango: “O general Z? Também conheço muito. É um milico meio quadrado. Obedece ordens. Já me mandou dizer por um amigo comum que não participara da quartelada, mas que agora é obrigado a enquadrar-se”.

Conclui o cientista Luiz Hildebrando Pereira da Silva, um dos exilados presentes, num livro de memórias: “E assim, diante dos convidados boquiabertos, Jango foi reduzindo todas as brilhantes análises econômicas e sociológicas marxistas dos interlocutores a banalidades de relações pessoais, de interesses diretos ou subalternos, de ambições pessoais ou de grupos, de ânsia de poder e de conflitos diretos de interesse, quando não de meros acidentes políticos”.

A reunião terminou com a troca da “seriedade acadêmica” e do “sectarismo partidário” por relatos de causos gauchescos e gargalhadas.

Poços de Caldas, 1935. O presidente Getúlio Vargas e família costumavam passar férias na estância mineira, arrastando consigo metade da República. Numa certa manhã, dois aviões militares irrompem nos céus da cidade. Voam baixo, sobem, voltam em parafuso. Passam rente ao Grande Hotel e quase lhe arrancam as telhas.

O inesperado espetáculo é acompanhado com apreensão. A que se devia? Nos círculos íntimos, logo se soube que os aviões tinham vindo do Rio para trazer o cabeleireiro e a criada de quarto da primeira-dama, dona Darcy. A própria dona Darcy admitiu a verdade a uma amiga. “Quando a senhora deixar o governo, vai sentir falta desses confortos”, comentou a amiga.

Dona Darcy respondeu: “Ah, quando isso acontecer já estarei velha. Nem precisarei mais de cabeleireiro”. Dona Darcy enxergava longe. Sabia que não estava nesse negócio de poder como simples turista. (Nota: um dos pilotos do voo maluco era o tenente Francisco de Assis Corrêa de Mello, apelidado, por isso mesmo, de “Melo Maluco”. Seria ministro da Aeronáutica sob Juscelino e de novo em seguida ao golpe de 1964.)

Graciliano Ramos foi preso no arrastão que se seguiu à chamada Intentona Comunista de 1935. O período de dez meses entre a Casa de Detenção do Rio de Janeiro e a Colônia Correcional da Ilha Grande está relatado no monumental Memórias do Cárcere. Solto em janeiro de 1937, em grande parte por causa de campanha em que se destacaram o colega romancista José Lins do Rego e o editor José Olympio, meses depois ei-lo em visita ao Ministério da Educação, cujo titular era o mineiro Gustavo Capanema.

Em carta à mulher, Heloísa, Graciliano escreveu: “Vi lá, num corredor, o nariz e o beiço caído de S. Exa. o sr. Gustavo Capanema. O Zé Lins acha excelente a nossa desorganização, que faz que um sujeito esteja na Colônia hoje e fale com o ministro amanhã; eu acho ruim a mencionada desorganização, que pode mandar para a Colônia o sujeito que falou com o ministro”.

Oswald de Andrade, cujo sexagésimo aniversário de morte ocorre neste ano, anda esquecido. Na escola que leva o seu nome, em São Paulo, professores e alunos não sabem sequer que se deve pronunciar “Oswáld”, à francesa (o nome foi inspirado num herói de romance francês), e não “‘swald”, à inglesa. Oswald era um vanguardista, um agitador e um pândego. Teve tão diferentes engajamentos políticos quanto mulheres, entre as quais a escritora Patrícia Galvão, a Pagu.

Um dia lhe perguntaram por que, numa certa fase, virara comunista. Explicou: “Por culpa da Patrícia Galvão. Ela fizera uma viagem a Buenos Aires. Voltou com panfletos, livros e uma grande novidade: ‘Oswald, tem o comunismo… Conheci um camarada chamado Prestes. Ele é comunista e nós também vamos ficar. Você fica?’”. Ele respondeu: “Fico”. Depois, desficou.

Fontes: Luiz Hildebrando, Crônicas de Nossa Época; Paulo Duarte, Selva Obscura — Memórias 3; Moacir Werneck de Castro, Mário de Andrade — Exílio no Rio; Oswald de Andrade, Os Dentes do Dragão.

04/03/2014

às 14:00 \ Tema Livre

Vídeo raríssimo, para curtir mas também para rir: o Carnaval carioca de 1954, em cores, visto pelos americanos

carnival

“Carnival in Rio”, uma pérola de 1954 — deliciosa de assistir, até pelas bobagens

Eis uma raridade retirada do fundo do baú da memória: um documentário curta-metragem sobre o Carnaval carioca de 1954 feito pela Warner Brothers americana, intitulado Carnival in Rio.

Cortesia do amigo do blog José Eduardo Ramos, de São Paulo.

O leitor que não entender a narrativa em inglês não precisa se preocupar: é tudo lugar-comum sobre as maravilhas do Rio de Janeiro e a alegria do povo brasileiro.

O documentário é um samba do crioulo doido, feito por quem não entendia absolutamente nada de Carnaval. Mostra, em imagem rara, o presidente Getúlio Vargas, no ano em que iria se suicidar, gasta boa parte do tempo com o desfile — hoje tão ingênuo que soa infantil — das Grandes Sociedades, blocos com carros alegóricos extintos há anos, apresenta um arremedo de Carnaval de rua, incursiona pelo famoso Baile do Municipal mas não reserva um só segundo para o principal: o desfile das escolas de samba, já na época um espetáculo.

Uma raridade, vale assistir.

 

19/12/2013

às 16:14 \ Política & Cia

O Ministério de Dilma: um monstrengo gigantesco, impossível de ser pilotado com eficiência — e que ela não pode enxugar

Reunião ministerial da presidente Dilma Rousseff (Foto: ABr)

Reunião ministerial da presidente Dilma Rousseff: nem nossos dois imperadores, D. Pedro I e D. Pedro II, dispuseram de tamanho séquito administrativo (Foto: Agência Brasil)

Publicado originalmente em 15 de março de 2013

campeões de audiência 02Com a habitual franqueza, o empresário Jorge Gerdau — exemplo de empreendedor bem-sucedido, cujo império siderúrgico embasado no Brasil já se estende por vários Estados americanos — decretou: o país, disse em entrevista à Folha de S. Paulo e ao UOL, precisa apenas de “meia dúzia de ministérios”, e não dos 39 que respondem à presidente Dilma Rousseff.

Mais contundente, continuou ele, com a autoridade de quem está à frente, voluntariamente, da Câmara de Políticas de Gestão da presidente:

– Quando a burrice, ou a loucura, ou a irresponsabilidade vai muito longe, de repente, sai um saneamento. Provavelmente estamos no limite desse período. (…) Eu já dei um toque na presidenta”.

Pois aí estamos. Com a recente criação da Secretaria da Micro e da Pequena Empresa, cujo futuro titular terá status de ministro, a presidente dispõe de um Ministério colossal, absurdo, gigantesco, talvez o maior Ministério de qualquer país do planeta, excetuadas eventualmente repúblicas corruptas da África, e com certeza o mais numeroso da história “deztepaiz”.

Mostrengo disforme e disfuncional

Não se trata apenas de um Ministério imenso. Pior que isso, a menos que ocorra o que prevê Gerdau, ele parece “imexível”, como diria um ex-ministro de triste memória: o ex-presidento Lula engordou enormemente a cúpula do governo em Brasília para melhor aquinhoar os chamados “partidos da base aliada” no Congresso — a conhecida salada que vai do PC do B ao malufismo, passando por fisiológicos do PMDB e siglas controladas por igrejas evangélicas –, Dilma seguiu adiante e agora é um problemaço político mexer nesse monstrengo disforme e disfuncional.

O Ministério de Dilma, como o do ex-presidento (que tinha 37 ministros), lembra a Hidra de Lerna da mitologia grega. A Hidra aparece no âmbito dos 12 trabalhos de Hércules, o semideus filho (adulterino) de Zeus, o rei dos deuses do Olimpo, com a mulher do rei de Tebas.

Não cabe neste espaço recordar relembrar a complicada história que levou Hércules, em busca de expiação e da imortalidade, a haver-se com uma dúzia de tarefas impossíveis. O fato é que já o segundo trabalho hercúleo consistia em enfrentar a Hidra, monstro aquático de nove cabeças, uma delas imortal.

O desafio era realmente para semideuses: para cada cabeça que o herói conseguia cortar, nasciam mais tantas quantas faltavam para decepar. Hércules, naturalmente, triunfou. Nem a cabeça imortal sobrou.

Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek: presidente realizadores que chegaram a governar com um máximo de 11 ministros

Se fosse uma empresa, o dono ficaria louco

Não é que a presidente não saiba do problema. E não foi preciso o “toque” de Gerdau. Ela conhece perfeitamente o tamanho da encrenca.

Nos cinco anos em que pilotou a Casa Civil e nos quase quatro em que coordenou o tão falado Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), a hoje presidente manteve incontáveis encontros e reuniões de trabalho com empresários e executivos de grandes empresas, em vários casos de empresas multinacionais de dimensões gigantescas.

Portanto, a presidente, que é economista, nem precisaria perguntar a um desses seus freqüentes interlocutores se existiria, em suas companhias, alguma chance de dar certo o trato direto com 39 diretores.

Com certeza ouviria, como resposta, que lidar com 39 direct reports é um absurdo que fatalmente conduz a empresa a se tornar empresa burocratizada, hipopotâmica, aparvalhada – sem contar que o CEO, presidente ou dono provavelmente ficaria louco.

Pois um dos segredos do que hoje se considera uma boa governança empresarial consiste, justamente, por meio da delegação e outras formas de gestão, em diminuir o quanto possível o número de interlocutores obrigatórios de cada gestor em seu respectivo nível.

No 1º ano de mandato de Lula, a ministra só despachou uma vez com o presidento

O então presidento Lula acotovelou o máximo de partidos políticos possível no Ministério, em nome da “governabilidade”. Com isso, deixou inteiramente de lado qualquer busca de eficiência da máquina – no caso, a mais numerosa desde a Independência, em 1822. Nem nossos dois imperadores, D. Pedro I e D. Pedro II, dispuseram de tamanho séquito administrativo.

Reunião ministerial do presidente Barack Obama (Foto: Saul Loeb / AFP / Getty Images)

Reunião do presidente Barack Obama: equipe enxuta tocando o país mais rico e poderoso do mundo (Foto: Saul Loeb / AFP / Getty Images)

A multidão de gente elevada à categoria de ministros é tal que alguns raramente despacharam a sós com o presidento. Basta fazer as contas: levando-se em consideração as numerosas viagens ao exterior e os muitíssimos périplos pelo país, Lula, durante seus 8 anos de mandato, passou cerca de um terço de cada ano, ou pouco mais que isso, em Brasília.

Digamos que tenham sido 100, ou até 120 dias úteis por ano. Mesmo que despachasse diariamente com um ministro diferente — o que não ocorreu com Lula –, eles passariam mais de três meses sem contato com o ou a presidente. Não foi por outra razão que, no primeiro ano do primeiro lulalato, 2003, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, mesmo sendo na época politicamente muito próxima a Lula, só despachou com ele uma única vez.

Dilma viaja menos. Ainda assim, é impossível avistar-se com os ministros tête-à-tête com uma frequência minimamente desejável.

Como todos sabemos, Lula sempre gostou de se comparar a presidentes com marca de realizadores, como Getúlio Vargas ou Juscelino Kubitschek. Nunca mencionou, contudo, nem de longe, comparações com o tamanho dos respectivos times.

Getúlio e JK tiveram um máximo de 11 ministros

Não obstante os tempos obviamente sejam outros, e mais complexos, Getúlio, em seus quatro diferentes períodos de governo e 18 anos de poder (de 1930 a 1945 e, depois, de 1951 a 1954), governou com um mínimo de 7 e um máximo de 11 ministros.

JK (1956-1961) contou com 11 ministros, e 5 titulares do que então se chamavam “órgãos de assessoramento”, como os gabinetes Civil e Militar.

E vamos evitar falar de nomes, pelo amor de Deus. Ministros de Getúlio, JK e outros presidentes foram não raro gigantes políticos, que o país conhecia e respeitava.

Quem é capaz de citar o nome de cinco dos 39 ministros atuais?

Praticamente todos os países sérios e maduros são governados por times enxutos. Os presidentes americanos, por exemplo, conseguem tocar adiante a superpotência de 315 milhões de habitantes e uma economia colossal de mais de 15 trilhões de dólares com 15 ministros. A chanceler Angela Merkel conduz a Alemanha, quarta maior economia do planeta e país mais rico e importante da Europa, com 17 ministros — em sua primeira gestão, eram 15.

É claro que a eficiência de uma máquina pública não se mede apenas pelas dimensões do Ministério. Entretanto, o primeiro e grande empecilho para que ela ande a contento é o tamanho exagerado — que Lula não levou em conta durante o primeiro mandato, continuou a fazê-lo no segundo e que a “gerentona” Dilma ainda conseguiu engordar mais.

16/10/2013

às 20:18 \ Política & Cia

Censura a biografias de pessoas públicas afasta escritores de temas importantes para o brasileiro conhecer sua história

Marina Person, Maria Adelaide Amaral, Lira Neto E Mônica Bergamo: xxxxxx (Fotos: Orlando Oliveira :: Renato Rocha Miranda :: Marcos Alves :: Divulgação)

Marina Person, Maria Adelaide Amaral, Lira Neto e Mônica Bergamo: a censura de famílias a biografias de figuras públicas impede os brasileiros de conhecer aspectos importantes de sua história (Fotos: Orlando Oliveira :: Renato Rocha Miranda :: Marcos Alves :: Divulgação)

Muito interessante o debate promovido no programa Metrópolis, da TV Cultura, sobre a censura a biografias de personalidades públicas impostas, por via judicial, pelos interessados ou por suas famílias.

Um dos muitos que, felizmente, vêm ocorrendo a respeito da onda obscurantista que veio à tona com mais força depois da postura favorável à mordaça de personalidades como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, o bloco do programa que terminou na madrugada de ontem mostrou que a memória do país já começa a perder com o clima hostil a pesquisas sobre seu passado.

O escritor Lira Neto, por exemplo, autor dos dois volumes de uma série de três já lançados do consagrado Getúlio, minucioso e denso trabalho de reconstrução e interpretação do ex-ditador e ex-presidente Getúlio Vargas e de sua era, disse que, por ora, desistiu do projeto que tinha em mente: a biografia de Filinto Müller, ex-chefe de polícia da ditadura Vargas e responsável pela entrega de Olga Benário, mulher do líder comunista Luiz Carlos Prestes, à Gestapo nazista, durante a II Guerra Mundial.

Ex-integrante do movimento tenentista, Filinto é personagem crucial do período Vargas e, com a redemocratização do país, em 1945, elegeu-se quatro vezes consecutivas senador pelo Mato Grosso. Quando morreu no acidente do Boeing da Varig que se caiu em Paris, em 1973, era presidente da Arena, o partido de sustentação do regime militar.

Do debate, coordenado pela apresentadora Marina Person, participaram também a jornalista Monica Bergamo, da Folha de S. Paulo, e a escritora e dramaturga Maria Adelaide Amaral. Monica disse compreender a preocupação das famílias de biografados em certos casos, mas considera a atitude defendida por Chico, Caetano, Gil e outros um “óbvio obstáculo” à liberdade de informação.

Maria Adelaide Amaral, roteirista de várias novelas da Globo, de mais de uma dezena de peças de teatro de primeira e de, entre outras, uma das melhores produções da televisão brasileira em todos os tempos — a minissérie Os Maias (2oo1), baseada em Eça de Queiroz –, inclui entre seus trabalhos a boa série JK, sobre o ex-presidente Juscelino Kubitschek.

A minissérie permitiu que duas gerações de brasileiros que nasceram após o governo de JK  (1956-1961) tivessem uma boa ideia do que foram aqueles tempos.

Maria Adelaide revelou que, para alguns trabalhos envolvendo personagens públicos, fez por conta própria peregrinações a parentes de envolvidos — sem que a Globo pedisse por isso — para remover eventuais obstáculos e que, no caso da minissérie JK, a família do ex-presidente não lhe criou qualquer problema.

Diante do atual clima, porém, Maria Adelaide disse:

– Estou fora! Vou me voltar para temas do século XIX, do XVIII, talvez até do XVI…

Ou seja, está fora de seus planos qualquer iniciativa sobre personagens contemporâneos, que, sob a forma de programa de TV ou outra, poderiam iluminar aspectos da história do país.

Tanto os dois escritores como a jornalista Monica Bergamo acreditam ser inconstitucional o artigo 20 do Código Civil, no qual se baseia a atual onda obscurantista, e manifestaram a crença de que, com o debate em marcha, é possível que o Supremo venha a derrubar o dispositivo diante de ações que já foram impetradas na Corte.

 

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