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gás de xisto

26/01/2014

às 16:00 \ Vasto Mundo

O pesadelo dos xeques árabes: a enorme abundância de gás natural extraído do xisto nos EUA

Exploração de xisto no Colorado, nos EUA (Foto: Jim Blecha Photography USA)

Exploração de xisto no Colorado, nos EUA (Foto: Jim Blecha Photography USA)

Reportagem de Tatiana Gianini, publicada em edição impressa de VEJA

O PESADELO DOS XEQUES

Com o petróleo de xisto americano e as novas reservas mundiais, os sauditas estão perdendo a hegemonia energética

Descobertas nos anos 1930, as reservas de petróleo na Península Arábica passaram a ser cobiçadas a partir da II Guerra. Nos anos 70, parecia que a economia mundial se equilibrava sobre um gigantesco oleoduto imaginário que levava o ouro negro do Oriente Médio para os Estados Unidos.

Na crise de 1973, quando os maiores produtores, mancomunados no cartel da Opep, passaram a controlar os preços e boicotar clientes, a falta de gasolina nos postos não deixou dúvida de que toda a população americana tinha se tornado refém de xeques milionários e de óculos escuros.

Quase todas as guerras que se seguiram na região pareciam ser justificadas pelo anseio de garantir esse suprimento vital. Nos últimos anos, esse quadro começou a ser alterado com o crescimento de países emergentes, principalmente a China, entre os principais consumidores.

No ano que vem, a mudança já em curso ganhará velocidade com a conquista, pelos Estados Unidos, do posto de maior produtor mundial. Em 2015, a produção americana vai ultrapassar a da Arábia Saudita e a da Rússia. Os americanos já falam até em exportar petróleo.

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Com poços perfurando todas as regiões do mundo, a transformação estaria completa. As consequências econômicas já foram notadas por príncipes árabes assustados, mas as geopolíticas podem ser ainda maiores, à medida que o destino do Oriente Médio se torna menos vital para os Estados Unidos.

A irrupção do petróleo americano tem sua explicação no gás de xisto, um tipo de gás natural que se encontra misturado às rochas, em vez de estar concentrado em depósitos grandes. Sua extração depende de uma tecnologia chamada fratura hidráulica, pela qual grande quantidade de água misturada com areia e outras substâncias é injetada sob alta pressão no subsolo.

A operação provoca rachaduras, através das quais o gás escapa para o poço. O mesmo processo pode ser usado na obtenção do petróleo de xisto, mas, num primeiro momento, a viabilidade da exploração de gás era tão grande que os projetos petrolíferos foram adiados. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

13/01/2014

às 15:00 \ Política & Cia

Aumento na produção de gás de xisto reduz vendas da Petrobras aos EUA

Posto de extração de petróleo de xisto em Troy, no Estado norte-americano da Pensilvânia (Foto: Jim Lo Scalzo / EPA)

Posto de extração de petróleo de xisto em Troy, no Estado norte-americano da Pensilvânia (Foto: Jim Lo Scalzo / EPA)

Alternativa mudou a matriz energética do país, que ficou menos dependente de importação e cortou em 60% compras do Brasil

Por Claudia Trevistan, correspondente do Estadão em Washington 

A alta velocidade com que os Estados Unidos ampliam sua produção de petróleo de xisto mudou o cenário geopolítico global associado ao combustível e contribuiu para uma redução de 60% nas exportações brasileiras do produto para o mercado americano em um período de dois anos.

Em 2013, pela primeira vez, a Petrobras vendeu mais para a China do que para os EUA, que durante anos foi seu maior comprador.

Desde 2008, os EUA ampliaram em 50% a sua produção, graças à tecnologia que permite a retirada de petróleo de rochas de xisto.

Só no ano passado, a expansão foi de 1 milhão de barris por dia, mais que a soma do aumento registrado em todos os demais países, segundo dados oficiais.

A previsão do governo é que aumento semelhante se repetirá em 2014, o que elevaria a produção americana a 8,5 milhões de barris diários.

Com expansão adicional de 800 mil barris esperada para 2015, o volume chegaria a 9,3 milhões de barris por dia, próximo ao recorde de 9,6 milhões alcançado em 1970.

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24/10/2013

às 19:12 \ Política & Cia

Reynaldo-BH: Confiram por que o leilão para explorar petróleo do campo de Libra — que o governo considerou “um sucesso” — foi, na verdade, um fracasso retumbante

Governo celebra "retumbante sucesso" do leilão do Campo de Libra -- "vamos pagar 6 Bi pelo que é nosso" (Foto: Marcos de Paula / Estadão)

O ministro das Minas e Energia, Edison Lobão (o segundo da esquerda para a direita) e representantes do consórcio vencedror celeram o “retumbante sucesso” do leilão do Campo de Libra: “vamos pagar 6 bi  pelo que já é nosso” (Foto: Marcos de Paula / Estadão)

Post do leitor Reynaldo-BH

SEGUNDO PREVISÕES DE GUIDO MANTEGA, O LEILÃO DE LIBRA FOI UM RETUMBANTE SUCESSO

Post-do-Leitor1Acho que o leilão do campo petrolífero de Libra foi mesmo, julgando pelos parâmetros do ministro da Fazenda, Guido Mantega, “um sucesso”.

Só pelos parâmetros dele

Fora qualquer ilação, que tal – ao menos uma vez – irmos direto aos fatos?

1 – O governo anunciou que 40 empresas concorreriam

Quando da apresentação do sistema de partilha para a exploração do maior campo de petróleo do pré-sal até agora conhecido, o governo anunciou pomposamente que esperava o aparecimento de quarenta empresas ávidas em concorrer. Das quarenta, foram ao leilão quatro… (10%) — e ainda mais associadas em um único consórcio.

Parece-me dentro dos índices de Mantega et caterva.

2 – Total e Shell

Sabe-se que as gigantes privadas francesa e anglo-holandesa obrigaram a Petrobras a assumir mais 10% de participação (mais 1,5 bilhão de reais em um cenário de penúria e na maior crise pela qual a empresa já passou, a partir da desastrosa da gestão de sete anos de Sergio Gabrielli, antecessor da presidente Graça Foster) e que os investimentos ($$$) fossem de responsabilidade dos chineses.

3 – A participação dos chineses

Para eles, é dinheiro de troco, mas a participação das duas estatais petrolíferas chinesas se deu com a solene garantia de que não haverá qualquer mudança de regras (que o PT, como sabemos, gosta de mudar ao sabor da “ideologia” do dia).

Se houver mudanças – e ao longo dos próximos 35 anos –, imagine-se o tamanho da encrenca em que o Brasil terá se metido ao confrontar a China e o que ela, hoje, representa para a economia brasileira, sendo o maior parceiro comercial do país.

4 – O Brasil passou 6 anos apostando em uma nova matriz energética

Quem se lembra?

Lula percorreu o mundo decretando o fim do petróleo e o uso da energia renovável do etanol. Queria implantar o modelo na África e em Cuba.

Alguém tem notícia de como vai este programa de energia?

Não está dentro das possibilidades que o Brasil descubra (só como exemplo) reservas de gás de xisto (3,00 dólares a tonelada bruta nos Estados Unidos) e abandone o pré-sal, a respeito do qual não se sabe NADA com um grau definitivo de certeza? Já aconteceu antes…

Quem no mundo vai encarar o dinheiro de acionistas (pessoas físicas, fundos de pensões, etc) nesta instabilidade? A China? Sim, a China.

"Lula percorreu o mundo decretando o fim do petróleo e o uso da energia renovável do etanol" (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

“Lula percorreu o mundo decretando o fim do petróleo e o uso da energia renovável do etanol” Na foto com o rei da Suécia, Carlos Gustavo XVI (Foto: Ricardo Stuckert / PR)

5 – Dilma diz que não houve privatização

Esta é demais. O argumento é que somente um pequeno percentual fica com os “instrangeiros”.

Seria o caso de perguntar: se alguém vendesse o quarto e o banheiro de empregada de seu apartamento para terceiros, a pessoa estaria “privatizando” o apartamento ou a operação teria outro nome?

Dilma e o PT inventaram a definição de privatização por tamanho. Mas privatização é como virgindade ou gravidez: ou existe ou não.

Dilma PRIVATIZOU, sim, um percentual significativo de Libra. Mesmo dizendo na campanha eleitoral que a levou ao Planalto que isto seria “um crime”.

6 – “Concorrência” de um? É preciso cuidado com as palavras. Não há como chamar flor de urubu, alegando que o conceito mudou.

O que vem a ser concorrência? Não seria uma disputa entre atores diversos? Ou seja, de mais de um em busca do mesmo objetivo?

Como se pode considerar “um sucesso” uma concorrência com um único participante? Um jogo de futebol com um time só?

É preciso lembrar que se esperava que o percentual mínimo de 47% da contrapartida-óleo a ser fornecido pelo consórcio vencedor fosse facilmente extrapolado. Falava-se, no lulopetismo, em até 80% do petróleo a ser entregue à Petrobras.

É, então, um sucesso ganhar por WO pelo placar mínimo? E os 15 bilhões pagos ao governo? Há menos de dois anos, as previsões não eram de que o pagamento chegasse perto de 100 bilhões?

Sucesso?

7 – O desconforto evidente e explicitado da Petrobras diante do dinheiro que precisará bancar

A estatal, com o perdão pela expressão, está devendo as calças e está se esforçando para conseguir rolar as dívidas que já possui! Precisou, porém, arrumar mais uma, de 6 bilhões de reais, para salvar um programa ideológico (era a isto que me referia!) sem realismo.

Vai aumentar o preço da gasolina?

Óbvio. E já!

No fundo o Brasil, ou seja, nós, vamos pagar 6 bi, dos 15 a serem recolhidos ao Tesouro pelo consórcio vencedor, pelo que já é nosso. Isto também é sucesso?

Plataforma de petróleo da Petrobras, no campo de Libra (Foto: divulgação / Petrobras)

Plataforma de petróleo da Petrobras: dificuldade para rolar as dívidas, e, agora, mais uma, de 6 bilhões, para recolher ao Tesouro a parte que lhe cabe por integrar o consórcio vencedor que vai atuar no campo de Libra (Foto: Petrobras)

Somados os fatores expostos, trata-se de um fracasso retumbante.

Fruto do delírio do governo anterior? Muito.

Das condições atuais? Idem.

Da situação da Petrobras? Idem.

Da nova estatal PPSA (a do pré-sal, que detém o poder de definir ONDE as empresas componentes do consórcio vão investir o próprio dinheiro de pesquisas! Seria na contratação de companheiros? )? Certamente.

O que importa é que MAIS UMA VEZ os lulopetistas querem chamar aos demais brasileiros de burros ou míopes. Não somos.

Os lulopetistas tentam reescrever não mais a história. Agora, focam os fatos.

21/10/2013

às 16:58 \ Política & Cia

LEILÃO DO PRÉ-SAL: os extremistas de esquerda devem estar decepcionados. O imperialismo americano NÃO ficou de olho em nosso tesouro. O imperialismo americano sumiu do leilão

O leilão no Rio: o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo; a presidente da Petrobras, Graça Foster; a diretora-geral da ANP, Magda Chambriand, e o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, sobem ao palco ao lado de representantes das empresas que integram o consórcio vencedor (Foto: Fernanda Frazão / Agência Brasil)

O leilão no Rio: o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo; a presidente da Petrobras, Graça Foster; a diretora-geral da ANP, Magda Chambriand, e o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, sobem ao palco ao lado de representantes das empresas que integram o consórcio vencedor (Foto: Fernanda Frazão / Agência Brasil)

Os energúmenos de sempre, o que em geral inclui também baderneiros e, naturalmente, os partidários de se reconstruir o Muro de Berlim, deveriam estar até satisfeitos com o primeiro leilão de exploração das reservas de petróleo de pré-sal do país, a do campo de Libra, na Bacia de Campos, no qual se estima haver entre 8 e 12 bilhões de barris do (ainda) “ouro negro”.

Afinal, apesar de todos os protestos e de mais uma greve de petroleiros — será que haverá desconto dos dias parados, ou eles ganharão de novo férias grátis? –, com o Exército nas ruas do Rio e tudo, a iniciativa privada, que é o motor do crescimento do planeta, ficou em minoria no consórcio vencedor, o único, aliás, que apresentou propostas.

Como já se sabe, quem venceu o leilão promovido pela Agência Nacional do Petróleo foi um consórcio formado pela própria Petrobras, detentora de 40%, as também estatais chinesas China Nacional Petroleum Company (CNPC) e China National Offshore Oil Corporation (CNOOC), com 10% cada uma — cabendo a duas empresas privadas, as gigantes anglo-holandesa Shell e a francesa Total dividir igualmente os 40% restantes.

O imperialismo americano ficou longe. Colossos como a ExxonMobil e a Chevron nem se interessaram pela disputa.

Como se sabe, os Estados Unidos estão nadando em colossais reservas de gás de xisto, desenvolveram uma tecnologia de exploração de petróleo dessas reservas e estão produzindo cada vez mais.

Como já escrevi recentemente — vale lembrar aqui –, graças ao petróleo bruto extraído de formações de xisto (um tipo de rocha encharcada de óleo), somente um dos 50 Estados americanos, Dakota do Norte, aumentou mais de dez vezes a produção desde que foi perfurado o primeiro poço, há nove anos — e hoje, com 900 mil barris POR DIA, Dakota do Norte supera dois dos membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), o Equador e o Catar. Sozinho, as empresas privadas que atuam em Dakota do Norte tiram do solo diariamente quase a metade do que a Petrobras inteira.

O dramatismo dos demagogos: "a pátria é nossa", reza uma das bandeiras em manifestação no Rio antes do leilão (Foto: Agência Brasil)

O dramatismo dos demagogos: “Pátria Livre”, reza uma das bandeiras em manifestação no Rio antes do leilão, como se uma operação comercial que só traria vantagens para o país fosse contrária à liberdade (Foto: Agência Brasil)

A produção de petróleo dos EUA passa um pouco de sonoros 10 milhões de barris de petróleo por dia, mais do que sua produção anual do último quarto de século — são os dados oficiais de 2012, situando-se agora como o TERCEIRO PRODUTOR MUNDIAL. (A Rússia extrai 10,4 milhões de barris diários, e a Arábia Saudida, 11,7.) Os otimistas acham que o país caminha para a total autossuficiência em petróleo, e de deixar de depender de países instáveis do Oriente Médio ou da inimiga ideológica Venezuela para suprir sua demanda. Esse patamar ainda está distante, porque a economia americana devora diariamente 18 milhões de barris.

Algo me diz que os manifestantes contra o pré-sal, o pessoal do PSOL, os black blocs, os grevistas da Petrobras e muito mais gente ficou decepcionada: o imperialismo americano, ao que tudo indica, NÃO cobiça nossa preciosa riqueza — até porque o petróleo de xisto que está obtendo em seu próprio solo é muito mais barato do que o do pré-sal.

Sem contar que as reservas do pré-sal, sem dúvida alguma um tesouro para o Brasil, são muito pequenas em comparação ao potencial americano com o gás de xisto. O United States Geological Survey — agência de pesquisas e estudos sobre os recursos naturais do país, organismo do Departamento do Interior — divulgou há dias uma estimativa de que apenas na região mais rica em xisto do Estado do Colorado, Piceanse Basin, pode abrigar espantosos 1,52 trilhão de barris, uma reserva superior à de qualquer outro país
petroleiro do mundo e maior do que a soma de tudo o que têm os países membros da OPEP.

O imperialismo americano e sua suposta gula sobre nossas reservas sumiu. Cadê o imperialismo americano?

21/09/2013

às 15:00 \ Vasto Mundo

Por décadas, boa parte da humanidade clamou por um substituto para o petróleo. Agora, que surgiu o abundante gás de xisto, todo mundo reclama, protesta ou proíbe

Moradores de Balcombe: pavor do "fracking" e dos "manifestantes profissionais" (Foto: Luke MacGregor / Reuters)

Moradores de Balcombe: pavor do "fracking" e dos "manifestantes profissionais" (Foto: Luke MacGregor / Reuters)

Nota de Vilma Gryzinski, publicada em edição impressa de VEJA

 ESTÁ SOBRANDO GÁS

Recurso energético causa protestos no presente e mudanças no futuro

Todo mundo quer ter energia abundante e barata, mas ninguém gosta de morar perto de um campo de petróleo, de uma usina nuclear ou até das limpas mas barulhentas turbinas eólicas. Tirar energia da natureza, vital para a sobrevivência da humanidade, é um negócio feio, ruidoso e ambientalmente arriscado.

Realidades dramaticamente expostas na extração do gás de xisto, um recurso natural que pode mudar até a geopolítica mundial, mas provoca desconfiança e protestos de moradores das regiões onde brotam os equipamentos para arrancá-lo das entranhas das rochas.

Explosões controladas seguidas de uma superinjeção de água, areia e produtos químicos fracionam as camadas rochosas profundas — daí o nome abreviado em inglês, fracking.

E daí também o horror manifestado por habitantes de lugares como Balcombe, numa das regiões mais idilicamente campestres da Inglaterra, assustados com a perspectiva da paisagem arruinada pelo fracking e a chegada de manifestantes profissionais que armam barracas, provocam a polícia e desconsideram de forma geral as boas maneiras.

Na Inglaterra, quando Bianca Jagger adere a um protesto, a causa está arruinada por excesso de ideias feitas. Material abundante no caso da extração do gás de xisto, acusada de provocar terremotos, poluir aquíferos e até incendiar a água de torneiras — imagem divulgada, de má-fé, no documentário Gasland.

Como a tecnologia que barateou o processo é recente, não existem análises nem de médio prazo sobre os efeitos ambientais do fracking, mas já se projeta que por causa dela em questão de décadas os Estados Unidos não precisarão mais importar energia. O significado disso para as petroditaduras é revolucionário.

Durante décadas, boa parte da humanidade clamou por um substituto para o petróleo. Agora que surgiu um, faz sentido simplesmente proibi-lo, como decidiu a França?

02/09/2013

às 16:13 \ Política & Cia

Notável e agudo artigo de FHC: perda de espaço do Brasil na América do Sul, a questão energética, a infraestrutura, a alta do dólar, o bater de cabeças…

 "Antes os governistas se gabavam da baixa de juros ("Ah, esses tucanos, sempre de mãos dadas com os juros altos!", diziam)" (Foto: Eduardo Cesar / Ag. Fapesp)

"Antes os governistas se gabavam de baixar juros ("Ah, esses tucanos, sempre de mãos dadas com os juros altos!", diziam)" (Foto: Eduardo Cesar / Ag. Fapesp)

FALANDO FRANCAMENTE

Por Fernando Henrique Cardoso, publicado na excelente seção “Opinião” de O Estado de S. Paulo

Não é preciso muita imaginação, nem entrar em pormenores, para nos darmos conta de que atravessamos uma fase difícil no Brasil. Mas comecemos pelo plano internacional.

Os acontecimentos abrem cada vez maiores espaços para a afirmação de influências regionais significativas.

O próprio “imbróglio” no Oriente Médio, do qual os Estados Unidos saem com cada vez menos influência na região, aumenta a capacidade de atuação das monarquias do Golfo, que têm dinheiro e querem preservar seu autoritarismo, assim como a do Irã, que lhes faz contraponto.

A luta entre wahabitas, xiitas e sunitas está por trás de quase tudo. E a Turquia, por sua vez, encontra brechas para disputar hegemonias.

Enquanto isso, nós só fazemos perder espaços de influência na América do Sul.

Nossa diplomacia, paralisada pela inegável simpatia do lulopetismo pelo “bolivarianismo”, ziguezagueia e tropeça.

Ora cedemos a pressões ilegítimas (como a recente da Bolívia, que não dava salvo-conduto a um asilado em nossa embaixada), ora nós próprios fazemos pressões indevidas, como no caso da retirada do Paraguai do Mercosul e da entrada da Venezuela.

Ao mesmo tempo fingimos não ver que o “Arco do Pacífico” [aliança comercial entre México, Colômbia, Peru e Chile é um contrapeso à inércia brasileira. Diplomacia e governo sem vontade clara de poder regional, funcionários atordoados e papelões por todo lado - é o balanço.

Na questão energética, que dizer? A expansão das usinas está atrasada e sem apoio real do setor privado, salvo para construir as obras. Os caixas das empresas elétricas quebradas, graças a regulamentações que, mesmo quando necessárias, se fazem atropeladamente e sem olhar para os interesses de longo prazo dos investidores e dos consumidores.

A Petrobras, agora entregue a mãos mais competentes, mergulhada numa incrível escassez de créditos para investir e com o caixa abalado pela contenção do preço da gasolina.

O que fora estrepitosamente proclamado pelo presidente Lula, a autossuficiência em petróleo, se esfumou no aumento do déficit das importações de gasolina.

Agora, com a revolução americana do gás de xisto, quem sabe onde irá parar o preço de equilíbrio do petróleo para ser extraído do pré-sal?

Na questão da infraestrutura, depois de uma década de atraso nos editais de concessão de estradas e aeroportos, além das tentativas mal feitas, o governo inovou: fazem-se privatizações, disfarçadas sob o nome de concessões, com oferta de crédito barato pelo governo às empresas privadas interessadas.

Dinheiro, diga-se, do BNDES (com juros subsidiados pelo contribuinte) e, ainda por cima, o governo se propõe a levar para a empreitada os bancos privados.

Sabe-se lá que vantagens terão de lhes ser oferecidas para que entrem no ritmo do PAC, isto é, devagar e mal feito.

Nunca se viu coisa igual: concessões que recebem vantagens pecuniárias e nada rendem ao Tesouro, à moda das ferrovias cujos construtores receberiam abonos em dinheiro por quilômetro construído.

Só mesmo na Macondo surrealista de Gabriel García Márquez. Espero que, aqui, a solidão de incapacidade executiva e má gestão financeira não dure cem anos...

Se passarmos para a gestão macroeconômica, os vaivéns não são diferentes.

"O governo inovou: fazem-se privatizações, disfarçadas sob o nome de concessões" (Fotos: Editora Abril)

"O governo inovou: fazem-se privatizações, disfarçadas sob o nome de concessões" (Fotos: Editora Abril)

A indústria, diziam, não exporta porque o câmbio está desfavorável. Agora tivemos uma megadesvalorização, de mais de 25%. Se nada fizermos para reduzir as deficiências e ineficiências estruturais da economia brasileira, e se o governo não tiver a coragem de evitar que a desvalorização se transforme em mais inflação, o novo patamar da taxa nominal de câmbio de pouco adiantará para a indústria.

Antes os governistas se gabavam da baixa de juros (“Ah, esses tucanos, sempre de mãos dadas com os juros altos!”, diziam).

De repente, é o governo do PT que comanda nova arrancada dos juros. E nem assim aprendem que não é a vontade do governante que dita regras nos juros, mas muitas vontades contraditórias que se digladiam no mercado. Olhar no umbigo, isso não.

Já cansei de escrever sobre esses males e outros mais. Das deficiências no prestar serviços nas áreas de educação, saúde e segurança a mídia dá-nos conta todos os dias.

Dos desatinos da vida político-partidária, então, nem se fale. Basta ver o último deles, a manutenção na Câmara de um deputado condenado pelo Supremo e já na cadeia!

Não obstante, dada a amplitude dos desarranjos, parece inevitável reconhecer que a questão central é de liderança. Não digo isso para acusar uma pessoa (sempre o mais fácil é culpar o presidente ou o governo) ou algum partido especificamente, embora seja possível identificar responsabilidades.

Mas é de justiça reconhecer que o desencontro, o bater de cabeças dentro e entre os partidos, faz mais zoeira do que gera caminhos.

Daí que termine com uma pergunta ingênua: será que não dá para um mea culpa coletivo e tentar, mantendo as diferenças políticas, e mesmo ideológicas, perceber que quando o barco afunda vamos todos juntos, governo e oposição, empregados e empregadores, os que estão no leme e os que estão acomodados na popa?

É preciso grandeza para colocar os interesses de longo prazo do povo e do País acima das desavenças e pactuar algumas reformas (poucas, não muitas, parciais, não globais) capazes de criar um horizonte melhor, começando pela partidário-eleitoral (já que o ucasse presidencial nessa matéria não deu certo, como não poderia dar).

Se os que estão à frente do governo não têm a visão ou a força necessária para falar com e pelo país, pelo menos a oposição poderia desde já cessar as rixas internas a cada partido e limar as diferenças entre os partidos.

Só assim, formando um bloco confiável, com visão estratégica e capaz de seguir caminhos práticos, construiremos uma sociedade mais próspera, decente e equânime.

23/08/2013

às 17:45 \ Política & Cia

Sardenberg: Recuperação da economia dos EUA mostra que a boa ação do Estado é a que abre espaço para o funcionamento do mercado

O Federal Reserve, o banco central dos EUA, evitou a grande depressão e criou bases para a retomada com a enorme injeção de dinheiro no mercado (Foto: AP)

O Federal Reserve, o banco central dos EUA, evitou a grande depressão e criou bases para a retomada com uma enorme injeção de dinheiro no mercado: mas a recuperação veio pelas empresas e famílias, pelos investimentos e pelo consumo (Foto: AP)

Publicado no jornal O Globo

LEMBRAM-SE? CONSENSO DE WASHINGTON

E essa agora, hein? O motor da economia mundial está de novo nos Estados Unidos. E não porque os EUA abandonaram a prática do seu capitalismo, mas, ao contrário, porque a energia do mercado funcionou amplamente.

Ora, mas isso é óbvio, poderiam dizer. A recuperação do capitalismo só poderia vir da principal economia capitalista.

Pois é, mas não era essa a história que se contava, com ampla aceitação, há poucos quatro anos.

Lembram-se? A crise financeira de 2008/09, criação dos EUA, seria o muro de Berlim do capitalismo; a Zona do Euro desabaria com suas políticas de ajuste; os Estados Unidos seriam superados pela China; e os emergentes triunfariam com suas próprias forças, independentemente da liderança e da vontade dos ricos.

Dirigentes chineses diziam, entre irônicos e sérios: agora nós é que daremos lições ao Ocidente, inclusive na organização política. Líderes dos emergentes, Lula à frente, celebravam a política de intervenção estatal como a “nova economia”.

Analistas resumiam: sai o Consenso de Washington, entra o Consenso de Beijing.

O panorama visto hoje é o contrário disso. Começa pela recuperação dos EUA. Sim, o governo Obama gastou dinheiro público para impedir a quebradeira de bancos e grandes empresas. E o Federal Reserve, o banco central deles, evitou a grande depressão e criou bases para a retomada com a enorme injeção de dinheiro no mercado.

Mas impedir o desastre não garante a retomada. Esta veio do ajuste feito pelas empresas e famílias, reduzindo endividamento, saneando finanças, renovando investimentos e consumo. Privados, sobretudo no setor imobiliário. E com inovações, como o extraordinário evento do gás de xisto – um resultado acabado da economia de mercado.

George Mitchell, engenheiro e geólogo, acadêmico e empreendedor no negócio de petróleo, desenvolveu, durante anos de pesquisa e experimentos, uma nova tecnologia de extração do gás de xisto.

Investiu dinheiro e conhecimento para simplesmente revolucionar o setor de energia. Quando o sistema finalmente funcionou, as imensas reservas no xisto tornaram-se economicamente viáveis e o preço do gás desabou nos EUA. Isso barateou investimentos em toda a indústria, especialmente na petroquímica, e reduziu gastos das famílias.

Tudo pelo mercado, não por políticas públicas. Mitchell teve espaço institucional para desenvolver sua livre iniciativa.

Isso foi um marco, mas é o conjunto da economia americana que se move. Bancos e empresas que foram salvos pelo governo estão recomprando ações e devolvendo o dinheiro público. E até o ajuste das contas públicas está sendo feito antes do esperado. Saiu atrapalhado por conflitos políticos, Obama reclamou de cortes de gastos que foi obrigado a fazer, mas quando foram ver, o déficit público despencava e a economia continuava andando com as pernas do setor privado.

Dizem que poderia ter andado mais se mantidos os gastos do governo. Pode ser, mas também é verdade que o arranjo das contas federais melhora o ambiente para os próximos meses.

Olhem agora para o outro lado. A China desacelera e começa a mudança de modelo. Qual mudança? Mais salário, mais consumo, e uma boa reforma no amplo setor estatal, de modo a privatizar, com o perdão da palavra, e dar mais eficiência a companhias do governo. Ou seja, mais mercado.

Nos países emergentes, a desaceleração é geral. Parte dela se deve à mudança da política monetária americana, que está levando capitais de volta aos EUA. Todos sofrem com isso, mas alguns sofrem mais.

Quais? Aqueles que foram apanhados com baixo crescimento, inflação alta, déficit nas contas externas e desarranjo nas contas públicas, circunstâncias que levam a uma desvalorização maior da moeda local – e que devem exigir juros maiores.

Pensaram no Brasil?

Pois é. Mas repararam bem no diagnóstico?

Falharam aqueles que desrespeitaram os fundamentos clássicos: não pode ter inflação (e 6% ao ano é, sim, inflação alta); não se pode aumentar gasto público sem adequado financiamento; as contas externas precisam estar equilibradas; e é preciso criar condições institucionais que estimulem os investimentos privados, especialmente no setor de infraestrutura.

Não é o que o governo Dilma faz, embora seja o que tem prometido. Mas assim de contragosto, porque, sem querer provocar, estão ali as bases do Consenso de Washington. Repararam no que pediram os empresários vencedores do prêmio Valor Econômico? Menos intervenção do governo, menos regras.

Em resumo, fica a lição americana. A boa ação do Estado é aquela que abre espaço para o funcionamento do mercado. E o bom gasto público, financiado sem truques, deve se concentrar em educação, saúde, segurança.

As voltas que a história dá.

16/03/2013

às 19:00 \ Política & Cia

Rodrigo Constantino, jovem revelação de economista: “Esfolar os ricos em nome de melhorar a vida dos pobres é uma falácia. E a defesa do mercado não deve ser confundida com a defesa dos empresários”

"As estatais são ineficientes porque não precisam obter lucros. Quando há problemas, o governo sempre coloca mais dinheiro" (Foto: Instituto Millenium)

"As estatais são ineficientes porque não precisam obter lucros. Quando há problemas, o governo sempre coloca mais dinheiro" (Foto: Instituto Millenium)

Entrevista concedida a Giuliano Guandalini, publicada em edição impressa de VEJA

CAPITALISTAS BRASILEIROS, UNI-VOS!

Um dos mais produtivos economistas da nova geração aponta as contradições, os riscos e a ineficiência resultantes do aumento da interferência do governo na economia

“Se puserem o governo federal para administrar o Deserto do Saara, em cinco anos faltará areia.” A frase é do economista americano Milton Friedman (1912-2006), ganhador do Nobel de 1976 e o maior expoente do liberalismo nos últimos cinquenta anos.

Essa corrente de pensamento preconiza a abertura econômica dos países e a redução, ao mínimo possível, da interferência do governo no funcionamento dos mercados, favorecendo o investimento privado em um ambiente de competição acirrada. A frase de Friedman serve de epígrafe para o livro Privatize Já, de Rodrigo Constantino, lançado pela editora Leya.

Constantino, de 36 anos, faz parte de uma nova geração de economistas brasileiros que valorizam o pensamento liberal clássico e denunciam o peso excessivo do estado na economia. No livro, ele defende a “agenda esquecida” das privatizações. O economista recebeu VEJA em seu escritório, numa empresa de investimentos, no Rio de Janeiro.

As empresas de celulares estão entre as campeãs de queixas entre os consumidores brasileiros, apesar de serem extremamente rentáveis. Nas estradas privatizadas, as reclamações recaem sobre o valor dos pedágios. Não são sintomas de que a privatização nem sempre funciona?

No fundo, se procurarmos bem, sempre haverá a impressão digital do governo nessas falhas atribuídas ao mercado. No caso dos celulares, há muitas reclamações, em primeiro lugar, por causa do grande aumento no número de usuários depois da privatização do sistema Telebrás. Antes nem adiantava reclamar, porque era um serviço caro e raro.

Reconheço que existem problemas. Mas os impostos arrecadados pelo governo encarecem as tarifas e reduzem os investimentos. O sinal das chamadas é ruim porque faltam antenas, e o grande entrave para ampliar o número de antenas são os governos, que demoram a conceder as licenças de instalação.

As pessoas reclamam do preço do pedágio, porém o que deveria ser objeto de revolta são os milhões arrecadados em impostos, como o IPVA, que não são investidos nas ruas e rodovias.

As privatizações, obviamente, não são uma panaceia se feitas de maneira escusa. Acompanhei o processo de desestatização na Rússia, depois da queda do regime soviético. As privatizações ocorreram sem nenhum arcabouço institucional minimamente decente, sem transparência nas informações. Privatização, assim, não faz milagre.

 

"Para privatizar a Petrobras, precisaríamos ter uma Margaret Thatcher, um estadista disposto a enfrentar os grupos de interesses localizados" (Foto: Petrobras)

"Para privatizar a Petrobras, precisaríamos ter uma Margaret Thatcher, um estadista disposto a enfrentar os grupos de interesses localizados" (Foto: Petrobras)

Se a venda de estatais obteve resultados positivos, por que nenhum político no Brasil defende abertamente a privatização da Petrobras?

As resistências são gigantescas. Para privatizar a Petrobras, precisaríamos ter uma Margaret Thatcher, um estadista disposto a enfrentar os grupos de interesses localizados. Será impossível vender o controle da estatal enquanto imperar a ideia de que seria a “entrega” de um patrimônio público. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

30/09/2012

às 19:00 \ Tema Livre

Reviravolta na questão energética: pesquisador mostra que é um mito o temor de que o petróleo vai acabar logo

A nova era do petróleo: descobertas e avanços tecnológicos abrem espaço para expansão da oferta (Foto: Viktor Veres / AFP)

A nova era do petróleo: descobertas e avanços tecnológicos abrem espaço para expansão da oferta (Foto: Viktor Veres / AFP)

Publicado por Ana Clara Costa em VEJA.com

UMA NOVA ERA DO PETRÓLEO ESTÁ A CAMINHO

O pesquisador de Harvard Leonardo Maugeri faz previsões audaciosas e contraria a teoria de que a era do combustível fóssil está próxima do fim

Um estudo recém-publicado sobre o volume das reservas de petróleo – e as novas descobertas no mar, nas rochas e nas areias – está causando alvoroço no mundo acadêmico. Intitulada Petróleo: A nova Revolução, a pesquisa feita pelo pesquisador italiano Leonardo Maugeri afirma categoricamente que não só o fim da era do petróleo está longe, como o aumento da capacidade de produção alcançará quase 20% nos próximos oito anos – uma taxa de crescimento que não se vê desde a década de 1980.

Isso significa, nas contas do pesquisador, que o mundo poderá produzir 110,7 milhões de barris de petróleo por dia em 2020. Maugeri redigiu o relatório durante o ano sabático que tirou para estudar na Universidade Harvard, nos Estados Unidos.

Até então, o italiano era um dos altos executivos da petrolífera ENI, a maior empresa do setor em seu país. “Ao contrário do que a maioria das pessoas acredita, a capacidade de fornecimento de petróleo está crescendo mundialmente a níveis sem precedentes, e que poderão até superar o consumo”, diz em seu estudo.

A argumentação de Maugeri é calcada em dois pontos que se interligam. O primeiro é a descoberta de novas reservas no mundo ocidental – não apenas de petróleo convencional, como é o caso do encontrado na camada pré-sal brasileira, mas também de jazidas de gás da rocha xisto, nos Estados Unidos, e as areias betuminosas do Canadá.

Todas elas são novas formas de petróleo encontradas na natureza – e que diferem do líquido negro e pastoso jorrando da terra. Tais reservas correspondem às chamadas fontes não convencionais do combustível fóssil, que exigem avançados processos tecnológicos e químicos para sua extração.

Isso leva ao segundo ponto defendido pelo pesquisador: de que o surgimento de fontes não-convencionais fará com que o Ocidente transforme-se no novo “centro de gravidade” da produção e exploração de petróleo global, diminuindo a dependência da oferta proveniente do Oriente Médio.

Segundo o pesquisador, estima-se que haja no planeta 9 trilhões de barris de combustível fóssil não-convencional. O mundo tem capacidade para produzir, atualmente, 93 milhões de barris por dia – ou 34 bilhões de barris/ano.

Maugeri não sugere que o Iraque ou a Arábia Saudita terão queda em sua capacidade de produção. Muito pelo contrário. As perspectivas para ambos os países são de um acréscimo de 6 milhões de barris/dia de petróleo até 2020. Contudo, graças ao avanço da oferta no Ocidente, ele argumenta que mundo ficará menos sujeito à volatilidade de preço do barril trazida por questões geopolíticas que afetam os países árabes.

“Isso fará com que a Ásia seja o mercado de referência para o petróleo árabe e a China se transforme em nova protagonista nas questões políticas da região”, afirma o pesquisador. Para os Estados Unidos, Maugeri estima que a capacidade de produção passe, dentro de oito anos, dos atuais 8,1 milhões de barris/dia para 11,6 milhões de barris/dia.

Em outras palavras, o país deve desbancar a Rússia e se tornar o segundo maior produtor de petróleo – os sauditas seguirão na liderança. No caso do Brasil, Maugeri prevê que a capacidade de produção deverá sair de 2 milhões de barris/dia para 4,5 milhões de barris/dia em 2020 devido à exploração do pré-sal. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

09/09/2012

às 16:00 \ Vasto Mundo

Boa leitura para o feriadão (5) — Anne Lauvergeon, a ex-czarina das usinas nucleares francesas: Mais atômica do que nunca

"Se o Japão tivesse adotado as melhores práticas do setor, o acidente na usina de Fukushima teria sido evitado" (Foto: Claudio Gatti)

"Se o Japão tivesse adotado as melhores práticas do setor, o acidente na usina de Fukushima teria sido evitado" (Foto: Claudio Gatti)

 

Entrevista publicada na em edição impressa de VEJA por Tatiana Gianini

 

Anne Lauvergeon

MAIS ATÔMICA DO QUE NUNCA

 

A ex-presidente da maior empresa de tecnologia nuclear do mundo explica como evitar acidentes radioativos e conta que foi demitida por se negar a vender reatores à Líbia

 

Os franceses a apelidaram de L’Ato­mique (A Atômica) por sua defesa incondicional da energia nuclear. A engenheira Anne Lauvergeon presidiu por uma década a Areva – empresa estatal francesa que atua em todas as fases da produção de energia pela fissão dos átomos, da mineração de urânio à construção de reatores – e chegou a ser considerada uma das dez mulheres mais poderosas do mundo pela revista americana Forbes.

Em junho de 2011, Anne foi afastada da estatal pelo presidente Nicolas Sar­kozy. Recentemente, ela lançou o livro La Femme qui Résiste (A Mulher que Resiste), em que conta sua trajetória profissional e as discussões com Sarkozy. “Apesar dos recentes planos de redução em alguns países, a energia nuclear é segura e terá vida longa”, diz a executiva de 52 anos.

 

Sua defesa apaixonada da energia nuclear perdeu ímpeto após o grave acidente na usina de Fukushima, no Japão, no ano passado?

De forma alguma. Sigo defendendo a energia nuclear. Agora, tenho mais um motivo para insistir na ressalva, que sempre fiz, de que os reatores só devem ser montados em locais seguros. Confesso que, nos últimos anos, fiquei um pouco preocupada com a popularidade exagerada conquistada por essa fonte de energia. Havia muita gente dizendo que a tecnologia nuclear pode ser desenvolvida para todos, em qualquer lugar e a custo baixo.

Fui e sou totalmente contra essa postura. Fukushima é a prova de que a energia nuclear depende de um pré-requisito fundamental, a segurança. Defender o contrário tornou-se inviável após o acidente. Um país que quer produzir energia pela fissão dos átomos precisa criar uma entidade muito forte com a missão de estabelecer e supervisionar as regras de segurança no setor, como ocorre na França e nos Estados Unidos. Essa entidade não era tão forte no Japão.

 

Usina de Fukushima: "Se a barreira tivesse apenas 10 metros a mais, o mundo não teria ouvido falar de Fukushima" (Foto: AFP)

Usina de Fukushima: "Se a barreira tivesse apenas 10 metros a mais, o mundo não teria ouvido falar de Fukushima" (Foto: AFP)

Onde foi que os japoneses erraram?

Os reatores nucleares costumam ser muito resistentes a terremotos. A usina japonesa, porém, não estava preparada para o tsunami provocado pelos tremores. A agência de segurança nuclear do Japão falhou ao não exigir, como medida preventiva, a construção de um dique suficientemente alto para evitar a invasão da água do mar.

Se a barreira tivesse apenas 10 metros a mais, o mundo não teria ouvido falar de Fukushima. Em dezembro de 1999, a França quase enfrentou uma tragédia semelhante quando uma violenta tempestade inundou a usina de Blayais, perto da cidade de Bordeaux. O incidente não foi grave, mas levou os países europeus a reavaliar os projetos de suas usinas nucleares para descobrir seus pontos fracos e se antecipar a eventuais problemas causados por eventos incomuns.

Em Blayais, a solução foi aumentar o tamanho do muro de proteção. As autoridades japonesas sabiam da experiência europeia, e poderiam ter aumentado o dique, uma medida relativamente barata. Se o Japão tivesse adotado os padrões internacionais e as melhores práticas do setor, o acidente em Fukushima teria sido evitado. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

 

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