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G20

22/07/2012

às 17:00 \ Vasto Mundo

Entrevista boa para ler num dia como hoje: as ideias de um dos governantes-chaves do mundo, o primeiro-ministro da Itália, Mario Monti

Mario Monti: "As reformas econômicas já deveriam ter sido feitas há muito tempo" (Foto: Sipa Press)

Mario Monti: "As reformas econômicas já deveriam ter sido feitas há muito tempo" (Foto: Sipa Press)

 

(Entrevista a Tatiana Gianini, publicada na edição impressa de VEJA)

 

Mario Monti

A SOLIDARIEDADE CONTRA A CRISE

 

O primeiro-ministro italiano defende a ideia de que a União Europeia emita títulos de dívida para financiar projetos que estimulem o crescimento econômico de seus Estados-membros

Em novembro passado, o economista Mario Monti, de 69 anos, recebeu do presidente Giorgio Napolitano a incumbência de substituir Silvio Berlusconi como primeiro-ministro da Itália. Era, e ainda é, uma missão árdua. Até maio de 2013, ele tem de reavivar a terceira maior economia da zona do euro, politicamente desacreditada, mergulhada numa recessão grave, fortemente endividada e pouco competitiva.

A aprovação popular da gestão de Monti, que já foi de 71%, caiu para 34% no mês passado, depois de reformas que incluíram o aumento de impostos e da idade para a aposentadoria.

Ex-comissário de Concorrência da União Europeia (UE) [os comissários são como se fossem ministros da União Europeia, ao todo 27, o mesmo número de países integrantes], Monti nunca disputou um cargo político e renunciou ao salário de chefe de governo para dar o exemplo de austeridade que quer imprimir à Itália.

[Sua atuação à frente do governo da Itália, sem concessões à demagogia e sem o temor de propor e adotar medidas duras, e o papel que vem cumprindo entre os principais líderes da União Europeia o transformaram em um dos governantes mais importantes do mundo.]

Ele respondeu às perguntas de VEJA em um momento em que ainda existe pessimismo no mercado em relação à capacidade da Itália de honrar sua dívida.

 

O senhor tem apenas um ano para completar as reformas destinadas a recuperar a economia da Itália. Será o bastante?

A situação macroeconômica da Itália é absolutamente saudável. A dívida pública é elevada, é verdade, mas as empresas e as famílias italianas têm finanças equilibradas. O endividamento do estado deve começar a diminuir no próximo ano, quando esperamos alcançar o equilíbrio no orçamento. O déficit orçamentário em 2011 foi de 3,9%, e o objetivo para 2012 é chegar a 1,7%. Se excluirmos os juros da dívida, a Itália terá um superávit primário (quando a arrecadação supera os gastos antes de pagar os juros da dívida pública) positivo de 3,6% já neste ano.

 

Como é possível classificar a situação macroeconômica da Itália de “absolutamente saudável” se o PIB do país registrou queda nos últimos três trimestres?

Crescimento e fundamentos macro­econômicos são duas coisas diferentes. A economia está em recessão porque no segundo semestre de 2011 a Itália implementou correções orçamentárias que somaram 80 bilhões de euros em aumentos de impostos e redução de despesas. Ao falar da situação macroeconômica, eu me referia aos fundamentos econômicos. Estes estão em ordem, pois o déficit orçamentário neste ano deverá ser a metade da média da UE. Nosso sistema financeiro é saudável e a taxa de desemprego, embora ainda esteja elevada, na casa dos 10%, está um pouco abaixo da média da zona do euro, de 11%. Esses índices são uma conse­quência, essencialmente, da forte recessão de 2009, que afetou a todos.

 

A zona do euro aprovou um pacote de 100 bilhões de euros para resgatar o sistema financeiro da Espanha. Considerando que os juros da dívida italiana são quase tão altos quanto os da espanhola, qual é o risco de seu país também precisar de socorro externo?

Não me parece aconselhável especular sobre esse tipo de cenário, pois isso apenas aumenta o nervosismo, já grande, dos mercados. Reitero, aqui, o que disse sobre os fundamentos econômicos. O único desequilíbrio na Itália diz respeito ao nível da dívida pública. Sobre isso devemos falar para conter o nervosismo dos mercados, que aumenta os custos do refinanciamento do estado.

 

O que sua gestão está fazendo para reduzir a dívida pública?

Uma das prioridades é a luta contra a evasão fiscal, que rendeu 12,7 bilhões de euros aos cofres públicos em 2011 e deverá proporcionar um valor ainda maior neste ano. Além da redução da dívida, as maiores atenções do meu governo são dirigidas às reformas estruturais. A da previdência, iniciada em dezembro de 2011, permitiu elevar a sustentabilidade das contas públicas com o aumento progressivo da idade para a aposentadoria até os 67 anos.

Igualmente importantes são as reformas para aumentar a competitividade da economia, o que inclui flexibilizar os horários de funcionamento do comércio, liberar a venda de determinados medicamentos e permitir aos postos de gasolina ampliar a oferta de produtos em suas lojas de conveniência, entre outras medidas para aquecer a atividade econômica e impulsionar a criação de empregos.

O setor de energia e o transporte ferroviário também serão submetidos a uma maior concorrência. A administração pública, por sua vez, está sendo modernizada, com o objetivo de reduzir o tempo e o dinheiro gastos pelas famílias e pelas empresas com a burocracia. Todos os documentos de registro civil, como as certidões de nascimento, agora são feitos pela internet.

 

A Itália começou a perder competitividade econômica antes mesmo de a atual crise se instalar. Por quê?

O grande problema da Itália é seu fraco potencial de crescimento. As empresas italianas até que se defendem bem, pois detêm uma tradição de produtos belos, bons e benfeitos em inúmeros setores, como os de artigos de luxo, de equipamentos para o lar e de máquinas. Muitas das medidas adotadas por mim nos últimos seis meses e das que estão por vir visam a criar condições mais favoráveis para o investimento estrangeiro, por meio de uma administração pública mais moderna, uma justiça mais rápida e um mercado de trabalho mais flexível e propício ao aumento de produtividade.

 

Loja italiana Prada: artigos de luxo em alta (Foto: Getty Images)

Loja italiana Prada: tradição em artigos de luxo (Foto: Getty Images)

 

As grandes decisões da União Europeia nos últimos anos estiveram nas mãos da Alemanha e da França. Como a Itália pode conquistar mais voz na política europeia?

A França e a Alemanha têm um papel especial na UE, pois quase sempre foram protagonistas das guerras sangrentas que laceraram a Europa nos últimos séculos. Como membro fundador da UE, a terceira maior economia da zona do euro e a segunda potência manufatureira depois da Alemanha, a Itália também ocupa uma posição de destaque na região. Reforçar nossa atuação política no âmbito regional é uma das minhas prioridades. Trata-se, de um lado, de encontrar um equilíbrio entre a consolidação das contas públicas e a necessidade de promover o crescimento e, de outro lado, de criar as bases para uma união econômica e monetária mais sólida, responsável e solidária.

 

Como solucionar o endividamento e a estagnação econômica dos países da zona do euro?

Para voltarem a crescer, é necessário que os países-membros ajam de forma coordenada e cumpram suas obrigações, cientes de que a margem de manobra é maior para uns do que para outros. Para os que têm dívidas elevadas ou foram atingidos fortemente pela crise, por causa dos riscos excessivos assumidos por bancos superdimensionados ou das bolhas imobiliárias, a prioridade é pôr em ordem as contas públicas. Também são necessárias reformas para aumentar a competitividade, a flexibilidade e o dinamismo de nossas economias.

A UE pode e deve ajudar cada um de seus membros a sair da recessão, porque esta acaba por afetar o bloco como um todo, se não a própria economia global. Espero que o Conselho Europeu (que reúne todos os governantes dos estados-membros da União Europeia), que se encontrará nos dias 28 e 29 de junho, dê impulso ao aumento de capital do Banco Europeu de Investimento ou à emissão de títulos europeus (eurobonds) para o financiamento de projetos que estimulem o crescimento. Espero, também, que o Conselho seja mais benévolo com o investimento produtivo ao fazer a avaliação das contas públicas dos países.

 

Podemos confiar em uma saída breve para a atual situação europeia?

A crise na zona do euro encontra-se em fase de solução. Não é nada fácil pôr em acordo dezessete países, e menos ainda todos os 27 que integram a UE. Mesmo assim, os sócios europeus têm dado provas de uma extraordinária solidariedade uns para com os outros durante essa crise, que teve origem, inicialmente, nos Estados Unidos. A dívida pública acabou por revelar as fragilidades do euro, tão logo desapareceu a confiança dos mercados. A solução definitiva passa pelo aperfeiçoamento da integração entre os países da zona do euro, assim como das demais nações da UE que almejam adotar a moeda comum, e do contrato que os une. Só com maior confiança entre os estados-membros será possível avançar em direção a uma solidariedade ainda maior, com a criação dos títulos da dívida europeia.

 

Tem sido politicamente árduo convencer os italianos a aceitar apertos como o aumento da idade de aposentadoria no país?

Os italianos deram prova de grande maturidade e responsabilidade durante essa crise. Em novembro de 2011, quando o presidente Napolitano me pediu para comandar o novo governo, a Itália estava à beira do abismo, após a crise da zona do euro ter se propagado por outros países.

O aumento da idade de aposentadoria é visto como necessário em todos os países europeus, pois a expectativa de vida aumentou muito nas últimas décadas. Na Itália, é de 82 anos, uma das mais altas no mundo. A reforma italiana é uma das mais avançadas, na medida em que a idade da aposentadoria passa a ser vinculada à expectativa de vida. Sem essa mudança, as gerações futuras não teriam garantia de sustento digno no fim de sua carreira.

Os italianos têm consciência da seriedade do contexto externo e de que as reformas econômicas já deveriam ter sido feitas há muito tempo. O número de greves tem sido bastante reduzido. Dito isso, é claro que, a esta altura, gostariam de começar a ver o fruto de seus esforços e sacrifícios, principalmente em relação à estabilização da situação na zona do euro, às taxas de juros pagas pelo estado quando refinancia a sua dívida, ao crescimento econômico e ao emprego.

 

O primeiro-ministro Mario Monti com o papa Benedito XVI: taxação inédita dos imóveis da igreja (Foto: mwnews.it)

O primeiro-ministro Mario Monti com o papa Benedito XVI: taxação inédita dos imóveis da igreja (Foto: mwnews.it)

A Igreja italiana terá de pagar imposto sobre suas atividades comerciais. Por que decidiu acabar com esse privilégio ampliado por seu antecessor, Silvio Berlusconi?

A isenção que beneficiava as entidades eclesiásticas era motivo de queixa da Comissão Europeia fazia vários anos, sob a alegação de concorrência desleal. Essa situação precisava mudar. Tratava-se de repartir o esforço dos italianos para enfrentar a crise.

 

Qual é a sua avaliação do governo da presidente Dilma Rousseff para as relações entre o Brasil e a Itália?

Nossos países possuem uma relação bilateral tradicionalmente estreita e caracte­rizada por intensas e crescentes relações econômicas, como atesta a presença de mais de 700 empresas italianas no Brasil. Saúdo a recente orientação do Brasil de querer reunir novamente o Conselho Bilateral de Cooperação, órgão consultivo que deveria funcionar uma vez por ano, ora na Itália, ora no Brasil, o que não vinha ocorrendo fazia mais ou menos dois anos. Nossa parceria vai muito além da agenda bilateral. O Brasil é um importante parceiro da UE, com a qual reforçou a cooperação na educação, na cultura, na indústria e nos transportes, e em questões de interesse mundial, como o desenvolvimento sustentável e as mudanças climáticas.

 

O senhor, que nunca disputou uma eleição, foi designado para o cargo por sua reputação como tecnocrata. Como está sendo a experiência de governar a Itália?

Trata-se de uma tarefa desgastante, mas fascinante, para a qual fui chamado por um período limitado. Procuro desempenhá-la da melhor maneira e com senso de responsabilidade, tendo sempre em mente o interesse geral, principalmente dos jovens e das gerações futuras. Nunca digo que devemos fazer algo, como reduzir a dívida pública, porque a UE o exige. Ao contrário, procuro explicar que as contas públicas em ordem e as reformas estruturais nos tornarão mais fortes e nos permitirão criar mais e melhores empregos.

 

O senhor disse que o campeonato italiano de futebol deveria ser suspenso por dois ou três anos, por causa do escândalo de compra de resultados de jogos por apostadores. A medida resolveria o problema?

Foi um desabafo. Não sou político, e isso às vezes fica claro nas minhas declarações.

 

Sua intenção é continuar na política depois de deixar o cargo, em 2013?

Não.

17/07/2012

às 14:00 \ Política & Cia

J. R. Guzzo: O Brasil é a nação do mundo que mais apanha dos países que escolheu como seus melhores amigos

Dilma e Lugo (Foto: Roberto Stuckert Filho / PR)

Dilma e Lugo: o ex-presidente do Paraguai é um dos heróis latino-americanos de Lula, mas só bateu no Brasil; extorquiu da sociedade na hidrelétrica de Itaipu e manteve o Paraguai como o grande polo da recepção de carros brasileiros roubados e do contrabando maciço, que custa ao Brasil bilhões de reais por ano (Foto: Roberto Stuckert Filho / PR)

(Artigo publicado na edição impressa de VEJA que está nas bancas. O título original é “Fé ao avesso”.)

J. R. Guzzo

J. R. Guzzo

Existem no Brasil algumas verdades que estão acima de qualquer discussão. Não há nenhuma dúvida, por exemplo, de que certas coisas só acontecem com o Botafogo. Também é perfeitamente sabido, até nos berçários, que o Brasil só vai resolver de fato os seus problemas quando a polícia achar os ossos de Dana de Teffé, como vem demonstrando há anos o cronista Carlos Heitor Cony — sem ser ouvido, infelizmente, por nossas autoridades.

Ninguém discute que ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil. Essa lista é enriquecida, de tempos em tempos, por novas evidências — mais adequadas a uma potência emergente, que se orgulha de ser um BRIC, ter um PAC e dispor de um crachá de entrada no G20.

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Também é perfeitamente sabido, até nos berçários, que o Brasil só vai resolver de fato os seus problemas quando a polícia achar os ossos de Dana de Teffé (Foto: limacoelho.jor.br)

 

A última delas começou a aparecer quase dez anos atrás, com o primeiro governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e garante que estamos desfrutando os benefícios da mais brilhante política externa que este país já teve desde o barão do Rio Branco. Trata-se, aqui, de uma fé ao avesso.

Uma política externa de fracasso em fracasso

A política externa brasileira vai de fracasso em fracasso, como no samba de Antônio Maria. Mas a cada derrota sempre aparece algum comentário elogiando a sabedoria dos nossos chanceleres, o profissionalismo do Itamaraty (“é gente do ramo”) e coisas assim — e o problema, aí, é que o governo acredita nos elogios.

Nossa diplomacia, em consequência disso, tornou-se uma notável sucessão de atos que vão contra os interesses brasileiros para satisfazer a teorias. Por causa delas, o Brasil é hoje, possivelmente, a nação do mundo que mais apanha dos países que escolheu como seus melhores amigos.

A mais recente vitória da política externa brasileira é sua resposta ao impeachment do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, um dos heróis latino-americanos do ex-presidente Lula. Esse Lugo, desde que foi eleito, em 2008, só bateu no Brasil. Extorquiu, em desrespeito aos contratos vigentes, um aumento nos dividendos que o Paraguai recebe pela sua sociedade na usina hidrelétrica de Itaipu; Lula aceitou na hora, por achar “justo”, e passou a conta para o contribuinte brasileiro.

O Itamaraty considerou “golpe” o impeachment de Lugo

Manteve o Paraguai como o grande polo da recepção de carros brasileiros roubados e do contrabando maciço que custa bilhões de reais, todo ano, à Receita Federal do Brasil. Ultimamente vinha hostilizando os brasileiros que compraram terras em áreas do território paraguaio onde jamais se havia plantado um único pé de mandioca — e acabaram transformando o Paraguai, com o seu suor e sem ajuda de ninguém, no quarto maior exportador de soja do mundo.

O impeachment de Lugo, por todas essas razões, deveria ser um alívio, até porque foi feito dentro das normas estabelecidas na Constituição do Paraguai. Mas o Itamaraty não gostou; como o homem foi posto na rua num processo que durou apenas trinta horas, decidiu que havia ocorrido um “golpe”, embora não tivesse informado o número mínimo de horas — 100? 200? 300? — que considera aceitável para um país estrangeiro depor o seu presidente.

Dilma e Cristina Kirchner (Foto: Agência Brasil)

Dilma e Cristina Kirchner: junto com a Argentina, que toma medidas comerciais cada vez mais agressivas contra os produtos brasileiros, vingou-se excluindo o Paraguai das reuniões do Mercosul (Foto: Agência Brasil)

Acordo com a Venezuela deixou os brasileiros no costumeiro papel de otários

Não conseguiu nada, é claro; é o que acontece quando um país quer interferir em questões internas de outro sem ter nenhum meio concreto para fazer isso. Mas junto com a Argentina, que toma medidas comerciais cada vez mais agressivas contra os produtos brasileiros, vingou-se excluindo o Paraguai das reuniões do Mercosul. E daí? Nenhum paraguaio vai perder um minuto de siesta por causa disso.

Para completar o castigo, enfiou-se a Venezuela no Mercosul. A última contribuição venezuelana ao Brasil foi sua sociedade meio a meio com a Petrobras, fechada por Lula em 2005, para a construção de uma refinaria de petróleo em Pernambuco. Foi um conto do vigário, que deixou os brasileiros no seu costumeiro papel de otários — são eles, como sempre, que vão pagar o prejuízo. Até hoje, sete anos depois, a Venezuela ainda não colocou um único real no projeto.

O Brasil não está incluindo mais um país no Mercosul: está incluindo o coronel Hugo Chávez. Seu governo, em matéria de economia, consegue ser ainda mais irresponsável que o da Argentina, em cujos números oficiais nem o ministro Guido Mantega acredita. Amarra-se, assim, às duas economias mais doentes da América do Sul.

Lula e Evo Morales, com colar de coca, na Bolívia (Foto: Reprodução / VEJA.com)

Lula e Evo Morales: irmãos políticos (Foto: VEJA.com)

Conta, enfim, com a Bolívia do presidente cocalero Evo Morales, outro irmão político de Lula. Ele já expropriou ativos da Petrobras na Bolívia, legalizou a circulação de veículos roubados no Brasil e tem seu governo infiltrado de alto a baixo por traficantes de cocaína, que despejam aqui, cada vez mais, a sua produção.

É um sucesso acima de qualquer discussão.

29/03/2012

às 15:00 \ Política & Cia

Leia a íntegra da entrevista de Dilma a VEJA

“O exercício da presidência da República é mais trabalhoso do que prazeroso, porque não dá tempo de desfrutar. Só descanso mesmo quando me recolho ao meu quarto para ler. Sem leitura a vida fica mais difícil. Estou lendo o segundo volume de "A Construção Nacional", de José Murilo de Carvalho” (Foto de Cristiano Mariz)

Amigos do blog, as reportagens e entrevistas de VEJA só ficam disponíveis na internet a partir das sextas-feiras da semana em que a revista é publicada.

Devido à importância da entrevista da presidente Dilma Rousseff à revista, porém, antecipamos o texto completo para os leitores do blog que não leram ou não têm o costume de ler a edição impressa.

O BRASIL AOS OLHOS DE DILMA

Em uma entrevista de duas horas a VEJA em Brasília, a presidente Dilma Rousseff diz que o poder não é desfrutável, mas que também não perde o sono com os problemas com os quais se defronta

 

Aos olhos de muita gente, a presidente Dilma Rousseff deveria estar uma pilha de nervos na semana passada. Ela vinha de uma viagem à Alemanha, onde pareceu, inadequadamente, dar lições de governança à chanceler Angela Merkel.

Na reunião que teria com os maiores empresários brasileiros, ela lhes daria “um puxão de orelha”, e, para completar o quadro recente de tensão, a base aliada do seu governo no Congresso estava em franca rebelião, contrariando seguidas iniciativas do Palácio do Planalto nas votações.

Como pano de fundo da semana caótica, havia o fato de Dilma ainda não ter convencido a opinião pública de ser a grande gestora que o eleitorado escolheu para governar o Brasil em 2010. Como escreve nesta edição J.R. Guzzo, colunista de VEJA, capturando uma sensação mais ampla, “a maior parte das atividades do governo brasileiro hoje em dia poderia ser descrita como ficção”.

Mas Dilma não estava nem um pouco tensa quando recebeu a equipe de VEJA (Eurípedes Alcântara, diretor de Redação, e os redatores-chefes Lauro Jardim, Policarpo Junior e Thaís Oyama) na tarde de quinta-feira passada para uma conversa de duas horas em uma sala contígua a seu gabinete de trabalho no Palácio do Planalto, em Brasília.

Dilma vinha de encerrar a reunião com os empresários, em que, disciplinadamente, cada um dos 28 presentes teve cinco minutos para falar, e não pareceu ter dado — ou levado — metafóricos puxões de orelha. “Tivemos uma conversa séria. Coisa de país que sabe onde está no mundo e aonde quer chegar”, disse ela.

Buzinaço estéril da “guerra cambial”

“Ficamos todos de acordo que os impostos têm de cair, os investimentos privados e estatais têm de aumentar e o que precisar ser feito para elevar a produtividade da economia brasileira e sua competitividade externa será feito.”

Para quem vinha tendo os ouvidos atacados pelo buzinaço estéril da “guerra cambial” contra o Brasil — expressão que, como se verá na entrevista a seguir, ela não acha própria —, a frase de Dilma, mesmo sem a sonoridade do português castiço, soa como música.

É saudável quando o governante não põe em inimigos externos toda a culpa por coisas que não funcionam. Melhor ainda quando reconhece que seu próprio campo, além de não ter soluções para tudo, é também parte do problema.

“Não dá para consertar a máquina administrativa federal de uma vez, sem correr o risco de um colapso. Nem na iniciativa privada isso é possível. No tempo que terei na Presidência vou fazer a minha parte, que é dotar o estado de processos transparentes em que as melhores práticas sejam identificadas, premiadas e adotadas mais amplamente. Esse será meu legado. Nosso compromisso é com a eficiência, a meritocracia e o profissionalismo.”

“Eu disse aos empresários que seremos aliados nas iniciativas para aumentar a taxa de investimento da economia — e não mais apenas o crédito para o consumo”, contou ela. Suas propostas lembram o gato do chinês Deng Xiaoping. Não importa a cor. O que interessa é que ele cace ratos.

Pré-sal e nacionalização de equipamentos

Dilma Rousseff, porém, continua sendo a Dilma da lenda da mulher durona, de coração nacionalista. Confrontada com as críticas de que a Petrobras não pode ser um braço de política industrial do governo, ela reagiu: “A Petrobras tem de saber que o petróleo é do Brasil e não dela”.

Felizmente, Dilma admite que a extração do petróleo do pré-sal tem prioridade até sobre a sacrossanta exigência de 65% na taxa de nacionalização dos equipamentos — o que inviabiliza ou encarece muitas operações. Ela não verbaliza que a taxa pode ser reduzida, mas diz que, entre a manutenção do patamar de nacionalização e a garantia de produção dos campos do pré-sal, fica com a produção.

 

"O Brasil está em uma situação agora em que podemos dizer aos países ricos que não queremos o dinheiro deles. Eu disse isso com toda a clareza à chanceler Angela Merkel durante minha visita à Alemanha. Aqui se noticiou que eu estava querendo dar lições à Alemanha. Não foi nada disso. Eu quis deixar claro que o Brasil não quer mais ser visto como destinação de capital especulativo ou apenas como mercado consumidor dos produtos que eles exportam" (Foto: Jens Schlueter / AP)

"O Brasil está em uma situação agora em que podemos dizer aos países ricos que não queremos o dinheiro deles. Eu disse isso com toda a clareza à chanceler Angela Merkel durante minha visita à Alemanha. Aqui se noticiou que eu estava querendo dar lições à Alemanha. Não foi nada disso. Eu quis deixar claro que o Brasil não quer mais ser visto como destinação de capital especulativo ou apenas como mercado consumidor dos produtos que eles exportam" (Foto: Jens Schlueter / AP)

Pôr a culpa das reais distorções do Brasil em pressões produzidas no exterior não é uma maneira de fugir dos problemas?

Primeiro, não é verdade que estejamos agindo dessa maneira. É uma simplificação grosseira supor que o governo brasileiro considere as pressões externas a única causa de nossos problemas.

Segundo, ignorar que existem fortes externalidades agindo sobre a economia brasileira é um erro que não podemos cometer, sob pena de arriscar a prosperidade nacional, a saúde de nossa base industrial e os empregos de milhões de brasileiros.

Terceiro, os fatores exógenos são reais e não podem ser subestimados.

 

A senhora se refere ao que chegou a ser chamado de “guerra cambial”?

Não acho adequado ver o fenômeno do tsunami de liquidez que foi criado pelos países ricos em crise como uma agressão proposital às demais nações. Mas a saída que eles encontraram para enfrentar seus problemas é uma maneira clássica, conhecida, de exportar a crise.

Quando o companheiro Mario Draghi (economista italiano presidente do Banco Central Europeu) diz “vamos botar a maquininha que faz dinheiro para rodar”, ele esta inundando os mercados com dinheiro. E o que fazem os investidores? Ora, eles tomam empréstimos a juros baixíssimos, em alguns casos até negativos, nos países europeus e correm para o Brasil para aproveitar o que os especialistas chamam de arbitragem, que, grosso modo, é a diferença entre as taxas de juros praticadas lá e aqui.

Eles ganham a nossa custa. Então, o Brasil não pode ficar paralisado diante disso. Temos de agir. Temos de agir nos defendendo — o que é algo bastante diferente de protecionismo.

 

Quais as diferenças entre se defender e recorrer ao protecionismo?

O protecionismo é uma maneira permanente de ver o mundo exterior como hostil, o que leva ao fechamento da economia. Isso não faremos. Já foi tentado no passado  no Brasil com consequências desastrosas para o nosso desenvolvimento.

Cito aqui o caso da reserva de mercado para computadores, que, nos anos 80, atrasou a modernização do parque industrial brasileiro e nos privou de tecnologias essenciais. Não vamos repetir esse erro. Não vamos fechar o país.

Ao contrário, queremos investimentos estrangeiros produtivos. Mas vamos, sim, defender as nossas empresas, os nossos empregos. O que estamos fazendo, e vamos continuar fazendo, é contrabalançar com medidas defensivas as pressões desestabilizadoras externas que estão carreando para o Brasil quantidades excessivas de capital especulativo.

Quando o panorama externo mudar para melhor, nós saberemos que chegou a hora de revogar as barreiras momentâneas que foram criadas.

“Quando o companheiro Mario Draghi (economista italiano presidente do Banco Central Europeu) diz ‘vamos botar a maquininha que faz dinheiro para rodar’, ele está inundando os mercados com dinheiro. O Brasil não pode ficar paralisado diante disso. Temos de agir. Temos de agir nos defendendo — o que é algo bastante diferente de protecionismo” (Foto: Alex Domanki / Reuters)

“Quando o companheiro Mario Draghi (economista italiano presidente do Banco Central Europeu) diz ‘vamos botar a maquininha que faz dinheiro para rodar’, ele está inundando os mercados com dinheiro. O Brasil não pode ficar paralisado diante disso. Temos de agir. Temos de agir nos defendendo — o que é algo bastante diferente de protecionismo” (Foto: Alex Domanki / Reuters)

Mas atrair dinheiro de fora não é bom em qualquer circunstância?

Não.

O Brasil está em uma situação agora em que podemos dizer aos países ricos que não queremos o dinheiro deles. Não queremos pagar os juros de 13% por empréstimos que eles nos oferecem. Obrigada, mas não queremos pagar as exorbitantes taxas de permanência desses empréstimos, quantia que eles cobram mesmo quando não usamos o dinheiro, apenas para que os recursos estejam disponíveis a qualquer momento.

Eu disse isso com toda a clareza a chanceler Angela Merkel durante minha visita à Alemanha. Aqui se noticiou que eu estava querendo dar lições à Alemanha. Não foi nada disso. Eu quis deixar claro que o Brasil não quer mais ser visto como destinação de capital especulativo ou apenas como mercado consumidor dos produtos que eles exportam.

Também deixei bem claro que, quando o Banco Central Europeu joga de repente 1 trilhão de euros no mercado, ele não pode esperar que os países fiquem de braços cruzados enquanto parte desses recursos vem somente passear no Brasil e voltar mais gorda para a Europa sem ter deixado aqui nenhum benefício.

 

Como Angela Merkel reagiu?

Ela disse que entendia meu ponto de vista perfeitamente, mas que os países emergentes não podiam esquecer que nós temos responsabilidades globais como consumidores ávidos e, portanto, como parte da solução das economias estagnadas da Europa.

Eu, então, respondi que nós devemos ser parceiros no ataque aos problemas globais, mas que nossa colaboração não podia ser mais apenas como mercados consumidores e foco de atração de capitais especulativos.

Disse a ela que o Brasil quer muito atrair empresas alemãs de tecnologia de ponta. Disse que essas empresas são bem-vindas ao Brasil e, uma vez instaladas aqui, com transferência de tecnologia e criação de empregos, serão tratadas como empresas nacionais, com acesso ao crédito e outras facilidades concedidas às empresas nacionais.

As pessoas precisam entender que o Brasil não está recorrendo ao protecionismo, nem arreganhando os dentes para quem quer que seja. Não é disso que se trata. Ainda assim, tem muita coisa errada no Brasil que precisa ser consertada e independe do que vem de fora… Sem dúvida.

Hoje mesmo (quinta-feira passada, 22) eu me reuni com alguns dos maiores empresários brasileiros e tivemos uma troca franca de ideias sobre como atacar nossas distorções mais paralisantes.

Eu disse a eles que nossa maior defesa é aumentar a taxa de investimento privado. Eles reclamaram que os impostos cobrados no Brasil inviabilizam as melhores iniciativas e impedem que eles possam competir em igualdade de condições no mundo. Eu concordo. Temos de baixar nossa carga de impostos. E vamos baixá-la.

Vamos nos defender atacando — ou seja, exportando e ganhando mercados. Para isso, temos de aumentar nossa taxa de investimento real para pelo menos 24%. O governo vai investir e gerar o ambiente de negócios para que isso ocorra. Os empresários terão de fazer a parte deles, aproveitar as oportunidades, assumir riscos e deixar aflorar aquilo que o Keynes chama de “instinto animal” da livre-iniciativa.

“Os empresários reclamaram que os impostos cobrados no Brasil inviabilizam as melhores iniciativas e impedem que eles possam competir em igualdade de condições no mundo. Eu concordo. Temos de baixar nossa carga de impostos. E vamos baixá-la. Temos de aumentar nossa taxa de investimento real para pelo menos 24%” (Foto: Sérgio Lima / FolhaPress)

“Os empresários reclamaram que os impostos cobrados no Brasil inviabilizam as melhores iniciativas e impedem que eles possam competir em igualdade de condições no mundo. Eu concordo. Temos de baixar nossa carga de impostos. E vamos baixá-la. Temos de aumentar nossa taxa de investimento real para pelo menos 24%” (Foto: Sérgio Lima / FolhaPress)

Como diria o Garrincha, é preciso combinar com os russos — e os indianos, e os chineses. Eles já estão atacando os mercados bem antes do que o Brasil, a senhora concorda?

Sim.

Mas a China está dando sinais evidentes de fadiga do modelo focado fortemente na exportação. Tenho acompanhado os debates sobre a China, e seus líderes não escondem que não podem mais negligenciar o mercado consumidor interno.

Eles estão mudando seu foco aceleradamente para atender às demandas do mercado interno chinês. Isso significa que a China em breve vai importar mais do que commodities. Os chineses vão importar bens de consumo — geladeiras, fogões, forno de microondas —, e a parte da indústria brasileira que via a China como ameaça poderá passar a vê-la como oportunidade de mercado também para nossas exportações de manufaturados.

“Os líderes da China não escondem que não podem mais negligenciar o mercado consumidor interno. Eles estão mudando seu foco aceleradamente para atender às demandas do mercado interno chinês. De ameaça, a China pode se tornar oportunidade de mercado também para as exportações brasileiras de manufaturados” (Foto: Ed Jones / AP)

“Os líderes da China não escondem que não podem mais negligenciar o mercado consumidor interno. Eles estão mudando seu foco aceleradamente para atender às demandas do mercado interno chinês. De ameaça, a China pode se tornar oportunidade de mercado também para as exportações brasileiras de manufaturados” (Foto: Ed Jones / AP)

 

A senhora consumiu boa parte do primeiro ano de seu governo resolvendo crises provocadas por denúncias de corrupção. Agiu com presteza e demitiu quem estava comprometido. É difícil encontrar auxiliares honestos?

A questão não deve ser colocada dessa forma.

Os processos no governo é que precisam ser de tal forma claros e os resultados de avaliação tão lógicos que não sobre espaço para as fraquezas dos indivíduos.

Montesquieu ensinou que as instituições é que devem ser virtuosas. Nenhuma pessoa que é chamada para o governo pode achar que haverá algum tipo de complacência. Nós temos de ser o mais avesso possível aos malfeitos. Não vou transigir.

É bom ficar claro que isso não quer dizer que todos os ministros que deixaram o governo estivessem envolvidos com alguma irregularidade. Alguns pediram para sair para evitar a superexposição ou para se defender das acusações que sofreram.

 

Por que a senhora não gostou da expressão “faxina ética”?

Parece preconceituoso. Se o presidente fosse um homem, vocês falariam em faxina? Isso é bobagem.

A questão não é essa palavra, a questão é que o governo tem uma obrigação de oferecer serviço público de qualidade à população. E para isso é necessário que os processos no governo sejam eficientes, meritocráticos e transparentes. Eu sempre mudei para tentar melhorar.

 

Obras de restauração do Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro: “O Brasil fará a melhor de todas as Copas do Mundo. Querem apostar quanto comigo?”

Obras de restauração do Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro: “O Brasil fará a melhor de todas as Copas do Mundo. Querem apostar quanto comigo?” (Foto: Genílson Araújo / Ag. O Globo)

Essas mudanças, porém, agora estão gerando uma crise no Congresso…

Não há crise nenhuma.

Perder ou ganhar votações faz parte do processo democrático e deve ser respeitado. Crise existe quando se perde a legitimidade. Você não tem de ganhar todas. O Parlamento não pode ser visto assim. Em alguma circunstância sempre vai emergir uma posição de consenso do Congresso que não necessariamente será a do Executivo.

Isso faz parte do processo. A tensão é inerente ao presidencialismo de coalizão com base partidária. No governo passado perdemos a votação da CPMF, e o céu não caiu sobre a nossa cabeça.

 

O que a senhora achou do discurso do ex-presidente Fernando Collor alertando-a de que ele perdeu o cargo por falta de sustentação no Congresso?

Não li o discurso.

Mas vocês souberam do discurso do Miro? (O deputado Miro Teixeira, no dia seguinte ao discurso de Collor, recolocou a questão nos eixos lembrando que não existe comparação possível entre os governos Collor e Dilma.)

O que é preciso ter em mente é que as grandes crises institucionais no Brasil ocorreram não por questiúnculas, pequenas discordâncias entre o Executivo e o Legislativo. As grandes crises institucionais se originaram da perda de legitimidade do governante.

Mas essas derrotas, coincidentemente, começam quando o governo decide trocar suas lideranças no Congresso e rever sua relação com alguns aliados.

Não gosto desse negócio de toma lá, dá cá. Não gosto e não vou deixar que isso aconteça no meu governo. Mas isso nada tem a ver com a troca dos líderes. Eles não saíram por essa razão. Devemos considerar que os parlamentares vivem um momento tenso, natural em um ano de eleições municipais.

Mas repito: não há crise nenhuma.

 

É difícil suceder na Presidência a um político popular e amado como Lula?

Não. É facílimo.

Para começo de conversa, eu fui ministra da Casa Civil do governo Lula durante cinco anos e despachava com ele dezenas de vezes por dia. Aprendi muito.

Alguns setores menosprezam o Lula por causa de suas origens, mas eu sou testemunha de que ele tem momentos de gênio na política e um carisma que nunca vi em outra pessoa.

Esse metalúrgico que muita gente menospreza mudou o Brasil e ajudou a criar uma nova ordem mundial com o G20, por exemplo, do qual ele foi o grande incentivador.

 

A senhora tem dificuldade em discordar do ex-presidente Lula?

Nem um pouco.

Nós já divergimos muito no passado e continuamos não concordando em algumas coisas.

Eu tenho uma profunda admiração por ele, uma profunda amizade nos une, ele é uma pessoa divertidíssima, com uma capacidade de afeto descomunal. Mas discordamos, sim. Isso é normal. Mas, no que é essencial, nós sempre concordamos.

 

Em que momentos a senhora percebe que faz diferença ser uma mulher na Presidência?

Quando eu acordo de manhã e me vejo no espelho.

Estou brincando. Eu acho que a diferença mesmo eu vejo quando as mulheres simples desse Brasil param para conversar comigo, acenam para mim, em quem enxergam um símbolo de emergência e de ascensão. A cada dia eu me convenço de que o século XXI é o século das mulheres.

 

A senhora se dá o direito de ter uma opinião como mulher sobre determinado assunto, o aborto, por exemplo, e outra como presidente?

De maneira alguma.

Ser presidente não me dá o direito de expressar opinião pessoal, particular ou subjetiva sobre qualquer tema.

Aos 64 anos, tenho de ter a sabedoria de guardar essas opiniões para mim mesma.

“Não há crise nenhuma. Perder ou ganhar votações faz parte do processo democrático e deve ser respeitado. Crise existe quando se perde a legitimidade. Você não tem de ganhar todas. O Parlamento não pode ser visto assim. Em alguma circunstância sempre vai emergir uma posição de consenso do Congresso que não necessariamente será a do Executivo”  (Foto: Fábio Pozzembom / ABR)

“Não há crise nenhuma. Perder ou ganhar votações faz parte do processo democrático e deve ser respeitado. Crise existe quando se perde a legitimidade. Você não tem de ganhar todas. O Parlamento não pode ser visto assim. Em alguma circunstância sempre vai emergir uma posição de consenso do Congresso que não necessariamente será a do Executivo” (Foto: Fábio Pozzembom / ABR)

O que a senhora descobriu como presidente que não sabia como ministra?

O povo se identifica com você, vê em você uma igual na Presidência.

E, por isso, o brasileiro se entrega, mostra como é caloroso. Ele te identifica na rua, grita seu nome, te abraça, te pega. Você sente que está fazendo aquilo de que ele precisa.

Isso é maravilhoso!

 

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