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fuga de capitais

02/04/2014

às 18:37 \ Vasto Mundo

ARGENTINA: Ao mexer novamente na ferida da guerra perdida para os britânicos, Cristina Kirchner faz demagogia rasteira para afastar a opinião pública dos reais problemas do país

Acompanhada do vice-presidente, Amado Boudou (à esq.), e do porta-voz do governo Jorge Capitanich, a presidente Cristina Kirchner lança a nova cédula com a imagem das Malvinas/Falklands: de novo, a demagogia (Foto: Carlos Brigo / Agência EFE)

Acompanhada do vice-presidente, Amado Boudou (à esq.), e do porta-voz do governo Jorge Capitanich, a presidente Cristina Kirchner lança a nova cédula com a imagem das Malvinas/Falklands: de novo, a demagogia (Foto: Carlos Brigo / Agência EFE)

O lançamento de uma cédula de dinheiro de 50 pesos tendo no verso um mapa das ilhas Malvinas/Falklands não passa de mais um lance de demagogia rasteira da presidente da Argentina, Cristina Kirchner, para desviar a atenção da opinião pública para o desastre que é seu governo.

Num país com fuga de capitais estrangeiros, com inflação em alta e escondida por medidas artificiais antimercado, com institutos oficiais cujos dados econômicos e financeiros não são aceitos por organismos internacionais por serem notoriamente maquiados ou simplesmente falsos, a presidente não desiste de explorar o sentimento de frustração e orgulho ferido dos argentinos pela derrota para os britânicos — que controlam as ilhas desde 1833 — na guerra de 1982.

Esta, como se sabe, foi decorrência da irresponsabilidade de uma ditadura militar assassina que invadiu as ilhas sabendo que uma potência nuclear como o Reino Unido, um dos cinco integrantes com poder de veto no Conselho de Segurança da ONU, não poderia deixar passar o episódio em branco.

A ditadura expôs os argentinos a uma humilhação militar e submeteu jovens soldados a horrores de uma guerra travada sem recursos suficientes sequer para enfrentar o frio e a fome. A tragédia durou 73 dias e deixou um rastro de 649 mortos e 1.082 feridos, muitos deles inutilizados para sempre — e ainda há quem conteste os dados oficiais e diga que o número de baixas é superior.

Como resultado da derrota militar, a ditadura foi enxotada do poder com o rabo entre as pernas, mas as feridas da guerra não se pode dizer que tenham cicatrizado. Sempre que pode, Cristina as remexe, como ocorre neste caso: a cédula está sendo lançada para “homenagear” os mortos no conflito.

Ao insistir na tese da soberania da Argentina sobre as ilhas, a presidente ignora por completo o referendo supervisionado internacionalmente que mostrou, em 2012, que 99,8% dos habitantes das Malvinas/Falklands que votaram desejam continuar sendo cidadãos britânicos. No total, 92% dos 1.672 habitantes aptos a votar participaram do referendo. Apenas três pessoas votaram contra. E não se conhece forma melhor de decidir a soberania de um território do que consultando as pessoas que vivem nele.

As Malvinas/Falkland eram inicialmente desabitadas e já foram reivindicadas por cinco diferentes países, incluindo, além de Argentina e Reino Unido, a França, a Espanha e a Holanda, até o estabelecimento dos britânicos no território, há 181 anos. A Argentina só teve soberania sobre as ilhas durante três anos.

Em Buenos Aires, na solenidade de lançamento das cédulas, a presidente recorreu a delírios sem o menor fundo de verdade para reivindicar a anexação do arquipélago. “A verdade sobre as Malvinas é que elas constituem a base militar da OTAN [a aliança militar ocidental] no Atlântico Sul”, jurou. (A guarnição da ilha — a “base militar” da OTAN — consiste em algumas centenas de soldados, em uma lancha de patrulha, eventualmente substituída por uma corveta (pequeno barco de guerra), e um único caça-bombardeiro.

Mas Cristina delira. “Mísseis (no arquipélago) podem alcançar grande parte do Cone Sul e chegar até ao Equador”, disse, referindo-se a armamentos que jamais foram instalados nas ilhas e fazendo supor uma loucura – como se o Reino Unido ou os países da OTAN desejassem lançar um ataque militar à América Latina, com os quais mantêm excelentes relações diplomáticas e comerciais. A única exceção é o atual governo argentino.

24/01/2014

às 16:00 \ Política & Cia

Sardenberg: No que Dilma se parece com Hollande — e no que é diferente

François Hollande: resultados em suspenso (Foto: France Press)

François Hollande: resultados em suspenso (Foto: France Press)

Artigo publicado no jornal O Globo

DIFÍCIL MUDAR

Carlos Alberto Sardenberg

Se François Hollande tivesse como presidente o mesmo sucesso que mostra com as mulheres, a França poderia estar numa boa.

Neste momento, aliás, Hollande está em processo de mudança nas duas situações. Substitui a atual primeira dama, a jornalista Valérie Trierwailer, pela atriz Julie Gayet – e nesses casos pessoais, ninguém além dos diretamente envolvidos pode dizer se é para melhor ou para pior.

Já na presidência, a guinada tem uma clara direção. Hollande anunciou uma nova política econômica, com cortes de gastos e de impostos, parcialmente atendendo a proposta da principal associação de empresários. Assim, depois de um ano e meio tentando recuperar o crescimento com expansão do gasto público, financiado com mais impostos, na linha socialista, Hollande reconhece o fracasso e vira-se para o receituário mais à direita.

O fracasso é evidente na economia e na política. Nem o país voltou a crescer, nem apareceram os empregos e os investimentos. Ao contrário, o “custo França”, que já era superior ao da Alemanha e da Inglaterra, tornou-se ainda um maior obstáculo à competitividade dos negócios franceses. E a popularidade de Hollande é recorde de baixa.

Se fosse nos Estados Unidos, o adultério, flagrado por uma revista, seria a pá de cal no seu governo e na sua carreira. Já na França, a ampla maioria da população, em pesquisa, concordou que se trata de um assunto pessoal. De modo que fica tudo em suspenso.

Hollande não negou o caso, também não confirmou explicitamente, mas deixou a pista. Quando perguntado quem era a atual primeira dama, disse que daria a resposta só em fevereiro. E pediu respeito.

Nisso, deram. Já na política econômica, o debate esquentou. Na esquerda, muitos companheiros criticaram a “virada neoliberal”. No outro lado, muitos acharam as novas medidas tímidas e pouco críveis. De maneira que aqui também a coisa fica em suspenso. Vai funcionar? A ver, e só depois de fevereiro.

É curioso como o primeiro presidente socialista da era moderna, François Mitterrand, enfrentou situações semelhantes com mais savoir faire. Durante os 14 anos de sua presidência (1981-1995), bem casado, com três filhos, manteve uma amante praticamente oficial, com a qual teve uma filha, reconhecida e sempre no seu convívio. Jornalistas, adversários e eleitores deixaram-no em paz.

Na política, Mitterrand começou com uma fúria socialista – uma sequência de estatizações de bancos e grandes empresas. Fracassou. Houve fuga de capitais, desinvestimento, perda de empregos. Mitterrand virou-se , então, à direita, inclusive reprivatizando parte do que havia nacionalizado. Reelegeu-se, terminou seu período razoavelmente bem.

Já o atual François – que repetição, não é mesmo? – parece mais atrapalhado e indeciso nas duas situações. Pior para a França e para qual das duas, Valérie ou Julie? 

Dilma em Davos

Dilma falará em Davos, em busca de credibilidade (Foto: Roberto Stuckert Filho / PR)

Dilma foi a Davos em busca de credibilidade (Foto: Roberto Stuckert Filho / PR)

O Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, é onde os líderes políticos mundiais, no governo ou fora dele, se encontram com os representantes do capital. Lula foi lá logo no início do seu governo. Dilma não foi nos seus três primeiros anos. Mas está lá para a reunião deste ano, iniciada ontem. Como Lula, Dilma busca agora a mesma coisa, credibilidade.

Mais exatamente, a presidente quer que o capital e a liderança política global acreditem que ela respeita os contratos, os fundamentos macroeconômicos, a iniciativa privada. Numa palavra… o capitalismo.

Pode-se dizer que, aqui e só aqui, Dilma passa por uma situação parecida à de Hollande. Ambos são de esquerda, formaram seu pensamento econômico na esquerda, aplicaram o programa de aumento de gasto público e mais intervenção estatal, mas algo deu errado. Aqui, baixo crescimento e inflação elevada. Lá, baixo crescimento e ameaça de recessão.

Tanto lá como aqui, o capital – ou seja, empresários nacionais e estrangeiros sentem-se hostilizados pelo governo, tratados como um bando de egoístas que só pensam no lucro, dane-se o povo. Desconfiados, não investem, não geram empregos.

Mas se Hollande, ainda que hesitante, reconhece o problema, ao anunciar uma nova política econômica, a presidente Dilma está convencida de que faz tudo certo, à esquerda e à direita.

Acredita, ou pelo menos demonstra isso com ênfase, que implanta com êxito uma nova matriz econômica, anti-neoliberal, e, ao mesmo tempo, respeita os fundamentos da economia de mercado. Logo, errados estão os empresários, banqueiros e os críticos em geral.

Ela foi eleita e, ao contrário de Hollande, tem boa aprovação popular. Logo, tem todo o direito de pensar assim.

Só não pode querer que todos concordem com ela.

26/09/2012

às 17:33 \ Vasto Mundo

Argentina: enquanto estatiza dois terços da televisão, governo de Cristina Kirchner mente sobre a economia

Mal acabava de aplicar um duríssimo golpe na liberdade de imprensa e na democracia ao virtualmente estatizar dois terços das emissoras de TV na Argentina e o governo da presidente Cristina Kirchner divulgou dados francamente fantasiosos — alguns deles, pura e simples mentira — sobre a economia do país.

O projeto do orçamento para 2013 prevê uma inflação de 10,8% — quando até o Obelisco do centro de Buenos Aires sabe que a inflação real, medida por empresas de consultoria, associações de defesa do consumidor, institutos de economia independentes e até por organismos ligados aos sindicatos, tradicionais aliados do peronismo de Cristina sabem que o índice atual JÁ É de 25%, caminhando para explodir.

Tanto é verdade que, em julho passado, a revista britânica The Economist, uma das bíblias do capitalismo e baluarte de credibilidade em matéria de informações, informou que não mais publicaria os dados oficiais de inflação da Argentina por não serem confiáveis. Organismos internacionais igualmente relutam em utilizar os dados oficiais do governo Kirchner para suas projeções.

Outros delírios manifestados pelo Ministério da Economia do governo argentino incluem uma previsão da cotação do dólar em 5,10 pesos — quando qualquer turista que dê um pulo no país para compras sabe que, no mercado paralelo, a moeda americana vale no mínimo 6,30 pesos, AGORA.

Pouca gente acredita que o PIB do país cresça os 4,4% projetados — diante de uma situação de incerteza jurídica, fuga de capitais, explosão de gastos públicos, aumento brutal das importações e outros sinais de alarme.

Na verdade, talvez toda a barulheira contra o grupo de mídia Clarín e outros atos demagógicos do governo da presidente certamente, como a recolocação na mesa da questão das Ilhas Malvinas/Falklands — cuja soberania a Argentina reivindica ao Reino Unido — têm como evidente objetivo distrair a opinião pública da cada vez mais preocupante realidade da ecomia, que, diga-se de passagem, nada ilustra melhor do que o fato de que o grande país vizinho acaba de perder o posto de terceiro maior Produto Interno Bruto da América Latina – após Brasil e México –, que mantinha há décadas, para a Colômbia: 362 bilhões de dólares para a Colômbia, 347 bilhões para a Argentina.

LEIAM TAMBÉM:

Na Argentina de Cristina Kircher, a catástrofe econômica já se esboça no horizonte

01/06/2012

às 19:53 \ Vasto Mundo

Dois lados da mesma moeda da crise: enquanto a Espanha enfrenta brutal fuga de capitais, a Suíça ganha dinheiro até com sua dívida

Enquanto a Espanha sofre fuga de capitais, a Suíça emite papéis de sua dívida pública a juros negativos (Ilustração:tudosis.es)

Duas faces de uma mesma crise financeira: a Espanha — e a velha e inevitável Suíça.

Provavelmente os amigos do blog já leram ou viram que, na Espanha, o baque da crise da dívida pública aparece em números claríssimos nos dados sobre a balança de pagamentos divulgados pelo Banco de España (o Banco Central), segundo os quais o primeiro trimestre do ano registrou uma saída recorde de capitais do país de 97,090 bilhões de euros (242,7 bilhões de reais).

Só em março, 66,2 bilhões bateram asas diante da descrença na solvência espanhola. Os números, brutais para um país lutando para permanecer à tona, são os piores desde que o Banco de España começou a contabilizá-los na forma atual.

Só para comparar: no mesmo período de 2011, ingressaram na Espanha capitais no valor de 20,887 bilhões de euros (52,2 bilhões de reais).

A Espanha vem emitindo títulos para financiar sua dívida pública a taxas superiores a 6% ao ano — sufocantes, intoleráveis para um país europeu. Mesmo assim, para papéis de prazo relativamente curto (três anos). A Alemanha, país mais rico da Europa, se financia a taxas próximas de 0%.

Agora, a Suíça:

A enorme procura do franco suíço, tradicional moeda forte, como reserva para enfrentar esses tempos bicudos levou a Suíça a emitir dívida pública desde o ano passado – e, acreditem, a juros negativos!

Sim, a Suíça, que consegue ganhar dinheiro com praticamente tudo, conseguiu a extraordinária proeza de receber dinheiro por emitir dívida.

Esta semana, o BC suíço colocou no mercado títulos no valor de 688 milhões de francos (1,43 bilhão de reais) a juros negativos de 0,6% ao ano – ou seja, além de conseguir recursos com os papéis, receberá por eles, de seus portadores, 4,2 milhões de francos (8,75 milhões de reais) por ano.

 

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