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François Hollande

05/05/2013

às 16:00 \ Tema Livre

ENTREVISTA: Carla Bruni-Sarkozy, ex-primeira-dama, ex-modelo, cantora e compositora: o belo fruto de um caso de amor. Ela fala até de seu pai biológico, que vive no Brasil

Carla Bruni: "Eu estava profundamente apaixonada. Ainda estou, mas o começo de um relacionamento é um momento único" (Foto: Nicolas Guerin / Getty Images)

Carla Bruni: "Eu estava profundamente apaixonada. Ainda estou, mas o começo de um relacionamento é um momento único" (Foto: Nicolas Guerin / Getty Images)

Entrevista concedida a Tatiana Gianini, de Paris, publicada em edição impressa de VEJA

 CARLA BRUNI-SARKOZI, O BELO FRUTO DE UM CASO

A cantora e ex-primeira-dama da França fala do pai biológico, que vive no Brasil, e diz que acorda o marido, Nicolas Sarkozy, para mostrar as canções que compõe no meio da noite

Ao entrar na sala do hotel Saint James Paris para a entrevista com Carla Bruni, encontrei a ex-primeira-dama da França (2008-2012) comprimindo as costas contra a quina de uma parede, gemendo:

– Ai, a gente passa o dia carregando filho e fica com uma dor na lombar…!

A cena seria algo constrangedora se tivesse sido protagonizada por outra mulher. Mas sendo Carla Bruni ficou sensual.

É impossível dissociá-la da sensualidade, atributo que exala também nas canções que compõe e canta, as últimas reunidas no CD Little French Songs, lançado neste mês. Italiana de Turim, naturalizada francesa, a ex-modelo de 45 anos tem uma menina de 1 ano e 6 meses com o ex-presidente Nicolas Sarkozy e um filho de 11 anos de um relacionamento anterior.

Entre uma tragada e outra de um cigarro eletrônico – que contém nicotina, mas produz um vapor sem cheiro -, Carla falou sobre o pai biológico, Maurizio Remmert, e sobre a vida fora do Palácio do Eliseu.

Na música Pas une Dame, a senhora afirma ser “o fruto do acaso da existência incerta”. Trata-se de uma menção ao fato de ter descoberto, aos 28 anos, que era filha de um amante de sua mãe?

A expressão “o fruto do acaso” fala sobre mim, sobre a forma como nasci e sobre o fato de eu ter tido dois pais – o que é melhor do que não ter tido nenhum, diga-se de passagem.

As músicas têm uma origem pessoal, mas, como artista, eu busco entender como os momentos da minha vida podem alcançar as experiências dos outros.

A ideia da existência incerta vale para todos. Não temos certeza de nada nesta vida, além da morte. Se alguém acha que terá um marido ao lado para sempre, está enganado. Pode-se perdê-lo amanhã. Por isso, é preciso cuidar dele.

"Se alguém acha que terá um marido ao lado para sempre, está enganado. Pode-se perdê-lo amanhã. Por isso, é preciso cuidar dele" (Foto: Michael Kappeler / AFP)

"Se alguém acha que terá um marido ao lado para sempre, está enganado. Pode-se perdê-lo amanhã. Por isso, é preciso cuidar dele" (Foto: Michael Kappeler / AFP)

 

Como ocorreu a aproximação com seu pai biológico?

Pouco antes de morrer, meu pai de criação (o industrial e compositor clássico Alberto Bruni Tedeschi), que até então eu pensava ser o único, me disse que eu tinha outro pai, biológico.

Perguntei a minha mãe se aquilo era verdade. Ela confirmou a história, meio sem graça. Só disse: “Pois é… é verdade”.

Então eu procurei o Maurizio. Ele tinha fotos antigas que minha mãe lhe enviava desde os meus tempos de modelo. Os dois sempre estiveram em contato, mas ela nunca me contava nada!

Somos italianos, muito carinhosos e alegres. Não foi um momento negativo da minha vida, e sim de felicidade. De repente, descobri que tinha uma nova irmã, Consuelo.

O que a senhora tem em comum com seu pai?

Maurizio é meu único parente que, como eu, toca violão. Nessas horas, não há como negar a herança genética.

Eu comecei a tocar aos 7 anos sem ter a influência nem conhecer os hábitos do meu pai biológico. Eu me pareço muito com ele. Foi estranho quando o encontrei. Maurizio era a peça perdida do meu quebra-cabeça. Antes de conhecê-lo, eu me sentia como a imagem inconclusa de um jogo de montar.

Seu pai vive em São Paulo. Vocês se encontram com frequência?

Não muita, infelizmente. Algumas vezes, ele vem a Paris. Em outras, vamos ao Brasil.

Maurizio me levou a Jericoacoara e a Fortaleza. Foi maravilhoso. O Brasil é um dos países mais lindos do mundo. Gostaria de ter tempo para visitá-lo com mais calma.

A senhora tinha todos os atributos normalmente associados a uma primeira-dama ou teve de aprender?

Cada mulher que assume esse papel tem de desempenhá-lo à sua maneira.

É muito difícil julgar. Recebi muito apoio de minha antecessora, Bernadette Chirac. Como ela foi primeira-dama por doze anos, conhecia o Palácio do Eliseu como ninguém. Para me beneficiar dos seus conselhos, eu a convidei para almoçar diversas vezes.

Eu me tornei francesa quando me casei (nove meses depois de Sarkozy assumir a Presidência), e precisava aprender mais sobre o país. Bernadette me deu ótimos conselhos. Um deles é que, para uma primeira-dama, a melhor coisa a fazer é trabalho humanitário.

Trata-se de uma boa oportunidade de ajudar os outros, porque abre muitas portas. Eu pude me dedicar mais à minha luta incansável contra a aids (seu irmão Virginio morreu da doença, em 2006). Como parte de minhas iniciativas contra a aids, visitei Benin, Burkina Faso e outros países africanos.

Em 2010, a senhora divulgou uma carta pública contra o apedrejamento da iraniana Sakineh Ashtiani. Como primeira-dama, gostaria de ter tido mais liberdade para levantar a voz contra aquilo que lhe causava indignação?

Naquele episódio, não fiz mais do que escrever a carta. Quando se ocupa a posição de primeira-dama, é preciso respeitar o fato de que o posto é muito maior do que você. Não se tratava de mim, de minha opinião.

Mesmo agora, durante a campanha de divulgação de meu novo disco, muitas vezes sou indagada sobre temas políticos. Adoraria responder a essas perguntas. Não o faço porque, sendo casada com um político, é difícil dar minha opinião.

Minhas ideias sempre seriam confundidas com o pensamento de meu marido, como se ele estivesse falando por meu intermédio.

Apesar disso, a senhora se posicionou a favor do casamento gay. Sarkozy é contra. Como a senhora lida com diferenças de opinião como essa?

Isso é diferente, porque o mundo caminha para a liberação do casamento entre homossexuais.

Meu marido e eu não precisamos ter a mesma opinião. Ele tem um enorme talento para o convencimento. Eu me guio mais pela emoção.

Qual foi sua maior gafe como primeira-dama?

Sempre fui muito cuidadosa, mas cometi gafes. Um dia, estava dando uma entrevista quando meu marido apareceu para dar um oi. Quando saiu, comentei: “Ele trabalhou a noite toda, pauvre chou (pobrezinho)”. No dia seguinte, o apelido estava em todos os jornais.

A senhora se sentia solitária como primeira-dama?

Não, de maneira nenhuma. Eu tinha meu marido, os quatro filhos para cuidar (incluindo os três do casamento anterior de Sarkozy) e o trabalho humanitário.

Havia sempre muita gente ao redor e eu estava profundamente apaixonada. Ainda estou, mas o começo de um relacionamento é único. Prefiro estar sozinha ao compor, mas no resto do tempo sou sociável.

A julgar pela letra da canção Liberté (Liberdade), do seu novo CD, a senhora se sentiu aliviada ao deixar o Eliseu.

Liberté foi escrita em parte enquanto eu era primeira-dama e em parte depois. Eu quis fazer uma declaração de independência com essa música, talvez porque de fato eu esteja mais livre agora que deixei de ser primeira-dama.

No entanto, essa canção é ambivalente. Acredito firmemente que a liberdade precisa de restrições para prosperar.

A liberdade completa não passa de anarquia. É um conceito sedutor, mas perigoso. Quando se tem filhos, entende-se melhor quanto a liberdade total é tóxica para o ser humano. Limites são necessários.

Costumo dizer que, para erguer uma casa, é preciso construir paredes, os limites. Quando está livre de obrigações, o ser humano não tem de se preocupar com nada, tampouco tem com quem se preocupar. É quando se está livre e, ao mesmo tempo, sozinho.

A recém-conquistada liberdade também consiste em poder vestir jeans, e não apenas roupas formais?

Nunca abandonei totalmente os jeans. O que tentei fazer como primeira-dama foi honrar a tradição francesa de elegância.

Na França há excelentes estilistas de alta-costura. Eu concluí que, para representar o país, não deveria usar jeans. Foi um prazer para mim difundir a cultura da França dessa forma, fazendo jus à sua reputação de elegância e beleza.

Que comentário a senhora faria sobre o estilo de Michelle Obama?

Ela é fantástica, assim como a mulher do premiê inglês David Cameron, Samantha.

Michelle tem uma pele linda, fresca como uma rosa.

A beleza, depois de certa idade, está muito mais ligada à elegância, à simpatia e à inteligência. Até os 35 anos de idade, mesmo uma pessoa desagradável pode ser considerada bonita. Depois, não mais.

Qual é o seu limite quando se trata de manter uma aparência jovem?

Quando eu era mais nova, costumava cuidar muito da pele com protetor solar e tratamentos a laser, para tirar manchas e pequenas rugas. Meu rosto e meu corpo eram minhas ferramentas de trabalho como modelo.

Agora, eu me importo bem menos com isso. Não sou contra a cirurgia plástica, mas acho que meu rosto ficaria um pouco diferente se eu fizesse alguma intervenção. Não uso toxina botulínica porque só se pode colocá-la aqui (ela franze a testa para mostrar as linhas de expressão).

A pele muda, não importa o que se faça. Além disso, não é sexy ter a pele lisinha aos 50 anos. Fica artificial. A idade de qualquer pessoa pode ser descoberta quando se olha para seu cabelo ou se escuta sua voz.

Mas, se existisse uma pílula que rejuvenescesse vinte anos sem exageros, eu tomaria agora mesmo.

A senhora é mais alta do que seu marido. Precisou abrir mão dos sapatos com salto?

Sou mais alta do que a maioria das pessoas, não só dos homens, e não gosto disso.

Salto alto é lindo, mas é uma tortura para os pés e para as costas. Só uso sapatos assim quando não tenho escolha. Quando chego em casa, fico louca para tirá-los.

"Eu comecei a tocar aos 7 anos" (Foto: AP)

"Eu comecei a tocar aos 7 anos" (Foto: AP)

Costuma-se dizer que as francesas não se sentem culpadas por amamentar os filhos por pouco tempo. A senhora também não?

Eu nasci na Itália. Talvez por isso tenho uma forma diferente de lidar com meus filhos. Eu adorava quando eles eram bebês de colo. Agora tenho babá para me ajudar, mas naquela fase eu fazia tudo sozinha.

Tive sorte de não precisar voltar ao trabalho logo após o parto. Na França, a licença-maternidade é muito curta. Em alguns casos, de apenas dois meses.

Amamentei Aurélien por sete meses e Giulia por cinco. Eu me preocupo mais com meu filho do que com minha filha, porque acho que as mulheres são mais fortes do que os homens. Não tenho medo de ele ser frágil fisicamente, mas sim psicologi­camente. Por instinto, acho que os homens precisam de mais proteção.

Há uma canção sobre uma prece em seu disco. A senhora é religiosa?

É uma reza sem Deus. Gosto de fazer isso quando estou confusa ou desesperada.

Em seu álbum anterior, há uma referência à cocaína em uma canção de amor sobre Sarkozy. A senhora mostra suas músicas ao marido quando está compondo?

Meu pobre marido é minha cobaia. Não só mostro as letras a ele como canto e toco. Às vezes faço isso no meio da noite, que é quando componho e fico ansiosa para ter uma avaliação do que fiz.

Aliás, toda a família é minha cobaia. Mostrar meu trabalho aos outros é a melhor forma de saber o efeito que ele terá no público.

Le Pingouin descreve um homem sem charme, apesar do ar de “pequeno soberano”. A senhora já negou que essa música seja uma referência ao presidente François Hollande, que derrotou Sarkozy nas eleições do ano passado. O que a irrita nas pessoas?

Não gosto de indelicadezas desnecessárias, como quando alguém lhe diz: “Nossa, como você engordou”. Sim, pessoas assim existem. Ou quando, no ônibus, cansada, às vezes grávida, ninguém se digna a oferecer-lhe o assento.

Mas a senhora anda de ônibus?

Peguei o metrô recentemente. Com uma roupa mais esportiva, um boné e sem maquiagem, não sou reconhecida. Ou então ninguém dá a mínima.

A senhora foi top model e primeira-dama, é mãe de dois filhos e tem uma carreira musical respeitável. O que vem agora?

A segunda parte da vida não é tão fácil. Amigos morrem, a gente morre. Não quero ser muito dramática. Gostaria que minha vida permanecesse como está. Se eu pudesse abrir mão de tudo o que tenho por algo, seria pela saúde e pela felicidade das pessoas que amo.

Primeira-dama, nunca mais?

Não penso nisso. Não é algo que dependa de mim.

24/03/2013

às 15:00 \ Vasto Mundo

FRANÇA: O bonachão Hollande veste trajes de guerreiro, se aproxima militarmente da Grã-Bretanha e recebe aplausos

Blindados franceses durante intervalo de operações no Mali (Foto: AFP)

Por Gilles Lapouge – Correspondente em Paris do jornal O Estado de S.Paulo

Dois anos de horror na Síria, 70 mil mortos e 1 milhão de refugiados. E o presidente Bashar Assad, contra o qual se levantou o povo sírio há 24 meses, continua a desafiar uma opinião pública horrorizada pelo cinismo dos açougueiros de Damasco.

Isso não quer dizer que a Europa não fez nada para pôr fim à carnificina. Em intervalos regulares, Washington, Paris, Berlim e Roma suspiram. Às vezes, dizem: “É uma vergonha o que ocorre na Síria”.

Agora, porém, dois países europeus se aborreceram: França e Grã-Bretanha. Eles pediram que a União Europeia levantasse o embargo de armas aos rebeldes.

Assim, enquanto o tirano Assad é reabastecido por Rússia e Irã, os rebeldes estão submetidos ao bloqueio. O presidente francês, François Hollande, e o premiê britânico, David Cameron, informaram que, se o embargo não for levantado, França e Grã-Bretanha o ignorarão e entregarão armas, sobretudo mísseis terra-ar.

Trata-se de uma decisão audaciosa. Com o tempo, a rebelião síria foi inundada por guerrilheiros de todo o mundo árabe e seguidores do islamismo radical. Em suma, Paris pretende armar na Síria homens que são primos ideológicos dos terroristas contra os quais a França enviou seu Exército ao Mali.

Hollande não ignora isso, mas estima que não se pode deixar Assad bombardear suas próprias cidades e assassinar seu povo sem agir.

Assim, o presidente francês renova seus laços calorosos com os britânicos no momento em que o clima entre Londres e Paris era glacial. Essa reaproximação não é inocente.

Alguns meses atrás, a dupla França e Alemanha, que conduzia a Europa há 50 anos, se desentendeu e perdeu fôlego. O motor franco-alemão entrou em pane. Em seu lugar, a chanceler alemã, Angela Merkel, entregou-se aos primeiros testes de um novo motor anglo-alemão.

Mas sobre a Síria está se formando uma nova dupla: França e Grã-Bretanha. A Alemanha, que até então sempre foi hostil ao envio de armas aos rebeldes sírios, sente-se isolada. Merkel não deve ficar contente.

Hollande é um sujeito estranho. Ninguém é menos belicoso, menos militar do que esse tipo gorducho, hesitante, escrupuloso, que é apresentado sempre com traços de um homem não muito corajoso, um “político à antiga”, mais à vontade num gabinete ministerial do que de uniforme de batalha.

Hollande recebe explicações de oficiais da Marinha dentro do submarino atômico "Le Terrible", na costa da Normandia (Foto: AFP / ECPAD / Arnaud Roine)

Por paradoxo ou ironia da história, porém, esse civil absoluto conhece seus mais belos sucessos como comandante de guerra. A decisão que ele acabou de tomar para a Síria se inscreve nessa análise. Enquanto todos os líderes ocidentais, exceto Cameron, tapam seus ouvidos para não ouvir os gritos dos rebeldes, Hollande e Cameron decidem agir.

Há algumas semanas, Hollande já havia jogado a carta militar quando decidiu enviar o Exército francês ao Mali para impedir que jihadistas estabelecessem um “Estado terrorista” no coração da África.

A ação transformou e amplificou a imagem internacional de Hollande e da França. Nos jornais do mundo inteiro, editorialistas teceram elogios ao “guerreiro”. Os jornais americanos, em particular, descobriram, de repente, uma França inédita, resoluta, militar.

Caso de amor

“Vive la France!”, escreveu a revista Newsweek como título de um longo artigo enaltecendo Hollande, no qual se diz que “a França com seus aviões, seus helicópteros e seus paraquedistas é a única nação da Europa capaz de lutar contra os jihadistas no território malinês”.

O New York Times não deixou por menos. “Como nação militar, a França não tardará em destronar a Grã-Bretanha.”

Na Espanha, a reação foi de entusiasmo: “A França é o gendarme do Ocidente”, disse o La Vanguardia, de Barcelona. “Ela encontra seu status de capital da Europa mediterrânea”. O La Razón, de Madri, celebrou “a nova grandeza” da França.

Mesmo na Índia, os trajes de guerreiro vestidos por Hollande são admirados. O jornal India Today, de Nova Délhi, não economizou as palavras: “Bye-bye, Londres. Hello, Paris!”, escreveu. “As relações da Índia com a França estão voltadas para o futuro, enquanto as existentes com a Grã-Bretanha estão orientadas para o passado.”

Esses aplausos são particularmente surpreendentes porque, na própria França, a figura de Hollande é, ao contrário, mais discutida e mais criticada do que nunca.

No momento em que os Estados Unidos descobrem, de repente, virtudes insuspeitadas na França, os franceses são, cada vez mais, hostis a Hollande. Seu índice de popularidade caiu. Apenas 30% dos franceses confiam nele atualmente.

De maneira bizarra, agora que os grandes jornais estrangeiros descobriram que o terno de três peças de Hollande dissimula, na verdade, um uniforme militar repleto de medalhas e ornado com fuzis, lança-granadas, aviões e foguetes, os franceses insistem em ver seu presidente como um burguês acanhado, melhor equipado para a retirada ou para a derrota do que para o ataque ou para a vitória.

Eles reconhecem, contudo, que ele é bastante afável e não faria mal a uma mosca. É esse, aliás, o sentido do apelido que seus ministros e adversários lhe deram: “Bonachão”.

21/02/2013

às 15:30 \ Política & Cia

J.R. Guzzo: Estamos num mundo esquisito, em que o presidente da França precisa interromper seu trabalho para tratar de dois elefantes doentes num zoológico

Baby e Nepal estão morrendo de tuberculose (Foto: Ledauphine.com)

Baby e Nepal estão morrendo. Triste, não? Mas, na França, país que já foi governado pelo bom rei São Luís, por Napoleão Bonaparte e pelo general Charles de Gaulle, ninguém viu nada demais no fato de que o presidente da República tivesse de interromper o que estava fazendo para ocupar-se com dois elefantes tuberculosos (Foto: Ledauphine.com)

Artigo publicado na edição de VEJA que está nas bancas

DIA DO ELEFANTE

Vai ficando cada vez mais esquisita, hoje em dia, a agenda de trabalho dos chefes de governo nos países top de linha do planeta. Todos eles já têm de penar, e muito, com as dificuldades causadas por este intratável criador de casos que é o ser humano. Cada vez mais, agora, descobrem que também precisam levar a sério os animais — e põe sério nisso.

Neste preciso momento, por exemplo, a França se vê metida numa questão enjoadíssima por causa de dois elefantes. Os bichos, Baby e Nepal, são inquilinos do zoológico da Tête d’Or, que funciona desde 1858 num bairro do centro de Lyon — cidade com 1,5 milhão de habitantes na sua área metropolitana, e o segundo maior polo econômico nacional depois de Paris.

Tristemente, ambos estão morrendo de tuberculose, e os técnicos do zoo, após tentarem tudo o que a moderna ciência veterinária aconselha, decidiram sacrificar os dois, que já passaram a avançada idade de 42 anos. Marcaram até a data — outubro de 2012. Santa ingenuidade.

Caiu sobre eles, imediatamente, um vendaval de indignação. Já dá para adivinhar, é claro, quem provocou o tumulto: ela mesma, a ex-atriz Brigitte Bardot, sucesso mundial no cinema de meio século atrás e que hoje, aos 78 anos de idade, ainda tem crachá de celebridade como a mais radical porta-voz dos “direitos animais” na França.

De um jato só, Brigitte exigiu a anulação da sentença do zoo, acusou o governo de “covardia e falta de vergonha” e ameaçou renunciar à cidadania francesa numa carta ao presidente François Hollande — a menos que ele tomasse providências imediatas para cancelar o sacrifício de Baby e Nepal. (Disse que iria pedir a cidadania da Rússia; parece ter virado moda na França, desde que o ator Gérard Depardieu se naturalizou russo em protesto contra os impostos que paga.)

Parece um exagero: abandonar a própria nacionalidade por causa de dois elefantes? Mas o fato é que madame Bardot venceu. O presidente Hollande vacilou, cedeu e a execução foi suspensa: num primeiro momento, ficou para “depois do Natal” e, no começo de janeiro, foi adiada em mais setenta dias. É onde estamos no momento. 

Os diretores do zoo argumentaram, pacientemente, que Baby e Nepal são um perigo. Podem transmitir a tuberculose para os humanos que vivem no centro de Lyon — e, como esse risco parece não incomodar a comunidade pró-animal, os técnicos tomaram o cuidado de insistir que a doença é uma ameaça também para os outros bichos do zoológico. Não adiantou nada.

Ninguém viu nenhum problema, igualmente, no fato de que, num país que já foi governado pelo bom rei São Luís, por Napoleão Bonaparte e pelo general Charles de Gaulle, o presidente da República tenha de interromper o que está fazendo para ocupar-se com dois elefantes tuberculosos. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

14/02/2013

às 20:00 \ Política & Cia

Sardenberg sobre a economia mundial: saímos do buraco — mas para onde?

ECONOMIA GLOBAL -- o pior não aconteceu, mas, e agora? (Imagem: Diis.dk)

ECONOMIA GLOBAL -- O pior não aconteceu, mas, e agora? (Imagem: Diis.dk)

Artigo publicado hoje no jornal O Globo

 SAÍMOS DO BURACO. PARA ONDE?

O pior não aconteceu – e nisso estão todos de acordo. Vai daí que a economia mundial engrenou uma marcha de recuperação? Aqui as opiniões se dividem, embora a maioria se incline para o lado otimista, como se viu, aliás, em recente enquete da revista The Economist, com votos pela internet. 61% dos votantes responderam “sim” à pergunta: a economia global estará em melhor forma em 2013 do que em 2012?

Nesse ângulo, a resposta cabe também para a economia brasileira e por maioria ainda mais ampla. Quase ninguém acha que este ano pode ser pior do que o anterior.

Grande vantagem, ironizam os pessimistas: nada pode ser pior que 2012, nem aqui e nem lá fora.

Faz sentido. O que leva a outra questão: o sentimento de melhora reflete uma realidade mais favorável ou apenas o alívio de se ter evitado o pior?

De fato, o mundo esteve na corda bamba. Três situações estavam colocadas na categoria “o pior que pode acontecer”: o colapso do euro, a queda dos EUA no abismo fiscal e uma parada súbita na China, com o ingrediente de crise política.

Como sabemos, nada disso se passou, o que explica o alívio. Mas as coisas foram além disso. As chances de ocorrer o pior se reduziram a um mínimo naqueles três casos.

Não se fala mais do fracasso da Zona do Euro, nem na retirada de algum país, nem em eventuais catástrofes na Grécia ou Espanha. (Sim, o governo espanhol pode cair, é verdade, mas por corrupção).

Os movimentos de rua contra os programas de austeridade perderam ímpeto, enquanto governos locais e a liderança europeia ganharam força política porque começam a aparecer os primeiros sinais de saída do fundo do poço.

Foi mais ou menos como o Occupy Wall Street. O pessoal acampou em Nova York, teve imensa repercussão na mídia global, a tradicional, e se espalhou pelas redes sociais. Com o tempo, porém, como não surgisse nenhuma liderança confiável para os outros, nem propostas consistentes, a turma desarmou as barracas e foi para casa, pensando em quem votar.

Esta é a verdade, por mais aborrecida que pareça. As políticas de austeridade mais ou menos ortodoxas estão ganhando a parada. Na Europa, François Hollande sequer conseguiu arranhar a liderança de Angela Merckel, simplesmente porque não apresentou nem uma ideia sobre como turbinar o crescimento em seu próprio país.

Nos EUA, um renovado Obama toma, na teoria, o lado dos progressistas “senso comum”, ao sustentar que o ajuste das contas públicas não pode prejudicar a recuperação do crescimento americano. Mas sabe, e negocia isso com os republicanos, que precisa apresentar um programa de ajuste de médio prazo.

Como os republicanos, de seu lado, sabem que perderam a batalha e que não ganharão nada se o país cair no abismo fiscal – uma recessão provocada por uma combinação irracional de corte de gastos e aumento de impostos – a probabilidade maior é que saia algum entendimento duradouro.

E a China não caiu numa aterrissagem forçada, nem a troca de comando político degenerou em crise – o que foi evitar o pior. Mas do final do ano passado para cá, a economia voltou a acelerar, embora em ritmo mais lento.

Tudo bem, admitem os pessimistas, mas acrescentam: nada disso garante que o mundo está iniciando uma nova era de crescimento. Para esse pessoal, o que se conseguiu foi apenas driblar os efeitos mais próximos da grande crise de 2008/09. Mesmo sem turbulência, tal é a tese, a economia global está presa a uma armadilha de baixa expansão por não ter resolvido as grandes questões estruturais.

Tem verdades nessa formulação. Boa parte do mundo enfrenta hoje questões estruturais graves, como – talvez a mais difícil – o financiamento dos gastos crescentes com aposentadorias e saúde. Muitas economias, especialmente na Europa, precisam de reformas variadas, politicamente difíceis, para recuperar a competitividade. E mesmo os EUA, a nação mais dinâmica entre as maduras, enfrenta barreiras naqueles mesmos temas.

Por outro lado, seguindo na vertente pessimista, mesmo os emergentes estariam perdendo o brilho do crescimento acelerado. O Brasil, aqui, é o exemplo mais destacado. Simplesmente não consegue superar os obstáculos aos investimentos públicos e privados. E não consegue por razões internas, por escolhas políticas equivocadas.

Ocorre que outros emergentes estão fazendo opções mais acertadas e, assim, mantendo a força do crescimento. O que sugere uma conclusão entre otimista e pessimista: há uma parte do mundo que vai se saindo bem, outra que se arrasta. E meio óbvio, claro, mas há sempre uma parte dominante. E no momento, parece que essa dominância está com os países e regiões que vão encontrando as saídas para a crise e para novos momentos de crescimento. E se alguns podem . . .

21/09/2012

às 19:30 \ Política & Cia

Carlos Alberto Sardenberg: por falta de convicção, Dilma vacila nas privatizações e até na inflação

Dilma: concessão de aeroportos meia-boca. Na foto, ao lado da governadora Rosalba Ciarlini, assina a concessão do Aeroporto Internacional de São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte (Foto: Roberto Stuckert Filho / PR)

Dilma, ao lado da governadora Rosalba Ciarlini, assina a concessão do Aeroporto Internacional de São Gonçalo do Amarante, no Rio Grande do Norte: uma meia-boca (Foto: Roberto Stuckert Filho / PR)

Artigo de Carlos Alberto Sardenberg,  publicado no jornal O Globo em 20 de setembro de 2012

MEIA-BOCA

Já disseram que se você fizer qualquer coisa com convicção, acaba dando certo. Vale para tenistas, por exemplo. O jogador que vacila no momento do golpe e, numa fração de segundo, imagina que aquela pode não ser a opção correta, ou erra ou passa uma bola fraca. Perde de qualquer jeito.

Mal comparando, Ângela Merckel não vacila na política econômica que impõe à Europa. Governos endividados precisam fazer o ajuste e ponto final. Claro, ainda estamos longe de saber se isso vai dar certo, mas está andando. Até François Hollande, que se elegeu presidente da França atacando a receita Merkel, anunciou corte de gastos públicos e aumento de impostos.

Mas tentou amenizar a coisa. Disse que o peso do programa cairia sobre aqueles que ganham mais de um milhão de euros/ano e cuja alíquota do imposto de renda sobe de uns 50% para 75%. E para amenizar a coisa pelo outro lado, explicou que isso afetaria no máximo três mil pessoas. E desculpou-se garantindo que os sacrifícios serão temporários.

A presidente vai na bola com determinação — ou hesita?

Não tem a convicção, claro, está agindo por força das circunstâncias. Por isso, as dúvidas sobre a eficácia.

E a presidente Dilma Rousseff? Vai na bola com determinação ou hesita?

Depende. No caso das privatizações, claramente vacila. Fez a concessão de três aeroportos, a coisa não saiu direito – as grandes operadoras internacionais ficaram de fora – e agora Dilma não sabe bem como lidar com os demais que também precisam de pesados investimentos.

É pura falta de convicção. Está claro que o setor público não dá conta da tarefa, mas privatizar assim direto, à tucana, também pega mal para um governo petista, certo? Sai uma privatização meia boca, que junta os defeitos do setor público e do privado que não quer correr riscos.

Vacilando também com a inflação

O governo também vacila na inflação. A presidente, o ministro Mantega e o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, garantem que está em pleno vigor o regime de metas de inflação, sendo de 4,5% o alvo para este ano e para o próximo.

Não vai rolar. Para este ano, a inflação deve ir a 5,5%, se não for mais, e mais um pouco em 2013. E daí? Até 6,5%, tudo bem, dizem as autoridades.

François Hollande: sacrifícios temporários e pouca convicção em medidas de aumento de impostos (Foto: Vincenzo Pinto / AFP)

François Hollande, o presidente socialista da França: sacrifícios temporários e pouca convicção ao fazer o ajuste (Foto: Vincenzo Pinto / AFP)

 

Não é bem assim. A meta é de 4,5%, tolerando-se um desvio, em circunstâncias extraordinárias, de até 2 pontos. Mas estamos nos encaminhando para o terceiro ano com inflação média perto dos 6%. Um extraordinário muito longo, não é mesmo?

Falta de convicção, de novo. Parece que meta de inflação é tão tucana quanto a privatização. A corrente desenvolvimentista, onde se assentam as convicções históricas da presidente, acha que uma inflação mais alta pode até ser um instrumento para se turbinar o crescimento.

Dirá o leitor: e não é assim mesmo? Qual a diferença entre uma inflação de 4,5% e outra de 6%?

Por causa da inflação, quem ganha hoje 20% a mais do que ganhava em 2010 está na mesma

Perguntem aos milhões de trabalhadores que têm batalhado por reajustes salariais. Quem ganha hoje 20% a mais do que recebia no início de 2010 está rigorosamente na mesma. Os funcionários públicos que aceitaram o reajuste de 15% em três anos estão perdendo dinheiro. A inflação acumulada no período será maior do que isso.

Tudo bem se houver crescimento, argumenta o pessoal do governo. Mas por que não anunciam logo que abandonaram o regime de metas e isso de BC independente? Porque não pega bem. O mundo respeita o sistema de metas, simplesmente porque tem funcionado por toda parte.

Mesmo sem o governo admitir que deixou o regime, mas praticando meia boca, os agentes econômicos (categoria que vai do investidor ao assalariado e consumidor de supermercado) já trabalham com inflação acima da meta por um longo período. Ou seja, buscam preços e salários nessa perspectiva, o que realimenta a subida de preços, ou impede sua queda em momentos de paralisia econômica.

Por outro lado, parece que o governo não vacila na sua disposição de intervir na economia e orientar/conduzir o setor privado. Acredita que tudo, até a falta de medalhas olímpicas, pode ser resolvido com um programa e comando de Brasília.

O país cai num círculo vicioso: como o governo não tem dinheiro e nem capacidade para fazer tudo, precisa abrir espaço para o privado. Mas este não vai com convicção quando é amarrado pelo ambiente de negócios supercontrolado pelo próprio governo.

Crescimento baixo e inflação alta, não é por acaso.

09/09/2012

às 16:00 \ Vasto Mundo

Boa leitura para o feriadão (5) — Anne Lauvergeon, a ex-czarina das usinas nucleares francesas: Mais atômica do que nunca

"Se o Japão tivesse adotado as melhores práticas do setor, o acidente na usina de Fukushima teria sido evitado" (Foto: Claudio Gatti)

"Se o Japão tivesse adotado as melhores práticas do setor, o acidente na usina de Fukushima teria sido evitado" (Foto: Claudio Gatti)

 

Entrevista publicada na em edição impressa de VEJA por Tatiana Gianini

 

Anne Lauvergeon

MAIS ATÔMICA DO QUE NUNCA

 

A ex-presidente da maior empresa de tecnologia nuclear do mundo explica como evitar acidentes radioativos e conta que foi demitida por se negar a vender reatores à Líbia

 

Os franceses a apelidaram de L’Ato­mique (A Atômica) por sua defesa incondicional da energia nuclear. A engenheira Anne Lauvergeon presidiu por uma década a Areva – empresa estatal francesa que atua em todas as fases da produção de energia pela fissão dos átomos, da mineração de urânio à construção de reatores – e chegou a ser considerada uma das dez mulheres mais poderosas do mundo pela revista americana Forbes.

Em junho de 2011, Anne foi afastada da estatal pelo presidente Nicolas Sar­kozy. Recentemente, ela lançou o livro La Femme qui Résiste (A Mulher que Resiste), em que conta sua trajetória profissional e as discussões com Sarkozy. “Apesar dos recentes planos de redução em alguns países, a energia nuclear é segura e terá vida longa”, diz a executiva de 52 anos.

 

Sua defesa apaixonada da energia nuclear perdeu ímpeto após o grave acidente na usina de Fukushima, no Japão, no ano passado?

De forma alguma. Sigo defendendo a energia nuclear. Agora, tenho mais um motivo para insistir na ressalva, que sempre fiz, de que os reatores só devem ser montados em locais seguros. Confesso que, nos últimos anos, fiquei um pouco preocupada com a popularidade exagerada conquistada por essa fonte de energia. Havia muita gente dizendo que a tecnologia nuclear pode ser desenvolvida para todos, em qualquer lugar e a custo baixo.

Fui e sou totalmente contra essa postura. Fukushima é a prova de que a energia nuclear depende de um pré-requisito fundamental, a segurança. Defender o contrário tornou-se inviável após o acidente. Um país que quer produzir energia pela fissão dos átomos precisa criar uma entidade muito forte com a missão de estabelecer e supervisionar as regras de segurança no setor, como ocorre na França e nos Estados Unidos. Essa entidade não era tão forte no Japão.

 

Usina de Fukushima: "Se a barreira tivesse apenas 10 metros a mais, o mundo não teria ouvido falar de Fukushima" (Foto: AFP)

Usina de Fukushima: "Se a barreira tivesse apenas 10 metros a mais, o mundo não teria ouvido falar de Fukushima" (Foto: AFP)

Onde foi que os japoneses erraram?

Os reatores nucleares costumam ser muito resistentes a terremotos. A usina japonesa, porém, não estava preparada para o tsunami provocado pelos tremores. A agência de segurança nuclear do Japão falhou ao não exigir, como medida preventiva, a construção de um dique suficientemente alto para evitar a invasão da água do mar.

Se a barreira tivesse apenas 10 metros a mais, o mundo não teria ouvido falar de Fukushima. Em dezembro de 1999, a França quase enfrentou uma tragédia semelhante quando uma violenta tempestade inundou a usina de Blayais, perto da cidade de Bordeaux. O incidente não foi grave, mas levou os países europeus a reavaliar os projetos de suas usinas nucleares para descobrir seus pontos fracos e se antecipar a eventuais problemas causados por eventos incomuns.

Em Blayais, a solução foi aumentar o tamanho do muro de proteção. As autoridades japonesas sabiam da experiência europeia, e poderiam ter aumentado o dique, uma medida relativamente barata. Se o Japão tivesse adotado os padrões internacionais e as melhores práticas do setor, o acidente em Fukushima teria sido evitado. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

02/09/2012

às 14:00 \ Vasto Mundo

Gilles Lapouge: para o mundo, a Europa é Angela Merkel

Presidente francês, François Hollande ao lado da chanceler alemã Angela Merkel: renovada camaradagem franco-alemã (Foto: Larry Downing / Reuters)

O presidente francês, François Hollande ao lado da chanceler alemã Angela Merkel: renovada camaradagem franco-alemã (Foto: Larry Downing / Reuters)

 

Artigo publicado hoje por Gilles Lapouge no jornal O Estado de S.Paulo

 

A VOLTA DO EIXO FRANCO-ALEMÃO

O que é que o eixo franco-alemão está aprontando? Julgávamos que estivesse perdido, fundido, que tivesse sido atirado à lata do lixo da História desde que o socialista François Hollande sucedeu a Nicolas Sarkozy na presidência, no dia 6 de maio. Nada disso! O eixo reapareceu!

Cautelosamente, na ponta dos pés. Bastaram três meses para Hollande compreender que França e Alemanha estão condenadas a se entender, a continuar atreladas ao mesmo carro que terão de puxar no mesmo passo.

Contudo, os primeiros encontros de Hollande e Merkel foram cordiais, porém tensos. O francês, desejoso de afrouxar o punho de ferro com o qual a chanceler alemã controla há alguns anos a Europa e a França, teve a ideia de contra-atacar aproximando-se dos países do Sul da Europa, especialmente Espanha e Itália.

Não era uma ideia tresloucada. Ele soube tirar algumas vantagens desta aproximação. Os três países do Sul conseguiram que Merkel moderasse suas exigências. Evidentemente, aceitaram as regras de austeridade que ela impôs a todos os membros da zona do euro, mas também fizeram Berlim ceder num ponto: a Alemanha toleraria que a Europa também tomasse algumas medidas para se recuperar.

Concretamente, a França queria consagrar por meio de uma lei fundamental a “regra de ouro”, ou seja, todos os países do euro aceitariam o compromisso de apresentar orçamentos equilibrados. Em troca, Merkel ratificaria um plano de recuperação europeu dotado de 120 bilhões.

Hollande gabou-se então de ter feito Merkel sentir o seu poder, em lugar de prostrar-se diante dela como, segundo os socialistas, Sarkozy gostava de fazer.

Triunfalismo de verão

Esse triunfalismo não durou até o fim do verão. A realidade, que havia sido escorraçada, voltou ao galope. Percebia-se que um médio e dois pequenos podem se aliar e mostrar seus pequenos músculos, mas que não podem dobrar um “grandão”.

Em outras palavras, três países da zona do euro do Sul não valem um país também da zona do euro do Norte.

Além disso, a crise da dívida europeia, longe de evaporar ao sol do verão, cresceu – na Grécia, na Itália e na Espanha. Conclusão: uma virada brutal para Hollande, que se voltou novamente para a poderosa Merkel.

Há alguns dias, o ministro das Finanças da França, Pierre Moscovici, foi a Berlim, onde anunciou que “um grupo bilateral França-Alemanha avaliará as decisões relativas à Grécia e à Espanha”.

Segundo as palavras do ministro: “Na crise da dívida, França e Alemanha serão os sustentáculos de uma solução estrutural”. E as divergências entre Paris e Berlim? Mas não há divergências! Horas mais tarde, Hollande foi ainda mais longe, declarando-se favorável a uma integração solidária dos países do euro, que deve conduzir a uma união política.

Angela Merkel é recebida na China pelo premiê Wen Jiabao: "Normal. Para o mundo inteiro, a Europa é Angela Merkel" (Foto: Jason Lee / Reuters)

Angela Merkel é recebida na China pelo premiê Wen Jiabao: "Normal. Para o mundo inteiro, a Europa é Angela Merkel" (Foto: Jason Lee / Reuters)

Onde é que Hollande vai buscar tudo isto? Não muito longe. Em Berlim, onde a chanceler não se cansa de dizer que quer mais solidariedade entre os países da zona do euro, mas com a condição de que a União Europeia exerça um controle maior sobre as políticas orçamentárias dos países membros.

E Hollande, que detesta tudo o que se parece com o abandono da soberania, ouviu religiosamente Merkel e não protestou. Absolutamente. Bem no gênero de Sarkozy.

E Merkel, neste meio tempo? A chanceler foi recebida a Pequim com grande pompa e circunstância. O primeiro-ministro, Wen Jiabao, a acolheu em Tianjin, sua cidade natal.

Normal. Para o mundo inteiro, a Europa é Angela Merkel.

12/08/2012

às 16:07 \ Vasto Mundo

Governantes europeus deixam a crise de lado e saem tranquilamente para veranear

François Hollande e Valérie Trierweiler, em férias,

François Hollande e a companheira, Valérie Trierweiler, na capa de uma revista francesa: só há três meses no cargo, mas já em férias. É quase uma obrigação, na Europa, ir para algum lugar em agosto

Que crise, que nada.

Nem trilhões de euros de dívidas, empréstimos, necessidades de resgate de bancos gigantescos e países de primeiro porte conseguem mudar um hábito que já está no DNA dos europeus — inclusive dos líderes obrigados a lidar com macroproblemas.

Agosto é verão, e verão é sinônimo praticamente obrigatório de férias. Dezenas de milhões de europeus se deslocam de suas cidades de origem, a grande maioria para a praia, boa parte para a montanha — fugindo do calor espantoso — e outros para países das Américas, da Ásia, da Oceania ou da África.

As preocupações do presidente da França, François Hollande, com os rumos da quinta maior economia do mundo não o estão impedindo de desfrutar de uns dias agradabilíssimos com a companheira, a jornalista Valérie Trierweiler, no Forte de Brégançon, residência de verão dos presidentes franceses, instalada num delicioso ilhote na Côte d’Azur.

Hollande tomou posse no dia 15 de maio — tem três meses no Eliseu, portanto — mas já está em férias. Porque, afinal, estamos em agosto.

Angela Merkel descontraída (Foto: AP)

A chanceler alemã Angela Merkel: dando um tempo na crise no frescor das montanhas do norte da Itália (Foto: AP)

Até mesmo a “Dama de Ferro” da Alemanha, a chanceler Angela Merkel, deixou um pouco em segundo plano suas convicções sobre austeridade antes que tudo para sair da crise ou suas pressões sobre o Banco Central europeu para que não compre títulos da dívida de países europeus periclitentes e partiu para algum lugar das Dolomitas, a cadeia de montanhas do norte da Itália que integra o complexo dos Alpes.

Está desfrutando das temperaturas amenas da região do Alto Adige, no nordeste da Bota, junto com o marido, o discretíssimo Joachin Sauer, catedrático de Química na Universidade Humboldt de Berlim.

Mariano Rajoy e Elvira Fernández, em férias

Mariano Rajoy e Elvira Fernández, em férias

Mariano Rajoy, chefe de governo da Espanha — a bola da vez da crise do euro e da crise financeira internacional — igualmente está trabalhando no Palácio de la Moncloa há pouco tempo: tomou posse a 21 de dezembro, mas, que diabo, a crise pode esperar um pouco.

Junto com a mulher, Elvira Fernández, desfruta de uns diazinhos na casa de verão da família em Sanxenxo, em sua Galícia natal.

Na Europa, no verão, literalmente ninguém é de ferro.

29/07/2012

às 18:00 \ Vasto Mundo

Valérie Trierweiler: madame primeira-dama da França quebra o barraco

PANCADÃO Crise político-familiar: Valérie tripudia (Foto: Francois Mori / AP)

Crise político-familiar: Valérie, mulher do presidente francês, tripudia (Foto: Francois Mori / AP)

 

(Texto publicado na edição impressa de VEJA)

MADAME QUEBRA O BARRACO

Fina, intelectual, engajada? A mulher do presidente francês François Hollande mostra seu lado Carminha, briga com a ex dele e se intromete em assuntos políticos. Mas promete se controlar. Poucos acreditam que consiga

Pobre François Hollande. Administrar uma economia na zona disfuncional do euro, com pálido crescimento de 0,3%, dívida pública equivalente a 90% do PIB e o maior desemprego em doze anos não é nada comparado aos problemas familiares que contempla (…).

Complicado mesmo para o presidente francês é equilibrar a atual mulher, a ex e os filhos conjuntos, sete no total, todos em estados variados de insatisfação. As relações entre cônjuges presentes e passadas raramente são pacíficas, ainda mais quando a atual é mais nova, mais metida e mais malvada – e a transição amorosa foi iniciada muitos anos antes que a ex ficasse sabendo.

Como são todos ardorosos integrantes do Partido Socialista, talvez fosse possível manter uma entente moderadamente pouco cordial se Valérie Trierweiler, a temperamental jornalista de 47 anos que ocupa o coração de Hollande e um gabinete cheio de assessores no Palácio do Eliseu, não resolvesse detonar a ex, Ségolène Royal, com o infame tuíte que abalou Paris.

A intervenção foi tão violenta, com uma reação justificadamente tão negativa, que Valérie precisou sair de cena. Reapareceu em público no feriado nacional, o 14 de Julho, vestida com uma capa sem graça e colocada fora do palanque presidencial. Mas sem nenhuma cara de ter cedido a Bastilha. “Agora vou contar até dez antes de usar o Twitter”, tripudiou, sacudindo a cabeleira de leoa.

A ironia da encrenca familiar de Hollande é que ele e seus partidários o colocavam como o total oposto do antecessor derrotado, Nicolas Sarkozy, com seu exibicionismo e sua movimentada vida conjugal (a mulher, Cécilia, o abandonou logo depois da posse e voltou para o amante; um mês depois, a ex-modelo Carla Bruni entrou em sua vida com estrépito global).

A própria Valérie semeou entrevistas em que se punha no papel de politicamente engajada e intelectualmente refinada em comparação com Carla. Na verdade, a vida amorosa do sem dúvida discreto Hollande sempre teve complicações maiores. Durante trinta anos, ele compartilhou a estrada com Ségolène Royal.

 

PANCADÃO Hollande segura a pose, no Eliseu (Foto: Benoit Tessier / AP)

O presidente Hollande segura a pose, no Palácio do Eliseu (Foto: Benoit Tessier / AP)

Como ele, Ségolène era uma política de pouca expressão até resolver tentar a Presidência, em 2007. Na disputa interna do partido, derrotou ao próprio Hollande, que teve dificuldade para deglutir a derrota. Em compensação, ele já podia se sentir vingado. Havia anos mantinha o caso com Valérie, ela também casada, com três filhos. Logo após a derrota de Ségolène para Sarkozy, a separação foi oficializada.

Era, portanto, a traída e abandonada que teria direito a curtir mágoa eterna, mas os caminhos do coração são tortuosos. Com a vitória de Hollande, Ségolène se reaproximou do ex e estava até esperando ser a futura presidente do Congresso francês. Bastava só ser reeleita deputada, como acontecia fazia décadas.

Na cidade dela, porém, o partido estava rachado e Hollande manifestou o “apoio presidencial” à ex-mulher. Enciumada, Valérie foi ao Twitter e defendeu o adversário de Ségolène. Ségolène perdeu, como aconteceria de qualquer maneira, e o mundo político francês tremeu. Como qualquer cônjuge de político, Valérie tem direito a falar tudo o que acha dentro de casa (alguém imagina que o marido da primeira-ministra Angela Merkel não tenha uma opinião ou duas sobre o papel da Alemanha na crise grega?). Mas interferir no jogo político com base apenas em sua vantajosa posição conjugal é uma afronta às regras da democracia.

Ségolène declarou-se mortificada e, depois, o filho mais velho dela com Hollande, Thomas, disse que nem ele nem os irmãos estavam mais falando com Valérie. “Eu sabia que alguma coisa viria dela algum dia, mas não um golpe tão violento. Foi uma loucura”, fuzilou.

 

PANCADÃO O filho Thomas e a mãe agredida se revoltam (Foto: Jean-Paul Pelissier / Reuters)

O filho Thomas e a mãe agredida se revoltam (Foto: Jean-Paul Pelissier / Reuters)

Hollande viu-se, assim, em cima de um vulcão familiar. Recolhida ao silêncio obsequioso, Valérie lançou um livro, já planejado, de fotos sobre a campanha do marido. Número de fotografias em que ela própria aparece: cinquenta. Referência a Ségolène: “Sim. O homem que amo teve outra mulher antes de mim”.

A “outra”, claro, é a mãe dos quatro filhos de Hollande. “Ela agiu por ciúme e, como é inteligente, viu que errou. Como primeira-dama, ela não tem legitimidade para interferir em política”, disse a VEJA o especialista em comunicação política Arnaud Mercier, da Universidade de Lorraine.

“Os assuntos privados têm de ser resolvidos em particular”, suspirou Hollande. Só falta convencer disso suas mulheres. Uma das quais apelidada de Rottweiler.

24/06/2012

às 19:27 \ Política & Cia

Carlos Brickmann: “Marta e Luiza foram para escanteio, Fernando ainda não sabe onde está e Luiz Inácio só quer saber dele mesmo”

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No final, a despedida, em que todos se retiram acenando para as pessoas que não participam da festa a não ser como espectadores. A festa chama-se "quadrilha" (Foto: Elvio Luiz)

O NOME DA DANÇA E DA POESIA

Balancê com seu par! Marque o passo, sem sair do lugar. Anavan! Todos avançam para o centro, balançando os braços e cumprimentando-se. Voa, andorinha! Os cavalheiros ficam semi-ajoelhados. Voa, gavião! Todos dão duas voltas para a direita. Trocar de lado! Todos no centro, pela direita. Giro! Cada um no lugar do outro. Caminho da roça! Todos batem palmas e vão para a direita.

Trenzinho! Um fica atrás do outro. Caminham para a direita. Enrolar! A gente sabe como é, eles sabem mais ainda. Changê! O cavalheiro dá a volta pela direita, sempre pela direita, e passa a dama para trás.

Nada de interpretações maliciosas, caro leitor, nada referente ao que está acontecendo na sucessão paulistana: isto é parte de uma dança popularíssima no nosso país, adaptada de festas da nobreza da França (o que explica os nomes, corruptelas de palavras francesas).

Ainda há mais coisas, como “coroar” – exatamente, colocar a coroa; e “descoroar” – exatamente, descartar a coroa. No final, a despedida, em que todos se retiram acenando para as pessoas que não participam da festa a não ser como espectadores. A festa chama-se “quadrilha”.

Essa história poderia ter inspirado Carlos Drummond de Andrade

Essa história poderia ter inspirado o poeta Carlos Drummond de Andrade, e se chamar "Quadrilha"

Há ainda uma paródia de poema famoso, “Luiz Inácio que amava a gerentona que detestava a Marta que não fazia o que achava errado e só amava quem queria, e não era o Fernando Vaidoso. Marta e Luiza foram para escanteio, Fernando ainda não sabe onde está e Luiz Inácio só quer saber dele mesmo”.

Se este poema fosse de Drummond, que o inspirou, também poderia chamar-se “Quadrilha”.

 

O ribombar do silêncio

Eduardo Suplicy: seu silêncio é ensurdecedor

Eduardo Suplicy: seu silêncio é ensurdecedor

Ganha uma gravação de Blowin’ in the Wind, com Eduardo Suplicy de intérprete, quem tiver ouvido uma palavra sua a respeito da aliança de seu partido, o PT, com o antigo adversário Paulo Maluf.

Seu silêncio é ensurdecedor: Erundina foi escolhida para ser vice de Fernando Haddad; Haddad, Lula e o alto-comando do PT foram à mansão de Maluf para pedir seu apoio, que obtiveram; a foto do encontro chocou muita gente, a começar por Erundina, que desistiu de ser candidata. E Suplicy se manteve no mais obsequioso e profundo silêncio.

 

No caso, o silêncio é melhor

Agora ele voltou a se manifestar: depois de ter vestido uma cueca vermelha por cima do terno, numa tentativa de imitar o Super-Homem, depois de ter imitado ao microfone, como os Racionais MC, o barulho de tiros, depois de torturar repetidamente o sucesso Blowin’ in the Wind, de Bob Dylan, o senador petista por São Paulo ostentou um chapeuzinho de Robin Hood, o herói inglês do século XIII que dava para os pobres e roubava dos ricos.

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Eduardo "Robin Hood" Suplicy, em apoio ao Senhor Normal (Foto: Alan Marques / Folhapress)

A performance do senador ocorreu em apoio à proposta do presidente francês François Hollande, de taxar grandes fortunas e transações financeiras, e com o dinheiro criar um fundo que garanta renda para a população mais pobre.

É curioso, mas o presidente francês que Suplicy apoia é conhecido na França como “Senhor Normal”.

 

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