Blogs e Colunistas

Fidel Castro

20/04/2013

às 11:06 \ Disseram

“Eu peguei ele de jeito. Ele não me machucou.”

“Assim é o boxe. Eu peguei ele de jeito. Ele não me machucou.”

Guillermo Rigondeaux, pugilista, sobre a unificação do título de campeão mundial na categoria supergalos. Em 2007, ele e Erislandy Lara foram mandados devolvidos por Tarso Genro, Ministro da Justiça de Lula, para a ditadura de Fidel depois de abandonar a delegação de Cuba durante os Jogos Panamericanos

17/04/2013

às 14:00 \ Política & Cia

O dia em que o pugilista deportado por Tarso Genro nocauteou a ditadura cubana — e seus sabujos brasileiros

Rigondeaux (à esquerda), nocauteado por Tarso Genro quando não podia se defender, derrotando Donaire em Nova York, por pontos (Foto: Mary Altaffer / AP)

Por Augusto Nunes

O que se viu num ringue em Nova York, na madrugada deste domingo, foi muito mais que um grande combate pela unificação do título de campeão mundial da categoria supergalos.

Quem assistiu à luta no Radio City Music Hall em que o cubano Guillermo Rigondeaux venceu o filipino Nonito Donaire testemunhou, sobretudo, o triunfo de um homem livre sobre a ditadura dos irmãos Castro e seus sabujos em ação no Brasil. Ao fim de 12 assaltos, Donaire perdeu por pontos.

Fidel, Raúl, Lula e Tarso Genro foram, mais uma vez, merecidamente nocauteados.

Em agosto de 2007, depois de fugirem do alojamento dos atletas cubanos que participavam dos Jogos Panamericanos do Rio, Rigondeaux e o também pugilista Erislandy Lara tentavam alcançar a Alemanha e a liberdade quando descobriram que o ministro da Justiça do Brasil era um capitão-do-mato a serviço de Fidel Castro.

Capturados pela Polícia Federal, ambos foram devolvidos à ilha-presídio a bordo de um avião militar venezuelano.

– Eles quiseram voltar — mentiu Tarso Genro.

A falácia abençoada pelo presidente Lula foi implodida em janeiro de 2009 pela segunda e bem sucedida fuga das duas vítimas da política externa da canalhice. “Enquanto ficamos na polícia, fomos proibidos de conversar com jornalistas ou advogados”, disse Erislandy Lara ao finalmente desembarcar na Alemanha, onde retomou o caminho que logo o instalaria no ranking dos melhores do mundo na categoria médio-ligeiro.

Até a chegada do avião emprestado por Hugo Chávez, revelou Erislandy na entrevista, os carcereiros procuraram alquebrar moralmente os cativos com informações aflitivas e promessas falsas.

Souberam, por exemplo, que Fidel Castro os havia rebaixado a “traidores da pátria”, que alguns parentes já tinham sido demitidos e que seus amigos estavam sitiados por ameaças de morte.

Mas o ditador colérico agiria com magnanimidade, e revogaria todos os castigos, caso voltassem para Cuba em silêncio, ressalvaram os mensageiros de Tarso Genro. Outra cilada: já no aeroporto de Havana foram informados de que nunca mais voltariam a lutar.

Um PM do Rio escolta Erislandy e Rigondeaux até a sede da Polícia Federal em Niteroi. Eles queriam se asilar no Brasil, mas foram deportados a Cuba pelo lulalato (Foto: Marcos d'Paula / Agência Estado)

Três anos depois da deportação dos cubanos insatisfeitos com a democracia proclamada por Fidel em 1959, o ministro da Justiça impediu que o terrorista em recesso Cesare Battisti fosse extraditado para a Itália e ali cumprisse a pena de prisão perpétua aplicada ao matador de quatro “inimigos do proletariado”.

Para livrá-lo da ditadura italiana que só bandidos ou vigaristas enxergam, Tarso promoveu o amigo comunista a “asilado político” e concedeu-lhe a cidadania brasileira.

Hoje com 32 anos, Rigondeaux só não conseguiu ganhar mais cedo o cinturão que o eternizará na história do boxe porque foi vencido em 2007 pelo supergalo gaúcho que ganhou uma vaga na história universal da infâmia.

Tarso gosta de passear em Nova York, lembrei na madrugada deste domingo. E, enquanto erguia um brinde ao vitorioso, não resisti à tentação de imaginá-lo cruzando com Rigondeaux em alguma esquina de Manhattan.

Certos castigos são muito pedagógicos, sorri ao pensar no encontro. Tomara que o campeão reconheça o homem que o derrotou, há quase seis anos, num duelo repulsivamente desigual. E decida que a hora da revanche chegou.

16/03/2013

às 17:00 \ Política & Cia

Especialista aponta: Lula e Dilma divergem muito mais do chavismo do que indicam as aparências

 

O vice-presidente venezuelano Nicolas Maduro, o ex- presidente do Brasil Lula e a presidente Dilma Rousseff no velório de Hugo Chávez, na Academia Militar de Caracas (Foto: Miraflores Palace / Reuters)

O vice-presidente venezuelano Nicolas Maduro, o ex- presidento Lula e a presidente Dilma Rousseff no velório de Chávez, na Academia Militar de Caracas (Foto: Palacio de Miraflores / Reuters)

Paulo Sotero é um brilhante jornalista brasileiro, com enorme experiência, sobretudo internacional. Entre outras funções, trabalhou nos anos 70 para VEJA em Paris e, depois, como correspondente da revista em Lisboa, para a seguir, na editoria Internacional, cuidar de assuntos da América Latina.

A partir de 1980, e durante 30 anos, foi correspondente em Washington sucessivamente da revista IstoÉ, do jornal O Estado de S. Paulo (durante 17 anos) e da extinta Gazeta Mercantil

Especialista em relações dos Estados Unidos com a América Latina e o Brasil, trabalhou no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e, atualmente, dirige o Brazil Institute do Woodrow Wilson International Center for Scholars, organismo independente sediado em Washington, mantido por contribuições privadas e por orçamento do Congresso americano por abrigar a documentação da Presidência Woodrow Wilson (1913-1921).

Palestrante, frequente comentarista convidado da BBC de Londres, da rede CNN e da Globonews, Paulo Sotero publicou o texto a seguir no blog Beyondbrics, do jornal britânico Financial Times. O texto, portanto, é dirigido a leitores habituais do jornal, e pretende explicar fatos e circunstâncias a quem está menos familiarizado com o Brasil e seus problemas do que os leitores deste blog.

A tradução livre do título original seria:

Líderes de esquerda do Brasil lamentam morte de Chávez com críticas não tão veladas

A presidente brasileira Dilma Rousseff decretou três dias de luto oficial em homenagem a seu falecido colega Hugo Chávez, que morreu dia 5 passado, em Caracas, depois de uma batalha pública de dois anos contra o câncer. “Nós reconhecemos nele um grande líder, uma perda irreparável e acima de tudo um amigo do Brasil, um amigo do povo brasileiro”, disse ela antes de conduzir um minuto de silêncio durante um encontro com líderes ruralistas em Brasília, transmitido ao vivo em pela TV.

Houve, porém, uma pequena ressalva na expressão de condolências de Dilma Rousseff. “Em muitas ocasiões”, assinalou, “o governo brasileiro não concordou” com as políticas do líder bolivariano. Fontes próximas à presidente dizem que não se tratou de observação extemporânea, mas uma de declaração cuidadosamente planejada para consumo interno e no exterior.

A presidente também marcou alguma distância entre seu governo e os bolivarianos venezuelanos e seus aliados, ao regressar a Brasília antes dos funerais oficiais, na sexta-feira, dia 8, que foram assistidos por mais de trinta dirigentes, inclusive o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, e o cubano Raúl Castro.

O antecessor de Dilma Rousseff, Luiz Inácio Lula da Silva, que a acompanhou ao velório solene de Chávez em Caracas, manteve também nuances em suas declarações sobre Chávez e o chavismo num artigo que publicou na edição de quarta-feira, dia 6, no The New York Times.

O relacionamento de Lula com Chávez nem sempre foi tão caloroso e amigável como sugerem seus abraços em público. Lula sentiu-se traído e extremamente constrangido em 2006, quando Chávez, em parceria com Fidel Castro, incentivou Evo Morales a nacionalizar propriedades da Petrobras na Bolívia.

Paulo Sotero

Em 2010, durante encontro da União de Nações Sul-Americanas (Unasul) em Santiago do Chile, convocado às pressas para dirimir tensões potencialmente explosivas entre La Paz e Estados da Amazônia boliviana governados pela oposição, Lula confrontou Evo Morales, na presença de Chávez, com a escolha de continuar no caminho bolivariano de choque frontal que conduzira à crise, ou negociar com os governadores, como o Brasil e outros vizinhos o aconselhavam a fazer.

No artigo para o The New York Times, Lula louvou a “energia sem limites de Chávez, sua profunda crença no potencial para integração dos países da América Latina e seu compromisso com as transformações sociais necessárias para diminuir a miséria de seu povo”.

Mesmo assim, o ex-dirigente brasileiro, cujos bem-sucedidos dois mandatos como presidente representaram uma via mais moderada e efetiva para o desenvolvimento, a inclusão social e a integração regional do que o modelo bolivariano de Chávez, também chamou a atenção para as diferenças entre os dois.

“Não há dúvida de que ele [Chávez] foi uma figura controvertida, frequentemente polarizadora, alguém que nunca fugiu de um debate e para o qual nenhum tema constituía um tabu”, escreveu Lula. “Devo admitir que frequentemente achei que teria sido mais prudente para Chávez não haver dito tudo o que disse. Mas esta era uma característica pessoal dele que não deveria, nem de longe, diminuir suas qualidades. Também se poderia discordar da ideologia de Chávez, e de um estilo político que seus críticos encaravam como autocrático. Ele não fez escolhas políticas fáceis e nunca vacilou em suas decisões”. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

12/03/2013

às 16:35 \ Vasto Mundo

VENEZUELA: Segundo Mario Vargas Llosa, a morte do caudilho deixou um país rico empobrecido, dividido e conflagrado

Não devemos nos impressionar em demasia pelas multidões chorosas que velam os restos de Hugo Chávez (Foto: Carlos Garcia / Reuters)

Não devemos nos impressionar em demasia pelas multidões chorosas que velam os restos de Hugo Chávez (Foto: Carlos Garcia / Reuters)

Artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo

A MORTE DO CAUDILHO

O comandante Hugo Chávez Frías pertencia à robusta tradição dos caudilhos que, embora mais presentes na América Latina que em outras partes, não deixaram de se assomar a toda parte, até em democracias avançadas, como a França.

Ela revela aquele medo da liberdade que é uma herança do mundo primitivo, anterior à democracia e ao indivíduo, quando o homem ainda era massa e preferia que um semideus, ao qual cedia sua capacidade de iniciativa e seu livre-arbítrio, tomasse todas as decisões importantes de sua vida.

Vargas Llosa (Foto: Cleber Passus)

Vargas Llosa (Foto: Cleber Passus)

Cruzamento de super-homem e bufão, o caudilho faz e desfaz a seu bel prazer, inspirado por Deus ou por uma ideologia na qual, quase sempre, se confundem o socialismo e o fascismo ─ duas formas de estatismo e coletivismo ─ e se comunica diretamente com seu povo mediante a demagogia, a retórica, a espetáculos multitudinários e passionais de cunho mágico-religioso.

Sua popularidade costuma ser enorme, irracional, mas também efêmera, e o balanço de sua gestão, infalivelmente catastrófico. Não devemos nos impressionar em demasia pelas multidões chorosas que velam os restos de Hugo Chávez. São as mesmas que estremeciam de dor e desamparo pela morte de Perón, de Franco, de Stalin, de Trujillo e as que, amanhã, acompanharão Fidel Castro ao sepulcro.

A “revolução bolivariana” já começou a se decompor e desaparecerá

Os caudilhos não deixam herdeiros e o que ocorrerá a partir de agora na Venezuela é totalmente incerto. Ninguém, entre as pessoas de seu entorno, e certamente em nenhum caso Nicolás Maduro, o discreto apparatchik a quem designou seu sucessor, está em condições de aglutinar e manter unida essa coalizão de facções, de indivíduos e de interesses constituídos que representa o chavismo, nem de manter o entusiasmo e a fé que o defunto comandante despertava com sua torrencial energia nas massas da Venezuela.

Uma coisa é certa: esse híbrido ideológico que Hugo Chávez urdiu chamado revolução bolivariana ou socialismo do século XXI já começou a se decompor e desaparecerá, mais cedo ou mais tarde, derrotado pela realidade concreta: a de uma Venezuela, o país potencialmente mais rico do mundo, ao qual as políticas do caudilho deixaram empobrecido, dividido e conflagrado, com a inflação, a criminalidade e a corrupção mais altas do continente, um déficit fiscal que beira a 18% do PIB e as instituições ─ as empresas públicas, a Justiça, a imprensa, o poder eleitoral, as Forças Armadas ─ semidestruídas pelo autoritarismo, a intimidação e a submissão.

Além disso, a morte de Chávez coloca um ponto de interrogação na política de intervencionismo no restante do continente latino-americano que, num sonho megalomaníaco característico dos caudilhos, o comandante defunto se propunha a tornar socialista e bolivariano a golpes de talão de cheques.

Vassalos ideológicos comprados a petróleo

Persistirá esse fantástico dispêndio dos petrodólares venezuelanos que fizeram Cuba sobreviver com os 100 mil barris diários que Chávez praticamente presenteava a seu mentor e ídolo Fidel Castro?

E os subsídios e as compras de dívida de 19 países, aí incluídos seus vassalos ideológicos como o boliviano Evo Morales, o nicaraguense Daniel Ortega, as Farc colombianas e os inúmeros partidos, grupos e grupelhos que por toda a América Latina lutam para impor a revolução marxista?

O povo venezuelano parecia aceitar esse fantástico desperdício contagiado pelo otimismo de seu caudilho, mas duvido que o mais fanático dos chavistas acredite agora que Maduro possa vir a ser o próximo Simon Bolívar.

Esse sonho e seus subprodutos, como a Aliança Bolivariana para as América (Alba), integrada por Bolívia, Cuba, Equador, Dominica, Nicarágua, San Vicente e Granadinas, Antígua e Barbuda, sob a direção da Venezuela, já são cadáveres insepultos.

O preço do petróleo disparou, mas a redução de pobreza foi menor do que no Chile e no Peru

Nos 14 anos que Chávez governou a Venezuela, o preço do barril de petróleo ficou sete vezes mais caro, o que fez desse país, potencialmente, um dos mais prósperos do planeta. No entanto, a redução da pobreza nesse período foi menor que a verificada, por exemplo, no Chile e no Peru no mesmo período.

Enquanto isso, a expropriação e a nacionalização de mais de um milhar de empresas privadas, entre elas 3,5 milhões de hectares de fazendas agrícolas e pecuárias, não fez desaparecer os odiados ricos, mas criou, mediante o privilégio e o tráfico, uma verdadeira legião de novos ricos improdutivos que, em vez de fazer progredir o país, contribuiu para afundá-lo no mercantilismo, no rentismo e em todas as demais formas degradadas do capitalismo de Estado.

Chávez não estatizou toda a economia, como Cuba, e nunca fechou inteiramente todos os espaços para a dissidência e a crítica, embora sua política repressiva contra a imprensa independente e os opositores os tenha reduzido a sua expressão mínima. Seu prontuário no que respeita aos atropelos contra os direitos humanos é enorme, como recordou, por ocasião de seu falecimento, uma organização tão objetiva e respeitável como a Human Rights Watch.

o fato de haver na Venezuela uma oposição ao chavismo que a eleição do ano passado obteve quase 6,5 milhões de votos é algo que se deve, mais do que à tolerância de Chávez, à galhardia e à convicção de tantos venezuelanos que nunca se deixaram intimidar pela coerção e as pressões do regime (Foto: Leo Ramirez / AFP)

"O fato de haver na Venezuela uma oposição ao chavismo que na eleição do ano passado obteve quase 6,5 milhões de votos (na foto, seu líder e candidato, Henrique Capriles) é algo que se deve, mais do que à tolerância de Chávez, à galhardia e à convicção de tantos venezuelanos que nunca se deixaram intimidar pela coerção e as pressões do regime" (Foto: Leo Ramirez / AFP)

É verdade que ele realizou várias consultas eleitorais e, ao menos em algumas delas, como a última, venceu limpamente, se a lisura de uma eleição se mede apenas pelo respeito aos votos depositados e não se leva em conta o contexto político e social no qual ela se realiza, e na qual a desproporção de meios à disposição do governo e da oposição era tal que ela já entrava na disputa com uma desvantagem descomunal.

No entanto, em última instância, o fato de haver na Venezuela uma oposição ao chavismo que na eleição do ano passado obteve quase 6,5 milhões de votos é algo que se deve, mais do que à tolerância de Chávez, à galhardia e à convicção de tantos venezuelanos que nunca se deixaram intimidar pela coerção e as pressões do regime e, nesses 14 anos, mantiveram viva a lucidez e a vocação democrática, sem se deixar arrebatar pela paixão gregária e pela abdicação do espírito crítico que o caudilhismo fomenta.

Não sem tropeços, essa oposição, na qual estão representadas todas as variantes ideológicas da Venezuela está unida.

Oposição precisará convencer o povo de que é preciso livrar a futura democracia das taras que arruinaram a democracia passada

E tem agora uma oportunidade extraordinária para convencer o povo venezuelano de que a verdadeira saída para os enormes problemas que ele enfrenta não é perseverar no erro populista e revolucionário que Chávez encarnava, mas a opção democrática, isto é, o único sistema capaz de conciliar a liberdade, a legalidade e o progresso, criando oportunidades para todos em um regime de coexistência e de paz.

Nem Chávez nem caudilho algum são possíveis sem um clima de ceticismo e de desgosto com a democracia como o que chegou a viver a Venezuela quando, em 4 de fevereiro de 1992, o comandante Chávez tentou o golpe de Estado contra o governo de Carlos Andrés Pérez.

O golpe foi derrotado por um Exército constitucionalista que enviou Chávez ao cárcere do qual, dois anos depois, num gesto irresponsável que custaria caríssimo a seu povo, o presidente Rafael Caldera o tirou anistiando-o.

Essa democracia imperfeita, perdulária e bastante corrompida, havia frustrado profundamente os venezuelanos que, por isso, abriram seu coração aos cantos de sereia do militar golpista, algo que ocorreu, por desgraça, muitas vezes na América Latina.

Quando o impacto emocional de sua morte se atenuar, a grande tarefa da aliança opositora presidida por Henrique Capriles será persuadir esse povo de que a democracia futura da Venezuela terá se livrado dessas taras que a arruinaram e terá aproveitado a lição para depurar-se dos tráficos mercantilistas, do rentismo, dos privilégios e desperdícios que a debilitaram e tornaram tão impopular.

A democracia do futuro acabará com os abusos de poder, restabelecendo a legalidade, restaurando a independência do Judiciário que o chavismo aniquilou, acabando com essa burocracia política mastodôntica que levou à ruína as empresas públicas.

Com isso, se produzirá um clima estimulante para a criação de riqueza no qual empresários possam trabalhar e investidores, investir, de modo que regressem à Venezuela os capitais que fugiram e a liberdade volte a ser a senha e contrassenha da vida política, social e cultural do país do qual há dois séculos saíram tantos milhares de homens para derramar seu sangue pela independência da América Latina.

10/03/2013

às 0:05 \ Vasto Mundo

ENQUETE: Quem vocês acham que será próximo dirigente “bolivariano” — ou análogo — a ser embalsamado e exibido em uma urna de vidro???

Em ordem de idade: Fidel Castro, Raúl Castro, Lula, Daniel "Estuprador" Ortega, Cristina Kirchner, Mahmoud Ahmadinejad, Evo Morales, Kim Jong-un

Por ordem de idade: Fidel Castro, Raúl Castro, Lula, Daniel "Estuprador" Ortega, Cristina Kirchner, Mahmoud Ahmadinejad, Evo Morales, Kim Jong-un

Post publicado originalmente dia 8 de março de 2013, às 19h51

A prática de conservar para exibição pública e exploração política cadáveres de tiranos em urnas de vidro restringiu-se, no século XX, a países comunistas, que transformaram em “santos” embalsamados velhos ditadores, a começar por Lênin.

A única exceção ocorreu na Argentina, e não com o corpo conservado de um governante, mas de sua mulher — Evita Perón, a “Mãe dos Pobres” da Argentina durante o reinado do ditador-general Juan Domingo Perón.

Agora, a prática ingressa com toda força no mundo “bolivariano” da América Latina com a decisão da camarilha dirigente chavista da Venezuela de expor “eternamente” — a pretensão não tem limites nesse mundo delirante — o corpo embalsamado do tiranete Hugo Chávez, morto na terça, dia 5.

Queremos seu palpite sobre quem será o próximo “bolivariano” ou equivalente — entre estes, pode ser até o desvairado presidente atômico do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, ou o ditador norte-coreano Kim Jong-un, com DNA em urna de vidro, já que tem os precedentes dos corpos do pai do avô ditadores em exposição permanente.

Incluímos na lista dirigentes jovens, como o da Coreia do Norte, com presumíveis 28 anos, e relativamente jovens, como Ahmadinejad (56 anos) e Evo Morales (54), da Bolívia — afinal, Chávez, aos 58 anos, morreu prematuramente.

Então, chega de conversa: vão ali na coluna à direita desta, no local destinado às enquetes, e votem!

Se quiserem, comentem aqui.

09/03/2013

às 19:29 \ Política & Cia

Neil Ferreira: Aflições de um Submergente nos tempos de Dilma

Madame Dilminha  tá com o Diabo na campanha da eleição de 2014, que já começou (Foto: Jonne Roriz)

Neil sobre o governo Dilma: "Os matemáticos do governo cabularam as aulas de aritmética fundamental da Escolinha do Professor Raimundo, mas são PhDs em Maquiagem; em Hollywood maquiagem dá “Oscar”, aqui dá Pibinho de 0,9%" (Foto: Jonne Roriz)

Por Neil submergente Ferreira, publicado no Diário do Comércio da Associação Comercial de São Paulo

 AFLIÇÕES DE UM SUBMERGENTE NOS TEMPOS DE DILMA

 

Madame Dilminha tá com o Diabo no corpo, digo, com o Diabo na campanha da eleição de 2014, que já começou; a campanha convocou o Capeta para sua militância e Lula é o “ghost writer”. Eu sou o Submergente, catiguria fornecedora dos milhões de votos comprados e pagos pelas bolsas-esmola.

Sua Alteza praticou a baixeza de pensar que me comprou por 2,34 real por dia. Comprou e se apossou do direito de “poder fazer o diabo em tempo de eleição”. Pode e faz.

Essa é uma das falas que atribuo ao Lula; é a cara dele esculpida em carrara. O vulgo fala “cara escrita e escarrada”; não falo, não sou o vulgo, nem falo a Novilíngua deles, sou estrangeiro aqui no “país dos mais de 80%”.

Com 2 anos de antecipação já se pode “fazer o diabo” etc etc e tal; e fazem. A Justiça Eleitoral tem olhos de Ray Charles, é cega; faz ouvidos de mercador e fica caladinha da silva; além de cega, é surda-muda. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

11/02/2013

às 14:00 \ Política & Cia

Neil Ferreira: O enredo da Unidos do PT é “Petrolulabrás no Fundo do Poço, ô, ô”

aves de rapina caçam, com os bicos curvos e vorazes e poderosas garras afiadas, o passaredo inocente, abrigado e engordado nos recheados cofres públicos da herança maldita de FHC (Imagem  (Foto: Miscellaneous)

"Aves de rapina caçam, com os bicos curvos e vorazes e poderosas garras afiadas, o passaredo inocente, abrigado e engordado nos recheados cofres públicos da herança 'maldita' de FHC" (Imagem: Miscellaneous)

Por Neil carnavalesco Ferreira, publicado hoje no Diário do Comércio da Associação Comercial de São Paulo

ENREDO DA UNIDOS DO PT: “PETROLULABRÁS NO FUNDO DO POÇO Ô Ô”

A Escola de Samba Unidos do PT pede passagem e apresenta seu enredo. Puxadoras, as Neguinhas da Unidos: Relaxa e Goza e Chauí. Refrão: “Lula é Deus !” Breque: É Deus Diz! É Deus ! “Quando Lula fala o país se ilumina !” Em coro: “Petrolulabrás afundô ô, ô ! Vai continuá a afundá á, á ! Dispois de Sumpólo tem otro Sumpólo pra nóis avançá á, á !”

Comessão de Frente, Petrolulabrás Afundada, Bode Galeguinho, Sarney, Collor, Brimo Maluf, Renan Avacalheiros, Jáder Barbalho, Sérgio Cabral, Rui Falcão, Mensaleiros Corruptos Condenados e Sentenciados, Delta, Todos os Ministros e Todos os Ministérios da Presidenta, Marcos Valério, Banco Rural.

Mestre Sala, Roi Louis 51, faz evoluções e mostra as mãos sujas de petróleo pra cantar nossa autossuficiência em prejuízos; Porta Bandeira, Marisa Antoinette, esconde o rostinho pitanguyneado e botoxiado com o leque. Supimpas.

O remelexo da Rose Rainha da Bateria estremece a avenida, incendeia a paixão do mais alto figurão do palanque, da arquibancada, do camarote, do País, do Estado, da Nação, do Mercosul, do Planeta, do Planeta dos Macacos, do Sistema Solar, da Via Láctea, da Galáxia, cuíca nunca antes vista no “Univelço” – 1m63 de altura e de circunferência.

Breque pra recuo da bateria; ao recuar, faz de improviso um minuto de silêncio para Celso Daniel e Toninho de Campinas. Confusão geral, pau quebra por causa do improviso subversivo.

Olê olê – olê olá, Lu-la Lula-lá; Olê olê – olê olá, Lu-la Lula-lá; Olê olê- olê olá é o partido botando a Petrolulabrás pra quebrá. Breque: Prá nóis robá! Diz! Pra nóis robá. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

10/02/2013

às 12:16 \ Disseram

Jovens: a inveja de Fidel

“Diga a eles, apenas, que eu tenho muita inveja.”

Fidel Castro, em mensagem, no jornal oficial cubano Granma, enviando uma mensagem aos jovens

07/02/2013

às 19:30 \ Vasto Mundo

O Twitter de Chávez está silencioso há 99 dias. 40 dias antes de se internar em Cuba, ele já tinha parado sua frenética atividade nessa rede social

 

hugo-chavez

Inchaço e fadiga: Hugo Chávez quando participava de cerimônia militar em Caracas, meses antes da atual internação em Cuba (Foto: Ariana Cubillos/AP)

O Twitter do tiranete venezuelano Hugo Chávez completa hoje exatos 99 dias de “silêncio”. Chávez, que utiliza intensamente as redes sociais como instrumento de propaganda, sem contar o onipresente e às vezes interminável programa de TV “Alô, presidente”, não tuíta nada desde 1º de novembro, quando saudou um grupo de formandos em “Saberes Africanos” e terminou com um “Viva a Mãe África!”

Chávez, ou @chavezcandanga — não me perguntem o que é “candanga” — se define, com iniciais maiúsculas, Presidente da República Bolivariana da Venezuela, Soldado Bolivariano, Socialista e Aintiimperialista.

Até sucumbir a esta última internação para tratar de seu câncer em Cuba, dia 10 de dezembro, Chávez vinha sendo um tuiteiro militante, com 1.821 tweets para quase 4 milhões de seguidores (3.951.332, para ser mais exato). Em contraste com o número de seguidores, o coronel venezuelano só seguia 23 pessoas, na maior parte gente de seu governo e de seu Partido Socialista Unificado da Venezuela, mas também a presidente Dilma Rousseff (@dilmab) e os presidentes bolivarianos da Argentina (@CFKAArgentina) e do Equador (@MashiRafael).

Página do twitter de @chavezcandanga

Página do twitter do tiranete Hugo Chávez, aliás @chavezcandanga (CLIQUE NA IMAGEM PARA VER EM TAMANHO MAIOR)

Como seu guru, o eterno Fidel Castro, não tem conta própria, Chávez costumava seguir @reflexionfidel, uma espécie de breviário tuiteiro do pensamento do semi-aposentado co-ditador de Cuba.

O fato de não haver tuitado nada entre 1º de novembro e 10 de dezembro indica que Chávez, antes de rumar para Havana, estava de fato mal de saúde.

16/12/2012

às 19:30 \ Vasto Mundo

Cuba — a ilha na encruzilhada entre o socialismo que morreu e o capitalismo que não chegou

AVANÇO E RECUO -- Sem a ajuda soviética, a revolução perdeu o rumo. Até as conquistas em saúde e educação estão desmoronando. Cuba tateia para descobrir seu futuro. Infelizmente, a teoria marxista-leninista não previu a transição do socialismo para o capitalismo (Foto: Gilberto Tadday)

AVANÇO E RECUO -- Sem a ajuda soviética, a revolução perdeu o rumo. Até as conquistas em saúde e educação estão desmoronando. Cuba tateia para descobrir seu futuro. Infelizmente, a teoria marxista-leninista não previu a transição do socialismo para o capitalismo (Foto: Gilberto Tadday)

Reportagem especial de André Petry, de Havana, publicada em edição impressa de VEJA

CUBA, A ILHA NA ENCRUZILHADA

No ano em que o bloqueio americano completa meio século, o país vive um momento ímpar – fascinante e dramático -, a meio caminho entre o socialismo que morreu e o capitalismo que ainda não nasceu

Quando perdeu o marido, a aposentada Mercedes Miguez, 60 anos, decidiu se mudar. Estava recebendo 70% da pensão do marido, podia morar num imóvel melhor. Passou a assistir ao Canal Habana entre as 4 e 5 da tarde.

No programa Revista Hola Habana, há um quadro sobre imóveis disponíveis na cidade. Os apresentadores dão as características gerais – localização, número de cômodos – e o telefone do morador do imóvel. Aparentemente, o programa cumpre sua finalidade de viabilizar pequenos negócios, mas deve ser o único caso no mundo em que a TV é usada como se estivéssemos na era do rádio: os apresentadores leem os anúncios classificados no ar, enviados pelos interessados.

Não falam de preço. Pior: a leitura é apresentada na grade da emissora como um programa apenas para permuta de imóveis, e não para compra e venda.

COMIDA -- O maior shopping de Havana: de um lado a fartura... (Foto: Gilberto Tadday)

COMIDA -- O maior shopping de Havana: de um lado a fartura... (Foto: Gilberto Tadday)

É um exemplo modesto – embora eloquente na sua simplicidade – das dificuldades de transitar para economia de mercado uma economia inteiramente estatizada, em que até o flanelinha dos estacionamentos é servidor público.

A TV não dá nenhuma informação sobre o mercado imobiliário, a atividade de corretor de imóveis é ilegal. Os compradores não têm financiamento. Desde que o governo permitiu a compra e venda de imóveis, os cubanos tentam entrar no mercado.

A aposentada Mercedes Miguez teve sorte: mudou-se para a nova casa em 21 de setembro. Mas não é fácil. Apesar de proibida, a corretagem existe – aos sábados, os corretores se reúnem no Paseo del Prado, ao ar livre.

O preço oficial dos imóveis corresponde a um terço do real. São tantas as disfunções que a maioria das pessoas continua recorrendo à antiga permuta. Na transação, quem troca uma casa pior por uma melhor desembolsa a diferença - un vuelto, como dizem os cubanos, pago sempre por baixo do pano.

FOME -- Centro de distribuição de alimentos da cesta básica: a escassez de outro lado (Foto: Gilberto Tadday)

FOME -- ... de outro lado a escassez: centro de distribuição de alimentos da cesta básica (Foto: Gilberto Tadday)

Cuba começou a mudar de curso com a troca da guarda octogenária. Fidel Castro, 86 anos, passou o poder para o irmão mais novo, Raúl Castro, 81 anos. Em 2008, Raúl virou presidente de Cuba e, desde o ano passado, acumula o cargo de secretário do Partido Comunista. Soltou mais de 100 presos políticos, assinou a convenção da ONU sobre direitos humanos e começou a introduzir reformas econômicas – não por convicção, mas por necessidade.

Além de imóveis, os cubanos agora podem comprar e vender carros, abrir pequenos negócios, contratar empregados e trabalhar como autônomos – e, por alguma razão, todas as velhinhas pobres decidiram vender amendoim nas ruas.

Apresentadas assim, as novidades sugerem uma transformação radical. Mas aqui se entra no universo dúbio, difuso, quase impenetrável no qual os cubanos oscilam entre o mundo oficial e o mundo real.

SALÁRIO -- A menor loja do mundo, uma porta: agora os cubanos podem exercer 181 atividades privadas, desde que tenham licença e paguem um imposto mensal (Foto: Gilberto Tadday)

SALÁRIO -- A menor loja do mundo, uma porta: agora os cubanos podem exercer 181 atividades privadas, desde que tenham licença e paguem um imposto mensal (Foto: Gilberto Tadday)

Os carros, por exemplo. Cuba tem uma frota de 600.000 veículos, com média de idade de quinze anos.

Agora, os cubanos podem comprar e vender carros – mas apenas usados. Os preços costumam ficar em torno de 3.000 a 5.000 dólares, uma fortuna para os padrões locais. A média salarial em Cuba é de 20 dólares.

Também não existe financiamento de automóvel. A burocracia é infernal. Para completar, os salários são pagos em “pesos cubanos”, mas a gasolina só é vendida em “pesos conversíveis”, que valem 24 vezes mais. Resumindo: o cubano pode comprar carro, mas só usado, só à vista e só pagando combustível em moeda forte.

Em outubro, o governo anunciou a tão esperada liberdade de viajar para o exterior. Mesmo quem não tem dinheiro para comprar uma passagem aérea para Miami festejou a decisão. O jornal oficial, o Granma, esgotou-se nas bancas.

Os cubanos não precisam mais pedir permiso de salida nem apresentar a famigerada carta de invitación, o convite de um estrangeiro para o cubano visitar seu país. Agora, basta ter o visto de entrada no país de destino. A medida entra em vigor em 14 de janeiro.

ESMOLA -- a senhora de 76 anos vendendo amendoim no Malecón (Foto: Gilberto Tadday)

ESMOLA -- Senhora de 76 anos vendendo amendoim no Malecón (Foto: Gilberto Tadday)

Mas há restrições severas. Todos os passaportes terão de ser “atualizados”, o que dá ao governo a oportunidade de negar atualização a quem quiser.

Um passaporte novo custará 100 dólares, ou cinco meses de salário. Além disso, a lei proíbe a saída de profissionais da saúde, pesquisadores, atletas e oposicionistas, para evitar uma fuga de cérebros. “Cuba só vai perder trabalhadores não qualificados”, diz um diplomata.

Resumindo: viajar é livre, mas não é.

Com uma realidade nebulosa, os cubanos desenvolveram la doble moral - para cada situação, uma moral. Com salários baixos e carências cada vez maiores, a ilha virou o país do desvio. Desvia-se charuto da fábrica para vender nas ruas. Desvia-se remédio do hospital para vender aos vizinhos. Desvia-se tudo.

CASA -- Um apartamento para permuta: o mercado está abrindo, mas a corretagem é ilegal (Foto: Gilberto Tadday)

CASA -- Um apartamento para permuta: o mercado está abrindo, mas a corretagem é ilegal (Foto: Gilberto Tadday)

Um abastado morador de Havana conta que não se acham cloro nem algicida no país para tratar água de piscina. Para resolver seu problema, ele contratou um piscineiro, que sempre tem os produtos à disposição. “Ele os desvia de algum lugar”, especula o dono da piscina. “Deve cuidar da piscina de algum hotel, que provavelmente importa os produtos químicos.”

A “bolsa negra” é um mercado ilegal em que se negociam os itens da cesta básica, distribuídos pelo governo. Mas o abastecimento está melhor do que há dois anos. Os agricultores, que antes eram obrigados a vender toda a safra ao Estado, agora podem negociar com verdureiros, que compõem uma das 181 atividades autorizadas pelo governo.

A cesta básica, apesar disso, emagreceu.

CARRO -- O motorista de um Mercury de 1957: a gasolina só é vendida na moeda com cotação semelhante à do dólar (Foto: Gilberto Tadday)

CARRO -- O motorista de um Mercury 1957: a gasolina só é vendida na moeda com cotação semelhante à do dólar, que vale 24 vezes o peso oficial (Foto: Gilberto Tadday)

É comum que só haja arroz, óleo e açúcar. Faltam pasta de dente, sabonete, macarrão, leite. “É uma tragédia”, diz o senhor que esteve em duas missões militares, ambas em Angola, e hoje dirige um Chevrolet de 1951 como motorista de táxi, outra das 181 atividades agora legais.

Ele paga ao governo um imposto mensal e mais 10% sobre o faturamento. Sem taxímetro no carro, como o governo controla o faturamento? Ele abre os braços e escande as sílabas: “Es to-do una men-ti-ra”.

Apesar de meio século de socialismo e ditadura, Cuba não combina com as novelas de John Le Carré, mas é bom cenário para a Macondo de Gabriel García Márquez, a cidade fantástica de Cem Anos de Solidão.

Onde mais o encarregado de receber e passar recados telefônicos aos vizinhos seria um nonagenário mudo, vítima de um câncer de garganta? Onde mais a moradora de um cortiço pouparia todo o dinheiro extra para dar uma festa de aniversário a uma boneca negra? Em que outro lugar um teatro com uma esplêndida arquitetura, meio em reforma e meio em ruínas, apresentaria um espetáculo dirigido por uma bailarina cega? “Sala García Lorca apresenta 23. Direção geral de Alicia Alonso.”

Onde mais um senhor idoso percorreria o Malecón, famosa orla de Havana, à noite, badalando uma sineta, carregando duas imagens de São Lázaro e pedindo esmolas para o santo? E, na falta da esmola, oferecendo mulheres? “Las más baratas de La Habana.” Em que outro lugar se encontraria um dublê de carola e cafetão?

RUÍNA -- Havana é uma ruína, com casas e prédios decrépitos, quase como se fosse uma Dresden dos trópicos (Foto: Gilberto Tadday)

RUÍNA -- Havana é uma ruína, com casas e prédios decrépitos, quase como se fosse uma Dresden dos trópicos (Foto: Gilberto Tadday)

Nada é linear nessa Cuba que vive numa encruzilhada, entre o socialismo que morreu e o capitalismo que ainda não nasceu. Na teoria marxista-leninista, não existe transição do socialismo para o capitalismo. Numa marcha inevitável, o socialismo chegaria à sua etapa superior, o comunismo, e reduziria o capitalismo a cinzas da história.

Formada no marxismo-leninismo, a elite comunista de Cuba não sabe como caminhar na transição. Não tem modelo, bússola. Às vezes avança. Às vezes recua, tateando um caminho que seja diferente do da ex-União Soviética e parecido com o do Vietnã e da China, que adotaram o mercado privado sem abandonar a ditadura de partido único.

ABRIGO -- Nada é mais raro na paisagem da cidade do que uma grua, uma construção nova em folha, como essa no Molecón (Foto: Gilberto Tadday)

ABRIGO -- Nada é mais raro na paisagem da cidade do que uma grua, uma construção nova em folha, como essa no Molecón (Foto: Gilberto Tadday)

Havana está crivada de prédios decrépitos. Uma lata de tinta custa uma fortuna. Uma grua numa construção é uma imagem raríssima. A pobreza e a prostituição, duas mazelas que a revolução prometeu extirpar, estão por todos os lugares. No ano em que o embargo econômico americano completa meio século, a elite dirigente de Cuba segue usando o “bloqueio genocida” como desculpa para sua catástrofe.

No entanto, o país já esteve bem melhor, mesmo com bloqueio. Com a ajuda soviética, teve sucessos notáveis na saúde e na educação. Agora, até essas conquistas estão desmoronando. As matrículas na escola secundária estão abaixo do pico de 25 anos atrás. Há escassez de remédios. Profissionais de saúde, com o arrocho salarial, estão deixando a atividade. A desigualdade já foi parecida com a da Noruega. Hoje, é igual à do Chile.

 

Serviços

 

Assinaturas



Editora Abril Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados