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Felipe González

15/05/2014

às 6:00 \ Disseram

Apenas um governo pode governar

“A soma de todos os movimentos de indignados que ocorrem no mundo inteiro não produz um programa de governo.”

Felipe González, primeiro-ministro da Espanha por 14 anos e quatro vitórias eleitorais consecutivas, entre 1982 e 1996, durante seminário do Instituto FHC, em São Paulo, sobre os rumos da América Latina

13/05/2014

às 16:00 \ Vasto Mundo

Seminário no Instituto Fernando Henrique identifica perigos para a democracia na América Latina

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Pela democracia: o espanhol Felipe González, o mexicano Jorge Castañeda, o chileno Ricardo Lagos, o uruguaio Júlio Maria Sanguinetti e FHC (Foto: R. Setti)

Os 10 anos do Instituto Fernando Henrique Cardoso foram comemorados hoje no Teatro Eva Herz, em São Paulo, com um seminário de alto nível reunindo, sob a mediação do ex-presidente, o ex-primeiro-ministro da Espanha Felipe González, os ex-presidentes Ricardo Lagos, do Chile, e Júlio Maria Sanguinetti, do Uruguai, e o escritor e ex-chanceler do México Jorge Castañeda.

Com a autoridade de um líder socialista que venceu quatro eleições consecutivas, governou e transformou a Espanha durante 14 anos (1982-1996) e é velho conhecedor e amigo da América Latina, Felipe González chamou a atenção, entre outros pontos, para o fato de que na região está faltando “a vigilância sobre a legitimidade do exercício da democracia”.

Referindo-se à Venezuela, González criticou quem é eleito de forma democrática “mas governa de forma não democrática”, violando a separação entre os Poderes do Estado, esmagando a oposição, cerceando a imprensa e reprimindo manifestações de protesto. Deteve-se em lembrar como um exemplo a mais de abuso a “espantosa” disparidade de meios de propaganda nas eleições presidenciais de 2013 em favor do hoje presidente Nicolás Maduro e em prejuízo de Henrique Capriles, candidato da oposição, assim mesmo derrotado por percentagem mínima.

Com isso, remeteu a plateia à intervenção inicial do ex-presidente FHC, que designou como “democracias autoritárias” regimes que, eleitos pelo voto, atropelam depois as instituições democráticas, “como se uma grande votação concedesse um alvará para que o poderoso [eleito] vire um pequeno ditador”.

O ex-presidente chileno Ricardo Lagos (2000-2006), por seu turno, lembrou que a grande diminuição da pobreza ocorrida em diferentes países do continente não diminuiu na mesma proporção a “iníqua” distribuição de renda, e que este é um dos grandes desafios a serem enfrentados pelas democracias.

Já Júlio Maria Sanguinetti, duas vezes presidente do Uruguai (1985-1990 e 1995-2000), ecoou uma preocupação geral ao lembrar que a América Latina, a despeito de haver criado diversas organizações unilaterais, ainda não consegue falar “com uma só voz” justamente num período como o atual, de globalização, em que “as regras do mundo estão sendo traçadas em lugares aos quais temos pouco ou nenhum acesso”.

O ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda (2000-2003), escritor e professor de universidades latino-americanas, norte-americanas e europeias, lamentou a omissão das democracias latino-americanas diante das violações de direitos humanos em países “bolivarianos” e mencionou como ameaça à democracia também a utilização da máquina pública por presidentes de outras nações que buscam a reeleição a qualquer custo.

Os cinco debatedores concordaram que as novas formas de manifestação popular por meio de novas tecnologias representam um elemento novo no cenário político, com o qual as democracias tradicionais e suas instituições ainda não sabem lidar apropriadamente.

Vejam agora o vídeo em que, em poucos segundos, FHC define com precisão as “democracias autoritárias” do tipo bolivariano:

 

29/03/2012

às 8:00 \ Vasto Mundo

Republico post que saiu com erros: “Eleições na Espanha: socialistas conseguem deter a maré conservadora na Andaluzia, a comunidade mais populosa”

Griñán, socialista, chegando para votar em Sevilha: não ganhou, mas continua no governo (Foto: vegamediapress.es)

Amigos, republico este post porque foi ao ar na segunda, 26, com erros de informação, principalmente o de que o Partido Popular, conservador, governa 16 das 17 comunidades autônomas da Espanha. Na verdade, governa 15 — a Andaluzia, objeto do post, e o País Basco são governadas pelos socialistas.

Desculpem o erro. Quem tiver paciência, pode ler novamente o post — correto.

Consideradas as circunstâncias, o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), massacrado nas eleições gerais de 20 de novembro, que colocaram no poder o conservador Partido Popular, operou um milagre nas importantes eleições deste domingo, 25, na Andaluzia, uma das duas únicas comunidades autônomas (equivalente a um Estado norte-americano) que ainda governava, entre as 17 da Espanha (a outra é o País Basco): perdeu 9 cadeiras no Parlamento andaluz, mas, com 47 deputados – contra 50 do agora majoritário PP –, deve manter-se no governo em aliança com a Esquerda Unida, que dobrou sua representação e alcançou 12 postos.

Com 8,5 milhões de habitantes dos 47 milhões que compõem a Espanha, a Andaluzia é a comunidade mais populosa do país e sempre foi um fortíssimo baluarte dos socialistas, que governam o território há 30 anos. Para o PP, que jogou todas as suas forças na campanha, era uma questão de honra “passar o rodo” também ali, e deter um poder inigualado por outro partido político nos 35 anos de democracia: não apenas governa, sozinho ou em coalizão, 15 das 17 comunidades espanholas, como também as cidades autônomas de Ceuta e Melilla, encravadas em território do Marrocos, bem como as três das quatro maiores cidades do país – Madri, Valência e Sevilha.

Por que milagre para o PSOE? Porque o presidente da região (equivalente a governador), José Antonio Griñán, tinha todas as pesquisas de opinião pública prognosticando derrota feia, sua região tem a espantosa taxa de desemprego de 30% — bem acima do já péssimo percentual geral da Espanha, de 22,8% — e seu governo enfrenta o maior escândalo de roubalheira de dinheiro público de que se tem notícia no país: 1 bilhão de euros (2,4 bilhões de reais) desviados dos fundos de auxílio aos desempregados. Griñán não está pessoalmente envolvido, mas clama aos céus que, em sua posição, não estivesse a par de nada.

González (à esquerda), com o secretário-geral do PSOE, Alfredo Pérez Rubalcaba, e Griñán, em Córdoba: "deter a onda reacionária" (Foto: estrelladigital.es)

Para o resultado eleitoral, provavelmente contribuiu uma espetacular entrada em cena do ex-primeiro-ministro (“presidente de governo”, como se denomina o cargo na Espanha) Felipe González, o grande modernizador do país, vencedor de quatro eleições consecutivas e que governou por 14 anos.

Embora tenha deixado o poder em 1996 com sua administração desgastada por acusações de abuso de poder e de corrupção, ele nunca foi pessoalmente incriminado. Aos 69 anos, em boa forma, e ainda por cima andaluz, de Sevilha, continua sendo a grande referência dos socialistas e se reserva para entrar em cena apenas em momentos decisivos.

Ele o fez na reta final da campanha, conclamando os andaluzes a deter “a onda reacionária” que varre o país e fazendo um candente discurso no comício de encerramento da campanha de Griñán, em Córdoba.

O resultado é que, ao anunciar a vitória do PP nas eleições – afinal, o partido conseguiu a maior bancada –, a secretária-geral do partido, Maria Dolores de Cospedal, exibia um ar fúnebre. Tecnicamente derrotado, Griñán e os principais líderes socialistas exultavam.

Tanto González como outros dirigentes de esquerda apresentaram a o resultado como efeito do “desgaste” do governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy, que submete o país a um duro regime de austeridade para sair da crise. É um evidente exagero.

O oposto do que se passou na Andaluzia ocorreu em outra comunidade onde se realizaram eleições, o pequeno Principado de Astúrias, com pouco mais de 1 milhão de habitantes. Lá, o PSOE ganhou as eleições, mas não levou. O socialista Javier Fernández sorria amarelo depois de obter a maior bancada no parlamento, uma vez que o presidente do governo, Francisco Álvarez Cascos, dirigente de um partido local centrista, vai aliar-se com o PP e terá maioria.

“Este foi o dia em que o PSOE respirou”, disse no fim da noite de ontem, na emissora pública de televisão TVE, o veterano analista Fernando Ónega. “O partido salvou os móveis na Andaluzia”.

É de fato um respiro para os socialistas, mas não abala o governo de Rajoy. O que o fará, se ele não conseguir colocar a Espanha nos eixos, será a crise.

18/01/2012

às 19:31 \ Vasto Mundo

Vitória esmagadora dos conservadores na Espanha elege um líder previsível — e confiável para a União Europeia

Partidários do PP comemoram a maioria absoluta em frente à sede do partido, em Madri (Foto: Reuters)

Publicado originalmente em 20 de novembro de 2011

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

As comemorações em dezenas de cidades da Espanha pela vitória do oposicionista e conservador Partido Popular nas eleições gerais deste domingo, 20, tiveram seu peso – mas nem de longe foram proporcionais às dimensões da derrota que o PP, após quase oito anos fora do Palácio de la Moncloa, sede do governo, impôs aos adversários governistas do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) do primeiro-ministro José Luís Rodríguez Zapatero e do candidato Alfredo Pérez Rubalcaba.

De fato, a festa deveria ter sido maior para um partido que elegeu 186  representantes num Congresso de Deputados de 350 integrantes, alcançando bem mais do que a maioria absoluta que deixará o líder do PP, Mariano Rajoy, 56 anos, com mãos livres para governar, bem como folgada maioria absoluta entre 208 senadores eleitos diretamente – outros 54 são escolhidos pelos parlamentos regionais.

Mariano Rajoy, galego, 56 anos, casado, dois filhos: o novo governante da 12ª economia do mundo (Foto: Ondacero)

A vitória de Rajoy em sua terceira tentativa de chegar ao poder foi a maior da história do partido, mas ficou além do mais rotundo resultado obtido até hoje desde a morte do general Francisco Franco e o fim de sua ditadura de 36 anos, em 1975: o vendaval que levou o socialista Felipe González ao poder em 1982, com 200 dos 350 deputados.

De todo modo, os “populares”, que já governam 15 das 17 comunidades autônomas, 43 das capitais provinciais e três das quatro maiores cidades do país, a começar pela capital, Madri, agora consolidam um enorme poder.

Eleito por exclusão, com o esgotamento dos socialistas

E, no entanto, a comemoração relativamente morna diante do tamanho e do vulto da vitória se justifica: Rajoy, político de carisma zero com enorme dificuldade de entusiasmar mesmo a mais engajada das audiências, viu-se eleito por exclusão, por falta de alternativa, uma vez esgotada qualquer chance de vitória por parte do único outro partido de alcance e dimensões nacionais, os socialistas, responsabilizados pelo afundamento da Espanha na maior crise econômica desde o fim da ditadura.

Zapatero demorou a aceitar que existia uma crise e, quando seu governo se dispôs a compatê-la, cometeu um erro atrás do outro, inclusive aumentando a dívida do Estado com um grande projeto de gastos públicos destinado a gerar atividade econômica e emprego que deu com os burros n’água.

Com mais de 22% de sua mão de obra desempregada (mais de 5 milhões de trabalhadores), com uma economia catatônica, que só deve crescer, se tanto, 0,8% este ano, com uma dívida de 700 bilhões de euros (1,68 trilhão de reais) para um Produto Interno Bruto de 1,4 trilhão de euros (3,4 trilhões de reais), com um governo compelido a pagar juros já superiores a 7% ao ano para colocar títulos no mercado – um escândalo para um país europeu, sobretudo com a economia estagnada –, o inferno desabou sobre Zapatero, anulando aos olhos do eleitorado a bonança que a Espanha viveu na maior parte de seu primeiro mandato, entre 2004 e 2007, e as conquistas de mais direitos civis e igualdades asseguradas por sua gestão.

Para substituí-lo, os espanhóis descartaram o experiente, calejado químico de profissão, ex-atleta com boas marcas nos 100 metros rasos e várias vezes ministro Rubalcaba, a quem se deve boa parte da façanha que foi, como ministro do Interior, liquidar do ponto de vista policial os terroristas bascos da ETA, que finalmente anunciaram, há exatamente um mês, o fim de suas “ações armadas”.

Rajoy e a mulher, Elvira, a "Viri": solteiro até os 41 anos e, aos 56, com idade para ser avô dos dois filhos

Morno, mas com o trunfo de ser previsível

Preferiram o morno, mas previsível Rajoy, “registrador de propriedades” de profissão (algo peculiar à Espanha, um funcionário público formado em Direito que deve zelar pela legalidade e correção de documentos ligados à propriedade), um ex-solteirão empedernido nascido em Santiago de Compostela, na Galícia, que se casou somente aos 41 anos, com a economista Elvira Fernández Balboa, “Viri”, quando já era ministro do governo José Maria Aznar (1996-2000) e, já em idade de ser avô, tem como o mais velho dos dois filhos um garoto de 12 anos.

Mas está nesta palavra mágica, “previsível”, o grande trunfo do novo governante da 12ª maior economia do mundo: o líder do PP merece a firme confiança dos principais cabeças da União Europeia, em especial a chanceler alemã, Angela Merkel, do Banco Central Europeu e do FMI, a chamada troika que está dando as cartas para salvar o destino do euro, a moeda comum de 17 dos 27 países da UE. Confiam nele por sua anunciada e reiterada disposição de cumprir, custe o que custar, os compromissos assumidos pela Espanha para evitar a quebra. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

09/01/2012

às 19:45 \ Vasto Mundo

O fim das ações dos terroristas da ETA, a paz no País Basco e uma grande mentira

Terroristas mascarados do grupo separatista basco espanhol ETA

Terroristas mascarados do grupo separatista basco espanhol ETA: levantando os punhos em sinal de uma vitória que nunca houve

Publicado originalmente em 21 de outubro de 2011

Três figuras sinistras, cobertas de preto, com máscaras brancas e, por detrás, sobre um fundo azul, seu símbolo – sinal de morte, covardia e terrorismo na Espanha durante 43 anos.

Campeões de Audiência

Campeões de Audiência

O mascarado do meio leu um comunicado e, ao final, os três levantaram os punhos, em sinal de vitória.

Com essa encenação gravada em vídeo e transmitida na noite desta quinta, 20, os terroristas da organização separatista ETA – que significa, em idioma basco, Pátria Basca e Liberdade – declararam o “cessar definitivo” de sua “ação armada”.

O último foco dessa maldição de violência na Europa civilizada anunciava o que parece ser seu fim.

atentato terrorista ETA

29 de julho de 2009: um carro-bomba explode num edifício residencial da Guarda Civil em Burgos: 69 parentes de policiais feridos (Foto: Cesar Manso / AFP)

Um rastro de sangue e uma vitória da democracia

Os punhos levantados em sinal de vitória, como outros episódios da virada histórica nessa dolorosa questão centrada no País Basco — ou Euskadi, na língua basca –, que já dura meio século, eram uma pantomima: não há vitória alguma da ETA, que deixou um pavoroso rastro de violência, sangue e crime desde sua primeira ação em 1968, resumido em 829 pessoas assassinadas, mais de 2 mil feridos, 46 sequestros — alguns que duraram anos –e nada menos que 41.650 pessoas ameaçadas de morte elas mesmas ou membros de suas famílias.

A ETA foi derrotada no plano policial, no plano judiciário, no plano político e no plano social, repudiada pela esmagadora maioria da sociedade basca.

Vitória houve, sim, da democracia e das leis – e nisso concordam todas as principais forças políticas do país.

Adolfo Suárez (1976-1981), da extinta e centrista União do Centro Democrático, Leopoldo Calvo-Sotelo (1981-1982), da mesma UCD, Felipe González (1982-1996), socialista, e seu feroz adversário e acérrimo crítico José María Aznar (1996-2004), do Partido Popular, de centro-direita

Zapatero compartiu o triunfo do Estado democrático com seus antecessores desde o fim da ditadura: Adolfo Suárez (1976-1981), da extinta e centrista União do Centro Democrático, o falecido Leopoldo Calvo-Sotelo (1981-1982), da mesma UCD, Felipe González (1982-1996), socialista, e seu feroz adversário e acérrimo crítico José María Aznar (1996-2004), do Partido Popular, de centro-direita

O primeiro-ministro socialista José Luís Rodríguez Zapatero, em final de mandato e que não se candidatará às eleições do próximo dia 20, num gesto de cavalheirismo e grande significado, compartiu o “triunfo do Estado de Direito” com os seus quatro antecessores desde o fim da ditadura franquista na Espanha.

Independentemente de partidos, e sempre com o apoio da respectiva oposição nos chamados “pactos de Estado”, todos eles se empenharam em enfrentar e derrotar o terrorismo, tendo firme cooperação do Ministério Público e de magistrados independentes e corajosos: Adolfo Suárez (1976-1981), da extinta e centrista União do Centro Democrático, o falecido Leopoldo Calvo-Sotelo (1981-1982), da mesma UCD, Felipe González (1982-1996), do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), e José María Aznar (1996-2004), feroz adversário e acérrimo crítico de Zapatero, do Partido Popular (PP), de centro-direita.

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Rodríguez Zapatero: fracasso na economia, sucesso na luta contra o terrorismo

O ministro que morava no Ministério e asfixiou a ETA

A Zapatero, que sai do poder com o rabo entre as pernas, esmagado pela crise econômica, pelas altas taxas de desemprego, pelo insucesso das medidas que tomou para enfrentar o tsunami e a impopularidade, cabe, porém, um papel que ele próprio deixou de exaltar: nenhum governo anterior teve tanto êxito no combate à ETA quanto o seu (2004-2011).

Sim, Zapatero quebrou a cara ao promover negociações diretas com o bando terrorista, que em dezembro de 2006 rompeu a trégua que havia prometido com um brutal atentado a bomba contra um terminal no Aeroporto de Barajas, em Madri, deixando o governo com a cara no chão.

Mas seu ex-ministro do Interior e depois vice-primeiro-ministro, e agora candidato à sucessão, Alfredo Pérez Rubalcaba, foi progressivamente asfixiando a ETA, sempre com o auxílio da polícia autônoma, vejam só, do próprio País Basco, a eficiente e bem equipada Ertzaintza — cujos agentes em geral atuam mascarados, para não terem as fisionomias fixadas pelos terroristas.

Agentes mascarados da "Ertzaintza", a polícia basca: importante no combate aos terroristas da ETA (Foto: Ertzaintza)

Durante seus cinco anos à frente do Ministério do Interior, Rubalcaba – político experiente e matreiro, e um incansável chefe dos órgãos policiais e de informação que, por razões de segurança, passou a morar com a família na própria sede do Ministério, em Madri – logrou êxitos espetaculares: cerca de 800 etarras, ou militantes da ação armada, foram encarcerados, e quatro chefes supremos da organização terrorista sucessivamente localizados e presos. Nunca, em período algum de governos democráticos na Espanha, iniciados em 1976, ocorrera algo parecido.

A preciosa ajuda de Sarkozy

Como a ETA abriga delírios independentistas para o que chama de “Euskal Herría”, um mítico País Basco que inclui um pedaço da Gasconha francesa, e mantinham núcleos em diferentes pontos da França, Zapatero e Rubalcaba passaram a contar com a preciosa ajuda e a mão duríssima do presidente francês Nicolas Sarkozy desde sua posse, em 2007. A cooperação existiu em governos anteriores, mas Sarkozy — que prometeu ajudar a “erradicar” a ETA — a elevou a um nível de prioridade.

A polícia francesa anti-terrorismo em ação: colaboração decisiva com a Espanha no esmagamento da ETA

As autoridades francesas, com um rigor até então inédito, procederam ao monitoramento dos movimentos dos bandidos em seu território, prenderam dezenas de terroristas, deportando-os para a Espanha, capturaram um ou outro de nacionalidade francesa, descobriram depósitos de explosivos e munições, obrigando a ETA a tentar, sem êxito, estabelecer pontos de apoio em Portugal e até na Inglaterra, igualmente desmantelados. Zapatero declarou que a Espanha contraiu com a França “uma eterna dívida de gratidão”.

Matando, ameaçando e extorquindo em nome da independência

Chamei os etarras de “bandidos”, e usei a palavra certa: nunca houve um “conflito armado” no País Basco, como a ETA e seus simpatizantes gostam de afirmar. Nunca houve nada nem de longe semelhante a uma rebelião de uma parte da população, que se levantou contra o Estado espanhol ou o próprio governo local basco. A ETA, embora, sim, sempre haja tido simpatizantes, viu-se inúmeras vezes alvo de repúdio popular, em manifestações com centenas de milhares de pessoas.

O que havia (e ainda há), isto sim, é uma organização criminosa que, em nome da independência basca, em plena Espanha democrática, matava inocentes – em atentados a bomba ou, seletivamente, à traição, com tiros na nuca –, cujos integrantes invariavelmente se rendiam, sem resistir, quando apanhados pela polícia, inteiramente esquecidos da valentia que proclamavam quando no anonimato, extorquiam sob ameaça de morte empresários com o chamado “imposto revolucionário” e criaram um clima de terror, de medo e, portanto, de falta de liberdade que tornou a região uma exceção não apenas no país como um todo, mas também no seio da Europa.

Do outro lado, postava-se – como continua fazendo – um Estado de Direito que combateu os criminosos usando a lei, submetendo-os a julgamentos públicos em tribunais, dando-lhes pleno direito de defesa, e, por meio de sentenças de magistrados e tribunais corajosos ante a constante ameaça de morte, colocando-os na cadeia, em regime carcerário duro, como cabe a a bandidos cruéis e impenitentes.

Restou “meia centena de pistoleiros”

Seris risível, se não fosse trágico, que os três palhaços mascarados tenham levantado o punho em sinal de vitória, quando os órgãos de segurança da Espanha e da França calculam que haja em atividade, atualmente, “meia centena de pistoleiros”, todos eles escondidos em pontos remotos do território francês.

De todo modo, a vida das pessoas no País Basco vem melhorando. Há dois anos a ETA não assassina mais ninguém. Também encerrou a extorsão dos empresários, bem como a violência de rua, com quebra-quebras, depredações, incêndios e conflitos com a polícia — a chamada cale borroka –, que incentivava jovens simpatizantes a promover.

Desde 2009 não mais governa o Partido Nacionalista Basco (PNV, pelas iniciais em espanhol), que, com coligações, mandou em Euskadi por 30 anos e, embora conservador de forma geral, sempre agiu com extrema ambiguidade em relação à questão da independência do território e fechou os olhos para todo tipo de absurdos pró-ETA, sem contar os que ele próprio praticava — como o de jamais haver hasteado a bandeira da Espanha na residência oficial do chefe do governo local, o lehendakari.

O atual governo, liderado pelo lehendakari socialista Patxi López, tem o apoio do arquirrival PP, que lhe conferiu maioria no Parlamento basco e alijou os nacionalistas. López vem lentamente desmanchando o que chama de “anormalidades” na região, a começar por uma desvalorização, no serviço público e nas escolas, do idioma espanhol numa população em que apenas 34% dominam o euskera, a dificílima língua basca.

Agora, abre-se um período de incertezas.

Ainda falta muito para a paz efetiva

Ainda falta um longo caminho para a paz efetiva em Euskadi. Ainda levará tempo para que muitas centenas de pessoas na região — políticos, intelectuais, jornalistas, sindicalistas — possam viver sem escolta armada permanente, paga pelo governo, por terem sido ameaçados de morte. Alguns vivem assim há dez, quinze, vinte anos.

A ETA anunciou o fim de suas ações armadas, mas não atendeu a outras exigências do Estado espanhol, de grande parte da opinião pública, das associações de vítimas do terror e de todos os partidos democráticos, como: 1) dissolver-se, e não apenas parar de praticar crimes; 2) entregar seu arsenal; 3) pedir perdão às vítimas – inteiramente deixadas de lado na declaração lida pelos encapuzados.

Apesar do reconhecimento generalizado dos partidos políticos e da mídia espanhola (e de outros países europeus) de que se tratou de uma vitória do Estado de Direito, a rendição – sem que se tenha usado essa palavra – da ETA está sendo faturada e será mais ainda, nas eleições, por uma recém-fundada coligação política, Amaiur.

A "conferência de paz" em San Sebastián: no pódio, o ex-primeiro-ministro da Irlanda Berti Ahern; à direita, Kofi Anan; à esquerda, a ex-primeira-ministra da Dinamarca Gro Brundtland e o ex-dirigente político do IRA na Irlanda do Norte, Gerry Adams

Essa aliança congrega dois pequenos partidos independentistas, um partido independentista recente que teve boa votação nas eleições regionais de março, Bildu, e mais o que se chama no País Basco de esquerda abertzale (palavra que significa “lutador” em basco), formada por independentistas que já simpatizaram ou mesmo militaram na organização criminosa mas, de uns tempos para cá, passaram a defender uma “solução política para o conflito basco”, a condenar, genericamente “toda forma de violência” — uma maneira implícita de reclamar da ação legítima das autoridades, a quem acusam de tortura e outros crimes — e resolveram agir dentro do sistema. Sem, porém, em nenhum momento condenarem diretamente a ETA. Muitos dos abertzales estão no Bildu.

O ponto máximo a que chegaram os abertzales foi a declaração do dirigente Arnaldo Otegi – atualmente na cadeia, e que já cumpriu anteriormente outras penas – segundo a qual a ETA “estorva” o processo de paz no País Basco.

Uma “conferência de paz” e uma grande mentira

Os dirigentes abertzales estiveram por trás da recente “conferência de paz” que reuniu ex-governantes, o ex-dirigente político do grupo terrorista irlandês IRA e o ex-secretário-geral da ONU Kofi Anan em San Sebastián, a segunda maior cidade do País Basco. Do encontro, o governo espanhol e o partido favorito às próximas eleições, o PP, prudentemente mantiveram-se à margem, por considerarem que o evento legitimava os criminosos da ETA e sua reivindicação de independência do País Basco fora do marco da Constituição espanhola (qualquer referendo como os que pleiteiam setores independentistas bascos teria que incluir todos os eleitores espanhóis, e não apenas os de Euskadi).

Não por coincidência, a ETA fez seu gesto em grande parte propagandístico três dias depois das propostas feitas pela conferência, todas elas em linha com o projeto do Bildu.

Esse partido independentista, então, cujos integrantes militaram no terror, ajudaram-no ou simpatizaram publicamente com ele, está aparecendo como a entidade que ajudou de forma decisiva a “finalmente trazer a paz a Euskadi”, o que é uma cínica e redondíssima mentira.

Mas as mentiras, como sabemos, funcionam muito bem em eleições, como essas eleições gerais na Espanha — e no País Basco — que ocorrerão dia 20.

29/07/2011

às 15:57 \ Política & Cia

Amigos, não estranhem: estou, sim, concordando com José Dirceu

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Lula quer Haddad candidato a prefeito de SP e boicota as prévias, que Dirceu defende

Amigos, não estranhem, mas, pela primeira vez desde que comecei este blog, a 13 de setembro do ano passado, vou concordar em alguma coisa com o ex-ministro José Dirceu.

Ele se posicionou publicamente contra a tentativa, dentro do PT, e tendo o próprio Lula à frente, de “melar” a realização de eleições primárias entre os filiados do PT para a escolha do candidato do partido à Prefeitura de São Paulo, no ano que vem.

Lula resolveu que o candidato deve ser o ministro da Educação, Fernando Haddad, e, embora tenha sido historicamente o principal inspirador de prévias no PT, quer ver materializada sua vontade.

Para Dirceu, a realização das prévias é um “direito estatutário” (ou seja, um direito dos filiados do PT previsto nos estatutos), que “independe das direções partidárias”.

“Primárias não podem ser impedidas”

Segundo texto que postou em seu blog, o ex-ministro, principal réu do processo do mensalão no Supremo Tribunal Federal, sustentou que “[as prévias] podem deixar de acontecer por acordo político, ou por desistência do concorrente, mas nunca podem ser impedidas”.

Gilberto-Carvalho

Gilberto Carvalho: "Prévias seriam um desastre"

Aparentemente ele reagia a declarações do secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, segundo o qual as prévias “seriam um desastre” e teriam provado, no passado, ser fator de divisão do partido e de fornecimento de “munição ao adversário”.

Não apostaria 1 centavo nas convicções democráticas de Dirceu, mas nesse caso ele está do lado certo.

O precedente sempre citado e temido pelos petistas são as eleições para o governo do Rio Grande do Sul em 2002: o então governador Olívio Dutra pretendia tentar a reeleição, mas foi derrotado nas prévias pelo prefeito de Porto Alegre (e hoje governador), Tarso Genro. O prefeito deixou o mandato pela metade para disputar o Palácio Piratini, perdeu para Germano Rigotto (PMDB) e tanto ele como Dutra acabaram ficando sem mandato.

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Com prévias: Olívio Dutra e Tarso Genro ficaram sem mandato.

Muitos analistas consideram que o PT gaúcho na verdade acabou perdendo, porque Olívio fez um governo sectário, não construiu alianças e cometeu erros graves, sobretudo na área de segurança pública.

Dizer que disputa enfraquece é uma lenda

De todo modo, a lenda segundo a qual disputa interna enfraquece partidos que se pretendem democráticos não encontra abrigo em países com legendas fortes e tradicionais – ocorre justamente o contrário. No presente ou no passado, para onde quer que se olhe, verifica-se que a disputa, em vez de tornar anêmicos os partidos, os revigora.

Na França, François Mitterrand venceu seguidas vezes Michel Rocard nas disputas internas do Partido Socialista – e Rocard acabou sendo um fiel primeiro-ministro do presidente Mitterrand. Felipe González lutou com habilidade, mas sem tréguas, contra a velha guarda do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) até consolidar-se em seu comando – e foi precisamente a dura batalha interna que fortaleceu o PSOE, deixando-o pronto a enfrentar, em 1976, os desafios da democratização da Espanha, até chegar em 1982, numa avalanche de votos, ao poder, e nele permanecer por 14 anos e três vitórias eleitorais consecutivas.

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Mitterrand e Thatcher: disputa interna só os fortaleceu

No Reino Unido, Margareth Thatcher só chegou à liderança do Partido Conservador no final dos anos 70 passando de trator por cima de seu principal rival, sir William Whitelaw. Ato contínuo, os tories apearam os trabalhistas do poder, venceram três eleições gerais, colocaram o Reino Unido de cabeça para baixo com o “capitalismo popular” de Thatcher e Whitelaw tornou-se um eficiente e leal colaborador da líder que o derrotara.

No Brasil, a norma é o conchavo

Foi e é assim também na Alemanha, na Itália, na Holanda, na Austrália, no Canadá… Nos Estados Unidos, então, nem se fale: os candidatos a todos os postos saem de eleições primárias, e inimaginável é não haver disputa interna. Vejam o que ocorreu no Partido Democrata na última eleição presidencial, em 2008: Hillary Clinton se bateu ferozmente com Barack Obama – escolhido Obama, apoiou-o, fez campanha e se tornou sua secretária de Estado.

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Obama e Hillary Clinton: no final das primárias, unidos

No Brasil, a velha norma é os partidos buscarem um suposto “consenso” em torno de um único candidato, cujo resultado só faz perpetuar o conchavo, mantém no leme sempre os mesmos chefes e sufoca os embates democráticos. Os partidos fazem o diabo para livrar-se de consultas amplas a seus filiados – prorrogam mandatos da direção partidária, diminuem o número de delegados com poder de decisão etc. Predomina o autocrático “dedaço”: quem manda aponta (com o dedo) quem vai concorrer.

Num PT desfigurado pelos anos do lulalato, é até normal que Lula aplique um “dedaço” para emplacar Fernando Haddad. Paradoxalmente, o estalinista de carteirinha José Dirceu quer prévias.

Dirceu está certo, e Lula está errado.

25/05/2011

às 15:02 \ Vasto Mundo

Espanha: veja os números da derrota socialista que deve levar o país para a direita

Amigos, postei vários textos sobre as eleições municipais e regionais do domingo passado, 22, na Espanha – que praticamente varreram do mapa o Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE) e indicam que, nas eleições gerais do ano que vem, também o país engrossará o grupo de grandes nações europeias governadas por conservadores, como a Alemanha, França, a Grã-Bretanha e a Itália.

Mas ainda não dispunha dos dados que foi possível compulsar agora, com todos os resultados divulgados sobre os mais de 8.100 municípios. O que ocorreu na Espanha foi a maior derrota do mais que centenário partido, fundado em 1879, desde que, em 1976, saiu da clandestinidade em que atuava durante a ditadura do general Francisco Franco (1939-1975), com a morte do ditador.

Massacre impiedoso

Foi um massacre impiedoso, uma derrota terrível do partido do primeiro-ministro José Luís Rodríguez Zapatero para o arquirrival conservador Partido Popular (PP) e seu líder, Mariano Rajoy, que Zapatero derrotara duas vezes em eleições gerais — em 2004 e 2008.

Vejamos:

* Diferença de votos: o PSOE esperava perder por meio milhão de votos, num eleitorado de perto de 35 milhões – mas a diferença em favor dos arquirrivais conservadores do Partido Popular (PP) chegou a 2,2 milhões.

* Domínio territorial: o PSOE só conseguiu vencer em 2 das 13 comunidades autônomas (espécie de Estados, como no Brasil, mas com muito mais poderes e mais independência em relação ao poder central) da Espanha, das 17 existentes – Aragón e Extremadura, e ainda assim não obteve maioria absoluta e precisará de alianças para governar. Pior: das demais 11, o PP venceu em 9. Em 4 delas houve eleições no ano passado, e o PSOE governa duas — a Andaluzia e, no País Basco, em inédita aliança com os inimigos do PP para barrar os independentistas bascos.

O PP ainda venceu nas duas cidades autônomas que, herança colonial, a Espanha tem plantadas na costa de Marrocos: Ceuta e Melilla.

* Capitais de província: das 50 capitais provinciais que se espalham pelas comunidades autônomas, o PSOE só alcançou a vitória em 4, contra nada menos que 43 do PP.

* As maiores cidades: as 4 maiores cidades espanholas, entre as quais apenas Sevilha – antigo bastião socialista – estava em mãos do PSOE, agora são governadas por conservadores: pelo PP, que já estava no poder, Madri e Valência e, agora, Sevilha (terra natal do maior líder histórico do PSOE vivo, Felipe González, que venceu 4 eleições consecutivas e governou por 14 anos a partir de 1982); e Barcelona, pelos nacionalistas de centro-direita Convergencia i Uniò.

* Cidades importantes: o PP venceu, em grande número de casos desalojando o PSEO, em uma fileira de cidades que, por seu peso demográfico, econômico, histórico, cultural ou simbólico são extremamente importantes, e de que boa parte dos leitores já ouviu falar ou mesmo conhece.

Vejam só: além das já citadas, e sem preocupação de colocar em alguma ordem: Zaragoza, Toledo, La Coruña, Málaga, Múrcia, Palma de Mallorca, Alicante, Valladolid, Vigo, Cartagena, Castellón, Burgos, Segóvia, Salamanca, León, Ávila, Cádiz, Grnada, Almería, Palma de Gran Canaria, Santander, Oviedo, Logroño, Cuenca, Ciudad Real e até Vitória, capital do País Basco – entre outras.

“Acabar com essa agonia”

Agora, com razão, os meios políticos perguntam como poderá Zapatero, diante do evidente repúdio nas urnas de seu partido não antecipar as eleições e permanecer governando, “para fazer as reformas necessárias”, como diz, até março do ano que vem.

Antes disso, porém, o partido precisa resolver quem será seu candidato para enfrentar Rajoy, e discute abaixo

13/05/2011

às 15:30 \ Política & Cia

A Europa privatiza para sair da crise. No Brasil, estamos voltando ao tempo das cavernas

Amigos, em nenhum outro lugar do planeta, tomado em conjunto, o padrão de vida e de seu desfrute se equipara ao que vivem, desde que os respectivos países se reergueram dos escombros da II Guerra Mundial, os cidadãos dos países mais desenvolvidos da Europa Ocidental. Não se trata apenas de riqueza – ela é abundante, claro, nos Estados Unidos, na Austrália, no Canadá.

Falo de um conjunto de fatores históricos, culturais, sociais, artísticos, estéticos, de ritmo de vida e até gastronômicos que fazem da Europa Ocidental, como me disse certa vez o amigo Roberto Pompeu de Toledo, o melhor que o homem conseguiu fazer até hoje. Apesar da grave crise econômica atual, do questionamento do modelo de Estado de bem-estar social, do desemprego que atinge cifras assustadoras, da imigração que é uma solução mas também um problema.

Mesmo assim, a velha e boa Europa não vai deixar de ser a velha e boa Europa. E estou entre os que acreditam que o Estado de bem-estar social, reformulado, continuará a servir aos europeus.

Um anátema do lulo-petismo

Tudo isso para dizer falar de um assunto que é anátema no Brasil do lulo-petismo: a privatização. No Brasil retornamos paulatinamente ao tempo das cavernas dos anos 40, 50 e 60, com governo, sindicatos (especialmente de funcionários), políticos e lobbies diversos empurrando cada vez mais o Estado para incomodar a vida dos cidadãos e das empresas. Estão aí a utilização política da Petrobras, que atrapalha enormemente sua governança corporativa, a intervenção branca do governo Dilma na Vale, empresa privada, via fundos de pensão de funcionários de estatais, grandes acionistas da empresa, a criação de mais uma estatal para o petróleo do pré-sal — e por aí vai.

Enquanto isso, a Europa, uma vez mais, se volta para esse fantástico instrumento de progresso e geração de riqueza como uma das soluções para os danos causados pela crise de 2008 – e não apenas por ela.

Para continuar sendo membros da União Europeia, que os fez avançar um século em progresso e bem-estar em poucos anos depois que aderiram ao bloco, a Grécia e Portugal estão sendo socorridos pela própria UE e pelo Banco Central Europeu. A Grécia já começou a receber o empréstimo de 110 bilhões de euros para sair do buraco em que a crise de 2008 e maracutaias de seu governo a lançaram, Portugal vai ser destinatário de 78 bilhões para não quebrar por insistir em manter um Estado gordo, caro e ineficiente.

Nos dois casos, condição sine qua non para que o dinheiro flua é privatizar.

Portugal tem 600 órgãos públicos que poderiam sumir

A Grécia se comprometeu com a União Europeia a gerar 50 bilhões de euros (115 bilhões de reais) com privatizações destinadas a diminuir sua dívida pública e equilibrar suas finanças. Não foi detalhado ainda o que, exatamente, será privatizado.

Em Portugal é diferente: não se fala num montante exato de cifras, mas já se sabe algo do que as privatizações vão atingir.

Para cumprir o pacote econômico que deverá ser assinado nos próximos dias entre a UE e o governo socialista português – com anuência da oposição conservadora, possível vencedora das eleições gerais do próximo 5 de junho –, Portugal deverá vender a maior parte ou toda sua participação de 100% na empresa aérea TAP, parte dos 25% que possui no gigante de energia EDP, que atua também em outros 4 países europeus, nos Estados Unidos e no Brasil e engloba dezenas de empresas, e se desfazer de uma série ainda não definida de negócios da estatal Caixa Geral de Depósitos, o maior grupo bancário e segurador do país.

Vejam a eficiência do Estado português administrando a TAP: mesmo tendo tido um crescimento de 6,2% no número de passageiros transportados entre janeiro e março, e também aumentado a taxa de ocupação de seus assentos de 69,1% para 71,2% no mesmo período, a empresa teve prejuízo de 70 milhões de euros (161 milhões de reais).

Em outro post, explicarei em detalhes o tamanho do buraco de Portugal, que tem mais de 600 órgãos públicos que, segundo estudos sérios, poderiam ser enxugados, reduzidos ou extintos..

A Grã-Bretanha se tornou forte e competitiva

A privatização que agora se pretende nos dois países em dificuldades foi poderoso instrumento de modernização da Grã-Bretanha, país caindo pelas tabelas, com tecnologia atrasada, parque industrial obsoleto e leis trabalhistas inviabilizadoras do progresso até a chegada ao poder da conservadora Margaret Thatcher, em 1979.

Em 11 anos de governo, Thatcher quebrou o poder férreo dos sindicatos, realizou uma “privatização selvagem” de empresas públicas e adotou uma vasta série de medidas que tornaram as empresas e a economia britânicas eficientes e competitivas. A mesma linha seguiu nos 7 anos seguintes seu sucessor, John Major, e os rumos da economia britânica não mudaram mesmo com a chegada ao poder do “Novo Trabalhismo” do primeiro-ministro Tony Blair (1997-2007) e de seu sucessor, Gordon Brown (2007 a maio deste ano, quando, em aliança com os liberais-democrata, os conservadores do primeiro-ministro David Cameron assumiram o poder).

A crise de 2008 afetou, sem dúvida, o Reino Unido, que também sofre de desemprego, fechamento de empresas e outros males. Mas Londres prossegue como fundamental praça financeira e empresas e bancos britânicos são suficientemente fortes para deterem parcela considerável da economia do país mais rico do mundo — os Estados Unidos.

Na Espanha, socialistas privatizaram

A modernização da Espanha sob o primeiro-ministro socialista Felipe González (1982-1996) lançou mão de grandes privatizações, inclusive da cambaleante, obsoleta e deficitária fábrica de automóveis Seat que hoje, parte do grupo Volkswagen, é sólida, competitiva, dá empregos e paga impostos. Para não falar da Alemanha, campeã da livre iniciativa, que privatizou mais de 2.000 empresas depois da incorporação da extinta Alemanha Oriental e ostenta competitividade para ter sido, até perder o posto para a China há algumas semanas, o maior país exportador do mundo.

No Brasil, porém, a mentalidade cavernícula que predomina impede até que se toque no assunto e sataniza quem ousa debatê-lo – tanto é que, em três campanhas presidenciais sucessivas, os candidatos tucanos esconderam do eleitorado o grande feito que foram as privatizações realizadas pelo governo FernandoHenrique Cardoso (1995-2003), a começar pela da telefonia, de êxito espetacular e inegável.

 

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