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Federal Reserve

22/09/2012

às 18:05 \ Vasto Mundo

Europa: vitória de “Frau” Merkel nos tribunais injeta novo ânimo no euro

PROST! -- Merkel saudou a vitória em que a corte alemã respaldou o fundo de resgate europeu: o começo do fim da crise? (Foto: Fabrízio Bensch / Reuters)

PROST! -- Merkel saudou a vitória em que a Corte Constitucional alemã respaldou o fundo de resgate europeu: o começo do fim da crise? (Foto: Fabrízio Bensch / Reuters)

Texto de Giuliano Guandalini, publicado na edição desta semana de VEJA

O EURO BRINDA FRAU MERKEL

A Alemanha se rende ao inevitável: como potência do continente, terá de liderar o resgate da moeda única e debelar a crise. Os mercados aplaudem

A Europa parece ter recuperado o bom-senso e a sobriedade. Nos últimos dias, uma série de decisões e iniciativas de seus líderes aplacou as ansiedades dos investidores (e de seus credores) internacionais, trazendo a esperança de que a crise de confiança sobre os países do euro tenha finalmente entrado no começo de seu fim.

Na semana passada, a Corte Constitucional alemã considerou legal o Mecanismo Europeu de Estabilidade, fundo de resgate para as economias em apuros na região. Uma petição, com 37 000 assinaturas, questionava a constitucionalidade do financiamento alemão desse fundo.

Mas os juizes deram um veredicto favorável. Novos aportes de recursos, no entanto, deverão ser avalizados pelo Parlamento. O mecanismo disporá de 700 bilhões de euros, dos quais 190 bilhões serão bancados pela Alemanha.

Sem a contribuição de seu maior patrocinador, o fundo não teria capital suficiente para aplacar a crise financeira. Por isso, tão logo a corte proferiu sua decisão, a chanceler Angela Merkel festejou: “Não saímos da crise, mas demos um grande passo. É um grande dia para a Alemanha e para a Europa. Demos um sinal veemente de nossa responsabilidade como a maior economia da Europa”".

O começo da futura integração bancária

Ainda na semana passada, a Comissão Europeia lançou as bases para unificar a supervisão do sistema financeiro, um primeiro passo rumo à integração bancária. Hoje, apesar de a moeda ser comum e de a autoridade monetária estar a cargo do Banco Central Europeu (BCE), boa parte da fiscalização e da regulamentação é feita localmente, em cada país, ocasionando assimetrias dentro do bloco.

Fundamental também para a recuperação da confiança no euro foi a determinação do BCE de comprar títulos públicos dos países que enfrentam dificuldades para se financiar com investidores privados. “Estamos preparados para fazer aquilo que for necessário para preservar o euro”, havia afirmado Mario Draghi, presidente do BCE, no fim de julho. “Acreditem em mim, será suficiente.”

A resolução do italiano, com o respaldo de Merkel, deu resultado: o euro recuperou valor e as bolsas subiram aos níveis mais altos em quatro anos.

Mais importante, diminuiu a percepção de risco em relação aos chamados países da periferia do euro. Até poucas semanas atrás, a taxa de juros cobrada pelos investidores para comprar títulos da Espanha e da Itália superava 8%, um índice considerado insustentável para as finanças desses países e bem acima da taxa cobrada da Alemanha (abaixo de 2%), embora os países compartilhem da mesma moeda.

Agora os juros dos títulos espanhóis e italianos, assim como os de Portugal e da Irlanda, estão em trajetória de queda. A taxa para a Itália caiu para menos de 5%. A Espanha, que tinha dificuldade para vender seus títulos, poderá talvez seguir de pé com as próprias pernas e deverá escapar da necessidade de recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

Contribuiu para a melhora dos humores, também, a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de manter a sua taxa de juros próxima a zero até meados de 2015 e seguir aumentando a liquidez de dólares nos mercados mundiais.

A derrocada do euro teria efeitos inimaginávedis — prevaleceu o bom senso

É verdade que espanhóis e portugueses ainda sofrem com uma recessão profunda, para não falar da Grécia. Não há sinais de recuperação na atividade, e as taxas de desemprego seguem exasperadoras. Mas as especulações sobre o fim do euro cessaram. Os boatos e cenários catastrofistas vicejaram enquanto a Alemanha impunha barreiras ao socorro de seus parceiros no euro.

No fim, prevaleceu o pragmatismo — uma qualidade tão alemã quanto o puritanismo. A derrocada da moeda única teria efeitos inimagináveis sobre o sistema financeiro e os mercados. A Alemanha, como credora desses países, sofreria perdas consideráveis. Além disso, praticamente metade das exportações alemãs tem a Europa como destino. A saída foi ceder e agir para evitar um prolongamento da crise, ainda que exigindo, como garantia, um duro plano de ajuste financeiro na periferia do euro.

Muitos economistas seguem questionando a viabilidade do euro. Mas a criação da moeda única, para além de questões econômicas, foi motivada por razões políticas. Seu futuro, portanto, dependerá da determinação política de seus líderes de superar as barreiras atuais e as que surgirão à frente.

07/08/2012

às 17:05 \ Política & Cia

FHC sobre o mensalão: “Calo sobre quem deva ser punido e em que grau, mas não se deve obscurecer o essencial: houve crime”

Fernando Henrique Cardoso (Foto: André Porto / Bravo!)

FHC: "Ao voltar de férias, percorri os jornais: só dá mensalão e Olimpíada" (Foto: André Porto / Bravo!)

 

Artigo publicado em O Estado de S.Paulo em 5 de agosto de 2012

O INESCAPÁVEL

Ao voltar de férias, percorri os jornais: só dá mensalão e Olimpíada. Não é para menos, mas é pouco. Consolou-me haver lido uma matéria de David Brooks sobre a campanha eleitoral em seu país. Basta ler o título, A campanha mais tediosa, para que o leitor se dê conta do baixo-astral que envolveu o comentarista ao seguir os embates entre Barack Obama e Mitt Romney.

Isso a despeito de os americanos ainda estarem sufocados pela crise e de haver muito que debater sobre como sair dela e sobre o papel dos Estados Unidos num mundo cheio de incertezas. Mas o cotidiano não se alimenta de decisões históricas…

Como seria bom se pudéssemos apenas nos deliciar com a sensibilidade e a inteligência da crônica de Roberto DaMatta sobre os elos humanos que aparecem na novela Avenida Brasil, não tão diferentes dos que relacionam o antropólogo com seus objetos de estudo. Ela nos dá um banho de vida.

Infelizmente, nesta semana não dá para falar apenas das estrelas. A dura realidade é que começou na quinta-feira um julgamento histórico sobre o qual não faltaram palavras sensatas. Uns, como José Nêumanne, mostraram as falácias e enganos acerca do mensalão de maneira crua e direta.

Outros, como Dora Kramer, desvendaram a falsa dicotomia entre julgamento técnico e julgamento político. Outros ainda, como Elio Gaspari, sem negar que torcer faz parte da alma humana, insistem em que o importante é que os magistrados julguem de maneira compreensível para o povo.

O julgamento do século (Foto: Fernando Bezerra Jr. / EFE)

O julgamento do século: "é inegável a sensação de que talvez estejamos no começo de uma nova fase de consolidação das instituições democráticas. Existe também o temor de que ela se perca" (Foto: Fernando Bezerra Jr. / EFE)

Que não nos confundam com o jargão da toga. E há os que abrem o jogo, mostram suas apostas, como o Zuenir Ventura, para logo dizer que tudo é mero palpite, pois não se pode saber o que passa na cabeça dos julgadores.

Por mais que se deseje ser objetivo, tenho tentado, e por mais prudente que se deva ser na antevéspera do julgamento (no momento em que escrevo este artigo), é inegável a sensação de que talvez estejamos no começo de uma nova fase de consolidação das instituições democráticas. Existe também o temor de que ela se perca.

É isso que produz ansiedade e faz com que os comentaristas mais perspicazes – incluo neles Merval Pereira -, ao falarem sobre o tema, acabem por deixar transparecer o que gostariam que acontecesse. De minha parte, torço para que não haja impunidade. Calo sobre quem deva ser punido e em que grau, mas não se deve obscurecer o essencial: houve crime.

Embora, portanto, esteja engrossando o número dos obcecados com o mensalão, não posso esconder certa perplexidade diante da despreocupação com que recebemos as notícias sobre a crise internacional, como se, de fato, a teoria da marolinha tivesse substituído o bom senso na economia. Não dá para ignorar que com toda a inundação de dólares a baixo custo feita pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano), a economia do país não reage.

Na Europa, por mais que seu Banco Central se diga disposto a cobrir qualquer parada dos especuladores, os mecanismos para tornar efetiva a gabolice estão longe da vista. Resultado: mal-estar social e desemprego crescente.

A própria China, bastião da grandeza capitalista mundial, parece mergulhar em taxas decrescentes de crescimento, as quais, se bem que nos deem água na boca (entre 6% e 7%), são insuficientes para atender aos reclamos dos chineses e, mais ainda, para sustentar a maré dos preços elevados das matérias-primas, principalmente minerais.

Tudo indica, portanto, que os efeitos da crise mundial, somados à inércia nas transformações de fundo da economia que marcou o governo Lula, acabaram por levar nossa economia, se não às cordas, ao canto do ringue. O governo atual, não querendo beijar a cruz, embora já ajoelhado diante da realidade, despejou uma série de paliativos de todos conhecida: redução setorial de impostos, créditos de mão beijada para alguns setores beneficiados, expansão dos gastos públicos correntes e, até, desvalorizações da moeda e redução das taxas de juros.

Em situações “normais” de crise, o receituário funcionaria. Um pouco de sustentação da demanda, jogando-se nos ombros de Keynes a responsabilidade pela ligeireza de certas medidas, animaria o consumo e daria aos empresários o apetite para investir.

Diante, entretanto, da duração e da profundidade da crise atual, é pouco. Serão necessárias medidas verdadeiramente keynesianas que dizem respeito à sustentabilidade dos investimentos, públicos e privados, e ao incremento da produtividade. Desafio duro de roer e que não se pode levar adiante somente com os recursos públicos nas mãos de uma burocracia politizada.

É esse o desafio que o governo Dilma Rousseff tem pela frente. Quem sabe, premido pelas circunstâncias, ele finalmente reconheça, na prática, o que o lulopetismo sempre negou: que as reformas que meu governo iniciou precisam ser apoiadas e retomadas com maior vigor.

PAC da Privatização, com que nome virá?

Para o ex-presidente, privatizações ou concessões "terão de vir se quisermos de fato crescer mais aceleradamente"

Nem as estradas, nem os aeroportos e muito menos as fontes de energia darão o salto necessário sem alguma forma de privatização ou de concessão. Elas terão de vir se quisermos de fato crescer mais aceleradamente.

Só com estabilidade jurídica, aceleração dos investimentos em infraestrutura e educação, melhor balanceamento energético será possível despertar não apenas, como está na moda dizer-se, o “espírito animal” dos empresários, mas a crença de todos nós no futuro do Brasil.

Ao contribuir para a consolidação da Justiça como um valor, parte essencial da modernização do nosso país, o julgamento do mensalão poderá ser um marco histórico. Basta que seja sereno e justo para injetar mais ânimo em nossa política e para que esta volte a olhar o Brasil com a clareza de que somos um país capaz de andar com as próprias pernas graças à nossa seriedade e aos conhecimentos que desenvolvemos. Só assim deixaremos de flutuar ao sabor das ondas favoráveis às economias primário-exportadoras para podermos dar rumo próprio ao nosso futuro.

17/06/2012

às 17:08 \ Vasto Mundo

Boa leitura para domingo: o economista que previu o estouro da bolha financeira fala sobre as raízes profundas da crise

Raghuran Rajan: "Os políticos trabalham de olhos nas eleições. Pouco fazem para consertar as deficiências estruturais da economia" (Foto: Roberto Setton)

Raghuran Rajan, professor da Universidade de Chicago e ex-economista-chefe do FMI: "Os políticos trabalham de olhos nas eleições. Pouco fazem para consertar as deficiências estruturais da economia" (Foto: Roberto Setton)

(Entrevista a Marcelo Sakate, publicada na edição impressa de VEJA)

 

Raghuram Rajan

AS RAÍZES PROFUNDAS DA CRISE

Para o professor da Universidade de Chicago, que anteviu o estouro da bolha, os estímulos de curto prazo são insuficientes para eliminar as fragilidades na economia mundial

O indiano Raghuram Rajan, 49 anos, é um dos economistas mais respeitados de sua geração, pelos seus diagnósticos precisos sobre o sistema financeiro e a economia global.

Um exemplo: em agosto de 2005, numa conferência para debater o legado de Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve, o banco central americano, Rajan fez um discurso destoante dos elogios consensuais. Advertiu que a criação de aplicações financeiras complexas havia sido acompanhada de um aumento excessivo da exposição dos bancos a operações de risco, pondo em perigo o sistema financeiro global.

Na ocasião, ele era o economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, cargo que ocupou por três anos.

Há dois anos, Rajan lançou o livro Fault Lines, uma referência às “falhas geológicas” que, em sua opinião, representam as causas profundas da crise financeira. A obra, escolhida como a melhor de economia de 2010 pelo jornal Financial Times, foi lançada em maio no Brasil pela Editora BEI, sob o título Linhas de Falha – Como Rachaduras Ocultas Ainda Ameaçam a Economia Mundial.

 

Que “falhas geológicas”, como o senhor define, ameaçam a economia mundial?

Existem falhas profundas que são responsáveis pela crise nos últimos anos.

Nos Estados Unidos e na Europa há uma combinação de baixo crescimento com distribuição desigual de renda. As políticas usadas para restabelecer o crescimento se mostraram insuficientes e, em alguns casos, criaram mais problemas.

Nos Estados Unidos, os incentivos para a ampliação do endividamento das pessoas, especialmente utilizando a casa como garantia, foram uma das causas da crise imobiliária. Da mesma forma, na Europa, a disposição de governos para tomar dinheiro emprestado e gastar sem limite é em parte responsável pelas dificuldades da Grécia, apenas para dar o exemplo mais extremo.

Outra falha advém do fato de muitos países possuírem políticas orientadas para o aumento do consumo, como é o caso dos Estados Unidos, enquanto outros estão voltados para produzir mais e poupar mais, como a Alemanha e a China.

Essas divergências resultaram num desequilíbrio global, no qual alguns países bancam o excesso de gastos de economias ricas. É um movimento insustentável. A retração nas economias mais desenvolvidas resulta desse endividamento excessivo, tanto das famílias como do governo.

 

As autoridades mundiais estão combatendo essas falhas?

Os políticos, em geral, olham apenas o curto prazo.

Eles costumam trabalhar preocupados com as próximas eleições. Pouco agem no sentido de consertar os fundamentos vitais para o longo prazo, como o aprimoramento da educação, o treinamento dos trabalhadores e o aumento da produtividade.

A tendência é escolherem a solução mais fácil, gastando um pouco mais e deixando o tempo sanar os desequilíbrios.

Nem sempre essa estratégia funciona. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

 

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