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exílio

05/01/2013

às 14:00 \ Tema Livre

Um seio nu, num vídeo, uma foto discreta — e a atriz iraniana é banida de seu país pelos aiatolás. Confira o absurdo

A atriz iraniana Golshifteh Farahani: primeiro, proibida de deixar o país -- depois, de voltar a ele. Esta foto em sua página do Facebook pareceu aos olhos dos aiatolás um crime hediondo (Foto: Figaro Madame)

Publicado originalmente em 27 de abril de 2012.

Durou menos de um segundo, e mal aparece seu seio direito no vídeo, feito pela revista Figaro Madame para anunciar os candidatos a melhores promessas masculina e feminina do cinema francês de 2012 , no âmbito do César, o Oscar da França, entregue há menos de dois meses.

Pronto. Foi o bastante para a atriz iraniana radicada em Paris Golshifteh Farahani, 29 anos, ser proibida de voltar a seu país.

Provavelmente por essa razão absurda do governo dos aiatolás fanáticos foi que ela acabou decidindo, posteriormente, participar do vídeo em que várias mulheres iranianas no exílio se desnudam, em alguns casos de maneira quase casta, para protestar contra a discriminação e os maus tratos que sofrem suas compatriotas no Irã – e de que já tratamos em post anterior.

Mas Golshifteh está calejada em matéria de repressão em seu país natal.

Vejam vocês a ironia: pelo simples fato de ter participado de um filme americano de espionagem – Rede de Mentiras (Body of Lies), de 2008, dirigido pelo consagrado Ridley Scott, em que faz o papel de uma enfermeira e contracena com Leonardo DiCaprio e em que atua ainda Russel Crowe –, rodado na Jordânia, ela recebera punição inversa. Voltando a seu país depois das filmagens, poibiram-na de sair do Irã. Com o tempo, a arbitrariedade deixou de valer e ela decidiu morar em Paris.

A atriz com Leonadro DiCaprio em "Rede de Mentiras" (2008): por ter atuado no filme, ela já fora proibida de deixar o país (Foto: reprodução)

O vídeo que causou horror ao regime dos turbantes, intitulado Corps et âmes (Corpos e Almas) não tem absolutamente nada demais.

Em preto e branco, com fundo musical, aparecem vários jovens atores, homens e mulheres, num rápido gesto de começar a tirar a roupa – criando imagens para um texto poético que serve de narrativa, e que fala em “veja-me / neste instante / nu(a) / livre de corpo e de espírito / (…) / eu entro na dança / esquecido de mim mesmo / minha arte será a de brincar” (“jouer”, em francês, tem o sentido tanto de brincar como de representar).

Confira o vídeo:

Mais horrorizados ainda ficaram os clérigos hipócritas iranianos – vários deles riquíssimos à custa do dinheiro público – com o fato de a atriz ter postado em sua página no Facebook a foto de abertura deste post, foto feita na mesma ocasião do vídeo, em que aparece cobrindo os seios com as mãos. Uma foto que, em qualquer país civilizado, poderia estar até em outdoors gigantes.

Como você viu o vídeo, pode estar curioso em saber quem, afinal, dos atores que ali aparecem venceu o César de “melhor esperança” do cinema francês em 2012. Pois foram Clotilde Hesme e Pierre Niney, que estão nas fotos abaixo.

Pierre Niney e Clotilde Hesme

Clotilde Hesme e Pierre Niney (Fotos: elle.fr / AFP)

 

22/12/2012

às 17:00 \ Política & Cia

Ferreira Gullar, grande poeta e crítico, ex-militante do Partido Comunista: “Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário”

Ferreira Gullar: "O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas" (Foto: Ernani D'Almeida)

Ferreira Gullar: "O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas" (Foto: Ernani D'Almeida)

Publicado originalmente em 27 de setembro de 2012

Entrevista a Pedro Dias Leite, publicado em edição impressa de VEJA que está nas bancas

UMA VISÃO CRÍTICA DAS COISAS

 

O poeta diz que o socialismo não faz mais sentido, recusa o rótulo de direitista e ataca: “Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é”

Um dos maiores poetas brasileiros de todos os tempos, Ferreira Gullar, 82 anos, foi militante do Partido Comunista Brasileiro e, exilado pela ditadura militar, viveu na União Soviética, no Chile e na Argentina.

Desiludiu-se do socialismo em todas as suas formas e hoje acha o capitalismo “invencível”.

É autor de versos clássicos — “À vida falta uma parte / — seria o lado de fora — / para que se visse passar / ao mesmo tempo que passa / e no final fosse apenas / um tempo de que se acorda / não um sono sem resposta. / À vida falta uma porta”.

Gullar teve dois filhos afligidos pela esquizofrenia. Um deles morreu. O poeta narra o drama familiar e faz a defesa da internação em hospitais psiquiátricos dos doentes em fase aguda. Sobre seu ofício, diz: “Tem de haver espanto, não se faz poesia a frio”.

 

O senhor já disse que “se bacharelou em subversão” em Moscou e escreveu um poema em que a moça era “quase tão bonita quanto a revolução cubana”. Como se deu sua desilusão com a utopia comunista?

Não houve nenhum fato determinado. Nenhuma decepção específica. Foi uma questão de reflexão, de experiência de vida, de as coisas irem acontecendo, não só comigo, mas no contexto internacional. É fato que as coisas mudaram. O socialismo fracassou. Quando o Muro de Berlim caiu, minha visão já era bastante crítica.

A derrocada do socialismo não se deu ao cabo de alguma grande guerra. O fracasso do sistema foi interno. Voltei a Moscou há alguns anos. O túmulo do Lenin está ali na Praça Vermelha, mas pelo resto da cidade só se veem anúncios da Coca-Cola. Não tenho dúvida nenhuma de que o socialismo acabou, só alguns malucos insistem no contrário. Se o socialismo entrou em colapso quando ainda tinha a União Soviética como segunda força econômica e militar do mundo, não vai ser agora que esse sistema vai vencer.

 

Por que o capitalismo venceu?

O capitalismo do século XIX era realmente uma coisa abominável, com um nível de exploração inaceitável. As pessoas com espírito de solidariedade e com sentimento de justiça se revoltaram contra aquilo. O Manifesto Comunista, de Marx, em 1848, e o movimento que se seguiu tiveram um papel importante para mudar a sociedade.

A luta dos trabalhadores, o movimento sindical, a tomada de consciência dos direitos, tudo isso fez melhorar a relação capital-trabalho. O que está errado é achar, como Marx diz, que quem produza riqueza é o trabalhador e o capitalista só o explora. É bobagem. Sem a empresa, não existe riqueza. Um depende do outro. O empresário é um intelectual que, em vez de escrever poesias, monta empresas. É um criador, um indivíduo que faz coisas novas.

A visão de que só um lado produz riqueza e o outro só explora é radical, sectária, primária. A partir dessa miopia, tudo o mais deu errado para o campo socialista. Mas é um equívoco concluir que a derrocada do socialismo seja a prova de que o capitalismo é inteiramente bom. O capitalismo é a expressão do egoísmo, da voracidade humana, da ganância. O ser humano é isso, com raras exceções.

O capitalismo é forte porque é instintivo. O socialismo foi um sonho maravilhoso, uma realidade inventada que tinha como objetivo criar uma sociedade melhor. O capitalismo não é uma teoria. Ele nasceu da necessidade real da sociedade e dos instintos do ser humano. Por isso ele é invencível.

A força que torna o capitalismo invencível vem dessa origem natural indiscutível. Agora mesmo, enquanto falamos, há milhões de pessoas inventando maneiras novas de ganhar dinheiro. É óbvio que um governo central com seis burocratas dirigindo um país não vai ter a capacidade de ditar rumos a esses milhões de pessoas. Não tem cabimento.

 

O túmulo do Lenin está ali na Praça Vermelha, mas pelo resto da cidade só se veem anúncios da Coca-Cola (Foto: ViagensImagens)

"O túmulo do Lenin está ali na Praça Vermelha, mas pelo resto da cidade só se veem anúncios da Coca-Cola" (Foto: ViagensImagens)

 

O senhor se considera um direitista?

Eu, de direita? Era só o que faltava. A questão é muito clara. Quando ser de esquerda dava cadeia, ninguém era. Agora que dá prêmio, todo mundo é. Pensar isso a meu respeito não é honesto. Porque o que estou dizendo é que o socialismo acabou, estabeleceu ditaduras, não criou democracia em lugar algum e matou gente em quantidade. Isso tudo é verdade. Não estou inventando.

 

E Cuba?

Não posso defender um regime sob o qual eu não gostaria de viver. Não posso admirar um país do qual eu não possa sair na hora que quiser. Não dá para defender um regime em que não se possa publicar um livro sem pedir permissão ao governo. Apesar disso, há uma porção de intelectuais brasileiros que defendem Cuba, mas, obviamente, não querem viver lá de jeito nenhum. É difícil para as pessoas reconhecer que estavam erradas, que passaram a vida toda pregando uma coisa que nunca deu certo. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

07/05/2012

às 12:03 \ Livros & Filmes

Reportagem imperdível da revista BRAVO!: FHC fala de sua longa relação com Dona Ruth — “ela me ensinou muito” –, de seu valor intelectual, de sua obra, do papel da mulher em sua vida. E não deixa de abordar nem infidelidade conjugal

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Fernando Henrique e Ruth Cardoso em 1982, na cidade norte-americana de Berkeley. A professora dizia, brincando, que a imagem é falsa porque FHC nunca lavou louça (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

O ex-presidente FHC fala sobre o legado acadêmico, a atuação política e a vida doméstica da antropóloga Ruth Cardoso, que tem ensaios reunidos em livro

(Reportagem de Armando Antenore publicada pela revista Bravo!, da Editora Abril)

As cenas ainda se espalham pela internet, em resquícios de telejornais e inúmeras fotografias: na Sala São Paulo, a grandiosa casa paulistana de concertos, o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva se aproximou de um prostrado Fernando Henrique Cardoso, que olhava o corpo inerte da mulher.

A antropóloga Ruth Cardoso, de 77 anos, morrera um dia antes. Portadora de doença coronariana, sofreu uma arritmia cardíaca grave e desmaiou na cozinha do apartamento que dividia com o marido. Quando o socorro chegou, já não havia o que fazer. Eram 20h40 de uma terça-feira bastante fria.

Na quarta, 25 de junho de 2008, ao longo do velório, Fernando Henrique não se cansava de acariciar a fronte de Ruth e tirou os óculos diversas vezes para enxugar as lágrimas. Mal avistou Lula, permitiu que o sucessor lhe desse um abraço prolongado. O petista ficou na cerimônia por uns 30 minutos.

Ao partir, consolou novamente o tucano e lhe disse: “Se precisar de mim, peça. Estou à disposição”. Durante aquele breve período, os dois principais líderes políticos do Brasil contemporâneo baixaram armas e abdicaram das farpas que costumam trocar.

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A pesquisadora na década de 1940, em Araraquara (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

O velório atraiu, igualmente, acadêmicos de múltiplas tendências e variados espécimes do Distrito Federal, alguns até mais antagônicos do que Lula e FHC. Navegantes das redes sociais, blogueiros e a mídia convencional enxergaram na comunhão temporária de adversários um símbolo daquilo que Ruth despertou enquanto viveu: a unanimidade.

Conforme tais interpretações, a ex-primeira-dama e uma das fundadoras do PSDB se notabilizou por conquistar, dentro e fora da universidade, o respeito e a admiração de gregos e troianos, seja sob a faceta de professora e orientadora, seja à frente do Comunidade Solidária.

O programa do governo Fernando Henrique, engendrado pela antropóloga, estimulou as ações conjuntas entre ONGs, empresários, movimentos populares e o Estado com o objetivo de erradicar a pobreza.

Como poetas, romancistas, músicos e pintores, os intelectuais – e os políticos – sobrevivem à morte não apenas em razão do que produziram mas também graças à imagem póstuma que se constroi deles. A da pesquisadora ganhou os contornos iniciais justamente na Sala São Paulo.

Em setembro de 2009, o desenho adquiriu maior nitidez com a criação do Centro Ruth Cardoso, que se impôs a meta de preservar e disseminar o legado da homenageada. Um ano depois, apareceu Fragmentos de uma Vida, perfil da docente que a editora Globo encomendou para o escritor Ignácio de Loyola Brandão.

Depois, chegou às livrarias Ruth Cardoso – Obra Reunida. A coletânea de 567 páginas, lançada pela Mameluco, agrupa todos os artigos acadêmicos da ex-primeira-dama. São 41 textos – o mais velho, de 1959; o mais recente, de 2004. A antropóloga Teresa Pires do Rio Caldeira, amiga e discípula de Ruth que leciona na Universidade da Califórnia, em Berkeley, se encarregou de organizar e apresentar o volume.

Um time de quatro renomadas pensadoras a ajudou: Céline Sachs-Jeantet, Esther Império Hambúrguer, Eunice Ribeiro Durham e Helena Sampaio.

 

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Fernando Henrique e Ruth na década de 1950. À época, os dois estavam noivos (Foto: Acervo Particular)

Quem vasculha o site do Centro, atravessa o perfil assinado por Loyola ou destrincha o prefácio da coletânea sai com uma impressão francamente positiva da professora. Sobram aprovações, faltam pontos de vista menos parciais.

Espirituosa, discreta, sempre atenta às novidades, educadora nata, cosmopolita, vocacionada para a atuação em equipe, interlocutora brilhante, exímia dona de casa, mãe e avó carinhosas são as qualificações que vêm à cabeça de internautas e leitores. Uma boutade, cunhada pela própria Ruth, resumiria à perfeição o seu caráter, segundo Loyola. “Isto não está de acordo com nossos padrões araraquarenses”, proclamava, irônica, quando se flagrava diante de circunstâncias em que o recato e a ética despencavam ladeira abaixo.

O gracejo, claro, se refere à cidade do interior paulista onde a acadêmica nasceu e se criou. Ela só trocaria Araraquara pela capital do estado em 1946, aos 15 anos, para ingressar num tradicional colégio católico, o extinto Des Oiseaux.

 

Cozinhas comunitárias

Filha única de um guarda-livros com uma farmacêutica que dava aulas de botânica, química e biologia, Ruth Corrêa Leite Cardoso estudou ciências sociais entre 1949 e 1952. À época, as turmas que frequentavam o curso da Universidade de São Paulo somavam uma dúzia de alunos, se tanto.

Foi também na USP que, em 1957, a jovem socióloga virou assistente do lendário Egon Schaden, catedrático de antropologia. Começou, assim, uma duradoura carreira no ensino superior. Perto de intelectuais da mesma geração, escreveu pouco e publicou menos ainda. Divulgou o grosso de seus ensaios nos círculos restritos da “alta cultura”: mesas de reuniões científicas, jornais e revistas de pequena tiragem, seminários e debates. Sobressaiu-se bem mais como orientadora de pós-graduandos e como agente política em contínuo diálogo com a sociedade civil.

 

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Em 1954, com o primeiro filho, Paulo Henrique. Depois nasceriam Luciana e Beatriz (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

Pioneira da antropologia urbana

Muitos lhe conferem o mérito de introduzir no país a antropologia urbana – pioneirismo que assumiu junto de Eunice Durhan, Gilberto Velho e outros. Investigando as cidades, se interessou por detectar e analisar processos socioculturais emergentes, capazes de transformar o cotidiano, em especial o das áreas pobres.

Não à toa, se debruçou sobre a rotina das favelas, a integração dos migrantes japoneses no Brasil, as novas configurações da juventude, o feminismo, os meios de comunicação, o terceiro setor, as cozinhas comunitárias e a adoção de crianças pelas classes baixas.

Em fevereiro de 1953, se casou com FHC, que mais tarde despontaria como sociólogo. Os dois geraram Paulo Henrique, Luciana e Beatriz.

Não raro, a trajetória do marido exigiu renúncias da antropóloga. De 1964 a 1968, por exemplo, Ruth morou no Chile e na França, já que a ditadura militar empurrou Fernando Henrique para o exílio. O afastamento compulsório da USP fez a pesquisadora adiar o doutorado, só concluído em 1972.

Na década de 1990, voltou a abandonar as pesquisas, agora premida pela eleição do cônjuge à Presidência da República, de que tomaria posse em 1º de janeiro de 1995. Tornou-se primeira-dama a contragosto, mas acabou revitalizando a função, que exerceu durante oito anos (1995-2003). Até então, nenhuma intelectual alcançara aquele status no país. De modo idêntico, nunca a mulher de um presidente concebera e dirigira um programa social tão intrincado e abrangente quanto o Comunidade Solidária.

 

O panegírico desumaniza a pessoa morta

Semanas atrás, o jornalista e curador Marcelo Rezende, colaborador de BRAVO!, redigiu um artigo em que comenta o abrupto e prematuro falecimento de outro jornalista: Daniel Piza. A reflexão se encontra no blog do Instituto Moreira Salles. Ali, Rezende analisa o substantivo “panegírico”: “Trata-se de um discurso, de uma louvação (…). É geralmente aquilo que os vivos decidem realizar quando estão diante da evidência concreta da morte”.

Tributos do gênero, pondera o autor, transcendem o mero elogio, uma vez que se escoram apenas no superlativo. O panegírico desumaniza o morto. Santifica-o, lhe esculpe feições de herói. Já o elogio “permite a contradição, o contraponto infeliz na existência de alguém e do personagem desse mesmo alguém”. Certamente, Ruth Cardoso merece vários dos adjetivos risonhos que lhe imputam. Mas será que fazia jus aos exageros? Como ela própria avaliaria a mitificação latente nos panegíricos que inspirou?

Para discutir a questão e relembrar a professora, BRAVO! entrevistou Fernando Henrique durante três horas, em São Paulo. Uma parte da conversa ocorreu no instituto que leva o nome do sociólogo, no centro da cidade. A outra, no apartamento no bairro de Higienópolis onde o ex-presidente, 80 anos, viveu com a antropóloga.

 

O legado intelectual

Está em curso um movimento para consolidar a imagem de dona Ruth Cardoso como a de uma figura exemplar…

[Interrompendo o repórter] Sim, mas nenhuma iniciativa partiu da família. As homenagens nasceram de maneira espontânea. São os amigos, os alunos e os colaboradores de Ruth que se atribuem a tarefa de reverenciá-la. Eu e meus filhos não pedimos nada a ninguém.

 

De que modo a ex-primeira-dama reagiria diante de tantos aplausos? O senhor já pensou no assunto?

Já. Imagino que reagiria bem, ainda que timidamente. Ruth não almejava os holofotes. Nunca sonhou, por exemplo, que implantariam uma cátedra com o nome dela na Universidade Columbia, em Nova York, como aconteceu há uns três anos. Aquela antropóloga toda aplicada, na verdade, não se preocupava nem sequer em arquivar o que escrevia. Não ficava lambendo a cria. Era mais desleixada do que eu nesse sentido – e menos autoconfiante. Padecia de insegurança.

 

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A antropóloga e o sociólogo em 1965, no Chile, onde moravam. Eles haviam deixado o Brasil por causa da ditadura (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

Insegurança? Não dava a menor impressão.

De fato: os inseguros costumam parecer afirmativos. No fundo, Ruth ignorava o próprio valor. Não possuía uma autoestima muito elevada. A minha sempre se revelou maior.

Tanto que, em casa, meus filhos brincam: “Pai, você precisa fazer uma lipoaspiração no ego!” [risos] É engraçado… As pessoas me chamam de vaidoso, de ambicioso, de sei lá o quê. Falam que, desde criancinha, eu queria ocupar a Presidência. Bobagem! Pura fantasia! Quando jovem – e mesmo na maturidade -, jamais cogitei me eleger presidente.

As coisas foram se desenrolando. Tampouco me considero vaidoso. Ou, pelo menos, não do jeito que o senso comum define a palavra. Tenho vaidade intelectual. Sob outros ângulos, porém, sou mais descuidado do que cuidadoso. Não cultivo vaidade física, pessoal. Nunca liguei além da conta para esse negócio de roupa, de elegância.

 

Dona Ruth se sentia insegura em que aspectos?

Apenas intelectualmente. No papel de mulher, de mãe ou de professora, não. Desempenhava-os com tranquilidade e confiança. Só nutria dúvidas sobre sua competência como pensadora.

 

Por isso escreveu pouco?

É provável. Ela adorava lecionar. Preparava as aulas demoradamente, expressava-se bem em classe, zelava pelos alunos. Entretanto, sofria para escrever. Talvez até desconhecesse o prazer da escrita. Era muito crítica. E quem é muito crítico acaba se descobrindo autocrítico demais.

Não por acaso, Ruth normalmente rejeitava o que produzia – rabiscava o texto, mexia e remexia nas frases, torturava-se. Também não ambicionava publicar. Tinha ideias relevantes, mas nem sempre julgava necessário estruturá-las num ensaio, construir teorias. Preferia ensinar, fazer observações de campo e agir socialmente.

 

O senhor, em contrapartida, escreveu bastante e publicou trabalhos de grande repercussão. Conviver com um intelectual tão fértil inibiu dona Ruth?

Não acredito. Tratava-se mais de uma exigência dela em relação a si própria. Mesmo porque nós não competíamos. Pelo contrário: nos ajudávamos, um apoiava o outro. Encontro tanto casal disputando espaço… Nós, não.

Eu, inclusive, mostrava a Ruth tudo o que escrevia: livros, ensaios e artigos de jornal. Ela os lia antes da publicação. E opinava, corrigia, discordava.

 

Não há o risco de se estar supervalorizando o legado acadêmico de dona Ruth por razões políticas?

De maneira nenhuma. Os que resgatam a contribuição de Ruth não têm relações diretas com o jogo partidário. Pegue a série de artigos recém-lançada. As organizadoras da coletânea são pesquisadoras de alto nível, que se conservam longe da política.

Ninguém de bom senso negará a importância de Ruth para a modernização da antropologia no Brasil. Ela e a Eunice (Durham) constituíram o time de antropólogos que primeiro se interessaram pelo urbano. Tradicionalmente, a disciplina se dedica à análise dos povos ágrafos, que não dispõem da escrita.

Ruth, no entanto, sempre achou mais pertinente esmiuçar o universo das cidades, talvez por ser de uma geração que viu o país se urbanizar.

 

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Ruth e FHC desembarcam no Chile com as filhas, em 1973. A família, desta vez, viajou à passeio (Foto: Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

A ex-primeira-dama influenciou o senhor como intelectual?

Sim. Vou lhe citar alguns exemplos. Eu estudei as teses de Claude Lévi-Strauss [antropólogo] superficialmente. Mas a Ruth as conhecia muito. Em 1962 e 63, frequentou seminários dele na França. Ela, então, me ensinava o que sabia.

Conversávamos sobre Lévi-Strauss e outros autores que me são menos familiares: o Manuel Castells [sociólogo], o Michel Foucault [filósofo] e o próprio Alain Touraine [sociólogo], com quem tive aulas. Ruth ainda me alertou para a força dos movimentos sociais.

Recordo que, lá pela década de 1970, grupos da periferia de São Paulo reivindicavam do governo avanços na área da saúde pública. Eu olhava aquilo e previa: “Não vai resultar em nada”. Sob o meu prisma, os grupos pressionavam o Estado à toa porque as exigências populares se perderiam no gabinete do burocrata.

Ruth não raciocinava desse jeito. Ela já notava que existia a chance de aquelas ações causarem – como realmente causaram – mudanças mais profundas, mais políticas na estrutura do Estado. Ou melhor: que daqueles grupos surgiriam vereadores, deputados e outras lideranças capazes de agir efetivamente dentro da máquina estatal.

Influenciado pelo marxismo, eu acreditava que as transformações só iriam decorrer da luta de classes – do choque entre o proletariado e a burguesia. Ruth me corrigia: “Não, a luta não precisa ser apenas de classes. A luta também pode ser do povo contra o Estado”.

 

Quer dizer que ela se opunha à predominância das interpretações marxistas na USP da época?

Exato. Eu, Ruth, Paul Singer [economista], José Arthur Gianotti, Bento Prado Júnior [ambos filósofos], Octavio Ianni [sociólogo] e outros participamos do famoso seminário sobre O Capital, de Karl Marx, que se iniciou em 1958. Ao longo de seis anos, nossa turma se reunia periodicamente para debater os diversos volumes do livro. Ruth, portanto, tinha intimidade com as teorias de Marx.

Acontece que nunca adotou uma visão estritamente marxista. Ela ia na contramão de todos nós e não enxergava a luta de classes como o único motor da história. Daí se interessar tanto pelo conceito de sociedade civil – uma ideia extramarxista, digamos.

 

A atuação como primeira-dama

 

Dona Ruth não desejava que o senhor virasse político. Por quê?

Na década de 1950, quando a gente se formou, havia o consenso de que a carreira acadêmica é uma espécie de sacerdócio. Deveríamos viver para o ensino e a pesquisa. Eu próprio considerava pecado receber dinheiro por qualquer atividade que não a de professor.

Embora descenda de uma família com larga trajetória política (meu bisavô governou Goiás, meu tio-avô ocupou o cargo de ministro da Guerra, meu pai se elegeu deputado), procurei evitar tal caminho na juventude. Não participei nem mesmo do movimento estudantil enquanto cursava ciências sociais. Os militares só me mandaram para o exílio após o golpe de 1964 porque eu defendia reformas na universidade – mudanças que os conservadores taxavam de subversivas.

Não me expulsaram do país em razão de militância partidária ou algo do gênero. Logo depois que voltei, resisti à ditadura intelectualmente, fazendo pesquisas, escrevendo artigos em jornais de oposição e promovendo conferências. Ruth também se comportava desse modo. Queríamos protestar, mas continuávamos sem a intenção de ingressar na política propriamente dita.

Ocorre que, com o passar dos anos, as circunstâncias me levaram para o Senado e, depois, para o Executivo. Ruth, sobretudo no início, discordava de minha resolução. Temia perder a privacidade. Arrepiava-se diante da ideia de nossa vida se tornar mais pública, mais institucional, repleta de pompa. Mesmo assim, nunca deixou de se engajar em minhas campanhas eleitorais. E, quando cheguei à Presidência, desempenhou brilhantemente as funções que atribuiu para si.

 

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Em 1985, num comício durante as eleições para prefeito de São Paulo. FHC acabou derrotado (Foto: Andrés Otero / Ary Brandi / Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

Entretanto, não gostava que a chamassem de primeira-dama.

Ruth, na verdade, refutava o conceito muito norte-americano de que a primeira-dama ocupa um cargo. “Não, quem ocupa um cargo é o presidente da República”, argumentava. “Ele, sim, tem obrigações previstas pela lei. A primeira-dama precisa apenas se manter autônoma e desempenhar os papéis que julgar adequados. Cada uma deve agir como achar melhor, sem tarefas definidas.”

Tanto que Ruth sempre defendeu a Marisa [Letícia, mulher de Lula]. As duas se portaram de forma bem diferente em Brasília. Marisa, todos sabemos, abdicou de qualquer protagonismo. E Ruth a apoiava: “Ela está se respeitando. Não trai a própria personalidade, não é exibida, não interfere no governo. Por que vou criticá-la?”

 

Como dona Ruth lidava com o gigantesco cerimonial da Presidência?

Não apreciava nada daquilo, lógico, mas se conformava. Curiosamente, no final de meu segundo mandato, já demonstrava grande apreço pelas seguranças que a acompanhavam. Professora em tempo integral, quando resolvia ver um espetáculo, fazia questão de que as moças assistissem à peça também. Não deixava que a esperassem na porta do teatro.

Depois, lhes indagava sobre a montagem e dava explicações sobre o dramaturgo, o diretor e o elenco. Às vezes, havia atores nus em cena – e as seguranças se horrorizavam. No enterro de Ruth, algumas viajaram para São Paulo e quiseram carregar o caixão. Criou-se uma relação de afeto.

 

O senhor dividia com dona Ruth os problemas do governo?

Não sei se o verbo correto é dividir, porque Ruth evitava se meter diretamente na minha administração. Ela observava à distância. Não bancava o pistolão em área nenhuma. Dirigia o Comunidade Solidária e ponto.

Agora, nós conversávamos intensamente sobre quase tudo. Certos temas a seduziam menos. Economia, por exemplo – o câmbio, as estratégias do Banco Central. As atenções de Ruth se voltavam mais para a educação, a saúde e a cultura.

 

Ela discordava muito do senhor?

Ô! E abertamente! Em inúmeras ocasiões.

 

Mencione uma, pelo menos.

Ruth detestava os partidos clientelistas – aqueles que não abraçam propriamente uma ideologia, um programa, e só almejam mamar nas tetas do Estado. Os adesistas, né? Em virtude disso, ela jamais suportou determinados setores do extinto PFL e não aceitava o acordo que firmei com os pefelistas.

Na teoria, Ruth tinha consciência de que apenas os ditadores governam sem alianças. Só que na prática… Ela reclamava: “Como assim?! Você precisa dizer tal coisa para fulano!” Eu respondia: “Um político não deve ir tão direto ao ponto. Se disser tal coisa, me derrubarão!”

Quem está fora da disputa partidária analisa as situações e as pessoas sob a ótica dos estereótipos. No entanto, quando se aproxima delas, termina reformulando o julgamento. Vai soar estranho, mas em qualquer partido existem canalhas do bem e canalhas do mal, canalhas que traem e canalhas que não traem, canalhas inteligentes e canalhas obtusos, canalhas competentes e canalhas incompetentes. Para distinguir uns dos outros, é preciso estrada. Ruth, no começo, não dispunha de tanta vivência. Depois, foi aprendendo.

 

Em 1994, a futura primeira-dama criticou publicamente o senador Antônio Carlos Magalhães, um dos caciques do PFL. Associou-o à ditadura e às oligarquias.

Pois é… Ruth não se permitia intimidades com o ACM. Conhecedor das restrições dela, Antônio Carlos tratava de agradá-la. Ele podia ser uma serpente ou um encantador de serpentes. Dependia dos ventos.

Com a Ruth, costumava exibir os melhores modos.

Mas não adiantava. Certa vez, o convidei para tomar um café em casa. Tasso Jereissati [um dos líderes do PSDB] nos acompanhou. Ruth, que se encontrava no apartamento, resolveu preparar o café e se dirigiu à cozinha. Pronto: o Antônio Carlos subiu na tribuna do Senado e proferiu um discurso sobre o episódio. “A mulher do presidente abre mão de empregados e tem o desprendimento de fazer o próprio café.”

 

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O casal presidencial, em viagem ao Pantanal, na década de 1990 (Foto: Evandro Teixeira / Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

Como dona Ruth encarava as privatizações que o governo do senhor incentivou? O processo sempre recebeu pesadas críticas. Agora, inclusive, um livro-reportagem que aborda o assunto se transformou em best-seller: A Privataria Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr.

Ela concordava com as privatizações. À época, todo mundo concordava. Somente um pequeno grupo de ultranacionalistas, não apenas do PT, se posicionava contra. Preconizava que iríamos sucatear as indústrias brasileiras. Imagine! Sobre o livro do rapaz…

 

O senhor o leu?

Não.

 

Pretende lê-lo?

Não. Vou ler livro de malandro? O autor trabalhava para os petistas [durante as eleições presidenciais de 2010, a Polícia Federal indiciou Ribeiro Jr. sob a acusação de que ele quebrou o sigilo fiscal de tucanos com o intuito de produzir dossiês; o jornalista nega]. O propósito da reportagem é criar uma cortina de fumaça, tirar o foco da herança deixada por Lula: as corrupções que pipocam no governo federal. Você leu o livro? Conte-me algo que aparece lá.

 

O repórter procura demonstrar que o ex-governador José Serra, do PSDB, e alguns parentes se beneficiaram financeiramente das privatizações.

O Serra? Impossível! Coloco minha mão no fogo. Serra não teve nenhuma relação com as privatizações. Nada! Zero! Zero! E outra coisa: quem rouba uma hora se entrega. Nunca vi ladrão que, cedo ou tarde, não transpareça. Vamos verificar se algo mudará no padrão do Serra. Vamos verificar se a família dele ostentará riqueza…

 

A vida doméstica

Dona Ruth apoiava com veemência as causas feministas. Como tal engajamento reverberava dentro de casa?

Desde o namoro, e até antes, nós transitávamos num círculo ilustrado, culto, que preconizava a equivalência entre homens e mulheres. Compartilhávamos, portanto, de ideias similares sobre o tema. Mas existia uma diferença importante em nossas posturas – a mesma que distingue o liberal do igualitário. O liberal aceita, tolera. O igualitário bota em prática.

Eu, liberal, concordava teoricamente com as reivindicações do feminismo. Ruth, igualitária, tratava de fazê-las acontecer. Ela sempre quis, por exemplo, que todos da família ajudassem no trabalho doméstico. Para um homem da minha geração, assumir atribuições dessa natureza beira o absurdo. Mesmo assim, às vezes, eu tirava a louça da mesa após as refeições. Foi o máximo de concessão que me permiti.

Ainda hoje, recolho a louça no meu apartamento ou no de amigos. À época da Presidência, também recolhia. Já lavar os pratos me custa mais. Se necessário, lavo – só que me desagrada. Na década de 1980, passamos uma temporada em Berkeley [na Califórnia, Estados Unidos]. Há uma foto do período que me flagra lavando louça. Ruth garantia que a imagem é falsa, que aquele milagre jamais ocorreu. [risos]

 

Os filósofos Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram o Brasil em 1960. Na ocasião, o senhor os recebeu para um jantar. O que dona Ruth sentiu quando travou contato com uma lenda do feminismo?

Decepcionou-se. Simone nos pareceu tão bonita quanto distante, fria e dura. Antipática, enfim. Para piorar, tratava o Sartre – um tipo sorridente, carismático – como criança: “Não faça isso, não faça aquilo!” E titubeou diante da sopa de mandioquinha que Ruth preparou.

Na hora da sobremesa, nos vingamos. Servimos goiabada com queijo, combinação que desagradou ainda mais a Simone. Ela torceu o nariz e acabou engolindo o doce por mera educação.

Apesar de feminista e intelectual, Ruth prezava as tarefas de casa. Cozinhava bem, tricotava, costurava e adorava jardinagem. Só não entendia direito de contas. Não gastava excessivamente, mas se atrapalhava com cheques e números. Não tinha noção de preço.

 

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Na Muralha da China, na década de 1990 (Foto: Evandro Teixeira / Acervo PR. F.H. Cardoso)

 

Na contramão de Lula e dona Marisa, que costumam demonstrar carinho em público, o senhor e dona Ruth se comportavam de maneira sóbria. Faltava romantismo entre vocês?

Não. Na intimidade, nos mostrávamos calorosos. A discrição se manifestava apenas publicamente – um recato que cultivamos desde a juventude.

Além do mais, em casamentos longos como o nosso, cria-se uma base afetiva que é estável, independentemente das aparências, dos altos e baixos, das oscilações pontuais.

 

Em 2009, o senhor reconheceu como filho o adolescente Tomás, que teria nascido de uma relação extraconjugal. O rapaz já fez 20 anos. Recentemente, porém, testes de DNA demonstraram que o senhor não é o pai dele. Em que momento dona Ruth soube da história?

No momento em que o filho surgiu.

 

E qual a reação dela?

Ruim, né? Mas também compreensiva. Ruth conhecia a vida. Estava ciente de que o ser humano passa por períodos de variação.

 

O senhor cogitou se separar?

Não. Nunca me enxerguei sem a Ruth. Desculpe… Não gostaria de alongar o assunto, em nome da reserva que pautava meu casamento.

Acrescento apenas que, a despeito do DNA, sigo mantendo um relacionamento muito bom com Tomás, tanto em termos afetivos quanto cíveis. Posso afirmar igualmente que Ruth morreu numa ótima fase de nossa união. À semelhança de qualquer casal, atravessamos etapas de maior e menor cumplicidade. Até criar nossos filhos, nos conservamos bem próximos. Depois, houve certo distanciamento.

E, nos últimos 15 anos, uma reaproximação intensa – de tal maneira que a morte dela me afetou como um raio em dia de sol.

 

O livro

Ruth Cardoso – Obra Reunida. Organização e apresentação de Teresa Pires do Rio Caldeira. Editora Mameluco, 567 págs., R$ 78.

12/09/2011

às 9:09 \ Música no Blog

Taiguara, um dos principais alvos da ditadura na área cultural, ensinando como driblar censores

Por Daniel Setti

Dica do amigo do blog Reynaldo, este vídeo extraído de um show da turnê “Treze Outubros”, do músico uruguaio-brasileiro Taiguara (1945-1996) no Anhembi, em São Paulo, em 1986 é um documento histórico-musical ao mesmo triste, hilariante e emotivo.

Triste porque mostra Taiguara relatando o chumbo grosso que enfrentou durante os piores anos da ditadura militar, entre o final dos anos 60 e a metade da década seguinte. Ele conta ter tido nada menos que 68 canções vetadas pela censura. Não à toa, em 1973 se exilou em Londres, passando em seguida por outros países europeus e africanos.

Hilariante porque antes de entoar a clássica balada “Que as Crianças Cantem Livres”, do álbum Fotografias (1973), o cantor explica como fez para ludibriar o ignorante trio de censores, a quem dá nome – Marina, Sá e Selma – na hora de fazê-los aprovar outra composição do mesmo disco, “Nova York”. Engraçado, Taiguara imita a cara perplexa de Selma à simples menção do termo “aliteração”.

E emotivo porque, tal qual indica o nome do show, Taiguara, levou 13 anos para poder cantar livremente suas canções, até que o fim da ditadura se consolidasse. Entre essas composições está “Que as Crianças…”, em cujos versos o autor reconhece o sombrio período, mas demonstra esperança por tempos melhores que, ao menos no quesito liberdade de expressão, por fim vieram: “E que o passado abra os presentes pro futuro/ que não dormiu e preparou o amanhecer”.

23/08/2011

às 10:15 \ Música no Blog

Caetano e a arte de misturar português e inglês

Por Daniel Setti

Tom Jobim, Tim Maia, Caetano Veloso. Estes três grandes da música brasileira são também os maiores representantes do seleto clube de compositores tupiniquins que se aventuraram – com sucesso – no ofício de escrever canções no idioma inglês. Dentre eles, o baiano de Santo Amaro da Purificação, 69 anos completos no último dia 7, atingiu um degrau a mais de sofisticação ao misturar, em mais de uma ocasião, a língua dos Beatles com a nossa na mesma música. De forma sublime.

Os exemplos são vários se vasculharmos o catálogo de Caetano produzido entre julho de 1969 e janeiro de 1972, período em que esteve exilado em Londres com Gilberto Gil – após prisão de ambos, no finalzinho de 1968 em São Paulo, por órgãos repressivos da ditadura recém-intensificada com o AI5. No âmbito artístico, o baixo astral por ter sido expulso de seu país fez um bem tremendo ao músico, a ponto de inspirar dois de seus melhores álbuns até hoje, “Caetano Veloso” (1971) e “Transa” (1972), em cujos repertórios a tabelinha luso-anglófona é a grande atração.

Extraída justamente de “Caetano Veloso”, que em junho celebrou seu 40º aniversário, “Maria Bethânia” é uma das composições mais lindas de todo o repertório do veterano astro. Não só por misturar seus devaneios sobre a urbe londrina com trechos de uma hipotética carta à irmã cantora, mas também pela presença do sensacional verso que funde a palavra better (“melhor”) com o nome Bethânia.

04/08/2011

às 20:38 \ Política & Cia

Post do Leitor: “A volta dos militares não é solução, nunca foi, jamais será. Não se cura um doente aplicando veneno na veia dele”

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Polícia reprime estudantes em São Paulo em 1968, durante a ditadura. (Foto de Cristiano Mascaro)

Amigos, oportuno, contundente, direto ao ponto o comentário do leitor e amigo do blog Reynaldo-BH. Tanto que resolvi publicá-lo como Post do Leitor. Vejam só:

Sinceramente me preocupa a tendência simplista e perigosa que o esgarçamento das instituições republicanas está provocando em diversos comentaristas. E não só aqui, no blog de Ricardo Setti. Creio que são honestos os que pensam assim, desanimados e revoltados. E por isso me arrisco a oferecer uma outra visão.
É cada vez mais comum ver quem defenda a “volta” dos militares como solução.

post-do-leitor

Post do Leitor

Não é. Nunca foi. Jamais será novamente!

A Constituição determina qual o papel das Forças Armadas. Entre estas funções nunca esteve -ou está – a substituição do poder civil.

Que não se confunda o Estado de Direito e as instituições democráticas com quem faz mal uso das mesmas. Não se cura um doente aplicando veneno na veia dele.
Quem viveu a ditadura sabe disto. Quem sofreu com desaparecimentos e/ou exílios – meu caso pessoal e familiar – sabe o que custou caminhar até aqui.
Nós, o povo, conseguimos não só derrubar uma ditadura como impedir que uma outra (estalinista) fosse colocada no lugar.
Infelizmente a atual face do poder está conseguindo até mesmo roubar a história. Eles só estão onde estão, no poder, e só retornaram ao Brasil por que houve uma resistência popular e pacífica que lutou pela anistia e por eleições livres. Hoje se apresentam como os artífices de uma história em que participaram muito pouco, e quando o fizeram, foi em nome de uma outra ditadura: a do proletariado como consta em todos os documentos dos grupos da época.

Abomino as duas! São só as faces da mesma moeda.

Devemos ter muito cuidado para que esta confusão de valores não se fortaleça. Este seria o maior de todos os crimes cometidos pelo lulo-petismo. Esta sim a herança maldita! Fortalecer sentimentos totalitários que a sociedade brasileira sepultou em uma luta de 21 anos.

A democracia convive e suporta crises. Sobrevive a Amorins e Jobins! A ditadura usa os mesmos para ocultar crises existentes.
Quero ter o direito de criticar, no limite da civilidade e democracia, este desgoverno instalado. Este sindicalismo-pseudo-esquerdista que na verdade é somente uma ação entre amigos. A falta de ética de quem deveria ser guiado por ela. O falso moralismo em que fins justificam meios e onde mesmo roubar, se “em nome do partido”, é desculpável e isento de punição. E por isso, incentivado.

Mas JAMAIS vou apoiar uma interrupção de um processo histórico de conquistas. Como da democracia.

Não quero mais ver mães não poderem enterrar filhos. Ou filhos que não puderam conviver com pais. Pelo crime de discordar.

Não, os militares não estão voltando, como li em um comentário aqui. Eles estão na caserna, cumprindo a função constitucional de profissionais da segurança do estado brasileiro. Que fiquem lá. Somos gratos pelo profissionalismo.

E também não precisamos de gritos vindo de quartéis. Precisamos de gritos, certamente. Vindos das ruas. Como fizemos na anistia, nas Diretas Já, no impeachment de Collor e em outros momentos que a cidadania mostrou a importância de um povo mobilizado. Mesmo que este grito seja, como disse Ulysses, a voz rouca das ruas!

Não precisamos de tutores ou salvadores de ocasião. Nem queremos. Precisamos ter consciência de quem somos e do que podemos.

“A lição já sabemos de cór. Só nos falta aprender!”

25/04/2011

às 14:24 \ Vasto Mundo

Os rebeldes que estão nas ruas da Síria protestam contra um Estado policial. Conheça alguns traços da ditadura de Assad

Um mês após o início dos protestos na Síria, manifestações se tornaram mais radicais

Amigos do blog, nós, jornalistas, estamos noticiando com frequência os cada vez mais intensos choques de rua entre manifestantes que protestam em diversas cidades contra a ditadura de Bashar Assad na Síria, que já causaram mais de 150 mortos e um número desconhecido de feridos – sem contar os detidos, cuja sorte o governo jamais informa. Só hoje, morreram mais 5 pessoas.

Apesar dos anúncios de Assad de que militares não usam munição real para conter os protestos, são incontáveis os testemunhos e vídeos que mostram soldados atirando contra multidões desarmadas.

Gostaria, neste post, de contar alguma coisa sobre o Estado policial sírio, que está levando multidões, principalmente de jovens, às ruas:

* O governo passou de pai para filho, como em dinastias absolutistas: Bashar, um médico sem experiência alguma de governo, herdou em 2000 o poder quando o pai, Hafez Assad, morreu. Hafez Assad, então general e ministro da Defesa, assumira o governo por meio de um golpe de Estado 30 anos antes.

* No período entre 1979 e 1982, levantes em várias cidades, entre as quais Hama e Tadmor, levaram ao massacre, até hoje impune, de 40 mil pessoas pelo governo do pai de Bashir Assad.

* A Síria tem 22,5 milhões de habitantes, e acredita-se que o regime disponha de 400 a 500 mil informantes, segundo Waloid Saffour, presidente do Comitê Sírio de Direitos Humanos (SHRC).

* Cerca de 250 mil sírios vivem no exílio, em grande parte por razões políticas.

* Por volta de 300 mil sírios da etnia curda estabelecidos no norte da Síria não tinham direito à cidadania, o que os impedia de ser funcionários públicos, de adquirir propriedades, casar-se segundo as leis nacionais ou ser atendidos pela rede pública de saúde. Seu crime: fazerem parte dos curdos que, há 50 anos, não puderam comprovar com documentos que viviam no país desde 1946, ano em que a Síria tornou-se independente da França, ou serem descendentes deles. Com a rebelião popular, Assad assinou um decreto concedendo cidadania aos curdos, mas ainda resta saber como e quando as medidas práticas virão.

* pelo menos 10 mil presos políticos na Síria – militantes radicais islâmicos, dissidentes pró-democracia, professores, escritores e jornalistas –, a maior parte deles numa prisão na cidade de Sednaya, no oeste, próximo à fronteira com o Líbano. Uma rebelião em Sednaya, em 2008, levou à morte de pelo menos uma centena de prisioneiros. O regime prisional ali é um inferno: os presos não têm acesso a tratamento médico nem à visita de parentes, e a tortura é uma rotina.

* Desde 1963 o país vive oficialmente em estado de exceção – que permite virtualmente qualquer ação às forças de segurança. O ditador Bashir Assad tecnicamente o revogou dias atrás, mas nada mudou na prática.

* A família Assad, corrupta até a raiz dos cabelos, controla setores inteiros da economia do país, razão pela qual o governo impede notícias sobre corrupção na imprensa ou pune quem consegue divulgá-las por outros meios.

19/11/2010

às 19:16 \ Política & Cia

Lei da Anistia: sou contra a revogação, mas a favor de não fugirmos do passado

Passeata pela anistia ampla, geral e irrestrita em 1979

Amigos do blog, após a publicação do polêmico artigo de meu amigo Luiz Cláudio Cunha, grande jornalista, defendendo a punição dos torturadores de presos políticos durante a ditadura militar (apesar de eles não serem puníveis de acordo com a Lei de Anistia), um grande número de leitores, nos comentários ou em mensagens pessoais, quer saber qual é, afinal, minha opinião.

Aqui vai: a Lei de Anistia está em vigor, goste-se dela ou não, aprove-se ou não a manobra com que o regime conseguiu incluir em seu texto a alusão a “crimes conexos”, que permitiu a agente do estado que cometeram crimes serem beneficiados por ela.

OS INIMIGOS DO REGIME ACEITARAM A LEI, O STF A VALIDOU — Sim, foi aprovada por um Congresso pressionado pelos militares. Sim, aprovou-se a lei por apertada maioria. Sim, de certa forma a lei foi empurrada goela abaixo da sociedade.

Mas houve uma aceitação tácita de sua vigência por parte dos brasileiros, e uma aceitação explícita por parte dos próprios adversários ou inimigos mais radicais do regime que, protegidos pela lei, e graças a ela, voltaram do exílio — mesmo os que haviam se envolvido em ações armadas — ou se livraram da prisão.

Mais que tudo, a Lei de Anistia, em agosto passado, passou pelo crivo do Supremo Tribunal Federal, que a considerou constitucional por expressivos 7 votos a 2, negando provimento a uma ação da OAB que reivindicava a responsabilização de ex-agentes do estado por uso de tortura.

Temos uma democracia imperfeita, mas a Constituição é a lei fundamental e a ela devemos obediência e respeito. O Supremo, como o nome indica, é seu supremo guardião. E decisão do Supremo pode ser comentada, discutida, criticada, mas, na democracia de que dispomos, tem que ser acatada.

NÃO PODEMOS TER MEDO DO PASSADO E DA VERDADE — O que não aceito é a pusilanimidade com que os poderes públicos, inclusive os governos FHC e Lula, manifestaram e continuam manifestando em relação ao pleno acesso dos cidadãos a documentos históricos.

Até preciosas fontes de informação sobre a Guerra do Paraguai (1864-1870) continuam, absurdamente, sob sigilo de estado. O mesmo se dá com boa parte da documentação sobre a ditadura — ou está sob sigilo, ou é dada como desaparecida ou destruída e fica por isso mesmo.

O que não admito é o medo do passado. Só a verdade liberta, só a luz da verdade é capaz de remover as espessas camadas de mofo que nos impedem de encarar, analisar e digerir os erros cometidos, os falsos heróis endeusados, os crimes que nunca vieram à tona. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

 

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