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escândalo

13/04/2014

às 18:30 \ Política & Cia

J. R. Guzzo e o caso Pasadena, da Petrobras: “A presidente Dilma cometeu um desatino que ficará registrado na história nacional da incompetência”.

 

A sede da Petrobras, no Rio de Janeiro: caso Pasadena é um escândalo  (Foto: O Globo)

A sede da Petrobras, no Rio de Janeiro: caso Pasadena é um escândalo, e a atual presidente da República confessou que, com sua compra — lesiva à empresa estatal e ao país –, ela não sabia o que estava fazendo (Foto: O Globo)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

CAIXINHA MÁGICA

Fatos. O que eu quero que me deem é isto: fatos. Não me venham com outra coisa; fatos, apenas fatos, são necessários na vida. Você só pode formar a mente de animais racionais através de fatos. Fatos: fora os fatos, nada será de utilidade alguma para ninguém, jamais.

Nos tempos duros da Inglaterra de 1850, esse era o evangelho do professor Thomas Gradgrind, personagem do romance Hard Times e destaque na prodigiosa galeria de tipos humanos criados pelo gênio de Charles Dickens.

O professor Gradgrind, punido com um desses nomes que só o humor travesso de Dickens sabia inventar, é um personagem cômico ─ caricatura de uma Inglaterra que começava a se encantar com as estatísticas e com os esforços para explicar o mundo através de números, sem o contágio da imaginação nem emoções individuais, essas grandes criadoras de desordem na existência humana.

Tudo bem. Mas a verdade é que às vezes faz falta “um homem de realidades” como Mr. Gradgrind. Sua presença talvez fosse útil para colocar um mínimo de ordem na babilônia mental que desorganiza o debate público no Brasil de hoje.

Sem os fatos, insistia o professor, não é possível definir as diversas coisas que existem neste mundo ─ requisito indispensável para separar o verdadeiro do falso.

Essa trágica história da compra da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos, pela Petrobras é um exemplo perfeito do descaso pelos fatos. Desde que o escândalo veio a público, assiste-se a um embate em que tudo é dissecado, menos o que, no fim das contas, realmente interessa; é como a leitura de um prefácio maior que o livro.

A presidente Dilma Rousseff estava certa ou errada em sua conduta quando presidia o Conselho de Administração da Petrobras, em 2006, ocasião em que a empresa comprou por 360 milhões de dólares a metade de uma refinaria que, no ano anterior, havia sido adquirida por cerca de 40 milhões pelos vendedores?

Estava meio certa? Meio errada? Certa e errada ao mesmo tempo? De quanto é a sua culpa nesse desastre ─ 10%, 25%, 50%? E por aí se vai, com questões e mais questões, numa conversa inútil que talvez só acabe no dia do Juízo Universal.

A conversa é inútil porque não é preciso gastar um único neurônio com toda essa metafísica; basta ficar nos fatos e tudo se resolve em menos de um minuto.

Com os fatos se chega à definição mais clara do que realmente aconteceu: aconteceu, em português corrente, a transferência de 360 milhões de dólares pertencentes à população brasileira para o bolso de uns vagos belgas, donos de uma certa Astra Oil, em troca de um ativo que um ano antes fora negociado por uma soma nove vezes menor.

Com a definição, tornou-se possível separar num instante o verdadeiro do falso. Os fatos mostram que é verdadeiro afirmar: “A presidente Dilma Rousseff cometeu um desatino que ficará registrado na história nacional da incompetência”. Os mesmos fatos mostram que é falso afirmar qualquer outra coisa.

É tudo muito simples. Dilma, após oito anos de um silêncio de cemitério, afirmou ao público brasileiro que não recebeu, na ocasião da compra, dados certos e completos por parte da direção executiva da estatal, o grupo que realmente cuida de suas operações ─ e que não teria dado sua aprovação ao negócio se soubesse direito as condições reais em que ele fora realizado.

Fim da história: a presidente confessou que não sabia o que estava fazendo.

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22/03/2014

às 15:00 \ Política & Cia

Fernão Mesquita: Por que o Brasil encontra-se hoje na inédita situação do país que sofreu um golpe de Estado mas ainda não percebeu

Petrobras paga o equivalente a 277,64 vezes o valor de Pasadena, e Dilma, que na época era presidente do conselho de administração e assinou o contrato, vem a público declarar que “foi mal informada sobre a operação” (Foto: Estadão Conteúdo)

A Petrobras paga o equivalente a 277,64 vezes o valor da refinaria de Pasadena, e Dilma, que na época era presidente do conselho de administração e assinou o contrato, vem a público declarar que “foi mal informada sobre a operação” (Foto: Estadão Conteúdo)

Artigo publicado no blog Vespeiro

GOLPE COM ANESTESIA

Em 11 de julho de 2012 O Estado de S. Paulo publicou a primeira e quase única matéria que saiu na “grande” imprensa brasileira até a quarta-feira, dia 19, sobre o verdadeiro assalto praticado contra a “nossa” Petrobras envolvendo uma refinaria obsoleta em Pasadena, Texas, que nos foi empurrada goela abaixo daquela forma risonha e franca habitual entre os que têm a certeza da impunidade.

Naquela ocasião, já lá vão 20 meses, o destaque dado à matéria foi inteiramente desproporcional ao escândalo que ela relatava e que envolvia diretamente ninguém menos que a atual presidente da Republica, Dilma Rousseff, presidente do Conselho de Administração da Petrobras quando a falcatrua foi aprovada.

Veja bem, o resumo do caso é o seguinte:

Em 2005 a família Frére, da Bélgica, compra a refinaria de Pasadena por US$ 42,5 milhões. Era uma refinaria pequena que estava desativada e que não tinha condições técnicas de processar o petróleo pesado produzido no Brasil.

Em 2006, ela vende à Petrobras 50% do que comprou por US$ 360 milhões, ou seja, 8,47 vezes mais do que pagou pela refinaria inteira ou 17 vezes mais que o que pagou por 100% de suas ações. O agente direto dessa transação, Alberto Feilhaber, é um desses patriotas que pululam neste governo. Tinha 20 anos de Petrobras em seu currículo mas, àquela altura estava empregado da Astra, a empresa dos tais belgas.

Mas essa primeira mordida não foi bastante. Segundo informou na quarta-feira O Estado de S. Paulo com 20 meses de atraso em relação à sua primeira matéria, a Petrobras se comprometeu por contrato a comprar o restante das ações ao fim de um certo prazo acrescidas de um lucro anual de 6,9%.

Em 2012, ao fim de uma batalha judicial, a Petrobras paga aos felizardos belgas mais 820 milhões e quinhentos mil dólares pelos 50% restantes, perfazendo 1 bilhão e 180 milhões de dólares pelo “mico” inteiro, o equivalente a 277,64 vezes o que eles tinham pago pela empresa, o que obviamente não quer dizer que eles embolsaram sozinhos toda essa multiplicação.

José Dirceu; Antonio Palocci; Dilma Rousseff; Sérgio Gabrielli e Graça Foster: imagine a festa (Fotos: Marcello Casal Jr / ABr :: Gustavo Miranda / Agência O Globo :: Marcus Boeira :: AFP)

José Dirceu; Antonio Palocci; Dilma Rousseff; Sérgio Gabrielli e Graça Foster: imagine a festa (Fotos: Marcello Casal Jr / ABr :: Gustavo Miranda / Agência O Globo :: Marcus Boeira :: AFP)

No meio do caminho, desde 2008 quando entrou em litígio nos EUA contra seus sócios belgas, a Petrobras contrata um escritório de advocacia ligado aos próprios signatários da falcatrua para defendê-los naquele país pela bagatela 7 milhões e novecentos mil dólares…

E quem foi o arquiteto de toda essa operação transcorrida em pleno ano eleitoral?

Um certo senhor Nestor Cerveró, nomeado Diretor Internacional da Petrobras, segundo consta por ninguém menos que José Dirceu, o mais VIP entre os hospedes da ala VIP da Penitenciária da Papuda que ele divide com metade da diretoria do Partido dos Trabalhadores que ainda nos governa, depois que ele já tinha sido apeado da Casa Civil da Presidência da Republica de Lula por causa do Mensalão.

Este senhor Cerveró continuava até hoje na Petrobras como Diretor Financeiro da BR-Distribuidora, imaginem vocês que festa!

As demais figuras de proa envolvidas na operação não estão mais lá.

Dilma Rousseff, a presidente do Conselho de Administração que assinou o negócio proposto pelo preposto de Dirceu, virou presidente da Republica e publica nota oficial no Estado para dizer, candidamente, que “foi mal informada sobre a operação” que aprovou (e certamente continua sendo, posto que o “omisso” mor continua onde estava). Vale a pena ler aqui esta ode à cara-de-pau.

Sérgio Gabrielli, então diretor da Petrobras, é hoje Secretário de Planejamento do governo da Bahia chefiado por Jaques Wagner, que pretende suceder no governo daquele estado, e que na época também fazia parte do Conselho da Petrobras e também assinou o esbulho. Andam juntos desde sempre, esses dois.

Outro figurão cuja assinatura consta desse contrato-confissão é o hoje “consultor de empresas” e então ministro da Fazenda e membro do Conselho da Petrobras, Antônio Palocci.

O arquiteto da história é Nestor Cerveró, que continua na Petrobras como diretor financeiro (Foto: Agência Petrobras)

“O arquiteto dessa obra ocorrida em pleno anoa eleitoral é Nestor Cerveró, que continua na Petrobras como diretor financeiro” (Foto: Agência Petrobras)

Apesar de todos esses elementos já estarem presentes desde a primeira matéria, ela saiu, como disse, perdida numa das páginas internas do jornal.

Dez dias depois, a 21 de julho, o mesmo jornal publica uma matéria assinada pelos mesmos repórteres que assinavam a primeira para, sem mencionar o caso Pasadena uma única vez, contar ao distinto público que dona Graça Foster, que substituiu Gabrielli na presidência da Petrobras, estava “passando um pente fino” em todos os contratos da estatal, além de afastar quatro diretores ligados ao ex-presidente, com quem, entretanto, seguia mantendo as melhores relações: “A gente é amigo… A diferença é que você é menino e eu sou menina”.

Não é um amor?

Sobre Pasadena, porém, ela nada mais disse nem lhe foi perguntado.

O resto da grande imprensa brasileira, com exceção da VEJA, praticamente ignorou o assunto.

Seguiu publicando, aqui e ali, os dossiês regulamentares a que figuras nunca nomeadas lhe “dão acesso”, tais como, entre outros, o caso Alstom, velho de 31 anos e envolvendo, entre outras figuras menores do partido, um grande número de membros já falecidos do PSDB, que nesse meio tempo mereceu dúzias das manchetes que todos negaram ao caso da multiplicação por 277 vezes do preço de um bem que não nos serve para nada numa transação aprovada pela atual presidente da Republica candidata à reeleição em pessoa.

Nesse meio tempo, ainda, a Petrobras, por essas razões e por outras ainda piores, teve seu valor de mercado reduzido em 43% (desde 2010), algo equivalente a R$ 165 bilhões de prejuízo para seus acionistas ao redor do mundo, os mesmos de cujo dinheiro depende a reforma da infraestrutura brasileira que, nestes 12 anos à frente do destino da Nação, o PT permitiu que se transformasse em sucata depois de dissipar na compra de votos e na contratação de “companheiros” todo o dinheiro que poderia tê-la resgatado e modernizado minimamente.

(PARA TERMINAR DE LER, CLIQUE AQUI)

28/02/2014

às 9:03 \ Disseram

Joaquim Barbosa: “Esta é uma tarde triste para este STF”

“Esta é uma tarde triste para este STF porque, com argumentos pífios, foi reformada, foi jogada por terra, extirpada do mundo jurídico uma decisão plenária sólida, extremamente bem fundamentada, que foi aquela tomada por este plenário no segundo semestre de 2012”

Joaquim Barbosa, presidente do Supremo Tribunal, diante do julgamento dos embargos infringentes do mensalão que permitiram a figurões do escândalo escapar das penas mais pesadas a que haviam sido anteriormente condenados

27/02/2014

às 18:30 \ Política & Cia

Vida mansa… antes da chegada da Justiça

Férias, enquanto a denúncia não vem (Imagem: Instagram)

Férias, enquanto a denúncia não vem (Imagem: Instagram)

Nota de Otávio Cabral, publicada em edição impressa de VEJA

SOMBRA E ÁGUA FRESCA

Enquanto o Ministério Público não apresenta a denúncia contra os fiscais envolvidos na máfia que desviou 500 milhões de reais da prefeitura de São Paulo, um dos protagonistas do escândalo curte as férias forçadas pelo afastamento do serviço público.

O fiscal Luís Alexandre de Magalhães passou a semana retrasada em Ilhabela, no litoral paulista.

Os registros dos melhores momentos foram feitos pela namorada de Magalhães, a personal trainer Nágila Coelho, e divulgados no Instagram.

Os tempos, no entanto, são de vacas magras em comparação à época em que Magalhães alugava jatos duas vezes por mês para ir a Angra dos Reis ao lado de garotas de programa.

26/01/2014

às 18:00 \ Política & Cia

Roberto Pompeu de Toledo: Por uns cabelinhos a mais

Renan Calheiros e seu implante: "projeta-se em três meses o prazo para que irrompam, desassombrados como brotos a forçar passagem no solo, os primeiros fios" (Foto: Pedro Ladeira / AFP)

Renan Calheiros e seu implante: “projeta-se em três meses o prazo para que irrompam, desassombrados como brotos a forçar passagem no solo, os primeiros fios” (Foto: Pedro Ladeira / AFP)

Artigo publicado em edição impressa de VEJA

POR UNS PELOS A MAIS

Roberto Pompeu de ToledoSe tudo correr conforme o esperado, frutificarão na cabeça do senador Renan Calheiros ao longo da sessão legislativa que se abre no próximo mês os 10.118 fios de cabelo que lhe foram transplantados da nuca para o cocoruto, em cirurgia realizada em dezembro no Recife.

Projeta-se em três meses o prazo para que irrompam, desassombrados como brotos a forçar passagem no solo, os primeiros fios. Isso ocorrerá lá para meados de março. No segundo semestre já terão crescido o suficiente para fazerem diferença.

Ganhará o senador no cobiçado reforço à cobertura capilar. Perderá o Senado. Ao vir a público que Calheiros viajou num avião da Força Aérea Brasileira para fazer o transplante, enfatizou-se, com justiça, o escândalo que foi ter usado transporte oficial para uma atividade privada.

Esqueceu-se desse outro escândalo que é um senador da República submeter-se a transplante de cabelos. Renan comandará o Senado neste ano mais cabeludo, mais satisfeito com a imagem que vê no espelho e tomado de renovado prazer ao deslizar o pente sobre o couro cabeludo — mas também mais falso e incondizente com o que se espera de um senador.

O mundo se divide entre homens que podem e não podem fazer transplante de cabelo. Cantores e atores podem. Para alguns, é questão de sobrevivência profissional. Políticos não podem, assim como não podem pintar os cabelos. Isso devia estar na Constituição. Como não está, eis mais um item a ser incluído no rol da sonhada reforma política.

Duas subcategorias podem menos ainda do que o comum dos políticos. A primeira é a dos que gostam de se dar ares de revolucionários. José Dirceu, por exemplo. Ao se apresentar para a prisão, ele fez o gesto de desafio comunista do braço levantado e do punho fechado.

Meses antes, havia se submetido a um transplante de cabelos, por sinal com o mesmo doutor Fernando Basto que atendeu Renan e é o preferido dos políticos. Difícil imaginar Che Guevara marcando hora com o doutor Basto, ao descer da Sierra Maestra.

A outra categoria é a dos senadores. Transplantar ou pintar cabelos é algo que se tomou epidêmico entre os políticos brasileiros. Alguns transplantam e, ainda por cima, pintam. Se tal prática já é preocupante em deputados, ministros ou governadores, mais ainda se toma entre senadores.

O Senado, por definição, é o local dos mais velhos, e, por isso mesmo, dos que se supõem mais experientes e mais sábios, entre os encarregados de zelar pela pátria. A palavra tem a mesma raiz de senhor, de senhorial, de senhoril, de sênior, e todas remetem à austeridade, à prudência e à sensatez identificadas com o passar dos anos.

Ora, pintar ou implantar cabelos é, antes e acima de tudo, um ardil destinado a falsear a idade. É portanto tentar dar um drible na senhoria, na senioridade e na senhorilidade em que repousa a própria ideia de Senado. Senador que pinta ou transplanta o cabelo fere o princípio fundador da instituição a que pertence. Com isso, entra em conflito com ela, apequena-a e desmoraliza-a.

Senadores Joaquim Nabuco; Braz Benjamin da Silva Abrantes; José Maria da Silva Paranhos; Pedro de Araújo Lima, o Marquês de Olinda; Eusébio de Queiroz Coutinho Mattoso Câmara; Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias; e Francisco Jê Acaiaba de Montezuma

Senadores Joaquim Nabuco; Braz Benjamin da Silva Abrantes; José Maria da Silva Paranhos; Pedro de Araújo Lima, o Marquês de Olinda; Eusébio de Queiroz Coutinho Mattoso Câmara; Luiz Alves de Lima e Silva, o Duque de Caxias; e Francisco Jê Acaiaba de Montezuma

Na conhecida crônica O velho Senado, Machado de Assis recorda os senadores que conheceu como jovem repórter, em 1860: “Uns, como Nabuco e Zacarias, traziam a barba toda feita; outros deixavam pequenas suíças, como Abrantes e Paranhos, ou, como Olinda e Eusébio, a barba em forma de colar; raros usavam bigodes, como Caxias e Montezuma”.

Não há sinal de pelos falsificados em nenhum dos velhos políticos que desfilam pela memória de nosso grande romancista. O marquês de Itanhaém ele lembra que usava cabeleira, mas isso naquele tempo, em vez de trair a tentativa de parecer mais jovem, tinha o efeito contrário.

Itanhaém usava cabeleira porque, sendo o mais velho da casa, ainda cultivava um hábito do começo do século.

Visto de hoje, o Senado de 1860 tinha muitos defeitos, a começar por se constituir num reduto de senhores de escravos, legislando num país escravista. Mas era integrado por cavalheiros que assumiam o caráter sênior, senhoril e senhorial inerente ao cargo.

Outro grande escritor brasileiro, Mário de Andrade, calvo notório e precoce, já aos 30 anos, escrevia: “Muito de indústria me fiz careca / Dei um salão aos meus pensamentos”. Que ninguém se sinta ofendido, afinal há transplantados e transplantados, mas pela lógica do poeta, ao qual adere o colunista com o entusiasmo de irmão em cocoruto abandonado à própria sorte, Renan Calheiros fez o contrário: estreitou os cubículos pelos quais vagueiam seus pensamentos.

14/12/2013

às 14:15 \ Política & Cia

MENSALÃO: ADEUS, DIRCEU! Fim de linha para o estalinista-mor do PT e de seu projeto totalitário

Dirceu: fim da carreira política e de projeto estalinista de poder (Foto: veja.abril.com.br)

Publicado originalmente em 9 de outubro de 2012.

Sete anos após a eclosão do maior escândalo da política nacional, o ex-todo-poderoso ministro da Casa Civil José Dirceu, braço direito de Lula e grande mentor de um projeto estalinista de tomada do Estado por um partido – o seu, o PT –, é condenado pela mais alta corte de Justiça do país, mesmo antes do voto de todos os 10 ministros em atividade, pelo crime de corrupção ativa — por comprar apoio ao governo Lula com dinheiro sujo.

O mesmo destino tiveram, por votação mais ampla, o ex-presidente do PT José Genoino e o ex-tesoureiro do partido Delúbio Soares.

A condenação, ainda que por ela eventualmente — repito, eventualmente — Dirceu não vá cumprir pena de cadeia (há que aguardar o julgamento dos outros crimes de que ainda é acusado no processo e a atribuição de penas pelos ministros), encerra, de forma peremptória e dramática, a carreira política do ambicioso ex-líder estudantil, ex-exilado, ex-clandestino, ex-candidato ao governo de São Paulo, ex-deputado e ex-ministro que, não fora a eclosão do escândalo do mensalão, em 2005, seria o delfim de Lula, o homem que muito provavelmente estaria, hoje, ocupando o Palácio do Planalto.

A condenação pelo Supremo faz justiça ao grande executor do esquema corrupto e livra a vida política do país, até onde a vista alcança, da atividade deletéria de um pretenso defensor da democracia que sempre abrigou um projeto totalitário.

06/12/2013

às 14:00 \ Política & Cia

Um ano depois da descoberta do escândalo estrelado por Lula e Rose, o país continua querendo saber quem fez o quê

Rosemary Nóvoa de Noronha: ex-chefe de gabinete da Presidência em São Paulo  (Foto: Jorge Araujo / Folhapress )

Rosemary Nóvoa de Noronha: ex-chefe de gabinete da Presidência em São Paulo (Foto: Jorge Araujo / Folhapress )

Por Júlia Rodrigues, publicado no blog de Augusto Nunes

UM ANO DEPOIS DA DESCOBERTA DO ESCÂNDALO ESTRELADO POR LULA E ROSE, O PAÍS CONTINUA QUERENDO SABER QUEM FEZ O QUE

Um ano depois do desfecho da Operação Porto Seguro, promovida pela Polícia Federal para desbaratar uma quadrilha especializada na comercialização de pareceres fraudulentos emitidos por agências reguladoras, a única mulher envolvida no escândalo é também a única integrante do bando cuja vida mudou para pior.

Chefe do escritório da Presidência da República em São Paulo desde 2004, Rosemary Nóvoa de Noronha reinou no 17° andar do prédio do Banco do Brasil na Avenida Paulista até a descoberta de que o local fora reduzido a uma extensão de um grupo criminoso.

Os chefes eram os irmãos Paulo Vieira, diretor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), e Rubens Vieira, diretor da Agência Nacional de Águas (ANA). Além de Rose, participavam do segundo escalão figurões como José Weber de Holanda, número dois da Advocacia-Geral da União.

Escalada para agir no núcleo especializado em tráfico de influência ─ um dos três em que o bando se dividia ─ Rose valeu-se das relações íntimas que mantinha com Lula para a consumação de irregularidades suficientemente numerosas para promovê-la ao cargo informal de “Facilitadora-Geral da República”.

A boa vida acabou em 23 de novembro de 2012, quando a Polícia Federal, munida de um mandado de busca e apreensão, invadiu o escritório e a casa da protegida de Lula.

Passado um ano, o acervo de reveses é de bom tamanho. A perda do salário de R$ 12 mil é a menos relevante. Uma mesada negociada com Paulo Okamotto, presidente do Instituto Lula, tem livrado a desempregada de dificuldades financeiras.

O que a transformou numa mulher amargurada foi a perda de outros privilégios que lhe garantiam a vida de segunda-dama.

Deixou, por exemplo, de viajar no Aerolula, a bordo do qual fez 28 viagens internacionais em companhia do presidente como passageira clandestina, deixou de ser convidada para hospedar-se no Palácio Pamphili, a esplêndida relíquia arquitetônica que abriga a embaixada brasileira em Roma.

Perdeu até o direito aos mimos que levaram a Polícia Federal a qualificá-la de petequeira. Essa expressão, utilizada nos meios políticos e empresariais, designa quem se deixa corromper por ninharias, como ingressos para camarotes no Carnaval do Rio de Janeiro, cruzeiros no litoral paulista, financiamentos de pequenas cirurgias ou apartamentos.

Indiciada em dezembro de 2012 pela Polícia Federal, Rose foi, pouco depois, denunciada pelo Ministério Público por formação de quadrilha, corrupção passiva, tráfico de influência e falsidade ideológica.

Em setembro passado, a Controladoria-Geral da União decidiu exonerar a ex-chefe do escritório da Presidência em São Paulo, que nunca mais poderá ocupar cargos públicos federais. A CGU entendeu que Rose havia incorrido no crime de improbidade administrativa.

Para a mulher que nomeava parentes e amigos com o amparo do presidente, nada foi mais penoso que a perda do prestígio. Ela nomeou, por exemplo, os irmãos Vieira. Até agora, os comparsas não foram demitidos.

Embora denunciados pelo Ministério Público Federal, os demais integrantes da quadrilha continuam recebendo salários do governo, como informou a reportagem de VEJA publicada neste 23 de novembro.

Em público, Rose evita queixar-se dos problemas que enfrenta. Em troca do silêncio, ganhou um batalhão de advogados especializados em localizar brechas na Lei para adiar o andamento de processos com sucessivos recursos.

Ela mantém o direito de ir e vir. Mas evita exercê-lo para não se expor ao assédio de jornalistas. Enclausurada na casa da filha, Rose rumina as lembranças dos tempos em que exibia ostensivamente a proximidade com o ex-presidente, a quem se referia como “chefe” e “PR” (Presidente da República), deixando, eventualmente, escapar um “Luiz Inácio” para impressionar colegas de trabalho.

Agia com discrição apenas como passageira do Aerolula. Só embarcava quando Marisa Letícia não estava a bordo. Para driblar a vigilância da primeira-dama, que conferia os nomes incluídos na comitiva, Rosemary Noronha nunca aparecia na lista de passageiros publicada no Diário Oficial. É provável que se tenha transformado na viajante clandestina com a maior milhagem da história da aviação.

“Imagine uma pessoa que passou a vida pendurada no cheque especial e, de repente, recebe uma herança de um tio. Essa é a Rose”, resumiu um amigo. Motoristas, secretárias e copeiras que foram subordinados à imperatriz do escritório, revelam que gritos e humilhações públicas eram frequentes.

Uma secretária alvejada por um dos chiliques, agravado pela ameaça de demissão, teve de ser hospitalizada para tratar a crise de hipertensão. Rose não só negou socorro à funcionária, como tirou-lhe o emprego.

Tantos sintomas de deslumbramento são justificados pela biografia. Na década de 90, Rosemary Noronha sequer sonhava com a chegada ao coração do poder. Bancária, participava de algumas atividades no sindicato da categoria em São Paulo, instalado num prédio ao lado da sede nacional do PT.

Despertou a atenção dos chefes não por intervenções em assembleias, mas pela silenciosa exibição de outros atributos, como as volumosas coxas e os cabelos longos. Chegou ao Partido dos Trabalhadores pelas mãos de José Dirceu, que a contratou como secretária.

O chefe apresentou-a a Lula. Em 1994, ainda trabalhava com Dirceu quando passou a cuidar da agenda do futuro presidente. O estreitamento das ligações animou Lula a alojar a protegida no cargo de que foi destituída só em novembro de 2012.

A mudez de 12 meses só foi interrompida pela curta entrevista concedida a VEJA. Afirmou que seu relacionamento com o ex-presidente era “totalmente profissional”, baseado em “amizade e fidelidade”. “As nossas famílias se conhecem desde que as crianças eram pequenas”, disse.

Ainda no começo da conversa, irritada com uma pergunta banal ─ como e quando havia conhecido Lula? ─ deu a entrevista por encerrada.

Lula também mantém distância da história muito mal contada. Dois dias depois da explosão do escândalo, declarou-se traído. “Eu me senti apunhalado pelas costas”, lamuriou-se. “Tenho muito orgulho do escritório da Presidência, onde eram feitos encontros com empresários para projetos de interesse do país”.

Em março, numa entrevista ao jornal Valor Econômico, criticou a cobertura do noticiário da imprensa sobre o Caso Rose. “Quando as coisas são feitas de muito baixo nível, quando parecem mais um jogo rasteiro, eu não me dou nem ao luxo de ler nem de responder”, desconversou o entrevistado. “Porque tudo o que o Maquiavel quer é que ele plante uma sacanagem e você morda a sacanagem”.

Lula continuava procurando algum álibi consistente em setembro, mostrou a entrevista concedida ao Correio Braziliense. “A CGU julgou um relatório feito pela Casa Civil. E pelo que vi do relatório, ele confirma as conclusões da Casa Civil”, resumiu. “Todo servidor que comete algum ilícito tem de ser exonerado”.

Neste começo de dezembro, os brasileiros ainda continuam à espera de explicações menos rasas. O país quer saber, por exemplo, todos os detalhes da mesada que Rose recebe. Ou quem banca o batalhão milionário de 40 advogados incumbidos de defendê-la.

Lula faz de conta que não há o que explicar. É desmentido por, pelo menos, 40 perguntas formuladas pelo Brasil que presta.

Fala, Lula. O país continua querendo saber.

27/11/2013

às 13:31 \ Política & Cia

PSDB CITA “ALOPRADOS” E PEDE DEMISSÃO DO MINISTRO DA JUSTIÇA

 

Linguagem pesada contra Cardozo: tucanos o acusam de "aloprado", "manipulador", "irresponsável", "farsante" e "indigno".(Foto: Marcelo Casal Jr. / Agência Brasil)

Linguagem pesada contra Cardozo: tucanos o acusam de “aloprado”, “manipulador”, “irresponsável”, “farsante” e “indigno” (Foto: Marcelo Casal Jr. / Agência Brasil)

Por Andreza Matais, do jornal O Estado de S. Paulo 

Tucanos dizem que o PT usa o cartel de trens para tentar abafar o mensalão e falam em documento adulterado. Aécio acusa ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, de ter perdido as condições de coordenar investigações sobre o caso Siemens/Alstrom

O PSDB do senador Aécio Neves pediu nesta terça, 26, a demissão do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e acusou o PT de comandar uma operação “aloprada” envolvendo denúncias do cartel de trens para atingir políticos tucanos e tentar, com isso, abafar as prisões do mensalão.

Ato contínuo, Cardozo negou motivações políticas nas investigações do escândalo que recai sobre os adversários e afirmou que o País não vive mais a “época do engavetador”.

A polêmica se instalou após o Estado revelar, na quinta-feira passada, o conteúdo de um relatório escrito pelo ex-diretor da Siemens Everton Rheinheimer. No texto, o ex-executivo diz ter provas de caixa 2 do PSDB e do DEM e cita propina ao chefe da Casa Civil do governador tucano Geraldo Alckmin, Edson Aparecido.

Segundo Rheinheimer, outros políticos, como o líder do PSDB no Senado, Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), são próximos do lobista Arthur Teixeira, suspeito de intermediar propinas do cartel.

Ainda na semana passada, Cardozo disse que foi ele quem encaminhou as denúncias aos federais após recebê-las do deputado estadual petista Simão Pedro, que há anos ajuda na investigação do cartel.

Reunidos em Brasília, os tucanos, incluindo os citados no relatório pelo ex-diretor da Siemens, chamaram, nesta terça, o ministro de “aloprado”, “manipulador”, “irresponsável”, “farsante”, “indigno”.

– Acho que ele (Cardozo) perdeu as condições de ser o coordenador dessas investigações como ministro da Justiça, pelo açodamento e omissão nesse processo — disse Aécio. — O PT faz um mal enorme para a democracia, ao fazer do poder sua razão de existir.

O PSDB acusa o ministro de ter dado credibilidade para um relatório apócrifo, encaminhando a papelada com o objetivo de atingir o partido para “igualar” o PSDB ao PT.

Aécio   (Foto: Lia de Paula / Agência Senado)

Aécio: “o PT faz um mal enorme à democracia, ao fazer do poder sua razão de existir” (Foto: Lia de Paula / Agência Senado)

Os tucanos se apegam ao fato de o relatório não trazer a assinatura de Rheinheimer. O ex-diretor da Siemens, porém, confirmou ser o autor do texto em conversas com os policiais federais.

O secretário de Energia do Estado de São Paulo, José Aníbal, disse que o PT tinha a denúncia que acusa os tucanos já em junho, mas só “deixou vazar” a informação após a prisão dos condenados do mensalão. “O ministro passou a agir como operador do submundo”, disse.

Após a entrevista dos tucanos, Cardozo também convocou a sua. “Pode envolver meu partido, pessoas da minha família. Aqui tem o nome de pessoas que respeito muitíssimo, embora adversários. Imaginar que iria rasgá-lo é imaginar que estamos numa época de ‘engavetador’”, afirmou, recorrendo, ele também, ao “dicionário informal” político.

“Engavetador” e “aloprados”

“Engavetador” é uma referência ao ex-procurador-geral da República Geraldo Brindeiro, do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, acusado por adversários de não dar seguimento a denúncias contra o PSDB.

Já o “aloprado” usado pelos tucanos nesta terça é uma referência ao escândalo de uso de dossiês por petistas na campanha de 2006 a fim de atingir a candidatura de José Serra (PSDB) ao governo paulista.

Foi o próprio ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva quem cunhou o termo, ao falar dos petistas envolvidos no caso.

“A única diferença desse episódio para o caso dos aloprados é que esse caso envolve um deputado, um ministro e o presidente do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica)”, afirmou [o deputado] Carlos Sampaio, líder do PSDB na Câmara.

O deputado citado pelo líder tucano é Simão Pedro, hoje secretário municipal de Serviços da gestão Fernando Haddad (PT) em São Paulo.

A citação do presidente CADE se deve ao fato de Vinícius Carvalho, que comanda o órgão federal que fiscaliza a concorrência empresarial no país, ser petista e ter trabalhado no gabinete de Simão Pedro na Assembleia Legislativa.

O CADE fechou em maio um acordo de leniência com a Siemens. A empresa admitiu a existência do cartel em São Paulo e no Distrito Federal entre 1998 e 2008. Em troca da admissão de culpa, a multinacional espera ter a redução de futuras punições.

Nesse acordo, não há menção a propina paga a políticos. Everton Rheinheimer é um dos seis ex-diretores da Siemens que assinam o acordo.

‘Ditatorial’

Acompanhado de Carvalho e do diretor da Polícia Federal, Leandro Daiello, Cardozo foi duro ao responder às críticas tucanas. “Acho muito ruim investigações se transformarem em disputa política. Todos são iguais perante a lei. Só em mentalidades ditatoriais se pensa que todos são iguais, mas alguns são mais iguais que os outros.”

Cardozo reafirmou que recebeu um conjunto de papéis de Simão Pedro no dia 12 de maio deste ano. Ele justificou que o encontro se deu em sua casa, na capital paulista, num domingo, porque o deputado tentou ser recebido durante a semana mas sua agenda não permitiu o encontro.

Para evitar que o colega petista tivesse que viajar a Brasília, abriu as portas de sua casa.

“Então encaminhei (o relatório) a ele (diretor da PF) e pedi o máximo de cautela, porque havia a menção a algumas pessoas, algumas das quais sempre tive e continuo a ter como amigos pessoais, embora adversários, pessoas que respeito, que sempre respeitei e continuarei respeitando. E falei: com esse tipo de situação se toma cautela.”

Segundo o ministro, após a análise preliminar a PF vislumbrou que alguns fatos tinham correlação com uma investigação instaurada em 2008, o que motivou os federais a anexarem o relatório a esse inquérito.

“Não há nada sendo investigado a partir de uma denúncia anônima. Já existia o inquérito”, afirmou o diretor-geral da Polícia Federal.

Ele acrescentou que o relatório foi encaminhado para outras superintendências do órgão, sinalizando, sem dar mais detalhes, que as investigações podem atingir outros Estados além de São Paulo e do Distrito Federal.

PSDB vai à Comissão de Ética

O PSDB afirmou que encaminhará uma representação à Comissão de Ética Pública da Presidência sobre Cardozo por causa do episódio.

Também tentará convocar o ministro da Justiça para depor na Câmara e no Senado e irá representar contra ele no Ministério Público por improbidade administrativa.

Os tucanos acusam o ministro de ter assumido o envio do documento à PF para proteger o CADE – nos documentos internos da Polícia Federal, consta [de maneira inverídica] que as acusações de corrupção chegaram via CADE.

19/11/2013

às 14:00 \ Política & Cia

CARTA AO LEITOR” de VEJA: ” Que os réus do mensalão sejam não os últimos, mas os primeiros de uma nova era de tolerância zero com a ação dos corruptos”

Dois momentos -- A capa de VEJA de outubro de 2012 e a de setembro de 2013: euforia e desalento antes da prisão

As capas de VEJA de outubro de 2012 e de setembro de 2013

“Carta ao Leitor” da edição de VEJA que está nas bancas

QUE SEJA SÓ UM COMEÇO

Depois de mais de oito anos de idas e vindas, surpresas positivas e decepções, finalmente, na semana passada, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu decretar a prisão dos réus condenados no escândalo do mensalão, a ousada operação clandestina de uso de dinheiro público e privado com o objetivo de perpetuação de uma facção no poder.

Os ministros do STF decidiram que o correto é cumprir imediatamente as sentenças ou as partes delas já definidas e contra as quais não cabem mais recursos. O desfecho do escândalo do mensalão, com a ida para a prisão dos réus, não pode ser encarado como a vitória de um partido sobre outro ou da oposição sobre o governo.

Em um país em que a corrupção vinha vencendo todas as disputas com a ética, a decência e a justiça, o significado da prisão dos mensaleiros é mais amplo, profundo e precioso.

O Brasil espera que o exemplo de cima dado pelo STF se espalhe pelas instâncias inferiores da malha jurídica nacional e que cada um de seus integrantes se sinta, a partir de agora, um soldado na luta contra a corrupção. Que os réus desse escândalo sejam não os últimos, mas os primeiros de uma nova era de tolerância zero com a ação dos corruptos.

Que seja reavivado o real significado do conceito de república, a res publica dos romanos, em que a responsabilidade de cada um tem de ser sempre maior quando o bem é de todos. Isso é o reverso da cínica atitude que tristemente prevalece no Brasil, com as honrosas exceções de sempre, segundo a qual o que é de todos não é de ninguém — ou, pior ainda, é de quem pegar primeiro.

Que o caso do mensalão entre para a história do Brasil como o marco inaugural de uma nova etapa na dura caminhada civilizatória dos brasileiros.

O episódio deve ser lembrado como a pedra fundamental da institucionalização das virtudes republicanas no Brasil. Assim, com certeza, a Justiça não precisará mais de oito longos anos para punir corruptos pegos em flagrante. Assim, as boas causas poderão triunfar não mais pelo caráter de um ou outro magistrado ou graças ao voluntarismo de um servidor público extremado no cumprimento de seus deveres, mas pela existência de instituições sólidas, funcionais e independentes dos interesses individuais ou de grupos.

14/11/2013

às 14:00 \ Política & Cia

MENSALÃO: Roberto Jefferson, mesmo insatisfeito com sua pena, acha que, com a decisão do Supremo, “nem tudo está perdido” no país

Roberto Jefferson foi condenado a 7 anos e 14 dias de prisão e multa de R$ 720 mil, por corrupção ativa e lavagem de dinheiro (Foto: Marcos Tristão / O Globo)

Roberto Jefferson foi condenado a 7 anos e 14 dias de prisão e multa de R$ 720 mil, por corrupção ativa e lavagem de dinheiro (Foto: Marcos Tristão / O Globo)

A defesa de ex-deputado esperava ter pena reduzida por ter denunciado o escândalo, em 2005

Do jornal O Estado de S. Paulo

O ex-deputado Roberto Jefferson comentou em um texto no blog a decisão do Supremo Tribunal Federal, que determinou a execução das penas dos condenados por envolvimento no mensalão [caso no qual ainda falta decidir sobre embargos em favor de alguns dos réus -- inclusive o ex-ministro José Dirceu -- por determinados crimes].

Sob o título “Nem tudo está perdido”, publicado às 9h56 desta quinta-feira, 14, o denunciante do esquema manifestou sua insatisfação pela determinação de sua prisão, mas se disse confortado com a crença de que a política “pode ser melhor”.

“Há oito anos denunciei ao País o maior escândalo que jamais presenciei no Planalto Central desde que me tornei deputado. Tudo realizado por quem, por décadas, apontou o dedo para muitos, acusando-os de corruptos, dando início à nefasta judicialização da política brasileira”, escreveu.

Jefferson foi condenado a 7 anos e 14 dias de prisão e multa de R$ 720 mil, por corrupção ativa e lavagem de dinheiro. A defesa esperava reduzir a pena pelo fato de o ex-deputado ter denunciado o escândalo, em 2005, mas o recurso foi rejeitado. Ainda não há data para as prisões ocorrerem.

“Fui cassado e tive meus direitos suspensos por 10 anos; ontem, a Corte Suprema do meu país decretou minha prisão. Estou satisfeito com a decisão? Mentiria se dissesse que sim; conforta-me, porém, a crença de que a política brasileira, daqui para a frente, pode ser melhor”, completou Jefferson.

Pouco depois, em seu perfil no Twitter, o ex-deputado disse estar “tudo certo” e que aguardará o “destino.” “Não (tenho arrependimentos), tudo certo. Não me regozijo, sou um réu condenado como todos os outros, vamos aguardar que se cumpra o destino”, escreveu.

Segundo sua assessoria, Jefferson está em Comendador Levy Gasparian, município da Região Serrana do Rio onde tem casa.

 

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