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Elle Fanning

19/02/2012

às 12:00 \ Livros & Filmes

Outro filmaço para esses feriados: “Um Lugar Qualquer”, de Sofia Coppola, ou como ser rico, famoso — e ter a morte na alma

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Cena do filme "Um lugar qualquer": o ator entediado que já não é dono de sua vida começa a vir à tona quando precisa ficar com a filha adolescente

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Um Lugar Qualquer:

 A vida como ela não é

Em Um Lugar Qualquer, a diretora Sofia Coppola retorna ao tema fundamental de seu cinema: o das pessoas cercadas de privilégio, mas desprovidas de qualquer poder sobre si mesmas

Vista pelos olhos da diretora Sofia Coppola, que conhece o assunto em primeira mão, a vida de um astro de cinema em Um Lugar Qualquer (Somewhere, Estados Unidos, 2010),  é uma paisagem desorientadora: um relevo informe, sem placas, sinais ou marcos capazes de diferenciar aqui de lá – e onde não se distingue hoje de ontem ou de amanhã.

O protagonista Johnny Marco (Stephen Dorff) é um ator do status de um Keanu Reeves. Tem à disposição, portanto, a Ferrari, as mulheres que se atiram em cima dele, os assessores, os motoristas que o levam para lá e para cá e a suíte imensa no Chateau Marmont, o hotel de Los Angeles legendário menos pelo luxo do que pela tolerância para com estilos de vida pouco ortodoxos.

Nesse útero protetor de personalidades pop que é o Marmont, Johnny deixa a vida passar em extravagâncias cuja soma é entorpecedora. Entra em sua própria suíte e encontra uma festa rolando, mas mal sabe quem são os convivas. Passa uma cantada numa mulher e emplaca na hora, claro; mas cai no sono enquanto tira a calcinha dela.

Cai no sono também enquanto duas strippers gêmeas, vestidas de enfermeiras sexy, tentam consolá-lo por ter quebrado o braço. Recebe telefonemas de sua assistente: agora é hora de ir dar uma entrevista, amanhã ele tem uma sessão de fotos, daqui a dois dias é preciso viajar.

Johnny não tem a menor ideia da finalidade desses compromissos, mas atravessa todos eles com paciência bovina, além de um ar constante de perplexidade. Nunca a roda-viva que se imagina ser a vida das celebridades pareceu tão ridícula e vazia quanto em Um Lugar Qualquer. Mas esse nem é o ponto a que Sofia Coppola quer chegar; é só o contexto.

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Sensualidade mecânica: Sofia Coppola deixou na trilha sonora do filme até o barulho que a pele das duas "strippers" gêmeas produz na barra, em uma das cenas-chave

Contexto, aliás, que é o mesmo em que se situam os protagonistas de seus três filmes anteriores – as irmãs lindas e cobiçadas de As Virgens Suicidas, o astro maduro e a jovem deslocada de Encontros e Desencontros, e a fútil e infeliz rainha de Maria Antonieta: pessoas que, embora cercadas de privilégio, não têm nenhum poder efetivo sobre sua existência e estão sendo dessangradas pela banalidade.

Como se se sentisse também ela privada de pontos de referência seguros em meio à aprovação quase unânime que recebe em seu próprio meio, Sofia desafia o público, aqui, a gostar dela: mostra a vida tola de Johnny em uma encenação que parece ela própria banal e sem pontuação dramática. “Parece”, porém, é a palavra-chave.

Quando Johnny está junto de Cleo, sua filha de 11 anos, coisas acontecem em seu íntimo. Tomem-se como exemplo três cenas em sua vida: as strip­pers gêmeas dançam para ele vestidas de enfermeiras e ele dorme. Noutro dia, dançam vestidas de tenistas, e ele até acha que se entusiasmou, embora seja patente quanto as danças são patéticas e a sensualidade, mecânica (a diretora nem elimina da trilha aquele barulho irritante da pele das moças contra o metal do poste).

Algum tempo depois, Johnny leva Cleo ao seu treino em um rinque de patinação. Sentado na arquibancada enquanto ela dança sobre os patins, ele de início mal presta atenção à performance. Depois, olha e acorda, um pouco surpreso com a delicadeza e a concentração da menina. Na verdade, Johnny foi vencido por uma beleza que mal é possível descrever – a de ter dado origem a algo tão melhor, mais puro e mais vivo que as coisas e pessoas que habitualmente o cercam.

Não que ele se dê conta disso; o espectador é que o percebe primeiro, se estiver prestando bastante atenção: Sofia faz questão de não frisar o paralelo crucial entre as três cenas.

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A jovem atriz Elle Fanning, num timbre impecável: a filha adolescente que consegue furar a barreira de torpor do pai famoso e de vida vazia

Cleo, interpretada com timbre impecável pela radiante Elle Fanning, irmã de Dakota, é todo o sentido, estrutura, presente e futuro de que Johnny necessitaria. E, pouco a pouco, algo dessa compreensão consegue furar a barreira do seu torpor. Não o bastante, talvez, mas algo.

Um astro, é verdade, não é amostra representativa da sociedade. Mas é emblemático do que Sofia vem caracterizando, em seu cinema, como um mal insidioso – uma tendência ao hedonismo e a se insular das partes trabalhosas e dissaborosas da vida que, no limite, leva a uma morte da alma. A questão, postula o filme, não é quão luxuosa é a redoma. É simplesmente que se viva – ou não viva – dentro dela.

(Texto da crítica de cinema e editora executiva de VEJA Isabela Boscov, publicado na edição impressa de 26 de janeiro de 2012)

 

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