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David Byrne

02/12/2012

às 18:00 \ Livros & Filmes

TEXTO, FOTO E VÍDEOS: Tim Maia — Um brasileiro chamado Jim

MAIS GRAVE, MAIS TUDO -- Tim Maia em um show da década de 80: o artífice da soul music nacional misturou o gênero americano, que ele conheceu in loco, com ritmos brasileiros como samba e baião (Foto: Ana Carolina Fernandes / Estadão Conteúdo)

MAIS GRAVE, MAIS TUDO -- Tim Maia em um show da década de 80: o artífice da soul music nacional misturou o gênero americano, que ele conheceu "in loco", com ritmos brasileiros como samba e baião (Foto: Ana Carolina Fernandes / Estadão Conteúdo)

Reportagem de Sérgio Martins, de Tarrytown, publicada em edição impressa deVEJA

 

UM BRASILEIRO CHAMADO JIM

Uma nova coletânea reforça o status cult de Tim Maia nos Estados Unidos – onde, aliás, o cantor tentou a sorte na década de 60, em uma fase pouco conhecida de sua carreira

 

O carioca Sebastião Rodrigues Maia (1942-1998) chegou aos Estados Unidos em 1959 com 12 dólares no bolso. Mal sabia balbuciar uma frase em inglês, mas pelo menos conseguiu que o taxista o levasse à estação Grand Central. Dali, pegou um trem para Tarrytown, a 40 quilômetros de Nova York, onde se hospedou na casa de uma família que conhecera no Brasil. A aventura terminou em 1964, quando ele foi deportado por roubo e posse de entorpecentes.

Cinquenta e três anos depois, o cantor retorna aos Estados Unidos, agora pela porta da frente. Lançada no início de outubro pela Luaka Bop (gravadora do roqueiro brasilianista David Byrne), a coletânea Nobody Can Live Forever, dedicada ao autor de Não Quero Dinheiro (Só Quero Amar), praticamente esgotou sua tiragem inicial de 100.00 cópias.

A imprensa tem sido igualmente generosa. O jornal The New York Times, por exemplo, deu a ele status de pioneiro: foi “o homem que colocou o funk no Rio”. Em sua acidentada turnê americana da juventude, Sebastião era chamado de “Jim”, ou, para os mais próximos, “Jimmy”, porque os americanos não conseguiam pronunciar “Tião”, apelido dos tempos do bairro da Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Hoje, ele é conhecido pelo mesmo nome com que fez fama no Brasil: Tim Maia.

O músico Roger Bruno, hoje com 68 anos, trabalhou com o cantor brasileiro nessa esquecida fase americana. Fazia doo wop (estilo vocal influenciado pelo rhythm’n’blues) quando conheceu Tim – aliás, Jim -, que então integrava uma banda de twist. Bruno convidou o brasileiro a juntar-se ao Ideals, grupo que mantinha com os vocalistas Felix de Masi, Paul Mitranga e Bill Adair. “O sotaque de Jimmy era carregado demais para que ele fosse o vocalista principal. Ele ficou responsável pelas harmonias e pela guitarra”, lembra Bruno – que era a voz maior do Ideals.

SOUL COM BOSSA -- Roger Bruno (o primeiro, das esq. para a dir.): nos anos 60, a dupla compôs New Love, que Tim Maia regravaria em 1973 - sem avisar o parceiro (Foto: Divulgação)

SOUL COM BOSSA -- Roger Bruno (o primeiro, das esq. para a dir.): nos anos 60, a dupla compôs New Love, que Tim Maia regravaria em 1973 - sem avisar o parceiro (Foto: Divulgação)

Fã de João Gilberto, o brasileiro apresentou o trabalho do bossa-novista ao amigo americano. A influência do violonista baiano fica clara em New Love, parceria de Tim Maia e Roger Bruno que integra o único compacto lançado pelo Ideals (a outra canção do disco intitula-se Go Ahead and Cry). New Love seria regravada por Tim em 1973, mas ficou de fora de Nobody Can Live Forever, embora a coletânea privilegie canções em inglês.

A gravação original do Ideals contou com a participação do baterista brasileiro Milton Banana, que estava em Nova York por ocasião do show em homenagem à bossa nova no Carnegie Hall. Outra presença ilustre no disco é o contrabaixista de jazz Don Payne. Bruno ainda guarda um compacto em sua coleção pessoal, mas, possessivo, se recusou a colocá-lo no toca-discos na presença do repórter de VEJA. “Não gostei da gravação”, justifica-se.

Tim Maia entrou para o anedotário brasileiro por causa das inúmeras vezes em que faltou a shows e entrevistas e por se queixar do sistema de som dos locais em que se apresentava. Os pedidos de “mais grave, mais agudo, mais retorno” viraram uma espécie de mantra, que ele repetia com satisfação. Jim ainda não fazia o gênero despachado do folclórico Tim. “Ele estava sempre impecável, com camisa bem passada e sapatos engraxados. Quando alguém desafinava ou errava a harmonia, Jim o fuzilava com os olhos”, lembra Bruno.

Nas ocasiões em que lembrava o período em Tarrytown, Tim falava dos vários “bicos” que fez: entregou pizzas e ajudou a cuidar dos internos de um asilo. Bruno lembra de outra atividade do amigo. “Ele recebia ajuda financeira de umas senhoras mais velhas”, insinua.

Tarrytown tem pouco mais de 11 000 habitantes. Nos anos 60, a cidade abrigava uma cena efervescente de jazz e música negra. A convite de VEJA, Roger Bruno percorreu os locais que frequentava com o amigo brasileiro. Os Ideals ensaiavam numa loja de doces, em frente à delegacia da cidade. Apesar da proximidade dos agentes da lei, o local, controlado por um tipo mafioso, servia como ponto para apostas ilegais.

Hoje a loja virou um restaurante – e de culinária brasileira. A poucos metros dali, na Rua North Washington, encontra-se a Shiloh Baptist Church. Tim Maia passava as tardes sentado na escada, deleitando-se com o canto gospel que vinha de dentro da igreja. Bruno lembra de Jim como um tipo dado a pequenas transgressões: pulava a catraca do trem e furtava comida em supermercados.

No fim de 1963, foi preso juntamente com quatro adolescentes negros em Daytona, na Flórida. Jim ligou para o amigo, pedindo a este que pagasse a fiança. “Eu disse que dessa vez não poderia ajudá-lo. Jim ficou furioso”, diz Bruno. O cantor passou seis meses na prisão antes de ser mandado de volta para o Brasil. Bruno nunca mais soube do amigo.

Certo dia, foi procurado pelo jornalista e crítico Allen Thayer, colaborador da revista “descolada” Wax Poetics, que tentava confirmar se Bruno era mesmo coautor de New Love. “Não sabia que Jim tinha regravado a música. Jamais recebi royalties por ela”, diz. O disco brasileiro que inclui New Love tem também Réu Confesso, que por coincidência trazia Paul e Sheila Smith, um casal de amigos de Roger Bruno, nos vocais de apoio. “Tempos depois, eles me contaram que participaram do disco de um artista brasileiro chamado Tim Maia. Eu nunca imaginei que fosse o Jim.”

Roger Bruno continuou no mundo da música, compondo em parceira com sua mulher, Ellen Dalle. A dupla teve obras gravadas por Cher, Teddy Pendergrass e Pat Benatar, entre outros artistas. De volta ao Brasil, Jim, ou melhor, Tim Maia, tornou-se incomparavelmente maior. O cantor conjugou tudo o que aprendeu da música negra americana com ritmos brasileiros como samba e baião.

Ao mesmo tempo inovadoras e radiofônicas, suas canções (veja uma pequena seleção de pérolas no quadro ao lado) definem e resumem o melhor do pop brasileiro. Nobody Can Live Forever está dando mais notoriedade a Tim Maia nos Estados Unidos, onde ele já era objeto de culto – sobretudo por Tim Maia Racional, seu disco esotérico de 1975. ]

O repertório de Nobody Can Live Forever traz, aliás, várias canções dessa fase, mas ignora hits como Sossego. Não importa: mesmo que cantasse em checheno, Tim Maia seria sempre o grande sedutor de multidões. O disco novo realiza, em parte, um sonho do cantor. “Jim sempre quis estourar nos Estados Unidos como artista pop”, diz Roger Bruno. Não é Jim, Roger: é Tim Maia.

 

TIM ESSENCIAL

As canções de Tim Maia que todos têm de ouvir para poder dizer que viveram

 

 

Coronel Antonio Bento (1970)

A canção composta por Luiz Wanderley e João do Vale aparece no disco de estreia de Tim Maia, lançado em 1970, e traz uma sacolejante mistura do funk e do soul americanos com os brasileiríssimos forró e baião

 

 

 

 

Não quero dinheiro (Só Quero Amar) (1971)

Tim Maia fez sucesso (e dinheiro) encarnando o apaixonado que coloca o amor acima de preocupações materiais. De autoria do próprio intérprete, esta canção dançante já fez parte de shows da cantora Marisa Monte, do grupo Jota Quest e do sertanejo Michel Teló

 

 

Gostava Tanto de Você (1973)

Foi composta por Édson Trindade, companheiro de Tim no grupo Os Tijucanos do Ritmo. O arranjo, com naipe de sopros, define a mistura de soul e samba típica do cantor

 

 

 

 

Rational Culture (1975)

Faz parte da fase mística de Tim Maia, quando ele se filiou à seita Universo em Desencanto. É um funk psicodélico, com mais de doze minutos de duração, no qual o cantor prega as mensagens de sua – vá lá – filosofia. Prince não faria melhor

 

 

 

 

Sossego (1978)

O cantor brasileiro flerta, meio timidamente, com a onda disco. Tem arranjos de Lincoln Olivetti (que dominou as discografias do pop e da MPB na década de 80), instrumental da Banda Black Rio e guitarra de Hyldon, parceiro de Maia. O funk ficou conhecido a ponto de ter um trecho citado, na guitarra, pelo Guns N¿ Roses, durante a apresentação do grupo no Rock in Rio 2001

 

 

 

Nuvens (1982)

Composta em parceria com outro soulman, o cantor e compositor Cassiano, a canção surpreende pela versatilidade do arranjo: embora seja uma faixa soul, encontra-se ali uma forte influência da bossa nova. Lançado pela gravadora Vitória Régia, do próprio Tim, o disco esteve fora de catálogo por anos

 

22/09/2012

às 12:01 \ Música no Blog

Os “nerds” também podem ser “cool”: o sempre inventivo David Byrne e seus (quase) inimitáveis passos de dança

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David Byrne gosta tanto de dançar que chegou a usar um tutu em sua turnê de 2009; esta imagem capta o ex-Talking Heads em ação no Benaroya Hall, em Seattle, em 18 de março daquele ano (Foto: Laura Musselman - lauratakespictures.com)

Por Daniel Setti

Repercutiu bastante na internet esta semana o clipe de “Who”, primeiro single do álbum Love This Giant, que o veterano cantor escocês David Byrne acaba de lançar em parceria com a cantora americana St. Vincent, colaboradora de nomes em alta no indie rock americano, como o multi-instrumentista Sufjan Stevens e a big band The Polyphonic Spree. Assistam:

Além de aspectos notáveis da agradável canção pop em si, como os arranjos de metais e os coros de voz protagonizados pela recém-formada dupla, chamaram a atenção da blogosfera os passos de dança, em alguns momentos coreografados, do ex-Talking Heads e sua nova musa.

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A capa de "Love This Giant", de David Byrne e St. Vincent

Para quem não é familiar com esta faceta de Byrne, vale avisar: trata-se de uma amostra do clássico “estilo Byrne” de bailar, que ele desenvolveu já nos tempos de sua cultuada banda.

E, como a própria música dos “Cabeças Pensantes”, as criações coreográficas de seu líder sempre combinaram toques de estranheza a uma graciosidade espontânea que resultavam em algo bastante cool. Mesmo que os integrantes do grupo – incluindo o longilíneo e desengonçado Byrne – sempre pendessem mais para o estereótipo de nerds do que para qualquer outra coisa.

O balé amalucado do inventivo grisalho estimulou Música no Blog a promover uma rápida viagem no tempo em busca de outros exemplos de seu lado dançarino. Confiram:

1-A partir do minuto 3 de “Girlfriend is Better”, faixa do álbum Speaking in Tongues (1983), Byrne desata seus inconfundíveis e engraçados movimentos de ombro, ressaltados pelo indefectível terno em tamanho três vezes maior que o seu. Vídeo extraído do filme Stop Making Sense (1983), dirigido por Jonathan Demme.

2-No mesmo longa encontra-se “Life During Wartime”, canção do disco Fear of Music (1979), na qual o vocalista coloca toda a banda para trabalhar em uma surpreendente coreografia que parece inspirada em apresentadoras de programas infantis.

3-No clipe de “Road to Nowhere”, música presente no LP Little Creatures (1985), Byrne (que assina a direção ao lado de Stephen R. Johnson) sua também peculiaríssima “dança sem sair do lugar”.

4-Ao vivo em Paris em 2009, tocando “Houses in Motion”, do clássico supremo do Talking Heads, Remain in Light (1980). Música no Blog assistiu a show da mesma turnê em Barcelona e testemunhou estes dotes do astro – e sua interação com vários bailarinos profissionais. Nesta música, ele apenas canta e toca guitarra em meio aos dançarinos até o minuto 5, quando finalmente se junta à coreografia. Cool.

(Mais sobre música neste link)

08/09/2012

às 14:00 \ Livros & Filmes

“Graceland”: reeditado 25 anos depois, um disco genial concebido por Paul Simon monstrando que a música está acima da política

ARTE ACIMA DA POLÍTICA Paul Simon em turnê com músicos sul-africanos: acusação esdrúxula de "colonialismo" (Foto: Ilpo Musto / Rex Features)

ARTE ACIMA DA POLÍTICA -- Paul Simon em turnê com músicos sul-africanos: acusação esdrúxula de "colonialismo" (Foto: Ilpo Musto / Rex Features)

 

Texto de Sérgio Martins publicado na edição impressa de VEJA

 

“Graceland”

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A frase no idioma xhosa resume o espírito de “Graceland”, o clássico de Paul Simon que ganhou reedição especial: “Deus salve a África”

 

Em 1985, em plena vigência do regime racista do apartheid, Paul Simon desembarcou na África do Sul para realizar sessões de gravação com músicos locais. O cantor e compositor americano estava encantado com o mbaqanga, estilo criado nas regiões urbanas do país. O resultado de seus encontros com artistas sul-africanos ganhou o nome de Graceland. O disco, lançado no ano seguinte, deu foco e dignidade ao mais vago rótulo do pop – a world music.

Seu êxito nas paradas permitiu que David Byrne e Peter Gabriel, músicos já envolvidos no cruzamento de sonoridades de vários continentes, lançassem selos de world music. Estranhamente, porém, um trabalho feito em colaboração com artistas africanos que protestavam contra o apartheid foi tido como uma capitulação à infâmia do regime.

Simon, afinal, furou o bloqueio artístico internacional então mantido contra o regime que governava o país, e foi duramente atacado por isso. A edição especial de Graceland chegou em junho às lojas brasileiras, marcando o 25º aniversário do álbum, dissipa esses equívocos. Graceland é um testemunho eloquente de uma convicção de Simon: a música está acima da política.

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Graceland: encontro inspiradíssimo da música do sul dos Estados Unidos com o pop urbano da África do Sul

O disco e sua turnê – da qual participaram grandes artistas africanos, como o celestial grupo vocal Ladysmith Black Mambazo, a cantora Miriam Makeba e o trompetista Hugh Masekela, ambos militantes antiapartheid – serviram também como protesto contra o governo segregacionista. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

20/03/2012

às 12:01 \ Música no Blog

Recém-convertida em disco, parceria de Caetano Veloso e David Byrne vem de longe

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A capa do disco: velhos amigos

 

Por Daniel Setti

Lançado na semana passada, Live at Carnegie Hall, CD que registra show de Caetano Veloso e David Byrne na célebre casa de shows novaiorquina Carnegie Hall em 2004, é o primeiro disco oficial assinado pelos dois músicos. Abaixo, eles dividem os vocais – com a ajuda do violoncelista Jaques Morelenbaum e do percussionista Mauro Refosco – em duas composições de Byrne de seus tempos de Talking Heads, “(Nothing But) Flowers” (em coautoria dos outros integrantes da célebre banda, extinta em 1991) e “Heaven”:

No entanto, o flerte musical e a admiração mútua entre o baiano e o escocês vem desde os anos 1980. A primeira tabelinha foi a versão de “Nothing…” que Caetano cantou em edição do Festival de Jazz de Montreux, na Suíça, pouco depois do lançamento do último álbum dos Talking Heads, Naked (1988), que trazia a canção:

Antigo entusiasta da música brasileira – foi um dos responsáveis pela “descoberta” de Tom Zé pelo público americano ao lançar disco do cantor por eu selo Luaka Bop, em 1992 -, Byrne gravou com Caetano pela primeira vez em 1998.

A música era “Dreamworld: Marco de Canaveses”, composta pela dupla especialmente para Red Hot + Lisbon, uma das coletâneas do projeto Red Hot Benefit, que visava conscientizar sobre a Aids por meio da música:

Seis anos depois, se reencontraram para dividir o palco do Anhembi, em São Paulo, em edição do VMB da MTV, em outubro de 2004. No repertório, ela, sempre ela, “Nothing But Flowers”, que Caetano acabara de incluir em seu álbum A Foreign Sound, dedicado a clássicos compostos em inglês.

Na ocasião, Caetano protagonizou um achaque espontâneo e engraçado. Após duas tentativas frustradas de iniciar a canção em virtude de problemas no som, ele ser irritou com a produção da emissora e mandou o recado (no tempo 1’14” do vídeo): “olha, pessoal da ‘Emetevê’, vergonha na cara! Nós vamos começar de novo, e bota essa p* pra funcionar direito pra gente cantar certo… nessa p*! Respeito!”.

E não é que funcionou? Confiram:

(Leia mais sobre música neste link)

11/10/2011

às 10:05 \ Música no Blog

Tom Zé: 75 anos e uma inesgotável capacidade de surpreender

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Tom Zé se apresenta no Rock in Rio 4: o último dos vanguardistas? (Foto: Marcos Hermes)

Por Daniel Setti

Felizmente para a música brasileira, uma porção considerável de seus grandes nomes continua viva e em atividade: o mito da bossa nova João Gilberto, os ex-tropicalistas Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé, o inclassificável Milton Nascimento, os campeões de audiência Roberto Carlos e Chico Buarque.

Mas destes mestres eternos, qual continua inovando ou surpreendendo em seus últimos trabalhos? Caetano talvez poderia ser citado, por ainda mostrar paciência de se reinventar (a última das suas foi gravar um disco à frente de um trio roqueiro pós-adolescente). Mas só. E nem sempre.

Mais prolífico – sete álbuns na década passada – e mais velho do que todos desta turma (fora João Gilberto), Tom Zé, que completa 75 anos hoje, se sobressai como a verdadeira e confiável exceção.

Além disso, o baiano de Irará é o único dos grandes, a esta altura da vida e da carreira, capaz de soar mais moderno do que nove entre dez vanguardistas recém-chegados, brasileiros ou “gringos”; o único, também, – verdade seja dita – que nunca desfrutou de um sucesso de público à altura de sua importância.

Provavelmente um fato esteja ligado ao outro – os experimentalismos sempre custam a agradar o mainstream -, mas uma audição cuidadosa de seus melhores álbuns – Estudando o Samba (1976) e Com Defeito de Fabricação (1998), por exemplo – ajuda a entender rapidamente porque o seu lugar destaque na herança da MPB é enorme. Foi preciso o ex-Talking Heads David Byrne “descobri-lo” no começo dos anos 1990 para que voltasse a chamar a atenção – e passasse a ser idolatrado lá fora -, mas tudo bem.

A obra de Tom Zé, espalhada por mais de vinte álbuns (entre registros ao vivo e de estúdio), diferencia-se das demais por seus estranhos arranjos. Muitas vezes parece que ele usa as combinações de notas, acordes e ritmos que todos os outros deixam de lado, e o faz de maneira com que seu som seja totalmente inimitável. Quanto às suas letras, costumam ser subestimadas pelos críticos: estão entre as melhores e mais criativas de nossa música.

No vídeo abaixo, extraído do DVD Jogos de Armar (2003), ele toca “Ogodô Ano 2000”, originalmente gravada no álbum The Hips of Tradition (1992).

(Mais sobre música neste link)

 

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