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crescimento econômico

16/03/2013

às 19:00 \ Política & Cia

Rodrigo Constantino, jovem revelação de economista: “Esfolar os ricos em nome de melhorar a vida dos pobres é uma falácia. E a defesa do mercado não deve ser confundida com a defesa dos empresários”

"As estatais são ineficientes porque não precisam obter lucros. Quando há problemas, o governo sempre coloca mais dinheiro" (Foto: Instituto Millenium)

"As estatais são ineficientes porque não precisam obter lucros. Quando há problemas, o governo sempre coloca mais dinheiro" (Foto: Instituto Millenium)

Entrevista concedida a Giuliano Guandalini, publicada em edição impressa de VEJA

CAPITALISTAS BRASILEIROS, UNI-VOS!

Um dos mais produtivos economistas da nova geração aponta as contradições, os riscos e a ineficiência resultantes do aumento da interferência do governo na economia

“Se puserem o governo federal para administrar o Deserto do Saara, em cinco anos faltará areia.” A frase é do economista americano Milton Friedman (1912-2006), ganhador do Nobel de 1976 e o maior expoente do liberalismo nos últimos cinquenta anos.

Essa corrente de pensamento preconiza a abertura econômica dos países e a redução, ao mínimo possível, da interferência do governo no funcionamento dos mercados, favorecendo o investimento privado em um ambiente de competição acirrada. A frase de Friedman serve de epígrafe para o livro Privatize Já, de Rodrigo Constantino, lançado pela editora Leya.

Constantino, de 36 anos, faz parte de uma nova geração de economistas brasileiros que valorizam o pensamento liberal clássico e denunciam o peso excessivo do estado na economia. No livro, ele defende a “agenda esquecida” das privatizações. O economista recebeu VEJA em seu escritório, numa empresa de investimentos, no Rio de Janeiro.

As empresas de celulares estão entre as campeãs de queixas entre os consumidores brasileiros, apesar de serem extremamente rentáveis. Nas estradas privatizadas, as reclamações recaem sobre o valor dos pedágios. Não são sintomas de que a privatização nem sempre funciona?

No fundo, se procurarmos bem, sempre haverá a impressão digital do governo nessas falhas atribuídas ao mercado. No caso dos celulares, há muitas reclamações, em primeiro lugar, por causa do grande aumento no número de usuários depois da privatização do sistema Telebrás. Antes nem adiantava reclamar, porque era um serviço caro e raro.

Reconheço que existem problemas. Mas os impostos arrecadados pelo governo encarecem as tarifas e reduzem os investimentos. O sinal das chamadas é ruim porque faltam antenas, e o grande entrave para ampliar o número de antenas são os governos, que demoram a conceder as licenças de instalação.

As pessoas reclamam do preço do pedágio, porém o que deveria ser objeto de revolta são os milhões arrecadados em impostos, como o IPVA, que não são investidos nas ruas e rodovias.

As privatizações, obviamente, não são uma panaceia se feitas de maneira escusa. Acompanhei o processo de desestatização na Rússia, depois da queda do regime soviético. As privatizações ocorreram sem nenhum arcabouço institucional minimamente decente, sem transparência nas informações. Privatização, assim, não faz milagre.

 

"Para privatizar a Petrobras, precisaríamos ter uma Margaret Thatcher, um estadista disposto a enfrentar os grupos de interesses localizados" (Foto: Petrobras)

"Para privatizar a Petrobras, precisaríamos ter uma Margaret Thatcher, um estadista disposto a enfrentar os grupos de interesses localizados" (Foto: Petrobras)

Se a venda de estatais obteve resultados positivos, por que nenhum político no Brasil defende abertamente a privatização da Petrobras?

As resistências são gigantescas. Para privatizar a Petrobras, precisaríamos ter uma Margaret Thatcher, um estadista disposto a enfrentar os grupos de interesses localizados. Será impossível vender o controle da estatal enquanto imperar a ideia de que seria a “entrega” de um patrimônio público. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

05/03/2013

às 16:00 \ Vasto Mundo

“PIBINHO” DO BRASIL LEVA BAILE ESPETACULAR DO PERU

(Ilustração: american.org)

Pois é, meus amigos. Com toda essa cascata de elogios ao lulalato e seus prodígios, o Peru, outrora miserável e eterno patinho feio da economia da América Latina — quem diria? — , está dando um baile espetacular no nosso país em matéria de desenvolvimento.

Vejam só: contra os miseráveis, raquíticos, quase humilhantes 0,9% de crescimento do nosso Produto Nacional Bruto (PIB) em 2012 — governaço da “gerentona” que tudo sabe, tudo vê, tudo supervisiona e em tudo manda –, o Peru cresceu 6,3%.

Façam as contas: EXATAS SETE VEZES MAIS DO QUE O BRASIL!

Humala: no governo do ex-nacionalista ferrenho, o Peru continuou sendo país seguro para investimentos estrangeiros (Foto: elcomercio.com)

E isso no governo de Ollanta Humala, o coronel da reserva que ostentava perfil ultranacionalista, parecia ser o terror dos mercados e cujo governo, com equilíbrio e sensatez, manteve o Peru como campo fértil e seguro para os investimentos estrangeiros.

Mas, na verdade, o Peru cresce acima de 6% desde 2002! E os salários vêm tendo aumento real anual de 6% a 7%.

A consequência foi que o número de miseráveis — pessoas vivendo com menos de 2 dólares por dia — baixou de espantosos 56% para a metade, 28%, nesse período. Humala promete baixar o percentual para 15% até deixar o governo, em 2015.

As vendas no comércio explodiram em 2012, aumentando 20% em relação ao ano anterior.

Velarde: presidente do Banco Central, respeitado pelos mercados, foi mantido por Humala no cargo (Foto: lamula.pe)

“Isso é apenas o que acontece com qualquer país quando começa a tornar-se mais dinâmico em termos de demanda doméstica por uma classe média emergente que começa a consumir cada vez mais”, diz o presidente do Banco Central do Peru, Julio Velarde, um respeitado economista formado no Peru com estudos complementares na Alemanha e um doutorado na Universidade Brown, nos Estados Unidos.

Ah! Antes que me esqueça: o Banco Central do Peru goza de autonomia, prevista na Constituição.

E a reputação de Velarde junto à comunidade de negócios é tal que, quando o recém-eleito Humala indicou seu nome ao Congresso para continuar por mais quatro anos no posto que já ocupava, a Bolsa de Lima cresceu quase 5% — num dia em que os principais mercados do mundo despencavam — e o índice de risco do Peru, que já era baixo comparado com vários países europeus na faixa de 300 pontos para cima, caiu de 185 para 176 pontos.

04/03/2013

às 20:00 \ Política & Cia

FHC: comparar os governos petistas com os do PSDB chega a ser doentio! Será que não sabem olhar para a frente?

"Não estará o PT repetindo o equívoco, com uma leitura míope do mundo e distorcida do papel do Estado?" (Foto: Helvio Romero / AE)

"Não estará o PT repetindo o equívoco, com uma leitura míope do mundo e distorcida do papel do Estado?" (Foto: Helvio Romero / AE)

Artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo

SEM DISFARCE NEM MIOPIA

As forças governistas, depois de precipitarem a campanha eleitoral, voltaram ao diapasão antigo: comparar os governos petistas com os do PSDB. Chega a ser doentio! Será que não sabem olhar para a frente? As conjunturas mudam. O que é possível fazer numa dada fase muitas vezes não pode ser feito em outra; políticas podem e devem ser aperfeiçoadas.

Porém, na lógica infantil prevalecente, em lugar de se perguntar o que mudou no País em cada governo, em que direção e com qual velocidade, fazem-se comparações sem sentido e imagina-se que tudo começou do zero no primeiro dia do governo Lula.

Na cartilha de exaltação aos dez anos do PT no poder, com capa ao estilo realismo socialista e Dilma e Lula retratados como duas faces de uma mesma criatura, a História é reescrita para fazer as estatísticas falarem o que aos donos do poder interessa. Nada de novo sob o sol: é só lembrar dos museus soviéticos que borravam nas fotos os rostos dos ex-companheiros caídos em desgraça…

Governo mostra miopia estratégica quanto ao futuro

O PSDB não deve entrar nessa armadilha. É melhor olhar para a frente e deixar as picuinhas para quem gosta delas.

Quanto ao futuro, o governo está demonstrando miopia estratégica.

Depois de quatro anos iniciais de consolidação da herança bendita, a política econômica teve de reagir ao violento impacto da crise de 2007/2008. Foi necessário, sem demora, expandir o gasto público, desonerar setores produtivos, ampliar o crédito por intermédio dos bancos públicos, etc.

Em situações extraordinárias, medidas extraordinárias. Mas o cachimbo foi entortando a boca: a discricionariedade governamental tornou-se a regra desde então.

Com isso, a credibilidade do Banco Central foi posta em xeque, a transparência das contas públicas também. Cresceram as dúvidas sobre a inflação futura e sobre o compromisso do governo com a responsabilidade fiscal.

Não há que exagerar na crítica: por ora, o trem não descarrilou.

A máquina governamental está enguiçada

Mas as balizas que asseguraram crescimento com estabilidade – câmbio flutuante, metas inflacionárias e responsabilidade fiscal -, mesmo ainda em pé, se tornam cada vez mais referências longínquas.

A máquina governamental está enguiçada, como o próprio governo sente, e sua incapacidade para consertá-la é preocupante. Os expedientes utilizados até agora com o propósito de acelerar o crescimento deram em quase nada (o pibinho).

Na ânsia de acelerar a economia, o governo beijou a cruz e apelou para as concessões (portos, aeroportos, estradas) e mesmo privatizações (de partes da distribuição energética). Mas a viseira ideológica, o hábito de se fecharem pequenos grupos, a precariedade gerencial não permitem dar efetividade a decisões que ferem o coração de suas crenças arcaicas.

Enquanto a China puxar as exportações de matérias-primas e de alimentos, tudo se vai arranjando.

Mesmo assim, a produção industrial torna-se menos competitiva e perde importância relativa no processo produtivo.

A balança comercial já deixou de ser folgada, mas com o financiamento estrangeiro as contas vão fechando.

"Na cartilha de exaltação aos dez anos do PT no poder, com capa ao estilo realismo socialista e Dilma e Lula retratados como duas faces de uma mesma criatura, a História é reescrita para fazer as estatísticas falarem o que aos donos do poder interessa"

"Na cartilha de exaltação aos dez anos do PT no poder, com capa ao estilo realismo socialista e Dilma e Lula retratados como duas faces de uma mesma criatura, a História é reescrita para fazer as estatísticas falarem o que aos donos do poder interessa"

No curto prazo, tudo bem. Em prazo mais longo, volta a preocupar o fantasma da “vulnerabilidade externa”.

Já se veem no horizonte sinais de retomada na economia mundial.

Não me refiro a uma incerta recuperação do emprego e do equilíbrio fiscal, este em alguns países da Europa, aquele nos Estados Unidos. Refiro-me ao que Schumpeter salientava para explicar a natureza do crescimento econômico, uma onda de inovações.

Provavelmente serão os Estados Unidos que capitanearão a nova investida capitalista mundial. O gás de xisto e os novos métodos de extração de petróleo tornarão aquele país a grande potência energética. Junto com ele, Canadá, México, Argentina e Brasil podem ter um lugar ao sol. De ser isso verdade, uma nova geopolítica se desenha, com, por um lado, um polo chinês-asiático e outro americano.

Perguntas que é preciso fazer

Isso num contexto político e cultural que não aceita hegemonias, no qual, portanto, a multiplicidade de polos e subpolos requer uma nova institucionalidade global.

Diante disso, como ficará o Brasil: pendendo para a Alba (Aliança Bolivariana para as Américas), de inspiração chavista?

À margem da nova aliança atlântica proposta pelos Estados Unidos que, por agora, contempla apenas a América do Norte e a Europa?

Iremos fortalecer nossos laços como mundo árabe longínquo, ou este terminará por se aconchegar na dupla formada pela China e pela Índia, ambos países carentes de energia?

E como nos situaremos na dinâmica da nova fase do capitalismo global?

Ao que eu saiba, ela continuará dependendo do aumento contínuo de produtividade para assegurar as bases do bem-estar social (que não será decorrência automática disso, mas de políticas adequadas).

Como, então, querer acelerar o crescimento utilizando truques e maquiagens, do tipo subsídios tópicos, exceções de impostos setoriais, salvamento de empresas via hospital BNDES ou Caixa Econômica?

Na época do Real, o PT queria dar o calote na dívida externa

Quando o PSDB fez o Plano Real, percebeu as oportunidades que se abriam para o Brasil com a globalização, desde que ajustássemos a economia e iniciássemos políticas de inclusão social. Na época o PT não entendeu do que se tratava.

Queria dar o calote da dívida externa e sustentava o inadequado programa Fome Zero, que jamais saiu do papel.

Foram as bolsas que o PSDB introduziu que salvaram o PT quando este, tardiamente, se deu conta de que era melhor fazer uma política de transferência direta de rendas. Em geral, aferrou-se à ideia de que a globalização seria uma ideologia – o neoliberalismo -, e não a maneira contemporânea de organizar a produção com base em novas tecnologias e novas normas.

Não estará o PT repetindo o equívoco, com uma leitura míope do mundo e distorcida do papel do Estado? A resposta cabe ao governo.

Ao PSDB cumpre oferecer a sua visão alternativa e um programa contemporâneo que amplie as possibilidades de realização pessoal e coletiva dos brasileiros.

Sem esquecer o passado, mas com os olhos no futuro.

21/02/2013

às 20:15 \ Política & Cia

Aécio aponta 13 fracassos do governo petista. Dá para discordar?

A VOZ DA OPOSIÇÃO -- Aécio discursa no Senado: "O Brasil parou" (Foto: Pedro França / Ag. Senado)

A VOZ DA OPOSIÇÃO -- Aécio discursa no Senado: "O Brasil parou" (Foto: Pedro França / Ag. Senado)

Amigas e amigos do blog, com seu discurso de ontem em que criticou severamente o governo e o petismo, o senador Aécio Neves (PSDB-MG) parece ter iniciado uma fase de atuação mais enérgica como oposicionista, deixando de lado sua preferência pelo trabalho de bastidores e pondo a cabeça para fora, tal como manda o figurino de um provável candidato à Presidência em 2014.

Publico abaixo, reproduzindo um resumo do jornal O Globo, os 13 pontos em que Aécio acha que o governo petista naufragou. Concordo com todos, e oportunamente acrescentarei outras razões de crítica ao lulopetismo, no poder há 10 anos.

Publicado hoje no jornal O Globo

AÉCIO APONTA ’13 FRACASSOS’ DO GOVERNO PETISTA

1 . CRESCIMENTO ECONÔMICO

“Tivemos um biênio perdido, com o PIB per capita avançando minúsculo 1%. Superamos em crescimento na região apenas o Paraguai.”

2. PAC DO MARKETING

 ”O problema da infraestrutura permanece intocado. As condições de rodovias, portos e aeroportos nos empurram para as piores colocações dos rankings de competitividade.”

3. INDÚSTRIA SUCATEADA

“O setor industrial (…) praticamente não tem gerado empregos. Agora começa a desempregar.”

4. INFLAÇÃO

“O PT nunca valorizou a estabilidade da moeda. Na oposição, combateu o Plano Real. O resultado hoje é inflação alta, com baixíssimo crescimento.”

5. PERDA DA CREDIBILIDADE

“A má gestão econômica obrigou o PT a manobras contábeis que estão jogando por terra a credibilidade fiscal duramente conquistada.”

6. ESTATAIS

“A Petrobras teve perda no seu valor de mercado. Como o PT conseguiu destruir as finanças da maior empresa brasileira em tão pouco tempo e de forma tão nefasta? ”

7. O ETERNO PAÍS DO FUTURO

“(O PT) Anunciou em 2006, com as mãos sujas de óleo, que éramos autossuficientes na produção de petróleo e combustíveis. Pouco tempo depois, não apenas somos importadores de derivados como compramos etanol dos Estados Unidos.”

8. AUSÊNCIA DE PLANEJAMENTO

“No ano passado, especialistas apontavam que o governo Dilma foi salvo do racionamento de energia pelo péssimo desempenho da economia, mas o risco permanece.”

9. DESMANTELAMENTO DA FEDERAÇÃO

“O governo adota uma prática perversa que visa fragilizar estados e municípios.”

10. FLAGELO DAS DROGAS

“Um dos efeitos mais nefastos dessa omissão (na segurança) é a expansão do consumo de crack.”

11. SAÚDE / EDUCAÇÃO 

“As grandes conquistas na Saúde continuam sendo as do governo do PSDB: Saúde da Família, genéricos, combate à Aids. O governo herdou a universalização do ensino fundamental, mas foi incapaz de elevar o nível da qualidade em sala de aula.”

12. INTOLERÂNCIA

“Setores do PT tratam adversário como inimigo a ser abatido. Tentam, e já tentaram cercear a liberdade de imprensa.”

13. DEFESA DOS MALFEITOS

 ”Não falta quem chegue a defender em praça pública a prática de ilegalidades sob a ótica de que os fins justificam os meios”

26/11/2012

às 18:01 \ Política & Cia

Com crescimento ridículo da economia em seu governo — o pior desde COLLOR –, Dilma deveria ter pudor de “dar lições” aos europeus

Neste segundo ano de mandato de Dilma, o crescimento do PIB será de pífios 1,5% (Foto: Fabio Pozzebom / Agência Brasil)

Vem acontecendo com frequência, e, para espanto de quem conhece os números do Brasil, plateias e jornalistas europeus continuam rendendo homenagens à excelente governança da presidente Dilma Rousseff, que não se furta de dar lições aos governos europeus de como sair da crise.

Ainda esses dias o jornal madrilenho El País, sempre basbaque com o que é oriundo do lulopetismo, ofereceu generosa parcela de sua primeira página a uma entrevista em que a presidente puxava a orelha dos líderes europeus por centrarem seus esforços contra a crise na austeridade fiscal, aconselhando-os a deixar portas para investimentos públicos produtivos — e por aí vai.

Dilma, felizmente, não tem a arrogância sem limites de seu antecessor, Lula, que despejava falatórios perante qualquer audiência, e não limitava suas “lições” a como lidar com a economia — mas incursionava por terrenos movediços, aos quais era (como é) completamente alheio, tal como sua ridícula tentativa de “resolver” a questão da nuclearização militar do Irã.

De todo modo, a presidente poderia reservar-se diante da autocrítica ao contemplar a extremamente medíocre obra que deixa, até agora, como saldo na economia.

Vejam só o que publica o site de VEJA:

A presidente Dilma Rousseff deverá encerrar os dois primeiros anos de seu mandato com a segunda pior média de crescimento da história recente do Brasil, só perdendo para o período Collor.

No biênio 2011-2012, o crescimento médio anual do Produto Interno Bruto (PIB) nacional deverá ser da ordem de 2,1%, considerando uma expansão de 1,52% prevista para este ano pela mediana do mercado financeiro na pesquisa do Boletim Focus, do Banco Central (BC).

Nos dois primeiros anos do primeiro e do segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, essa média foi de, respectivamente, 3,4% e 5,6%, e nos de Fernando Henrique Cardoso, de 3,2% e 2,3%.

Já no primeiro biênio de Fernando Collor de Mello, ficou em 0,25%.

Economistas alertam para o risco de 2013 piorar o prognóstico, caso o governo não mude o foco da política de crescimento – hoje baseada no aumento do consumo e que deve passar a incentivar mais o investimento e melhorar a produtividade.

Para continuar lendo, clique aqui.

30/09/2012

às 18:00 \ Política & Cia

Carlos Brickmann: O tamanho da marolinha

Indústria Automobilística -- 6 grandes marcas anunciaram investimentos no Brasil. Ia, mas não foi.

Indústria Automobilística -- 6 grandes marcas anunciaram investimentos no Brasil. Ia, mas não foi.

O TAMANHO DA MAROLINHA

José Dirceu informa que o crescimento da atividade econômica já começa a ser comprovado por pesquisas e indicadores divulgados nos últimos dias. Mas não é bem assim: o aumento do PIB, previsto pelo Banco Central, é de 1,6%, menor que o aumento da população. É menos renda para cada brasileiro.

Não é de espantar: só na área automobilística, seis empresas que anunciaram a construção de fábricas no país mudaram de planos. A GM e a Peugeot-Citroën construiriam uma fábrica conjunta. Desistiram. A BMW, que vive anunciando novos projetos (o último era uma fábrica de motores no Paraná), prometeu escolher o local de sua fábrica brasileira em fevereiro – de 2012. Até agora, nada.

A JAC, chinesa, cujos carros são anunciados por Fausto Silva (do lado de fora: nenhum dos anúncios o mostra sentado no banco), investiria R$ 900 milhões em Camaçari, na Bahia, criando 3.500 empregos e produzindo 100 mil carros por ano. Isso, naturalmente, se a fábrica fosse erguida – mas não foi.

A Jaguar Land-Rover, da gigante indiana Tata Motors, iria produzir no país, iniciando a construção de sua fábrica em janeiro último. Desistiu porque, a seu ver, a política brasileira para a produção de automóveis é pouco clara.

A Great Wall, chinesa, declarou-se impressionada com o mercado brasileiro e anunciou investimentos para produzir seus carros aqui. E, como as outras, também desistiu silenciosamente do projeto. Aliás, todas as empresas fizeram barulho ao anunciar fábricas, mas quando desistiram só se ouviu o som do silêncio.

Alô, Aloízio

O novo sistema operacional da Apple está dando problemas tremendos – de alto consumo de bateria a mapas mais cheios de erros do que pesquisa eleitoral. Deve ser efeito das mudanças causadas pela produção no Brasil. Conforme garantiu o então ministro Aloízio Mercadante (e, portanto, não aconteceu), os chineses investiriam US$ 12 bilhões em cinco fábricas no país.

Não eram US$ 12 bilhões, nem o dinheiro era deles: era nosso, do BNDES.

Mas não faz mal, porque o investimento não foi mesmo feito. Como não houve investimento, nem fábricas, o novo sistema operacional vive falhando. Já Mercadante aproveitou e mudou de cargo.

Não ficaria bem para ele revogar mais uma promessa irrevogável.

22/07/2012

às 17:00 \ Vasto Mundo

Entrevista boa para ler num dia como hoje: as ideias de um dos governantes-chaves do mundo, o primeiro-ministro da Itália, Mario Monti

Mario Monti: "As reformas econômicas já deveriam ter sido feitas há muito tempo" (Foto: Sipa Press)

Mario Monti: "As reformas econômicas já deveriam ter sido feitas há muito tempo" (Foto: Sipa Press)

 

(Entrevista a Tatiana Gianini, publicada na edição impressa de VEJA)

 

Mario Monti

A SOLIDARIEDADE CONTRA A CRISE

 

O primeiro-ministro italiano defende a ideia de que a União Europeia emita títulos de dívida para financiar projetos que estimulem o crescimento econômico de seus Estados-membros

Em novembro passado, o economista Mario Monti, de 69 anos, recebeu do presidente Giorgio Napolitano a incumbência de substituir Silvio Berlusconi como primeiro-ministro da Itália. Era, e ainda é, uma missão árdua. Até maio de 2013, ele tem de reavivar a terceira maior economia da zona do euro, politicamente desacreditada, mergulhada numa recessão grave, fortemente endividada e pouco competitiva.

A aprovação popular da gestão de Monti, que já foi de 71%, caiu para 34% no mês passado, depois de reformas que incluíram o aumento de impostos e da idade para a aposentadoria.

Ex-comissário de Concorrência da União Europeia (UE) [os comissários são como se fossem ministros da União Europeia, ao todo 27, o mesmo número de países integrantes], Monti nunca disputou um cargo político e renunciou ao salário de chefe de governo para dar o exemplo de austeridade que quer imprimir à Itália.

[Sua atuação à frente do governo da Itália, sem concessões à demagogia e sem o temor de propor e adotar medidas duras, e o papel que vem cumprindo entre os principais líderes da União Europeia o transformaram em um dos governantes mais importantes do mundo.]

Ele respondeu às perguntas de VEJA em um momento em que ainda existe pessimismo no mercado em relação à capacidade da Itália de honrar sua dívida.

 

O senhor tem apenas um ano para completar as reformas destinadas a recuperar a economia da Itália. Será o bastante?

A situação macroeconômica da Itália é absolutamente saudável. A dívida pública é elevada, é verdade, mas as empresas e as famílias italianas têm finanças equilibradas. O endividamento do estado deve começar a diminuir no próximo ano, quando esperamos alcançar o equilíbrio no orçamento. O déficit orçamentário em 2011 foi de 3,9%, e o objetivo para 2012 é chegar a 1,7%. Se excluirmos os juros da dívida, a Itália terá um superávit primário (quando a arrecadação supera os gastos antes de pagar os juros da dívida pública) positivo de 3,6% já neste ano.

 

Como é possível classificar a situação macroeconômica da Itália de “absolutamente saudável” se o PIB do país registrou queda nos últimos três trimestres?

Crescimento e fundamentos macro­econômicos são duas coisas diferentes. A economia está em recessão porque no segundo semestre de 2011 a Itália implementou correções orçamentárias que somaram 80 bilhões de euros em aumentos de impostos e redução de despesas. Ao falar da situação macroeconômica, eu me referia aos fundamentos econômicos. Estes estão em ordem, pois o déficit orçamentário neste ano deverá ser a metade da média da UE. Nosso sistema financeiro é saudável e a taxa de desemprego, embora ainda esteja elevada, na casa dos 10%, está um pouco abaixo da média da zona do euro, de 11%. Esses índices são uma conse­quência, essencialmente, da forte recessão de 2009, que afetou a todos.

 

A zona do euro aprovou um pacote de 100 bilhões de euros para resgatar o sistema financeiro da Espanha. Considerando que os juros da dívida italiana são quase tão altos quanto os da espanhola, qual é o risco de seu país também precisar de socorro externo?

Não me parece aconselhável especular sobre esse tipo de cenário, pois isso apenas aumenta o nervosismo, já grande, dos mercados. Reitero, aqui, o que disse sobre os fundamentos econômicos. O único desequilíbrio na Itália diz respeito ao nível da dívida pública. Sobre isso devemos falar para conter o nervosismo dos mercados, que aumenta os custos do refinanciamento do estado.

 

O que sua gestão está fazendo para reduzir a dívida pública?

Uma das prioridades é a luta contra a evasão fiscal, que rendeu 12,7 bilhões de euros aos cofres públicos em 2011 e deverá proporcionar um valor ainda maior neste ano. Além da redução da dívida, as maiores atenções do meu governo são dirigidas às reformas estruturais. A da previdência, iniciada em dezembro de 2011, permitiu elevar a sustentabilidade das contas públicas com o aumento progressivo da idade para a aposentadoria até os 67 anos.

Igualmente importantes são as reformas para aumentar a competitividade da economia, o que inclui flexibilizar os horários de funcionamento do comércio, liberar a venda de determinados medicamentos e permitir aos postos de gasolina ampliar a oferta de produtos em suas lojas de conveniência, entre outras medidas para aquecer a atividade econômica e impulsionar a criação de empregos.

O setor de energia e o transporte ferroviário também serão submetidos a uma maior concorrência. A administração pública, por sua vez, está sendo modernizada, com o objetivo de reduzir o tempo e o dinheiro gastos pelas famílias e pelas empresas com a burocracia. Todos os documentos de registro civil, como as certidões de nascimento, agora são feitos pela internet.

 

A Itália começou a perder competitividade econômica antes mesmo de a atual crise se instalar. Por quê?

O grande problema da Itália é seu fraco potencial de crescimento. As empresas italianas até que se defendem bem, pois detêm uma tradição de produtos belos, bons e benfeitos em inúmeros setores, como os de artigos de luxo, de equipamentos para o lar e de máquinas. Muitas das medidas adotadas por mim nos últimos seis meses e das que estão por vir visam a criar condições mais favoráveis para o investimento estrangeiro, por meio de uma administração pública mais moderna, uma justiça mais rápida e um mercado de trabalho mais flexível e propício ao aumento de produtividade.

 

Loja italiana Prada: artigos de luxo em alta (Foto: Getty Images)

Loja italiana Prada: tradição em artigos de luxo (Foto: Getty Images)

 

As grandes decisões da União Europeia nos últimos anos estiveram nas mãos da Alemanha e da França. Como a Itália pode conquistar mais voz na política europeia?

A França e a Alemanha têm um papel especial na UE, pois quase sempre foram protagonistas das guerras sangrentas que laceraram a Europa nos últimos séculos. Como membro fundador da UE, a terceira maior economia da zona do euro e a segunda potência manufatureira depois da Alemanha, a Itália também ocupa uma posição de destaque na região. Reforçar nossa atuação política no âmbito regional é uma das minhas prioridades. Trata-se, de um lado, de encontrar um equilíbrio entre a consolidação das contas públicas e a necessidade de promover o crescimento e, de outro lado, de criar as bases para uma união econômica e monetária mais sólida, responsável e solidária.

 

Como solucionar o endividamento e a estagnação econômica dos países da zona do euro?

Para voltarem a crescer, é necessário que os países-membros ajam de forma coordenada e cumpram suas obrigações, cientes de que a margem de manobra é maior para uns do que para outros. Para os que têm dívidas elevadas ou foram atingidos fortemente pela crise, por causa dos riscos excessivos assumidos por bancos superdimensionados ou das bolhas imobiliárias, a prioridade é pôr em ordem as contas públicas. Também são necessárias reformas para aumentar a competitividade, a flexibilidade e o dinamismo de nossas economias.

A UE pode e deve ajudar cada um de seus membros a sair da recessão, porque esta acaba por afetar o bloco como um todo, se não a própria economia global. Espero que o Conselho Europeu (que reúne todos os governantes dos estados-membros da União Europeia), que se encontrará nos dias 28 e 29 de junho, dê impulso ao aumento de capital do Banco Europeu de Investimento ou à emissão de títulos europeus (eurobonds) para o financiamento de projetos que estimulem o crescimento. Espero, também, que o Conselho seja mais benévolo com o investimento produtivo ao fazer a avaliação das contas públicas dos países.

 

Podemos confiar em uma saída breve para a atual situação europeia?

A crise na zona do euro encontra-se em fase de solução. Não é nada fácil pôr em acordo dezessete países, e menos ainda todos os 27 que integram a UE. Mesmo assim, os sócios europeus têm dado provas de uma extraordinária solidariedade uns para com os outros durante essa crise, que teve origem, inicialmente, nos Estados Unidos. A dívida pública acabou por revelar as fragilidades do euro, tão logo desapareceu a confiança dos mercados. A solução definitiva passa pelo aperfeiçoamento da integração entre os países da zona do euro, assim como das demais nações da UE que almejam adotar a moeda comum, e do contrato que os une. Só com maior confiança entre os estados-membros será possível avançar em direção a uma solidariedade ainda maior, com a criação dos títulos da dívida europeia.

 

Tem sido politicamente árduo convencer os italianos a aceitar apertos como o aumento da idade de aposentadoria no país?

Os italianos deram prova de grande maturidade e responsabilidade durante essa crise. Em novembro de 2011, quando o presidente Napolitano me pediu para comandar o novo governo, a Itália estava à beira do abismo, após a crise da zona do euro ter se propagado por outros países.

O aumento da idade de aposentadoria é visto como necessário em todos os países europeus, pois a expectativa de vida aumentou muito nas últimas décadas. Na Itália, é de 82 anos, uma das mais altas no mundo. A reforma italiana é uma das mais avançadas, na medida em que a idade da aposentadoria passa a ser vinculada à expectativa de vida. Sem essa mudança, as gerações futuras não teriam garantia de sustento digno no fim de sua carreira.

Os italianos têm consciência da seriedade do contexto externo e de que as reformas econômicas já deveriam ter sido feitas há muito tempo. O número de greves tem sido bastante reduzido. Dito isso, é claro que, a esta altura, gostariam de começar a ver o fruto de seus esforços e sacrifícios, principalmente em relação à estabilização da situação na zona do euro, às taxas de juros pagas pelo estado quando refinancia a sua dívida, ao crescimento econômico e ao emprego.

 

O primeiro-ministro Mario Monti com o papa Benedito XVI: taxação inédita dos imóveis da igreja (Foto: mwnews.it)

O primeiro-ministro Mario Monti com o papa Benedito XVI: taxação inédita dos imóveis da igreja (Foto: mwnews.it)

A Igreja italiana terá de pagar imposto sobre suas atividades comerciais. Por que decidiu acabar com esse privilégio ampliado por seu antecessor, Silvio Berlusconi?

A isenção que beneficiava as entidades eclesiásticas era motivo de queixa da Comissão Europeia fazia vários anos, sob a alegação de concorrência desleal. Essa situação precisava mudar. Tratava-se de repartir o esforço dos italianos para enfrentar a crise.

 

Qual é a sua avaliação do governo da presidente Dilma Rousseff para as relações entre o Brasil e a Itália?

Nossos países possuem uma relação bilateral tradicionalmente estreita e caracte­rizada por intensas e crescentes relações econômicas, como atesta a presença de mais de 700 empresas italianas no Brasil. Saúdo a recente orientação do Brasil de querer reunir novamente o Conselho Bilateral de Cooperação, órgão consultivo que deveria funcionar uma vez por ano, ora na Itália, ora no Brasil, o que não vinha ocorrendo fazia mais ou menos dois anos. Nossa parceria vai muito além da agenda bilateral. O Brasil é um importante parceiro da UE, com a qual reforçou a cooperação na educação, na cultura, na indústria e nos transportes, e em questões de interesse mundial, como o desenvolvimento sustentável e as mudanças climáticas.

 

O senhor, que nunca disputou uma eleição, foi designado para o cargo por sua reputação como tecnocrata. Como está sendo a experiência de governar a Itália?

Trata-se de uma tarefa desgastante, mas fascinante, para a qual fui chamado por um período limitado. Procuro desempenhá-la da melhor maneira e com senso de responsabilidade, tendo sempre em mente o interesse geral, principalmente dos jovens e das gerações futuras. Nunca digo que devemos fazer algo, como reduzir a dívida pública, porque a UE o exige. Ao contrário, procuro explicar que as contas públicas em ordem e as reformas estruturais nos tornarão mais fortes e nos permitirão criar mais e melhores empregos.

 

O senhor disse que o campeonato italiano de futebol deveria ser suspenso por dois ou três anos, por causa do escândalo de compra de resultados de jogos por apostadores. A medida resolveria o problema?

Foi um desabafo. Não sou político, e isso às vezes fica claro nas minhas declarações.

 

Sua intenção é continuar na política depois de deixar o cargo, em 2013?

Não.

19/07/2012

às 20:03 \ Política & Cia

FHC em entrevista: governo Dilma tem DNA diferente do de Lula — se é que este tinha algum DNA

"Não vamos ignorar que o governo da presidente Dilma é mais voluntarioso na sua relação com o mercado" (Foto: Gilberto Tadday)

FHC: "No vento a favor, Lula cuidou do consumo, não da produção, do investimento" (Foto: Gilberto Tadday)

(Entrevista feita por André Petry, de Washington, publicada nas Páginas Amarelas da edição de VEJA que está nas bancas. O título original está abaixo.)

 

Mas onde foi parar o debate?

 

Honrado com um prêmio equivalente a um Nobel, o ex-presidente diz que o Brasil continua no rumo, mas reclama da apatia social e da falta de discussão política

Com seu proverbial bom humor, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso contou a uma plateia de 200 pessoas em Washington que só não aceitou ficar nos Estados Unidos nos anos 70, quando dava aulas no país, porque o convite não incluía uma cadeira de senador. “No Brasil, concorro e ganho”, brincou. Voltou e ganhou a cadeira. Aos 81 anos, FHC cumpriu uma carreira brilhante, que lhe rendeu, na semana passada, o prêmio Kluge, concedido pela Biblioteca do Congresso americano.

Equivalente a um Nobel na área de humanas, o prêmio vem com um cheque de 1 milhão de dólares, que ele pretende partilhar com os netos para ensinar-lhes a fazer ação social. Depois da premiação, em seu hotel na capital americana, ele falou do mundo e do Brasil na entrevista a seguir.

 

No exterior, até o ano passado o Brasil era uma estrela mundial, o país do futuro ao qual o futuro finalmente chegou. Agora, deu uma virada. Houve exagero antes ou agora?

Houve exagero tanto antes quanto agora. O Brasil melhorou muito, mas não foi tanto assim. Faltou a percepção de que o PIB cresceu mas a sociedade continua com problemas. Não somos uma sociedade organizada, com democracia enraizada, acesso à educação e à saúde de boa qualidade. O mundo começou a olhar para o Brasil como se tudo estivesse resolvido. O exagero não se deu apenas em relação ao Brasil. Fiz uma visita recente à China, e lá eles fazem questão de insistir que são um país em desenvolvimento. Olhe que a China é o segundo PIB do mundo. Mas, efetivamente, é um país em desenvolvimento. Como o Brasil.

 

A mudança da percepção externa sobre o Brasil não é fruto do ativismo econômico do governo atual?

A mudança começou quando apareceram alguns sinais de que talvez o Brasil fosse se desviar do caminho anterior, com as intervenções tópicas do governo na economia. Depois, a balança comercial deixou de ser tão favorável. O sujeito que tem bilhões de dólares investidos no Brasil começa a ficar com receio. Mas a situação não é tão negativa quanto está sendo pintada. O governo tem obrigação de se ajustar à conjuntura. A economia política é política por um lado, mas não é propriamente ciência por outro.

É uma navegação. Se tem uma ilha, desvia-se. Sem tem tormenta, reduz-se a velocidade. Só não pode perder o rumo. Agora, não vamos ignorar que o governo da presidente Dilma é mais voluntarioso no que diz respeito à sua relação com o mercado. É o comando do Estado sobre o mercado, mas não é estatista. Tanto que acabou de fazer a concessão dos aeroportos.

O que se percebe é que o DNA do governo atual é outro. O presidente Lula procurava disfarçar o seu DNA, se é que o tinha. A presidente Dilma é mais consequente com aquilo em que ela acredita. E ela acredita mais na regulação.

 

DNA Governo Dilma (Foto: Agência Brasil)

"A presidente Dilma é mais consequente com aquilo em que ela acredita. E ela acredita mais na regulação" - por parte do Estado (Foto: Wilson Dias/ABr)

 

Há risco de o Brasil perder o rumo?

Não acredito. Falaram muito por causa da mudança cambial, mas é bobagem. Eu mesmo mexi no câmbio várias vezes. Já demiti presidente do Banco Central. O perigo está na tendência ao protecionismo. A Argentina tem tendência protecionista abertamente. O Brasil também, mas é topicamente. O protecionismo seria ruim para nós. Temos de aumentar a produtividade para poder baixar os preços e assim beneficiar a todos. Mas, quando se fecha o mercado, reduz-se a competição e, ao fazê-lo, reduz-se também o incentivo para as pessoas aumentarem a produtividade. Com o tempo, fica-se defasado. Nada disso é do interesse do Brasil.

 

Para manter o rumo, qual deve ser a prioridade do Brasil nos próximos anos?

O vento no mundo não sopra mais a nosso favor. Então, o desafio do governo da presidente Dilma é retomar algumas reformas e fazer o que o governo do presidente Lula não fez durante o bom momento do crescimento econômico, que é cuidar do investimento e da poupança. No vento a favor, Lula cuidou do consumo, não da produção, do investimento.

A produtividade da nossa indústria perdeu em comparação com a de outros países. Mas não é a produtividade de dentro da fábrica. É de fora. São as estradas, o custo da energia, os aeroportos, o sistema tributário, a educação. Mais do que a possibilidade, a presidente Dilma tem a necessidade de olhar para a poupança e o investimento. Nosso futuro está aí.

 

A crise no capitalismo ocidental está ajudando a tornar o capitalismo de Estado da China mais atraente?

Há muita insatisfação social nos países ocidentais e, daí, há um fascínio com o que se imagina que seja o outro lado. Mas a China tem um modelo complicado. Ali, deu-se a aliança do capitalismo de estado com as grandes corporações internacionais. O preço é menos liberdade. Não é um caminho para o Brasil. Nós somos mais ocidentalizados, estamos acostumados à liberdade. E PIB não é tudo. Nos anos 70, nosso PIB cresceu muito mas as pessoas não foram beneficiadas. Havia concentração de renda. Monopólios, públicos ou privados, concentram renda. Só ter grandes empresas concentra renda. É o perigo do Brasil de hoje.

Mais do que a possibilidade, a presidente Dilma tem a necessidade de olhar para a poupança e o investimento. Nosso futuro está aí (Foto: stock.XCHNG)

"Mais do que a possibilidade, a presidente Dilma tem a necessidade de olhar para a poupança e o investimento. Nosso futuro está aí" (Foto: stock.XCHNG)

 

Mas o Brasil não vive um processo de desconcentração de renda?

A transferência de renda saudável é para baixo, mas também temos a transferência para cima. O BNDES pega dinheiro do Tesouro e empresta a empresas com juros subsidiados. Quem paga o subsídio? Nós, os contribuintes. Dá cerca de 20 bilhões de dólares. A Bolsa Empresa está forte no Brasil. É provável que na década de 70, com grandes estatizações e grandes empresas, a renda tenha se concentrado. Agora, não será igual porque temos os dois movimentos: concentração para cima e desconcentração para baixo. O Brasil hoje é o país da Bolsa Família e da Bolsa Empresa, o que resultou na felicidade geral. Daí o apoio ao governo.

 

Isso é ruim?

Primeiro, a felicidade é quase geral. A classe média ficou de fora. Mas, com a prosperidade das bolsas, as pessoas perderam a motivação para debater. Não há mais debate. O debate político-partidário perdeu sua centralidade. Não é um fenômeno só brasileiro. A Europa vive isso, os EUA também, mas com menor intensidade. No nosso caso, isso decorre da desconexão entre o mundo institucional da política e a sociedade. Passou a haver uma relação direta do Executivo com o povo, pulando o Congresso. É uma tendência brasileira antiga, mas se acentuou. Toda hora dizem que não temos oposição no Brasil. Está errado. A oposição está dentro do Congresso, só que o Congresso não tem repercussão na rua. Os partidos saíram da sociedade e se aninharam no Congresso ou no governo. O partido com mais vínculo com o movimento social era o PT.

Com o PT no governo, o movimento social virou cadeia de transmissão da vontade oficial. Perdeu vitalidade. O debate se deslocou para a mídia. É por isso que o governo acusa a mídia de ser oposição. Porque é a única instituição que fala e o povo ouve.

 

Como os partidos podem voltar a se reconectar com a sociedade?

Eles precisam tomar posição diante dos fatos correntes. Como têm medo de assumir posições, os partidos não falam nada. Legalização das drogas? Silêncio. Aborto? Silêncio. Relação do estado com a religião? Silêncio. Qual a melhor maneira de resolver a questão do transporte? Silêncio. São questões do cotidiano. Questões que levariam a população a se identificar com os partidos. A própria sociedade civil, antes vibrante e ativa, se encolheu. Sempre digo: se você não politiza, não acontece nada. Veja o mensalão. Se Roberto Jefferson não tivesse dramatizado e politizado, talvez o caso não tivesse a consequência que teve. Política requer que se tome partido, que se tome posição. Tem de dizer se está certo ou se está errado. A política é valorativa.

 

O ex-deputado Roberto Jefferson, presidente do PTB, foi indiciado por crime de formação de quadrilha

Veja o mensalão. Se Roberto Jefferson não tivesse dramatizado e politizado, talvez o caso não tivesse a consequência que teve (Foto: VEJA.com)

Se o debate político perdeu vigor no Brasil, mas também na Europa e nos EUA, pode-se falar em crise da democracia?

Fala-se nisso, mas não concordo. Ninguém quer não democracia. Mas é preciso ter um mecanismo pelo qual a população possa participar do processo decisório. Do debate, do antes. Só consegui fazer reformas porque houve muito debate e discussão. Agora, não. Quem debateu as quatro usinas da Petrobras? Quem debateu o trem-bala?

 

Se os réus do mensalão forem absolvidos pelo Supremo Tribunal, qual será o tamanho do desastre?

Não sou juiz e não sei qual deve ser a sentença. O que sei é que, se houver algo a ser corrigido, e for, será um marco histórico. Até hoje, o povo sente que gente importante pode fazer o que quiser e não paga o preço. Uma absolvição, se for percebida como algo por baixo do pano, vai referendar isso. É um julgamento histórico porque uma sociedade se forma de símbolos. Quando Lula foi eleito, preparei a transição mais civilizada possível. Entre outras razões, porque Lula era o primeiro líder popular sindical eleito presidente. Simbolicamente, é importante.

 

Faltou diplomacia brasileira na crise que resultou no afastamento do presidente do Paraguai?

Faltou diplomacia, mas não só brasileira. De todo mundo. Se eu pudesse ter interferido, aconselharia evitar o afastamento faltando dez meses para o fim do governo. A ação do Paraguai foi muito rápida, o que é politicamente inconveniente, mas não foi ilegal. Agora, grave também foi a entrada da Venezuela no Mercosul na ausência do Paraguai. Sou a favor da Venezuela no Mercosul. Mas ela tinha de ter cumprido o requisito básico de adotar a tarifa externa comum.

 

O Brasil está perdendo o foco na América do Sul ou perdendo influência?

Está perdendo influência. Antes, tínhamos uma influência não discutida, automática e não anunciada. No meu governo, houve várias crises no Paraguai. Lidamos com elas de maneira efetiva e discreta. O Peru e o Equador estavam em guerra. Ajudei muito na paz entre esses países, mas nunca anunciei isso. Agora, com Hugo Chávez na Venezuela, criou-se outro polo de influência. Tenho a impressão de que o Brasil prefere não se contrapor. É como se fôssemos da mesma família. Sei que ele é meu primo, meu primo é meio canhoto, eu preferia que ele não fosse, mas é meu primo. O Brasil fica um pouco tolhido de tomar posições para não ser percebido como alguém que saiu da família.

 

Há analistas dizendo que a relação entre estado e mercado será definida pelo que os Brics fizerem. O senhor concorda?

Ninguém vai transformar a Europa numa China, ou vice-versa. É preciso entender que há diversidade na cultura, na forma de organização política. A Rússia é uma plutocracia autocrática. Isso não se aplica ao Brasil, à Índia nem à China. A China é um mandarinato ilustrado com responsabilidade popular. Na minha visita ao país, fiquei bem impressionado com o debate na universidade. Eles estão voltando a falar em termos confucianos da virtude. O funcionário público, o mandarim, deve ser competente, fazer concurso e ter a virtude de servir o público. Na Rússia, não tem isso. No Brasil, o estado sempre foi muito importante, continua sendo e sempre será. Há diferenças. Nos EUA, fala-se em universalizar a saúde e eles entram em pânico. No Brasil, quem vai dizer que saúde gratuita é medida socialista? Não teremos um modelo só no mundo. Haverá vários. Os países árabes, islâmicos, não vão adotar comportamentos idênticos aos do Ocidente. Isso é ilusão do ocidentalismo e seu poder militar, que vinha para impor a cultura. Isso não dá mais. O desafio é como conviver com as diferenças.

 

China em desenvolvimento (Daniel Berehulak/Getty Images)

A China é um mandarinato ilustrado com responsabilidade popular. (Daniel Berehulak/Getty Images)

O que seguirá unindo o mundo?

A noção de direitos humanos está voltando a ter peso. Sem perceber, estamos recriando a ideia de humanidade. Quando Hegel falava de humanidade, Marx dizia que, enquanto houvesse classe social, seria a classe. Só quando todos fossem iguais, poderíamos falar em humanidade. Agora, por causa da bomba atômica, do meio ambiente, é preciso pensar em humanidade. Gorbachev diz isso. Temos de pensar no conjunto, no que é universal e afeta a todos. Voltamos a ter de nos preocupar com os direitos que pertencem à humanidade. Temas como igualdade de homem e mulher, como tortura. O mundo terá de se organizar a partir de um núcleo de valores que afetem a humanidade, mas há que ter limite. Não podemos usar isso para impedir manifestações de diversidades culturais que são normais. Inclusive na política. O próprio mercado, hoje praticamente universal, sofre restrições diferentes aqui e ali. Vai continuar sofrendo. Esse é o desafio para o século XXI.

16/07/2012

às 18:00 \ Política & Cia

Carlos Alberto Sardenberg: Dilma está errada. Economia não é adivinhação

Dilma, economista, erra ao falar de crescimento e inflação (Foto: Antonio Cruz / ABr)

Dilma, economista, erra ao falar de crescimento e inflação como adivinhação (Foto: Antonio Cruz / ABr)

Por Carlos Alberto Sardenbergpublicado hoje no jornal O Estado de S.Paulo

NÃO É ADIVINHAÇÃO

Em 17 de março de 2011, em entrevista ao jornal Valor Econômico, a presidente Dilma Rousseff sustentou que a economia brasileira tinha todas as condições de chegar ao final daquele ano com crescimento entre 4,5% e 5% e inflação contida na meta de 4,5%. Quando a jornalista Claudia Safatle observou que, fora do governo, se esperava resultado bem diferente, para pior nos dois quesitos, Dilma respondeu com uma frase de Delfim Netto:

– Não existe uma lei divina que diz que a taxa de crescimento será de 3% e que a inflação será de 6%. Eu acho que isso é adivinhação.

Curiosa a crítica da presidente. Aquele era um dos chamados “cenários de mercado”, construídos com base em teoria econômica, claro, não em leis naturais. Ao desclassificar essa projeção – “é adivinhação” – Dilma, uma economista, necessariamente desclassificou seu próprio cenário, igualmente baseado em doutrina econômica.

Dirão: mas são teorias diferentes. Certo, mas não foi essa a crítica de Dilma. Ela desconsiderou a prática da previsão econômica. Como não há leis divinas (ou naturais) regulando a atividade econômica, uma ação dos homens, sempre mutável, não há como antecipar os fatos, tal a argumentação.

Faz sentido. É o contrário do que acontece na natureza. Aqui, a ciência consegue formular as leis que regem os fenômenos, sempre da mesma maneira. E até revela a realidade, como mais uma vez se demonstrou com o encontro do “bóson de Higgs”. Cinquenta anos atrás, o cientista Peter Higgs chegou à conclusão que essa partícula elementar existia e deveria aparecer em tal circunstância. Mas não havia aparelhos – sequer computadores! – para encontrar a coisa. Agora acharam, ali mesmo onde deveria estar.

Dilma estava errada, e o mercado, certo

Já a economista e presidente Dilma foi menos feliz. Ao rejeitar a tese de que as variáveis econômicas de 2011 já estavam praticamente dadas e que seria possível crescer mais, com menos inflação, afirmou: “depende da gente…vamos mostrar”.

Logo, não se tratava exatamente de uma antecipação científica, mas de um ato de fé. “Tenho certeza de que o Brasil vai crescer entre 4,5% e 5% neste ano (de 2011)”, declarou em outro momento da entrevista.

Resumindo: a presidente recusou, então, as previsões “supostamente” teóricas e colocou em seu lugar sua determinação e sua confiança na capacidade do governo. E dela.

Como sabem os leitores, Dilma estava errada e o mercado, certo. O Brasil cresceu apenas 2,7%, com inflação de 6,5%, no limite do teto da banda, e ainda assim um resultado, digamos, martelado.

Seria então aquele pensamento econômico, o crítico, tão firme quanto a física de Higgs? Certamente não. Todo mundo tem na cabeça uma fileira de erros de análises e previsões. Teria sido então pura sorte? Adivinhação? Também não.

Bóson de Higgs, ou a partícula de Deus: a simulação mostra a partícula sendo captada pelo detector CMU no Grande Colisor de Hádrons (Foto: CERN / Divulgação)

Bóson de Higgs, ou a partícula de Deus: a simulação mostra a partícula sendo captada pelo detector CMU no Grande Colisor de Hádrons (Foto: CERN / Divulgação)

A ciência econômica trata de comportamentos humanos, pessoas tomando a decisão de colocar o dinheiro na poupança ou torrar no shopping. Dá para saber muita coisa olhando para o passado e examinando como as pessoas se comportaram em tal e qual situação. Sim, as situações nunca se repetem igualzinho, mas são ao menos semelhantes. » Clique para continuar lendo e deixe seu comentário

26/06/2012

às 15:00 \ Tema Livre

Crise? Que crise? A indústria da guerra continua à toda. Veja só

Ilustração: FreakingNews.com

Crise do euro? Queda do crescimento econômico? Desemprego?

Que nada. A indústria de armamentos continua à toda, como acaba de comprovar a Eurosatory 2012, encerrada no dia 15 em Paris, que se proclama “a maior feira de armamentos do mundo”.

Com a participação de indústrias de todas as partes do mundo e milhares de produtos expostos — desde blindados de última geração fabricados pelos Emirados Árabes Unidos até mísseis russos, metralhadoras checas, tanques norte-americanos, aviões-espiões israelenses e tudo o mais que se possa imaginar –, os números da Eurosatory 2012 — 11ª versão do evento, que é bienal — dizem tudo: foi a versão da feira com maior número de empresas (1.400), com mais visitantes (55 mil) e maior área de esposições (144 mil metros quadrados).

 

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